[BÔNUS] Taís Araújo pergunta à Vera: é possível não racializar a psicanálise no Brasil?
A psicanálise pode ser universal em um país marcado pelo racismo?
Neste episódio bônus, a atriz Taís Araújo pergunta a Vera Iaconelli se é possível pensar a clínica sem considerar a raça. A conversa passa pelos limites da teoria e pela experiência brasileira recente.
Ouça a íntegra da conversa entre Taís e Vera no episódio anterior a este.
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
- Psicologia e PsicanálisePsicanálise decolonial · Cotas raciais · Perifanálise · Acesso à psicanálise
Oi, eu sou a Vera Iaconelli e esse é o Pergunta à Vera. Um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia. Aqui eu respondo a uma pergunta qualquer feita pelo convidado da semana, que dessa vez foi a atriz Thaís Araújo. A conversa completa que eu tive com ela já tá no ar. Saiu na última terça-feira, ouve lá. Vamos lá pra pergunta da Thaís.
Então, isso é uma questão grande minha com a minha família, meus filhos, todo mundo. Meus pais não fizeram análise, eu e o Lázaro a gente faz há muitos anos, meus filhos já fazem há anos também, os dois. É possível num país como o Brasil você não racializar na psicanálise?
Eu não sei o que você tá chamando de racializar, mas eu acho que é porque a gente tá no Brasil que a psicanálise tá ficando cada vez mais à altura do tempo dela, que é uma frase do Lacan. A psicanálise tem que estar à altura do seu tempo, ou seja, ela tem que estar com as discussões que valem a pena, né? A psicanálise hoje no Brasil é uma, não sei se das únicas, talvez eu me atreva a dizer que é uma das únicas que tem pensado as questões raciais, de classe, de gênero e de território.
A partir de Lélia González, a partir de grandes pensadores do Fanon aqui, a partir de psicanalistas que estão lendo Bebel Books, que estão lendo todas essas, essas, Virgínia Bicudo, a gente tem várias, várias autoras e autores brasileiros importantes que os psicanalistas brasileiros estão estudando e estão pensando o que que é um psicanalista negro. Quantos psicanalistas negros você conhece? Quantos são professores de instituições?
Quantos negros têm acesso à psicanálise como pacientes? Essa é uma discussão Brasil, essa discussão não existe na Europa, essa discussão não existe no Norte Global. Então, hoje, a psicanálise mais relevante que tá sendo produzida é aqui no Brasil. Hoje a gente tem psicanalistas negros na universidade, nas instituições, atendendo. A gente tem, as instituições criaram programas de inserção, né, de optantes, né, que são os bolsistas, por questões raciais, PCD, pessoas trans e formando uma geração inteira.
A gente tem a perifanálise, por exemplo, a gente tem analistas na periferia que vêm estudar nos centros para levar a psicanálise para periferia e não para atender no centro, né? Então a gente tem, nossa, eu sou muito orgulhosa da psicanálise hoje no Brasil, ela tá lá na frente e tá discutindo exatamente quem pode atender, quem pode ser atendido, como faz isso. Ela só esbarra numa coisa, Thaís, que eu acho que a gente tem que sempre falar quando fala disso, que é psicanálise é trabalho artesanal, demorado, dispendioso, mesmo que ela seja com honorários baixos.
Leva muitos anos, dá muito trabalho, nunca vai ser uma coisa de fábrica em grande produção. E a psicanálise não vai ser essa coisa, não vai, pela natureza do processo. É um processo que mexe na estrutura do sujeito, né? Então tem outros trabalhos psis que são um pouco mais rápidos, mas psicanálise ela é demorada mesmo. Nesse sentido, ela é um pouco proibitiva. Você precisa de tempo, anos, enfim. Mas o acesso ao discurso psicanalítico, ao conhecimento psicanalítico, ele tá se fazendo, ele tá se fazendo e eu tô muito, muito orgulhosa.
E já começou, é uma psicanálise muito mais decolonial que discute, porque quem vai ler? Tem que ler Lacan, tem que ler Freud, tem que ler, mas a gente vai ter que fazer a nossa bossa nova, tem que ter os eruditos, mas a gente tem que ter a nossa erudição aqui do nosso território, entendeu? Então hoje eu me orgulho da psicanálise brasileira. Eu não me orgulho de todas as psicanálises que estão sendo feitas no mundo, mas é sim, esse é o projeto da minha vida, né? Esse é o projeto da minha vida.
Ai, que bom! Eu tô falando isso porque assim, eu tive uma analista, primeira analista que eu tive, quando eu falei com ela da questão racial, a resposta que eu tive dela foi assim: isso é coisa da sua cabeça.
E se o Dinha Batista ouviu isso? Ela fala, às vezes eu me sinto vigiada nos lugares onde só branco entra. E ela conta isso, a Egidinha Batista, uma grande psicanalista brasileira. E ela vira e fala assim, a analista me falou que eu era paranoica.
Pois é, aí a minha orientadora na faculdade chama Sandra Almada, é uma mulher negra, e ela tava me orientando a fazer o meu TCC. E aí eu contei isso para ela, ela falou para mim, foge, foge agora.
Sim.
E aí ela começou a falar comigo, ó, os psicanalistas, eles são brancos, são, eles não têm essa vivência. Isso eu tô falando mais de 20 anos atrás, tá? Eles não têm essa vivência. Então eles realmente— e 20 anos atrás a discussão, como você falou, adiantou muito, né?
Adiantou muito. Por quê? Porque as cotas nas universidades permitiram que uma legião de pessoas negras tivesse acesso ao ensino superior. Como é que eles iam chegar na psicanálise se não tinham nem o ensino superior? Mal faziam ensino médio. Então precisou desse movimento e isso trouxe uma legião de uma molecada com sangue no olho assim e sem vergonha do território, que não quer virar as costas pra periferia, quer falar a linguagem da periferia, quer falar tá ligado junto com francês, entendeu?
Isso tudo é novo mesmo, é muito promissor. E é isso mesmo, foge se você vir que a pessoa não te escuta. E pode ser qualquer coisa, pode ser um homem que não escuta uma queixa de gênero, pode ser uma pessoa que não ouve alguém de outro território, pode ser, tem várias formas de não escutar o outro, né?
Sim.
Mas uma das no Brasil mais forte é racial, né?
E aí eu fui, mudei de, e fui para um que tô com ele até hoje, tô com ele há 18 anos, sei lá. É um homem, um homem branco, mas eu lembro que eu perguntei pra ele, já leu esse livro tal? Era um livro que falava uma coisa de... um livro bem controverso. E ele falava, claro que não, né? Eu como psicanalista, eu não acredito nem nesse título. Eu não posso ler isso aí, isso pra mim não existe. E aí eu entendi, eu falei, bom, então eu acho que eu tô no local certo com o cara certo, sabe?
Eu acho que é legal, porque assim, você vai ter... tem psicanalistas negros no Brasil que só se descobriram negros recentemente. Sim. Também não é a cor de pele que vai fazer você se reconhecer negro, né? Quer dizer, tem algo de reconhecer uma posição social, né? Um lugar na situação social. Então, e tem analistas brancos que conseguem escutar, e tem, você tem de tudo. É claro que a pessoa que tem uma experiência com a negritude trabalhou isso, já andou um tanto de letramento, de conhecimento, que o branco encastelado não vai, né? Jamais.
É, não, eu, um homem branco Assim, tô há muitos anos ali, né? Mas é um estudioso, é um cara muito interessante assim, e com uma visão de Brasil muito, muito crua, que faz com que a gente tenha discussões e fale muito abertamente de tudo. Mas eu entendo que, sei lá, fico pensando, ah, se um dia eu fizer uma análise com uma mulher negra, como seria, né? Como seria esse olhar?
Tem várias para te indicar.
Mas eu sou muito, você é Marcos, eu tenho uma coisa, eu pego ele.
Não, vocês estão bem Também, time bom não se mexe.
Eu sou apegada a eles.
Time bom não se mexe.
São muitos anos.
Não precisa ser, mas hoje é importante a gente saber que tem muitas analistas negras.
Mas não é que eu não considere, não. Eu até fico pensando, Thalia, muitas vezes, ai, preguiça de mudar, né?
Mas não precisa, porque se ele te escuta, não importa se ela é negra, se ela é mulher, se ela é branca, se é branco, não importa.
Ai, mas eu teria uma outra experiência.
Pode ser, pode ser.
Experimentar, né? De para onde vai essa discussão, para onde iria essa discussão de quem se é, né? A mulher que eu sou no país que eu vivo.
Então, mas a escuta analítica, ela tem um detalhe que é assim: ela tem que sair do acontecimento, do fenômeno, entender como você se virou com ele. Porque não existem duas mulheres negras no Brasil que se viram com racismo da mesma forma. Não. Então, só entender essa, como você na tua singularidade única, Thaís, se virou com o fenômeno. E o analista tem que conhecer a fundo o fenômeno, mas você ele não conhece, ele só conhece escutando ali em tempo real.
Então tem esse jogo, esse paradoxo assim, né? Então uma analista negra, ela não necessariamente vai te ouvir, ela pode conhecer mais o fenômeno, mas tem alguma coisa que ela fez de um jeito e você fez de outro. E se ela ficar muito entendidinha do que você fez, na verdade ela tá falando dela, você entendeu? Claro que a identificação, você entendeu? Ah, então nós mulheres brancas, não, me desculpa, você é uma mulher, você outra, as mulheres negras, nós brasileiros, não.
Tem uma estranheza que é importante ter, que é a forma única com a qual você lidou com o fenômeno.
Mas o fenômeno tem que ser conhecido, né?
Muito.
Acho que esse era o problema da psicanálise, o fenômeno, não é que ele não era conhecido, ele era ignorado.
Negado. Ah, tá, isso que eu acho. Obrigada. Delícia, obrigada. Obrigada pela tua pergunta maravilhosa.
Imagina, obrigada a você.