Conheça a série "Como ser mãe?"
Este é o primeiro episódio de “Como Ser Mãe?”, uma audiossérie imersiva que a Vera Iaconelli criou com a Trovão Mídia e a Andrea Del Fuego para investigar a maternidade. Sem idealização e sem respostas prontas.
Para ouvir os próximos episódios vai lá na Audible.com.br.
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- Ser mãePressão social e expectativas · Conflito entre carreira e tempo biológico · Medo de se tornar uma mulher solitária aos 50 anos · O papel da psicanálise na reflexão sobre o desejo · A maternidade como aposta
- Desafios da MaternidadeExperiência corporal, de casal, familiar e solitária · Maternidades no plural · Influência de classe, raça, gênero e desejo · Ausência de manual para maternidade
- Abandono socioafetivo paternoExpectativas da avó sobre a maternidade da filha · O papel do pai na decisão e responsabilidade da maternidade · Solidão intrínseca da experiência perinatal
- Expectativas e realidades da maternidadeImpossibilidade de preparação total · A vida vivida em tempo real · A maternidade como encontro com o outro
- Problematizações de redes sociais sobre maternidadeIdealização versus demonização nas redes · A monotonia e o dia a dia da maternidade · Maternidade como experiência relacional ao longo da vida
Vera Iaconelli:Oi, aqui é a Velha Conelly e hoje eu quero te fazer um convite diferente. O que você vai ouvir agora é o primeiro episódio de Como Ser Mãe, uma audiosérie imersiva que eu criei com a Trovão Mídia para investigar a maternidade sem idealização e sem respostas prontas. Estamos publicando o primeiro episódio da série aqui para vocês, nossos queridos ouvintes do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Espero que gostem. Depois de escutar, para ouvir os próximos episódios, vá lá no audible.com.br. A série inteira está disponível para você maratonar. Basta fazer sua conta com teste grátis por 30 dias ou 3 meses se você for membro da Amazon Prime. Agora vamos ao episódio. Boa escuta!
Vera Iaconelli:Este é Como Ser Mãe, um original Audible Produzido pela Trovão Mídia, apresentado por mim, Veria Conelli. A maternidade é uma experiência complexa e intensa. Ela acontece no corpo, no casal, na família e na solidão. No momento em que a gente olha para alguém ou para si mesmo e pensa: "Como foi que eu vim parar aqui?" Eu sou a Veria Conelli, psicanalista, Sou mãe e há muitos anos pesquiso e escuto histórias de famílias, principalmente de mulheres tentando entender o que significa ser mãe num mundo que cobra tudo e acolhe quase nada. Nesse tempo aprendi uma coisa: não existe a maternidade, existem maternidades, no plural, atravessadas por classe, raça, gênero, desejo e por um monte de contradições que a gente costuma esconder. Talvez você esteja ouvindo essa série grávida, ou nem um pouco grávida, cheia de dúvidas se quer ter filho algum dia. Talvez já tenha filhos grandes, talvez nunca tenha querido, talvez esteja justamente fugindo do assunto. Mas o assunto volta, não tem jeito. Não existe manual para maternidade. Por isso a pergunta: Como ser mãe? Essa é uma série original audiobook criada por mim, Veria Conelli, junto com a Trovão Mídia. Em cada episódio você ouve uma cena de ficção criada pela escritora Andrea del Fuego. São histórias de mulheres vivendo um momento decisivo: a dúvida sobre ser mãe, a gestação, o parto, o puerpério, a volta ao trabalho, o relacionamento que se complica depois da chegada dos filhos. Essas mulheres falam o que quase ninguém não ninguém tem coragem de dizer em voz alta. E a cena termina com uma pergunta, daquelas que todo mundo quer saber a resposta. E é aí que eu entro. À luz da psicanálise, tento abrir caminhos, não para responder certo ou errado, mas para a gente poder pensar juntos. Para entender de onde vêm as expectativas, medos, aflições, e o que é possível fazer com eles na vida real, bancando as próprias escolhas, se havendo com a própria história, e com os desejos. Então vamos lá! Coloca o fone que o áudio é especial, tem todo um movimento de cena só pelo som. A gente começa pela dúvida. Que convenhamos, é sempre um ótimo lugar para começar. Como ser mãe?
Voz D:Filha, volta lá e pega outro azeite. Olha o preço disso aqui, tá custando um apartamento. Eu te espero aqui no caixa, rapidinho, vai. Eu vou empacotar.
Andrea Del Fuego:Eu quero levar esse, mãe. Eu trabalho pra isso, pra comprar essa joia. Me deixa, vai! Olha só essa mãozinha, esse joelhinho com esse pezinho balançando. Ai, caramba! Isso massageia o meu cérebro.
Voz D:Essa mãe tá fazendo muita cosquinha. É um perigo engasgar.
Andrea Del Fuego:Morre engolindo ar. Olha lá, olha tão bonito pro filho. Olha a fundo. Tão feliz.
Voz D:Filha, você não sabe da missa a metade.
Andrea Del Fuego:Cássio, baixa um pouco o volume. Aproveitei a hora do almoço para ir ao mercado com a minha mãe. Comi um lanche e acabei de deixar a Ranzinzin em casa. Ai, eu tô exausta e atrasada. E que dia que você não tá estressada? Você tá sempre no limite. Vai, ó, senta aqui, relaxa. Quer? Quê? Almoçando salgadinho? Sério? Deus me livre. Dá espaço, vai. Você entrou de férias, mas eu não. Ainda tenho reunião pesada no final do dia. Já tem 3 grávidas na empresa, eu te falei? Uma vai ganhar neném logo mais. É a que trabalha comigo.
Voz D:Eu te falei?
Andrea Del Fuego:A louca escondeu a barriga até não aguentar mais. Sei. Tá mexendo comigo. Para de mastigar isso, Cássio! Ela disse que eu não levo jeito pra ser mãe. E que isso é, na verdade, uma puta sorte. Falou que meu negócio é money, carreira, que me admira muito, queria ser como eu. O rosto dela está exausto, inchado, mas a bochecha está estalando, é de um rosa que até esquentou o meu rosto. A mão dela ferve, Cássio. A minha mão não esquenta nunca. Cássio? Cássio, você tá me ouvindo? Ai, ok, tá na minha hora. Karen, encontra o arquiteto para mim. Eu preciso que ele visite a obra amanhã sem falta, hein. Ai, aquilo lá vai me dar um problema. Manda mensagem pra ele e descansa um pouco, tá? Não quero prejudicar uma gestante. Pode deixar.
Vera Iaconelli:Você quer um descafeinado?
Andrea Del Fuego:Não, não, eu só preciso do arquiteto. Vai, pode ir tranquila. Mãe, mãe, pega aquela manta, sabe qual é? Aquela que você me cobriu na maternidade. Eu acho que tá no seu maleiro. É, acho que Eu vi no seu maleiro, sim. Eu vou mandar lavar e dar pra minha colega aqui no escritório.
Voz D:Mas você nem conhece direito a mulher.
Andrea Del Fuego:É verdade, né? É. Eu acho que eu vou guardar a manta comigo. Vai que... Bom, eu vou cobrir meus pés, alguma coisa. Vai que eu use, né?
Voz D:Ah, filha, a gente tá precisando conversar.
Andrea Del Fuego:Oi mãe, fala.
Vera Iaconelli:Onde você tá?
Andrea Del Fuego:No carro, na Marginal, não tá ouvindo?
Vera Iaconelli:Vou direto ao assunto.
Voz D:Eu não arriscaria, filha, arrumar problema agora mais velha. Você fica vendo mulher famosa ter filho com 50 anos, não se ilude, pelo amor de Deus. Elas têm tudo, dá nem tempo de ver o cocô do bebê de tão depressa que as empregadas Você tem cargo alto, teu marido tá contratado. Mas não é só grana, entendeu? É disposição. Olha, filha, vai sobrar pra mim. E eu também não tenho mais idade. Eu tô querendo descansar, sabe? Andar por aí, tomar uma cerveja.
Andrea Del Fuego:Eu não acredito no que eu tô ouvindo. Não é possível! Se a minha própria mãe não quer ser avó, realmente eu seria uma mãe solo. Real! Bem lembrado.
Voz D:Cássio, não tenho a menor vocação pra pai.
Andrea Del Fuego:Ah, entendi. Agora eu entendi tudo. Você quer minha agenda limpa, sem ninguém, só pra você. Pra eu ficar o dia no asilo ouvindo você me xingar, sem me reconhecer, igual a sua...
Voz D:Chega!
Andrea Del Fuego:Mãe? Oi, mãe? Ai, porra. O que eu tô falando? Ai, porra. Instruções: Segure firme a tira do teste de gravidez e mergulhe a ponta aguenta na urina por cerca de 10 a 15 segundos. Não vou contar para ninguém. Por que ninguém quer me ver grávida? Será que eu não posso? Qual o critério para ser mãe? Quer saber? Vão todos para o inferno! Não. Eu não vou ficar essa mulher de 50 anos que não teve filho e tem aquele olhar, sei lá, aquele olhar parado. Você acha que ela tá feliz? Não, claro que ela não tá. Eu sei por mim. Eu não vou deixar de viver isso pra depois ficar sozinha num asilo. Eu mesma sou capaz de deixar minha mãe sozinha num asilo? Ai, ai, tem que dar positivo, tem que dar positivo. Não, não tem que dar negativo. Não aguento mais, faltam 10 segundos para olhar o resultado do teste. 4, 3, 2, 1. Cássio! Será que eu tô pronta?
Vera Iaconelli:Bom, e quem que tá pronta, né? Porque a questão é essa: a gente está pronta? A gente está pronto para ser mãe, para ser pai? A gente está pronto para fazer essa escolha, para passar por isso? É a pergunta de um milhão de dólares. Bom, em primeiro lugar, só fazer essa pergunta, desejo ou não ter um filho, é uma coisa inédita. A gente não tinha isso até pouquíssimo tempo. As mulheres sentiam que ter filho era da natureza delas. Não ter filhos, não desejar ter filhos era, em alguma medida ainda é, um tanto escandaloso, porque mãe e mulher vêm sendo confundidos há muito tempo. Então se perguntar é importante, se perguntar significa que as mulheres são mais do que mães. Mas também se perguntar tem a ver com o fato de que a gente vive uma experiência hoje social na qual a maternidade vai na contramão de tudo que as mulheres precisam e desejam viver, porque a maternidade concorre com o tempo do corpo, o tempo que elas levam para conseguir se emancipar financeiramente, pra consolidar uma carreira ou pra garantir um sustento e o tempo biológico da maternidade, que a medicina tenta correr atrás e oferecer meios pra que se tenha filhos cada vez mais tarde, mas não é tão fácil assim, como muitas pessoas que fazem inseminação sabem, né? A medicina não entrega aquilo que ela promete. Então, a nossa personagem está se vendo com um dilema que é muito recorrente na nossa época, De mulheres que fizeram uma carreira e chegaram numa idade limite para responder uma pergunta muito complexa, inclusive porque é uma pergunta ambígua, que faz parecer que só a elas cabe essa decisão, ou seja, que elas estão sozinhas e frequentemente estão, porque a família não tem mais como comparecer, porque o Estado não comparece, porque a empresa não comparece e ela se vê sozinha. Diante de uma decisão que deveria ser sustentada coletivamente, porque afinal a chegada de uma criança é sempre a reprodução do tecido social, isso diz respeito ao governo, à família, a toda a sociedade, porque se trata justamente da chegada de um novo cidadão, né, de um neto, de um primo, de um sobrinho, de um irmão, de uma figura que já tem direito a muitos laços para além da mulher que gesta e pare. É uma geração de mulheres que veio premida pela ideia de que elas não podem depender e se tem uma coisa que faz a gente depender dos outros é justamente o ciclo gravidez, parto, puerperio, você não consegue fazer sozinha, você precisa de apoio pra você e pra criança, precisa e tem esse direito, né, então a gente tem uma situação muito complicada ligada a como você não vai depender numa situação como essa. Então é uma geração de mulheres que ouviu muito "pague suas contas, não dependa de homem nenhum", que torna essa situação bem curiosa.
Voz D:"Ah, filha, a gente tá precisando conversar".
Vera Iaconelli:A figura da avó, ela é muito bem-vinda pra gente pensar como essas avós que muitas vezes abriram mão da sua própria carreira, dos seus próprios sonhos pela maternidade, às vezes não desejam isso para as filhas. E o paradoxo é que, ao mesmo tempo, elas se tornaram mães, elas tiveram as filhas, então com que direito elas podem achar que a filha não teria direito, por exemplo, de ter seu próprio filho? Se cria uma situação quase como se essa avó estivesse dizendo que não valeu a pena ter essa filha, e essa filha está insistindo que talvez valha a pena ser mãe. Colocando a própria filiação dela em xeque, né? E aí a gente entra numa outra camada dessa conversa que é: que desejo é esse que nos move na direção de ter ou não filhos? Ele tem toda essa contabilidade, né, das condições financeiras, condições de temperatura e pressão, né, será que vai dar, será que não vai dar, que a gente faz, né, essa continha matemática de sim e não, mas ele tem toda uma outra camada inconsciente na qual o desejo que me move para vir a ter um filho não tem acesso total a ele, porque ele começa lá da mais tenra infância, ele começa na minha experiência como bebê, que é em grande parte inconsciente. Ele também está ligado a ver meus pais e meus cuidadores como aqueles que têm um bebê, que sou eu mesmo, e querer ser como eles, também querer ser um cuidador, também querer ter filhos. Ao mesmo tempo, esses pais cuidadores se tornam seres gigantescos que têm bebês, então ter bebês também é uma forma de superá-los. Então, por inveja, identificação, por inveja e amor, a gente quer chegar na vida adulta e fazer o que esses pais fizeram. E isso tá lá, tá marcado no nosso inconsciente. É claro que a gente pode dar destinos diferentes para isso. A gente pode falar: não vou ter um filho, mas vou ter uma carreira, vou escrever um livro, vou fazer uma viagem, coisas que eu falo para mim mesmo como pondo filhos no mundo, vamos dizer assim, grandes realizações que parecem como pôr filhos no mundo. E é verdade. Para psicanálise isso é muito verdadeiro, que a gente possa ter outros objetos, outras realizações que ocupam o lugar dessa promessa infantil de ter um filho. Isso funciona assim, de fato. Mas às vezes a gente quer ter um filho mesmo, né? E as razões para essa escolha, além dessas que eu chamei de amor e inveja, que são o que a gente chama de razões edípicas, né? Do complexo de Édipo de todos nós. Elas também passam por tudo que a gente ouviu falar e pensou e viveu sobre a maternidade. Então, se a gente pudesse adivinhar esse desejo quando ele aparece numa análise, por exemplo, num grande insight, né? Ele pode ser tão pueril como: ser mãe vai me reafirmar como mulher, ser mãe vai me fazer superpoderosa, ser mãe vai ser um presente para esse meu companheiro, ser mãe "Vai dizer quem eu sou?" Então, eles são sempre desejos pueris, mas imperiosos às vezes. E não é que tem o desejo bacana, certo, perfeito, se a gente achar bingo pode ser mãe, não é isso, é que a gente tem que se haver com essa ambiguidade do desejo. E o desejo é uma aposta. Só depois você vai saber se ele cumpriu a sua função ou não. Você pode falar: "Não, eu quero ser médica, é meu sonho na vida." Você vira médica, olha para trás e fala: "Não era isso." Um filho também pode ser uma experiência que você olha para trás e fala: "Não era isso." E talvez, mesmo que seja, talvez tenha um dia que você pense: "Não era isso." E tudo bem, porque ele te decepcionou, porque você se decepcionou com você mesma como mãe, Então, a coisa é um pouquinho mais complicada, é mais da ordem da aposta e ver se os dados caem no lado certo. Isso tem a ver com a escolha que envolve perdas. Escolher é escolher o que você perde. Então, quando ela fala "o olhar da mulher de 50 anos perdida, meio melancólica porque não teve filho", é uma projeção dela.
Andrea Del Fuego:Não, eu não vou ficar essa mulher de 50 anos que não teve filho e tem aquele olhar, sei lá, aquele olhar parado. Você acha que ela está feliz? Não, claro que ela não está. Eu sei por mim. Eu não vou deixar de viver isso para depois ficar sozinha num asilo.
Vera Iaconelli:Mulheres de 50 anos, muitas não tiveram filhos e estão muito felizes. Muitas se arrependeram, e o inverso também é verdadeiro, muitas se arrependeram de ter tido filhos, embora isso é uma coisa que parece que só hoje em dia a gente pode reconhecer como tal, tanto que a gente é assombrado pelo mito da maternidade. Então é um desejo insondável, que ninguém pode responder pelo sujeito, que na atualidade vai na contramão de tudo que se oferece para uma mulher poder viver uma experiência no mundo confortável, né, porque concorre com as outras experiências dela, e que é bancado muito, muito frequentemente na nossa sociedade por mulheres que são mães sozinhas, né, mesmo que tenham marido ali do lado, mesmo que tenha família ali do lado, tem algo que sobra para a mulher de expectativa, de responsabilização, de carga mental, enfim, de coisas que a gente até vai conversar nos próximos episódios. E tem essa ideia de estar preparada, É uma coisa que volta durante toda a experiência materna. Eu estou preparado? Eu estou preparada? Eu estou preparada? E a resposta é não. Não estamos preparados, obviamente, para aquilo que a gente ainda não viveu. Mas como eu posso me preparar? Talvez a maior preparação seja reconhecer, e não é piada o que eu vou falar agora, que a gente não tem como se preparar. Porque uma mazela que a gente vive hoje é a fantasia de estar preparada, é a fantasia de que eu deveria saber, "Alguém deveria ter me contado e aí se eu soubesse, e aí se eu tivesse feito..." Não, a vida é vivida em tempo real. Quem está preparado para a primeira relação sexual? Não está, você pode ter lido todos os livros sobre sexualidade, chega lá, é uma experiência única. Você pode ter tido o seu primeiro filho, o segundo não é igual ao primeiro, não é a mesma experiência. Então, sair de uma certa fantasia, de predição, de garantia e de controle e deixar a vida acontecer e poder se haver com isso é a melhor forma de se reconhecer despreparado sem se cobrar uma preparação que não é possível, porque essa cobrança é um tanto enlouquecedora porque ela é da ordem do impossível. Então, não, não está preparada, mas está ligada, está interessada, está aberta, está a fim de viver essa experiência que não é idealizada, é real, é o encontro com o outro e bancar a sua escolha em toda a sua responsabilização. A outra questão é que Escolher ter um filho conversa com a nossa fantasia onipotente, com a nossa fantasia de gerar outra vida, diferentemente de um livro, uma carreira, uma viagem, esses outros objetos no mundo. Escolher ter um filho tem um tanto de brincar de Deus, é uma coisa que nos assombra como humanidade. Que um humano saia do corpo de uma mulher, é uma coisa que a gente nunca, é uma conta que a gente nunca fecha. Então é a fantasia da maior realização onipotente e, portanto, da maior fragilização, porque a gente sabe que a gente não é Deus, que a gente não tem controle nenhum, né? A gente nunca tem controle sobre o corpo e a gente experimenta isso nessa experiência perinatal, que a gente chama, da gravidez, do parto, o império de uma forma radical. Na hora da escolha, o objeto fica todo mágico, ideal. Então ela está no supermercado, ela vê a relação entre a mãe e o bebê e: "Ai, caramba, isso massageia o meu cérebro." Essa mãe tá fazendo muita cosquinha.
Voz D:É um perigo engasgar.
Andrea Del Fuego:Morre engolindo ar. Olha lá, olha, tão bonito pro filho. Olha a fundo. Tão feliz.
Vera Iaconelli:Realmente, a relação entre a mãe e bebê implica num certo apaixonamento nesses começos, né? No qual o bebê é obrigado a amar o cuidador e fica hipnotizado pelo cuidador, só quer saber do cuidador. E a mãe tá ali também apaixonada pelo seu bebê, muito frequentemente, e atenta, né? Então, a dupla mãe e bebê parece um casal de apaixonados eternos, né? Essa idealização vai cobrar seu preço, porque na hora que o bebê chegar, ele também não é o bebê sonhado. Então, tem uma forma da gente ver a maternidade idealizada que cumpre uma função no desejo de nos colocar em movimento, mas que são formas de idealização, que são formas que não vão se cumprir desse jeito, porque se você sentar com essa mãe no supermercado para perguntar como é o dia a dia dela, provavelmente ela vai falar: "Ai, puts, não sei o que eu inventei de ter bebê, eu não consigo dormir." Aí vem a real que a gente não tem como imaginar até ter vivido. Então essa escolha também, e muito frequentemente as mães de bebê vão dizer que ninguém contou pra elas, que se elas soubessem, né? Mas isso é curioso porque elas têm um ouvido bem seletivo, né? Na verdade elas não quiseram ouvir os perrengues na hora da escolha. Porque é isso que a gente faz, né? As pessoas falam: "Ai, isso aí não vai ser legal." Você fala: "Ah, vai, vai, vai." Porque o teu desejo está colocado ali. Então, a gente tem uma escuta seletiva a partir de um desejo que já está formulado, de algum lugar que a gente tem dificuldade de ouvir, e ele faz com que a gente só enxergue o que a gente quer. Que nessa cena aparece muito claramente, assim como na cena da mulher de 50 anos com o olhar perdido, né? São projeções. A gente não poderia falar de escolha na nossa época sem pensar no atravessamento das redes sociais, que fazem um jogo muito curioso que vai da idealização do bebê maravilhoso no colo sorrindo a outra cena de uma verdadeira demonização. A gente tem só dois polos aqui muito insensados. Com os quais é difícil se identificar e ao mesmo tempo não ficar capturado por essas falas, uma vez que você ainda não viveu a experiência. O desejo vai criando uma seletividade ali das experiências, mas o que a gente não pensa é que tem momentos em que não são nem maravilhosos e nem terríveis. Tem tédio também, tem o dia a dia, são relações do dia a dia, são relações cansativas, são relações monótonas, são relações de alguns picos de alegria e alguns momentos de muita angústia. Então é a vida como ela é, não é um estado de exceção. Essa rotina de um filho e essa experiência de um filho que ao longo de uma vida inteira, né, não é um bebê, é uma criança, é um adolescente, é um adulto, é um velho, né, é uma experiência para a vida inteira, vai ter absolutamente de tudo. Mas a polarização das redes sociais deixa as mulheres divididas por duas cenas que não são o dia a dia da experiência. E a grande queixa no consultório é mais a monotonia mesmo, né? A repetição do cuidado, ano após ano, que você vai assumindo e que vai se transformando, porque, claro, essa figura vai crescendo, você vai se transformando também. Mas todas essas imagens, elas são recortes muito injustos. E muito polemizados, né? Então, dar um passinho para trás e pensar a maternidade como uma experiência relacional ao longo da vida, entre humanos, cheia de descobertas e perdas, seria mais justo do que essas cenas picotadas que a internet usa para vender produto, para extrair a nossa atenção, que é o que ela faz, né? Para ocupar a nossa atenção. E que não ajuda, inclusive, com fantasias do que deveria ser uma mãe, se existe a mãe correta, ou a performance do filho, o que ele deveria ser, e todas essas questões. Vale a pena pensar nesse pai mastigador aí, que fica assistindo filme, comendo e só fazendo pequenos sons de quem não não está ouvindo absolutamente a mulher, é uma figura um pouco caricata, mas representa algo muito da ordem do masculino que conversa com essa maternidade, que é: "Esse assunto é da mulher, um tanto desse assunto não me diz respeito". E essa ideia é que vai aparecer também junto com: "Ele vem para ajudar uma coisa que as mulheres resolvem e que a maternidade é da ordem delas". É uma certa Desresponsabilização que está dada de saída. De novo, a ideia de que um filho é da mãe e essa mãe tem que se ocupar e decidir e se responsabilizar. Não sabemos se ele vai acompanhar, vai ser um bom pai, um pai omisso, mas tem algo de não se implicar na questão que facilita para o lado de quem não se implica, porque também não se responsabiliza, né? A gente sabe que isso é muito comum, por isso é importante retomar isso. Isso é fonte de muito ressentimento nos casais, né? O efeito desta escolha na conjugalidade não é pequeno, porque nessa hora que o homem pode dizer: "Ah, mas não escolhi, foi você que escolheu, você não me consultou." Fica todo um jogo de empurra que a gente sabe que fica pro lado da mulher. Então, ao contrário do casal aí do exemplo, seria muito legal uma conversa com TV desligada, sem distração, não para essa mulher decidir ou não ter filho em função deste pai, mas para ela saber com quem ela pode contar e quais são as regras do jogo, né? A avó é mais explícita, ameaçando não participar.
Voz D:Olha, filha, vai sobrar para mim. E eu também "Não tenho mais idade, eu tô querendo descansar, sabe?
Vera Iaconelli:Andar por aí, tomar uma cerveja." Acho um jogo bem limpo das aspirações da avó também, claro, a avó não precisa ser essa figura presente. O que a gente descobre é que muito frequentemente depois, quando a criança nasce, essas avós comparecem sim, não sempre, mas também entre a fala e o desejo só a posteriori se sabe. Mas é importante saber com quem se pode contar numa experiência desta magnitude. Nesse exemplo, a figura da mãe solo ganha uma outra dimensão, que não é só a mulher que foi num banco de esperma e fez uma inseminação sozinha, num projeto sozinha. Ela pode estar rodeada e não ter ali ninguém que faça uma função de contorno suficiente para que ela não se sinta só. Lembrando que a maternidade, no caso de gravidez, parto e puerpério, ela tem algo de uma solidão intrínseca. Mesmo que houvesse toda uma "aldeia", como se diz, no entorno desta mulher, a experiência perinatal, o positivo da gravidez, é uma coisa que ela não tem como compartilhar com os demais. Porque tem algo de absolutamente solitário nessa experiência que se passa dentro do corpo dela e que, por mais que ela tivesse todas essas figuras ali apoiando, ela teria que se haver de um jeito único. E isso faz parte dessa escolha também.
Andrea Del Fuego:Será que eu tô pronta? Será que eu tô pronta?
Vera Iaconelli:Para a preciosa pergunta: "Será que eu estou pronta?", talvez a melhor resposta seja: "Não estou pronta, mas consigo sustentar isso". Talvez essa seja a resposta mais honesta e mais apaziguadora. Adequada que a gente consegue ter num momento como esse. Começa a tomar vitamina, hein?
Andrea Del Fuego:A minha caçula vem fortinha com a vitamina E.
Vera Iaconelli:Eu tomei até a mamamentação. Toma E e toma ferro também, é muito bom.
Andrea Del Fuego:Será que eu perdi o Nono por falta de vitamina?
Vera Iaconelli:Não perdeu, Não, não, ele tá aí de novo cuidando de você. Quando a gente fica grávida, vem um monte de sensações: onipotência, culpa e um estranhamento do próprio corpo. No próximo episódio, a gente vai ouvir e falar das desigualdades sociais e preconceitos que cercam a gestação, da importância da escuta e da rede de apoio. Porque cada gravidez é singular e pede cuidado. Te espero lá! No próximo episódio de Como Ser Mãe. Este foi o Como Ser Mãe, um original áudio produzido pela Trovão Mídia, apresentado por mim, Veri Aconelli, dirigido por Ana Bonomi e José Orenstein, escrito por Andréa Del Fuego, com direção de cena de Amanda Lira e direção de elenco de Melina Antiz. A produção foi realizada por Ana Bonomi. Estúdio de gravação e pós-produção de áudio: Fonocórtex. Desenho de som e mixagem em Dolby Atmos: João Vítor dos Santos. Edição de ambientes: Isabelle Marques. Assistente: Igor Santana. Música original por Arthur Decloé. Elenco: Ana Laura Araújo, Amanda Lira, Camila de Castro, Carlota Joaquina, Carol Costa, Cleiton Mariano, Guilherme Pereira, JB Oliveira, Carla Braga, Lana Godoy, Mahá Descartes, Maria Lúcia Branco, Melina Antiz, Monalisa Silva, Nindie Miller, Paula Silvestre, Rafael Pimenta, Rebeca Jamir, Soraya Said, Tainá Rodrigues. Ilustração da capa de Bruna Mancuso. Assessoria jurídica por Borges Salém, e Além Advogados. Time de conteúdo original Audible Brasil: Diretor Audible Studios Brasil, Leo Neumann. Líder de projeto, Fernando Scher. Gerente de produção, Arisson Borges e Juliana Dendem Arcanjo. Líder de conteúdo Latam, Paulo Lengruber. Diretora-Geral Brasil, Adriana Alcântara. Líder global de conteúdo, Raquel Ghiaza. Copyright 2026 por Amazon Serviços de Varejo do Brasil Ltda. Copyright da gravação de som 2026 por Audible Inc.
Vera Iaconelli:Obrigada por escutar. Para ouvir a temporada completa de Como Ser Mãe e descobrir outras histórias imersivas como essa, Acesse agora a audible.com.br. Dá para fazer sua conta e usar o teste grátis por 30 dias ou 3 meses se você for membro da Amazon Prime. Todos os episódios já estão disponíveis para você maratonar.
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