Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

Alexandre Coimbra Amaral não cabia no mundo dos meninos. Hoje é pai de três.

22 de setembro de 20261h2min
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O psicólogo e escritor Alexandre Coimbra Amaral cresceu se sentindo deslocado do mundo dos meninos, enquanto o irmão encontrava no futebol um lugar de pertencimento. Nesta conversa com Vera Iaconelli, ele fala sobre a infância em Minas Gerais, a relação com os pais e o caminho que encontrou nos livros, na arte e nas amizades para construir sua própria forma de estar no mundo. Alexandre também fala sobre o casamento de três décadas e sobre como criar três filhos tão diferentes entre si o fez revisitar a própria experiência com a masculinidade e continuar aprendendo com eles.

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Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
A

Alexandre Coimbra Amaral

ConvidadoPsicólogo e escritor
Assuntos5
  • A paternidade e o aprendizado com os três filhosorgulho dos filhos·diferenças entre os filhos·masculinidade em desconstrução·oportunidade de aprendizado
  • A formação familiar de Alexandre Coimbra Amaral e suas raízesfamílias gigantescas dos pais·história trágica da mãe·pai com desamparo·casamento longevo dos pais
  • A infância de Alexandre e a construção de sua identidadeprematuridade e fragilidade física·diferença com o irmão Gustavo·exclusão do mundo masculino·arte como refúgio e conexão
  • A relação com os filhos e a importância da conversamedo do cancelamento·críticas dos filhos·oportunidade de vulnerabilidade·colo de filho adulto
  • A escolha pela psicologia e o encontro com a esposa Danieladesistência da economia·terapia como descoberta·paixão à primeira vista·construção de interesses comuns
Transcrição165 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
VIVera Iaconelli

Oi, eu sou a Véri Aconelli e isso não é uma sessão de Análise, um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. A cada semana eu me encontro com uma pessoa para ouvir histórias de família. A gente fala sobre as origens e as tradições, mas também sobre as mudanças ao longo do tempo. Não existe conceito único de família, pelo contrário, as formas de construir uma família são múltiplas e essa diversidade que tanto me interessa. Meu convidado de hoje é o psicólogo e escritor Alexandre Coimbra Amaral, o filho do Gilberto e da Rosângela. O irmão do Gustavo, o marido da Daniela, o pai do Luan, do Ravi e do Gael.

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VIVera Iaconelli

Bem-vindo, Alexandre.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Bem-vindo. Ah, bem-vindo. É assim que eu tô me sentindo. Obrigado, Vera querida.

VIVera Iaconelli

Eu que agradeço muito. Obrigada por você ter vindo, você e esse sorriso delicioso. Olha, então, ah, sei que você tá careca de saber, mas assim, a pergunta que inaugura todas as outras aqui é: qual a sua referência de família?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Minha referência de família são duas famílias enormes, a família do meu pai e a família da minha mãe. Meus pais são duas pessoas que se conheceram numa fila de banco. Minha mãe muito jovem, no tempo da fila de banco, né? No tempo da fila de banco. E minha mãe morando no sertão mineiro, meu pai em Belo Horizonte, ela passeando ali com alguma tia porque ela morava com tios. Minha mãe tem uma história muito trágica. Na infância ela perdeu a mãe com 4 anos de trombose e o pai dela era esquizofrênico.

E o meu avô, que era um déspota, decidiu que os filhos não ficariam com ele, ele enlouqueceu mais ainda. E esses filhos foram distribuídos pelos tios, pelos irmãos dessa mãe da minha mãe que morreu, né? Então houve uma diáspora assim da família completa, ela perdeu toda a família, né? Porque perdeu mãe, pai e irmãos. Essa relação só veio a ser recuperada na adultez.

VIVera Iaconelli

Que quando eles foram separados, eles moravam em territórios diferentes, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Em territórios diferentes, é. E aí ela tava numa dessas casas de tios em que ela Monroe, passou por várias e conheceu meu pai numa fila de banco. E é fato que ali rolou um crush muito imediato e eles começaram a escrever cartas. Então aí começa também a minha paixão por cartas, porque começa aí nessa história dos meus pais. E aí um tempo depois eles começam a namorar, ele começa a viajar de Belo Horizonte para lá, interior de Minas, e começam a namorar e se casam.

Então juntos até hoje, são um casal muito incrível, muito fofo. Quantos anos eles têm? 54 anos de casados. Então são um casal muito incrível, assim, admirável mesmo como casal. Então tive essa referência muito bonita deles como casal, mas A referência de família de origem vem dessas duas famílias que são gigantescas. A minha bisavó, ela teve 24 filhos.

VIVera Iaconelli

Sério?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Sério. Eu sou o bisneto mais velho. É uma das pessoas mais importantes da minha vida, uma figura que me marcou muito. Ela ia muito na minha casa em Belo Horizonte. E eu sou louco por essa mulher. E ela é uma referência de delicadeza. É aquela mulher que passou por um monte de coisa, um monte de violências, um monte de ausências, de negligências na vida. No meio de uma cultura super machista, super violenta, super patriarcal, e morreu com 100 anos com um olhar esperançoso para a vida.

Então, muito do que eu sou e o jeito que eu olho para a vida, eu tenho certeza que foi essa mulher que me ensinou.

VIVera Iaconelli

Essa é a sua bisavó materna? Bisavó materna. Isso, tá, que era esposa então desse Não desse avô.

ACAlexandre Coimbra Amaral

É desse bisavô.

VIVera Iaconelli

Déspota.

ACAlexandre Coimbra Amaral

E déspota que fez a diáspora dos filhos.

VIVera Iaconelli

Porque então ela teve desses 24, quantos vingaram?

ACAlexandre Coimbra Amaral

19.

VIVera Iaconelli

19. E aí esses outros, a tua mãe foi distribuída entre esses?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Entre esses 18. A mãe dela era a mais velha dos 24. Então assim, A minha referência de família começa com essa família gigantesca que tem todo tipo de dor e delícia, porque era uma primaiada, Vera. Então assim, 100 primos, 150 primos, sei lá quantos primos eu tinha. Tinha tio que tinha 10 filhos, tinha vários que tinham vários gêmeos. Então a gente tinha uma experiência dessa brincadeira de rua, de juntar todo mundo, de andar de bicicleta, de brincar de amarelinha, essas coisas que todo mundo era meio parente onde você morava.

VIVera Iaconelli

Ah, sim, tipo Aldeirante Regina hoje, que todo mundo seu parente, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Você já tinha vivido isso na época. Então essa experiência de coletividade, de aprendizado de conviver com a diferença, com gente de todas as idades, com gente que virou de todas as profissões, tem gente casado, separado, homoafetivo, heteroafetivo, né? Com todo tipo de história que a gente vê aí. Mas desde cedo foi um um laboratório de convivência com a diferença maravilhoso. Era muito, era uma convivência muito amorosa. E eu era louco por essa galera, escrevia cartas pra eles. Ó, mais uma carta da vida.

VIVera Iaconelli

Mas vocês tinham uma convivência, vocês moravam próximo ou era de férias?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Não, era férias. Férias e todo feriado que eu podia, eu corria pra lá. Então, esse lugar, o sertão, o sertão mineiro, ele é o meu lugar no mundo, assim. Ele tem uma cultura que me marca até hoje. Tudo que rima com sertão me faz sorrir. A festa de São João, a comida sertaneja, a música, o forró, sabe? O jeito de lidar com o trabalho, né? De construir uma resiliência mais coletiva, né? De colocar aquela cadeira no passeio. Para conversar com as pessoas no fim da tarde, sabe?

Então tudo isso me marca e me forma muito. A família do meu pai também era muito extensa, não com essa extensão de 24 filhos, mas o meu pai também vem de uma experiência de muito desamparo porque ele perdeu a mãe adolescente de tuberculose e ficou anos sem poder tocar na mãe, que ela ficava fechada num quarto e os filhos só podiam olhar para ela pela frestinha da porta. E até que ela morreu. Né? Então eu acho que o encontro desses dois é um encontro belíssimo, que é um encontro de duas formas muito particulares de desamparo, que duas pessoas que se conheceram, se encantaram e construíram uma vida muito íntegra, muito sólida, né? Levando também as rigidezes que eles trouxeram dessas educações ríspidas, né?

VIVera Iaconelli

Apaixonados?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Apaixonados.

VIVera Iaconelli

Eles não são vivos?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eles são vivos.

VIVera Iaconelli

São vivos?

ACAlexandre Coimbra Amaral

São vivos. Meu pai tá com 81 anos e minha Mãe tem 74.

VIVera Iaconelli

Sim, sim, que você é bem mais jovem que eu. E eles são apaixonados, porque isso me interessa também, esse amor longevo, né, ou essa forma de amor longevo.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eu acho que eles, eles têm um amor assim, é um amor muito lindo de ver. Todo mundo comenta, eles são aquele casal que tá o tempo inteiro. Os meus filhos são loucos por eles, o tempo inteiro tá de mão dada, tá cuidando um do outro, né. E eu acho que eles cumpriram muitas funções Sabe? Um pro outro ao longo da vida, né? Então é uma longevidade que ficou como um legado de permanência do amor, desse amor que se constrói, não que a gente recebe da vida, né?

Como o amor da família. Então o amor deles é uma das formas com que eu aprendi a acreditar nesse amor conjugal. Eu também sou um marido longevo, né? Fiz 30 anos com a Dani entre casamento e namoro. Então eu acho que tem um padrão que se repete aí, ainda bem, eu gosto.

VIVera Iaconelli

Você não tá se queixando?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Não, de jeito nenhum.

VIVera Iaconelli

E é interessante você falar de um tipo de amor construído porque as fantasias sobre amor são muito destrutivas, né? Porque a gente encontrou o amor, a gente acaba não reconhecendo ele por conta de um monte de fantasias. E os estudos vão mostrar, e talvez você saiba até mais do que isso, sobre isso, o teu interesse sobre os casais é conhecido, teu trabalho, teu estudo. Sobre as relações de casal, esse amor construído porque tem cuidado mútuo, porque os dois se sentem interessados um na vida do outro, porque os dois se dedicam um ao outro.

Como diz o Rubem Alves, né? Quer dizer, que jogam frescoboi, não tênis, que querem manter o sonho do outro sempre no ar, né? E como isso vai refletindo num tipo de relação que ela se orienta pelo bem comum, né? Vamos dizer assim, ainda que seja o bem comum de uma dupla, né? E que a gente vê cada vez menos, ou vê muito, muito vilipendiado, né, como se não fosse isso, como se amor fosse sempre uma, um cada um por si e a gente se encontra apaixonadamente. Essa paixão tem que ser cultivada, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Isso é, essa coisa dos interesses comuns que eles vêm desenvolvendo ao longo da vida. Por exemplo, nesse momento que eles estão com os dois filhos criados, os dois filhos cada um na sua vida, tudo certo, eles viajam pra caramba, né? Então eu acho que eles passaram décadas assim fincando raiz Reparando a raiz quebrada deles e a ponto deles se sentirem seguros para poder voar. E eu acho que essas últimas, sei lá, duas décadas foram décadas em que eu os vi viajando muito.

VIVera Iaconelli

Sim.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Inclusive para minha casa, que eu tava sempre longe, né? Eu tava sempre morando fora.

VIVera Iaconelli

Sim. É curioso que eles não repetem a quantidade de filhos que eles, da onde eles vêm, né? Quer dizer, porque é interessante, porque também tem uma Uma escolha diferente colocada aí, né? De ter dois filhos, por exemplo, pra quem vem de uma... 24 irmãos, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eu acho que eles tinham muito medo da escassez, sabe, Vera? Os dois vêm de histórias muito profundas de escassez, tanto de afeto quanto de dinheiro. Então eu acho que foi uma história construída assim com muito cuidado, com muito planejamento, né? Então a nossa família foi aquela família mesmo Duas pessoas que fizeram concurso público, tiveram o mesmo trabalho a vida inteira, baseado na construção de uma segurança assim da renda garantida todo mês, né?

Então assim, meu pai trabalhou no Senai a vida inteira e a minha mãe trabalhou na Secretaria da Fazenda do Estado de Minas também a vida toda. Então eu, eu os vi sempre muito preocupados com essa noção da estrutura, construir uma família com uma estrutura mínima assim que pudesse garantir aquilo que eles não tiveram lá atrás, né?

VIVera Iaconelli

E aí eles têm— você é o mais velho?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eu sou o mais velho.

VIVera Iaconelli

Como é que é com esse irmão?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Bom, o Gu é muito diferente. O Gu é um engenheiro, né? E eu sou um psicólogo. Eu sempre fui o cara diferentão dos 4, viu, Vera? Porque os 3 são muito tímidos, né? Eles têm um temperamento mais introvertido. E eu sempre fui essa gargalhada aberta para o mundo, sempre. Eu tenho uma cena que eu até conto no Ansiedade, né? No Toda Ansiedade Merece merece um abraço, que quando eu tava no jardim de infância, eu ia para casa de uma tia, irmã do meu pai, que morava próxima à escolinha, até a hora do meu pai sair para o trabalho e ir lá me buscar.

Eles tinham uma mesa de 8 lugares assim, eu ficava no centro da mesa, sentava a família dela inteira. Ela tinha 4 filhos, sentava filho, namorada, amigo, não sei o quê, e eu bebê sentado em cima dessa mesa conversando com todo mundo, dando gargalhada, virava na mesa assim, no centro da mesa, para quem tivesse conversando. Sabe aquelas mesas que tinha aquele prato giratório? Eu era tipo esse prato.

VIVera Iaconelli

Servia todo mundo.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Servia todo mundo. Então eu sempre fui essa pessoa que teve assim uma disposição para o encontro, assim para conversa, para gente assim que sempre me espantou.

VIVera Iaconelli

E gregário, você junta as pessoas lá? Porque, bom, tá, eu não quero antecipar coisas. Bom, e aí você tem esse irmão mais novo que nasce com que diferença?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Com 4 anos e meio. Você lembra do nascimento dele? Não, Eu não lembro do nascimento, mas eu lembro dele bem bebê. Eu fui prematuro, assim, um prematuro grave assim pra época, né? Porque a neonatalidade tava engatinhando naquela época, em 1974. Então, com muito, com muita agonia, minha mãe viveu esse momento, porque enfermeira falava com ela às vezes, ó, de hoje ele não passa, ele tá muito mal.

VIVera Iaconelli

De quantos meses você nasceu? Ah, sim. Em alguns casos nem se considerava que ia vingar, né? Já era tido como fatal.

ACAlexandre Coimbra Amaral

É, mas então assim, essa mãe que não podia ser presença, ela tinha que ser visita, que tinha que voltar pra casa, que não tinha o suporte, né? Isso tem tudo a ver com eu ter trabalhado também com perinatalidade tanto tempo, né? Assim, acho que era uma pergunta que me rondava, né? E que me ronda ainda, né? Esse cuidado que a gente precisa ainda melhorar muito nessa chegada do filho à família, né? Mas eu lembro do Gu pequeno e eu sempre tive uma relação de muito cuidado com ele, assim.

Eu sempre achei ele muito querido, muito fofo, assim. Mas a gente rapidamente construiu tipos de identidade masculina muito diferentes.

VIVera Iaconelli

Eu quero voltar numa coisa, porque eu quero saber muito disso que você vai falar agora, mas eu queria voltar na importância da gente muita gente passa por experiência de filho prematuro, ainda mais hoje que a prematuridade tem mais sustentação e às vezes são muito prematuros. Então eu não sei, mas para mim é tão bom, até porque meu neto mais velho foi prematuro também, tão bom saber que as— me emocionei— é que as pessoas sobrevivem e ficam tão legais, né?

Assim que não é porque assim é uma experiência de início tão dura e você não se fechou para o mundo, você foi uma criança Enfim, você fez alguma coisa com isso, né? Jamais imaginaria. Não que exista um tipo da criança prematura, não é isso. Mas puxa, tem tantos pais pensando assim, o que vai ser do meu filho depois de uma experiência dessa? Ó, tem o Alexandre Coimbra falando o que foi dessa criança nos anos 70 prematura.

ACAlexandre Coimbra Amaral

1974. Então assim, essa prematuridade, ela obviamente se consolidou durante muito tempo como um fantasma. Então eu fui uma criança que tive muitas doenças infantis, dessas doenças mais barra pesada, que demorava muito pra tratar, né? E assim, eu demorei muito tempo pra me apossar do meu corpo, sabe? Pra sentir que eu habitava um corpo. Hoje eu vejo isso, né? Eu tô falando com olhos de gente grande.

VIVera Iaconelli

De personalizada, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Exatamente, é. Então eu acho que foi sempre essa sensação de que eu era muito frágil, né? E depois veio uma hiperintelectualização, né? Sobretudo para compensar essa história da masculinidade que nunca foi típica na minha vida. Então era sempre muito esquisito para o mundo masculino, para instituição escola. Então veio essa hiperintelectualização que já assim, se coligou com aquele corpo que se sentia ainda muito frágil, muito vulnerável.

Então acho que a construção desse poder sobre o meu corpo, ela vem depois da adultez mesmo.

VIVera Iaconelli

Conta dessa masculinidade, você e seu irmão.

ACAlexandre Coimbra Amaral

É, o Gu é um cara que desde criança ele tinha um privilégio de gênero entre os meninos, que era ser muito bom de bola.

VIVera Iaconelli

É um passe pro mundo, né? É um passaporte pro mundo masculino.

ACAlexandre Coimbra Amaral

É um passaporte, né? Ele era um craque, ele era um craque. E assim, todo mundo queria ele por perto, todo mundo queria ele no time, né? Todo mundo queria ele, ele realmente era extraordinário no futebol. E eu, além de não ser bom, eu não gostava.

VIVera Iaconelli

Deu boa foto.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Então eu era aquele escanteado, né? Que na aula de educação física eles colocavam assim os bons de bola para escolher os times e eu ficava o último a ser escolhido. E aí falava assim, ah, tá bom, vem você.

?Voz B

Era aquela cena, tipo.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Então acho que isso é muito impressionante. A gente conta isso hoje, às vezes as pessoas não acreditam, mas o futebol definia pertencimento de uma maneira muito contumaz. No mundo masculino naquela época, né? Eu, por exemplo, gostava de vôlei, eu fiz vôlei, eu fiz natação, mas nada disso formava grupo, né? Eram adesões esportivas que não construíam essa galera que o futebol construía, né? Que dava pertencimento e identidade pros meninos, né?

Então eu sempre fui um garoto meio escanteado assim nesse sentido, né? Aí os livros foram os meus amigos pra vida inteira. E nunca mais eu os larguei. Eles me fizeram companhia, me salvaram de várias solidões. Mas eu nunca deixei de ter amizade, não. Eu nunca fui uma criança aquela que não tem amigos. Eu me virava. Eu dava um jeito. Eu me virava.

VIVera Iaconelli

E pros seus pais, como é que era? Porque então tem seu pai, e na cabeça dele um modelo de masculinidade. Tem a sua mãe, que também na cabeça dela um modelo de masculinidade. Como é que eles lidavam com essas diferenças? O que você via? O teu pai também era bom de bola? Como é que é isso?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Adorava jogar bola, adorava jogar bola. O Gu era muito companheiro dele de ir pra campo, né? Os dois torcedores do Cruzeiro. E, bom, meu pai na verdade é americano, que é um time assim que já teve o seu momento de glória, assim. É tipo o Botafogo no Rio, assim. Um eterno sofrimento, assim. Mas ele sempre acompanhou meu irmão no Cruzeiro, no campo de futebol. Então assim, eu sinto que foi muito difícil para eles manejar essa diferença entre os dois filhos, né?

Porque o que eu me propunha a ser, a pensar, a fazer era sempre muito diferente. O Gu era muito adequado dentro daquele parâmetro mais esperado para aquela cultura mineira, que é uma cultura conservadora. Às vezes eu costumo definir Minas Gerais como um convento a céu aberto. Então a cultura mineira com esse conservadorismo, a gente estudava numa escola de padre, né? Eu estudei a vida inteira nesse colégio franciscano. Então o Gussi acabou que se destacou nos esportes, né, no futebol, e eu na intelectualidade.

Eu fui para esse lugar, né? E eu percebo hoje, Vera, que o fato de eu ser CDF Né? Desde pequeno era uma forma de compensar essa sensação de exclusão do mundo masculino, sabe? Então essa necessidade de estudar muito, de saber muito, de ler muito, de compensar uma certa fratura identitária que eu trazia, sabe?

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?Voz C

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VIVera Iaconelli

O meu marido ele era realmente jogava mal para caramba também, mas ele tinha bola. Enquanto a bola tivesse inteira, ele estava no grupo dos meninos. Quando a bola murchava, ele era totalmente dispensado, né? Era descartável. Ele viveu exatamente essa. Mas eu não tinha, eu como mulher nunca soube que isso era tão forte pros meninos, né? E tem uma passagem da série Adolescência, né, Alexandre? Você lembra que o pai fala que ele transmitia pro filho a decepção do filho no esporte?

O menino desenhava bem. Não sei se você lembra que no final o pai tá tentando descobrir o que que ele fez pro menino ter uma resposta tão violenta àquilo, né? Que o menino comete um crime logo no começo. E o pai fala, quando ele não jogava bem, eu olhava com um olhar de decepção pra ele e ele captou. E quando ele desenha, a gente nunca apreciou tanto. Mas você não respondeu com violência a esse não reconhecimento dos pais de que você não correspondia talvez à masculinidade do teu território.

Você respondeu com um carisma gigantesco, né? Como é que você fez isso daí? Me conta, porque isso é muito legal.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Olha, eu sempre fui assim muito ligado em arte. Eu tenho uma cena, tenho duas cenas da minha infância que são icônicas. Uma com 4 anos indo assistir O Salto em Bancos, a montagem original do Chico. E ali eu descobri o teatro. A partir daquele momento eu virei um pentelho. E meus pais tinham que me levar no teatro todo fim de semana, né?

VIVera Iaconelli

E eles se prestavam?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Se prestavam a isso.

VIVera Iaconelli

Curtiam?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Sim, curtiam e tal. Com 7 anos Tem uma outra cena icônica da minha infância, é que meu pai me leva no Mineirinho, que é um estádio pequeno de show, é mais voltado para basquete, pequenos shows assim, para ver o lançamento do lança-perfume da Rita Lee. Eu tinha 7 anos de idade, eu já era louco pela Rita Lee. Então a arte e ser basicamente O teatro, a dramaturgia e a música são a fonte inesgotável da minha alegria na vida. Assim, então eu sinto quando eu vou numa peça de teatro, quando eu assisto um filme, quando eu vejo novela, super noveleiro, quando eu tô em contato com a dramaturgia, né, eu sinto que eu tô sendo alimentado na alma.

VIVera Iaconelli

Mas tem muito corpo aí, né, Alexandre? Tem muito corpo. Teatro é corpo, música é corpo. Você tem que estar, você sente no corpo, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

E a música também, eu sinto a música, eu cito música o tempo inteiro, eu escrevo citando música assim, é muito. E assim, a gente teve a sorte, né, Vera, de crescer numa música brasileira que era uma coisa extraordinária, né? Então ali você tinha um terreno fértil para construção da identidade de um jeito tão bonito. Então eu tenho certeza que o teatro e música forjaram essa pessoa que eu sou, né, nesse lugar tão forte, né. E depois todas as formas de texto.

Eu sou muito encantado pela construção da dramaturgia, assim. Eu assisto um filme prestando atenção na cena, no texto que o roteirista escreve, né. Ficava atento ali quando eu era adolescente. Ficava desorientado com Gilberto Braga escrevendo novela, a construção daquelas identidades que ele fazia ali conversar. Então isso que você chama de carisma, eu tenho certeza que na minha vida era assim, eu muito quieto, eu me nutria desses elementos da vida e sempre fui essa pessoa que quando eu descubro uma coisa eu preciso sair para contar.

Então eu saía para os meus amigos e falava assim, você escutou essa música? Viu esse disco? Você viu essa peça? Você viu aquele capítulo da novela? Você viu esse filme? Então, desde criança eu construí a conexão com as pessoas a partir da arte.

VIVera Iaconelli

Escuta, mas eu quero saber disso, que também me interessa, é que são essas 4 pessoas de uma família afetiva, amorosa, que tem um transbordamento que tem que ter vindo daí também, né? E você ser essa pessoa que destoa, vamos dizer?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eu sempre fui da banda dos esquisitos.

VIVera Iaconelli

Nós, né, amigo?

?Voz B

Nós.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Então eu busquei gente que me ajudasse a sustentar minha esquisitice. Eu acho que eu nunca abri mão dela. E desde muito cedo eu percebi que esse estilo de temperamento mesmo dos três da minha casa, né, da minha mãe, do meu pai, do Gustavo, não me davam o tipo de pertencimento social que eu precisava. Então eu fui pro mundo e eu fiz muitos amigos. E eu fazia amigos de todas as idades, Vera. Eu morava numa rua, num bairro, não era periferia, mas era classe média baixa.

Mas nesse bairro tinha um puteiro, eu era amigo de todas as prostitutas. Eu ia 5 horas da tarde comer bolo com elas, sabia de todos os clientes. Tinha um pai de uma amiga que era um caminhoneiro. Que me contava as histórias das viagens que ele fazia, que morava 3 casas pra cima. Tinham uns garotos que eram borracheiros, tinha um bar na esquina que tinha aquele bar típico de gente muito bêbada às 9 horas da manhã. Então assim, era uma rua chamada Brasil, sabe?

Eu convivi ali com muitos tipos de pessoas e aquilo foi me dando a sensação de que eu tinha que ir cada vez mais pra fora, porque o mundo era muito grandioso. Esse mundo que me interessava, o mundo das pessoas, era muito complexo e rico, né? E que eu tinha o direito de fazer isso por mim mesmo. Então eu sempre fui muito para fora, muito para as amizades. Tinha amigos mais velhos, né? Amigos, as mães, os pais dos meus colegas sentavam para conversar comigo, eu conversava com eles.

Então eu acho que eu fui entendendo que o meu desejo apontava para essa multiplicidade de vínculo, sabe?

VIVera Iaconelli

E os seus pais também eram abertos para o coletivo na cidade? Porque você disse que quando voltava para o interior você tinha uma experiência assim, né? Mas os seus pais na cidade também tinham essa relação?

ACAlexandre Coimbra Amaral

A gente morava num prédio que era uma comunidade assim, era uma comunidade muito rica, era um prédio em que as pessoas realmente tinham aquela troca afetiva com vizinho, que a porta tava sempre aberta, que a gente podia entrar qualquer hora e tomar tomar café. Então era um lugar muito seguro para todo mundo habitar. Então ali a gente fez a nossa vida, né? Mas eu acho que os meus pais e o meu irmão sempre acharam exagerada essa minha quantidade de gente que eu precisava ter para ser feliz, né?

Porque era realmente assim, ah, eu fiz mais um amigo, ah, eu fiz. E eu lembro às vezes assim da cara deles, né? Eu gastava muito telefone conversando com as pessoas, passava horas. Minha mãe enlouquecida com o valor da conta de telefone. E às vezes eu combinava com os meus amigos depois de meia-noite da gente conversar, que era um pulso. Lembra disso? Pagava um pulso telefônico só. Assim, eu ficava me virando para construir o laço de que eu necessitava para me sentir bem.

VIVera Iaconelli

Nossa, não lembrava que a gente pagava telefone conforme a gente usava, né? Porque agora com o Zap isso acabou, inclusive ligações internacionais. Então realmente, depois de uma semana, né? Escuta, e aí nesse tem uma hora que você decide então ir para psicologia, como é que—

ACAlexandre Coimbra Amaral

Não, essa história da psicologia foi muito interessante, né? Eu tinha muita vontade de fazer artes cênicas na parte da escrita do texto mesmo, não queria ser ator nem diretor nem nada, mas a vida acabou me levando porque aos 14 anos eu fui trabalhar e fui ser office boy do Banco do Brasil. Então eu fiquei lá dos 14 aos 18 e os meus colegas eram todos economistas ou administradores de empresa. Então eram pessoas muito admiráveis que algumas delas fazem parte da minha vida até hoje.

E eu acho que nessa onda da gente não saber muito bem o que vai ser quando crescer, né, eu fiz a faculdade de economia, passei no vestibular, identificado com esse grupo de pessoas, aí que como eu era bom de estudo e tal, tirava notas boas, mas eu não gostava de nada. E aí depois de 2 anos eu desisti, fui fazer terapia, e no final desse 1 ano de terapia eu descobri que eu queria fazer o que aquela mulher tava fazendo comigo. E aí eu prestei para psicologia e fui fazer psicologia, né?

É aí começa a segunda pergunta, porque na faculdade de psicologia eu conheço a Heloísa, mãe da Dani, Dani, que era minha colega de faculdade, e fui no primeiro semestre fazer um trabalho de grupo na casa dela. Me apaixonei pela Dani à primeira vista na faculdade. Na faculdade, a Dani tava terminando o segundo grau, já tava na faculdade, mas a gente se apaixonou assim. Eu fiquei um ano atrás dela, aí ela não queria nada comigo. Eu era o amigo da mãe, imagina Sem graça, sem graça.

VIVera Iaconelli

Minha mãe chegou antes.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Aí teve uma hora que eu desisti. E aí essa história é muito bonitinha porque ela sabia que eu não ia tentar mais, né? Aí na semana do meu aniversário ela me mandou flores anônimas para faculdade durante uma semana, de segunda a sexta, e eu não sabia quem tava mandando flores. E aí na sexta-feira ela foi e disse que foi ela. Eu não acreditei, velho. Eu achei que ela tava fazendo hora com a minha cara, assim, você tá Eu tô aqui sem saber o que que tá acontecendo e tal.

Eu não acreditei. No dia seguinte a gente começou a namorar e tá junto até hoje. Então a faculdade de psicologia, ela é uma virada mesmo na vida para mim, porque ela me faz me encontrar com um futuro, né? Ali eu entendi: quero ser isso aqui o resto da vida, isso aqui é o que eu gosto. É aqui que eu me encontro, é aqui que, é aqui que o meu fascínio todo por gente encontra uma direção, né, um sentido, né, para prover identidade, renda, prazer, né, um monte de coisa aqui.

E tem essa mulher maravilhosa aqui com quem eu quero fazer a vida. Então a faculdade de psicologia foi tipo o grande encontro.

VIVera Iaconelli

E para sua família não tinha interferência nas tuas escolhas? Tudo bem você fazer psicologia.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Olha, não, não era assim tão tudo bem. Eles tinham muita preocupação porque sustentava você para sempre, né? Tipo isso, psicologia tava em baixa, né, Vera? Quando a gente fez psicologia, eu vi o Cris falando hoje, olha que coincidência, dando uma entrevista, e ele usou o termo que um desses meus tios lá do sertão me disse quando eu passei no vestibular. Ele falou assim, você vai fazer um curso, espera marido. E foi a mesma expressão que o Cris disse que que ele escutou quando ele passou em psicologia, né?

Então assim, não era uma profissão com crédito. Eu acho extraordinária a transição que a identidade da psicologia fez na sociedade brasileira, né? O ponto da gente hoje frequentar programa de TV de alcance nacional.

VIVera Iaconelli

Os pais olhavam pra gente e falavam, vou sustentar pra sempre, tomara que case bem. Não, era um horror, gente, era um horror, era um horror.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Mas assim, o desejo mostra a sua cara, né? Então é isso.

VIVera Iaconelli

Bom, é isso não, agora começa a segunda parte. Como é que é essa mulher que você encontra? A sogra já tava ótima, você fez uma boa escolha, né? Isso, que a sogra já era sua amiga, começou bem. E qual a tua referência de família hoje? O que que você constrói a partir de toda essa história que você traz, mais de parte de mãe do que de pai, e que desemboca nesse, nesse encontro?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Olha, é o encontro mais importante da minha vida.

?Voz C

Né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

O encontro com a Dani é a coisa mais forte, assim. A Dani, ela é uma mulher abissal, assim. Então ela tem uma profundidade existencial muito marcante, né? Tudo que ela faz tem muita presença, muita qualidade de presença. Ela tá no aqui e agora, uma pessoa rara assim que não entra nesse tipo de distração, sabe, contemporânea assim. Tem lá, usa, que a gente usa WhatsApp, tudo certo, mas na hora que ela tá com você, ela tá com você, né?

E uma pessoa muito ligada à natureza. Então isso é, isso é uma, é o ponto mais forte do nosso encontro assim, como essa conexão com a natureza definiu muitas coisas da nossa vida.

VIVera Iaconelli

Embora vocês tenham se encontrado, não Em BH, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Mas assim, a gente saía para tomar chuva no parque, assim, sabe? A gente contempla a natureza desde muito cedo, assim. A gente sempre gostou dessa ideia de que parte da vida é a contemplação. Então a gente fez uma viagem quando a gente decidiu ficar junto, se casar. A gente fez uma viagem, a gente foi para o Rio de Janeiro assistir a Cássia Heller no Réveillon, mas ela Ela morreu no dia 28 daquele, daquele dezembro. É, e aí foi um show muito triste porque todo mundo chorando.

Zeca Baleeiro fez um show em substituição assim. A nossa viagem começou com esse, com essa nota assim também marcante, porque a Cássia representa muito do que a gente acredita na vida. E a gente subiu as capitais do Nordeste até Natal para a gente descobrir onde a gente queria morar, porque a gente queria morar na praia. E aí a gente acabou indo para Salvador, né? Foi aí que a gente fez a nossa vida lá. Eu fiz um concurso numa universidade privada que tava montando o primeiro curso de psicologia.

A gente foi para Salvador. Então assim, a nossa escolha começou também com essa conexão com a natureza, com o mar, com a vontade de mudar, né?

VIVera Iaconelli

Porque eu jamais conseguiria me imaginar, vou escolher uma capital, vou prestar um concurso do jeito que eu sou preciso estar no mesmo lugar assim. Nossa, acho incrível isso.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Nossa, a gente é o contrário assim. A gente chamou, é, a casa agora que a gente mora é a primeira que a gente comprou, mas é a nona casa em 3 cidades, né? A gente morou em Salvador 10 anos, depois a gente morou em Serra Grande, que é uma vilinha de pescadores no sul da Bahia, do lado de Ilhéus, e agora em São Paulo, em Cotia, na verdade, aqui do Mas então a gente tem esse espírito muito aventureiro, a gente tem essa capacidade de sonhar muitas vidas dentro de uma vida, né?

Então a Dani, ela trouxe para minha vida essa, essa possibilidade de ser muitos. Ela já tinha se mudado muito, ela tinha uma vida também de muitas migrações por várias razões lá da história dela. Então ela tem essa, essa essa capacidade, essa habilidade muito bem construída, né? Uma rapidez impressionante assim para fazer Ctrl+X, Ctrl+V. Vamos sair daqui, vamos para cá, vamos fazer isso. Então a gente teve vidas muito bonitas assim.

A gente teve essa vida assim em Salvador, eu dando aula, terminando de fazer a faculdade de psicologia. Ela terminou lá em Salvador, né? A gente ficou muitos amigos, não sei o quê. E depois foi a fase dos filhos. E aí a gente a gente mudou para essa cidadezinha.

VIVera Iaconelli

Vocês têm filhos quando vocês mudam?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Não, em Salvador. Os dois primeiros nasceram em Salvador, são soteropolitanos. O Gael é que nasceu em Serra Grande. E a gente já é muito envolvido com a humanização do nascimento. Então assim, a gente tá sempre em alguma parada juntos, Vera. Assim, é muito bonito isso que a gente tem. A gente constrói esses interesses juntos, né? E os filhos, Eu acho que eu vou chorar muito pra falar desses meninos, porque eu sou apaixonado pelos meus filhos.

Eu acho que eu tive muita sorte. Porque você, é claro que a gente faz um monte de apostas num tipo de criação, num tipo de dedicação e de trabalho. Esse trabalho árduo que é a maternidade e a paternidade. Mas a real é que, como diz você, eu cito sua frase 300 mil vezes, sempre dou garantias de que essa frase é sua, que nós não trabalhamos com garantias, né? Mas na hora que a gente começa a ver as pessoas, né, se formando e as vidas acontecendo, isso é uma coisa tão emocionante.

Então eu tô nessa fase com os meus filhos assim de um orgulho, sabe, de uma alegria ver 3 homens, sabe, se constituindo de uma forma tão bonita para esse mundo. O Luan tá morando agora em São Paulo, ele tá fazendo faculdade de nutrição. O Ravi tá no ensino médio, o Gael ainda tá no 7º ano lá.

VIVera Iaconelli

Quais idades?

ACAlexandre Coimbra Amaral

O Luan tem 19, o Ravi tem 17, o Gael vai fazer 13 daqui a pouquinho. E o Gael é um jogador de futebol. O cuspe caiu no meio da testa.

?Voz C

Agora ele é a figura que Encaixa perfeitamente.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Não, e leva a gente, né? Eu virei, eu virei pai de jogador, né? O tempo inteiro, todo final de semana tem que levar em jogo, tem que isso, tem que aquilo.

VIVera Iaconelli

Qual que é o time dele?

ACAlexandre Coimbra Amaral

É Corinthians.

VIVera Iaconelli

Ah, claro, vai Corinthians.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Mas ele, ele tá jogando no São Paulo. Ele tá jogando no São Paulo, nos pequenutos da elite do Sub-13 do São Paulo.

VIVera Iaconelli

Sério? É para valer?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Para valer. Ele é goleiro.

VIVera Iaconelli

Não vivo o tio Gustavo que deixou uma herança aí, não. Porque, puxa, são poucos que conseguem esses lugares, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Ele sofre muito com esse mundo do futebol porque não é um mundo fácil, né, Vero? É um mundo que ainda tem um nível de autoritarismo, de machismo, de uma certa brutalidade no trato com a noção de desempenho, que é muito diferente do que ele vive lá em casa e do que ele vive na escola também. Então não é uma coisa fácil pra ele, mas ele é muito forte, uma pessoa muito forte. O Ravi, ele é um artista em muitos níveis. O Ravi, ele é disléxico.

Então quando ele descobriu isso, tava abrindo a pandemia, ficou com muito medo de não aprender direito e foi se virando de um jeito muito bonito com audiovisual. Então ele estuda as coisas pelo YouTube, depois ele pega o livro e lê. E tá fazendo o caminho dele lindamente. Então pode ser que seja um cara de humanas, mas ele gosta de arte, ele faz crochê, ele desenha, ele pinta, ele sabe, ele cozinha, gosta de cozinhar. E o Luan é um cara que eu acho que vai fazer uma diferença no mundo porque ele gosta muito de nutrição esportiva, essa coisa de malhar, de Mas ele é zero, zero a ver com esse mundo red pill da academia.

Então ele é um cara que fisicamente ele é aquele cara fortão, bonitão, gostosão e não sei o quê. Mas é um fofurcinho de pelúcia, entendeu? Então são 3 figuras tão incríveis, diferentes entre si, com espaço pra serem eles mesmos, tão dando um banho na vida.

VIVera Iaconelli

E quando você pensa assim no mais novinho, do futebol. Em algum momento você olhou e pensou, putz, será que eu consigo me comunicar com esse cara que pensa diferente? Mas como você em relação à sua família, né, com a mesma ética, vamos dizer, né, mas com uma outra pegada, com outro interesse. Você se viu tendo que se desdobrar em alguma coisa ali?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Tenho voltado muito nessa história porque de fato assim assisti-lo jogar é uma coisa muito forte. Primeiro porque o goleiro ele é um solitário, né, Ele fica ali vendo às vezes o jogo acontecer todo do outro lado, ou às vezes o jogo tá todo em cima dele.

VIVera Iaconelli

O Gael é goleiro?

ACAlexandre Coimbra Amaral

O Gael é goleiro.

VIVera Iaconelli

Eu não tinha ouvido que ele era goleiro. Ai, cara, eu acho lugar de goleiro surreal.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Surreal. E assim, quando perde, é como se a responsabilidade fosse toda dele.

VIVera Iaconelli

O gol nunca tá previsto, né? Nunca tá previsto do lado do goleiro.

ACAlexandre Coimbra Amaral

É isso.

VIVera Iaconelli

Muito louco.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Então é uma coisa que é muito angustiante pra mim como pai de assistir, né? Então fico muito atento, converso muito com ele sobre isso, a Dani também. Mas ele tá lá seguindo o caminho dele. Mas eu sinto que ele tem muita vontade de me ensinar as coisas, é muito bonitinho. Ele não conseguiu ainda me ensinar o que que é impedimento, eu acho que eu vou morrer.

VIVera Iaconelli

Eu sei que é uma coisa que não pode. Quando pega, né? Quando não pega, tudo bem.

ACAlexandre Coimbra Amaral

É isso, mas o Gael, o Gael, ele tem uma força que impressiona todo mundo. O Luan tem uma afetividade muito marcante, assim, ele é muito carismático, é muito amigueiro também. O Ravi, ele tem uma intelectualidade também e uma capacidade de lidar com as questões da identidade dele, porque ele é um homem gay. Então ele Ele tá muito dentro do movimento, assiste, sabe, maratonou a Rita Von Hunty inteira com 15 anos de idade, assim, tava formado em Rita Von Hunty, sabe como é?

Então eu sinto que o que marca eles é essa abertura para eles desenvolverem essas paixões pela vida, sabe? Eles têm uma, eles têm uma cor intensa na relação com a vida. Isso pra mim é muito emocionante de ver.

VIVera Iaconelli

Mas vê-los numa geração posterior à sua, né? Você que viveu a tua experiência de masculinidade, teve que se virar com as tuas coisas, enfim. Você acha que eles te trazem coisas que você tem que processar sobre a masculinidade?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Muito.

VIVera Iaconelli

Muito, né? Porque são 3 homens diferentes, com 3 formas muito distintas de estar no mundo como homens. O que que você acha que você teve que se virar? Porque eu tenho me perguntado, desde que eu tenho duas meninas, eu tenho me perguntado o que teria sido criar meninos, né? Que é uma experiência que eu nunca vou saber. Mas então elas me trazem um feminismo muito fresco que me ajuda muito, né? E eu tenho uma impressão de que os meninos trazem dilemas importantes porque eles estão vivendo essa opressão da masculinidade. Não sei, não queria pôr, eu quero saber de você.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Estão vivendo sim essa sensação de eu não sei como lidar, né? Assim, e é muito marcante assim o medo do cancelamento dentro da turma, dentro do grupo, dentro da escola, né? E essa palavra cancelamento já apareceu na boca dos três, sabe? Como uma preocupação assim de performar qualquer ato que pudesse ser um ato de expulsão do grupo. Equipo, né? Cada um no seu quadrado ali. Então eu acho que não é uma coisa fácil mesmo ser homem.

O Luan teve uma fase na vida que ele falou uma coisa que a gente na hora deu muita risada. Obviamente não na frente dele, porque senão ia dar muita treta. Mas ele chegou um dia para gente, no auge da revolta adolescente, disse assim: vocês me deseducaram para a Vocês me criaram desadaptado, porque vocês com esse relacionamento duradouro, isso não existe. Todo mundo tá separado, tá todo mundo separado. Os pais dos meus amigos estão todos separados.

Eu vou ter muitos casamentos e vocês não são modelo para mim. Aquela hora você fala, de qualquer jeito você tá errado, né?

VIVera Iaconelli

Sim, sim, maravilhoso, maravilhoso.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Mas eles me trazem muito em relação à minha masculinidade, é, eles pontuam muito uma coisa que é, que é um desafio para mim, que assim, é, como eu vim dessas histórias de família aí que tem traços autoritários, eu considero que eu vou ser o resto da vida um autoritário em desconstrução. Então eles pontuam os momentos em que eu tô contraditório em relação a uma postura ética mais dialógica, mais democrática, né? Então eles, eles teve um dia que o Ravi voltou da escola, ele estuda numa escola freiriana que tem assembleia, tem ata, não sei o quê.

Chegou nesse dia, ele tava de ovo virado comigo, ele falou assim, tem uns 2 anos essa fala: você que se acha muito democrático, você precisa ir um dia na assembleia da minha escola, vai, você vai receber um banho de água Então, e como é que você ouve isso? Ah, eu escuto e quero aprender, sabe? Eu acho que a gente tem uma oportunidade rara através dos filhos, né? Muitas vezes eu sinto a paternidade como uma outra volta nessa espiral do processo de desenvolvimento da vida.

Eu me sinto de novo com 10, com 17, com 20, voltando em pedaços da vida a partir das coisas que eles me trazem, sabe? Refazendo uns arcos aí que ficaram meio sancofa, sabe aquela história do pássaro que vai lá para trás pegar o alimento, ficou ali esquecido, né, nas areias do tempo. Então eu gosto muito desse contato com ele, a gente é muito próximo. Eu sofri muito quando o Luan saiu de casa, Vera.

VIVera Iaconelli

Ah, mas sofri muito, ele é muito novinho para nossa geração.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Assim, para nossa geração não, aos 19 já era meio adulto, né, mas hoje eles estão saindo tarde, né, a gente não Mas assim, a gente foi, fez, tava todo mundo com a maior alegria montando o apartamento dele, não sei o quê. Na hora que eu cheguei em casa e vi aquele quarto vazio, foi aquela cena tipo de novela mexicana de escorrer na porta, chorar e tal. Sou bem dramático, assim, o seu coração já mudou.

VIVera Iaconelli

Eu me senti muito dividida, já falei isso algumas vezes aqui, assim, me senti— Ai, que alívio não ter mais tanto adulto dando palpite numa casa onde só dois cuidam de tudo. E cadê as pessoas que estavam aqui? E no fim eu dobrei muito meu trabalho, trabalhei muito mais, porque sobrou um tempo que eu não percebia que eu ainda me dedicava muito a elas. Mas elas não tinham 19, tinha um pouquinho mais, né? Mas é duro, né? Porque você fica 20 anos preocupado com tudo que se passa com a pessoa e de repente ela não tá mais lá, cara.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eu costumo dizer que a gente é SLT, escala 7 por 0. Depois a gente vira um consultor ad hoc quando o mundo—

VIVera Iaconelli

é isso, exatamente. Exatamente, é uma loucura, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Uma loucura, porque de repente você vira aquela pessoa que recebe aquele micro comentário que você tem que responder apenas ali, né, para não ser cancelado.

VIVera Iaconelli

Escuta, mas tem uma coisa que você falou, uma coisa agora que me lembrou um artigo que eu escrevi para Folha, que também tinha a ver com um bode que eu passei de me haver com as questões que as minhas filhas devolvem. Eu tenho que pensar, e que às vezes parece parece um coice, né? Não falam assim comigo de jeito nenhum, mas o próprio conteúdo te deixa assim meio desarvorada. E eu escrevi que tem algo para nossa geração, talvez tem algo sempre geracional, na próxima geração também vai se haver com tanto disso, que é, tem coisas que a gente aprende dos filhos que são uma língua estrangeira.

Então que você não é nativo como eles naquilo, que quando eles falam, olha, você é autoritário, autoritário. E você fala, putz, eu tô sendo autoritária, eu vou tentar melhorar isso daí. Mas esse melhorar isso daí é aprender uma língua estrangeira que você não fala nunca tão bem quanto eles. E se você quiser se comunicar com eles, você vai ter que estudar sempre aquela língua. E para eles, eles são nativos naquela língua, mas eu não sei se os filhos deles serão, entendeu?

Se eles serão nativos da língua dos filhos deles, porque os filhos também, se tudo der certo, vão vir com uma coisa ainda mais moderna, mais igualitária, mais justa, né, ou pelo menos mais crítica. Então é tão legal poder ouvi-las e ouvi-los falando, porque a gente se aprende sempre uma palavrinha que você não conhecia, né, e que para eles já é luz elétrica, eles já sabem o que que é e faz parte, né. Mas é duro, né, Alexandre?

ACAlexandre Coimbra Amaral

É duro ser criticado, é porque você às vezes entra num lugar muito infantil, né? Poxa, eu tô fazendo tanto, eu faço tanto, me dedico tanto.

VIVera Iaconelli

Se você fosse filho do meu pai, você ia ver isso.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Exatamente, passa isso tudo na cabeça, né? A gente segurar a onda. Mas no final tem dado certo, porque uma coisa que a gente conseguiu construir lá em casa, né, nós 5, é o apreço pela conversa. A gente realmente gosta de conversar. Então tem conversa de todo mundo com todo mundo sobre todo tipo de assunto, né? Às vezes só entre eles, né? Agora com esse tema aí de relacionamento afetivo, não sei o quê, quarto trancado, só eles com eles.

A gente não fica sabendo para onde vai a conversa, o que a gente acha lindo também. Mas então a gente costuma resolver Sabe? Não às vezes na mesma hora, às vezes é duro, doloroso, tem que esperar passar a ferida, mas a gente consegue retornar, sabe? Retornar o afeto assim. Eu tenho uma história linda com o meu filho, é o Luan, que no ano passado ele tava vivendo uma cena assim difícil. Acho que foi ano passado, retrasado, véspera assim de uma prova, e falou assim: Você nunca mais leu para mim para eu dormir.

E aí ele pediu um livro, eu peguei lá o livro, li para ele e ele dormiu. E aquilo, né, ele tinha 17 ou 18 anos, aquilo para mim foi tão forte. Eu fiquei pensando quantas vezes a gente perde oportunidade na vida de se vulnerabilizar dessa forma, né, para as pessoas com quem a gente tem muita confiança, amor, né? E essa, essa é uma das cenas que mudou minha percepção de como também esse trabalho agora nessas próximas fases com eles, eu quero sempre deixar essa porta muito aberta para eles poderem voltar, deitar, sabe, a cabeça no colo e eu ler livro. Fazer cafuné, fazer massagem, sabe?

VIVera Iaconelli

Se você juntar essas duas coisas que a gente, que você acabou de falar assim, né, que uma é porque os pais não estão esperando que os filhos cresçam e continuem a arranhar o narcisismo deles, ou seja, que os filhos tragam um mundo que se choca com o deles, porque tem uma questão geracional, e aquilo fere o nosso narcisismo, e a gente consegue escutar e aguentar. Os pais estão achando que depois corre para o abraço, vai ser tudo lindo, ou um horror, mas enfim, tem isso.

A gente tem uma relação amorosa, e uma relação amorosa, se for íntima, ela vai ter momentos de confronto que vão te ferir, porque sendo seu filho, você depositou uma coisa afetiva gigantesca ali, uma aposta gigantesca que você não tem nem no casamento, porque se a tua mulher chegar e falar, ó, Alexandre, isso aí que você faz eu não gosto, entendeu? É diferente quando o filho fala, porque a gente tá esperando algum tipo de Eu tô falando de mim, né?

Não sei se isso serve para os outros pais, mas assim, você tá esperando, né, que já fiz tudo que eu tinha que fazer, já comprei todos os kombucha que tinha que comprar, agora é só beijinho e te amo, obrigada, mãe. Não, é: olha, mãe, você não tá acompanhando. Olha, mãe, isso aqui tá— é duro porque você só tá querendo confete no fim, né? Sendo bem honesta aqui. Então sustentar essas feridas narcísicas que fazem com que a relação continue leal, continue longeva com os filhos e íntima, e mesmo tempo, né, esses momentos que eles pedem colo, cara, que você lembra que aquela mesma pessoa que te falou um negócio que te fez repensar quem você era, é aquela pessoa que fala assim: posso deitar aqui?

E quando precisa, a pessoa tá no teu colo, só que a pessoa é maior que você, entendeu? É um negócio tão— esses dois lados, né, da gente ainda ser necessário num lugar tão regredido, e ao mesmo tempo a gente precisar ver que o cara cresceu, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

E eu também peço colo para eles, adoro pedir colo para eles.

VIVera Iaconelli

Eu tô sempre, pois é, tipo, meu, é incrível isso, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Incrível, incrível assim. E é o melhor colo, colo de filho adulto é uma coisa que não fui preparado para isso, é uma maravilha. Sim, porque inclusive tem esse tipo, o Luan faz uma massagem maravilhosa Então é aquele colo que vem com massagem, sabe?

VIVera Iaconelli

Onde eu tenho isso, Alexandre? Porque eu tô voltando um filminho. A gente é muito de se abraçar muito, família italiana, se abraçar, se pegar, se beijar, pegar, apertar assim, né? Que é muito forte também essa parte. Mas o que eu tenho muito uma demanda para as minhas filhas, que elas se metem nisso, a maquiagem. Você sabe que elas me indicam, compram, escolhem, passam. Outro dia tava, a gente viajou e tinha um evento juntas dividindo um banheiro, e a mais nova fazendo a maquiagem em mim.

Eu falei, gente, que que é isso que tá acontecendo aqui? Minha filha tá fazendo maquiagem. Assim, uma coisa tão— para as mulheres isso é uma coisa muito, muito forte, né? Mas eu acho que essa coisa funciona porque tem esse outro momento no qual se sustenta. Eu não sou tudo que elas esperavam que eu fosse. Tem coisa que eu faço cagada e elas me falam e eu aguento, né? Eu aguento que elas possam falar com respeito, com, né? Se for injusto, eu vou falar, está sendo injusto.

Mas não é aceitar tudo, Mas essas coisas estão juntas, né? E eu me lembro que os nossos pais, que a gente se queixa tanto do que eles podiam não dar para nós, dificilmente puderam ter essa relação íntima com a gente, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Uma geração que eu já voltei tantas vezes nessa pergunta, sobretudo por causa dos meus pais, né, que não tiveram isso mesmo, né?

VIVera Iaconelli

Não era esperado, não era esperado para geração deles, não tava na conta.

ACAlexandre Coimbra Amaral

É, mas eu acho que diante das ausências que os meus pais viveram, eles produziram coisas maravilhosas.

VIVera Iaconelli

Sim, sim, não é julgamento, é reconhecer que tem uma perda ali, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

É uma perda. Eu acho que hoje eles estão, os meus pais, por exemplo, recuperam isso muito com os netos. Sim, né? Eu acho que tem uma relação tátil, isso que você tá falando, com os netos, que é muito forte. E os meus 3 filhos, o meu irmão tem uma filha da idade do Gael, é Ana Beatriz, minha sobrinha e minha filhada, um amor. Mas os meus 3 filhos são muito peguentos também. Então eles sentam no colo, eles fazem cafuné, sabe? Eles têm esse tipo de, de repente a vida faz esse looping, né?

E quem não recebeu lá no início, aqui nessa fase mais madura da vida vem um jorro de amor e de experiência vincular, né?

VIVera Iaconelli

Talvez eu fale uma coisa muito óbvia, Alexandre, mas assim, a gente fica esperando que os filhos vão reparar a experiência que a gente teve com os nossos pais, né? Mas muito frequentemente a gente só consegue viver isso com os netos, né? Porque a gente tá tão preocupado em fazer esses filhos sobreviverem, viverem, e a gente tem uma relação tão ainda de tanto investimento com eles e tantos riscos, né? E os netos Os netos, eles, o que vier é lucro, né?

Assim, não tem só alegria, é só alegria, cara. É uma coisa que é interessante, né? Os filhos ainda dão muito trabalho psíquico para gente. Isso é bom, né? Isso é muito bom. Mas os netos é uma coisa um pouco a fundo perdido, né?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Te conto na minha próxima, spoiler da minha próxima temporada.

VIVera Iaconelli

Depois a gente, quando rolar isso, a gente conversa mais. Que delícia! Eu sabia que ia ser uma delícia te encontrar, sabia? Porque sempre é, sempre é uma delícia te ouvir e estar com você.

ACAlexandre Coimbra Amaral

Você é uma das minhas referências intelectuais da vida, nunca me esqueço. Eu vou fazer um chá revelação aqui. Quando eu vim para São Paulo, eu já conhecia a Vera de outros carnavais, a gente já se conhecia. Um tempo depois folgou uma sala no Gerard, do lado da sala da Vera, e ela me chamou para trabalhar ali. Então tive a oportunidade de de atender no Instituto Geral, de às vezes a gente conversar no café, da minha gargalhada invadir o seu set analítico, do paciente pensar, eu acho que eu quero ser atendido na sala ao lado, né, porque ele tá bem mais divertido. Então obrigado também por tudo que você fez por mim, por você faz pelo Brasil.

VIVera Iaconelli

Imagina, eu que agradeço. E agora, adorei ouvir a história da sua família, que lindo! Não sabia, bom, não sabia. Você pode me fazer uma pergunta? Qual seria?

ACAlexandre Coimbra Amaral

Eu quero fazer uma pergunta que talvez se desdobre num pouco de diálogo, porque eu sinto que essa história de virar uma pessoa pública é uma coisa com quem a gente tem pouca gente para trocar, né? É uma parte da nossa identidade profissional na psicologia que é muito nova na psicologia, na psicanálise, no campo que a gente transita. Eu queria entender o que que você acha que a vida pública trouxe de surpresa para você sobre você mesmo.

VIVera Iaconelli

Eu respondo essa pergunta no Pergunta a Vera, o episódio bônus do podcast. Ele sai às quintas-feiras no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Te encontro lá. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A montagem e edição de som são do Pedro Pastoriz. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decoe.