Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

Lenine tem fé no afeto

02 de junho de 20261h3min
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O cantor e compositor Lenine cresceu em uma família movida por amor, política, música e conversas sem interditos. Filho de um ex-seminarista comunista e de uma mãe que sustentava a casa nos bastidores, saiu cedo de Recife para tentar a vida na música, mas levou os valores que recebeu em casa. Na conversa com Vera Iaconelli, ele fala sobre casamento, paternidade, ausência e netos. E revela por que acredita que o afeto é a maior tecnologia já inventada pelo ser humano.

Ouça “Como ser mãe?” na Audible, nova audiossérie de Vera Iaconelli, com roteiro de Andrea Del Fuego e direção e produção da Trovão Mídia: https://www.audible.com.br/pd/Como-ser-mae-Audiolivro/B0GZ133PLQ

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Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
L

Lenine

ConvidadoCantor e compositor
Assuntos5
  • Relacionamentos e CasamentoA importância do casal · Sacrifício e renúncia no amor · Afeto como tecnologia · Lenine · Ana
  • Impacto da ausência paternaDiferentes experiências com os filhos · Impacto da carreira nas relações familiares · Apoio da companheira · João · Bruno · Bernardo · Ana
  • Pausa na carreira e vida pessoal dos músicosEscolhas e independência · O papel do pai na decisão · Construção da identidade artística · Lenine
  • Música e CulturaA música como forma de expressão e conexão · A importância da colaboração artística · A fotografia como inspiração · Foto de Família · Maria Bethânia · João · Bruno
  • O papel das mães e avósO papel do avô · O erro como parte da educação · A importância do afeto · Tom · Luna · Martim · Rudá · Otto
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Trovão Mídia. Oi, eu sou a Velha Conelli e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia.

Toda semana, uma pessoa senta aqui na minha frente e me conta sobre a família dela, sobre os laços que ela vem construindo ou rompendo ao longo da vida, como era no começo e como é agora. Apesar dos padrões e das tradições, famílias são diversas, não cabem numa definição fixa. E é exatamente nessa pluralidade que desafia as convenções que a gente se reconhece.

Hoje eu converso com o cantor e compositor Lenine, filho de José Geraldo e Deise, irmão de Renan, da Maria Tereza e da Maria das Graças, marido da Ana, pai do João, do Bruno e do Bernardo, avô do Tom, da Luna e do Martim, do Rudá e do Otto.

O episódio de hoje tem o apoio da Audible, o maior serviço de audiolivros e audioséries do mundo, da Amazon.

Essa conversa com Lenine, que você vai ouvir já já, me fez pensar muito sobre os afetos e sobre a maneira como a gente aprende ou não a expressar isso em família. E talvez seja também por isso que eu goste tanto da Audible. Além da minha audiosérie Como Ser Mãe, eu recomendo muitos conteúdos da Casa do Saber com o meu colega psicanalista Christian Dunker, que ampliam várias das conversas que aparecem aqui no podcast.

A Audible é o maior serviço de audiolivros e audioséries do mundo da Amazon. Dá para testar gratuitamente por 30 dias ou por 3 meses se você for membro da Amazon Prime. O link está na descrição do episódio.

Já ouviu Como Ser Mãe? É a audiosérie que eu apresento na Audible. É o meu antimanual da maternidade. Oito episódios que começam com cenas ficcionais escritas pela André del Fuego. A partir delas, eu entro nos dilemas, conflitos e ambivalências de ser mãe. Vem ouvir na Audible Como Ser Mãe.

Lenine, que prazer, bem-vindo. O prazer é meu, apresentou realmente o que é, que é o núcleo familiar. E eu, sendo pela quinta vez avô, reconheço que nessa coisa da família, esse momento é o mais especial.

Também acho. Eu também, nossa, concordo. Entrei no mundo dos avôs, assim. É uma coisa impressionante. É um outro universo. É outro universo. Nos aguardem. Vocês vão ver o que é bom. Outro universo. É muito legal. E então vamos por aí. Me fala primeiro, antes de chegar na ponta final, que são os netos, bisnetos e o que virá por aí. Qual é a tua referência de família nos começos, nos primórdios? Rapaz, muito amor, muita entrega, muito...

muito passional tudo. Sempre foi um matriarcado. Eu só fui descobrir que foi um matriarcado depois de ter saído de casa, porque meu pai sempre exuberante, poeta, um ateu que falava do divino o tempo todo. Era natural que, num primeiro momento, ele exercesse esse tipo de fascínio, de sedução com os filhos. Era o cara que conversava, que tinha sempre a palavra certa,

O cara da síntese, o cara da charada vernacular, de estudar a palavra de todas as maneiras. E minha mãe ficava, disse, deixa ele só lá. E eu só vim entender muito isso depois, muito tempo depois, como era a relação dos dois. Mas sempre foi de muita...

de muita entrega, de muito amor, de muito afeto. E eu acho que isso formou, e os quatro filhos, pelo menos os dois que permanecem vivos, que sou eu e minha irmã, Gracita, a gente foi transpassado por esse afeto de uma maneira...

que isso está presente. Está presente nos meus filhos, está presente nos meus netos. Tem uma questão afetiva que veio tudo de Dona Deise e seu Geraldo. E quando é que você percebe que a Deise tinha essa... Você disse que teve que sair de casa ou o que que... Eles são vivos.

Não, não, faleceram. Faleceram os dois. É engraçado que uma diferença de tempo da morte de um para o outro, muito pouco, foram quatro meses. Os dois morreram dormindo aos 96 anos. Então teve toda uma passagem muito bacana. Foi muito generosa a vida com os dois nesse sentido.

E isso me marcou. Eu percebi isso porque meu pai sempre foi muito sedutor. O cara da palavra, o poeta que tinha sempre a palavra, muito eloquente, muito inteligente e gostava do trava-língua, do trava-palavras, da brincadeira com os fonemas. Isso tudo sempre foi muito sedutor. Era natural que ele chamava a atenção de todo mundo. Todos os meus amigos...

Quando era sexta-feira, chegava a hora, terminou os seus afazeres, a gente ia sair para tomar uma cerveja ou alguma coisa, na época que a gente já bebia cerveja, era sempre lá em casa. E meu pai, sabendo que cada um gostava, sempre comprava a cerveja de cada um. E por diversas vezes, eu saía e alguns dos amigos ficaram. Porque ele sempre foi muito cativante.

E minha mãe vivia à sombra dessa exuberância do meu pai, sem grilo, sem abalar nada da atuação dela, porque sempre foi muito ativa.

E ela se seduzia também por aquela coisa dele. Eu só vim entender que a economia da casa foi minha mãe. A educação era sempre minha mãe.

Eu fui perceber muito mais isso quando saí. Eu saí cedo, com 20 anos, saí. E é engraçado porque durante muito tempo eu me perguntei por que eu saí tão cedo e quis sair. Boa pergunta. Está bem distante dele. Sim, sim. E isso ficou evidente para mim, que independente do fascínio que eles exerceram e da sedução que exerceram em mim e a formação que me deram,

Pai e mãe é sempre pai e mãe. E tem sempre algum limite, algum teto onde se encontra a percepção da vida que você diz, ei, discordo, não é aí não. Por causa de geração, por ser geracional.

Eu digo minhas filhas que mãe é um ente, né? Então, por exemplo, às vezes elas estão brigando comigo, eu falo, você está brigando com a mãe pessoa física ou jurídica? Porque tem uma figura de mãe que você está esperando coisas que talvez não possa, né? Tem uma pessoinha que eu sou, né? Sim, eu acho que tem isso. E tem esse exercício de manter a casa. Tudo era com ela. A economia da casa funcionava por causa dela.

E ela formou os filhos todos e tudo. Era ela. Era ela que lidava com as coisas. Me lembro muito quando meu pai chegava e dizia, mulher, estamos ricos. Aí ela olhava aquele dinheiro e dizia assim, tu foi despedido de novo. Sério? É. Ele foi despedido. Imagina, um comunista terminou se aposentando, trabalhando na bolsa de valores.

Então tem toda essa... Conta essa coisa do... Tinha essa irregularidade? Não, porque ele se casou com minha mãe. Eles são paraibanos. Mamãe de João Pessoa, papai de Campina Grande.

Papai conhece minha mãe, porque ele estava já para se formar em padre. Ele estava no processo franciscano e tudo. E como ele tinha já o curso de ciências contábeis, que naquela época se falaram... Sim, meu pai fez também. Minha mãe também. Ele foi chamado pela prefeitura da cidade de Campina Grande para fazer alguns trabalhos. E a congregação dele disse, não, tudo bem.

Vai Geraldo, que é muito bom e tal, não sei o que lá. E uma das secretárias era minha mãe. E ele se apaixona por ela e larga tudo. Larga tudo. E o que ele faz? Ele casa com ela e diz assim, como aqui não tem indústria, muita indústria, eu preciso ir para Recife para fazer o trabalho de base, conscientização. Os trabalhadores. Você vê que coisa linda. Hoje eu vejo isso. Dica, rapaz, que...

que entrega, né? Então, eles se casaram, vão para Recife só para fazer esse trabalho de base. Que é impensável hoje, né? Isso é impensável. Totalmente fora da ética da atualidade, de um valor mesmo. E o romantismo que eu acho que tinha em torno disso, a busca real que ele procurava, que era o coletivo, em benefício do coletivo. E uma ingenuidade, né?

Eu não sei se é ingenuidade ou pureza. Sim, pureza. Porque são duas coisas que... A palavra ingênuo, para mim, vem com uma carga de... Não sei o que está acontecendo. O ingênuo.

o puro não de ignorância de não conhecer justamente eu acho que o puro percebe tudo e escolhe um caminho de uma pureza ética de uma leveza então eu acho que tinha essa coisa, ele manteve uma pureza nas coisas nas entregas

uma maneira de ver a vida muito incrível. Ele foi a primeira pessoa que chegou para mim para dizer olha, a diferença de um cristão e um comunista é só a morte. Aí eu, como? Enquanto uma turma trabalha a vida toda para depois da morte chegar no paraíso, os outros querem um paraíso aqui antes de morrer.

Tudo bem, é uma maneira simplista de ver, mas é o sério da questão. Sim, é o sério da questão. Exatamente. Sofre agora e posterga para um prêmio que, na verdade, nunca vai chegar. Nunca vai chegar. Então eu vivei isso. Eles dois foram...

muito referências. Eu me pego hoje em dia, tendo percepções das coisas que corroboram tudo que eu vivi lá com os dois. Eram muito à frente de sua época, porque, eu estou falando, eu estou com 67.

Estou falando da época em que eu tinha 16, 17 anos. A sociedade recifense naquela era muito fechada, era muito cheia de dogmas. Ainda é, mas naquela época muito mais.

Então ele era um libertário nesse sentido. E pedia que as loucuras acontecessem em casa. E quem mandou ele pedir? As loucuras realmente aconteceram em casa.

sobre os hospícios dos dois. E a sua mãe continuou trabalhando? Continuou. Ela segurava a barra de vez em quando. Quando ele era despedido, ela estava sempre costurando. Tinha uns bazares que aconteciam lá em casa. Ela fazia as roupas, toalhas e tudo bordado. E ela era muito assim. E segurou por diversas vezes a casa nessa artesania que ela fazia.

E os irmãos? Os irmãos éramos quatro, dois casais. Eles tinham essa coisa de a minha irmã mais velha, que continua viva, Maria das Graças, que a gente chama de gracita. Aí teve Renan, que foi logo depois dela, uns quatro ou cinco anos de diferença entre os dois. Aí tem um tempo, cinco ou seis anos, para ter a mim e Tereza, que era mais nova.

Dois casais, eles dividiam tudo, inclusive dar os nomes. Por isso que foi um Renan e outro Lenine. E mamãe botou duas santas, Maria Tereza e Maria das Graças. Então teve toda essa dicotomia lá em casa e eles dividiam tudo isso.

Os irmãos ficaram com a gente até cada um casar e pegar uma coisa. Então o núcleo permaneceu. E é isso. O Renan já não está mais. Morreu muito cedo, com 50 e poucos anos. Teve um tachocardíaco fulminante. E Tereza não. Teve uma doença, um câncer.

E foi de uma maneira muito dolorida, porque pâncreas, né? Então, é aquela doença que, quando você vê, já está espalhada, já tem metástases e tudo. E foi muito sofrido. Seus pais eram vivos? Sim. Quer dizer, perdão. No caso do Renan, do mais velho, sim. No caso de Tereza, não. Porque Tereza terminou cuidando dos dois até eles falecerem. Tereza ficou junto ali do núcleo.

E como ela era muito próxima de mim, a diferença de idade era dois anos praticamente, as descobertas da gente de infância, de adolescência, de juventude, foi tudo muito junto. A gente cresceu junto, curtindo as coisas juntos, quando curtimos teatro pela primeira vez e descobrimos aquilo, a poesia. Então, durante muito tempo, a gente lia e descobria.

E tínhamos um grupo grande de pessoas, e nós dois participávamos desse grupo. Então, éramos um par. E dividíamos todas essas descobertas. Então, quando se deu a minha perda dela, foi muito difícil. Ficou muito difícil voltar ao Recife e não doer. Sim.

E não ser um momento difícil. Agora, aos poucos, eu fui redescobrindo o Recife que eu conhecia. Porque, lógico, eu trouxe o Recife comigo. Tanto é que eu sou o pernambucano, Lenin. Todo mundo é sábia, é quase um adjetivo que eu me orgulho muito. Embora eu ache limitador. E assim foi.

Quando eu perdi eles, ainda tinha uma coisa natural, que não foi uma morte natural. Eles tiveram essa generosidade por parte da vida dos dois.

morrerem dormindo. Sim. E essa proximidade, você atribui a dificuldade de viver sem o outro? Talvez foi muito próximo. Ah, eu acho que tinha uma dependência química de um para o outro. Eu digo isso que eu sofro um pouco dessa dependência química e estou com Ana há 45, 46 anos e é a idade do meu mais velho. E quando eu conheci a Ana, o João tinha seis meses.

Eu me identifico totalmente com isso e parece tão fora de moda, né? Essas relações longevas e que você... Como diz o Gregório, a gente estava conversando sobre o Gregório antes de começar, que o Gregório cita uma palavra que significa me enterre na peça dele, o céu da língua, né? E eu entendo totalmente, né? Que você fale para a pessoa que você ama, me enterre porque eu não quero viver para... Eu não quero ter...

O sentimento de perda, justamente. Eu entendo muito isso. Eu digo para o meu marido, não me deixa só nessa terra. Não me deixe só nessa terra. Eu tenho um pacto parecido com a minha companheira também. E nós somos um par nesse sentido mesmo.

Bom, então vamos para a segunda pergunta, que é você contar um pouco para a gente sobre a partir dessa experiência super intensa, desse pai meio showman, que essa mãe curte, você vê que essa mulher brilha o olho com esse homem, e que privilégio ter tudo isso.

Como é que isso se transforma na família que você resolve ter? Como é que é essa passagem da tua experiência para a tua referência de família hoje? Ah, hoje é completamente diferente do que já foi. Então, num primeiro momento... Você sai com 20? Eu saio com 21 anos, eu tranco uma faculdade de engenharia química que eu estava fazendo e disse, não, eu vou tentar a música. Eu já tentava a música lá.

disse não, vou tentar a música é engraçado isso porque eu tranquei a faculdade e a gente em casa tem o almoço não, era o lado sagrado de minha mãe que o papai respeitava ela fazia a prece dela e ele respeitava

Só que o jantar era ele que organizava o jantar. E no jantar a gente tinha plenária para tudo. Falávamos sobre tudo, tudo, tudo. Desde a virgindade de minha irmã, quando a peteu. A maconha, quando apareceu no núcleo. Então essas coisas, ele...

Ele exercitou na gente. Tudo que ele almejava dentro daquele socialismo que estava na cabeça dele, ele pegou na família. Sim, em ato mesmo. Isso. E isso foi muito bacana e definiu a gente. Realmente definiu. E eu me lembro quando eu disse, não, eu tranquei a faculdade e disse, pô, eu tenho que falar isso para todo mundo e dividir com todo mundo aonde? Na plenária que a gente tem.

E conhecendo meu pai e conhecendo minha mãe, eu tinha que ter resposta para tudo. Então eu fui convicto de que eu estava preparado para qualquer coisa que ele fosse dizer. Ele era um cara da sacada. Então começou o jantar e disse, olha gente, eu preciso dividir uma coisa com vocês. Aí silêncio. Eu disse, tranquei a faculdade, estou indo para o sudeste, estou indo para o Rio de Janeiro.

E acho que eu vou tentar a música. E esperei. Digo, o que vem agora eu tenho resposta. Qual o meu engano foi tamanho? Porque ele chegou, levou um tempo, olhou nos meus olhos e disse, por que demorou tanto? E eu não estava preparado para responder isso. Eu não pensei nessa possibilidade. Sim. E ele me tirou o chão completamente.

E fez uma coisa que jogou toda a responsabilidade nas minhas mãos. Sim. E disse, cara, tu passou três anos e meio fazendo uma coisa que você não gostava? Por que você demorou tanto? Então, isso... Que sábio, né? Também definiu a minha coisa. Eu disse, vamos embora.

O orgulho não me permitia falar sobre as dificuldades que eu estava passando. Então, para o pai e para a mãe era assim, está tudo bem, tudo maravilhoso. Ele sabia disso. Isso magoava ele, porque depois ele me falar. Eu queria te ajudar de alguma maneira, e eu não permiti. Não permiti.

Nossos filhos crescem rápido demais, né? Num dia eles dependem de você pra tudo, no outro já querem segurar o copinho sozinhos. E é pra acompanhar essa fase dos pequenos crescidinhos que chegou mousse e ninho. A combinação da nutrição de mousse long com carinho de ninho, feito pra misturar no leite e beber no copinho. Gostoso, cremosinho e fortificado com nutrientes que contribuem para a imunidade e o desenvolvimento dos ossos. Esse sabor icônico vai surpreender. Conheça!

Mas isso tudo por causa desse orgulho que eu tinha, que foi cultivado pelos meus pais, a maneira de perceber, de ter a segurança das escolhas. E me definiu. Então, quando eu vim para cá, eu vim, me parecia, para ficar distante.

do que todos os meus amigos endeusavam. Diziam assim, rapaz, você tem uma família, você tem um pai e uma mãe que, porra, te dão tudo, cara. Tem uma compreensão da vida muito próxima do que a gente tem naquele momento. E eu achava que eu estava querendo ficar distante daquilo.

Eu levei um tempo para receber que não era só isso, era muito mais. Eu queria construir o meu castelo de coisas. Eu queria construir a minha própria família. Eu queria...

Desculpa, te interrompi, mas assim, isso é tão importante porque às vezes as pessoas não entendem que os filhos que tiveram as melhores relações familiares também precisam sair. Justamente porque tem algo ali que é muito gravitacional, que puxa demais. Você tem que poder, você já está imbuído de algo, você já está carregando bastante coisa, você tem que botar aquilo à prova.

Isso, e tem a percepção de que você só está fazendo isso com essa pouca idade por causa da sua segurança. E quem te deu essa segurança? Foram os teus pais também, aquele núcleo. Então tinha uma percepção que eu fui ter depois, não, cara, eu só saí cedo. Você pôde? Com toda aquela convicção, porque eu pude. Sim. E eu tinha um embasamento histórico. Eu sabia onde eu estava, eu sabia por que estava. Aham.

Até sabia que se precisasse, em último caso, podia voltar. Sim, sim. E eu voltava. Sim. Sempre eu voltava. E a gente tinha também, com o meu pai, a gente se correspondia. Sempre pocharadas.

Sempre mandava uma charada pro outro matar. O que é carta isso? Não, charada é um jogo por isso. Não, não, não. O que você tá fazendo? Porque datilografava. É, datilografava. É, claro. Eu escrevia, eu manuscrevia, mas ele datilografava. Sim.

E a charada é um tipo de jogo semântico, tu conhece, né? Você faz uma sentença... Eu achei engraçado, porque eu pensava, não era o tempo de zap, era o tempo de escrever carta. Como você fez a mãozinha assim, eu falei assim, eu acho que se batia em alguma máquina. Eu adorei. É, máquina essa que depois está comigo até hoje. Olha que lindo. Mas ele fazia isso, e sempre era o pretexto, terminava com uma charada, assim. Um olhar morto, duas e uma.

Então é uma sentença que quer dizer o quê? Você precisa achar ou um sinônimo, alguma coisa que tenha a ver com um, com duas sílabas, um sinônimo de olhar com uma sílaba, e você juntar esses três fonemas ser um sinônimo da palavra final, que é a palavra-chave, morto.

Um, olhar, morto, duas e uma. Um com duas, cada. Olhar com uma, ver, cadáver, morto. Essa brincadeira de charada a gente manteve durante muito tempo. E era uma coisa assim, que é etimologia da palavra. Sim. Eu ganhei um vocabulário.

Ai, Lenine, mas assim, não é isso que os pais deixam pra gente? Uma charada? Mas essa que a gente nunca vai conseguir. Ou que vai ter tantos deslizamentos que nunca vai acabar, né? Os pais deixam pra gente uma charada, né? O que eles querem da gente? O que eles queriam da vida? O que a gente era pra eles, né? É uma grande charada. Só que essa charada não te dá as pedras. Ela não te diz que tem duas sílabas pra você achar. Uma sílaba na segunda palavra. E não tem a palavra final. Não tem a palavra final.

Que você pode chegar ao sinônimo dela sem precisar resolver os dois primeiros problemas. Maravilhoso. Então a charada que se apresenta para a gente é muito mais incógnita. Sim. É muito mais oculta. E a gente passa a vida toda querendo descobrir e não descobre.

Vai a cada dia descobrindo um pouquinho. Mas você foi o filho que... Os outros filhos fizeram também um percurso artístico de sucesso? Não, só eu. Você que foi para o palco mesmo. Sim. Embora todos tivessem essa afinidade com música. Sim.

Eu já falei isso algumas vezes, Vera, mas eu vou falar para você porque esse papo talvez exija que eu fale isso. Meu pai tinha outras das ideias socialistas que ele tinha, que ele achava que o ser humano devia aprender.

a fazer as suas escolhas muito cedo. Tinha que exercitar isso. E ele começava com a gente aos oito anos de idade. Qualquer um dos meus irmãos passaram por isso. Ele chegava e sentava, você está fazendo oito anos. Até hoje você vai aos domingos com sua mãe na missa porque ela acredita e eu respeito.

que aquela é a melhor maneira de se conectar com o divino. Ele nunca falava de Deus, mas falava do divino. Papai acha primeiro que aos oito anos de idade a gente deve fazer as primeiras escolhas. E a primeira escolha que eu vou fazer com que você tenha que optar é dizer assim, até hoje você foi com sua mãe, porque ela criou. Aos oito anos eu acho que a pessoa pode escolher, você pode continuar indo com sua mãe no domingo ou...

passar o mesmo tempo da liturgia, que naquela época é uma hora e meia de miss, todo em latim, um saco para quem era criança assistir aquilo, ele dizia, você vai ficar uma hora e meia comigo ouvindo música.

E esse vai ser o nosso ritual, que o papai acredita que a melhor conexão com o divino é a música. Então, todos nós, foi cultivado em cada um de nós essa musicalidade, essa parar para ouvir. Não é música de fundo, é a ritualização do ouvir. E ele fazia isso como se fosse uma missa.

Não bastasse isso, quando dava uma hora e meia de liturgia, eles agora vão passar aqui meia horinha nas ondas médias do rádio, procurando estações. E a gente tenta decifrar que país é esse, que língua que está se falando. Então passavam geralmente meia hora escolhendo sonoridades diferentes e tentando, parece francês, mas não é. Isso...

também gerou uma sedução através da descoberta do que se ouve. Eu estou totalmente seduzida pelo seu pai, que eu nem conheci. É impressionante, porque o jeito que você fala dele é uma pessoa que tinha uma intensidade, uma dedicação ao outro, absorvia as experiências sensoriais, uma pessoa de uma ética.

Sim, sim, muito grande. Muito grande. Isso foi, eu não diria problemático, mas foi um norte para cada um de nós. Sim, cada um fez alguma coisa com isso. Justamente. E o que era para sua mãe esses filhos não irem mais na missa?

Mamãe lidava com isso muito bem, porque eles tinham essa coisa de... Sim. E mamãe não era só cristã, ela era macumbeira também, cardecista, tudo que fosse através da espiritualidade, um aprimoramento do ser humano através da espiritualidade, ela tentava. Ela já não era dogmática, ela já não tinha essa coisa de tem que ir pelo meu caminho. Não, não, ela estava muito aberta a isso.

E ele também, Vera. Só que, semanticamente, ele tinha aquela história de que ele disse, não, eu sou ateu. Eu acho que ele era agnóstico. Mas tem mais a ver com o perfil dele. Porque ele nunca parou de falar sobre o divino. E aí você faz esse sucesso, não sei se eu estou pulando muitas etapas, e você acha que brilha o olho desse pai?

Levou um tempo para brilhar, porque a minha história desse sucesso que você fala se deu tardiamente. Eu venho para o Sudeste no final de 79. Em 83, eu gravei um primeiro disco, eu e Lula Queiroga, um parceiro querido. Então, achei que aquilo ali...

ia acontecer para mim. E foi um disco, na época a gente chamava disco Espinha na Bunda, que só você sabe que tem na hora que vai sentar. Os caras faziam dois ou três discos para bater o ICM, que as gravadoras quando faziam...

mais números de títulos, ele ia abatendo o quanto ele pagava para o Estado. Então era interessante ter muitos títulos. Mesmo que eles não lançassem. E foi assim. E eu levei dez anos para fazer...

o consagrado Olho de Peixe, que foi o disco que realmente abriu, escancarou as janelas e portas, não só dentro do Brasil, mas fora do Brasil, porque naquela época estava surgindo essa ideia de world music.

que é uma invenção dos anglo-saxões para excluir tudo que não é cantado em inglês. É um gueto musical. Como se houvesse Jupiter Music. Eu acho estranhíssima essa coisa. E já achava. E já naquele momento, eu já estava atrás do híbrido.

Eu não queria só o que era raiz, era raiz e antena. Eu gostava de Led Zeppelin, entendeu? Então, isso tudo foi muito formador do que eu sou. Quando eu fiz O Olho de Peixe, aí sim, para eles, e eles estavam vivos e plenos, foi uma conquista que corroborou tudo.

Não só o filho que conquistou, mas a conquista deles como pais daquele filho, defendendo questões que eram muito queridas e importantes no núcleo familiar. E que eu levei isso na minha vida, tanto é que eu me reconheço como repórter.

como jornalista. O que eu trabalho é em cima de crônica. Cada canção minha são como crônicas. Isso é a ideia do meu pai. Eu não tenho dúvida disso. E para os irmãos, como foi?

Bom, os irmãos, nenhum deles seguiu a música. Todos tocavam alguma coisa. Todos foram cultivados nessa musicalidade. Todas as festas populares, meu pai e minha mãe nos levavam. Então eu vi o pastorio do Velho Faceta com ele ainda vivo.

com as pastoras ao lado dele. Eu vi Lídita Maracá cantando novinha, e ele levava a gente. Todas as agremiações que saem no carnaval, o maracatu, os caboclinhos. Então tinha um processo de preparação durante o ano. Minha mãe pintando roupas, costurando roupas para as filhas e pintando roupas para os filhos para frequentar determinados bailes e festas de rua.

Então isso foi a minha escola. E foram para nós quatro. Isso aí era muito presente para nós quatro. E eles lidaram bem com seu sucesso.

Eles curtiram. E eu pude, por exemplo, meu pai nunca tinha saído do Brasil, eu levei ele para a Rússia. Para a Rússia, que bávara. Lógico, tinha que ser. E foi engraçado, porque eu peguei João, meu filho mais velho, estava com 18 para 19 anos, e eu disse, cara, você pode fazer uma coisa. Eu estava no meio de uma turnê na Europa.

pega seus avós, vai a Recife, pega os dois, vão para Frankfurt. Primeiro pousa em Portugal, porque minha mãe precisa conhecer de onde ela vem, de trás dos montes. E depois vai para Frankfurt, que a gente se encontra e vai para Moscou, todo mundo junto. E o João fez isso, que foi um presente para os dois. É engraçado que...

Para papai foi uma grande decepção quando a gente chegou na Praça Vermelha e eu peguei para ele e disse está vendo aquilo ali? Tinha um Emmy de McDonald's. Você está vendo? Ele ficou tão decepcionado. Quem não queria mais ir no mausoléu de Lênin? Ele está derretendo, eu vou lá ver.

Porque era derretendo. E eu tenho algumas fotos dele no Parque Gork, que é um parque que todas as estátuas...

daquelas figuras mais problemáticas da Revolução, foram tiradas. Mas eles implantaram todas essas estátuas quebradas, sem nariz, sem letalho do negócio, tudo nesse parque. E foi incrível ver um Stalin gigantesco, sem mão e sem pedaço da casa. Então, isso tudo foi muito bacana levá-los.

E creio que foi muito importante até para ele desmistificar um bocado de coisa. Mas que linda essa cena que você descreve desse parque, dos figuras. E meu mãe se correspondeu com todo mundo. E foi engraçado porque quando a imprensa descobriu que tinha um Lenine tocando num festival, que tinha esse nome por causa de um pai comunista...

Meu pai deu muito mais entrevista do que eu. Todo mundo descobriu isso. Ele tinha que fazer o show dele, porque era isso que ele fazia. E para você tudo bem. Justamente. Então foi lindo. Me fala dessa família que você forma depois. Sim. No primeiro momento, quando eu vou para o Rio, eu vou pensando na música, mas eu venho também para ver o nascimento do meu primeiro filho. Porque João foi feito num carnaval.

Ah, bom. Num aí, foi assim, que eu conheci a mãe do João. E teve aquela paixão, ela engravidou. E eu só fui saber que ela estava grávida quando ela disse, olha, estou mandando uma encomenda para você. Vai para o Recife, vai no voo tal, tal, não sei o que lá. Quando eu fui ver a encomenda, era ela. Você já é grávida. Sério? Meu filho e tal. Então, eu vim primeiro para ver.

Como foi isso? Isso foi uma loucura. Eu era muito novo. Isso terminou gerando em mim uma certa culpa de não ter sido o pai que eu gostaria de ter sido. Mas isso envolvia tanta coisa. E naquele momento estava tão distante tudo de mim. E a gente se separou muito rapidamente também. Mal vivemos juntos.

Então ficou naquele momento eu, um pai solteiro. E eu encontro o Ana. O João tinha seis meses. E a gente começa a namorar. Mas naquele momento, tudo que eu não queria era alguma relação estabelecida.

alguma responsabilidade perante aquilo. Eu queria ter filho, embora já tivesse um. Então, uma série de coisas que a gente foi viver, eu e Ana. E só oito anos depois do João, eu fui ter o primeiro filho com Ana, o Bruno.

E seis anos depois do Bruno, eu fui ter o terceiro filho, que é o Bernardo. Então, essa diferença de idade deu a impressão para mim que eu tive três filhos únicos. Sim, sim. E com cada um foi diferente. Cada um foi diferente. Se por um lado o João nunca me teve presente na mesma casa...

com pai e mãe, e o Bruno e o Bernardo tiveram, tanto o João quanto o Bruno, pegaram as vacas magras. Onde eu vivia como? Eu vivia... Eu fui...

Tradutor de livro, sem nunca falar inglês. Eu fui... Me envolvi com uma série de coisas. Pagar as contas. Para poder sobreviver. Fui vender livro. O clube do livro. Eu saí de porta em porta vendendo livro. E no final do primeiro mês, eu já estava devindo. Porque cada livro que eu via... Não, isso eu quero ter, pô.

Então foi uma série de coisas. E nesse caso, a Ana, eu pude viver isso, porque a Ana era uma produtora muito poderosa no sentido de autonomia, ela tinha um cargo incrível na televisão, então era uma produtora muito bem sucedida.

E eu dependi dela durante o tempo. Enquanto eu estava ali, fazendo o quê? Compondo, porque a minha ideia era como é que eu posso chegar. Já tinha tido o Bac Solto, o Lua Queiroga. Foi um rotundo não.

que me pareceu que a indústria deu para mim. Dizia, ó, não. E aí, nesse sentido, eu fui fazer o quê? Como compositor, eu tenho que frequentar o repertório dos artistas. E passei sistematicamente a compor, procurando chegar diferenciado no intérprete. Porque você imagina, se um Neymar Togros, vou fazer um disco, vai chegar...

Duas mil músicas para ele. Sim. Mas pense bem, vai chegar uma fitinha de alguém que é mais íntimo do Ney e vai dizer, tu precisa ouvir isso aqui. E o Ney vai ouvir um pouquinho diferente. Embora ele ouça tudo, naquele momento vai chegar um pouquinho diferenciado. Tem uma transferência colocada. E isso, no nosso meio, isso define. Porque não é questão de talento só.

Sim, tem várias coisas. Tem muitas coisas. Tem o momento do world music, tudo isso é uma conjugação de astral. Uma conjugação de coisas. Eu percebi tudo isso. Então foi tardio. Quando o olho e o peixe, eu já tenho mais de 30 anos. Eu estava com 30 e tantos anos. E isso tinha muito a ver...

com essa coisa de eu descobrir como gravar, como produzir, como o fazer.

Música no que diz respeito à discografia, fazer um disco. Eu não aprendi como fazer, mas eu tinha ouvido um não dessa indústria. Então, se eu não fizer, ninguém vai fazer. E foi assim que, dez anos depois, eu me encontro com Suzano e Denilson.

que estava numa situação diferente da minha, porque Suzano, um grande percussionista, um dos maiores da história da percussão brasileira, e o Denilson, um grande mixador, hoje ele trabalha com cinema, ele trabalha com todo mundo. E esses três, vamos fazer? Vamos. A gente teve uma tarde, eu e Suzano juntos, a gente definiu o disco naquela tarde.

tinha a ver com uma síntese que a gente chegou muito interessante, que seduziu também todo mundo, porque era só um violão, uma voz e uma percussão, e não tinha o banquinho. Tinha uma atitude que tinha a ver mais com o rock, tinha a ver mais com a música pop, tinha a ver com uma música mais virulenta, mais pesada, mais...

Ou seja, não tinha o banquinho e o violão, tinha só o violão. Tinha ninguém sentado, não. Não, não, não. E isso levou dez anos. E eu recebo, nós, o trio, a gente faz, roda o mundo com isso. E abriu, escancarou muito desses festivais de world music que proliferavam naquela época.

Era o momento da música étnica, a música de cada lugar. O que também é o exotismo da música alheia. Mas quando você vai fazer todo esse circuito, como é que fica essa família? Quem fica com esses filhos? São três. Olha aí. Como o João...

e o Bruno, quando eram bem novinhos, eu trabalhava com composição, era em casa. Eu tinha meu próprio estúdio, eu gravava, eu gravava um ritmo, gravava meu instrumento, gravava minha voz e mandava para o artista que eu estava targueando. Fulano de tal, então fulano de tal gosta disso, havia uma pesquisa.

que eu sempre fiz. Como foi o último disco de fulano? Foi isso, isso. O que é que fez sucesso? Isso, isso, isso. Do que é que ele falava? Isso, isso, isso. Então, a ideia era como eu posso botar palavras novas na boca daquele intérprete que seja verdadeira para ele dizer. Tinha uma pesquisa por detrás disso. Muito grande. Mas eu estava em casa fazendo. Então, eles me tinham um presente.

O Bruno, quando foi ficando mais velho, ele passou a ver o quê? A minha ausência. Eu comecei a viajar. Viajar muito. E o período que ele faz aniversário, que é em junho, era justamente o pico, que é o verão europeu. Então eu estava sempre viajando nos aniversários dele. E era sempre a Ana que estava tomando conta.

Bernardo ainda foi pior. Porque quando Bernardo chega, eu já estou com uma agenda gigante e também produzindo outras coisas e me envolvendo com outros tipos de fazer. Fazer trilha de cinema, fazer trilha de dança, como eu fiz com o corpo por duas vezes.

Então, isso tudo foi muito diversificando e me fazendo cada vez mais ausente do núcleo. Então, eu acho que eles sofreram muito com isso. Você sofreu?

Muito, mas deixa eu te dizer, eu também tinha muita diversão envolvida nisso. Só que a diversão se dava quando você estava em cima do palco. Aquele momento dura uma hora e meia, duas horas. Todo o ritual de antes de preparar o som e depois desfazer tudo, botar e entrar no ônibus e sair, tudo isso era muito doído.

Tudo isso era muito... Na hora que eu estava tocando, eu esquecia de todas essas cargas que eu estava carregando. Mas os meninos não tinham isso. O que tinha era a ausência. E isso se deu até pouco tempo atrás. Porque eu sempre viajei bastante. Sempre estava dentro do meu escopo essa coisa de ir a lugares que eu nunca fui.

Música para mim sempre foi um passaporte. Eu queria conhecer a vida, eu queria conhecer o mundo. E escolhi fazer isso fazendo música. E isso foi o mais libertador.

Mas eu não queria ficar distante da viagem, de conhecer culturas diferentes, de provar tudo isso, de me sentir mais vivo por causa disso. E como é que funciona esse casamento, essa família, esses netos com essa... Como é que você está com 67?

Fazendo um saldo dessas tuas escolhas, né? Bom, eu não sei se tem muita escolha, porque quando a gente chama um negócio, bicho, não dá pra arrancar uma perna e não dá, né? Tem uma coisa... Mas como é que ficou essa família? Rapaz, você tem que perguntar a ela.

Mas vocês conseguiram estabelecer, porque o que você conta de uma afetividade, vocês têm intimidade, vocês têm proximidade, vocês têm confiança, vocês têm conversa. Sim, tudo isso. Muito amor, muito afeto. As plenárias menos. Porque a gente não tem, por exemplo, o João não morou comigo. Ele ficava comigo no final de semana. Diferentemente dos outros dois que moraram comigo.

Ou melhor, moraram com a minha ausência, porque eu estava lá. Não, eu acho que eles... Eu acho sim que eu quis reproduzir uma família parecida com o que eu tive, e foi uma grande referência para mim.

Mas eu não sei, sinceramente, eu não sei se dizer se eu consegui o meu aspiracional. O que eu aspirava, eu cheguei e não sei. Você não perguntou para eles? Eu acho que a gente pergunta isso o tempo todo. Você pergunta? É, a gente pergunta isso de maneiras diferentes, mas a gente pergunta, a gente quer ser reconhecido, porque acha que fez alguma coisa de importante na formação daqueles seres.

Mas também ele nunca vai ter outro para comparar. Sim. Não vai ter outro pai para dizer, não, esse aqui é melhor do que esse. Não. Não, vai ser uma experiência. Olha, esse é o pai que tu tem. Então é essa questão que também me foi posta muito cedo. Meu pai também falava isso.

Esse é o que tu tem. E os dois, meu pai e minha mãe, tinham essa categoria. Quando um estava falando sobre o outro, ele falava assim, em primeiro lugar, mulher.

Companheira. Segundo lugar, a companheira. Terceiro lugar, a companheira. Quarto lugar, a companheira. Quinto lugar, filho. Então eles exercitavam isso. Primeiro é nós dois. Filho é a consequência. Sim.

E está invertido hoje, né? Sim. Os filhos são o centro de gravidade, né? Como se eles fossem estar lá, os pais fossem estar lá para sempre, né? Sim. E os filhos não tivessem uma vida própria, né? Eu entendo totalmente, porque eu também sou da sua geração, né? Eu entendo perfeitamente esse... O casal vai ficar e os filhos que se dêem bem também de algum jeito.

construam os seus. E faça a sua equação. A nossa é essa. E assuma a responsabilidade da escolha. Porque se fala isso, se o pai fala bicho, você vai ter que escolher. Não é sem consequência, mas você vai ter que escolher. E você fez, né? Ele falava umas coisas que davam um sentimento dúbio pra mim. Porque quando eu fui envelhecendo e vendo, meu pai ia almoçar todo dia em casa.

Então, assim, o trabalho dele lá, vou pra casa almoçar. Aí tinha aquele momento com minha mãe, com a gente, comendo, depois voltava pro trabalho. E era sempre uma pegação. Ele vai e pegava na bunda dela, agarrava ela, minha linda, minha gostosa, não sei o que lá. E ele fazia isso publicamente. Não tinha esse negócio. Eu, com o tempo, fui questionando por causa das plenárias e no individual eu dizia, bicho, ou tu é um ator?

um muito bom ator, ou tudo é muito cafajeste, porque eu não acredito você viver o tempo todo com alguém assim, nesse ex, eu não acreditava. E questionava isso para ele, e ele me dizia uma coisa que me batia muito errado. Quero dizer assim, enquanto você não entender que casar é uma pequena variação de morrer, não case não. Olha, isso é muito estranho.

Eu, jovem, ouvi isso, vendo aquela relação daqueles dois, eu dizia, como? Morrer? E ele dizia, é, você vai ter que morrer para muita coisa para poder nascer em par. Nascer junto. E aí vai ter outras coisas que vocês vão ter que cultivar juntos, não mais sozinhos.

Então, ele entendia o morrer depois de muito tempo. Porque a palavra vem com muito peso, né? Morrer traz todo esse peso de perda que a gente de vez em quando está voltando nisso aqui. Eu achava muito estranho ele dizer isso para mim. Hoje, eu entendo plenamente o que ele queria dizer para mim. Dizer, cara, se você não tiver esse despojamento com o teu ego...

a ponto de criar uma situação do par e cultivar isso. Ele falava muito disso. Não é só criar, você tem que cultivar. Você tem que diariamente reafirmar essa condição. Aí tudo se encaixou para mim. Então eu entendia o marido, marido, marido, marido, marido, filho.

Muita coisa eu entendi a partir dessa... E você entendeu também que um casamento tem essa sexualidade possível também. Sim, sim. É tão raro hoje, as pessoas não entendem isso. É porque você não se predispõe a fazer. Por isso que eu entendo o morrer que ele usava. Você não quer abrir mão do seu individualismo. Você já conquistou uma série de coisas. Eu vou entrar num terreno tão frágil como esse?

Então, as pessoas não se predispõem a dividir com o outro plenamente. Não, você fica desconfiado. A atualidade, o individualismo que eu vejo exacerbado nessa sociedade é uma coisa para desacreditar do ser humano.

Ai, que delícia te ouvir. Ai, que ótimo, que bom. Muito bom te ouvir, muito bom ouvir essa história e essa tua insistência, que bom que você insistiu. Quantos talentos o Brasil perde, porque não tem como insistir, né? Não tem como... Chega uma hora que você não tem o que comer, você não tem o que fazer, você tem um monte de filhos, o que você fez foi uma corrida de longo prazo, né? Foi, foi.

Esforço, enfim, dá. Maratona, né? Maratona, é. Foi uma maratona. E passou tão rápido. Porque a gente tem essa noção, né? Depois, com o tempo...

as coisas vão mudando, não só contextualmente, mas semanticamente, as coisas vão tendo outros significados. É por isso mesmo que eu chego nos netos, e sempre que eu vejo os netos, eu me recordo e fico estampado na minha frente o quanto eu errei como pai.

E o quanto meu pai dizia, você pode fazer o que quiser, mas você vai errar sempre. O erro está garantido. O erro está garantido, porque faz parte da educação do ser humano. O erro está garantido, admiti-lo é melhor do que fingir que não. Talvez essa seja a grande questão. Encarar de frente. Encarar de frente, assumir até o final. Então, isso eu acho que também foi outra lição maravilhosa. Então, como avô...

Eu não entendo, quando eu vejo meus filhos repetindo as coisas que eu fiz, achando que aquilo é educação, achando que aquilo ele está educando, eu como avô e passei pelo processo de ser pai, eu digo, cara, isso aí não dá em nada. Mas eles estão no direito deles, de errar do jeito deles também. Mas eu falo mais no sentido de...

O afeto é a mola propulsora do ser humano, cara. É o caldo que fica, né? Com afeto, você chega a tudo, você resolve tudo, cara. Tá vendo? Meu pai, novamente, ele dizia que a maior invenção do ser humano é a tecnologia do afeto.

você foi uma das pessoas que trouxe um pai mais robusto. Está muito difícil a gente encontrar pais robustos com histórias afetuosas, efetivas, histórias que são transmitidas com toda essa carga. Tem sido muito raro ouvir isso aqui. Fico muito feliz, Lini, de você ter podido contribuir com isso. Vera, eu preciso também dizer que essa é a minha percepção. Ah, mas sim. Eu não sei se meus irmãos...

eles tiveram outro pai, te garanto outra mãe, isso eu não tenho dúvida cada um teve um Lenine como irmão talvez a minha irmã, por causa da proximidade a gente tinha uma percepção parecida mas eu acho que isso depende de cada filho e cada filho vai entender de uma maneira diferente e o que é incontestável é que esse sentimento do erro que é uma coisa que está na nossa cabeça tem a ver com essa iniciativa que a gente tem de achar a gente tem de achar

que dizendo não está educando. Porque na maioria das vezes é isso. Ah, não pode. Por que não pode? Não, porque não pode. É assim. Como não? Na maioria das vezes, a primeira palavra na boca do homem é não. Não. Os meus filhos todos aprenderam não muito mais rapidamente. E só como avô eu percebi isso.

Como pai, eu não percebia isso. Mas essa é a função do avô, esse mundo paralelo no qual a criança pode brincar com esse não. Os pais ficam muito angustiados. Mas me incomoda quando os filhos dizem que vocês deseducam. Eu peço todo o direito de deseducar. Desculpa, eu não tenho nada a ver com a lida de vocês. Eu já fiz os meus. Já criei minhas filhas. Agora é minha vez. Eu discordo da palavra. Isso não é deseducar.

Não, isso é educar. A gente fala na psicanálise que a gente tem a formação do analista, mas o bom mesmo é a deformação, porque a formação é tão engessada. Então, tudo bem deseducar, porque se é para educar desse jeito, eu estou pensando assim, não tem problema, a gente entra com outra coisa. É verdade.

E nessa mistura entre família e trabalho, você compõe uma música que fica meio emblemática dessa questão. Conta dessa música. Fotos de família, no projeto mais recente, o Eita. Que é um... Bom, todo o meu trabalho eu me orgulho muito, porque eu me envolvo muito no fazer. É uma coisa... Essa construção é uma coisa que me toma, que eu sou apaixonado e tudo.

E uma das canções que foi inspirada numa foto desse matriarcado com minha mãe no centro, meu pai e todos os netos em volta, eu fiz uma canchão chamada Foto de Família, que quem escreveu a letra foi João, meu filho mais velho. E foi uma encomenda do Bruno, que é meu produtor. Há muitos anos é Bruno que produz as minhas coisas, que mostrou essa foto e disse assim, olha, isso aqui a gente tem que... Tu tem que fazer alguma coisa nisso aqui.

Então, a foto não só reverbera tudo que a gente falou aqui da importância que esse casal teve na formação de seus filhos, mas como reafirma essa condição do afeto ser a maior tecnologia inventada pelo ser humano. E é lindo, e eu chamei nada menos do que Maria Bethânia para cantar isso comigo.

Por causa dessa capacidade de interpretação que essa mulher monstruosa e gigante que a Maria Bethânia tem, a maneira como ela...

põe um peso nas palavras, a maneira como ela divide os fonemas em benefício do sentido. Coisa de quem leu muita poesia. Sim, sim. Coisa de quem... Ela tem essa coisa com a poesia, né? Ela tem essa coisa. Ela tem essa coisa. Com declamar. E a gravação foi incrível, porque foi ao vivo, não teve playback, não teve overdub. Eu na frente dela, tocando para ela e cantando junto com ela. Então, foi o momento.

Porque tem essa diferença. Quando você está gravando um disco, é a parte tecnológica. Você está dentro de um estúdio que parece mais um hospital, a Séptico, sacou? E o show, não. O show é o lado do divino do meu pai. O show é aquilo, é catarse, é outro tipo de conexão. Então, em foto de família, eu trouxe o show para o estúdio. Nós fizemos uma gravação ao vivo.

com toda essa entrega e organicidade que é você tocar ao vivo. Está sujeito ao erro? Está. Mas o erro é uma condição do ser humano. Nós todos temos vários erros. Tem muita... Bom, o disco...

Quem é pai sabe que você quer sempre falar do filho mais novo, não por predileção, mas porque o filho mais novo precisa de mais atenção, porque é mais novo. Você põe esses filhos junto com as tuas obras, né? Sim, sim. Que legal. E são. Não por acaso, por exemplo, o chão...

A capa do chão é eu com o meu primeiro neto, que é o Tom, o filho mais velho do João. Estão sempre presentes. Esse núcleo familiar, o meu núcleo familiar, nunca me deixou. Eu nunca estive sozinho. Eu sempre estive muito bem acompanhado. E todos eles têm essa musicalidade. O João é um compositor independente.

de trabalhar comigo. É um cara estabelecido, um grande letrista, um grande melodista. Bruno é meu produtor desde chão. Ele não só produz, mas mixa, masteriza. E Bernardo tem a mesma musicalidade. Também todos eles bichados nesse negócio de música.

E a sua companheira, como é que ela lidou com essas ausências? Estou doutora, né? Mas ela viajava com vocês? Ela é minha empresária. Sim, sim. Empresária, para a sua cultura. Naquela época ela não viajava comigo, não. Porque eles eram pequenos. Justamente. E a ausência que os meninos sentados, pelo menos os dois que a gente tem em comum, que é o Bruno e o Bernardo, eles sentiram a ausência tanto a minha quanto a dela. Ela também fazia carga horária de 11, 12 horas por dia.

Então, assim, eles tiveram muito a nossa ausência. Isso é... Acho que cada um sentiu de uma maneira diferente. Mas todos sentiram. Obrigada, querido. Obrigado a você, linda.

E depois de ter feito tantas perguntas, a gente tem uma inversão aqui, que é você me perguntar alguma coisa que você queira. Bom, eu vou te fazer uma pergunta, que é uma pergunta que eu ando me fazendo. Eu nunca tive dúvida das potencialidades do ser humano. Eu estou começando a ter. E eu queria dividir isso com você. Você tem fé no ser humano? Da capacidade do ser humano de refazer tanta besteira que ele fez?

Responda essa pergunta intrigante do Lenine no episódio bônus Pergunta Vera, que sai toda quinta-feira no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Até lá. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A montagem e edição de som são do Pedro Pastoriz. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.

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