Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

Catto precisou mentir, fugir e desobedecer para se apaixonar pela vida

09 de junho de 202655min
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Esse episódio especial foi gravado ao vivo na Catedral Metropolitana de Porto Alegre, cidade natal da cantora e compositora Catto, durante o Festival Fronteiras.

Catto cresceu em uma família grande, marcada pela tradição, pelo trabalho e por mulheres que sustentavam a casa. Desde criança, sentia que não cabia nas expectativas que pesavam sobre ela. Na conversa com Vera Iaconelli, fala sobre a avó que foi patrocinadora da sua rebeldia, a relação complexa com os pais, a transgeneridade e a decisão de deixar Porto Alegre para construir a própria vida.

Conheça o Festival Fronteiras em ⁠https://www.instagram.com/festivalfronteiras/

Ouça “Como ser mãe?” na Audible, nova audiossérie de Vera Iaconelli, com roteiro de Andrea Del Fuego e direção e produção da Trovão Mídia: https://www.audible.com.br/pd/Como-ser-mae-Audiolivro/B0GZ133PLQ 

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Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
C

Catto

ConvidadoCantora e compositora
Assuntos8
  • Identidade Trans e a Definição de MulheridadeSentimento de não pertencimento desde a infância · Incompreensão familiar e social sobre transgeneridade · Transição de gênero e catarses · Expressão através da arte e da música · Catto
  • Obediência e DesobediênciaDesobediência como forma de autoafirmação · Mentir e fugir para viver a liberdade · Autonomia e independência · Descoberta da contracultura e paixão pela vida
  • Relação abusiva e questões familiaresNegação da identidade trans pela família · Proposta de internação psiquiátrica · Problemas de saúde mental negligenciados (bulimia, ideação suicida) · Desvalorização da percepção e das necessidades da criança
  • Noel e avós maternosMãe jovem e trabalhadora · Avó como figura materna e patrocinadora da rebeldia · Amizade e horizontalidade na relação mãe-filha · Luto pela perda da avó
  • Perspectiva e visão de mundoDesejo de ir embora e conhecer o mundo · Experiência em Nova York e independência financeira · Retorno a Porto Alegre e São Paulo · Construção da carreira artística com autonomia
  • Relacionamentos FamiliaresFamília como sinônimo de amizade e confiança · Diálogo aberto e transparência · Superação de idealizações e busca por relações autênticas · Separação e reaproximação familiar
  • Avô circense e tradições familiaresFamília grande e unida · Imigrantes italianos · Trabalho e empreendedorismo familiar · Comunidade rural
  • Arte e Expressão PessoalSilenciamento e falta de voz na infância · Desenho como refúgio e forma de expressão · A voz como proteção e ferramenta de trabalho · Corporeificação e autoaceitação · Composição musical e escrita como narrativa pessoal
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Catto:Trovão Mídia.

Voz B:Um aviso para você, querido ouvinte, antes da gente começar. Esse é um episódio especial que foi gravado ao vivo no Festival Fronteiras em Porto Alegre, em maio de 2026. Tinha uma plateia de umas 300 pessoas que lotou o auditório da Catedral Metropolitana. Então você vai ouvir um pouco de eco e barulho, mas também espero vai se emocionar ouvindo a Cato. Ah, e essa semana não vai ter episódio bônus aqui no podcast, porque a pergunta que ela me fez no fim da nossa conversa foi bem curtinha, mas eu adorei responder. Fica até o final para ouvir. Por fim, fica o nosso muito obrigado ao Festival Fronteiras por ter proporcionado esse encontro super especial. A gente deixou o link do Instagram deles aqui na descrição do episódio para você conhecer mais e saber de tudo que rolou em Porto Alegre.

Vera Iaconelli:Oi, eu sou a Véria Conelly e isso não é uma sessão de análise, um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. Aqui a conversa é sobre família. A cada episódio uma pessoa me conta sua história familiar Sem dourar a pílula, a gente olha para as complexidades desse assunto íntimo, mas universal. São relatos que nos apresentam diversas possibilidades de ter e ser família. Nessa diversidade, a gente se estranha, se identifica e repensa o que é familiar. Hoje, pela primeira vez, gravamos ao vivo. Isso não é uma sessão de análise aqui nessa catedral incrível. Em Porto Alegre. A gente está no Festival Fronteiras, um espaço muito especial. E a minha convidada de hoje é gaúcha, morou um tempão em Poá, é a cantora e compositora Cato, a filha da Marlete e do Oscar, a irmã do Davi, da Letícia e do Dan.

Voz B:O episódio de hoje tem o apoio da Audible. Tem histórias que começam quando alguém encontra um nome possível para si. Isso me faz lembrar de Ninguém com Esse Nome, uma audiosérie original da Audible que toca justamente em questões de identidade, pertencimento e reconhecimento. É uma ficção para escutar, tipo uma radionovela, com Eduardo Moscovis, a Cláudia Duarte e grande elenco. Muito delicada e emocionante. A Audible é o maior serviço de audiolivros e audioséries do mundo, da Amazon. Dá para testar gratuitamente por 30 dias ou por 3 meses se você for membro da Amazon Prime. O link está na descrição desse episódio. E fica aqui o meu convite final: vem ouvir Como Ser Mãe. Na Audible, eu junto cenas ficcionais escritas pela Andrea del Fuego com reflexões sobre tudo aquilo que costuma ficar de fora quando a gente fala sobre ser mãe.

Vera Iaconelli:Bem-vinda, Cato.

Catto:Olá, tudo bem?

Vera Iaconelli:Tudo. Nome, prazer, uma honra ter você aqui. Uma honra também.

Catto:Que coisa linda, obrigada.

Vera Iaconelli:E a gente começa com uma pergunta que eu sempre faço, que é: qual a sua referência de família, pensando na tua origem, na tua história?

Catto:A família para mim é uma coisa muito espalhada assim. Eu sou de uma família enorme, de muita gente. Então assim, a família da minha mãe, né, que era onde eu estava mais inserida, É uma família que até hoje mora todo mundo na mesma rua, são pessoas que vieram do interior do estado para Porto Alegre, fizeram toda uma vida com essa coisa, essa permanência, estarem sempre juntos, jantarem juntos, fazerem férias juntos. Então tinha uma sensação um pouco tribal, porque eu não tinha muito uma separação do que era eu e os meus primos, era uma coisa meio criada como irmãos ali, todo mundo. Naquele ambiente. Então, a minha mãe era muito jovem quando me teve.

Vera Iaconelli:Quão jovem?

Catto:Ela tinha 22 anos. Muito jovem, né? Naquela época, nos anos 80, eu acho que era uma idade normal para uma mulher ter filhos. A minha mãe casou muito jovem, teve filhos muito jovem. Eu sou a primeira filha, né? Então, também tinha isso, assim, toda uma grande coisa. E isso se estende até hoje, eu acho, até com as amizades, sabe? Eu sinto que O meu grande amparo, para além da minha mãe, que é uma pessoa que é de fato um amparo muito grande emocional para mim, meu irmão também, Davi, e os meus amigos de anos que estão aqui, né? Eu tô aqui em Porto Alegre, muito engraçado, porque eu chego aqui, eu já não moro aqui há 15 anos, e eu frequento a mesma turma de amigos e encontro esses amigos, e a gente sai junto, e é um momento de muito É um momento de fundamento para mim, assim. Eu sempre fiz questão de estar perto dessas pessoas que estavam comigo na escola, que estavam comigo nas festas, que estavam comigo dentro dessa formação toda, assim. Eu me sinto acolhido, assim, tipo, numa coisa mais coletiva, mais do que essa coisa mais familiar, assim.

Vera Iaconelli:Eles vêm de onde? A sua família vem de onde? Você disse que então vieram todos para cá. Em que condição? Como é que foi essa chegada em Porto Alegre?

Catto:A minha avó e meu avô, eles moravam em Nova Brécia. Que é no interior, e era uma comunidade rural mesmo assim. Eles moravam numa comunidade rural, tinha uma casa lá, né, plantavam e tal. Aí o meu tio mais velho veio para Porto Alegre primeiro, aí começaram a vir os irmãos trabalhar em churrascaria, fazer todo esse negócio, né. Minha família é do ramo de restaurantes, então tem churrascaria, tem pizzaria, tem coisas assim na Zona Norte e também Gravataí, né, que são as cidades mais ali para, são cidades vizinhas. E aí vieram, acho que é uma história meio comum aqui das pessoas, né? Vieram trabalhar, começaram a construir suas coisas, aí chamava os irmãos, ajudava, começaram a construir, aí viravam sócios, blá blá blá. Minha irmã era mais, minha irmã não, minha mãe era mais jovem. E aí ela veio estudar, aí começou a trabalhar com os irmãos dela, começou a aprender e fazer as coisas, conheceu meu pai também nessa função e aí começou. Toda a vida assim, mas é uma família italiana assim, de imigrantes italianos, né? Aquela coisa super da colônia italiana do interior do estado, de famílias, casam com famílias, né? Tem toda essa coisa super arraigada.

Vera Iaconelli:Você falou uma coisa tão bonitinha que você falou a minha irmã, quando você queria falar, e eu sempre faço esse ato, eu falo com a minha irmã que eu chamo de irmãe, porque ela tem 11 anos mais do que eu e ela fez muito uma função de mãe, porque minha mãe é bem mais velha, né? Sim. Você acha que essa essa mãe foi ficando um pouco próxima, como uma irmã, assim, uma intimidade? Você falou, né, 22 anos, jovem, como é que é essa relação com essa mãe? Ou era ou é?

Catto:É maravilhosa, e é justamente, eu acho que a gente tem uma irmandade assim, eu acho que desde sempre, a minha irmã, vou falar de novo, a minha mãe, ela é uma irmã para mim também, eu acho que a gente tem essa horizontalidade de relação. Acho que isso é uma coisa muito forte, assim. A gente se ampara muito, a gente tem um diálogo muito honesto. A gente já se ajudou em momentos em que a gente teve que colocar de lado o papel de mãe e filha e teve que se colocar de um lado um pouco mais de amizade. Eu acho que a amizade entre nós é a maior conquista que eu tenho na minha vida. Porque, claro, quando eu era mais nova— Também tem isso, a minha avó era uma pessoa muito presente. Então eu fui muito criada pela minha avó, justamente pela minha mãe. Tá muito ocupada nesse momento ali do começo da vida dela trabalhando. Minha mãe trabalha muito, a vida dela é o trabalho. Ela trabalha 7 dias por semana, é ela que administra a empresa dela, ela que faz tudo. Ela é uma pessoa extremamente focada nisso e também tem uma relação familiar para além de mim, do meu irmão, que moramos longe e tal, com os próprios funcionários e as pessoas da empresa. Assim, são pessoas que estão lá 30 anos trabalhando com ela. Então tem muito isso assim. E a avó era uma, era a grande matriarca que cuidava de mim, cuidava dos meus primos, cuidava de todo mundo. Tinha minha madrinha também, que era uma mais velha da minha mãe, que cuidava da gente. Quando eu era pequena, eu não sabia muito quem era minha mãe. Eu tinha isso assim, é uma coisa que eu trato na análise, porque para mim era uma coisa assim, eu achava que eu tinha sido adotada, alguma coisa assim, que eu não tinha muito uma âncora, uma coisa de de um sentimento materno muito definido, porque eu tava sempre com uma mãe diferente assim, e principalmente com a minha avó, que era a pessoa que mais tinha esse contato do cuidado assim, né, comigo.

Vera Iaconelli:É, sua avó veio morar também aqui?

Catto:Sim, a minha avó e meu avô vieram. Meu avô morreu muito quando eu ainda tava sendo gestada, né? Então tem isso. A minha mãe era muito apegada ao meu avô, ele era o herói dela assim. Até hoje ela fala dele com essa, com esse amor, com essa admiração. E justamente quando ela tava com uns 4, 5 meses de gravidez, ele faleceu. Tem, eu acho, uma coisa meio espiritual até, meio dentro de mim, que eu acho que esse luto mexeu comigo assim, de alguma forma. Eu acho que o luto dessa mulher muito jovem, dessa menina grávida perdendo o pai e gestando nessa primeira criança dela, acho que isso foi uma coisa muito Ele morreu inesperadamente?

Vera Iaconelli:Ele estava doente?

Catto:Estava doente, alcoolismo, assim. Grande mal da família materna.

Vera Iaconelli:Nossa, você fala tanta coisa interessante que eu queria pegar um pouco essas coisas, né? Sua mãe chegou a ser chefe de família? Ela que sustentava a família, não?

Catto:Sim, ela sempre sustentou. A minha mãe era a chefe de família e continua sendo.

Vera Iaconelli:E que a gente sabe que hoje a metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres e 15% sozinhas. É interessante como tem essa marca dessas mulheres que estão sempre mantendo essa família de pé. E essa confusão entre as mães, temos um trabalho tão bonito da Cláudia Fonseca, que é uma antropóloga que trabalhou aqui em Poá, falando muitas vezes dessas crianças que sentem que têm, e têm mesmo, mais mães, porque circulam entre mães diferentes, às vezes até vizinhas, que assumem essas funções, que ela chama dessa circulação de crianças, e que vai fazendo a família ficar muito menos redondinha do que aquela coisa de mamãe e filhinho. Mas tem outra coisa, Cato, que é o luto. A perda de um pai durante a gestação é simbólica, porque a gente, um pouco, quando tem filhos, a gente trai pai e mãe. A gente fala: "Agora quem vai ser pai e mãe sou eu, vocês estão sendo superados". Então, a gente tem um pouco essa culpa meio inconsciente. Mas quando, de fato, eles morrem, no real, tem um luto importante a ser feito, porque você superou e a pessoa não está nem para te dar benção depois. Então, achei tão bonito você dizer que você conseguiu desenhar toda uma cena. Ela é jovem, ela é a rima de família, ela é essa figura que perde o pai nesse momento. Uma figura muito interessante, muito impactante.

Catto:É mesmo, eu fiquei emocionada porque... E não tinha, não sei se também por não ter acesso, acho que a minha mãe ela veio a fazer análise faz pouco tempo, né? É tudo um pouco na selvageria assim, é tudo muito visceral nessa família também, porque as coisas elas se dão assim, parece um filme do Almodóvar, é no trabalho, é numa coisa muito... Muito física assim, tudo muito— as pessoas não tinham tempo para sofrer na minha família, não existia muito isso assim, né? Eu sentia que tinha uma, até uma rejeição à dor assim, tipo assim, meu, frescura, tem que ir, tem que fazer, tem que trabalhar, tem que girar, tem que fazer. Eu acho que eu também absorvi um pouco dessa força assim, porque na minha vida eu também tive que ir muito à luta, sempre fui muito à luta e não tive tempo para parar, nem mesmo a minha A minha transição de gênero, todas as minhas questões de viver dentro de uma janela, de uma gaveta minorizada, dentro de um espaço minorizado dentro da sociedade, eu sempre meio que tive que cortar isso, não pensar muito nisso e ter que seguir em frente, fazer as coisas e não me importar muito com os murmúrios ao meu redor e fazer as coisas acontecerem assim. Apesar das minhas próprias tristezas também, das minhas próprias depressões e questionamentos e tal.

Vera Iaconelli:Tem muitas famílias que têm esse modus operandi de sobrevivência, né? A gente pensa nisso depois. E eventualmente esse depois chega. Aí você disse que agora sua mãe faz análise. Já dá para fazer análise? Já dá para parar e pensar na vida?

Catto:Ela teve, né? Porque assim, a minha mãe teve uma decepção muito grande quando separou do meu pai, e foi um negócio muito pesado.

Vera Iaconelli:Quando que foi?

Catto:Foi agora, anos atrás. Ela ficou 40 anos casada com ele. E foi um divórcio muito doloroso e muito cheio de ódio, assim, de raiva da minha parte também. Foram coisas que aconteceram que agora a gente tá tentando reconstruir essa relação de outro jeito, porque não dá para ser baseada no que era, é uma outra coisa. E aí foi uma coisa muito louca assim, porque num ano rolou esse divórcio que mexeu comigo, mexeu com meu irmão, mexeu com meus outros irmãos também, que são por parte de pai, né. Eu tenho um irmão por parte de mãe e pai, que é o Davi, e uma irmã e um irmão por parte só de pai, que é a Letícia e o Dan. Aliás, o Dan também é trans, que é muito legal assim, porque eu tenho a oportunidade de ter um irmão que acompanha, que a gente se tenha assim essa intimidade, e que também mora em São Paulo, porque o meu irmão Davi mora na Austrália, Letícia mora aqui, e o Dan mora em São Paulo, e a gente tem um convívio um pouco mais íntimo, que é maravilhoso. E foi um divórcio muito inesperado, acho, para todo mundo, porque existia uma estabilidade ali, a minha mãe sempre segurando as pontas e sempre cuidando de tudo. Meu pai é um artista, então sempre no mundo dele, vivendo as coisas dele e naquele mundo meio difuso e impenetrável. E aí, logo depois que ela separou, a minha avó, com 89 anos, que era uma pessoa saudável, que não tinha nada, tinha nenhum, nada, morre do dia para noite assim. E foi um grande baque, tá sendo ainda um luto duplo, né, porque é o luto de um pai que tá vivo, mas que também morreu em algum sentido simbólico, óbvio, porque é uma transformação absurda. E uma matriarca enorme, generosa, e que tava ali como uma rocha para todos os irmãos. São 6 irmãos da minha da minha mãe. O meu pai tem, sei lá, 8 irmãos, é muito, muito família muito grande do meu pai. E aí a minha avó morreu ano passado, eu tava aqui, foi uma coisa tão mágica essa morte da minha avó. Tem coisas que eu levo assim como, como bênçãos mesmo. Não dá para a gente lutar contra os fatos da vida, mas por algum motivo era começo do ano assim, eu tive um— me convidaram para viajar, amigos me convidaram para viajar, eu tive uma coisa tão forte, visceral, eu falei: "Não, esse ano eu preciso passar o Natal, o Réveillon e passar uns 20 dias em Porto Alegre com a minha mãe." Eu senti até porque ela tinha recém-separado, queria estar perto dela, fazer esse afago. O meu irmão veio da Austrália para cá, então tava eu, meu irmão e a minha mãe aqui. E a gente tinha viajado para a Praia do Rosa, tava chegando em Porto Alegre. No mesmo dia eu ia ter uma participação no Sarau Elétrico, que é um evento lindo de literatura, música, poesia, com a Kátia Sullman, o professor Fischer, lá no Ocidente. Então, negócio super tradicional aqui de Porto Alegre. A gente chegou de carro, minha avó estava na frente de casa tomando chimarrão dela, normal, tranquila, ótima. Aí eu fui para o Ocidente, a minha mãe foi me encontrar lá, teve o evento lá, a gente ficou juntas, jantou junto com a Kátia também, jantou junto com os amigos lá. E aí chegou um horário da noite. A minha mãe morava com a minha avó. Minha avó morava na casa de baixo, a minha mãe mora na casa de cima. Parece uma casa de dois andares, mas são duas casas. E aí eu tava lá nesse bar lá do Bonfim, e a minha mãe falou: 'Ah, a gente tá indo, vamos junto.' Eu falei: 'Não, vou ficar um pouco mais com a galera, vocês vão depois, eu encontro vocês em casa.' Deu uns 20 minutos, quando eles já tinham saído, meu irmão me liga desesperado. Chorando, sem saber, sem, totalmente sem chão assim. E me fala que a vó tava morta. Eles chegaram em casa, tipo, viram as luzes ligadas, era meia-noite, ela não tinha esse costume, abriram a porta e ela tava tipo caída no chão, tipo com fogão ligado fazendo comida assim. Ela tava lá pelo menos umas 2 horas, pelo jeito. Foi um mal súbito, ela simplesmente teve um treco, caiu no chão e pronto. E lógico que foi um choque porque foi muito inesperado, muito, né? Perguntou sobre o meu avô. Meu avô não, meu avô ficou realmente doente, né, tipo durante muito tempo por causa de cirrose. Acho que ele teve alguma coisa assim, não lembro, mas era coisa em decorrência do alcoolismo. A avó não, a avó foi até o último dia de vida dela trabalhando. Ela trabalhou no último dia de vida dela, ela acordou 5 da manhã como ela que ela sempre fazia e foi na churrascaria lá do meu tio, que ela era sócia, fez tudo que ela tinha para fazer, a rotina dela, tomou chimarrão de tarde, encontrou as filhas, encontrou as amigas, foi fazer uma sopa, sei lá, caiu dura e morreu. E era justamente o jeito que ela viveu a vida inteira, porque a minha avó nunca deu trabalho, ela nunca foi, sempre muito independente. Eu acho que era sobre isso também que me pegou muito assim, ela foi sempre uma pessoa muito independente, Como ela morava junto da gente, a minha avó, ela era minha figura de proteção, porque a minha mãe era muito mais autoritária que ela. Meu pai era muito mais— não tinha muita participação assim nessa coisa de cuidar.

Vera Iaconelli:Mais ausente, um pai mais ausente.

Catto:Ele era presente porque tava em casa, mas ele era emocionalmente inacessível. Então, assim, era uma pessoa que ele se fazia presente através da arte. Ele me levava no cinema, ele comprava os desenhos que eu via, ele se colocava nesse lugar mais de um de um mentor cultural, me ensinou música, a gente tinha esse contato através da música, através das coisas, que era muito legal também. Ele é uma pessoa muito legal, tem muitas qualidades também, óbvio, mas é que uma criança precisa de certas demandas, certas coisas que, enfim, que às vezes tem, peca, né? Mas acho que a vida é assim, não tem.

Vera Iaconelli:É, mas acho que é interessante pontuar como às vezes os homens não vão embora, não abandonam, embora muitos abandonem, "Mas a presença é uma presença tão questionável, tão curiosa, meio coadjuvante, não inteiramente responsável pelo que está em jogo ali." Não, nem um pouco. Fica com a parte mais fofa, ou não fica nem com a parte fofa, vem só para bronca. É como se estivesse com um pé dentro e um pé fora. E a mãe que leva a bucha de canhão de dar bronca, de corrigir, de ficar, vira a figura mais difícil, porque mais fazendo o seu papel.

Catto:É isso, sempre tive esse amparo de muitos lugares. E a vó foi uma pessoa que me dava toda liberdade, assim. Chegou um ponto da minha vida que eu fui morar com ela quando eu era mais jovem, assim. Quando eu fui estudar de manhã, né, que eu estudava à tarde, meu irmão nasceu. Então ficou aquele cuidado com a criança e eu fui morar com a minha avó com 11 anos, 10 anos de idade, 11 anos de idade. Fui morar com ela.

Vera Iaconelli:11 anos de diferença com o segundo?

Catto:Não, não, não, tenho 7. A 7, ele tava pequeno ainda, né? Fui morar assim Ia pra escola, né. Eram duas casas, uma em cima da outra, então ia pra escola, passava o dia lá na casa da minha mãe, fazia as coisas todas, jantava, ia dormir com a vó. Dormia lá embaixo, que eu tinha o meu quarto. Que na casa da minha mãe não tinha um quarto pra mim, tinha um quarto só pra os dois, assim, era um quarto pras duas crianças. E eu precisava de uma certa privacidade, assim. Aí eu fui morar com a minha avó, que tinha um quarto vago. E lá foi que também piercing. Ai, eu quero fazer um piercing, minha mãe não deixava. Minha avó me dava o dinheiro, eu ia lá e fazia. "Quero sair." "Não pode." "Ai, vou lá e faço." Vai tudo, eu advogo pelas avós. E ela foi tipo a patrocinadora da minha rebeldia, graças a Deus. Porque eu acho que também tinha isso. A minha mãe falava uma coisa quando eu era criança, muito boa, que ela sempre falava assim: "Eu fazia o que eu queria porque eu sabia que eu não tava fazendo nada de errado." Então ela desobedecia também, a minha mãe também era da pavirada. Ela saía, fazia a festa e ela não Ela não tava nem aí. E só que ela era muito, ela ficou muito mais autoritária à medida que ela percebeu que eu era LGBT. Porque quando eu comecei a adoecer, aquela criança tímida, introvertida, que não tinha voz, começou a se rebelar.

Vera Iaconelli:Que não tinha voz, Cato? Como assim? Que lindo isso!

Catto:Eu não tinha voz.

Vera Iaconelli:Agora você tem toda a voz do mundo.

Catto:Pois é. "agora sim", mas é uma voz que não é só a voz física, é a voz da palavra, da verdade, né, de poder contar a verdade. Isso é uma coisa muito louca.

Vera Iaconelli:Então você tá contando que essa avó que morreu não era sua avó, né? Não, você tá fazendo um luto de uma avó que, assim como a mãe, irmã, essa avó teve um papel muito estruturante para você, né?

Catto:Nossa, sim, para mim era muito louco. Quando a avó morreu, foi muito louco. Deu perceber a minha mãe como uma criança órfã, assim. Eu fiquei muito mexida com isso, de perceber o quanto a minha mãe tava desamparada de não ter a mãe dela ali. Porque tudo que a minha mãe fez na vida, ela teve a avó para segurar o Rojão.

Vera Iaconelli:Mas para você não era perceptível, você achava que ela—

Catto:que era uma coisa só.

Vera Iaconelli:Que ela— olha que interessante.

Catto:Para mim, a ideia da maternidade vinha junto muito dessa estrutura, porque eu sempre soube que a prioridade da minha mãe era o trabalho dela. Ela nunca escondeu isso. Acho que ela sempre foi muito legal também, né, de ter isso. Ela, minha mãe, sempre viveu para isso. Isso era o mundo dela, é a paixão dela, o trabalho dela, como a minha paixão é o meu trabalho. Eu acho que isso não tem nenhum problema assim. Sempre fui muito bem resolvido até com isso. Mas quando a minha avó foi embora há pouco tempo, acho que tudo começou a se ressignificar. E até mesmo esse elo entre eu e ela ficou muito mais forte. Eu acho que também por causa da minha transição, porque tinha essa coisa esquisita desse papel de gênero estranho que não se resolvia dentro de mim, até que eu percebi que eu era uma delas. Porque ser uma delas, para mim, faz todo sentido, né? Teve um dia na minha— dentro das minhas catarses, porque a transição vem com muitas catarses, e são catarses violentas, não são catarses pouco catárticas, é um negócio animalesco, e eu tive assim quase uma incorporação satânica assim, desculpa, é a Catedral de Porto Alegre. Mas tem essa relação que eu até visualizava nas coisas medievais Tipo os livros de ocultismo, essa coisa que hoje eu consigo compreender como uma possessão arquetípica, às vezes, que tem esse tipo de coisa. E aí eu falei para minha mãe num momento de muito jogo, eu falei assim: "Eu nunca fui um menino tímido, um menino sem voz, um menino fraco, um menino que não se expressava, um menino que só tinha a música. Eu só tinha a música, então a música para mim era tudo." Porque a música era o único lugar que eu tinha um espaço de verdade, que também era muito limitado, porque eu podia cantar, eu não podia dizer nada sobre mim. A voz, ela sempre foi uma maneira de me proteger para eu poder trabalhar, para eu poder me inserir, para eu poder me descobrir, para eu poder fazer tudo isso. Mas eu só consegui, de fato, contar a minha história como compositora, como como escritora, como uma pessoa que tem algo a contar de si mesma, há muito pouco tempo. Só agora eu estou conseguindo compor músicas que falam explicitamente sobre a minha experiência de vida, que falam explicitamente sobre o que eu penso, o que eu falo, o que eu sinto, sendo a pessoa que eu sou, no meu ponto de vista. Porque durante muito tempo eu escrevia coisas que eram mais alegóricas ou eram coisas um pouco mais pela forma do poema ou pela forma Tinha o sentimento ali, tinha uma verdade ali, mas ela não era na cara, não era escrachada. Ela era envolvida de subterfúgios para não ser, para eu não ter que me expor desse jeito. Ou então cantando canções de outros autores que me traduziam muito, mas que não eram as minhas palavras, mesmo que fosse também, porque eu acho que ser intérprete é isso. Mas eu falei para ela: eu nunca fui esse menino, porque eu sempre fui a tua filha. E essa pessoa tem muita personalidade, essa pessoa é dona da sua vida, essa pessoa lutou pra caralho pra chegar onde tá, essa pessoa que vem de um pai músico e de uma mãe e de uma avó que me deram as ferramentas pra eu poder estar no espaço que eu tô hoje, porque isso não é talento, isso é luta, é resiliência pra caramba, né?

Vera Iaconelli:Pai músico?

Catto:Sim.

Vera Iaconelli:Tem tanta coisa que eu gostaria de perguntar. Quanto tempo faz que a sua avó faleceu?

Catto:Faz um ano, eu acho, um ano e pouco.

Vera Iaconelli:É muito recente. É muito recente. É muito recente. Porque reorganiza a família toda, né? Tem uma taxinha do mapa que sai e as pessoas têm que arranjar uma outra taxinha de referência. É muito importante esse "loss". Você quer contar um pouquinho como é que caiu nessa estrutura de família que vem do interior, batalhando para mudar de classe social, para alcançar alguma condição diferente? Essa tua experiência pessoal com a transgeneridade?

Voz B:Como é que foi?

Vera Iaconelli:Como é que cai com esses irmãos, com essa... E depois eu quero saber mais da catarse.

Catto:Eu sempre me senti um peixe fora d'água, assim, e desde muito cedo. Eu era pequeno, eu tenho memórias claríssimas de ter 2 anos, 3 anos, eu acho que foi quando isso começou a aparecer, porque não era uma questão de gosto de meninos, era eu sou uma menina, feminina. Não era uma coisa de querer sentir afeto por meninos, isso não era uma questão para mim, não era sobre gay, era sobre se sentir um ser feminino, do jeito que fosse.

Vera Iaconelli:Mesmo porque uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Catto:Claro, não tem nada a ver com isso, porque as pessoas podem confundir, né?

Vera Iaconelli:Ter desejo por meninas.

Catto:É que não tinha nenhuma...

Vera Iaconelli:Podia ser também.

Catto:Não tinha nada. Naquele contexto familiar, que era compulsoriamente heterossexual, católico, família de imigração italiana, muitas pessoas que não tinham nem escolaridade, né? Minha mãe foi uma das únicas irmãs que de fato terminou os estudos do ensino fundamental, nenhum dos irmãos com curso superior. Era um gueto meio que tava no século passado. Essa é a sensação que eu tinha. O meu pai era a única pessoa dentro daquele núcleo que tinha eu fiquei de pé no século 20, porque os meus avós, todo mundo ali vivia uma realidade de 1930, sei lá o que que era. Então assim, não é que tinha uma violência em cima de mim, tinha uma incompreensão porque não existia LGBT, não existia, né? Ainda mais num contexto que mesmo para quem estava inserido na civilização do século 20, nos anos 80 e 90, Sei lá, aqui no— eu morava no Sarandi, né, gente, não morava aqui no centro onde as pessoas tinham mais, tinha uma coisa mais intelectualizada, né. Porto Alegre tem essa tradição também. Era muito machista, era muito violento, mas eles me protegiam, ninguém me agredia dentro da minha família. Mas eles não entendiam assim por que que eu queria as bonecas, por que que eu queria ter o cabelo comprido. Eu chorava porque minha mãe tinha cortar meu cabelo, não podia ter um cabelo comprido, eu chorava. Então aos poucos eu verbalizava pra minha mãe: "Quando eu for uma mulher?" Ela falava: "Tu não vai ser uma mulher." Eu falava: "Não, mas eu vou ser." Ela falava: "Não, tu não tem como ser, é impossível." Não era por mal, era porque não existia transgeneridade. Tipo assim: "O que tu vai ser, uma travesti? Tu vai ser o quê, puta?" Dentro de uma família católica, dentro de uma família que tem uma estrutura de vida, não existia essa possibilidade de eu ser travesti e puta, porque só existia essa ideia na cabeça, até muito pouco tempo atrás isso é uma realidade para muitas pessoas, não existia isso. A partir do momento ali nessa infância que eu tinha essa espontaneidade, eu era muito artística, eu pintava, eu dançava, eu cantava, eu tinha uma personalidade radiante, forte. Eu fui me emburacando, eu fui entristecendo, eu fui me calando.

Vera Iaconelli:Com quantos anos você sente que você foi se fechando?

Catto:Com 4, 5 em diante. Eu sinto que foi ali dos meus 4 anos em diante, eu sinto que a minha infância virou um lugar sombrio para mim, porque eu não tinha, eu não gostava de ir na escola, eu não me sentia bem. A única coisa que me fazia ter autoestima era o desenho, porque eu desenhava muito bem. Então o desenho era meu mundo, eu pegava o papel e eu passava 24 horas em cima do desenho. Eu só desenhava figuras femininas, eu desenhava vestidos, eu desenhava princesa, francesas, eu desenhava, eu me projetava naqueles desenhos até muito pouco tempo atrás. Até hoje eu só desenho figuras femininas assim, cada vez mais.

Vera Iaconelli:Aí você fala uma coisa que é muito interessante, não é à toa, nem é pouca coisa que seja aos 4 anos, porque aos 4 anos é que esse moedor de carne de você tem que gostar de meninas e meninos, tem que gostar, enfim, e que você tem que se vestir, é a hora que começa realmente que a gente chama do complexo de Édipo, né? Que a Gayle Rubin vai dizer: "É a hora que a gente vai forçando a criança na matriz heteronormativa, e ela que se ajeite ali e tem que caber." E não cabendo, você vai ter as doenças psicossomáticas, as depressões, as ansiedades, enfim, várias formas de sintoma para mostrar que não está cabendo.

Catto:Sim, eu tive na minha infância, eu desenvolvi compulsão alimentar, extremamente obesa, eu era bastante obesa quando era criança, até os meus 12 anos, por aí. Isso me dava muita ansiedade porque eu comecei a sofrer bullying na escola também por isso, não só por ser uma bichinha, mas por ser também gorda. E tinha essa coisa assim muito opressora, muito opressora, mesmo que não fosse assim com violência explícita da minha família, mas era uma situação de uma vigilância também Eu estudava no mesmo colégio que todos os meus primos, então tinha essa coisa que se estendia da escola para casa. Na escola, eu era a prima do Cato, da Cato, era uma das Cato, né, que estavam lá, da família. É engraçado que hoje, justamente, o meu nome artístico é justamente o meu nome familiar, é como se fosse até uma provocação, porque tem uma relação com isso, assim, de ser uma uma artista que carrega tudo isso hoje de um jeito legal, eu gosto muito disso. Mas então a escola era extremamente dolorosa, em casa eu me sentia sufocada, o meu escape era comer e desenhar, ver desenho, tocar, ouvir música, e era isso que era o meu mundo assim.

Vera Iaconelli:É interessante você contar de uma família que não é violenta porque te rejeita no sentido de "Isso está errado." Tem isso um tanto, porque, claro, para eles seria mais fácil se você entrasse na cartilha da tradição familiar. Mas como a representatividade é importante, como é importante que as pessoas reconheçam que tem outras formas de estar no mundo, que tem outras formas de sexualidade. Para a psicanálise, existem tantas sexualidades quanto sujeitos. E elas podem ser muito diversas. E saber disso, ouvir falar disso. Tem pessoas que a gente admira, que são éticas e que são legais. Tua mãe falou uma coisa muito linda, ela falou assim: eu fazia umas coisas que minha mãe não gostava, mas eu sabia que eu não tava errada. Essa frase, você percebe assim, eu seguia minha ética. Sim, não há— e de algum jeito é isso. Eu fiz igualzinho, você fez igualzinho.

Catto:Tô arrepiada, porque quando eu era adolescente rolou toda crise, porque quando eu tava Quando eu tinha só uns 13, 14 anos, eu ia para escola de olho pintado de preto. Eu acho que ser gótica e alternativa era uma maneira de eu poder me expressar na minha diferença, na minha individualidade, ainda, claro, sem ter todo o amparo e até mesmo a coragem de poder ser uma pessoa trans naquele momento, mas quando eu estava em casa, No primeiro momento que eu ficava sozinha em casa, eu passava um batom vermelho pra ficar em casa sozinha. O meu negócio era esse. Quando eu tava sozinha, eu nunca fui muito, tipo assim, eu sempre me vesti assim, acho que na minha transição mudou muito pouco o meu estilo pessoal, porque eu sempre fui muito tomboy, de certa forma, gostava assim de um look mais rocker. Mas o batom vermelho pra mim era um negócio que era muito eu achei isso lindo, assim, eu tinha uma coisa, um fascínio por esse símbolo. E aí quando começou essa coisa de eu querer gostar de moda, gostar de me vestir, gostar de ir para escola, eu era tipo a gótica bruxona da escola, comecei a ter essa autoestima através dos amigos. Quando eu mudei de escola, daquela escola opressiva que eu estudava com os meus primos ali, e fui para um colégio que eu escolhi, que era perto, A minha mãe falava: "Ramses, como é que tu vai se não tem ninguém para te dar carona?" Eu falei: "Não importa, eu vou a pé." Essa coisa da autonomia foi uma coisa que foi uma benção, uma dificuldade, mas que no fim eu sei que foi uma benção, porque eu sempre fui provocada a ser independente. Eu tinha que, para sair do sistema, eu tinha que criar o meu jeito. Então, eu tinha que acordar, eu tinha que pegar as coisas, eu tinha que ir a pé para escola, eu ia a pé para escola vestida do jeito que eu queria. Minha mãe ficava louca. E aí teve um momento que ela começou a me proibir, porque tipo assim: "Não, tu não vai em tal festa." E eu mentia: "Não, eu vou dormir na casa da Tamires, que é a minha melhor amiga." Quem nunca? Não, é, eu mentia, eu mentia mesmo. Teve um dia que eu falei para ela: "Eu menti muito, eu menti, eu enganava, eu fugia, eu fazia tudo." Meu lema é: "Minta, fuja e desobedeça no mundo." Porque tem que ser.

Vera Iaconelli:Mas sabe que você não tá fazendo nada de errado.

Catto:E eu não estava fazendo nada de errado, eu estava só me divertindo assim, e estava vivendo pela primeira vez a liberdade. Quando veio, quando eu descobri Porto Alegre, Anel, toda a parte da contracultura, o Garagem Hermética, toda a cena punk dessa cidade, todos os artistas, bandas de rock, isso era começo dos anos 2000, era o auge do indie rock, ali eu me apaixonei pela vida, porque aí sim eu queria ver as pessoas, eu queria beijar, eu me apaixonava. E eu escrevia, eu fazia um monte de coisa, porque a vida começou a virar uma coisa interessante pra mim pela primeira vez. Eu tinha autoestima. Eu era o patinho feio, eu não era uma pessoa que se achava bonita, que se sentia bonita, que tinha poder, qualquer poder. E aí quando eu comecei a conviver com pessoas que eram mais parecidas comigo, ver que esse mundo existe, aí pra mim era só uma questão de tempo pra eu poder dar o fora. Porque eu fui embora de casa com 19 anos e fui morar em Nova York. Direto assim, do Sarandi para Nova York, sem passar nem pela Cidade Baixa antes.

Vera Iaconelli:Piada interna.

Catto:Mas assim, parece uma coisa meio assim, era uma coisa um pouco burguesa, era, mas não era tanto, a minha mãe não tinha tanta grana assim, era porque de fato Mas você podia ter feito outras coisas com esse dinheiro.

Vera Iaconelli:O que você fez foi se emancipar. O problema não é ter dinheiro, é o que se faz, né? Foi, sei lá, fazer qualquer bobagem. Foi se emancipar.

Catto:Nossa, sim. É que a minha mãe sempre prezou muito pela educação. Então a gente estudou inglês desde muito cedo, né? Fazia aqueles cursinhos de inglês. Família de classe média, normal assim. E eu era muito boa e eu sempre me interessei pelo mundo, pelas viagens. Eu gostava de ler livros sobre os Sobre países. os países, sobre as culturas. Eu me via, eu sonhava em morar fora daquela casa. Depois eu entendi que o meu verdadeiro sonho— eu tava pensando nisso esses dias, fazendo um balanço sobre a minha vida, sobre os meus desejos e o que eu já conquistei, o que eu ainda desejo conquistar. Mas eu percebi que tinha uma coisa que era um centro em tudo isso, que o meu verdadeiro sonho não era ser uma cantora reconhecida, não era tipo nada disso. Quando Quis viver um mundo, o meu verdadeiro sonho era ir embora daquela casa, o mais rápido possível, para o lugar mais longe possível. Eu lembro de um filme que eu amo, do Karim Ainuz, que chama O Céu de Sueli, que é lindo, que ela chega, ela está lá numa cidade pequena, no Ceará, e ela chega na rodoviária e pergunta: "Qual é o lugar mais longe que vocês têm passagens?" Eles falam: "Para Porto Alegre." Aí eu falei: "Nossa, eu sou a Sueli, só que o contrário, né? Eu tenho que ir para o outro lado." E eu não tenho mágoa da cidade, não é isso, gente. Tipo, não é sobre: "Ai, não gosto de Porto Alegre." Eu adoro Porto Alegre, adoro a minha Porto Alegre, os meus amigos, a minha cena. Tenho até uma música que fala sobre isso. Mas essa necessidade de conhecer o mundo e de, tipo, de sair desse lugar. E também depois, para cada vez mais com a maturidade entender o quanto eu sou totalmente igual àquelas pessoas e eu continuo ali de alguma forma.

Vera Iaconelli:É, porque conhecer o mundo nesse sentido não é o turista que tica os lugares, né? Se conhecer, né? É se reconhecer em outros ambientes nos quais você pode se expressar e se responsabilizar inclusive pelo que você faz e deixa de fazer. Você já não tem nem a desculpa do outro que não te deixa. Você tem que se organizar com as suas questões. E agora a gente passa para a segunda pergunta, porque esse programa só tem duas perguntas.

Catto:Nossa!

Vera Iaconelli:E a segunda é: o que você pensa de família hoje? Como é que você vive família hoje? O que é família para você hoje? O que você fez com essa história de família?

Catto:Para mim, família é verdade, amizade, diálogo. Eu acho que eu só posso considerar família quem eu tenho absoluta confiança. Adulta transparência, poder sair dessa situação cheia de convenções, né, e hoje ter a minha mãe, meu pai também, né, com todos os problemas. Eu acredito que inclusive uma maneira de lidar com esse processo todo difícil de ruptura foi ser absolutamente adulto e transparente com todo mundo em relação a isso. Mas ter o meu irmão, os meus irmãos, minha mãe, minha família, como amigos, de poder contar com isso, de poder contar tudo. Eu não escondo nada. Minha mãe não se choca com nada porque eu conto tudo. Minha experiência com drogas, ela sabe. A minha experiência com álcool, ela sabe. Ela sabe minha experiência com as pessoas, né? Ela conhece muito bem quem eu sou. E eu acho que isso me dá um amparo muito grande. Acho a família um chão, né? E esse chão, ele tem que ser um, tem que ser concreto. Ele não pode existir com base em idealizações. Não mais, não quase aos 40 anos de idade. Acho que quando a gente é criança, tudo bem, né, o mundo tem outras cores, mas hoje eu acho que a vida me deu o presente de destruir as minhas ilusões todas, o mais rápido possível, para eu poder retomar relações com mais verdade, assim, com mais equilíbrio, com mais transparência, com mais amor.

Vera Iaconelli:Então foi uma família de quem você precisou se afastar radicalmente, mas que deu para voltar depois. Sim. Que isso na psicanálise é a diferença entre separação e ruptura. Separação é necessário para a gente continuar tendo uma relação. É o teu desejo, o meu desejo, suas convicções, as minhas convicções, e cada um sustenta isso. E a ruptura é: não, eu não aceito o teu desejo, você não aceita o meu, a gente não pode nem ficar no mesmo ambiente. Então, o que você diz é que Essa família sobreviveu a ter um filho e uma filha com desejos diferentes que marcam que, bom, ou essa família ama essas pessoas do jeito que elas são, ou elas não podem voltar. E você disse que você pode voltar.

Catto:Sim.

Vera Iaconelli:E você voltou magnificamente.

Catto:É, foi um processo de uma reaproximação assim, foi até rápido, porque quando eu saí de casa as pessoas não me levavam muito a sério, porque eu falava: eu vou embora, eu vou fazer, eu vou acontecer, eu vou "Vou fazer, vou acontecer, vou gravar disco, vou fazer..." Eu era assim. E as pessoas lá falavam: "Não, meu amor, você vai continuar aqui como todos os outros, porque estão todos lá no mesmo lugar." Os meus primos, todos.

Vera Iaconelli:É uma empresa familiar.

Catto:É uma empresa familiar, mas também é uma seita satânica. Não, as pessoas estão lá, sem julgamentos, mas assim, as pessoas continuam mantendo Aquele status quo, então os meus primos que são da minha geração estão lá, as pessoas continuaram lá. Eu fui, eu e meu irmão fomos os únicos a sair de perto ali. Não, tem outros que saíram também, mas em contextos assim mais, enfim, não tão aventureiros quanto a gente. Meu irmão também é bem aventureiro, foi morar fora do Brasil. Mas eu sempre falei que eu ia fazer acontecer e eu fiz acontecer.

Vera Iaconelli:Eles aguentaram, eles não daram moleza, não dá problema, tá, bola. Mas assim, mas quando você disse que você volta, que você tem essa relação com a sua mãe, que você tem impulso—

Catto:quando eu saí de casa, eu fui para Nova York, fiquei lá um ano estudando, trabalhando e guardando dinheiro para eu gravar meu primeiro disco. Foi isso que eu fiz, fui fazer, que eu não tinha condições econômicas de gravar um disco, eu não podia, eu tinha que começar. Eu já tava na cena de Porto Alegre fazendo shows em tudo que é lugar, tocava no Ocidente, tocava não sei o quê, tinha banda, fazia teatro, fazia não sei o quê, tava envolvida na cena cultural da cidade, tinha um monte de música boa e queria gravar. Aí fui morar em Nova York, na verdade atrás de um boy. Velho truque. É, minto, a gente se vê.

Vera Iaconelli:Passaporte e amor, né?

Catto:É, não deu certo, mas foi tudo certo. Fui com a minha melhor amiga morar lá, a gente foi juntas estudar assim, tipo as gêmeas Olsen. Num filme da sessão da tarde. E aí eu aproveitei esse tempo para escrever, para me aprofundar. Foi a primeira vez que eu tive liberdade plena, porque não era só liberdade de estar fora da família, era liberdade naquele momento de estar vivendo numa cidade segura, onde eu podia pegar o metrô de madrugada, onde eu tinha uma oportunidade de trabalho, onde eu ganhava naquela época que não estava essa crise horrível, que tu trabalhava bem, ganhava, podia se sustentar. Tentar era uma coisa, para uma pessoa jovem como eu, viver com amigos, sair para se divertir, tinha um emprego lá de garçonete, tipo, era ótimo. Foi uma experiência maravilhosa que eu pude guardar uma grana, voltei para Porto Alegre no ano seguinte, terminei a faculdade, morando com a minha mãe ainda, já em outros termos, porque como eu tinha me virado, imagina, eu tinha dado certo, eu fui embora porque eu quis, porque eu não me adaptei à cultura dos Estados Unidos, não me adaptei à cultura deles Então quis voltar para cá porque não gostava muito do jeito de viver lá. Mas aí quando eu gravei as coisas, fui embora, tive todo o apoio da minha mãe, fui morar em São Paulo em 2010 com meu disco gravado do bolso, gravando com amigos, né? Porque nunca me deram oportunidades. As minhas oportunidades eu sempre fui e fiz, né? Tipo, de verdade, não é fazendo a linha, mas é verdade assim. As portas não foram portas, ai, vem cá, olha como você é maravilhosa. Não, eu tive que mostrar trabalho. "Ó, eu canto, esse aqui é o meu disco. Eu faço, esse aqui é o meu show." Não dava para eu esperar as pessoas me descobrirem. Tinha muito esse conto do artista antigamente, falavam: "Ai, vão descobrir você, vão te levar para o Rio de Janeiro e te dar um carro e um apartamento." Não, não aconteceu isso. E aí, quando eu fui morar em São Paulo, na minha cabeça ficou muito claro isso assim: "A partir de agora eu sou adulta." Não era, mas achava que era. "E eu vou viver a minha vida." Se minha mãe, meu pai e qualquer outra pessoa quiserem fazer parte da minha vida, eles estão muito bem-vindos, mas eles vão ter que se adaptar ao meu mundo. E aos poucos, e foi isso que aconteceu, eu trouxe eles, aos poucos eles foram me visitar, eles conheceram meu namorado, eles conheceram meus amigos, eles começaram a fazer parte da minha vida. Então eles não eram uma coisa assim, porque quando eu morava com eles eu não podia levar ninguém para casa, era uma situação assim, não tinha uma vida normal. De uma adolescente com seu namorado, não tinha muita coisa.

Vera Iaconelli:Você testou o amor deles totalmente, né?

Catto:"Quanto vocês querem estar comigo?" Porque é isso, eu já tinha desde muito cedo a ideia de que eu ia ter que seguir em frente, tipo, eu não vou poder parar minha vida, meus projetos para fazer parte disso, ter que abrir mão de uma coisa que eu não achava justo.

Vera Iaconelli:Mas esse é o preço do desejo, né? Bancar o desejo é correr o risco de que o outro Simplesmente você perca o outro, mas senão você se perde, fica aquela criança de 2, 4 anos completamente desesperada porque não pode ser junto das pessoas que mais ama, né? É totalmente mortífero, né? O outro preço é destruir, super destruidor, né? Se fazer passar por uma coisa que você não é, é horrível.

Catto:E eu tenho sequelas disso assim, por mais que eu tenha tido, acho que uma postura bastante altiva assim durante toda a minha formação depressão, acho que mesmo assim tinham coisas ali que só depois que eu entrei mesmo na psicanálise que eu consegui desabrochar assim lá pelos 30 anos de idade, que durante os meus 20 anos eu tava muito ocupada trabalhando, fazendo música, né?

Vera Iaconelli:Tipo, não tinha muito tempo para mim, eu era um corpo que você falou, né? Empurrando, vai, vai trabalhar, vai, vai fazer, depois a gente pensa, depois a gente pensa.

Catto:Depois chegou com 30, chegou com 30, tipo, eu preciso ser feliz, Eu não aguento mais ter essa angústia, não gostar de me olhar no espelho. Não é possível que eu não goste de me olhar no espelho, que eu não conseguia ser fotografada, não gostava de gravar vídeo. Eu sentia que o meu trabalho era incompleto porque eu não tava ali, eu não tinha corpo. Eu tinha uma voz, mas eu não tinha corpo, eu não era corporificada. Os meus primeiros discos, meu primeiro disco e o ao vivo, os dois primeiros, é bonitinho porque eu era uma criança ali. Para mim, tinha 22 anos de idade. Mas era com cabelo na cara, toda de preto, não aparecia. Eu cantava escondida no escuro, né? Tipo assim, era uma sensação de ser— aos poucos eu comecei a aparecer. E quando eu apareci, a minha vida girou, a minha vida funcionou.

Vera Iaconelli:Incrível, porque são 30 anos nos quais o sofrimento do sujeito é totalmente fruto de intolerância, né? Quer dizer, não tinha nada de intrinsecamente errado com você, só o que se é. E quando não é aceito, né? Porque os pais tentam muitas vezes proteger os filhos da violência de fora e vão criando uma situação para o filho tão insustentável que, no fim, as crianças sucumbem, né? Em nome de uma proteção que não existe, porque não dá para você não ser quem você é. E o que você faz é uma escolha que corta na carne, tipo assim, ou eu ou vocês, eu vou ficar comigo.

Catto:Sim, eu fui muito cedo assim que eu tive uma, eu lembro que foi um embate que eu tive com a minha mãe e com meu pai logo na adolescência, nesse momento ali de que eu tava muito espalhafatosa, eles desesperados vendo que eles não, porque fica assim, ah, é bichinha, mas "Não, não é, bicha." É tipo uma coisa assim, sabe? Tipo uma negação mesmo. Tipo: "Ai, não, não é, não é, não pode ser, não é, não é." E uma coisa como se fosse um castigo pra eles, né? Que o problema era eles tinham uma criança LGBT em casa, então aquilo era sobre eles e sobre o que eles performavam, né? Mais do que sobre mim. E aí quando a merda foi pro ventilador, literalmente, tipo que não tinha mais como sustentar aquela coisa da negação deles em relação a mim na adolescência, rolou uma intervenção e eles literalmente falaram que eu me internar. Então assim, foi nesse nível. E quando eu ouvi isso, eu fiquei assim, eu acho que eu me fortaleci de um jeito, porque foi um embate assim, dos sentados na minha frente, eu aqui, tipo, sendo uma inquisição em cima de mim, e um terror assim surreal. E aí foi o momento que eu falei, não, você perderam completamente a noção, tipo assim, pelo amor de Deus, né? Falei assim, cadê a preocupação de vocês quando eu tinha isso, isso, isso, quando eu tava tipo tendo sintomas de mutilação ou a bulimia ou qualquer outro tipo de transtorno alimentar? Porque eu desenvolvi transtorno alimentar no meio disso tudo, que até hoje eu tenho que viver. Eu vivo uma vida de uma pessoa que tem vários "transtornos que eu tenho que administrar da melhor forma possível". Tipo, eu tenho consciência disso. Então assim, eu tinha problemas reais graves de autoestima, eu tinha problemas reais de mutilação, de ideação suicida, todos os tipos de coisas horríveis que uma adolescente problemática pode ter na vida. E aí isso não era um problema, isso era frescura. O problema era eu ser LGBT. Aí eu tinha que ser internada por ser LGBT, não por ser bulímica, Não por ter depressão ou por apresentar qualquer tipo de quadro. Desde muito pequena eu fui muito— e eu acho que isso era uma coisa da época— eu fui muito silenciada assim, até nos mínimos detalhes. Meu pai falava: "Não, ela inventa coisa." É como se eu estivesse fantasiando coisas para chamar atenção. Um clássico exemplo: a minha miopia. Eu era míope em casa, assim, eu não enxergava bem. Quando eu tinha uns 9, 10 anos, eu comecei a falar: gente, eu preciso ir no oftalmologista, eu não enxergo, não enxergo, não enxergo. E eu comecei a falar. E aí meu pai falava: não, isso é bobagem, isso é bobagem, isso é frescura, tu tá inventando, tu tá dizendo. E ficou um tempão assim. No final das contas, eu fui no oftalmologista, eu tinha, sei lá, hoje eu tenho 3 graus e meio de miopia. Na época eu devia ter, sei lá, ter 2 graus. Então assim, eram coisas que eu até mesmo falei: eu preciso ir num psicólogo. Eu falava: eu tenho que ir no psicólogo, a minha escola me orientou a "Não, tu não vai no psicólogo, porque o psicólogo, tu não é maluca, tu não tem que ir no psicólogo." Não podia escutar nada, né?

Vera Iaconelli:Porque tudo levava para essa outra questão que não era possível.

Catto:Que eles não queriam ver.

Vera Iaconelli:Eu vou entendendo o que você vai dizendo, que família hoje é quem tiver a altura de te aceitar do jeito que você é e bancar isso com todo amor que você merece.

Catto:É, eu acho que não é nem aceitar, porque eu não estou pedindo aceitação.

Vera Iaconelli:Perfeito.

Catto:É simplesmente natural, é o que é. Tipo assim, eu acho que tem uma naturalidade das relações que ou tu tem naturalidade para conviver com prazer ou tu não tem naturalidade para conviver com prazer. Eu tenho respeito por pessoas que eu não quero conviver. Tem gente que eu amo e que eu não quero conviver porque não me dá nem tesão de estar perto da pessoa. Às vezes a gente foi para outros caminhos, eu não tenho o que falar com aquela pessoa. Vou falar o quê? Falar da vida dos outros ou ficar relembrando um tempo que já acabou, sabe? Eu acho que o meu, a minha dedicação, sei lá, eu acho que eu não gosto de perder tempo com gente que me desagrada ou ter que pedir licença por alguma coisa. Eu não tenho que pedir licença. Tipo assim, amor, e se você tá, é 2026, se eu tenho que ainda fazer qualquer tipo de explicação, botar legenda em quem eu sou, então, amor, sei lá, né, pega uma máquina do tempo Volta, sei lá, faz o que tu achar melhor, mas não tem consciência.

Vera Iaconelli:O que é família para você hoje, numa frase?

Catto:Amizade.

Vera Iaconelli:Tá bom, tá ótimo.

Catto:Que o amigo tu não tem que te justificar.

Vera Iaconelli:Sim.

Catto:Os amigos são pessoas que estão na tua vida que tu não tem que se justificar.

Vera Iaconelli:São eletivos, você escolhe, não é?

Catto:O amigo, tu tá com ele quando a coisa rola, tu não tem que forçar. Se tu força amizade, já não é. Então, amigo, ele é um, é uma coisa tão maravilhosa, tão preciosa, que amizade ela é o que permeia as relações amorosas, as relações familiares, as relações todas têm que passar por esse respeito da amizade, pelo prazer de estar junto. Você não tem prazer de estar junto?

Vera Iaconelli:Ótimo, perfeito. Você me corrigiu porque aceitar não tá com nada. Deixa eu te falar uma coisa, agora a gente tem uma troca de papéis aqui que você me faz uma pergunta Ai, meu Deus, que difícil! Eu que vou responder e você que acha difícil?

Catto:Mas é uma pergunta pessoal?

Vera Iaconelli:Depende do que você quiser perguntar.

Catto:Qual é seu signo?

Vera Iaconelli:Se você é uma pessoa ligada em signo, você talvez já tenha desconfiado. Que é o que você acha que é?

Catto:Eu não sei.

Vera Iaconelli:Bom, é peixes. Bom, obrigada por fazer uma pergunta que foi fácil de responder. Cato, super, super obrigada por ter arriscado tudo aqui sem edição. Normalmente a gente pode editar o episódio.

Catto:Não vai editar. Eu quero amanhã, eu quero todo mundo, minha família inteira vai começar a me ligar. Eles vão falar: "Tira ela do testamento agora!" Essa vagabunda pegou nosso nome e ainda tá botando a gente na lama.

Vera Iaconelli:É um desacato, é um desacato.

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