Ana Suy desmontou o ideal da família perfeita. E remontou a família que existe.
Em episódio gravado ao vivo na 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), a psicanalista e escritora Ana Suy conversa com Vera Iaconelli sobre memória, família e os silêncios que atravessam gerações. Ao revisitar a história dos pais, o divórcio, a maternidade e sua infância entre diferentes culturas, ela mostra como crescer também é transformar as histórias que contamos sobre quem nos criou.
*Ouça “O berro do boi”, novo podcast da Trovão Mídia com a revista piaui. Uma investigação sobre a impressionante história de Wesley e Joesley Batista, donos de uma das maiores empresas de alimento do mundo.
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- Origens do JapãoCultura japonesa tradicional · Casamento com estrangeiro (gaijin) · Silêncio e resolução familiar · Nome Ana Sui
- Separação e relacionamentos com filhosIdentificação com a mãe · Assunção de responsabilidade pelas irmãs · Recalque infantil
- Impacto da maternidade na identidadeDesejo de ser mãe · Conciliação carreira-família · Valorização do cuidado doméstico · Culpa materna
- Amadurecimento precoce e balé clássicoAutonomia e responsabilidade · Disciplina do balé · Viagens e independência
- Autoconhecimento e Saúde MentalAcesso à análise · Teoria vs. prática psicanalítica · Desconstrução e reconstrução do eu
Trovão Mídia. Antes de começar o episódio de hoje, eu chamei o Zé Orenstein da Trovão Mídia para falar rapidinho do Berro do Boi, podcast que eles lançaram na semana passada com a Revista Piauí, né, Zé?
Oi, Vera, pois é. Obrigado por abrir esse espaço aqui. É uma série sobre uma interessantíssima família brasileira, os Batista, em especial sobre os irmãos Wesley e Joesley Batista.
Eu ouvi o primeiro episódio, nossa, tinha esquecido de como eles foram o centro daquele escândalo lá da época do Temer e de como eles são poderosos, né?
Muito! Eles são os maiores produtores de proteína animal do mundo e têm muita influência política, não só no Brasil. Hoje saiu o segundo episódio e ele tá especialmente interessante. Depois você escuta, porque o episódio conta como tudo isso começou. A Consuelo Diegues, que é a repórter da Piauí, que narra o podcast, foi lá para o interior de Goiás e teve umas boas surpresas na busca da história da família Batista.
Ah é? Eu tô super curiosa.
Então, ó, fica o convite para você e para os nossos queridos ouvintes. Depois de terminar o Isso Não É Uma Sessão de Análise, ouça O Berro do Boi. A gente deixou o link aqui na descrição do episódio de hoje.
Oi, eu sou a Velha Connelly e isso não é uma sessão de análise, um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. Aqui a gente fala de famílias, no plural, porque elas são muitas, diversas e sempre interessadas nas suas particularidades. Hoje a gente grava, isso não é uma sessão de análise ao vivo, estamos na 24ª Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, na Casa da Cultura, com uma bela plateia e com apoio da Tag Livros, clube de assinatura para quem gosta não só de ler mas de conversar sobre livros e de se sentir parte de uma comunidade de leitores.
A minha convidada de hoje é a psicanalista e escritora best-seller Ana Sui, a filha da Dolores e do Jorge, a irmã da Isabel, da Marina e do Lucas, a companheira do Gabriel e a mãe da Milena e Yumi. Bem-vinda, Ana! É um mega prazer ter você aqui, um privilégio.
Obrigada, Vera, eu estou profundamente honrada. Eu fiz alguma coisa de certo na vida em algum momento, então muito obrigada. É uma honra enorme ser convidada para esse podcast do qual eu sou ouvinte e conversar contigo, rainha, né?
Para mim é assim, ainda mais sendo Ao vivo, acho que tem um... Queria te agradecer por você estar aqui comigo, dividindo esse perrengue comigo. E eu vou fazer, então, a pergunta clássica: qual a sua referência de família, pensando na sua história?
Então, pensei nisso 200 milhões de vezes já, mas vou confiar na associação livre, embora isso não seja uma sessão de análise. A minha referência de família é uma referência onde eu não sei dizer se o respeito é maior do que o amor ou se respeito é amor. Eu venho de uma família onde meu pai e minha mãe se separaram quando eu tinha 14 e minha irmã tinha 8, minha irmã mais nova tinha 6 anos de idade e eles fizeram a família seguir, embora separados.
Então cada um seguiu sua vida. Depois meu pai se casou de novo, teve o Lucas de um novo relacionamento e essa é a referência de família, uma referência de pessoas que vão constantemente recalculando a rota da aproximação e do afastamento, mas seguem juntos.
Como é que foi? Porque separação às vezes pode ser um... Ela é sempre, em alguma medida, traumática, no sentido de um excesso para ser elaborado. E também não era o programado, porque nós não casamos para nos separar. Como é que foi para você? Como é que foi para a família? Como é que se administrou essa experiência?
Foi e é uma coisa a ser administrada, porque acho que nós nunca... Nunca é muita coisa também, mas a história segue reverberando e cada acontecimento toca e faz vir a outra, e faz vir a outra, e faz vir a outra. Então, a história hoje, para mim, do que aconteceu lá, tem a ver com uma coisa muito dura, muito difícil, a separação dos pais, daquela família idealizada, a perda disso é uma coisa dura. Mas, ao mesmo tempo, acho que foi um grande alívio, porque quando duas pessoas não funcionam mais como um casal, não funcionam bem mais como um casal, quando se sustenta isso, não tem outro efeito possível senão o de alívio, de liberdade, de luto.
E o luto trabalhado e elaborado desemboca em campos bonitos, em lugares bonitos.
Sim, mas você fala isso agora, mas você aos 14, como é que foi? Foi experiência para você lá atrás? Como é que você viveu isso?
Aos 14 anos, eu achava que eu não tinha nada a ver com aquilo. Não tinha mesmo, não é?
Você já achava, não é?
Não tinha mesmo. Não, mas eu achava que eu não tinha nada a ver com aquilo sem perceber o quanto eu achava que eu tinha a ver com aquilo. Então, muito mais a ordem do recalque, assim. Acho que hoje, de fato, eu sei que eu não tinha nada a ver com aquilo. Mas, naquela época, eu fiquei muito misturada, aos 14 anos de idade, profundamente identificada com a minha mãe, Meu pai é um, é até hoje um pai, um homem muito amoroso, muito presente.
Então acho que, acho que não me lembro de ter muitas referências na escola de colegas ainda de pais se separando. Então foi uma coisa estranha assim, porque parecia que aquilo, eu não tava esperando que aquilo fosse acontecer.
Embora a família não tava sacando o que ia acontecer, eles chegaram um dia e contaram que separando ou já tinham?
Não, não, foi uma separação bem construída. Não que foi, não que a separação foi boa, foi muito, muito ruim a forma como aconteceu. Podia ser bem pior, né? Tem histórias por aí. Então assim, foi muito ruim para na minha história, né? Eu olhando de fora eu falo, nossa, foi ótimo. Mas ali de onde eu tava vivendo foi muito ruim, no sentido de muito difícil, muito sofrimento envolvido. E eu ali muito identificada, também escutava muitas coisas.
O que me fazia eu me separar ali um pouco mais tinha a ver com a posição de responsabilidade que eu assumi diante das minhas irmãs. Então, até hoje, eu fico achando que elas sabem de toda a história, que elas lembram de todas as coisas, de como é que foi tudo. E aí, às vezes, a gente conversa, elas falam: Quê?
Hã?
Hein?
Hã?
É verdade, você tinha 6 anos de idade, falo para a minha irmã menor, claro que você não lembra como foi que aconteceu. Mas eu assumi esse lugar de quem ia assumir o rojão, segurar o rojão ali para elas e dizer, está tudo certo, nós vamos ficar bem, está tudo bem, está tudo bem, está tudo bem. Mas, na verdade, era para mim que eu estava fazendo isso, não era para elas.
Eu acho interessante como nós às vezes não nos damos conta de que o mesmo acontecimento em diferentes cidades, pode ser vivido de uma forma tão diferente entre vocês, irmãs. E aí, quando você fala assim, eu achava que tinha tudo a ver comigo e não tinha, ou que tinha, porque quando nós somos muito pequenininhos, como nós nos achamos o centro do universo, tudo o que os pais fazem ou deixam de fazer, nós supomos que foi a nossa responsabilidade, até porque nós nos achamos mesmo tão importantes.
E talvez, aos 14, você já estivesse menos importante nesse sentido, de se achar que você pudesse ter sido a causadora. Às vezes, uma criança pequena pode achar que ela foi a causadora de um divórcio dos pais, que é um jeito de se enfiar no Édipo ali, mas você já sacava que não tinha a ver com você, mas, ao mesmo tempo, por ser mais velha, você assumiu um certo lugar de adultinha. Você acha que isso te antecipou aí um amadurecimento? Você foi ser a filha exemplar? O que você acha que você... Fez com isso?
Eu acho que, antes disso, eu já assumi um amadurecimento, não sei se precoce, mas eu me— às vezes eu fico achando que eu inventei essas histórias, até assim. Eu me lembro de andar de ônibus por Curitiba com 9, 10 anos de idade, e aí eu falo, não, gente, não é possível. Eu pergunto para minha mãe, ela fala, não, não foi antes. Não foi antes disso. Foi, então, assim, muito cedo. Tudo bem que eram, de fato, outros tempos, as coisas aconteciam de outra maneira, Mas eu sempre me senti assim muito confiável.
Então, não necessariamente confiante, mas muito confiável. Eu sempre senti que minha mãe e meu pai confiaram em mim absolutamente, confiavam muito em mim, e isso me levava a fazer jus. Então eu fiz poucas cagadas na vida assim, não fiz grandes coisas escondido, porque eu sentia que assim, né, eu tinha que preservar essa confiança. E, junto com isso, uma coisa que fez parte da minha história de uma forma bastante importante foi que eu fiz balé clássico durante minha infância e minha adolescência, uma boa parte.
E o balé é um negócio que toma muito. Eu fazia balé clássico no Teatro Guaíra, lá em Curitiba. Então, assim, era todos os dias, muitas horas por dia. Então, de manhã eu ia para a escola, depois ficava muito, um tempão. E aí, final de semana, festival, viagem e tudo mais. Então, eu ficava muito dedicada, assim, a esse universo. Então, eu viajava, comecei a viajar criança, já sem meus pais, muito cedo. E aí eu tinha que me maquiar, tinha que fazer o coque, tinha que cuidar das finanças lá para eu ficar, sei lá, 5 dias, 7 dias viajando, quanto é que ia ser isso.
E isso foi uma coisa muito orgânica, era muito espontâneo dar conta dessas coisas todas. E eu acho que quando chegou ali nesse momento da separação e tudo mais, eu já achava que realmente A minha vida é outra, eu não tinha nada a ver com isso, mas eu fiquei muito perturbada mesmo, acho que por identificação com a minha mãe. A minha mãe ficou muito mal, muito triste, foi muito difícil para ela, sobretudo, e isso me pegou bastante, ver uma mulher sofrendo daquela forma, por uma dor de amor, com as filhas ali, isso que ela não foi abandonada, meu pai não foi embora e nunca mais voltou, não foi comprar cigarro, nunca mais voltou, nada.
Muito pelo contrário, foi uma separação dolorida para eles. Eu escutava um e escutava outro, vi os dois, eles não romperam, mas por isso que eu digo que a ideia de família que eu tenho é onde o respeito é a maior coisa. Aquilo tinha que acontecer, tinha que ser feito daquela forma, e eles seguem se amando ainda hoje de uma outra forma, através das filhas também, mas conversam, nunca aconteceu uma história de, ah, teu pai vai, tua mãe vai. Tem que ir, não tem que ir, não. Eles são pessoas absolutamente civilizadas.
Mas aí você se identificou mais com o sofrimento da sua mãe do que com o sofrimento do seu pai. Isso estabeleceu uma diferença nas relações? Mais intimidade, mais proximidade, de raiva dele? Porque é difícil a criança não ficar numa certa torcida entre os dois, mesmo que depois mude, quem era o vilão na primeira versão vira... A vítima na outra, e, às vezes, até o fim da vida, nós fazemos um jogo onde nós vamos recontando essa história, os personagens vão mudando de posição.
Você sente que... Sim, eu criei, acho que uma ficção, construí ali, interpretei como sendo um fracasso da minha mãe enquanto mulher, uma coisa horrorosa, enfim, mas é assim que acontece, no sentido de que, puro suco, do patriarcado, né, da gente achar que as mulheres precisam dar conta de alguma coisa e então os homens vão ficar e vão nos amar porque a gente é assim, se não for assim ele vai embora, coisa nesse sentido. Então acho que eu não falava isso para ela, né, pelo menos isso, mas inconscientemente estava muito marcado para mim assim, né.
Então uma mulher é aquela que cuida da carreira, que não sei o quê lá das quantas, né. Então essa história inclusive de maternidade, de desejar ter um filho e tudo mais, não era uma coisa que me pegava muito assim, porque fiquei muito interessada em como é que ia ser para ganhar vida, para sair de casa, para sair para trabalhar, que era a maneira como eles colocavam ali na vida, né? Meu pai é quem saía para trabalhar e minha mãe se dedicava a cuidar das filhas.
Então, ela, a minha mãe, ela estudou, ela fez uma, aliás, ela vem de uma família de japoneses, os meus avós maternos, ó, ato falho, mas a mãe e o pai dela vieram do Japão ali, sei lá, uns 10, 11, 12 anos de idade, e se encontraram, se conheceram no Brasil, e é que eles tiveram 8 filhos. E desses 8 filhos, tinha um imperativo muito de fechamento da colônia japonesa. Então, a ideia era que todo mundo se casasse com japonês, que ficasse por ali mesmo, por ali na raça mesmo, por ali fechado, no país ali, né, nas referências, e não era bem-vindo, não era uma prioridade que as mulheres estudassem.
Então, a mãe, a minha mãe, a irmã mais velha dela, que é minha madrinha, a tia Cida, foi a pioneira disso. Ela era filha mais velha, ela decidiu que ela queria estudar e ela foi engambelando o pai dela, né, para dizer, não, vamos, vou só, vou viajar ali, vou fazer sei lá o quê. E eu sei que, no fim das contas, ela conseguiu, ali, conversando com o pai dela, fazer com que ele fizesse a mudança dela, de fato, para uma cidade maior, que ela se inscrevesse no vestibular, passou, foi estudar odontologia e tudo.
E ela abriu porteira, e aí, com isso, a minha mãe já foi alguém que saiu do interior de São Paulo. Não, é depois, na época eles moravam já no interior do Paraná. E ela foi estudar. Então, ela estudou, ela fez uma graduação, ela é fisioterapeuta de graduação. Mas ela nunca se encontrou, de fato, na carreira. E ela teve filhos, ela encontrou meu pai e engravidou de mim, ela tinha 24 anos de idade, e acho que a maternidade foi uma coisa que a puxou bastante.
Então, quando eu tinha... Ainda que ela demorou para engravidar de novo, no sentido de que não teve dois filhos em seguida, ela foi ter a minha irmã 6 anos depois e a outra 8. Mas hoje, pensando retroativamente, só na minha cabeça infantil, maluca, de achar que uma mulher vai ter 3 filhos e ainda vai cuidar da carreira, vai... É claro que existem mulheres que dão conta disso, mas que existam mulheres que deem conta disso é muito diferente de todas as mulheres precisam necessariamente dar conta disso.
Então, ela ficou bastante dedicada ali ao cuidado com as filhas, e meu pai é quem saía, trabalhava, voltava, ganhava dinheiro, nananã, essas coisas estavam postas ali. Então, tinha essa diferença bastante marcada ali, que, na interpretação que eu fiz do porquê o casamento não funcionou, E era uma família muito amada pelas minhas amigas. A gente tem noção, às vezes, muito pelo olhar do outro também, né, do que que a gente tá vivendo.
E eu me lembro de ter algumas amigas, algumas várias amigas, minha casa era bastante movimentada de amigas, e elas iam e elas amavam ir lá em casa, né, e diziam, nossa, sua família é a melhor família do mundo. Aí eu acreditava e falava, nossa, é verdade, a melhor família do mundo, é muito legal.
Porque não é a sua, né, sempre esse jogo, né, da família Sim.
E aí, quando a coisa se rompeu, eu perdi o ideal de melhor família do mundo, de família, achava que ia ser aquilo para sempre, e perdi também o ideal diante do que eu entendia que era uma mulher, do que— Acho que eu comecei a me tornar muito solidária à minha mãe, ao mesmo tempo, porque identificada ali com o sofrimento dela, sofrendo bastante junto, de vê-la naquela condição, mas ao mesmo tempo muito exigente também com ela, inconscientemente, como eu falei, nunca falei isso para ela, mas pensava, né, eu não, ah não, eu não vou passar por isso, na minha vez isso não vai acontecer, vai ser muito diferente, né.
E depois, inclusive, isso foi uma coisa que me deu um certo trabalho para acessar o desejo de ser mãe, porque eu pensava que só tinha um jeito que é difícil ser mãe, que a maternidade é essa coisa que vai te dominar, vai te engolir, você nunca mais vai conseguir voltar, né?
Então, mas eu gosto dessa coisa de pensar na gente aos 14 como mulher, 13, 14 anos, que é quando você ainda acha que nada vai acontecer, quer que tudo aconteça com você, acha que vai acontecer, mas desconfia que pode ser que não, né? Que você nunca vai se sustentar, que você nunca vai casar, que você nunca vai ter filhos, você nunca vai ser desejada ou por uma mulher, enfim, mas tudo está em suspenso como promessa e desejo, mas nada está garantido.
Então, você tem os teus pais ali, eles são uma espécie de norte. E, para uma menina, essa mãe pode ser, bom, essa mulher tem um homem que ama ela, com quem ela teve filhos, e esse cara, esse pai, que eu também amo. Então, essa configuração, eu queria O que eu quero dizer é o seguinte: muitas vezes as pessoas se divorciam e ficam muito preocupadas com o efeito nos filhos, mas o efeito nos filhos tem a ver com os filhos, tem a ver com como eles estão elaborando as fantasias deles em relação a se tornarem adultos.
Então, para mim, me toca muito você dizer: puts, aí você olhava para essa mãe, uma mãe um pouco degradada, porque, afinal, esse cara, que é uma figura importantíssima para você, o seu pai, ou ela não ama mais ele, quer dizer, dá um tilt na cabeça, mas é da própria ideia do adolescente em relação ao futuro. Imediatamente você responde, você fala, puts, eu prometi que comigo seria diferente. Só que é uma promessa que fica como uma sombra, quem garante?
As figuras mais importantes não fizeram, você vai poder ultrapassá-los? Tudo isso está em jogo na adolescência, que eu acho que é um pouco diferente do que acontece da com os adultos, separação com a criança pequena. A criança pequena já pode viver uma experiência de desamparo de outro tipo, mais da sobrevivência, mais do... Porque está em jogo mesmo, aos 14 anos, que mulher eu serei, o quão desejável eu serei. Isso é muito significativo. Como é que é essa história com as irmãs?
Essas histórias de...
De ter assumido, porque você se arvorou num certo lugar de mais velha e... Não quer dizer que elas aceitaram. Como é que elas se posicionaram em relação a você? Elas te procuram? Você virou a irmãzona mãe? Que lugar você tem para elas, ou teve nessa ocasião?
Desde antes, já, quando elas nasceram. Quando eu era filha única ainda, era uma coisa que eu fazia um pedido, eu queria ter um— não sei se eu pedia um irmãozinho ou uma irmãzinha, ou se tanto fazia, mas eu queria ter uma companhia, meio que isso. Queria um duplo, né? E aí, quando aí chegou a minha primeira irmã, que é Isabel Marié, você lembra do nascimento dela?
Você já tinha?
Eu tinha 6 anos. Eu lembro, mas aí me confunde porque eu não sei o que que é uma e o que que é outra quando eu lembro. Então eu tenho uma misturéba na minha cabeça, nunca sei. Eu nunca sei o que que é uma, o que que é outra. Misturo, pergunto para as duas. Minha mãe mistura também muito das duas, porque elas têm uma diferença pequena de idade, elas têm 1 ano e 9 meses de diferença. Então quando eu queria um duplo para mim, e aí nasceu a Isabel Mariê, em seguida nasceu a Marina Emy, e aí todo mundo achava que elas eram gêmeas.
A minha mãe as vestia igual, até vestia igual, porque elas tinha que vestir igual, era aquela coisa muito, muito próxima a idade. Então elas tinham uma disputa muito fraterna ali, né? Dessa história do quem é que tem mais, quem é que tem menos, né? Então a minha mãe colocava as coisas muito parecidas ali todas para elas. E aí as pessoas olhavam na rua e perguntavam, vocês são gêmeas? Eu tinha um ódio. Eu tinha um ódio.
Por quê?
Porque eu ficava de fora.
Ah, que fofo!
Eu queria um duplo para mim. E aí ela fez as duas ali que são as duplas.
Elas já vieram duplas e nem faz par com você.
Ninguém a gente mira no amor, é acertar na solidão. Fiquei ali sozinha, tinha uma raiva com isso. Mas aí eu rivalizava com a minha mãe, então eu pensava, não, mas eu vou cuidar melhor, né? Eu vou cuidar bem. Então fiz o duplo ali perturbado, o duplo neurótico com mamãe.
É muito interessante que a Marcela Ceribelli, quando ela veio, ela contou que ela é gêmea do irmão e que quando ela nasceu aconteceu, os dois tinham um tate-bitate que falava uma língua própria entre eles. E a mãe ficou muito enciumada, a Renata Cerbelli ficou de fora. O Edipo funciona sempre, né? Tem sempre um trio, né? O número do demo ali e alguém que sente de fora tentando entrar de algum jeito. E ao mesmo tempo as duas disputando entre elas o tempo todo também, né?
Sim, sim, porque é um inferno, né? Você ficar sendo ameaçado pelo outro ali, né? E tudo E aí, ao mesmo tempo, assim, eu tinha uma relação muito amorosa com as duas, porque elas de fato me adotaram assim como alguém que pudesse cuidar delas.
Minhas filhinhas, uma mão na roda, né?
Para mim era uma mão na roda, elas eram minhas filhinhas assim, né? Então eu tinha uma linguagem própria, nomes próprios que eu chamava poesia, que eu falava, né, uma espécie de paródia que eu invento, essas coisas que a gente inventa falar com filho. Eu tinha ali pequenininha com cada uma das minhas irmãs, uma para cada uma, né? Então eu me sentia muito restabelecida amorosamente ali por elas, mas enquanto irmã eu ficava ali com aquela coisa, tipo, não foi isso que eu pedi, tá?
Não foi isso que eu pedi, elas não são objetinhos ali feitos para mim. E segue assim, na verdade, elas são... Depois, quando o Lucas nasceu, que é filho do meu pai com a segunda esposa dele, já foi muito diferente, porque quando o Lucas nasceu eu tinha 17 anos de idade, Além deles, eu saí de casa cedo também. Eu morei com a minha mãe até os 17 anos de idade e eu saí cedo. Então, eu já tinha saído da casa até da minha mãe. A casa do meu pai era um lugar mais de visita do que já era antes.
Então, eu tive pouco contato com o Lucas pequeno. Minhas irmãs, que ficavam lá mais tempo, tiveram mais contato com ele. E eu acho que hoje eu tenho uma— eu vou criando uma relação melhor com ele enquanto adulto. Inclusive, não é melhor porque não existia muita coisa assim, né? Então não fui essa mãe, esse paterno assim.
Eu adoro essa história de irmão e acho tão interessante como a gente, as minhas filhas quando pequenas, elas disputavam, a mais velha disputava muito, a menor adorava a maior, mas a maior tinha muitos ciúmes e disputava, enfim. E eu achava, eu falava, vocês não podem se bater, não podem fazer nada, né, que não pode fazer com o outro, mas vocês têm que se respeitar. Vocês não se amar, mas você respeitar. Então, enfim. E elas foram até uma hora que elas viraram as melhores amigas.
Olha que inversão! Elas viraram as melhores amigas. E aí agora a mais velha, eu peguei ela chamando a mais nova de bebê. E aí eu falei, ai, o bebê! Ela falou, você não pode chamar ela de bebê. Então ela falou, ela pode chamar a irmã mais nova de bebê, mas eu não posso. Então é engraçado que agora ela assumiu um lugar que ela não assumiu quando elas eram, quando ela era pequena, quando as duas eram pequenas. É interessante que alguma coisa vai virando, né?
Você fala desse irmão que você não teve convívio e, de repente, essa relação, quer dizer, sempre tem uma esperança em algum momento de poder conectar, irmãos que talvez não tivessem sentido tanta coisa juntos, né?
Sim, sim, sim, porque faz muita diferença esse convívio, né? Esse cotidiano, essa rotina, todo dia ali, né? Você tem tem a ver com isso. Isso é muito formador dos nossos laços, a gente precisar lidar com o revés da pessoa também.
Como é que elas lidam com essa suposta ascendência hoje? Porque são todas adultas, enfim. Você com suas irmãs, como é que é? Você tem alguma ascendência? Elas te ligam para pedir conselho, querem saber sua opinião ou tipo não?
Pouco.
Pouco, tá.
É meio, eu acho que assim, do jeito que a minha mãe funcionou para mim, que é alguém também de quem eu pouquíssimo demando, eu mais quero dizer, tá tudo bem, tá tudo bem, tá tudo bem, tá? Elas, eu acho que elas também assumem um pouco essa posição assim. De vez em quando tem umas coisas bem pontuais assim que aparecem, mas pouco. É mais assim, olha, fiz isso, fiz isso, deu certo isso, passa mais por aí.
É porque eu tive, como a minha irmã mais velha, ela tem 11 anos mais do que eu e ela tinha muita ascendência sobre mim, eu tive uma adolescência com ela. Teve um momento, aos meus 30, que eu dei uma rompida com essa ascendência que ela tinha sobre mim. Engraçado, né? Porque também essas relações vão ficando anacrônicas. Uma coisa funciona numa época, não funciona na outra, né?
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Me conta como é que essa família então você fala de uma família de ascendência japonesa fechada para o país de origem, quer dizer tentando preservar uma uma cultura. Cultura. Não é assim que acontece nas gerações seguintes, vai se abrindo, vai a língua e os casamentos e as escolhas. Essa sua tia Cida, que já tem um nome de aparecida, curioso, é essa tia aqui que faz uma coisa bárbara, que ela vai forçando o lugar do estudo de um jeito muito feminino, né, sem o embate direto.
Você vê como desejo realiza, né? Como é que essa experiência de comigo vai ser diferente, eu me viro, só vou contar as coisas boas, perrengues ficam comigo mesma. Como é que isso desemboca no que você vive como família hoje, a família que você construiu?
Então é só voltando ali no negócio do fechamento, que eu esqueci de chegar nisso, porque tinha essa ideia então, né, de que todo mundo tinha que casar com japonês. E aí a minha mãe engravidou sem casar de um gaidinho.
Ah, tem esse detalhe.
É, o gaidinho é o pejorativo do estrangeiro, né, que era outra pessoa de fora, né. E para ela também isso foi muito difícil assim, né, essa coisa.
A minha mãe e meu pai engravidou fora do casamento. Sim, tô processando isso daí.
Eles estavam numa família tradicional Numa família tradicional, ela saiu para estudar e engravidou.
O pai tem razão, tem que estudar, menina não tem que estudar fora e ficar em casa, é isso? Confirmou o pavor paterno.
De fato, foi isso que aconteceu. Só que assim, ela engravidou do meu pai e eles estavam, e eles eram muito perdidos na vida, perdidos assim no sentido de pé rapado mesmo. Então, não tinham lugar para morar, meu pai tinha Ele estudava psicologia na época.
Seu pai?
Aham. E aí, acho que ele estava terminando psicologia quando minha mãe engravidou de mim. E ela estava no meio do curso de fisioterapia. E ele não tinha emprego. E aí estava procurando para lá e para cá. E minha mãe morrendo de vergonha de pedir ajuda para os pais dela. E aí, nesse meio tempo, essa minha tia, que é uma irmã mais velha, que é a irmã mais velha que minha mãe ama muito, a tia Cida, que tinha uma vida estabelecida, que estudou e que casou com japonês, que tinha uma carreira, tinha uma casa e tudo mais, falou, vem para cá. E aí a minha mãe foi para lá, ficou por um tempo lá e por isso—
Foi um escândalo? Foi um escândalo na família? Foi uma crise?
Cara, eu acho que nas famílias japonesas não tem muito escândalo.
Eu, como é a referência de família italiana, De muita gritaria?
Não, assim, silêncio, né? É silêncio, se resolve, a gente resolve aqui, silêncio.
Sim, mas então como é que esse seu avô, sua avó demonstrariam a mesma indignação ou chateação ou frustração ou decepção que a minha família italiana demonstraria? Como seria isso? Não demonstrou, mas fica onde isso?
Supõe-se. Então eu tinha uma ideia assim, né, muito atravessada depois, né, por tantas outras culturas, né, porque meu pai é aquela mistureba europeia, né, então um pouco de italiano, um pouco de português, um pouco de francês, completamente uma mistureba. E aí eu então, né, que tenho metade, que 50% do sangue japonês Embora minha mãe nasceu no Brasil, mas os pais dela nasceram no Japão, e 50% aqui da minha história é europeia, eu achava que, quando minha mãe e meu pai contavam essa história, que ela tinha sido expulsa de casa, que ela tinha querido voltar e não tinha conseguido, que tinham deixado ela na Rua da Amargura.
E eu achava muito estranho, porque meu nome, Ana Sui, ele vem de uma homenagem que minha mãe faz para a mãe dela, Porque muita gente acha que Su é sobrenome, mas Su é meu nome, meu segundo nome. E a minha batshu, que é como chamamos avó em japonês, a minha batshu chamava-se Sueko, que significa— não sei se significa isso, gente, desculpem aí. É o que ela dizia e o que eu acreditei.
É isso que interessa.
É isso que interessa. Foi com isso que eu me organizei aqui, que eu me desorganizei também. Que se chama, que significa a última das filhas. Então ela era a filha mais nova e ela chamava Sueko. Quando ela veio do Japão para o Brasil, o escrivão entendeu que era um nome muito masculino e que precisava dar uma feminizada, uma feminilizada. E aí falou, não, não, é Sui então. E aí de algum lugar veio o Y depois, porque em alguns documentos tem Sue, Suy, Suy, mas a maior parte tá Suy de fato já.
Mas o meu pai me dizia que quando ele, na época em que eu tava, a gente é uma confusão, né, a nossa história, o mosaico que a gente vai fazer de quem a gente acredita, né, porque tem muitas versões diferentes, eu vou escolhendo a que mais me agrada, né. E aí uma das versões, né, que que meu pai dá, não é muito confiável, tá? Mas eu gosto.
Mas qual que foi que te impactou mais? Aquela que você escolheu, pelo menos, né?
Eu gosto dessa, que ele disse que ele tava estudando, ele tava fazendo um curso de escrita poética, um curso de escrita, e ele descobriu que existia uma coisa chamada licença poética. E ele falou, ah, então vou mudar de Suê para Sui, com Y. Mas não é tão verdade, porque tem documento da minha batuca que tá Sui com Y já, né? Ou seja, tem então um negócio da escrita ali no meio. E aí eles decidiram assim, então Ana vai ser a escolha do nome, o nome que o meu pai que escolheu, né?
E aí tem a referência bíblica e sei lá mais quem que ele conheceu na vida que chamava Ana e tudo mais. E o Sui era então uma homenagem da minha mãe para mãe dela. E aí quando eu comecei a fazer análise, que eu tinha acho que uns 18, 19 anos de idade, eu comecei a ficar muito incomodada com essa história, porque eu falei, mas Pensei, que desgraça, que deixaram ela na Rua da Amargura e ela ainda colocou o nome da mãe dela ali, né?
E aí eu comecei a perguntar para ela isso, mas como assim? Que tipo de homenagem? Por que que você foi em homenagem à tua mãe? Você não tava puta com ela, né? E aí ela foi me contando assim que na verdade nada disso aconteceu, assim do tipo, ela não, provavelmente ela nem pediu ajuda, ela ficou tão envergonhada do que, de ter engravidado e tudo mais, que E nada aconteceu. E aí essa tia se ofereceu para recebê-la. E aí a gente foi para lá.
E aí enquanto meu pai procurava um trabalho, por isso eu nasci em Brasília, inclusive. E aí quando eu tinha 10 dias, 2 semanas de vida, coisa assim, e aí meu pai recebeu uma proposta de trabalho porque ele tinha sido um dos melhores alunos ou o melhor aluno da turma de psicologia. E na época ganhava um, não sei se estou falando verdade, gente, Mas essa é a história. Mas na época havia uma possibilidade de contratação no Detran.
E aí ele tinha sido contratado, então ele ia ter um emprego, e aí assim começaram. E aí ele foi então até— é uma história muito bizarra, porque daí eles foram, ele foi até Brasília para buscar nós duas. E aí a gente foi de ônibus de Brasília até— ah, não, teve um meio do caminho aí, uns 3 meses meio do caminho, que eles foram para Joinvilha antes, que aí é É a família do meu pai que mora lá. Depois, nós fomos para Curitiba e alugamos um apartamento, e aí começa a vidinha familiar por ali.
Que interessante, porque aí também é uma referência ao nome dessa avó, que é a última filha, e você foi a primeira, ainda vieram duas, que demoraram para chegar. Interessante essa... Eu estou muito parada na história de como as famílias reagem as decepções, né? Porque às vezes eu não sei por quê, mas eu fiquei impactada com esse silêncio. Porque se grita com você, você fala, bom, uma hora essa pessoa vai cansar de gritar, isso vai acabar, vai dar tudo certo no final.
Mas se a pessoa não fala nada, as suas fantasias vão a mil, né? E é muito difícil, são culturas muito diferentes e muito interessantes os efeitos desse não dizer nada e pensar tudo e deixar para o outro se responsabilizar. Você fica muito mais tomado pelo que você fez, porque não fica na conta do outro, na raiva do outro. O que você fez com essa história?
Então, eu escrevi, né? Eu escrevo e falo, mas assim, eu também, a minha mãe é muito silenciosa, muito silenciosa no sentido de contar histórias, um monte de coisa eu vou perguntar para ela, Aí, para tudo ela fala, pergunta para tua tia, pergunta para o teu pai. Então, ela se autoriza, ela confia pouco nas coisas que ela tem a dizer assim, as coisas, ela não é uma pessoa de contar história. Meu pai, por outro lado, né, o meu pai é o homem das letras, das artes, psicanalista, leitor, foi com ele que eu conheci a poesia, por ele que entravam os livros dentro de casa, por ele que o significante de psicanálise também chega para mim, né?
Falo significante psicanálise porque às vezes as pessoas falam, ai, teu pai é psicanalista? Nossa, então aprendeu Freud no café da manhã, né? E não, né? Absolutamente não. Nunca falei de psicanálise e nem escutava meu pai falar de psicanálise quando eu era criança, mas eu tinha essa referência de um livro dentro de casa, né? Tava, tenho, ele tem até hoje livros do Freud que tem uns rabiscos meus ali, umas garatujas que fazia muito pequenininha e que conta história e que conversa e que brinca, né?
Então meu pai sempre trouxe essa coisa toda, cheio de vida, né? Super vivo, e que fazia rir. E que, né? E a minha mãe sempre muito cuidando do corpo, dos corpos das filhas, assim, no seguinte sentido: costurando para gente, aí penteia, aí ela costurava as nossas roupas, ela arrumava não sei o quê. Arrumava a casa, fazia cortina, fazia colcha, fazia... Então, ali costurando, ela é uma artesã divina, então, fazendo crochê, tricô, bordando, sempre na arte manual dela, ali silenciosa, e meu pai que ia e voltava e trazia essas coisas.
E aí eu me identifiquei muito com esse mundo do meu pai, que era me parecia tão mais caro, sobretudo quando, depois que eles se separaram. Antes, eu até aprendi a bordar, fazia uns pontos cruz ainda quando eu era adolescente, eu lembro que eu fazia umas coisinhas do balé para mim, mas eu acho que depois desse rompimento deles, dessa separação do casamento deles, eu me afastei muito dessas coisas que eram o mundo da minha mãe, que a interessavam, e eu fui E eu fui escrever.
E aí, de fato, eu escrevia muito, escrevia diário muito, escrevia cartas muito, escrevia... Eu queria ser... Eu lia Atrevida, Capricho, aquelas revistas de adolescente que hoje a gente olha e fala, meu Deus, que horror! Mas foi uma coisa que foi muito próxima para mim. Então, eu escrevia testes, sabe? Para Capricho, para Atrevida, escrevia colunas que não fazia nada com isso, né? Então, eu fiquei lá no meu mundinho fazendo essas coisas e no contato com amigas também.
Sempre fui uma pessoa bastante interessada no mundo das amigas, dos amigos, mas mais das meninas, das amigas. E fui crescendo assim. E aí, depois, meu pai e minha mãe se conheceram na graduação, faculdades diferentes, mas na graduação. Mas eu também conheci meu marido na graduação. Então, eu, felizmente ou infelizmente, o encontrei bastante cedo na minha vida. E a gente tá junto há quase 20 anos e é alguém assim que é um parceirão assim, que vem também de uma família onde pai e mãe estão separados há muito tempo.
Então acho que o nosso ideal de ficar juntos nunca necessariamente passou por até que a morte nos separe, né?
É muito mais vamos vendo aqui o que a gente tá fazendo e O que facilita muito, porque, já que não estava garantido nem quando a ideia era até que a morte os separe, nunca está garantido, o fato de você não apostar no cavalo errado e poder bancar que cada dia vai ter que construir isso, pelo menos não fica uma desgraceira quando separa, porque, quando você põe na longevidade do casamento, que é uma coisa totalmente estável, uma coisa que vai te dizer quem você é, aí essa destruição, que às vezes nem é porque o homem foi embora, no caso da sua mãe, é porque ele ficou nesse lugar de um fiador.
Eu digo isso porque meu primeiro casamento foi assim também, ele era o fiador, e quando ele vai embora fica muito pesado, né? Eu fiquei pensando enquanto você falava dessa mãe como eu subestimei em algum momento todas essas coisas domésticas. Eu achava execráveis, porque elas para mim significavam o lugar da mulherzinha, da mulher que fica em casa e o marido sai, tem outra família e sei lá o quê. E ela ficar lá até o dia que ele dá o pé na bunda dela e acabou.
E hoje eu me arrependo muito, hoje eu vejo que isso era um— está tudo errado, porque tem algo dessas mulheres que sabem fazer coisas muito lindas, que tem que ser supervalorizado, que é o cuidado doméstico, e que é totalmente ideológico nós não valorizarmos isso. Então, quando você fala da sua mãe, eu me lembro também como para mim foi importante reconhecer isso que essas mães faziam, que eu não sei cozinhar, cozinhar, eu não sei costurar, eu não sei...
Minha mãe riscava o tecido e saía um vestido dali, que ela ia numa festa, entendeu? Ela fazia pijamas para nós, ela fazia roupa, cozinhava maravilhosamente bem. E eu considerava, eu, no alto dos meus 17 anos, eu considerava isso aí uma coisa de mulherzinha. Então, hoje eu quero ser mulherzinha, mas agora eu já perdi o bonde para algumas coisas. Mas é muito interessante, porque a tua história tem essa questão da menina olhar para uma mãe parece uma figura degradada, mas é por ideologia, né?
Porque a gente degradou as competências de uma mulher, né? Então acho muito importante você trazer essa mãe de um outro lugar, já mais madura, e pensar, puxa, ela tinha coisas ali muito importantes que talvez nem a gente fosse capaz de valorizar naquela época, né?
Total. E cada vez mais assim, eu acho a minha mulher, a minha mulher, amei.
É uma figura bárbara, né?
Porque eu acho a minha mãe uma baita de uma mulher, né? Uma baita mulher, é minha mulher, né? Meu duplo ali primeiro, primeiro registro de duplo, né? Porque isso que antes eu achava, ai, né, ela fica ali fazendo uma coisa, me parecia muito substituível assim, sabe? Tipo, você pode comprar uma roupa Por que fazer, né? Ai, é mais barato, né? Vai fazer contas, né, de saber se fazia sentido ela ir trabalhar fora de casa ou ela ficar cuidando dos filhos, né, cuidando das filhas e cuidando da casa.
E não fazia sentido, né, nas contas ali, de fato, ela ir sair de casa. Ainda assim, eu achava que ela tinha que ir, que ela tinha que, que ela tinha que, né, os ideais ali muito postos assim em torno do que era valorizado, né? Então valorizado é a pessoa que sai para trabalhar e traz dinheiro para dentro de casa, né? Isso que, isso que tá na conta. E aí eu acho que assim, dois caminhos sobretudo me levam a rever essa história.
Um primeiro é através da minha própria análise, né, onde eu vou, a gente vai desmontando ali aos poucos o pai, desmontando a mãe, e depois vai remontando, né? E quanto tempo a gente leva na vida Vou falar aqui no divã porque a minha experiência é— não sei se eu chegaria nisso sem a psicanálise, eu acho que não, mas não duvido que outras pessoas possam fazer isso com a vida, apenas seguindo a vida, né? Mas quanto tempo de análise, de divã, até a gente se dar conta tantas vezes que a mãe é ora ora uma mulher, apenas mais um ser humano neste mundo.
Mundo para o qual você nasceu, e você é só mais uma pessoa na vida dela, né? Não é? Então acho que tinha essa posição narcísica infantil muito decepcionada, porque como assim eu não salvei minha mãe, né? Eu não fiz com que ela pudesse fazer todas as coisas por mim. E aí assim, se a mãe fica em casa é um problema, porque, ó, abandonou a vida para ficar cuidando de casa. Se a mãe sai de casa é um problema, que fala, nossa, abandonou os filhos, saiu de casa, né?
Então assim, a história, a questão da culpa da mãe não tá localizado no se foi ou se fica. A questão é culpa é da mãe, né? Tá marcado ali, não importa o que ela faça, ela sempre vai estar ali. E a questão é essa também, né? Ela vai estar ali, ela tava ali, né? Então mãe é essa pessoa que tantas e tantas vezes, nos melhores casos, ela tá ali.
É, mas eu adorei essa história. Se a gente for pensar aqui dentro dessa uma estrutura tão rígida, não pode estudar, tem que casar com japonês e tal, tal, tal, tal, tal, ela vai lá, engravida de um goi...
Gaijin.
Gaijin, chamei de goi, porque eu já estou pensando... De um gaijin, e... Veja, aí já é minha família. E assume isso, quer dizer, ela faz uma puta transgressão, essa que não fala nada, pergunta para o outro, tal, tal, tal, Vou ficar aqui costurando. Ela dá um baile na família toda e realiza o desejo dela, já com filho, para dizer, não vai dar para separar a gente. Ela, qualquer coisa que pudesse, é muito lindo. E ela escolhe um homem que fala pelos cotovelos, escreve, enfim, que se manifesta através da linguagem, talvez até um ego auxiliar aí, ó, fala com ele, fala com outro. É muito linda a história dessa mãe, muito legal.
E ela abriu caminho daí, né? Claro, como toda transgressão. Ela abre caminho. Então ela foi— caramba, será que é isso? Eu tenho quase certeza que ela foi a única das filhas que se casou com e teve filhos com brasileiro. E depois a minha geração de primos, que tem lá umas, uma pá de gente, mais de 10, 20, 30, não sei, ninguém ficou com japonês. Abriu a porteira, é muita gente abriu a porteira, passou uma baita de uma boiada assim. Porque é uma gaidinzada daí.
Não, até porque, como é que você vive num país tão atravessado por outras culturas carregando uma cultura que não fala nada? Quer dizer, é difícil, você fica até com menos ferramentas para lidar com os outros brasileiros que vêm de outros backgrounds, né? Assim, é muito interessante como é difícil você preservar uma cultura tão fechada num ambiente que é todo diferente disso, né?
E foi assim também, não é que, ai, não podia, e aí fez, e aí rompeu. Não, não aconteceu nada disso. Não podia, eu não sei nem se dizia que não podia, inclusive, ou se isso é o imperativo superegoico posto ali dela, das mulheres, né? Mas depois, quando eu nasci, meu pai sempre foi muito bem-vindo ali na família, eu fui muito bem-vinda, tudo funcionou assim, né? As coisas andaram bem, foram, fomos muito bem recebidos, assim.
Genial.
Aí, o segundo elemento que eu falei, é um elemento, né, que do que eu fiz com isso foi acho que pela via da psicanálise. E o segundo eu esqueci, foi pela— lembrei, foi pela— o recalcado não foi tão forte assim, eu ganhei. Foi pela via da identificação com meu pai, né. Então, quando eu fui fazer psicologia ali, quando eu tinha com a grande sabedoria dos meus 17 anos de idade, quando a gente entra na faculdade, eu achava que a psicologia era só um chute como outros.
E aí eu pensei em psicologia, direito, publicidade, jornalismo, um monte de coisa por essa via. Aí eu falei, psicologia por quê? Psicologia porque, sei lá, meio que fiz um unidunitê, desconsiderando completamente o inconsciente. E aí, na faculdade, faculdade é que eu fui encontrar com alguma coisa de teoria psicanalítica, que era uma coisa muito esquisita para mim. Eu tive, na faculdade eu tive a sorte de não me apaixonar muito rápido e eu fui uma aluna de psicologia muito feliz.
Então eu adorava tudo em psicologia, adorava TCC, adorava comportamental, adorava psicologia junguiana, adorava sistêmica, tudo. Eu falava, nossa, arrasou, é isso, maravilhoso, é isso que faz muito sentido, porque tem sentido, né? Faz muito sentido, e isso, a coisa do sentido me interessava, e psicanálise é um negócio que eu não conseguia prestar atenção. Então, a professora de psicanálise começava a falar, meu Deus, está acabando a aula, e nem tinha internet na época.
Vale dizer que era isso, eu com os meus pensamentos. Nem tinha internet na época, eu pensava, não, hoje eu vou prestar atenção, e aí não conseguia. E aí eu comecei, nesse unidunita inconsciente, eu fui pedir análise, fui pedir a minha recomendação de analista para uma professora de psicanálise ora ora. E aí, adivinhe se ela não me recomendou uma analista, né? Então comecei a fazer análise, mas para mim uma coisa não tinha nada a ver com a outra.
Então eu falava, quando eu vou falar de análise, eu vou para análise, a analista não fica falando essas coisas de falo complexo de Édipo, sei lá o quê, né? Ela é uma pessoa que conversa e que escuta o que eu tô falando, enfim. E agora a teoria era outra coisa, né? Então eu achava que era uma coisa muito diferente da outra. E aí, quando eu entendi, teve um momento, eu me lembro assim, no corpo, assim, a marca no corpo. Eu tava no 8º período do curso de psicologia, a gente tinha uma disciplina que começava a fazer um tipo de estudo de caso clínico, assim.
A gente tava estudando um filme que se chamava Gente Como a Gente e fazendo uma conversa com a psicanálise a respeito disso. E eu me lembro no instante que eu entendi que a teoria era prática. Prática, e que a prática era teoria. Aquele momento eu tive um vislumbre assim de que eu pensei, eu não vou conseguir me livrar disso mais, agora vai ter que ser isso.
Nossa, que lindo! Porque essa ideia de como é que a gente faz para dar uma volta gigantesca e se separar do desejo dos pais, e se separar a ponto até de poder reconhecer que talvez seja o mesmo, que nunca é o mesmo porque é o tem o nosso, mas que seja na mesma área de interesse, né? Então, e às vezes você tem que dar essa, fazer esse baita mecanismo de negação, não me pertence, não é isso, mas daí você tá, é teu, né? Se afastar para poder recuperar como sendo seu, né?
Total. Quando eu tava na graduação de psicologia, eu tinha pavor de ser reconhecida como a filha do Cesarino. Meu pai se chama Jorge Cesarino, né? Hoje eu falo, mas é assim uma coisa desesperadora, falava Deus que me livre! Então eu já era uma moça inibida, bastante fechada, e ainda mais porque, né, o horror era o momento que o professor olhava e falava, Ana, você é filha de Cesarina? Ai, gente, que saco! Então eu tentava passar transparente ali, não me vejam, não estou aqui, não falem comigo, só me estudar quieta aqui, não quero saber de nada.
E aí, quando eu encontrei isso com a psicanálise, esse negócio que eu falei, e aí sigo até hoje, junto com isso foi me despertando um desejo de comunicar algo disso. Então eu fiquei, aí eu começava a querer dividir, eu quero falar disso que eu aprendi, eu acho que dá para escrever sobre isso de um jeito ou outro. E aí eu comecei um outro capítulo na minha vida assim, que foi então esse que eu tô interessada em fazer isso sair de algum jeito, pela escrita, pela fala. E assim, assim segue, né?
E o seu pai chegou a virar o: ai, você que é o pai da Ana Sui?
Ah, então agora é isso, né?
E aí, como é que ele, como é que ele lida com isso?
Ele acha o máximo. Ele acha o máximo, se diverte, acha super legal. E aí, porque essa aqui é a brincadeira, né, que a gente faz. Antes eu era, ai, essa filha é a Cesarina. E agora, vai, você que é o pai da Ana Sui? Se engrandece todo, fala assim.
Você conseguiu botar seu nome em primeiro lugar, né? É interessante.
Eu acho que inclusive tem a ver com o fato de que eu não uso meu sobrenome por aí, né? Então tá lá nas academias e tudo mais, né? Então estão lá meus sobrenomes. O do meu pai e o do meu marido. Mas eu gosto muito de que assim as palavras Ana Sui sejam suficientes para me apresentar.
Que bonito isso, porque você fala de como esse nome faz questão, o Sui, que era Suico, Sueco, que ao chegar aqui já perde alguma coisa, né? Que tem uma migração, sempre se perde algo, marca um certo lugar, é recuperado. Seu pai dá uma transformada, marca alguma coisa nesse nome. Quer dizer, tem toda a história da tua família de alguma forma nesse nome, né? Que lindo!
Falei um negócio errado, que eu falei que eram 3 vias que estavam me— que me faziam rever a história com a minha mãe, né? E aí eu falei que a segunda tinha a ver com a identificação com meu pai. Não é errado, mas não era isso que eu ia dizer. Foi que eu esqueci, eu lembrei, eu lembrei errado. Mas serve, tudo isso serve, tá? Mas o que eu ia dizer, esqueci de novo. Ah, lembrei! Agora é isso mesmo que eu ia dizer, que é a maternidade, né?
Porque aí depois, quando minha filha nasceu, eu sou o clichêzão daquela que quando nasce a filha fala, meu Deus, a minha mãe é maravilhosa! Rainha maravilhosa, dona. Nunca falei mal, nunca arrasou, sempre coberta de razão.
De telhado, se era pedra, né? Se era pedra e vira telhado, né?
Total, porque maravilhosa. Então, tanto assim, tanto a mãe da minha infância se tornou mais maravilhosa do mundo quanto a mãe da atualidade, porque tem, a gente vê, né, Eu ia falar na clínica, mas nem precisa da clínica, só prestar atenção na vida, né? O quão difícil para muitas mulheres é se tornarem avós, é se tornarem mães de uma mulher que também é mãe, né? E a minha mãe, ela foi e é linda, maravilhosa. Assim, como muito rápido eu me senti autorizada por ela a ser mãe, e muito rápido me senti autorizada por ela a continuar sendo mulher e continuar fazendo as minhas coisas sem jamais dizer como é que eu devia fazer, sem jamais dizer que eu tenho que acertar com ela como ela ou errar diferente, sei lá o quê. Absolutamente longe desses lugares.
Bom, por caminhos insondáveis que eu vou levar para minha análise, a sua mãe me emociona muito. Eu acho ela incrível, ela no silêncio dela. Bom, e agora você me faz uma pergunta. Agora é hora que a gente inverte esse microfone e você pergunta o que você quiser e eu saio correndo.
Vera, se você pudesse escolher alguém— as pessoas perguntam muito para você sobre maternidade, né? Eu vou perguntar por essa via, mas ao contrário. Se você pudesse escolher alguém para ser sua filha, como seria essa filha?
Oi pessoal, tô gravando isso depois da Flip. A minha resposta para a Nasui Você ouve no próximo episódio, o episódio que sai na quinta-feira.
Até lá!
Esse foi o podcast Isso Não É Uma Sessão de Análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.
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