Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

Ana Flavia Cavalcanti nunca parou de se perguntar: o que tem lá na frente?

16 de junho de 20261h2min
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A atriz Ana Flavia Cavalcanti cresceu entre o trabalho doméstico, a escassez e a responsabilidade precoce. Filha de uma faxineira, começou a trabalhar ainda criança e saiu de casa aos 14 anos. Mas havia uma pergunta que insistia em acompanhá-la: o que mais existia além daquele horizonte?

Na conversa com Vera Iaconelli, fala sobre infância, maternidade, desejo e imaginação. Conta como a curiosidade a levou ao teatro, transformou sua trajetória e acabou abrindo caminhos não só para ela, mas também para sua mãe. 

Ouça “Como ser mãe?” na Audible, nova audiossérie de Vera Iaconelli, com roteiro de Andrea Del Fuego e direção e produção da Trovão Mídia: https://www.audible.com.br/pd/Como-ser-mae-Audiolivro/B0GZ133PLQ

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Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
A

Ana Flavia Cavalcanti

ConvidadoAtriz
Assuntos5
  • Adolescência e a Busca por AutonomiaMudança para Atibaia e a vida na periferia · O nascimento do irmão Beto e o ciúmes · Primeiro namoro com Isabel e a saída de casa aos 14 anos · Estudo no supletivo e a importância da educação · A descoberta da sexualidade e a relação com a mãe
  • A Virada para a Arte e a Vida em São PauloTrabalho em salão de cabeleireiro e a descoberta da dança · Alex Moreno e a introdução ao teatro · Mudança para São Paulo e a moradia com a avó · Testes de publicidade e o pagamento da escola de teatro · A importância do teatro para o desenvolvimento pessoal
  • A Trajetória Profissional e a Relação com a FamíliaTrabalho como técnica em enfermagem e a insatisfação · A peça 'Conforto' e a participação da mãe · A condição da trabalhadora doméstica e a remuneração · A importância de sonhar e de se reinventar · A família hoje: sobrinhos e a mãe como atriz
  • Infância e padrões familiaresDiadema e as condições precárias · Valdecir (Val) e Nelson · Separação dos pais e a mudança para Atibaia · Apoio do centro espírita para a compra da casa · Trabalho doméstico e a responsabilidade precoce
  • Maternidade, Desejo e ImaginaçãoA maternidade como desejo e responsabilidade · A imaginação como ferramenta de transformação · O papel da curiosidade na trajetória de vida · A relação entre mãe e filha
Transcrição146 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

Ana Flavia Cavalcanti:Trovão Mídia.

Vera Iaconelli:Oi, eu sou a Véria Conelly e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. Olhar para a família pode ser um desafio. Porque é no familiar que muitas vezes a gente se depara com o que há de estranho em nós. Mas é a partir dessa complexidade, dessa estranheza, que a gente reconhece o que quer deixar para trás e o que quer levar adiante. Por isso, a cada semana eu escuto uma nova história de família longe do ideal, com uma pessoa que topa abrir essa intimidade comigo. Hoje eu recebo a atriz Ana Flávia Cavalcanti, a filha da Valdecir do Nelson, a irmã da Nathalie e do César Augusto, a tia da Manuela, da Lorena e do Henrique. O episódio de hoje tem o apoio da Audible, o maior serviço de audiolivros e audioséries do mundo, da Amazon. Como Ana Flávia Cavalcanti vai demonstrar de certa forma aqui, poucas relações são tão intensas e marcantes como as que se estabelecem entre mãe e filha. Em Como Ser Mãe, uma audiosérie original da Audible que eu apresento, a gente tem um episódio que fala só sobre isso e mais outros 7 episódios que convidam o ouvinte a um mergulho nessa experiência tão transformadora que é a maternidade. Vem ouvir Como Ser Mãe e outros ótimos conteúdos na Audible. Dá para testar gratuitamente por 30 dias ou por 3 meses se você for membro Amazon Prime. O link está aqui na descrição do episódio. Como Ser Mãe é uma audiosérie original Audible que nasceu da vontade de falar sobre a maternidade para além dos clichês. Lá eu junto cenas ficcionais escritas pela Andrea del Fuego com reflexões que eu espero ajudar quem ouve a navegar essa viagem que é ser mãe. Bem-vinda, Ana Flávia.

Ana Flavia Cavalcanti:Ô, Vera, obrigada. Tô muito feliz de estar aqui. Queria muito, muito, muito vir conversar com você e é tão bom, né, quando as coisas dão certo assim.

Vera Iaconelli:Muito bom, muito bom a gente se ver presencialmente e poder conversar. Sim. Então, a gente sempre começa com uma pergunta que é: qual a tua referência de família? Qual que é a tua história de família?

Ana Flavia Cavalcanti:É, a minha história de família começa quando eu acho que quando eu nasço, né? Quando eu nasci em 82. Eu nasci em Diadema, Eldorado, Diadema, filha da Valdecir e do Nelson. Engraçado que a minha mãe, ela se chama Valdecir com W, mas ela nunca gostou. Então hoje ela é Val Cavalcante com V. Ela sempre achou que esse é um nome unissex, né? Então ela achava que era mais masculino que feminino. Então ela nunca curtiu muito esse nome. Então eu sou filha da Val com o Nelson, os meus pais se conheceram, minha mãe conta que ele tava levando um botijão de gás. Ela sempre foi uma pessoa muito ativa, é uma pessoa muito ativa, uma ariana assim, bem doida. Hoje ela se autodenomina Ariangel, mas às vezes ela é Satanás. E aí ela, assim, condições muito precárias de saída de vida, sem grana, tentando ali ganhar uma grana, um dinheiro, ela abriu uma portinha no muro e começou a vender salgadinho. E faltou gás, o meu pai levou o gás. Aí eles se conheceram, eles começaram a namorar. E casaram, ficaram juntos. Um casamento de se juntar, né. Nunca casaram oficialmente. E a minha mãe tinha muita vontade de ter filho. Ela me teve com 27 anos. O que pra época, ela disse que era já meio uma idade mais velha, né. As amigas, as primas já tinham tido filhos e tal. Então ela, muito se sentindo só também, ela conta. Ela disse que um dia olhou pro tempo, assim, e pediu pra Deus um filho. Ela falou: "Ai, eu quero um filho, porque eu quero uma coisa que seja minha, sabe". Que aconteça o que aconteça. Quem nascer vai estar comigo, pode brigar, pode dar tudo errado, mas é meu, é minha. E aí eu nasci. Então eu acho que nesse sentido eu fui feita e fui desejada pelos meus pais com muito afinco assim, sabe? Foi um momento bem bonito na vida da minha mãe quando eu nasci, ela conta. E aí eu acho que ela deve ter tido, Vera, uma espécie de, talvez uma depressão pós-parto, uma coisa assim, sabe? E se afastou um pouco desse lugar da esposa. Com meu pai. E aí meu pai conheceu outra mulher que se chama Rosa. Nas minhas fantasias de pessoa, já pensei, nossa, de certa forma ele trocava Aldecir pela Rosa, sabe assim, que um pouco cruel também, já pensando nessa história do nome, né. Rosa tem esse nome de rosa, enfim. Mas não foi uma pessoa muito, ah, uma pessoa muito generosa não conosco, sabe. A Rosa, claro que a responsabilidade sempre vai ser do pai, da pessoa que tem a relação, que tem os filhos, né. Eu penso assim até eu sou hoje. Mas a gente sabe que dentro de uma relação a gente pode ajudar o outro, pode propor, pode se mostrar mais aberta. Então acho que ela não queria muito a nossa presença. E a minha mãe em seguida engravidou da minha irmã. Bem nesse momento que ele começou a ter essa amante, ela engravidou dele, dele, dele, da segunda filha, que é a minha irmã Nátaly. E aí realmente as coisas já não estavam muito bem e eles se separaram e ele foi embora. E a minha mãe ficou grávida. Da minha irmã de 7 meses e eu tinha 2 anos de idade. Então foi um momento muito difícil pra ela. E eles moravam perto, assim, eles moravam em Eldorado, a gente morava ali. Então eles se separaram, mas eles iam e vinham. E a minha mãe disse que um dia eu contei pra ela, que eu falei pra ela assim: "Ah, você reclama do meu pai, mas você é pior que ele, porque você aceita ele de volta". Eu achei que... Não sei se eu falei uma coisa dessa com aquela idade, sabe? Mas ela conta que sim.

Vera Iaconelli:Que idade você teria?

Ana Flavia Cavalcanti:Ah, eu acho que eu devia ter uns 5 pra 6, assim.

Vera Iaconelli:E mandei essa real, falei: "Nossa, bem como você." Bom, 5 para 6 é o auge do ciúmes edípico, né? Tipo, poderia ser isso, uma questão moral, mas poderia ser também: "Pô, deixa esse cara pra lá e fica comigo." Olha pra mim, né?

Ana Flavia Cavalcanti:E aí que a gente foi embora em Atibaia, Vera. A minha mãe tomou duas atitudes que eu considero que foram muito definidoras e marcantes nas nossas histórias. Mas eu tô falando também sobre mim aqui nesse momento, na minha vida, com certeza. Porque a gente morava lá numa comunidade, uma favela bem perigosa, anos 80, assim. Diadema tinha o maior índice de homicídios do Brasil. Então era bem barra pesada mesmo, sabe? E ela se muda pra Atibaia, pra uma cidade do interior, pequena. Na tentativa de tocar uma vida nova, recomeçar. Mas também, acho que foi uma última cartada dela, assim. Pensando que ele talvez viesse. Porque nós nos mudamos nós três. Eu, a minha mãe e a minha irmã. Eu tinha 7, a minha irmã tinha 5. Então a gente foi pra uma cidade que a gente não conhecia ninguém. Foi uma grande loucura, mas por outro lado também...

Vera Iaconelli:Por que essa cidade especificamente? Tinha algum contato?

Ana Flavia Cavalcanti:Alguma... Tinha. A minha tia Ivani tinha uma cunhada lá. Então a gente foi um dia passear. E a minha mãe, com essa... Nesse ímpeto ariano dela, ela também é uma pessoa que tomou decisões assim... De um jeito muito rápido e definitivo, sabe? Então a gente foi passear. A gente passou um fim de semana, voltamos pra Diadema. Ela botou uma placa de vende-se na segunda, vendeu a casa na quarta. Uau! E no sábado, nós nos mudamos. Então foi tipo assim, papum. E aí, a gente caiu nessa cidade, que a gente não conhecia ninguém. E minha mãe só tinha metade do dinheiro da casa. Aí a gente ficou morando na casa com a dona da casa. Era uma casa de 2 cômodos. Então ela ficou num cômodo, a gente em outro. E a gente dividia o mesmo banheiro. E aí, dali 30 dias, meu pai disse: "Eu te dou a outra metade". E dali 30 dias ele não apareceu. Então a mulher falou: "Olha, eu vou sair da casa e vou vender essa outra metade pra uma pessoa X lá." E era um cara, um homem. E a gente ficava em casa sozinha pra minha mãe trabalhar, ela tinha muita preocupação com tudo que pode acontecer assim, duas crianças e um cara na mesma casa. Ela ficou meio desesperada e nessa época ela era kardecista, hoje ela é umbandista. Ela foi num centro espírita da cidade e fez uma entrevista, porque tem essa prática nos centros espíritas que eu acho que é uma coisa muito boa, que é uma espécie de terapia popular, né? Você vai, faz uma consulta, recebe ali um tratamento espiritual, tantos passes.

Vera Iaconelli:Cuidado, né? Uma atenção muito legal, sabe?

Ana Flavia Cavalcanti:Você também ter esse espaço de fala, de ser ouvido, e depois de receber também um caminho, né? E ela foi fazer essa entrevista e eles se comoveram, uma coisa muito de sorte assim dela, e eles decidiram dar o dinheiro para ela pagar a metade da casa com a condição de que ela pagasse da única maneira que ela podia pagar, que era fazendo sopa. Minha mãe foi faxineira a vida toda, né? E cozinheira. Faxineira, sempre trabalhou assim nesses serviços. Ela era diarista, fazia faxina por dia, porque ela sempre gostou também de um dinheirinho na mão, assim. Ela achava que rendia mais. E ganha mais mesmo, em relação a mensalista, né? Mas ela não podia trabalhar todos os dias, porque senão a gente não ia ter o que comer. Porque ela trabalhava pra pagar a dívida. Então ela trabalhava 3 dias na semana, segunda, quarta e sexta. E terça e quinta ela fazia faxina. E assim a gente foi, cresci em Atibaia, cheguei lá com 7. E passei toda a minha primeira infância, adolescência, até os 18. Eu morei em Atibaia. E com 14 eu comecei a namorar. Tive a minha primeira namorada, Isabel. E tava um pouco cansada, eu acho, Vera, daquela condição. Do interior? Do interior ainda não. Do interior eu fiquei cansada mais pra frente, com 18, assim. Mas acho que eu tava cansada da escassez, da pobreza mesmo, sabe? Da falta de ônibus, porque daí a gente fez uma segunda mudança já em Atibaia, que hoje eu olho e considero também como uma excelente decisão da minha mãe. A gente morava numa comunidade que se chama Caetetuba, que era assim, era uma periferia, tinha lá tudo que tem numa favela, numa periferia, mas era bem tranquilo, sabe? Era uma cidadezinha do interior. De repente mudou nos anos 90, assim, né? Eu acho que a facção mudou, sabe? A criminalidade ficou mais profissional, digamos, Então ficou mais perigoso. Aí teve uma chacina na frente da nossa casa. E a gente ficava sozinha em casa, né.

Vera Iaconelli:Três mulheres, né.

Ana Flavia Cavalcanti:Três mulheres. Minha mãe teve um filho depois, quando eu tinha 12 anos, ela engravidou. O que pra mim foi um terror, velho. Eu quase morri de ciúmes. Eu acho que eu não sou muito ciumenta hoje na vida porque eu gastei o meu ciúmes todo ali. Eu quase morri de ciúmes. Minha mãe apareceu grávida um dia, a gente tava vendo TV, assim. Ela tava no meio, eu e a minha irmã do lado penteando o cabelo dela. A gente brincava com o corpo dela muito, assim. Aí ela sempre muito magrinha, de repente uma barriguinha redonda. Aí eu dei uns soquinhos assim na barriga. Aí ela falou: "Não, não faz isso, tem um irmãozinho aqui". Eu disse assim: "Quê?

Vera Iaconelli:Você já era grandinha, você tinha 12?" Irmãozinho, ah...

Ana Flavia Cavalcanti:Mas eu nunca tinha visto a minha mãe dar um beijo na boca, sabe? Nunca aconteceu essa situação na minha casa. Ela sempre foi a nossa mãe. Abriu mesmo mão, eu acho, ou não se interessou por outros relacionamentos depois da relação que ela teve com meu pai.

Vera Iaconelli:Ou relacionamentos que ela levasse pra dentro de casa. Não quer dizer que ela não tinha relacionamentos, mas ela não trouxe pra dentro de casa nenhum homem.

Ana Flavia Cavalcanti:É, não mesmo, né? Porque ela apareceu já grávida.

Vera Iaconelli:Sim, mas aí você descobriu que tinha relação com outras pessoas, só que não na tua presença.

Ana Flavia Cavalcanti:É, nunca uma pessoa ali com a gente. Mas ela sim se apaixonou por esse cara, o Beto, que é o pai do meu irmão. E aí, do nada, 12 anos depois, eu tinha 12, a minha irmã tinha 10, outro neném, um monte de fraldinha, que era fraldinha de pano que ela usava nele, né. E aí que ela me entregou também essa criança, assim. Eu cuidei da minha irmã muito e aos 12 fui mãe do meu irmão, porque ela ficou, sei lá, 3 meses em casa e depois já voltou a fazer faxina, sabe. E aí nós nos tornamos uma família de 4, né.

Vera Iaconelli:Como é que foi cuidar desse irmão que te gerou tanto ciúmes?

Ana Flavia Cavalcanti:Ai, Vera, vou te falar que eu fiquei sem falar com a minha mãe mesmo 9 meses. Eu fiquei. Eu lembro que um dia tinha uma festa na escola, eu escolhi usar um vestido, um longuete que fechava atrás por zíper assim. Eu não tinha quem fechasse, no meio das costas a minha mão não chegava, sabe? E aí eu tive que pedir para ela fechar para mim o meu vestido, porque eu não tava falando com ela mesmo. Aí às vezes eu tava deitada dormindo, ela deitava comigo de conchinha assim, encostava a barriga em mim, sabe? Acho que para ver se eu me comovia bravinha, né? Daí eu afastava assim, bem bravinha. Aí no dia que ela veio do hospital com meu irmão, com a minha avó, elas estavam com muito medo de me dar ele no colo assim, eu jogar ele longe, sei lá. Aí elas fizeram uma contenção meio que na hora que eu peguei ele, me apaixonei na hora. Olha, na hora, na hora, na hora, na hora, foi muito forte assim, muito lindo, muito pequenininho. E ela disse que sempre quis um menino, e teve duas meninas. Então quando ela veio com aquele exame, ultrassom, que fala o sexo do bebê, a minha irmã apareceu gritando: "É menino! É menino!" E eu assim, mais puta ainda, né. Porque era um menino que ela tanto queria. E não aconteceu nada disso. Quando eu vi ele, assim, eu me apaixonei. Ele foi um filho mesmo pra mim. Eu cuidei dele de todos os jeitos, assim. Até bem pouco tempo atrás. Quer dizer, bem pouco não, porque ele já é um homem. Tem 30 e poucos. Filhos, mas ele sempre esteve no meu radar assim de o irmão mais novo, né, sabe, o caçula também. Então foi muito gostoso.

Vera Iaconelli:Mas é tão interessante isso porque tem uma, tem uma nova volta na adolescência em relação a essa cena edípica, né, de tipo: mamãe é só minha, o papai é só meu, não quero que vocês fiquem juntos. A criança pequena verbaliza isso muito rapidamente, mas é só namoradinho da mamãe, do papai. Tem esse jogo de ciúmes nesse comecinho, né, quando a criança saca que a mãe e o pai tem uma coisa que ela participa. Aí quando chega na adolescência, que você tá começando a se menstruar, você vai começar a se interessar por meninos e meninas, tem de novo, aparece essa questão dos pais, né, que já tem uma sexualidade, já viveram, e pode ser muito difícil. A gente fala: "Mas agora que ela tá maiorzinha..." Não, mas é justamente porque ela tá num outro momento, né, da entrada da adolescência, na qual tá tudo em questão, e esse pai e essa mãe que a gente quer que já sejam velhos assim, que não tenham, que estejam fechados pro amor, de repente aparece grávida, né? É um negócio complicado na adolescência, às vezes dá mais mais ciúmes do que se fosse com, sei lá, 7, 8 anos.

Ana Flavia Cavalcanti:Pequenininha, né?

Vera Iaconelli:É engraçado essa, porque tem uma virada na adolescência, né? De você se tornar uma mulher e esperar que o pai e a mãe se tornem velhos e ultrapassados. De repente ela dá uma nova rodada de filhos, né?

Ana Flavia Cavalcanti:É, e eu fui descobrindo aos poucos que também essa relação que ela teve começou meio estranha assim, sabe? Um cara que tinha uma família que disse que tá separando, que não tem. Isso atravessou muito a minha história. De saída desse meu pai que tem uma amante, vai embora com a amante, abandona a gente. Eu achei que, de certa forma, ali a minha mãe também foi um pouco parecida com o meu pai ou com a Rosa.

Vera Iaconelli:E tem o moralismo do adolescente, né? Adolescente, ele quer aquela coisa garantida, certinha. Ele pode fazer o que ele quiser, mas o pai e a mãe de algum jeito tem que— E talvez você tenha realmente se fiado nesse lugar. Meu pai fez aquilo, mas a minha mãe não fez. A minha mãe não faria, ela era vítima, né? De repente ela fica do outro lado da história, né?

Ana Flavia Cavalcanti:É, e querendo também, eu acho, essa presença dessa mãe, né? Porque eu fiquei pouco com a minha mãe na vida. Hoje em dia a gente tem ficado mais juntas, lado a lado, se tendo em momentos com uma presença de qualidade do que no começo da vida. Ela sempre trabalhou muito, né?

Vera Iaconelli:Então vocês ficavam com quem? A gente ficava sozinha, uma cuidava da outra. Você cuidava já da sua irmã?

Ana Flavia Cavalcanti:A minha mãe me disse assim, com 6 anos, ela falou: vem aqui que eu vou te ensinar a fazer arroz. Arroz. E aí ela botou um banquinho, e aí eu fiz arroz. E eu adorei a água, quando bota água, começa a ferver. E aí ela falou: agora você prova para ver se tá bom de sal. E eu provei tudo, eu fui provando, provando, até que quase secou a água. Ela falou: não, não pode. Então assim, com 6 anos é isso, eu tava trabalhando, né, nesse trabalho da casa, cuidando de mim e de outra pessoa, e mexendo no fogo, fazendo coisas que os adultos fazem. Então, e é uma tônica na periferia, né.

Vera Iaconelli:Mas para você Era uma coisa até então natural, que as outras crianças também faziam.

Ana Flavia Cavalcanti:É, não era natural no pensamento, talvez assim na vivência eu visse situações...

Vera Iaconelli:Que não era só você, que era assim que funcionava.

Ana Flavia Cavalcanti:E mesmo na hora que eu aprendi, eu também não achei uma coisa fora do normal.

Vera Iaconelli:Tava naturalizada essa ideia de que então você tem que cuidar do irmão e é isso que funciona, assim que funciona.

Ana Flavia Cavalcanti:É assim que é. Eu fui pensar nessas coisas mais velha, né, que eu fui me dando conta de como que foi a minha saída, minha primeira infância, quais foram as obrigações que eu já fui tendo eu desde pequena, porque a minha mãe tava provavelmente cuidando de outras crianças, sim, de outras pessoas. Então ela dizia para mim assim: "Cuida da sua irmã." Não era nem "cuida de você", é "cuida da sua irmã". Mas de mim, né, tá implícito, se eu não cuidar de mim, sim. Então tava sempre preocupada ou com a minha irmã ou com ela. E eu percebo que nesse momento das nossas vidas eu fui meio que a mãe da minha família, e a minha mãe e o pai. E hoje talvez a gente tem invertido um pouco. Pouco, por conta da situação da minha vida profissional, a virada que eu dei, o caminho que eu percorri. Então hoje talvez eu não ocupo o lugar de um pai, mas eu acho que eu sou a pessoa que tem mais, um pouco mais de estrutura financeira mesmo, falando daí, né, não outras estruturas, porque é bem subjetivo. Sim, mas ali naquele momento eu percebi isso. E com 8 anos, uma vizinha bateu na porta de casa de noite, assim, tava passando o Jornal Nacional, E ela falou: "Val, eu não tenho ninguém pra olhar meu neném." Ela tinha acabado de ter neném, velho. "E eu tô precisando de alguém pra cuidar dele." E aí minha mãe me olhou assim, e ela sempre falou muito com o olhar. Do tipo: "Você vai? Será que você vai ou vai?" E aí eu falei: "Tá bom, eu posso ir cuidar dele." Então foi o meu primeiro trabalho.

Vera Iaconelli:Ah, ela te chamou pra trabalhar já remunerado.

Ana Flavia Cavalcanti:Sim, aos 8 anos. E ela me entregou um recém-nascido, mais novinho que o que a minha mãe me entregou anos depois, quando eu fiz 12.

Vera Iaconelli:E foi uma loucura porque eu era uma criança cuidando de outra criança de 8 anos, cuidando de um bebê recém-nascido, recém-nascido, para essa mulher poder trabalhar.

Ana Flavia Cavalcanti:E ele chorava, velho, chorava muito. Ele tinha muita cólica, muita saudade dela. E eu acho que ele chorava também porque ele tomava mamadeira, sim, então não devia fazer bem para o intestino dele. E eu com aquele neném, e eu cuidei dele um tempão assim, eu acho que um ano, quase um ano, o tempo todo que ela tava Trabalhando todos os dias.

Vera Iaconelli:Aí tua irmã já tinha assumido algumas funções em casa também?

Ana Flavia Cavalcanti:É, a gente separava. Eu cuidava da sala e do quarto, e ela da cozinha e do banheiro, na arrumação da casa, né? E aí uma vez por semana, no final de semana, minha mãe fazia uma faxinona, a gente ajudava e tudo, lavava roupa. Aí a minha irmã já cuidava das partes dela, e eu ficava com essa criança até a mãe dele chegar. E ela chegava assim, eu estudava, ficava com ele, ficava com ele, estudava, e aí ela chegava.

Vera Iaconelli:E nesse esquema todo vocês conseguiram seguir a escola? Ia até escola, que também é uma outra conversa, né? Ia até escola, proximidade da escola, fazer lição. Como é que era a experiência na escola?

Ana Flavia Cavalcanti:Ai, na escola foi bom para mim, assim, eu gostava muito de estudar, era muito boa aluna, bem comportada, sempre fui bem comportada. Depois que despiroquei um pouco, mas não falou seu signo. Eu sou Leão e você?

Vera Iaconelli:Peixes, mas eu não sei nada de signo. Mas como você falou da sua mãe, tô pensando, o que que será que é Leão? Porque você é comportada, você tem um jeito super doce, uma voz deliciosa. Que que é Leão? Ah, Leão, eu acho que Ela é um pouco de um furor, assim.

Ana Flavia Cavalcanti:Não é tão calma, não. Mas a gente se dá bem enquanto signos, assim. Leão com Áries costuma dar certo. Os fogos costumam dar certo, assim. Mas eu era boa aluna, eu gostava de ir pra escola. Eu fazia tudo certinho, eu tava sempre preocupada com o bem-estar da minha mãe, de todo mundo, sabe? Eu queria que as coisas dessem certo, assim. Então eu fui pra escola, eu só parei de estudar... Eu parei de estudar, Vera, no primeiro ano do ensino médio. Porque eu odiei a escola. Eu fui estudar numa escola muito distante da minha casa. E era uma escola num bairro bem elitista, assim. Então, apesar de ser uma escola pública, tinha outro público. As pessoas todas mais ou menos majoritariamente brancas. Daquele bairro, daqueles bairros dali. Mais pro centro, região nobre da cidade. Então, eu fui muito hostilizada nessa escola, sabe? Eu sentia uma coisa no olhar, já. E aí, eu fui ficando sem nenhuma vontade de estar naquele espaço. E parei de estudar. O que foi uma loucura na minha trajetória escolar. Eu nunca reprovei de ano, nunca fiquei de recuperação. Eu era, sentava na primeira carteira, depois o professor fazia chamada, sabe? Apagava a lousa, sabe? Essas alunas.

Vera Iaconelli:Por que que você mudou de escola? Era o que tinha ou tinha uma expectativa de ir para uma escola melhor?

Ana Flavia Cavalcanti:Era o que tinha, era o que tinha para fazer aquele, para fazer o ensino médio tinha que ir para uma outra escola. A escola do meu bairro não tinha, então eu fui obrigada para essa escola. E aí fiquei assim um ano sem estudar e a minha primeira sogra, que foi uma diretora de escola, professora diretora, uma educadora durante anos, terminou sendo vereadora da cidade também, ela olhou um dia pra mim e falou: "Não, né, nem pensar, você não pode ficar sem estudar." Não foi uma coisa que veio da sua mãe? Não, eu já não tava mais morando com a minha mãe.

Vera Iaconelli:Quantos anos você tinha?

Ana Flavia Cavalcanti:Eu tinha 14.

Vera Iaconelli:Que é quando você tem a sua primeira namorada.

Ana Flavia Cavalcanti:É, eu saí de casa com 14 anos.

Vera Iaconelli:E essa é a mãe da sua namorada?

Ana Flavia Cavalcanti:Essa é a mãe da minha namorada, porque no começo também ela não sabia muito que a gente namorava, ela achava que a gente era amiga. Sabe aquela coisa que vai levando, sabe? E eu assim, sempre cremosa, educada, não sei o quê. Então ela falava com a minha mãe, ela dizia pra minha mãe: "Ai, Val, deixa a Aninha aqui, a gente adora ela". Não foi um abandono assim: "Vai, filha, não tô nem aí". Eu comunicava, ela comunicava. Então minha mãe tava um pouco segura, do tipo: "Ah, minha filha não tá aqui, mas ela tá num lugar melhor do que aqui". Provavelmente, eu acho que é por aí que ela pensava. E aí depois, a mãe da Isabel descobriu que a gente namorava. E a situação ficou bem diferente mesmo, ela não aceitou. E aí a gente teve que morar sozinhas e distante da família dela, né?

Vera Iaconelli:Mas essa insistência dela para que você estudasse, da sua sogra, funcionou? Você conseguiu estudar? Funcionou.

Ana Flavia Cavalcanti:E aí eu fui estudar no supletivo. Não sei por quê também, porque eu tinha, sei lá, 14 anos, tudo certo, sabe? Reprovar um ano e continuar o ensino médio regular, né? Mas ela era diretora nesse momento de uma escola que durante o dia era um ensino fundamental e à noite era um ensino à distância, o EJA, né? O a distância e o EJA, Estudo de Jovens e Adultos. Ela falou: "Faz logo supletivo, que daí você já acaba logo essa escola." E aí eu falei: "Tá bom." E também é um certo medo de que não—

Vera Iaconelli:que acabe desistindo de novo, né? Acaba funcionando um pouco por causa dessa evasão escolar, né? Essa pressa.

Ana Flavia Cavalcanti:É, e eu sinto que foi uma coisa positiva, porque pelo menos na época que eu estudei, sabe, Vera? Não tinha muito incentivo, assim, não tinha muito um porquê continuar estudando, sabe?

Vera Iaconelli:O estudo não era uma questão que ela conseguia imaginar emancipatória, assim? Ela não conseguia ver o estudo como uma saída de uma certa situação social, não?

Ana Flavia Cavalcanti:Ela via, sim. Ela achava importante a gente estudar, tanto que ela se dedicou muito, né, pra que a gente fizesse toda a escola.

Vera Iaconelli:Então você acha que ela talvez, um sonho, quando você disse que não tinha muito incentivo, que o sonho dela era curto, assim, imaginar um filho seguindo? Porque às vezes não tem precedente na família, né? Então a pessoa fala: "Não, tá bom, nossa, estudou até o..." O ensino médio tá maravilhoso, é uma pós-graduação pra depender da extensão do sonho de uma certa classe social, né?

Ana Flavia Cavalcanti:Com certeza é isso, Vera. Minha mãe estudou até a 4ª série. Eu terminar o ensino médio é praticamente, sei lá, tá num pós-doc. É ir muito além. E ela foi tirada da escola, ela não parou de estudar porque ela não quis estudar mais. Ela foi dada por uma família que tirou ela da escola pra ela poder trabalhar. Então atrapalhava o serviço de casa, tira essa menina da escola. Então pra ela era importante sim que a gente estudasse. Como é que a gente tava?

Vera Iaconelli:Esses acontecimentos, né, que são cedado por uma família que, aspas, adoção, e não é, é trabalho infantil, né, trabalho doméstico não remunerado, é trabalho infantil, é análogo à escravidão, porque a criança tá presa ali, não tem como sair, não recebe pelo trabalho e nem deveria estar trabalhando. Isso fica totalmente naturalizado, né, porque a família que me acolheu, às vezes até chama de pai, mãe, enfim, tem toda uma distorção dessa relação, né.

Ana Flavia Cavalcanti:Total. E essa frase, né, que eu falo muito na minha peça, que a gente hoje faz uma peça juntas, que se chama Conforto. Essa coisa que quando procuram por uma menina, quando uma família quer uma menina, hoje em dia até não se usa mais tanto essa menina, pelo menos aqui nas capitais do Sudeste. Eu acho que em outras cidades do Brasilzão afora, com certeza absoluta acontece isso. Aí você traz uma pessoa para morar na sua casa, criança, que na verdade é para trabalhar de graça. Então Eu não trabalhei de graça, mas quando a minha mãe, ela era faxineira numa casa e a patroa dela ficou grávida e ela fez essa pergunta para minha mãe assim, se ela não conhecia uma menina, porque ela tava grávida, ela não queria passar a gestação dela sozinha só tendo uma pessoa uma vez por semana, ela queria uma pessoa para trabalhar todos os dias. E claro que naquele momento fazia total diferença no nosso orçamento, sabe? Então eu fui trabalhar nessa casa e a minha mãe ainda fez esse acordo comigo, ela disse: olha, não se preocupa porque o serviço pesado eu vou fazer, você só vai ter que cuidar das coisas mais leves, que é lavar louça, passar um pano, lavar o banheiro e tals. Mas nesse lugar, né, no lugar da profissão hereditária. Então você me pergunta assim: "Ah, sua mãe não sonhava?" De fato, na minha família, na família antes da minha geração, que acho que a gente já mudou muita coisa, mas não me sonharam atriz, por exemplo, não me sonharam analista, não me sonharam arquiteta, desenhista.

Vera Iaconelli:E é tão importante que você tá falando, Ana, que é a diferença entre a condição de onde o sujeito que tem, condições que são muito parecidas para muitas pessoas. E a possibilidade de sonhar com outros mundos, que permite que algumas coisas que talvez não tivessem contempladas comecem a aparecer ali como possibilidades. E a possibilidade de ultrapassar, né, porque esse sonho com outros mundos está ultrapassando as condições anteriores. E o sonho de cada um, porque é claro, né, nem sempre vai nascer uma pessoa com talento para atriz, né, pessoas têm ouvido musical, às vezes a pessoa tem uma coisa, né, matemática, a gente nunca sabe exatamente a criança como é que ela vai vir, né, mas A conjunção de coisas que você precisa para que aquilo possa fazer essa passagem, né? É difícil, não são só as condições materiais. Eu digo isso porque quando você conta a tua história, você abre um precedente para as meninas que passaram ou passam pela mesma coisa que você, que é sonhar, é poder sonhar. Se você não imagina, é difícil poder acontecer a coisa, né?

Ana Flavia Cavalcanti:É, não, total, Vera. Eu penso nisso o tempo todo, falo muito sobre isso, o poder que é sonhar, sonhar, imaginar, se ver em outras condições, mas tem que ter condições condição para ter condição, né? Então você não desenvolve um sonho assim do nada, sei lá, "Ai, tô aqui." Você precisa de estímulos. Então a literatura é um estímulo, a música é um estímulo, teatro, cinema, as relações interpessoais, as viagens.

Vera Iaconelli:Essa sogra, né, que depois se mostrou lesbofóbica, no fim teve alguma coisa aí de falar: "Bom, vamos acabar isso tudo, né?

Ana Flavia Cavalcanti:Vamos fazer esse negócio, né?" Nossa, isso foi muito divisor de águas na minha vida. O fato de ter começado a minha emocional com mulheres. Porque daí eu não engravidei aos 15 anos, nem aos 16, nem aos 17. Como praticamente todas as minhas amigas. Então, o fato de eu não ter engravidado na adolescência me permitiu terminar a escola. E aí, quando eu termino a escola e me formo no ensino médio, e tenho pelo menos essa condição pra ter outras condições, tudo muda na minha trajetória. Pensando de onde eu vim, qual foi a minha saída. E comparando com as pessoas da minha vida nessa fase. Então, como é importante o ensino, como é importante a gente estudar, como é importante terminar essa primeira etapa da vida, né, Vera, que às vezes é um saco, né?

Vera Iaconelli:E como é importante a contracepção, né, o acesso aos métodos e conhecimento, né? Porque a tua mãe também fez uma coisa um pouco fora, que é ter a primeira filha aos 27, né? Ali na condição dela, provavelmente ela teria mais cedo, como todas as suas amigas tiveram.

Ana Flavia Cavalcanti:E as amigas dela também.

Vera Iaconelli:Exatamente. Mais pensado nessa história, pede para Deus, né? Que é um alento, né? Imaginar que os pais da gente desejaram a gente tanto, acho maravilhoso, acho um bom começo, que seja fantasia ou não, é um bom começo, um bom começo de história. Mas, e isso também, né? Você acaba não correndo esse risco, que interessante. Como foi pra sua mãe você se assumir lésbica? Ou como é que ela ficou sabendo?

Ana Flavia Cavalcanti:Eu contei pra uma merendeira que era a melhor amiga dela. Tinha tido uma briga com a minha namorada, com a Isabel. Aí tava mal arrasada na escola e precisava de alguém pra desabafar. E fui contar pra ela, que ela também é minha amiga, amiga da minha mãe, ia na minha casa. Uma espécie de tia assim. Aí ela arrancou tudo, Vera, de mim. Eu falei tudo pra essa mulher, ela foi correndo e contou tudo pra minha mãe, né.

Vera Iaconelli:Era um recado... Você acha que você queria que ela contasse?

Ana Flavia Cavalcanti:Não, acho que não. Mas a minha mãe já tava desconfiando, né. Porque eu chegava com presentes. Aí um dia eu cheguei com um urso enorme escrito aquele urso que vem "I love you". E ela falou: "Que urso é esse?" Eu falei: "É alguém da Isabel." Ninguém dá, uma amiga não dá um urso desse por amor de amizade, assim. Pelo menos eu não vi muito isso acontecer. E aí que foi esse momento, talvez foi bom porque a gente teve essa conversa franca. Ela falou: "O que é que você tem com a Isabel?" Aí eu falei: "Você quer mesmo saber?" Ela falou: "Quero." Aí eu falei: "A gente namora." Aí primeiro ela ficou muito triste, Vera. Ela ficou muito triste, ela chorou, ela se fechou um pouco. Mas ela não foi agressiva, nem tóxica comigo ali no primeiro momento. E nem depois. Mas ela se retraiu assim, ela cortou um pouco a relação. E logo em seguida eu saí de casa, eu fui morar com a Isabel. Então a gente passou um ano inteiro sem se ver, a gente se viu muito pouco nesse ano.

Vera Iaconelli:Bastante, né?

Ana Flavia Cavalcanti:Bastante. Só que aí eu completei 15 anos e aí ela foi me visitar, né? Afinal de contas, 15 anos é um marco. Sim.

Vera Iaconelli:E aí ela foi morando com a Isabel.

Ana Flavia Cavalcanti:É, sair de casa bem cedo, muito cedo, meu Deus.

Vera Iaconelli:Agora você se dá conta, né?

Ana Flavia Cavalcanti:Agora sim, né? Tô com 43, quando eu olho, falo: meu Deus.

Vera Iaconelli:Você vê molecada de 14.

Ana Flavia Cavalcanti:19, 20, morando com os pais, que eu acho que é meio que o correto, vai, digamos. O correto, não sei se é uma boa palavra, mas tem um tempo bom que você fica na sua casa com seus pais e alguém cuidando de você. Eu acho que isso alivia um pouco lá na frente, quando a gente vai ter que cuidar da gente mesmo de qualquer jeito.

Vera Iaconelli:Quando não é engraçadinho mais, quando é um fato consumado, né?

Ana Flavia Cavalcanti:É, mas faz parte da minha história, então também eu acomodo isso. E acho que de certa forma essa experiência de ter saído de casa cedo também me abriu para outras experiências. Eu acho que talvez isso tenha também me incentivado a me tornar atriz.

Vera Iaconelli:Você acha que a chave para você fazer essa passagem de morar sozinha foi a questão mesmo do namoro? Porque por que outra razão sairia da sua casa naquela época?

Ana Flavia Cavalcanti:Ah, eu acho pelas condições mesmo financeiras.

Vera Iaconelli:Financeiras.

Ana Flavia Cavalcanti:Acho que foi um mix, sabe?

Vera Iaconelli:Porque você já conseguia se sustentar. Eu trabalhava já, né?

Ana Flavia Cavalcanti:Ela começou a trabalhar com 8.

Vera Iaconelli:Sim, mas você não dava o dinheiro em casa, esse dinheiro que você já sustentava.

Ana Flavia Cavalcanti:Não, esse dinheiro me sustentava e dividia com a Isabel as contas. E eu acho que eu queria sair daquele lugar, sabe? Porque eu tava contando e mudei um pouco a rota, mas a gente mudou dessa primeira casa que a gente se mudou em Atibaia pra uma segunda casa. Porque o tráfico ficou muito pesado, daí ela vendeu a casa pro traficante, que foi uma super jogada corajosa, porque você vende a casa pro traficante, se ele não paga, quem vai cobrar? Se arriscar, né? Mas deu tudo certo. E aí a gente foi morar num bairro que naquela época era considerado zona rural ainda. Então tinha nada, Vera, só tinha terra e passava luz, só isso. Então assim, eu no auge do começo da adolescência ali, sabe? Então para mim era muito difícil. Leonina morando ali, acabada, isolada, enlameada, sabe? Eu queria cidade grande, eu queria adolescente, queria sair e ver carros e ir na cidade, no centro, no clube dançar, sabe? Não era nada daquilo que eu queria. Então foi pra mim também uma espécie de... Sempre acho que abrindo frentes mesmo, assim. O que mais tem aqui? O que mais tem aqui? Acho que isso eu carrego comigo, não sei direito se foi uma educação, uma coisa que eu recebi, uma herança, sabe? Eu sou uma pessoa curiosa, eu sou uma pessoa que quero desvendar outros mundos. Acho que isso me ajudou me ajudou a sair de lá, mas quando eu paro para analisar, faz sentido, me vem uma coisa de um "Ai, não aguento mais essa pobreza, não quero mais essa terra, não quero mais essa lama, eu quero outra coisa, o que que tem lá na frente?" Me conta essa coisa de que horas, porque você tem uma passagem, né?

Vera Iaconelli:Você tá contando essa tua família de origem, aqui só tem duas perguntas, você sabe que o programa é isso, né? Como é que isso leva no que você entende por família hoje, né? Como essa referência leva no que você entende por família hoje? Mas vamos nessa passagem, você fala aos 14, "Você vai viver com a Isabel." E chega uma hora que você também quer sair de lá. É sair da relação, é sair de lá? O que que... São 4 anos, né? Você sai com 18.

Ana Flavia Cavalcanti:É, e a gente ficou juntas 4 anos. Nós ficamos juntas 4 anos. Com 18, a gente se separou. E aí, eu vim morar em São Paulo. E eu não tinha condição nenhuma, mas eu queria, sabe assim, uma garrafinha de água, um sonho? Você vai na academia... Era eu. Chegando em São Paulo, cheguei nos anos 2000 aqui. Prestes a completar 18. Muito bonito. Então também tinha essa coisa, sabe, essa magia dos anos 2000. O mundo vai acabar ou vai continuar? Eu pensava, gente, não é possível que o mundo vai acabar logo em 2000.

Vera Iaconelli:Eu vou fazer show. Chega a minha vez, vai fechar o play.

Ana Flavia Cavalcanti:Aí eu falei, não vai acabar o mundo não, não é possível. Vim morar na casa da minha avó aqui em São Paulo. Primeiro, a minha avó não quis, mas aí eu e a minha mãe, a gente apertou a mente dela, eu da minha mãe e a minha mãe dela, porque como ela deu a minha mãe por motivos lá delas. Ela falou para minha avó: "E agora, você não vai receber minha filha?" Sabe? E aí ela me recebeu, mas um pouco a contragosto. Então não foi tão gostoso viver lá, né? Imagina, essa avó, ou essa é minha avó Ana. Eu me chamo Ana por conta dela. Eu ia me chamar Amanda, mas aí ela se chama Ana. Eu sou a primeira neta mulher. Aí na hora de registrar, ela fez uma cara. Minha mãe falou: "Tá bom, então bota Ana, mas uma Ana que não tenha muito." E botou Ana Ah, ela quis que o nome fosse dela. Interessante, interessante. E é uma vó ariana também. Ai, ô Vera, vou te falar assim, eu sinto que vem muito de uma dureza, sabe, de uma ancestralidade bruta assim, é bruta e brutal. Então, só que a vida caminhou, as coisas mudaram. A gente tem essa conversa em casa, eu, minha mãe, minha tia, às vezes até com ela, porque ela é muito boa de conversar.

Vera Iaconelli:Minha vó, quantos anos ela tem hoje?

Ana Flavia Cavalcanti:88. '48, acabou de fazer aniversário. Então daria já pra ter amenizado, aliviado, no meu ponto de vista. Mas aí é o jeito também da pessoa, né. É a educação que a pessoa recebeu, os valores dela. Ela foi uma avó massa, abrindo as portas da casa. Mas ela não foi uma avó doce, sabe. Ela é meio uma anti-avó. Aquilo que a gente imagina, avó com doce, com pota, não sei o quê. Ela não. E a minha avó tinha uma coisa de uma visão de mundo também pouco limitante no sentido dos sonhos. Então quando eu chego na casa dela em 2000, ela acha um abuso, ela acha que eu tô abandonando a minha família, minha mãe, que eu tinha mais é que voltar para Tibaia e fazer faxina, entendeu? E fazer o que todas nós sempre fizemos, o que elas fizeram, que todas fizeram. Que loucura é essa de fazer teatro? Ela falava: você é muito sonhadora.

Vera Iaconelli:Você já veio com teatro na cabeça? E por que que você não achava isso que todo mundo O que que você acha que deu essa abertura para você?

Ana Flavia Cavalcanti:Acho que foi a dança de salão. Uau! Porque eu tinha um amigo, fiz um amigo, eu trabalhava no salão de cabeleireiro lá em Atibaia. Eu trabalhei de muitas coisas, Vera, já. Acho que quase tudo que tem eu fiz, dos serviços. E aí eu trabalhava nesse salão e aos sábados tinha um professor de dança de salão que ia dar aula lá no último andar. E era o dia que eu mais amava trabalhar, porque ele botava uns bolerões umas alciones. Aí eu falava: "Nossa, hoje eu vou trabalhar feliz". Aí varria aquele monte de cabelo, lavava o cabelo das clientes e tudo, feliz da vida. Aí um dia, saindo, eu fiz amizade com ele. E ele se chama Alex Moreno. E ele realmente é uma pessoa, assim, que fez o ponto de virada da minha vida. Ele, bailarino, dava aula de dança de salão pra se sustentar também. E estava prestando EAD, ele ia prestar EAD naquele ano. Que é a Escola de Artes Dramáticas da USP. E então ele começou, ele trouxe, ele trouxe. Primeira vez que eu vi teatro Shakespeare.

Vera Iaconelli:Gente, é uma frestinha, é uma frestinha de luz, é a coisa mais linda do mundo.

Ana Flavia Cavalcanti:E eu lembro, foi na rua, foi numa calçada, eu lembro a hora, eu lembro tudo, sabe? Como que foi que começou, porque não tinha caminho, né? E foi muito legal porque o Alex me apresentou me levou para um mundo que eu nem imaginava que existisse, né? Ele não passou na IAD, mas ele foi fazer em DAC, que é uma escola aqui de São Paulo que inicialmente dava aula também supletivo, regular, e tinha escola de teatro. Então essa escola de teatro, eu acompanhei todo o primeiro ano dele nessa escola como ouvinte, porque eu era uma amiga dele que todo mundo amava. Eu era meio que da turma, não tinha me inscrito, mas eu acompanhei tudo, o trote, as primeiras cenas, as escolhas das duplas, os solilóquios. Aí, vamos fazer uma cena então, vamos fazer casa de bonecas, vamos. Então eu fiquei muito apaixonada por isso, falei, quero fazer isso, é isso que eu quero. Só que eu ainda morava em Atibaia, eu tava em transição. Aí eu trabalhava lá num hotel para animais de estimação, eu era recepcionista. Pedi as contas para Rose, a veterinária, que era dona da clínica, minha amiga. Ela falou, você tá doida, você vai para São Paulo com "200 reais?" Eu falei: "Eu vou, é meu sonho e tal." E vim morar com a minha avó, com vontade de fazer essa escola.

Vera Iaconelli:Você ainda é amiga do Alex Moreno?

Ana Flavia Cavalcanti:Sou.

Vera Iaconelli:Um beijo para ele.

Ana Flavia Cavalcanti:Um beijo para o Alex.

Vera Iaconelli:Maravilhoso.

Ana Flavia Cavalcanti:E aí eu fui nessa escola, Vera, mas foi muito uma loucura, porque a secretária Sônia falou: "Olha, a matrícula é tanto, a mensalidade é tanto." Quando eu olhei, eu falei: "Meu Deus, não dá para mim, né? Tô viajando na maionese." Aí eu fui fazer muitas outras coisas assim, até conseguir chegar no Endac. Trabalhei de várias coisas aqui em São Paulo e aí comecei a fazer técnico em enfermagem, porque eu trabalhava numa clínica de oftalmologia e o médico falou: "Olha, se você fizer técnico e fizer um curso de instrumentação, você vem trabalhar comigo, pelo menos você vai ter uma profissão, entendeu?

Vera Iaconelli:Sua vida vai melhorar." E ganhava bem, acho que na época, né?

Ana Flavia Cavalcanti:É, eu acho que ainda ganha assim, é uma profissão que você consegue viver com bastante dignidade. Coisa assim, sabe? Só que, Vera, não era o que eu queria, né? Eu chegava naquele SENAC Santo Amaro. Obrigada, SENAC! Fui bolsista lá, tudo certo. Mas era o último andar. Aí no primeiro andar era fotografia, no segundo era design, no terceiro andar era técnico em enfermagem. Cada semestre eles iam fazendo trabalhos mais lindos e eu ia: "Ah, agora terminal disso, agora gente que tá muito doente, agora..." O avançar no técnico em enfermagem era, de certa forma, ir lugares, e que quem amava adorava. Falava o quê? Hoje a gente vem autópsia? Nossa, UTI queimados? Meu Deus! E eu assim, meu Deus.

Vera Iaconelli:Ai, ai, ai.

Ana Flavia Cavalcanti:Eu falei, nossa, não vai dar certo isso. Uma amiga minha fez umas fotos um dia no Parque do Ibirapuera, assim, numa tarde, e me deu as fotos e falou, olha, vai nessa agência aqui, que é uma agência que chamava pessoas para vai fazer teste de publicidade, né? Aí eu falei, será? Ela falou, vai. Aí eu fui trabalhar, uma amiga que tava estudando fotografia, era um exercício da Imbi Morumbi, ela estudava lá. Aí ela levou as fotos para aula dela e me deu cópias das fotos. E eu fui nessa agência, e aí a dona da agência falou, olha, tem um teste hoje, é um teste para o provedor Terra, nunca vou esquecer. E aí você vai lá fazer o teste. Falei, meu Deus, um teste de foto, velho! Nunca tinha sido nem fotografada no Natal, sabe? Eu não era fotografada, filmada, não existia isso na minha vida. Aí cheguei, um monte de gente, todas as modelos, os modelos de São Paulo, uma loucura. E era aquele teste que você faz junto, todo mundo vê, que tem teste que é só você, e são os mais decentes, né? Porque é muito difícil você testar demais com todo mundo te olhando, todas as inimigas ali falando: não pega, faz uma catice em você.

Vera Iaconelli:E aí?

Ana Flavia Cavalcanti:Aí o fotógrafo falou: olha, é o seguinte, você tá no topo de uma colina tomando uma brisa no rosto, abraçada pela pessoa que você mais ama. E aí não tinha nem a colina, nem pessoa. Faz essa cara, sabe? Ele queria essa cara. Aí eu fiz, eu não sei que cara que eu fiz, fui embora. No dia seguinte tinha outro teste, eu fiz. E aí, saindo desse segundo teste, me ligaram do primeiro, disseram: você passou. E aí eu fui, fiz a foto, que foi uma experiência muito linda. E aí, no dia seguinte, o segundo teste disse: você passou.

Vera Iaconelli:Uau!

Ana Flavia Cavalcanti:Então eu passei nos dois primeiros testes que Fiz e ganhei tipo uma granona. Aí eu voltei lá no INDAC e paguei um ano inteiro da escola de teatro.

Vera Iaconelli:Caraca! Puts, que lindo!

Ana Flavia Cavalcanti:Muito lindo, né?

Vera Iaconelli:Muito, muito lindo. Sabe o que parece? Parece que você atravessou um rio assim, super cheio d'água. Tinha umas pedrinhas, entendeu? Umas mais perto, outras mais longe. E você pisou em cada uma, cara, assim, mas no sentido bacana. Ne? Cada coisinha que você encontrou que podia botar o pé, você pôs, né? Então, amiga que tira foto, né? Cada coisinha, muito, muito lindo.

Ana Flavia Cavalcanti:Eu amo muito essa história porque eu sempre me emociono mesmo, não tem como. Eu acho que essa história mudou as gerações futuras da minha família, sabe? Porque entrar numa escola de teatro é uma coisa muito poderosa para qualquer ser humano. Eu tô falando em meu nome, mas eu acho que é muito bom você poder estudar teatro. E o teatro nada mais faz— quer dizer, faz muitas coisas, mas o teatro te dá um foco para dentro, para as emoções, para os gritos, para os medos. É muito bom poder rolar no chão e dar uns gritos, sair correndo, abraçar, receber uma massagem coletiva, coisas que a nossa sociedade não oferece para gente, sabe? Então, já de saída, isso me fez um bem danado enquanto ser humano. Fazer uma aula de voz, abrir voz, escolher umas palavras e ficar trabalhando essas palavras e ver que emoção que isso dá. Isso é muito bonito.

Vera Iaconelli:E assim, se você for pensar que aos 6 anos, ao invés de estar só brincando, né? Porque escola aos 6 anos é uma grande brincadeira dirigida, né? Em casa as crianças brincam, né? Aos 6 anos você tá cozinhando, né? Toda essa parte do lúdico, da imaginação, da fantasia, não é que não existia, claro que existia, senão você não estaria aqui hoje, mas foi tolhida pelo trabalho, né?

Ana Flavia Cavalcanti:Foi.

Vera Iaconelli:Cuida do irmãozinho, cuida da irmãzinha, cuida do vizinho, limpa a casa, cozinha pra irmã, quer dizer, você resgata isso do jeito mais— nem todo mundo tem o privilégio de trabalhar com uma coisa que resgata isso em grandes proporções.

Ana Flavia Cavalcanti:É uma virada. Eu costumo falar isso assim quando eu tenho oportunidade de contar essas histórias, que é como se eu tivesse dado um cavalinho de pau na minha própria vida, sabe? A vida tava dizendo: é pra lá que você vai.

Vera Iaconelli:Cavalinho, não cavalo, né?

Ana Flavia Cavalcanti:Um brinquedo mesmo, que é tipo vai para outra direção. Fala: não, não vou para cá, eu vou para o outro lado e vou para outro lado. E então são vários os lados, né, Vera? A gente vai passando por muitas fases, mas essa saída, e eu não tinha nenhuma dúvida, eu falo isso para as garotas, para os jovens que querem me ouvir, também, que eu acho muito importante. Tô com muita vontade de trabalhar com jovens agora e vou, vou super trabalhar agora em breve. Meu próximo projeto é esse. E eu falo muito para eles assim, tem que alimentar esse sonho, esse desejo de que a gente pode fazer coisas diferentes de que foram ditas de saída, sabe? Então é teatro, é música, é dança, é uma outra profissão, é química, é matemática, é medicina, o que for, porque para as pessoas negras periféricas, pobres, de baixa renda no Brasil, você não recebe muito esse incentivo, sabe? São casas, são lares que não tem muito livro, não tem muito tempo, não tem mais quase nem os pais presentes, né?

Vera Iaconelli:Então é porque assim, tem questões aí, né? Se você faz a pessoa sonhar, ela faz isso que você fez, que é ir embora, né? Que é exigir mais, é querer mais, é poder se emancipar. E essa condição da pobreza periférica, ela se presta a É o stay do capitalismo, né? Quer dizer, então, as pessoas têm que ficar lá resignadas. Imagina se fosse uma criança que falasse: "Não, eu não vou cuidar do nenê da vizinha. Não, eu não vou ficar fazendo isso." Você tinha que estar conformado de algum jeito. E a arte é um negócio que te tira de qualquer possibilidade de se conformar, né? Você ficou inconformada, né?

Ana Flavia Cavalcanti:Não, eu sou bem inconformada. Já fui até mais. Acho que agora eu suavizei. O ano passado e o outro eu dei uma suavizada e agora acho que eu voltei com força total na minha inconformidade, inconformação. Não sei se essa palavra existe, conformação, não. Mas eu sou uma pessoa inconformada, eu sou uma pessoa que não aceita injustiça. E aí, quando me atravessa, vem muito forte, sabe? E eu tive esse, há 10 anos atrás, eu acho que o primeiro lampejo de: "Ai, eu falei, não, isso não vai ficar só dentro de mim, não. Isso vai ter que sair de alguma maneira." E nesse sentido, a profissão que eu escolhi, que me escolheu também, né, Vera? Porque é isso, assim, é difícil É difícil você se sustentar numa profissão, seja lá qual for, mas essa especificamente é um— eu não sei nem te dizer assim, você faça um teste, eu nunca sei porque me escolheram ou porque não me escolheram. São tantas conjunturas, são tantos pormenores que vai ser você e não uma mulher parecidíssima com você, que isso deixa às vezes a gente meio assim, sabe? Você fala: meu Deus, então problema sou eu, eu que não "Eu sei", não é exato. Então, já tem que lidar com isso. Mas, de certa forma, eu sinto que essa profissão tem me escolhido, porque as coisas têm caminhado.

Vera Iaconelli:Conta da família hoje, como é que é a tua família hoje? Porque eu sei que tem a ver também com o teu trabalho e com isso que você fala, que, bom, as novas gerações também vão— Mudou para as novas gerações, para sua mãe, como é que é isso?

Ana Flavia Cavalcanti:Mudou para frente e para trás, eu acho assim. Porque justamente para gerações futuras a gente tá oferecendo já esse caminho. Eu tenho 3 sobrinhos, então pros meus 3 sobrinhos é: "Olha, tem essas possibilidades aqui", né? Eles já nascem num outro contexto. E aí, pra geração passada, que eu falo que mudou pra frente e pra trás, é que hoje, por exemplo, a minha mãe se apresenta como atriz. Ela faz um trabalho comigo que se chama Conforto. Eu contei aqui já um pouquinho, que é essa peça. E começando a peça, eu convido ela pra estar comigo. E ela fala: "Será?" Mas hoje, no final, quando a peça acaba, cada pessoa se apresenta. A pessoa fala o nome e o que faz na peça, né? Chama para equipe se apresentar e ela fala: "Valca Valcanti, atriz?" Faz uma pergunta meio retórica assim, sabe? Porque eu acho que ela também tá se respondendo isso, né? Ela tá se tornando uma atriz.

Vera Iaconelli:Como é que foi isso? Você chegou para ela e falou: "Mãe, vamos fazer esse negócio." Eu fiz um teste de um filme da Ana Mulaerte.

Ana Flavia Cavalcanti:E aí, quando eu recebi o teste, a história da personagem era muito parecida com a história da minha mãe. Aí eu falei: "Ah, no meio do teste eu vou falar as palavras que é o texto que eu tenho que falar e no meio eu vou falar um texto que é essa história que eu ouvi da minha mãe a vida inteira. A gente ouve várias, né, velho? Falei, eu vou contar essa aqui, xis. E aí, só que eu tinha que ter coragem para fazer isso, porque é tudo muito, né, você tem que falar o que tá, o que disseram para você falar. Aí no meio eu falei, vai, vai, vai, Ana, vai, coragem, coragem. Falei o texto, falei, eu queria, posso contar uma história aqui? Atravessei e contei essa história, que é uma história da minha mãe. Beleza, não passei no teste, mas a Ana me deu o teste. Ela falou, olha o que você fez, que forte que é. E eu tava começando a criar esse espetáculo para estrear no Sesc Pompeia. Foi um convite que eu recebi do Sesc para desenvolver um espetáculo, uma coisa muito grandiosa. Eu fiquei muito honrada, só que eu não tinha espetáculo, né? Eu ia fazer. Então esse processo todo de criar uma história, eu falei, quando eu comecei a pesquisar coisas da minha vida para levar um solo, eu fui assistir esse vídeo desse teste, falei, cara, realmente, eu falei, eu sou boa atriz, né? Eu assistindo, falei, acredito no que eu tô vendo e ouvindo. Mas eu não queria só que o meu corpo contasse tristeza, eu não queria ficar só com esse registro, sabe, emprestar o meu corpo só para dor e tal. E a história que eu conto, ela é bem doída, tem um final feliz, mas ela é doída. Falei, eu vou usar esse vídeo, mas antes eu preciso mostrar para minha mãe. Eu não tive coragem de mostrar, pedi para minha irmã mostrar, ela também não teve coragem. Eu fui até lá, a gente mostrou juntas, porque realmente eu tô muito emocionada, é uma história dura da minha mãe. Aí minha mãe Ela assistiu o vídeo e eu falei: "Mãe, eu quero usar esse vídeo, quero que a senhora faça a peça comigo. Eu posso usar esse vídeo? É justo? Eu tô te usando, né? Eu tô contando uma coisa íntima que eu não posso contar." E ela, muito prática, falou: "Pode, pode usar o vídeo, mas você errou em duas coisas. O meu pai não bebia e eu não dormia dentro da geladeira. Eu dormia dentro da caixa que vinha a geladeira." Tipo assim, Vera, foi um rasgo na minha alma, assim. Eu falei: "Meu Deus, como que essa mulher, no meio de tudo isso que eu falo, que ela sabe que ela viveu, ela consegue puxar, pinçar dois erros, uma mãe também que dá uma criticadinha, mas que também se abstém de todo o horror." Mas se apropria da história, fala: "Olha, já que você vai contar, tem isso e aquilo, conta direito." Tipo, é pra contar, é pra contar. E aí eu começo a peça assim, eu mostro o vídeo e eu me inspirei muito no jogo de cena do Coutinho, que você não sabe de quem é a história. Eu acho que a partir do momento que a gente conta a história, a história é de quem conta, né? Se você vai contar minha história agora, a história é sua. Eu sinto isso. E aí eu conto a história no vídeo e aí o vídeo acaba, a minha mãe se levanta e se apresenta e diz: essa história é minha, pro público. E diz isso: e você errou em duas coisas, filha, meu pai não não sabia. E eu não dormia dentro da geladeira, dormia dentro da caixa que vinha geladeira. E aí ela vai ver, é um prólogo em que ela conta um pouco essa história da vida dela, um pouco do que a gente tá fazendo aqui de certa forma, sabe? E como ela tá hoje. E hoje ela termina dizendo: e hoje eu tô aqui. Onde quer que ela esteja, ela fala: hoje eu tô aqui no Sesc Pompeia, no Sesc Santos, no Itaú Cultural, em vários lugares que a gente passou. E canta um ponto de umbanda. Ela é filha de Ogum Cunhansã e gosta muito desse ponto de Ogum e um ponto de Nanã também que ela gosta muito. Então ela reveza. E é assim, é sério, as pessoas são tomadas por essa mulher, por essa força. E eu fico assim, ó, uma amiga minha que é da constelação familiar, que eu sei que é polêmica e tudo, mas ela fala: amiga, você constelou muito nessa peça, você faz uma loucura. Loucura, porque você bota sua mãe em cena contando uma história que você contou dela, que é a vida dela, que também é sua. E eu escrevi a peça do ponto de vista da filha da empregada, né, Vera? Porque durante muito tempo eu achei que a minha maior questão era que a minha mãe era uma empregada doméstica, foi uma empregada doméstica, mas ao longo dos anos eu fui percebendo que tem uma dor ainda mais doída e mais injusta, que são filhos e as filhas das faxineiras, né? E a nossa falta de mãe e pai, né? Aí ela fala: 'Minga, você tem noção?' Porque você— aí eu fico sentada, Vera, vendo a minha mãe assim. Quando ela se levanta, parece que para tudo, porque é tão bonito ver que a gente pode mudar muito a nossa vida, né? Eu fico pensando: quais coisas ainda podem me acontecer? O que será que vai estar acontecendo comigo quando eu tiver 70 anos, porque ela tem 70 anos. E eu tenho certeza que ela nunca, nunca imaginou que ela ia estar fazendo uma peça de teatro e agora vai fazer um filme.

Vera Iaconelli:Mas é muito interessante porque você me faz pensar uma coisa que eu nunca tinha pensado, né? Que a gente vê que são os filhos sonhando pelos pais, né? E levando eles para lugares inimagináveis. E os pais bancando isso, né? Porque é claro que a tua mãe aceitou esse convite, ela também pisou nessa pedrinha, entendeu? Também foi na fresta. Ela podia ter recusado totalmente, né? Mas eu tenho um grupo de alunas muito talentosas que apresentaram um trabalho, uma instituição de psicanálise que eu coordeno, que elas são meninas negras, psicanalistas negras, já de uma geração que tá chegando, né? E elas trouxeram um trabalho falando exatamente isso, dessa maternidade roubada das mães da periferia, de mulheres negras periféricas pobres que não podem cuidar dos próprios filhos. E eu até Até discutia com elas um pouco isso de que no fim elas cuidam, né? Cuidam, que estão aí, estão vivas, sobreviveram, mas numa condição de uma tal violência. Então tem o mérito delas não terem abandonado esses filhos e fazerem qualquer coisa por eles para que eles sobrevivam. E a tragédia, eu não diria tragédia que eu acho muito pesado, mas assim, o drama da impossibilidade de viver essa maternidade, né? Curtir, de estar lá ela com o com o bebê dela, ela com os bebês e com as crianças e chegar em casa e poder brincar e poder estar junto como as mães das crianças que elas cuidam.

Ana Flavia Cavalcanti:Exatamente.

Vera Iaconelli:E acho que esse exemplo é um exemplo assim impressionante disso.

Ana Flavia Cavalcanti:É, eu acho que essa é uma falha trágica bem grave na nossa sociedade, difícil de ser— ah, uma tragédia assim, eu acho que eu usaria assim essa palavra porque vem, né, vem direto da expectativa.

Vera Iaconelli:Dificuldade para dar nome para isso.

Ana Flavia Cavalcanti:E a gente ainda não conseguiu resolver isso, por isso que esse é um tema tão forte no meu trabalho autoral. Eu faço outras coisas, eu posso falar de outras coisas, eu gosto de várias coisas, mas esse é um tema muito latente, profundo para mim. Eu acho que faz sentido a gente debater a condição da trabalhadora doméstica, dessa mulher preta, dessa mãe preta, sabe, Vera? Porque elas cuidam da sociedade toda.

Vera Iaconelli:Sim.

Ana Flavia Cavalcanti:Assim, eu nos meus relacionamentos amorosos, encontros que eu já tive amigos, né, um namorado que fala: ai, a carninha moída da Dete, ah, não sei o quê, um homem branco, digamos. Todo mundo tem, reconhece um cuidado, ou aquela babá que foi a pessoa que você mais amou, que você mais viu, que não foi direto talvez a sua mãe, porque sua mãe tava trabalhando, tudo certo. Mas então essas são mulheres que sustentam a sociedade toda, elas sustentam as crianças brancas e as pretas. É, mas as pretas numa condição bem inferior, né, assim Superior no sentido da presença, da presença.

Vera Iaconelli:E também assim, quando estão juntas, são mulheres que estão exaustas, né? Então mais difícil, né, de contar uma historinha, de brincar, de dar atenção.

Ana Flavia Cavalcanti:É, eu acho que a gente precisa começar no meu trabalho, que eu proponho, provoco, é vamos falar de remuneração, porque eu acho que isso dá muita dignidade. Hoje em dia eu me considero uma pessoa bem paga e tenho a sensação que você talvez também, e as pessoas que estão trabalhando aqui com a a gente também. Então acho que esse é um lugar de saída já muito importante para a gente produzir condição. Então você vai trabalhar e você vai conseguir organizar lá que a sua filha faça uma natação, a outra faça um balé, a outra fique de repente numa biblioteca, alguém vai buscar. Então acho que o dinheiro, a condição financeira, ela dá uma certa liberdade para a gente, ela larga as nossas possibilidades no cuidado, né? Então eu eu sempre pautando condição de trabalho, que tem a ver com deslocamento, que tem a ver com remuneração, e o próprio tratamento, né, Vera, a própria relação humana. Assim, é um tema que eu me debruço cada vez mais. Importante para mim falar disso. Eu acho que é importante para nossa sociedade, sabe, para a gente ter mais bons encontros, porque senão fica uma quina assim, sabe. A gente já de saída se encontra eu e você. Se não fosse esse podcast, talvez outras conexões a gente não teria se encontrado nunca na vida. A gente já se separa na escola, né? Sim, você vai para escola particular e eu vou para escola pública. E aí dali já a gente se perde. Eu sinto que a gente precisa se encontrar mais, né? Assim, eu percebo que tem um desejo já da sociedade. Hoje em dia a gente avançou em muitos pontos, avançou tanto que eu tô aqui hoje. Então isso é um ponto positivo. E faz sentido reverenciar isso também, senão fica só num lugar muito doído, muito difícil. E a gente tem muita coisa boa também, assim, a gente tem muita dança, a gente tem muito colo, a gente tem comida boa. Eu cresci numa casa linda assim, tipo, toda arrumadinha, muito sã, não tinha grito, não tinha briga, não tinha gritaria, comida era bem fresquinha, roupa era lavada e passada, sabe? Então muita coisa gostosa dessa presença assim, mas é um tema para mim, é um tema para mim.

Vera Iaconelli:Ai, Ana, que emoção, literalmente que emoção, a voz embargada vários momentos, né, mas te ouvir, que lindo assim, putz, obrigada, obrigada por repartir com a gente essa história tão linda e Agora eu vou pedir para você me perguntar o que você quiser. Ai, meu Deus, eu que digo que vou ter que responder.

Ana Flavia Cavalcanti:Ô, Vera, eu também agradeço muito, tá? Muito feliz de estar aqui contigo mesmo, mesmo. Olha, eu escuto todos os seus podcasts, né? Fiquei pensando muito nessa pergunta. E aí hoje, tomando banho depois da yoga, eu fiquei pensando que eu acho que queria muito te ouvir refletir, né? Porque você faz isso tão sobre como a gente pode curar ou cuidar ou acolher a nossa criança.

Vera Iaconelli:Eu respondo essa pergunta super sensível da Ana no Pergunta à Vera, o episódio bônus do podcast. Sai às quintas-feiras no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Te encontro lá. Esse foi o podcast "Isso Não É Uma Sessão de Análise", um original da Truvão Mídia. Na semana que vem a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decruet.

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