Marina Silva tinha cinco anos quando decidiu que queria sair da casa dos pais
Marina Silva cresceu em um seringal no Acre, cercada por uma família em que cuidado, trabalho e solidariedade faziam parte da vida cotidiana. Nesta conversa com Vera Iaconelli, ela fala sobre a decisão de ir morar com a avó, a relação de cumplicidade com o pai e a morte precoce da mãe, quando Marina tinha 14 anos. Ela também conta o que aprendeu com os mais velhos, com a floresta e com uma família de mulheres fortes – experiências que ajudaram a formar sua ideia de ética, cuidado e responsabilidade pelo outro.
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
- A família de Marina Silva como comunidade de serviço e solidariedadeavó parteira tradicional·mãe costureira e agricultora·pai alfabetizado e contador·tio mateiro e xamã
- A morte da mãe de Marina Silva e a perda da casamorte aos 36 anos por aneurisma·casa e pertences queimados·pai e irmã mais velha em depressão·assumindo o controle da situação
- A decisão de Marina Silva de morar com a avó e o vínculo especialpedido aos 5 anos de idade·vínculo com avó, tia e tio·mediação de conflitos familiares·aprendizado com os mais velhos
- A dignidade e cumplicidade na relação de Marina Silva com o paiincêndio no canavial aos 8 anos·pai finge surra para proteger·pagamento da dívida com arroz·pai se levanta da depressão
- A família como porto seguro e o amor como investimentofamília estendida e amigos·cuidado e cultivo das relações·amar mesmo os inimigos·dignidade humana para todos
- O matriarcado na família de Marina Silva e sua perpetuaçãomatriarcado pelo lado do pai e da mãe·mulheres fortes e homens frágeis·filhas como matriarcas·a mulher do filho também matriarca
Trovão Mídia.
Oi, eu sou a Véria Conelli e isso não é uma sessão de análise, um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. Toda semana alguém vem aqui falar comigo abrigo de família, das suas origens e raízes, e também das árvores e frutos que nasceram depois. São histórias particulares que nunca correspondem a um modelo ou ideal. Quem sabe assim a gente vai desmontando os fantasmas da normatividade e se reconhece no que essas histórias de família têm de universal.
A minha convidada de hoje é a deputada federal, ex-ministra, ex-senadora E nesse momento candidata ao Senado de novo, Marina Silva, a neta da Dona Júlia, sobrinha da Matilde e do Pedro Mendes, a filha do Pedro e da Maria, a esposa do Fábio, a mãe da Moara, da Maiara, da Shalom e do Danilo, avó do Mateus.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Marina, não consigo assim colocar você assim sem falar que eu tô emocionadíssima de te ouvir hoje. Eu acho que você realmente é uma figura mundial, historicamente importante. Então para mim é uma honra. Não vou me privar de falar isso e vou até fazer comentário assim: faz muito tempo que eu quero ouvir a tua história porque eu já ouvi você começar a contar essa história. E sempre lamentava que as pessoas não deixavam você contar a altura dos acontecimentos. Então hoje eu queria saber qual que é a tua referência de família.
Bem, Vera, primeiro obrigada por essa oportunidade da gente conversar. Fiquei emocionada com a sua emoção também. Você sabe que eu tenho uma profunda paixão pela psicanálise. Acho que se eu não tivesse enveredado pelos caminhos da política, eu seria psicanalista. Eu até cheguei a começar algumas formações, fiz a minha especialização em teoria psicanalítica, fiz duas formações em psicopedagogia e tenho uma filha psicóloga. Então, acho que a tua emoção vem para mim também na forma daquilo que você é, daquilo que você representa como uma linguagem diferente.
E uma forma diferente de conversar com as pessoas, de conversar com a alma das pessoas. Bem, a minha família, né, minha referência de família é de uma família servidora. Eu nasci numa família que servia. A ideia de serviço, né, eu sempre digo que eu encaro a política como um serviço. Isso às vezes parece piegas dito por um político, Mas no meu caso tem uma raiz de vivência, porque a minha avó, Júlia, era parteira, uma parteira tradicional nos seringais da Amazônia, que atendia as mulheres do seringal aonde a gente nasceu.
E uma mulher entrasse em trabalho de parto, não importava a distância, A minha avó ia para aquela casa, ficava ali uma semana atendendo aquela mulher, dando as primeiras instruções, principalmente se fosse o primeiro filho. Minha avó andava, ia à noite, horas no varadouro, no meio da floresta, que se viesse alguém chama ela para ir fazer um parto. Minha mãe era uma costureira e uma agricultora de subsistência, que fazia da roupa do batismo a mortalha das pessoas.
E meu pai foi alfabetizado no Ceará, que ele veio do Ceará, ele fez até o terceiro ano primário e ele escrevia cartas para as pessoas que não sabiam ler, a maioria, para mandar para o Ceará, No final de semana ele ficava fazendo as contas dos vizinhos. Vizinho, mas era o mais perto, ficava 1 hora e 45 minutos de distância da nossa casa.
Ah, esse era o vizinho.
Era o vizinho mais perto, né? Sim, sim. Mas ele ficava, tinha um caderno que ele ficava fazendo as contas pra ver se essas pessoas tiraram saldo, se não tiraram saldo, porque a maioria dos seringueiros eram enganados pelos patrões. Ele sabia aplicar injeção. Então, se tivesse alguém que precisasse ir, ele ia aplicar injeção. Às vezes as pessoas vinham lá pra casa no final de semana. O meu tio Pedro Mendes era um mateiro, que é uma pessoa que sabe como andar na floresta, e era um xamã, que foi criado com os indígenas dos 12 aos 30 anos.
E a minha tia Matilde era uma pessoa que eu acho que hoje eu posso Ela nunca foi diagnosticada, ela morreu com quase 90 anos, mas ela era uma pessoa que eu acho que ela tinha um espectro autista. Ela sabia se cuidar no básico, mas era uma pessoa adulta com um amadurecimento emocional de uma criança de 10, 11 anos. E essa minha tia, ela me ensinou muitas coisas, porque eu fui criada dos 5 anos até os 16, quando eu saí da floresta, pela minha avó, por essa minha tia, por esse meu tio xamã e outros velhinhos que moravam nessa casa, que ficava a 15 minutos de distância na floresta da casa do meu pai, que ficava com a minha mãe e os irmãos.
Foi uma decisão minha ir morar com a minha avó, minha avó Júlia. Então eu nasci numa comunidade de serviço. Tudo isso que era feito, ninguém recebia nada. Meu pai não cobrava nada para aplicar injeção, minha mãe não cobrava nada para costurar a roupa das pessoas, Minha avó não cobrava nada para fazer os partos. Então eu nasci num universo, e como a gente era muito isolado, que fazer as coisas para as outras pessoas era o que era.
Como coletivo mesmo.
É, mas não existia outra linguagem para mim. Eu achava que aquilo era o natural. Se alguém vem, te pede alguma coisa, você ajuda a pessoa.
Mas é um traço da cultura indígena, né?
É, isso é um aprendizado dos seringueiros com os indígenas. Né, porque tanto meu pai quanto minha mãe eram nordestinos, vieram em 45 para o Acre, né, e tiveram os seringueiros, tiveram que aprender a entender a floresta, se movimentar na floresta aprendendo com os indígenas, com aprendizado doloroso, porque os seringalistas têm o seringueiro e o seringalista. O seringalista era o patrão, seringueiro era o empregado daquela unidade produtiva, que era um regime de semiescravidão.
Eles tiveram que aprender a se virar na floresta com os indígenas, mas a relação dos patrões com os indígenas foi de muita violência. Então, como eu nasci nesse lugar, a família, que é uma família muito grande, a minha família, pelo lado do meu pai, pelo lado da minha mãe, era um lugar de conforto, de confiança, de cuidado, de solidariedade. E de muito respeito, né? Respeito era um respeito reverencial. Não tinha possibilidade de desafiar minha avó, meu avô.
Meu pai era um homem totalmente amoroso. Meu pai— eu tenho 7 irmãs e um irmão. Eu nunca vi ninguém esquechar do meu pai. Meu pai ficou viúvo muito jovem, com 46 anos, e nunca se casou, criou esses filhos todos. E uma pessoa com uma cabeça que eu nem sei de onde veio, porque meu pai, quando a minha irmã ficou grávida, eu já tava estudando na cidade, ela era uma adolescente de 17 anos. Aí as minhas outras irmãs que tinham ficado lá no Seringal Mandaram me avisar, Marina, você tem que vir para falar com o papai porque a nossa irmã tá grávida.
E eu vim no final de semana e chamei, papai, vamos pegar milho no roçado, porque eu queria ficar sozinha com ele para contar, né? E preocupada qual ia ser a reação do meu pai. Aí eu falei, papai, eu preciso falar uma coisa com o senhor, mas eu preciso que o senhor fique calmo. Aí ele falou, você quer dizer que a sua irmã tá grávida? Aí eu, meu Deus, papai, como é que o senhor sabe? O senhor já sabe? Aí ele falou, minha filha, sua mãe teve 11 filhos, como é que eu não sei quando é que uma mulher está grávida?
Aí eu falei, e agora, papai? Aí ele falou, e agora eu vou falar com o pai dele, porque ele também é menor de idade. Os dois têm 17 anos. Se eles quiserem casar, eles vão casar. Se não quiserem casar, quem cria 8 cria 9.
Ai, que lindo!
Então, a referência de família que eu tenho é essa família.
Sim, mas como é importante quando você diz assim, não tinha a menor possibilidade de se rebelar ou de ir contra a lei. Que maravilha quando essas pessoas são dignas desse respeito, né? Sim. Porque são pessoas que são dignas desse lugar.
Desse respeito. Não era uma coisa de imposição, era algo de reconhecimento, de— eu nem sei explicar como era. Minha mãe era uma mulher muito forte, muito forte. Minha mãe, ela Ela que governava a nossa casa. Meu pai tinha orgulho de ser mandado por minha mãe e ele tinha essa fama no Seringal. Imagina, a maioria nordestina, enfim, as pessoas diziam que meu pai era mandado pela minha mãe e eles contavam isso como uma coisa negativa.
E meu pai dizia, e sou mesmo. E ele não tinha problema com isso. E aí quando as pessoas vinham querer fazer algum negócio, ele dizia, pergunta para nega, que era o apelido da minha mãe. Mas como assim pergunta para nego? A gente já viu perguntar para mulher. Aí não, é com ela mesmo que tem que falar. E não dava a mínima. Aí minha mãe via se vendia, se não vendia, se comprava, se não comprava o porco, a galinha, alguma coisa. E ele dizia muito que a única vez que ele não obedeceu a minha mãe não deu certo, que ele queria muito sair do Acre para Manaus, que ele queria que a gente estudasse.
E a gente foi E não deu certo. Aí a gente foi para Belém, depois a gente voltou para o Acre, mas muito endividados, e passamos muita fome lá em Belém. Então esse é o referencial de família. Não significa que não tem conflito, tem conflito, né? Tinha inclusive o conflito da minha avó, mãe do meu pai, com a mãe da minha mãe, que as duas disputavam poder. Sim, porque eu sou de uma família de matriarca, né? Matriarcado pelo lado do meu pai, matriarcado pelo lado da minha mãe, vindo de gerações, de gerações, esse matriarcado.
Esse matriarcado continua nas nossas 7 irmãs, todas as 7 são matriarcas, mas sempre tem a matriarca das matriarcas. Não é? Você é matriarca da sua casa, mas quem domina, digamos, a governança da família é uma das irmãs, que era aparentemente a mais frágil, a Mita, que teve paralisia infantil, ficou com uma fraqueza nas pernas, ela tinha dificuldade para andar, no começo assim ela caía muito, então todo mundo ficava: a Mita e a Mita e cuidando da Mita, a Mita é fragilzinha. E a Mita é quem manda em tudo e em todos.
Escuta, peraí, eu quero voltar. Qual lugar nesses filhos? Você é mais velha, mais nova, no meio?
Eu sou a terceira, né? Minha irmã mais velha, Deusimar, teve o meu irmão Valselin, que morreu com, eles diziam, mal do sétimo dia, né? Deve ter tido tétano em função de alguma contaminação no umbigo quando foi cortado, né? E as minhas irmãs, as demais, né, que são a Lúcia, A Mita, a Dói, eu tô dizendo os apelidos de alguns, né? A Zete, a Socorro e tem o meu irmão Arlei.
Mas aí eles chamam você que tá lá na cidade para vir conversar com esse pai. Por que que eles chamam você, a terceira, quando tem um perrengue de gravidez inesperada? Por que você?
Eu acho que de alguma forma as minhas irmãs me davam uma autoridade assim quase que espiritual e afetiva com meu pai.
Você tinha essa proximidade com eles, essa intimidade?
Muito profunda, porque como eu protegia muito no conflito dentro entre a mãe da minha mãe e a mãe do meu pai, e eu morava com a mãe do meu pai.
Ah, sim, você foi a única que morou com ela.
É, que morei com ela, as outras irmãs ficaram com meu pai e minha mãe, né? E eu protegia muito a minha avó, e eu tentava desde crianças, eu me entendo tentando proteger essas relações. Eu tinha medo de ter desentendimento da minha avó materna com a minha avó paterna. E isso afetava o relacionamento do meu pai com a minha mãe. Então, era uma criança que ficava o tempo todo mediando as coisas.
Mediando as brigas do poder.
Do poder das duas matriarcas, né? Da vó Sofia com a vó Júlia.
E elas disputavam você também ou só... Você ficava dividida entre elas? Porque tinha esses filhos, né?
Não, não ficava. Eu tinha um lado que era o lado da minha avó mãe do meu pai.
E a sua mãe não se ressentia?
Não, porque a mãe do meu pai morava muito pertinho de casa. Os primeiros dois partos da minha mãe, quem fez foi uma outra parteira, a vovó Quitéria. E quando a minha avó chegou do Ceará, que veio depois do meu pai, meu pai já era casado, eu já era a terceira filha, a minha avó fez o meu parto. E a minha avó ficou muito apegada. E essa minha tia que tinha o espectro autista, eu imagino que fosse isso, e o meu tio xamã, eles ficaram muito apegados comigo.
Com 5 anos de idade, eu pedi para o meu pai, para minha mãe, que eu queria ir morar com a minha avó. A minha mãe fez tudo que ela podia, né? Para você ter uma ideia, só tinha uma cama, o meu pai e a minha mãe, e todas as crianças dormiam em rede. E a minha mãe, eu fico pensando nisso, até me emociono, a minha mãe tirou uma árvore de cedro, fez uma caminha para mim, um colchão, fez um travesseirinho com algodão de samaúma, que é uma paineira, né, que solta assim na Amazônia um algodãozinho leve.
Fez tudo que ela podia para que eu ficasse, e eu não quis ficar. Eu quis ficar com a minha avó. E só que era uma casa perto, então eu ficava o dia todo brincando com as minhas irmãs na casa da minha mãe. E quando dava assim mais ou menos 4 horas da tarde, 5 horas da tarde, aí eu ia dormir com a minha avó. Aí depois, quando eu fui ficando maiorzinha, aí eu ficava mais tempo com a minha avó, minha avó Júlia. Que minha avó era uma mulher muito culta, minha avó era analfabeta e era uma mulher muito culta, porque ela foi criada, criada não, muito jovem ela foi trabalhar numa casa de família que eram pessoas do mundo da arte, da literatura, e ela trabalhava de doméstica nessa casa.
Mas como ela foi para lá, acho que com 15 anos de idade naquele tempo no Ceará, imagine, se casou, teve os filhos e continuou trabalhando nessa casa. Ela sabia conceitos, a linguagem toda, minha avó falava muito corretamente sem saber ler e escrever. Tem palavras que até um tempo desse, né, o meu secretário executivo até brincou comigo, né, eu falei, não, mas o fulano é um pouco mais desajunado. Aí ele, mas o que que é isso, né?
Aí eu digo, mas como você não sabe o que é desasnado, né? Aí ele disse, não, nunca nem ouvi essa palavra. Aí ele, eu falei, mas onde você aprendeu isso? Eu aprendi com a minha avó no Senegal. Ela tinha um vocabulário muito rico, se expressava muito bem e eu gostava muito. Ela fez uma coleção de 12 bonecas para mim, bonecas de pano. Eu me lembro do nome de algumas delas até hoje. Ela gostava de literatura de cordel e gostava das cantorias no Ceará, né?
E era muito religiosa, católica, rezava o rosário todo dia, o terço todo dia e o rosário nos dias grandes, como ela falava, né? Os grandes dias santos. Me ensinou todos os rudimentos do cristianismo. E na literatura de cordel, o meu pai lesse um folheto duas vezes para ela, ela decorava o folheto inteiro de ouvir. Duas vezes e ela cantava os folhetos para mim. Então ela botava um banquinho assim, ela sentava num, ela era o Zé Pretinho, aí ela mudava, ela era o Cego Aderaldo, porque ela gostava das cantorias.
Ela fazia um teatro para você.
Era, na verdade, era um teatro, né?
Ela falava... Foi isso que te fez ir para lá? Não, era... Você acha que tinha essa... Era uma coisa que estabeleceu entre vocês, assim?
É, foi um vínculo.
Mas um gosto por essa história dela, pelos gostos dela?
Era uma coisa assim, porque Porque como a minha mãe ia pra roça de subsistência, ficava fora quando eu nasci, ela fez o meu parto, ela passava o dia cuidando de mim, eu fui uma criança... E aí eu criei um vínculo com essa minha avó e essa minha tia e esse meu tio, né? Mas eu tinha assim muita consciência, né, do meu pai, da minha mãe. E meu pai parecia que tinha uma gratidão imensa assim comigo por causa desse afeto que eu tinha pela mãe dele, né?
Porque... E essa mediação que você fazia.
E essa mediação que eu fazia, né? E tem muitas histórias com meu pai assim dessa cumplicidade que nós dois tínhamos, né? Eu nunca me esqueço quando eu toquei fogo no canavial.
Você tocou fogo no canavial?
No canavial. Eu tinha 8 anos de idade e a gente tinha um pequeno canavial assim na nossa roça de subsistência lá em Belém. E toda vez que eu ia tirar a cana para fazer café, que a gente não podia nem comprar açúcar, então a gente usava a garapa de cana para fazer o café com aquela garapa que adoçava o café, né? Toda vez que eu ia tirar a cana, aqueles espinhozinho, tem um espinhozinho bem fininho na cana, aí eles pegava minha mãozinha fininha, ficava cheio de espinhozinho.
Aí eu dizia, papai, ele falava que lá no Ceará tinha uns canaviais que cortava para fazer moagem. Eu falava, papai, mas como que pode? Eles não ficam cheio de espinho? Uma vez, né? Aí ele falou, não, Porque antes de cortar a cana, eles põem fogo no canavial, sapeca as folhas e os espinhos. Depois é que a gente corta a cana, aí não tem os espinhos. Aí eu, nossa, eureka, né? Não sabia dessa palavra, mas deu um estalo na minha cabeça.
Aí, Marina, vai pegar uma cana lá para moer, para fazer o café. Aí eu, nossa, fui feliz com meu testadinho na mão e uma um isqueiro na mão. Aí eu vou botar fogo nessa cana aqui, vai queimar os espinhos, eu vou tirar. Imagina se ia queimar só uma cana. É só criança mesmo.
Imagina o teu desespero.
Aí quando eu botei fogo na cana que eu queria colher, nossa, foi um segundo assim, vá pro canavial todo.
E obviamente nem sabia que era tão inflamável assim.
É, mas é porque a folha seca do canavial, né, e tal. Aí eu, meu Deus do céu, e agora? Aquilo era para o ano todo. E todo mundo, ah, agora o Pedro vai dar uma sova na Marina, vai dar umas palmadas, queimou o canavial. Era todo mundo torcendo, que o meu pai nunca perdia a paciência comigo. Aí quando meu pai chegou umas 5 horas da tarde assim do roçado, aí Eu já corri para o quarto, né? Você não sabe o que que a Marina fez! O que que ela fez?
Botou fogo no canavial! Agora não vai ter cana o ano inteiro, não sei o quê. E da onde a gente vai tirar melaço e vai tirar não sei o quê? E eu deitada na rede assim de bruça, assim, ô meu Deus, vou perder a minha, como é que é, invicta, né? Nunca tinha, meu pai, aura, né, do Meu pai entra no quarto e eu escuto: nega sem-vergonha, nunca mais faça isso! Aí eu olhei para cima, ele bateu de novo com chinelo na mão dele. Aí quando eu saquei que era um teatro, eu: ai, papai, não faça isso, papai, não sei o quê. Todo mundo comemorando lá fora. Pronto, agora o Pedro deu uma sova na Marina.
Gente, o teu pai era muito safo, ele era muito esperto, muito sábio, porque ele também não queria contradizer toda a família, né?
Lógico, a família era uma contravenção gravíssima, né? E tinha aquela coisa de ser uma pessoa invicta, que meu pai nunca nem me dava um cadrão, entende? Então hoje eu quero ver. Aí meu pai, fizemos essa cumplicidade que quando eu escrevo, que a Marília, que até é uma jornalista do Valor Econômico, ela fez a minha biografia, A Vida por uma Causa, eu revelei esse episódio, né? E aí as minhas irmãs: quer dizer que aquilo não foi uma surra?
Aí o meu pai ainda era vivo, ele disse: é, não foi não. Então era essa família, esse era essa família.
Mas você tinha, você criou um lugar especial ali naquelas relações, né? Tanto com esse pai, né? A filha invicta, a filha que media, filha que é chamada na hora do perrengue, aquela que escolhe. É bonito É belíssima essa cena na qual sua mãe tenta te seduzir com conforto e não com uma, não, você vai ficar aqui, senão você sei lá o quê, não ficar chateada, né, com retaliação, né. Mas ao mesmo tempo você conta que essa mãe morre muito jovem.
Sim, morreu com 36 anos, né. Minha mãe teve um aneurisma e era um surto de meningite que tava acontecendo lá no lugar que a gente morava, ainda era na no Seringal. E minha mãe sempre teve muitas dores de cabeça, muitas, muitas. E num dia, nesse dia, ela teve uma forte dor de cabeça e meu pai foi com ela para cidade com a minha irmã mais velha atrás de socorro. Em menos de 24 horas ela morreu, porque na hora que ela chegou com dor de cabeça acharam que era meningite e foram fazer uma punção.
E na hora que fizeram a punção, o aneurisma estourou. E só que a minha mãe, ela até ter, se era aneurisma, se foi meningite, os médicos naquele período eles não deixavam o corpo ir para casa. E ainda eles tocavam fogo em tudo, nas roupas, na casa, em tudo. E de repente chega a notícia que a minha mãe tinha morrido, que o próprio hospital é que ia fazer o enterro. E chegou um pessoal da saúde e tocou fogo na nossa casa. Deixa para lá.
E nós ficamos num barraquinho que era o barraquinho da minha avó, que não tinha tido contato com a minha mãe, e tocaram fogo tudo na nossa casa, nas nossas roupas, e o pessoal da saúde foi embora.
Quer dizer que no mesmo dia, na mesma hora que você perde a sua mãe, você perde a sua casa.
Casas, roupas, tudo, as redes, tudo que a gente tinha, porque eles diziam que era a única forma de cessar o contágio da doença. E como a minha avó morava mais longe, não tinha tido contato, né? Aí nós fomos todos para casinha da minha avó.
Quantos anos você tinha?
Eu tinha 14 anos. Tinha 14 anos e foi muito interessante assim, difícil de lidar, porque meu pai era muito apaixonado pela minha mãe e vice-versa. E meu pai entrou em profunda depressão e a minha irmã também, minha irmã mais velha, que era ela e a minha mãe, eu e a minha avó era igual a minha irmã mais velha com a minha mãe, era assim. E os dois ficaram totalmente paralisados, né? E aí, de repente, no meio daquilo tudo, eu assumo, né, a minha avó já era muito velhinha e a minha tia era uma pessoa que era também uma criança adulta, eu assumo o controle daquela situação, né, porque tinha os irmãos menores, né.
E meu pai parou de ir para o roçado, de cortar seringa, ficava sentado na rede assim olhando. Parecia que aí começou a surgir uma história de que meu pai não tava pagando a conta, né, para o marreteiro, que era como a gente chamava, que vendia os manufaturados, coisa assim, sal nessa época já, né, açúcar, o leite para minha irmã mais nova e da minha avó, que sempre tinha ali a latinha de leite dela. Porque seringueiro não podia criar gado, não tinha nada, porque era proibido pelos patrões, né?
Tudo tinha que ser comprado. E aí essa conversa que meu pai não pagava as contas, e aquilo, nossa senhora, aquilo para mim era a máxima vergonha, porque meu pai era uma pessoa muito honrada, muito mesmo. A história do nome do pai, né? Aí eu lembro que tinha um paiol de arroz assim que tava lotado de arroz, e eu Eu peguei assim, tinha uma vara assim grande, eu entrava tipo 7 horas da manhã, almoçava, saía 6 horas da tarde. E quando o patrão voltou, tinha 14 sacas de arroz assim enfileiradas no barranco.
E ele falou assim, quem que fez isso? Porque todo mundo dizia que meu pai tinha ficado maluco, que não se importava mais com nada, né? E eu disse, foi o meu pai.
Ai, caramba, que honra, que dignidade!
Quem fez isso foi o meu pai. Ah, é? Ele tá melhor então? Eu digo, tá melhor. Aí ele disse, ele vai subir os sacos? Eu digo, não, ele não tá aqui. Aí o patrão mandou os empregados botar os sacos de arroz em cima do carro e nós pagamos a E eu acho que aquilo também foi uma cura para o meu pai, porque depois daquele dia meu pai se levantou.
É lindo se a gente pensar que teu pai entra e finge que bateu em você e você finge que ele que levou o salto.
Olha só, eu nunca tinha parado para pensar nisso.
Tem um segredo entre vocês muito lindo, como isso mobilizou ele, né?
Mobilizou ele.
Lugar de dignidade mesmo, né?
Ele se levantou e foi assim, porque ele se levantou e minha irmã mais velha se levantou junto com ele. Só que como eles fizeram esse luto, né, eu não fiz o luto. E depois eu fiquei com aquele buraco assim, sabe? Não tinha mais a minha mãe e era muito estranho, né? Porque eu não tive tempo, porque alguém tinha que cuidar daquilo ali. E como eu acho que eu era uma criança adulta, eu já me lembro de mim com 5 anos uma criança adulta, mediando os conflitos, as coisas, bobagem.
Uma decisão aos 5 anos de ir para casa de uma criança que sabe o que quer.
Então essa é a minha família, né? Então quando eu falo que eu nasci numa comunidade de serviço, era de serviço mesmo. E o que o meu pai fez comigo, com as minhas irmãs, Né? A minha mãe era uma mulher determinadíssima. Com ela não tinha esse negócio de mulher não pode, mulher não sabe, mulher— minha mãe botou a gente para cortar seringa. Mulheres não cortavam seringa, cuidava da roça e da casa, né? A minha mãe não, não tem esse negócio não.
A gente tava endividado, que a gente tinha vindo de Belém para o Acre. O patrão tinha pago a nossa passagem e isso era uma conta para não pagar nunca. E as pessoas diziam, ai, coitado do Pedro, só tem filha fêmea, agora vai ficar endividado pro resto da vida, é um coitado que não teve um filho macho. Porque meu irmão era tudo, era pequenininho, era o caçula, né? E a minha mãe disse, seu pai não é um coitado não porque só teve filha fêmea, ele, nós vamos ajudar seu pai a pagar a conta.
E aí nós abrimos as estradas de seringa e nós cortávamos 3 estradas por dia. Meu pai ia numa, eu e uma irmã ia noutra, minha irmã mais velha com outra irmã ia noutra, e a gente cortava 3 estradas por dia. E em menos de 1 ano e meio nós pagamos a conta e tiramos saldo.
Que era uma conta que, como você disse, não era para ser paga, para manter as relações meio escravocráticas.
Era um sistema de endividamento constante, né? E olha que esse patrão ainda era um dos mais razoáveis que existiam.
Mas tudo isso que você fala aos 14, me corrija se eu tiver errada, antes de você ser alfabetizada?
Sim, antes de ser alfabetizada. Só que antes de ser alfabetizada, eu já conhecia as 4 operações de matemática que meu pai me ensinou para quando ele não tivesse em casa, se fosse vender a borracha, eu não ser enganada na hora de vender. Porque a borracha, você faz aquela bola, né, com látex, só que tem água, e aquela água vai desidratando até que fica só a borracha, o látex. Então, os patrões, eles tiravam um percentual de 17%, equivalente à umidade da borracha.
Só que como os seringueiros não sabiam fazer as contas, eles tiravam às vezes 25%, 30%, e roubava, enganava, né? E o meu pai sabia tudo. Então ele olhava para balança, 17% é X e tal. E aí ele me ensinou as 4 operações para fazer as contas e ver o preço.
E as irmãs também, né? Ou era uma coisa entre vocês?
É que eu me interessava muito por essas coisas que não fosse era apenas o fazer doméstico, né? A minha irmã cuidava muito bem da casa e era uma boa cozinheira. Todo mundo tinha uma habilidade, né? Tinha uma outra irmã, a Adóia, cuidava muito do roçado. E tinham aquelas que a gente achava que eram mais frágeis e a gente poupava elas e tal.
Eu tô para dizer que a tua inteligência te obrigava a ir atrás de alguma coisa para alimentar, né? Ia atrás das histórias da sua avó, né, da contabilidade do seu pai, né, sempre querendo saber como faz, né.
Era, acho que tinha, porque eu fui uma criança muito estimulada, né, pela minha avó e por esse meu tio. E era uma coisa de silêncio, eu era uma criança que vivia o silêncio. Eu ia brincar com as minhas irmãs, muito barulho, eu ia para casa dos meus velhinhos, porque era minha avó, esse meu tio, essa minha tia solteirona e mais dois velhinhos que nós abrigamos, né? O vovô Manel, que era um seringueiro que foi abandonado quando ele ficou velhinho, não conseguia mais trabalhar e nunca conseguiu voltar para o Ceará.
Aí meu pai acolheu ele lá na casa da minha avó. E meu vô Terto, todo mundo era vô, porque ele também ficou viúvo, era cunhado da minha avó. E aí meu pai acolheu lá na casa da minha avó, e era uma criança no meio daquele monte de velhinho ali, tudo mimando, né? Mas o que me marcou profundamente, né, era ali a minha avó, essa minha tia, porque minha tia ela era uma criança adulta que ficava feliz com coisa muito simples, alegria com a simplicidade das coisas.
Ela gostava muito de batata, então batata-doce, né? Então se a gente viesse do roçado e trouxesse batata-doce, parecia que ela tinha ganho a coisa mais preciosa do mundo. Então era uma criança que te encantava isso. Não é, eu aprendia a ser feliz com as pequenas coisas, né? E eu acho que eu aprendi isso com ela, né? Tipo Pra mim, ah, poder fazer um colar e eu ficar feliz com aquilo que eu fiz, é isso que me faz feliz.
Mas eu queria só fazer um comentário assim, pra quem pensa que estimular a inteligência de uma criança é dar um monte de brinquedo barulhento ou de coisa, não é disso que se trata, né? É de poder ir mostrando pra criança o mundo, e o mundo é em si mesmo cheio de coisas, e a criança vai descobrindo. E a questão do silêncio, que respeita o tempo da criança elaborar o que ela tá vendo, né? E outra coisa que aí vem o cientista e fala, olha, gente, as crianças com os velhos é legal botar junto.
Cientista não precisa dizer isso, isso sempre aconteceu nas famílias, né? As pessoas estavam juntas. Pro velho é legal e pra criança é legal. Que lindo!
E uma coisa, por exemplo, meu tio ele era carpinteiro, cerameiro, cesteiro, xamã. Ele sabia fazer tudo e ele nunca foi na cidade. Ele morreu sem nunca ter ido na cidade, esse meu tio Pedro Mendes. E eu aprendi, eu me considero uma artesã por osmose, porque ele tinha a nossa palafita, né, mais ou menos da altura disso aqui, e embaixo ele tinha uma oficina e ele tinha um banco que era uma tora de madeira e ele fez uma torazinha assim para mim e eu sentava e ficava vendo ele trabalhar.
No fole, outra hora era com o formão, outra hora aí e tal. Eu ficava ali e de alguma forma eu sei fazer essas coisas sem nunca ter ninguém dizer, ah, é assim que faz. Eu aprendi simplesmente, né? E tinha uma coisa assim que ele me ensinou, que era o seguinte: eu gostava muito dos calangos, as lagartixas, né? E eu queria a lagartixa para mim, E eu dizia, tio, amarra um cordão no pé da lagartixa para mim. E ele dizia, não, você não pode amarrar um cordão no pé da lagartixa.
Aí eu disse, não, mas ela é minha. Ele dizia, não, ela é sua, mas ela tá no terreiro. Mas ela vai embora, tio. Mas ela é sua, ela vai embora, mas ela é sua. E isso virou uma coisa na minha cabeça Que assim, o jabuti tava lá no mato, mas era meu, certo? E as coisas estavam lá, mas era minha, então não precisava...
Era uma propriedade amorosa e afetiva, e não de ter ele pra você, né? De poder existir.
Era, então tá lá, é seu, mas deixa lá. Que maravilhoso! E essas coisas na minha cabeça, até, sei lá, com 10 anos de idade, eu ainda tinha um pouco essa coisa de que era meu, tava lá, mas era meu. O jabuti, o tatu, as coisas estavam lá. Então isso, né, talvez essa coisa de ser ambientalista tem muito a ver com esse lugar da floresta. Tem dois artigos que eu escrevi, que é a borboleta azul, atrás de uma borboleta azul e um avião quase parado no ar, que fala um pouco disso, né?
Que o meu tio me dizia que se algum dia a gente se perdesse na floresta, a gente tinha que ficar atento se tivesse uma borboleta azul, quando desse 5 horas da tarde, a gente deveria acompanhá-la, que ela ia levar a gente para alguma casa. E eu acreditava naquilo piamente. Então, se eu me perder, eu vou ficar de olho na borboleta azul, né? E depois, né, os cientistas descobriram que ela não é azul, ela é marrom, mas ela tem uma engenharia das disposições das escamas que quando a luz bate, ela é o azul mais maravilhoso que eu É uma cor engenheirada, é uma engenharia que produz uma cor.
E essa borboleta, na verdade, né, o que que ela faz? Ela voa para floresta, passa o dia na floresta, e quando dá de tardezinha ela vai para onde tem uma clareira, porque geralmente tem frutas, né, na casa do seringueiro. Tem goiabeira, tem banana, tem mamão, alguma coisa, e ela vai se alimentar. Na fruta, que geralmente os passarinhos brincam. Então, quando dá 6 horas, ela vai, volta para algum lugar. Então não é só uma crendice, de fato ela vai, uma observação, talvez transmitida de uma geração para outra.
E aí eu fui aprender isso depois, né, porque eu só acreditava que ela me levava para casa, mas não tinha isso na cabeça, né, de que ela voltava porque ela tava indo para onde tivesse uma casa com alguma fruta, alguma coisa para ela se alimentar.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Marina, agora a gente parte para a segunda pergunta, que é: você vem dessa história de família inacreditável, belíssima, que acho que explica muito quem você se tornou, essa preciosidade que você é. E o que que você fez com isso? O que que é família para você hoje? Como é que isso se desdobra no hoje?
A minha família é o lugar mais seguro que eu tenho, seja minhas irmãs, meus sobrinhos, meus filhos, meu marido, é o lugar mais seguro que eu tenho. E eu acabo tendo uma família estendida, sabe? É uma família que é enorme, é no Brasil, é no mundo, né? Tem um amigo antropólogo americano, chama-se Steve Schwarzman, e a primeira vez que eu fui nos Estados Unidos, e eu fui na casa dele, né? E a gente já era amigo, que ele ajudava muito o Chico Mendes e tal.
Aí eu, quando tava descendo o avião, assim preocupada, ai meu Deus, mas eu pensava na minha cabeça, né, eu tenho uma pessoa aqui, eu tenho uma casa, eu tenho o Steve, então tudo acaba sendo assim, sabe. E nas eleições, né, eu sou ambientalista, às vezes o ambiente dos negócios pode ser um ambiente que se transforma em hostilidade comigo, dependendo de quem é, né? Então, ter os empresários que defendem o meio ambiente. Quando eu entrava na plateia, a primeira coisa que eu fazia era procurar quem eram as pessoas que eu considerava assim: esse é o meu lugar seguro, essa é a minha família ambientalista entre os empresários.
E eu prezo muito essas coisas, né? Porque a gente não tem uma família só de sangue. Às vezes, mesmo tendo sangue, pode não ser uma família.
Nossa, isso é tão lindo, principalmente hoje quando a gente pensa com tanta violência doméstica, né? As pessoas defendendo às vezes uma família que não tem esse caráter de proteção, né? Uma família que tem que se manter por um ideal, porque a família tem que estar junto. Mas família tem que estar junta se ela for esse lugar lugar de segurança, se ela for esse lugar que você fala, nossa, aqui tem um lugar onde eu posso estar. Se for um lugar de violência, né, ela tem que ser interditada.
Enfim, cada caso é um caso, né, tratada, né. Acho que tem várias coisas que podem acontecer, mas essa ideia da família como lugar, como um porto seguro, né, e em qualquer lugar do mundo, desde que tenha alguém em quem você possa confiar.
Eu gosto muito de que essas coisas não sejam romantizadas, né. Um provérbio bíblico que ele diz: aquele que pensa que tá de pé, cuide para que não caia. Isso é válido para tudo, porque uma relação pode estar boa agora, mas se você não cultivar, né, alguma coisa pode acontecer. A gente não é uma coisa já pré-estabelecida, definida ali. Tudo é um cultivar, é um cultivar. O tempo todo, né? E um cultivo que você não é unilateral, mas tem uma boa dose, né?
Porque eu aprendi uma coisa que eu gosto, me deixou muito em paz, que o amor é um investimento. Amor é investimento. E que muitas vezes a gente confunde a paixão, o arrebatamento amoroso como ser o máximo de uma relação. Mas o amor, seja ele erótico, seja ele fraternal, será sempre um investimento. E eu posso amar mesmo aqueles que me odeiam e que por alguma razão eu possa odiá-los. Eu posso amá-los porque Quando mesmo o meu inimigo, eu não quero vê-lo sendo torturado, não quero vê-lo sendo ultrajado, não quero vê-lo adoecendo, padecendo sem os cuidados que a dignidade humana deve oferecer e precisa.
Isso é uma forma de amor, mesmo que aquela pessoa seja o teu inimigo. Amar os amigos, querer um bom hospital para o amigo, uma boa UTI para o amigo é fácil. Difícil é você entender que o teu inimigo, o teu adversário também deve ter a mesma dignidade humana.
Que lindo! E você fala dessa família que é esse lugar de segurança, e você fala desses avós que não eram avós, que eram pessoas mais velhas e que se tornaram família, né? Vocês foram o lugar de segurança dessas pessoas na velhice, né? Tem uma— você viveu isso na infância, né?
Acho que a postura do meu pai, da minha mãe e da minha avó também, né? Com essa coisa de cuidado, uma justiça que não era teoria nem fala nada, era atitude, era ato, era Uma ética vivida, não é? Um hiato.
Você falou dessas matriarcas. Como é que é nessa família, com esses filhos, com esse marido? Como é que é a tua posição? Você é herdeira de um matriarcado dos dois lados, né?
Uma matriarca que tenta ser a comedida. Porque agora eu tenho consciência desse matriarcado, né? E a minha família, por exemplo, todos os cuidados se voltam para os homens. Os homens são frágeis, os homens são, ai, cuidado com ele, não sei o quê e tal. As mulheres, geral, elas podem tudo. E os homens, as mulheres, e essa consciência me ajudou também com meu filho, né? Porque eu já vejo que cada uma das minhas filhas são matriarcas.
Das três, né? E o meu filho casou com uma matriarca. A mulher dele é claramente uma matriarca, ela é a raiz dominante da relação do casal. Eu digo, eu não sei como é que isso se perpetua, não tenho a menor ideia como é que do lado do meu pai tudo matriarca, do lado da minha avó, e se eu vejo as minhas sobrinhas, filhas das minhas irmãs, vai embora o matriarcado. Eu fico pensando, aonde é que vai quebrar a corrente? Eu não torço para quebrar não, mas eu fico de olho, mas ainda não achei.
Mas Marina, aqui que eu tenho entrevistado pessoas de todas as áreas que você pode imaginar, mas principalmente as pessoas mais periféricas, né, com origens mais simples no sentido financeiro, material, é muito frequente a questão do matriarcado. É muito. É que isso tá escondido, tá invisibilizado. Mas assim, por quem você foi criado? Ah, pela minha mãe. Marcelo D2 veio aqui, Minha mãe que me criou, ela que mandava. Minha mãe, minha mãe, minha avó, minha mãe.
Sempre, sempre. Ou o pai vai embora, ou o pai é uma figura apagada, ou o pai é uma pessoa violenta. Ou quando ele é presente, ele é um presente mais ou menos. A figura que eu ouço o tempo todo é de uma mulher que tem uma presença, que cuida de tudo. Ela entra com a parte financeira, ela entra com os cuidados, ela dá a ideia no final. É uma coisa impressionante como isso É que a gente não fala disso, né? A gente fica escondido, né?
É, e acho que esse matriarcado, que é um sistema, é uma linguagem, é uma coisa que se estrutura, né? Como uma linguagem, como uma relação, como uma estrutura psíquica mesmo, né? Tem um peso também ser a matriarca, né? E principalmente porque recai sobre essa mulher um peso que é desproporcional, porque uma coisa é ser a matriarca, mas ter a consciência de que você não vai carregar o mundo nas costas, a família nas costas, tudo nas costas, né?
Mas muitas vezes você tem que carregar, porque isso é uma ética, porque você poderia desistir, mas as vós não soltam a mão dos netos, né? Eu tenho uma menina que trabalha comigo, né, E às vezes eu pego ela no telefone assim no horário de almoço e eu escuto que ela tá falando com a avó, né, que mora na Bahia. Eu fico tão comovida, né, é tão bonito, porque a juventude é outra coisa e tão soltos e tão se divertindo, uma outra cabeça, mas volta para aquele lugar desse afeto, dessa segurança, né.
Tem uma imagem do filme Moisés, aquele filme clássico, sabe, que durou acho que 4 horas de filme, sabe. E tem uma cena do povo saindo do Egito, uma pessoa bem velhinha, magrinha assim, nos paninhos, em cima de uma biga, uma coisa assim, sendo arrastado por um boi, e uma família no entorno, e gansos, e um monte de coisa. E aquele velhinho ali que é a coisa mais frágil que tem. E toda aquela família, tudo aquilo lá ao redor daquele velhinho, ele não ia conseguir chegar nem na praia do Mar Vermelho, sabe?
De tão frágil velhinho que ele tava. Eu acho aquela cena tão bonita, porque quando você consegue trabalhar com Sua Majestade o bebê, e isso é sinal de que podemos olhar para frente, Mas quando você cuida dos idosos com dignidade, é um sinal de que nós podemos olhar para trás e não nos envergonhar de quem fomos, de quem somos, né? E para mim, aquela cena é isso. Aquele velhinho não vai chegar na Terra Prometida, né? Num pensamento cartesiano pragmático, imagina, deixa o vovô aí, a gente vai ter que fazer uma viagem pelo deserto, É maravilhoso a condição humana, como diz a Hannah Arendt, né?
É maravilhosa porque ela suscita esse laço social tão profundo, mas ela também pode ser terrível quando há esse corte no laço social e você já não consegue ver um outro humano como se fosse também um humano.
É porque nessa cena ele não vai chegar, mas ele dá sentido, né? Que tá interessante que ele tá ali inclusive na frente, como diz, ó, se a gente tá indo para lá porque a gente história, né? Senão não adianta nem chegar, tem nem por que chegar, né?
A gente só tem um futuro porque a gente tá levando conosco esse passado, né?
E essa ideia também da dignidade de todos os seres, né? Que para os indígenas são humanos de algum jeito, né? Então é muito, muito lindo como você consegue ver isso em tudo na tua história, né? A floresta, né? Floresta como um lugar também a ser cuidado, né? Um lugar a ser protegido, né?
É cuidado em um lugar que cuida, né? É engraçado que a gente, vamos cuidar da floresta, que serve, vamos proteger a floresta. Na verdade, o que a gente tá fazendo é se protegendo, né? Eu tenho um amigo que diz, ser humano não tem jeito, é egoísta. Ele faz as coisas, mas as coisas tudo volta para ele, né? Se você cuida da água, você cuida da terra, você cuida do ar, você cuida da floresta, Na verdade, é o grande cuidado, porque tudo volta para você como serviço, como você falou, né?
Os serviços ecossistêmicos, eles são investimentos que a gente não consegue nem colocar uma cifra. Teve uns cientistas que fizeram um cálculo dessa história dos 20 bilhões de toneladas de água que a Amazônia produz por dia e lança na atmosfera como vapor. Para ser o regime de chuva da América do Sul. E ele diz que, inclusive do sul, do sudeste, do centro-oeste, né? Aí ele diz o seguinte, que se a gente fosse fazer um processo mecânico para transformar a água em vapor e lançar na atmosfera, aí ele disse que precisaria, só para ter essa quantidade de água na forma de vapor, precisaria de 50 mil Itaipu Binacional funcionando ininterruptamente 24 horas.
É impossível, não tem como fazer um empreendimento desse. A natureza faz isso com a água, com o sol, o vento e a floresta. É uma infraestrutura natural tão complexa, tão sofisticada, que que presta serviço de ciclagem, de regulação, de estabilização climática, de tudo, e não cobra nenhum centavo. Mas aí a gente vai para esse lado que eu digo que a gente pode ser luz e pode ser sombra ao mesmo tempo, né? O ser humano é excessivamente narcísico.
Então, essa garrafa que eu gosto muito, que eu bebo a minha água quente aqui, ela é incomparavelmente menos sofisticada do que uma árvore. Mas a gente derruba árvore sem culpa e faz de tudo para garrafa não cair, a tinta se cair no chão e não arranhar, entende? Essa infraestrutura natural, e eu uso a palavra infraestrutura de propósito para ver se cai uma coisa na nossa cabeça. Se a gente fizer uma ponte, uma estrada, Nossa Senhora, aquilo é incrível, é fantástico!
Mas essa infraestrutura natural dos rios, das árvores, das bactérias, dos fungos, tudo isso que funciona para convergir em direção da existência da vida, a gente vai destruindo. A gente tá serrando há muito tempo nosso próprio galho, né? A Hannah Arendt, ela fala que a ação humana, sem os cuidados inerentes a ela, Ela vai destruir não só a nossa vida, mas as próprias condições em que a vida nos foi dada. Ela escreveu isso em 1958, que é o ano que eu nasci, que não tinha nada ainda nessa magnitude do que temos hoje dos estudos em relação à mudança do clima.
Mas é isso que acontece, a ação humana, ela tem que ter cuidados inerentes a essa ação humana. Não existe nenhuma ação que possa se desresponsabilizar de sua consequência. E a gente faz isso o tempo todo sem pensar.
Interessante que a gente tava falando da natureza que faz esse serviço sem cobrar nada, mas na verdade cobra respeito, né?
Cobra respeito. E ela é punitiva também, né? A natureza é punitiva porque tem uma lei para sustentar a vida. Se você rompe com essa lei que sustenta a vida, quem paga o preço é a vida, certo? Então, a cadeia da vida, né? Eu fico imaginando, é o que a vida é, o que há de mais frágil, no meu entendimento, no universo, o que há de mais poderoso, mais potente ao mesmo tempo. Porque todo o alinhamento dos planetas, todos os gases que existem, todos os minerais, todos os nutrientes, tudo que existe convergem para a existência da vida.
É o que há de mais frágil e exige uma infraestrutura tão complexa que a gente só pode se entregar. Aí eu me lembro de Santo Agostinho, sabe, quando ele diz: creio porque é absurdo. Ele tenta explicar de todas as formas o mistério, a Trindade e toda aquela, né? E aí chega um momento que ele se rende, se entrega, não adianta, não cabe. Em mim.
Ai, Marina, eu tô aqui enrolando para não acabar esse encontro, porque é tão privilégio estar aqui com você. Mas eu, como boa obsessiva, sempre tive muito essa questão da morte, enfim. E um dia, numa série de eventos que eu não vou entrar aqui, eu tive uma experiência meio epifânica de olhar para a natureza e pensar, mas tudo bem, no final eu vou virar adubo, né? Eu vou, e elas estão me dando ar e coisa, e aquilo foi E aquilo foi tão apaziguador pra mim, porque eu não sou uma pessoa religiosa, que eu pensei, eu vou entrar, eu vou fazer parte desse ciclo.
Então a minha morte não é sem sentido, era uma morte que faz sentido, porque eu vou entrar, os animaizinhos mais desprezíveis aos nossos olhos, que são os vermes, vão fazer proveito do meu corpo. Até pensei, eu não quero ser nem, nem, como é que chama quando a pessoa é incinerada, quando ela morre? Eu quero fazer a minha parte no final, entendeu? E aquilo foi muito apaziguador pra mim. Gente, eu tô falando uma coisa muito pessoal assim.
Mas você sentir que você faz parte de alguma coisa maior do que você, né? Que a Clarice Lispector vai falar desse Deus que é um Deus da natureza, né? Bom, dá para interpretar de várias formas, mas eu queria dizer o seguinte: com essa tua fala lindíssima final, ultra inspiradora, que é o que você faz mesmo, você inspira a gente, né? Você me resumiu tudo que você fez com essa tua história incrível, né, na floresta, com a ética, com respeito, com essa família que sobrevive a dores tremendas, mas tá junta, do velho e do novo, do respeito à criança, quando você pode morar com a sua avó, do respeito aos velhos, respeito ao doente mental, né?
No caso, sabemos o que que a sua tia tinha, mas enfim, né? Você transformou nisso, né? Que faz de você essa luz para nós.
Obrigada. Eu que agradeço por essa nossa conversa. Admiro muito o seu trabalho e isso que você faz, né? Né, de puxar outras conversas, porque parece que a gente fica repetindo, se queixando o tempo todo. E se faz algum deslocamento para outro lugar, talvez a gente se encontre, a gente fique mais perto para todo mundo se descobrir anormal, como diz a música, né? De perto ninguém é normal.
Maravilhoso.
Eu sei que tem uma questão de fazer uma pergunta para você. Já chegou esse momento?
Como é que eu pergunto? Agora você pergunta o que você quiser para mim e vamos ver se eu consigo responder.
Eu geralmente, as pessoas dizem que eu sou muito sonhática e sou muito, enfim, pouco pragmática, mas eu acho que eu aprendi que a matéria-prima mais concreta da minha vida seu sonho. Sem isso não estaria nem aqui, né? Mas eu vou ser um pouco pragmática, posso?
Claro que você quiser.
Como psicanalista, o que que você acha que a psicanálise pode ajudar a fazer com que a política saia dessa estagnação, desse aprisionamento da pulsão de morte, se reconecte com a porção de vida.
A resposta para essa pergunta de 1 milhão de dólares da Marina eu dou no próximo episódio, no bônus Pergunta Vera. Ele é publicado toda quinta-feira aqui no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Te vejo lá. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A montagem e edição de som são do Pedro Pastoriz. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.