Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

[BÔNUS] Alexandre Coimbra Amaral pergunta à Vera: o que a vida pública revelou sobre você?

24 de setembro de 20266min
0:00 / 6:23

Ao falar sobre a própria trajetória, Alexandre Coimbra Amaral reflete sobre uma experiência relativamente nova para psicólogos e psicanalistas: tornar-se também uma pessoa pública. Neste episódio bônus “Pergunta à Vera”, ele quer saber da psicanalista Vera Iaconelli: o que a vida pública trouxe de surpresa sobre ela mesma?

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
A

Alexandre Coimbra Amaral

ConvidadoPsicólogo e escritor
Assuntos5
  • A surpresa da vida pública para psicólogos e psicanalistasidentidade profissional nova·pouca gente para trocar experiências
  • O impacto do feedback e o afeto de pessoas desconhecidasreceber feedback das pessoas·afeto de quem não conhece·perturbação com a imagem projetada
  • O desejo de estar no espaço público e a vaidade assumidadesejo a posteriori·gostar de microfone e público
  • A despersonalização na interação com o público e a imagem de 'boneco'sentir-se o Mickey na Disney·pessoa não se apresenta·ser visto como boneco
  • A liberdade de errar e a não pretensão de infalibilidadenão ter medo de errar·responsabilidade pelo que se fala·saber que está na conta
Transcrição19 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
VIVera Iaconelli

Oi, eu sou a Vera Conelli e esse é o Pergunta à Vera, um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia. Aqui eu respondo a uma pergunta feita pelo convidado da semana. Dessa vez eu conversei com o psicólogo e escritor Alexandre Coimbra Amaral. A minha conversa inteira com ele foi muito legal e foi ao ar na terça aqui no feed do podcast. Vale Vale a pena ouvir se ainda não tiver feito isso. Agora vamos para a pergunta do Alexandre.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eu quero fazer uma pergunta que talvez se desdobre num pouco de diálogo, porque eu sinto que essa história de virar uma pessoa pública é uma coisa com quem a gente tem pouca gente para trocar, né? É uma parte da nossa identidade profissional na psicologia que é muito nova na psicologia, na psicanálise, no campo que a gente transita. Eu queria entender o que que você acha que a vida pública trouxe de surpresa para você sobre você mesma?

VIVera Iaconelli

Bom, a gente descobre o desejo a posteriori, né? Quando ele se realiza, né? Embora a gente fala, ai, não queria, não queria. Mas escuta, você foi fazendo todas as coisas para chegar aqui, é melhor você aceita que dói menos, né? Então eu acho que tinha Um desejo de estar no espaço público, acho que isso sempre existiu, mesmo que não fosse muito assumido como tal, né, uma vaidade, vamos dizer assim. Eu gosto de microfone, eu gosto de estar no público, então isso é muito, né, dizer, bom, isso aconteceu e que pena.

Não, acho que tinha isso. Eu me descobri muito tranquila em falar e errar, eu não sabia que poderia lidar com isso de um jeito tão me responsabilizar pelo que eu falo, né, em público, que sempre é um peso, né? Falou, tá falado e acabou, né? O que me surpreendeu, embora a gente ouça falar, quando você vive é receber o feedback das pessoas, e talvez você também tenha isso, né? Imagino, não sei o que que você faz com isso, das pessoas te tratarem como se elas te conhecessem e com um afeto que você não sabe muito o que fazer com isso.

Porque é um pouco pessoa jurídica, né? Porque quando eu recebo afeto de amigos próximos seus, de pessoas da minha família, eu sei que elas sabem quem eu sou no dia a dia, né? Derramando o misoshiru na roupa, lembra aquela primeira vez que a gente saiu?

ACAlexandre Coimbra Amaral

É.

VIVera Iaconelli

E, né, que eu fiquei toda... Enfim, né? Agora, quando você recebe de uma pessoa que vem pra você e fala, nossa, o teu livro... Acho que você deve ouvir isso direto. Teu livro me causou, papapá. E aquela pessoa não me conhece, eu não a conheço, ela tem uma imagem de mim, mas ela não tem de fato, não sabe quem eu sou, né? Isso eu ainda não tenho a mínima ideia do que fazer com isso e me perturba um tanto, no sentido não de bom nem de ruim, mas de ser perturbador mesmo. Não sei se eu respondi, porque eu não sei se—

ACAlexandre Coimbra Amaral

Respondeu.

VIVera Iaconelli

Não, você entende o que eu queria ver? Até o que você acha disso?

ACAlexandre Coimbra Amaral

É, eu sinto quando as pessoas me escrevem.

VIVera Iaconelli

São feedbacks que você não sabe o que fazer com esses feedbacks, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eu fico chapado com esse negócio de existir uma pessoa que me conhece e eu não a conheço, porque eu Pra mim, conhecer é um ato recíproco, né? Então, a rede social criou esse fenômeno, né? De você conhecer uma pessoa ou projetar, pelo menos, em cima de uma pessoa e a pessoa não sabe nada de você, né? Então, eu me identifico muito com isso, com esse nível às vezes de projeção exagerado, né? Sobre quem eu sou. O que mais me surpreendeu é que a vida de debate público, um dia assim, eu tava lá no programa da Fátima Bernardes, eu falei, olha que isso é como se fosse uma coagulação desses pedaços de mim, da arte, da música, do apreço pela palavra, da escuta, do diálogo.

Foi tudo, tudo juntou assim. Então assim, falei, ah, esse palco aqui junta todas as minhas paixões. Eu ganho uma envergadura maior, uma liberdade maior para ser eu mesmo. Então Então aí eu acho que eu me apossei desse lugar, né? Acho que isso foi muito revelador para mim, me descobri assim um artista. Hoje eu me considero um artista assim da palavra mesmo. Mas eu concordo com você que é perturbador esse negócio da gente ser visto, né? Pessoa te cutucam assim em aeroporto.

VIVera Iaconelli

É, então, mas eu faria só mais uma diferença, que eu acho que isso é um pouco despersonalizante. Até então Tem pessoas que a gente admira e que a gente eventualmente até aborda, enfim. Mas o que eu acho despersonalizante hoje, por conta das mídias, é quando você se sente o Mickey na Disney, que todo mundo tem que tirar foto com você. Mas o Mickey, ele é um boneco lá dentro, você não sabe quem tá. E você vira um boneco pro outro, a pessoa não se apresenta, ela tira uma foto sua.

Eu tava dentro do avião, toda descabelada, exausta, e a pessoa queria tirar uma foto do banco da frente minha e pediu licença pra— É o Mickey na Disney, quer dizer, a pessoa não sabe que eu tô exausta, que sabe, não tem não tem nada a ver. Então isso também eu acho que é um desdobramento dessa, também de uma coisa ruim, que é diferente da pessoa que sente uma necessidade de gratidão por alguma coisa que ela leu. Sim, porque eu também, se eu vejo o Chico Buarque de Javô, eu quero agradecer todas as músicas que eu amei ouvir, né?

Tem algo que sobra ali que você tem que agradecer, mas tem uma coisa pessoal ali, né? E hoje eu acho que na mídia a gente ainda tem um lado meio que bonecão, né, que a gente não é exatamente aquela pessoa.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Agora eu vou levar para mim essa história que você trouxe, que vou dar mais voltas sobre isso, que é essa história de não ter medo de errar. Eu também não tenho, mas eu acho que eu não tinha pensado sobre isso.

VIVera Iaconelli

Eu não tenho porque está na conta. Eu não estou supondo que eu não errei.

ACAlexandre Coimbra Amaral

É exatamente isso, né?

VIVera Iaconelli

Que nunca, não, até vou lá, vai, no dia seguinte eu posso ficar com uma ressaca moral também, tudo bem, mas em algum lugar eu sei que isso tá na conta. Eu não me pretendo infalível. Então a coisa fica mais fácil, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Exatamente, é isso.

VIVera Iaconelli

Obrigada.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Obrigado, querida.

VIVera Iaconelli

Muito bom.

[BÔNUS] Alexandre Coimbra Amaral pergunta à Vera: o que a vida pública revelou sobre você? | Castnews Index — Castnews Index