[BÔNUS] Marina Silva pergunta à Vera: o que a psicanálise pode fazer pela política?
A ex-ministra e ex-senadora Marina Silva vê a política vivendo um momento de estagnação, presa à repetição de fórmulas e à busca pela permanência no poder. Neste episódio bônus “Pergunta à Vera”, ela quer saber da Vera Iaconelli: como a psicanálise pode ajudar a política a sair desse lugar e voltar a dialogar com as dores, os desejos e as possibilidades da vida real?
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- O papel da psicanálise para a política sair da estagnaçãoreconectar com a pulsão de vida·dialogar com dores e alegrias da vida real·psicanálise como autocrítica
- A estagnação da política e a busca pela permanência no poderpolítica como processo de fórmulas para o sucesso·repetição de fórmulas e estagnação·conforto com a permanência no poder
- A evolução da psicanálise e sua relação com questões sociaisFreud e as clínicas públicas·psicanálise como tratamento de elite·jovens psicanalistas e questões sociais·psicanálise brasileira e interseccionalidade
- A ética na política e a responsabilidade pelas escolhassujeito se responsabilizar pela escolha·cinismo na política·bancar o próprio desejo e suas consequências
- A necessidade de repensar os valores da sociedade brasileiraBrasil como espelho de autoritarismo e violência·justificativa pelo sucesso e ostentação·valorização da dignidade e não da troca monetária
Oi, eu sou a Vera Iaconelli e esse é o Pergunta Vera, um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia. Aqui eu respondo a uma pergunta qualquer feita pelo convidado da semana. Dessa vez eu conversei com a Marina Silva. A íntegra da nossa conversa, que foi incrível, já tá no feed do podcast. Foi ao ar na terça-feira, vale a pena ouvir. Bom, vamos pra pergunta da Marina.
Geralmente as pessoas dizem que eu sou muito sonhática e sou muito, enfim, pouco pragmática, mas eu acho que eu aprendi que a matéria-prima mais concreta da minha vida é o sonho. Isso não estaria nem aqui, né? Mas eu vou ser um pouco pragmática, posso?
Claro que você quiser.
Eu acho que a política tá vivendo um momento de profunda estagnação, né? E eu tenho algumas percepções da política, né, que é o fato de que a política é vista como um processo de fórmulas para o sucesso. E ela não é isso. Ela é um processo vivo e que tem que dialogar com a realidade de acordo com o que tá acontecendo. Quando ela entra nessa repetição, ela entra em profunda estagnação e tudo que se faz é tentar as fórmulas que nos deixem em conforto com a permanência no poder.
Mas o poder não é algo que a gente possa se apropriar dele, né? Então, como psicanalista, o que que você acha que a psicanálise pode ajudar a fazer com que a política saia dessa estagnação, desse aprisionamento da pulsão de morte, se reconecte com a pulsão de vida, que é dialogar com as dores, os sofrimentos, as alegrias, as dúvidas, as certezas e as grandes possibilidades, mesmo diante de muitas impossibilidades que a gente tem.
Ai, uau, mega pergunta e uma pergunta que a gente brinca, pergunta de 1 milhão de dólares, mas eu vou, não sei se eu vou responder, acho que não conseguiria, mas eu acho que a gente pode contextualizar uma coisa que traz um pouco de esperança para mim. Que é o fato de que o Freud começa tentando pensar formas nas quais as questões políticas podem ser repensadas no tratamento, né? Ele começa com as clínicas públicas, ele começa a ver como a gente responde a uma psicanálise que sirva ao cidadão, que não seja só de uma elite, né?
Ele já começa a introduzir alguma coisa das questões na pós-Primeira Guerra Mundial. Ele vem com essa, olha, a gente vai ter que tratar esses soldados que vieram com trauma de guerra, que até então era considerado trauma de guerra era considerado frescura, né? Era deserção, era fraqueza. Ele que vai dizer, não, tem um adoecimento aí diante do horror, né? Então, o Freud tem esse primeiro momento muito político, mas que esse primeiro momento é cortado.
Se criam muitas clínicas públicas, né? Não só em Viena, mas em outras cidades, em outros países. Só que vem a Segunda Guerra, a perseguição aos psicanalistas, eles têm que salvar suas próprias vidas, vão para outros países. E esse discurso que soava, né, mais comunitário, mais socialista, ele acaba sendo— e esse discurso é tolhido, né? E aí depois a psicanálise vira, Marina, um trabalho de elite para branco rico, basicamente, que dura 30 anos de análise.
Agora tem uma moçada que é uma moçada que vem por conta das cotas. Que é uma moçada periférica, negra, com outra história, com outras referências, que se interessa pela cultura ancestral, que se interessa pelas suas histórias, se interessa por cosmovisão indígena e começa a falar: Que psicanálise é essa? Eu não quero fazer esse negócio, eu quero fazer uma outra coisa. E eles começam a pensar que sim, tem o atendimento que dura muitos anos no consultório, sim, ele é válido pra mim, salvou minha vida, entendeu?
Mas assim, ele existe também, mas tem outras formas da psicanálise estar no mundo. E essas formas significam que a gente possa escutar todas as pessoas e não só as pessoas que são brancas, ricas, que têm acesso à psicanálise. Então tem esses grupos de psicanalistas que começam a pensar: como é que a gente pode fazer com que a psicanálise faça com que os sujeitos se escutem? E pra você escutar, você tem que ampliar teu repertório de sujeitos.
Você não pode só encontrar os seus amiguinhos, você tem que encontrar pessoas que vêm de outras histórias. E aí começam a surgir novas formas da psicanálise no mundo. Isso é muito Brasilzão, isso é muito sul global, porque é claro que psicanálise como sendo eurocentrada, vindo da Europa, né, vem colonizar a gente, né? E eles não estão muito preocupados com nada disso. Quem tá preocupado é que são jovens psicanalistas que estão no sul global tentando se haver com as questões, com as questões climáticas, com as questões de gênero, com as questões da pobreza, com as questões raciais, né?
E aí eu acho que, por exemplo, eu faço parte de um núcleo que você também deve conhecer, do Eduardo Costa Pereira, que vai pegar a cosmovisão indígena pra pensar a psicanálise a partir do reencantamento do mundo, pra pensar, ao invés de pensar as histéricas do Freud, vai pensar o banzo e a geofagia dos escravos que chegaram aqui no Brasil e morriam de tristeza. E a gente vai começando a repensar o próprio lugar. E quando você fala assim, o que que pode ter da psicanálise pra política, eu acho que a gente tá um passo antes.
O que que a psicanálise pode começar a se repensar também como um lugar de autocrítica? A gente tem que fazer a pequena revolução dentro da psicanálise pra que a psicanálise possa escutar todos os sujeitos de um outro lugar. E não só no consultório, que também é válido, mas a gente tá em todo lugar. Eu tô aqui falando no microfone pra um monte de gente, né? Você tá falando da psicanálise num lugar que você vai ser afetada pela psicanálise.
Que psicanálise que te afeta? É uma psicanálise engajada, né? A gente vai pensar o mundo através da psicanálise com outro engajamento também das questões de poder, né? Então, eu acho que ela tem algo que pode acontecer no um a um do consultório, do cara que vai lá e fala, nossa, eu tenho a ver com esse mundo, eu não tô isolado, eu sou uma pessoa, não sou melhor nem pior que o outro. Eu acho que uma análise pode caminhar por aí, mas também a psicanálise pode fazer uma leitura ampliada do mundo.
E pra isso a gente vai ter que recuperar um pouco uma coisa que se perdeu do Freud lá atrás e uma coisa nova que tá sendo criada aqui, que é uma psicanálise brasileira que leva em consideração a interseccionalidade, ecologia, todas as questões da atualidade. Então, eu não acho que eu respondo diretamente a sua pergunta, mas eu tô muito animada com o povo jovem, bem mais jovem que eu, na casa dos 30, 40, que tá pensando na psicanálise, que vale a pena, que eu acho que vale a pena.
Então, são jovens negros que estão aí chegando nos doutorados, pós-doutorados, e pensando uma psicanálise que tenha uma conversa com a política, não de partidária, mas dessa política que interessa, né, das mediações, dos encontros, da igualdade, né, de você se sentir não melhor nem pior do que ninguém, né. A gente tá estudando Viveiros de Castro, por exemplo, sabe, a gente tá tentando baixar a arrogância da psicanálise para escutar.
Uma coisa que me ajuda muito na política, para mim são três, é um paradoxo, né, quando eu penso a política. Para mim, a arte, a psicanálise e a espiritualidade me ajuda a navegar nesse, nesse cipuau e para mim me sentir viva, produtiva, livre, sem ser capturado por essa estagnação da repetição de algum sucesso para aprisionar o poder ou aprisionar o próprio sucesso. Mas o Ricardo Goldenberg, ele fala que se de um lado a psicanálise não faz uma promessa, a política não tem como sobreviver sem uma promessa.
Mas para mim, Talvez ajuda seja. Acho que a psicanálise não pode fazer uma assepsia da promessa. E eu acho que você falando, né, que esses jovens estão dizendo, alguma promessa tem, né? E por outro lado, a política também não pode cair de enxofre na promessa. Ela tem que ter também algum resvalo Opa, isso aqui eu talvez eu não saiba, eu não possa, eu não deva. Porque as pessoas foram para um caminho que elas acham que pode tudo. Sim. E não pode, não pode quem tá no Supremo se envolver com o vorcário.
Sim.
Em nível nenhum, não é? Então quais são os cortes? A lei que a psicanálise ajuda a política.
Sim, eu acho que entra uma questão da psicanálise Que é a questão da ética, né? Do sujeito se responsabilizar pela escolha dele, mas ele tem que assumir essa escolha, porque a gente vê uma situação mais de cinismo, né? O cara fala em nome da família e tá indo lá na balada paga pelo Vorcaro pra fazer, né? O cara fala de, sei lá, não à corrupção e tá afundado na corrupção. Então, tem algo de uma posição ética que tá sendo pensada na psicanálise, porque ela é um tratamento ético do sujeito chegar no final e falar, não, eu faço isso, mas eu assumo eu faço isso.
É um lugar do sujeito no mundo bancar o próprio desejo, né? O que às vezes é desconcertante, porque às vezes o desejo pode ser um desejo antissocial, mas você teve que bancar inclusive as consequências desse teu desejo antissocial, né? E tem uma questão que eu acho que é um pouco dura, que é a gente pensar, bom, o Brasil é um país que tem 500 anos de invasão, de violências, enfim, e ele tá servindo no espelho. Então tem algo de que os representantes não estão totalmente enganando os representados.
Tem algo que está se revelando do nosso autoritarismo, da nossa violência, dos nossos valores, né? E isso a gente tem que também poder ver para poder combater e não ficar contando uma história hipócrita de que nós somos pró-família. Não, hoje em dia você se justifica pelo sucesso. Que você tem, né? O candidato que não tem muitos bens, ele é considerado um fracassado e não honesto, né? Ele tem que ostentar porque o outro acha que ostentação é um valor.
Então eu acho que uma das coisas que eu tenho sido muito chamada a falar, no fim eu sempre vou falando de, vamos, se a gente quer mudar isso daí, a gente vai ter que pensar que o que tinha valor, que a história do seu pai Que isso tenha valor? Então, que ele não ganhava dinheiro pra fazer aquilo pras pessoas que faziam parte da comunidade ali, que a sua avó ia lá e salvava a vida de uma mulher parindo, ou pelo menos a confortava, sem uma troca monetária, isso é um valor de você admirar, da dignidade, né?
A gente tem que começar a repensar quais são os nossos valores, né? Mas pra isso a gente vai ter que olhar no espelho e falar: nossa, Tá feio o negócio, né? Nossa cara tá feia.
Ah, bem sim, mano. Poxa, velho.
Acabou nosso tempo, nós estamos aqui em sofrimento, gente. E agenda, não, eu sei que deve ter a ver com a sua agenda. Agenda da Marina que tá pitando aqui, gente. Mas eu já explorei você muito, muito, olha.
Ó, Vera, muito obrigada.