Na casa da Taís Araújo, mulher não depende de homem.
A atriz Taís Araújo conversa com Vera Iaconelli sobre a família em que cresceu, o casamento de mais de duas décadas com Lázaro Ramos, a maternidade, o envelhecimento e os valores que moldaram sua maneira de amar, criar os filhos e ocupar o mundo. Entre lembranças da infância e reflexões sobre o presente, ela revisita as histórias que herdou e aquelas que escolheu escrever por conta própria.
*Ouça também o novo podcast da Trovão Mídia com a revista piauí: “O Berro do Boi”. Os bastidores da queda e a ascensão de Wesley e Joesley Batista. https://open.spotify.com/show/033TlPif7FYTdHBGAczNUw?
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- Avô circense e tradições familiaresO papel das mães e avós · A figura da avó Maria · Pais se conhecendo em velório · Educação e formação dos pais · Irmãos e a criação conjunta
- Maternidade e Filhos AdultosImpacto do nascimento da filha e auto-observação · Conversas sobre menstruação e fisiologia · A dificuldade de não ser extensão dos filhos · O poder e o risco de abuso na maternidade
- Separação e relacionamentos com filhosManutenção da relação por questões econômicas · Mantra 'não dependa de homem' · Contradição entre independência e casamento virgem · Divórcio celebrado em família
- Infância de GisèleNascimento prematuro e sustos da mãe · Mudança para o Meyer e infância · Relação com o pai e atividades de fim de semana · Trabalho desde cedo como modelo
- Carreira artística de PedroDesejo de ser diplomata · Início precoce no trabalho como modelo · Formação em Jornalismo e atuação · Apoio dos pais e a importância do diploma · Oportunidade de dizer não no meio artístico
- Influência de figuras paternaisApoio paterno nos estudos · Atividades de fim de semana e companhia · Superação do alcoolismo e tabagismo · Papéis familiares
- Produção de PodcastsA história de José e seus irmãos · Escândalo e retorno ao poder
Trovão Mídia. Oi, eu sou a Véria Conelli e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. A cada episódio, uma pessoa topa me contar sobre um tema muito íntimo. Família. E ela me conta de onde veio e reflete sobre como essa referência familiar tem se transformado com o tempo. É um assunto particular, mas que diz respeito a todos nós. Porque é a partir da diversidade, da complexidade e da beleza das histórias de família contadas aqui que quem ouve se reconhece e tem a oportunidade de olhar para a própria história.
Hoje eu recebo a atriz Thaís Araújo, a filha da Mercedes e do Ademir, a irmã da Cláudia, a esposa do Lázaro, a mãe do João Vicente e da Maria Antônia. Oi pessoal, antes de começar o episódio eu queria contar para vocês que os meus parceiros aqui da Trovão Mídia lançaram hoje um podcast que tá incrível, chama O Berro do Boi. É mais uma parceria deles com a Revista Piauí, assim como foi no podcast Alexandre. A Consuelo Diegues, repórter da Piauí, é quem narra O Berro do Boi, que vocês vão ver não deixa de ser uma bela história de família. Eu convidei ela aqui pra contar rapidinho qual que é o babado.
Oi, Vero, obrigada pelo espaço. A gente lançou hoje o podcast O Berro do Boi, que conta a história dos irmãos Wesley e Joesley Batista. Não sei se todo mundo lembra deles. O Joesley foi o personagem central naquele escândalo do tem que manter isso aí, viu? Então, depois de quase derrubar o presidente da República, confessarem inúmeros atos corruptos, terem sido presos, xingados na rua, Wesley e Joesley estão de volta e eles estão mais ricos e poderosos do que nunca.
Eu conto os bastidores de como isso aconteceu no Berro do Boi. Fica o meu convite para você ouvir na sua plataforma preferida de podcasts. Tem o link na descrição.
Bem-vinda, Thaís.
Obrigada, Vera.
Prazer ter você aqui comigo, uma honra, eu diria. E eu quero começar com a nossa pergunta meio que todo mundo sabe, que é: qual que é a sua referência de família? Qual que é a sua história que se tornou a sua referência?
Bom, primeiro dizer que a alegria toda é minha de estar aqui, que eu sou uma ouvinte do seu podcast, adoro. Eu adoro, acho interessante como a gente conhece as pessoas que são públicas através da origem delas, né? A minha família, minha referência de família, ela é— eu não tenho como começar sem partir da minha avó, que eu não conheci. Olha que loucura! A minha avó morreu, a minha mãe tinha 17 anos. Minha avó morreu muito jovem, só que a minha mãe manteve a imagem, a figura da minha avó muito viva.
Então é como se eu tivesse convivido com a minha avó. Como se eu ainda convivesse com ela, assim. Minha avó materna, né, que era uma mulher muito à frente do seu tempo. Ela teve 5 filhos com um homem que nunca registrou nenhum deles. E chegou um momento que ela cansou, ela pegou todo mundo e foi embora. Ela morava na Zona Sul do Rio de Janeiro, foi embora pra Baixada Fluminense, pra Belford Roxo. Nunca mais quis saber desse homem.
E a minha mãe disse que teve uma filha que nasceu e morreu e ele não viu. E aí ela abandonou essa vida e foi construir uma outra vida com a família dela em Belford Roxo. É um lugar que eu conheço muito porque eu frequentei muito, que é um terreno, a minha imagem que tem é um terreno grande. Morava a minha tia-avó, que é a tia Ruth, já falecida também. O outro filho dessa minha tia Ruth chamava Paulo Robson, então morava Claudete e Paulo Robson.
E era um terreno grande lá, meio, ainda era meio roça, eu lembro. E aí muitas árvores, tinha uma casa de João de Barro que eu lembro numa árvore. Então tem memória desse ambiente ali em Belford Roxo, foi nesse terreno, nessa casa que minha avó se mudou com todo mundo. Minha prima ainda mora lá, a Claudete ainda mora lá com os filhos. E aí essa mulher que teve a minha mãe, e a minha mãe mantém essa figura muito viva Pra gente ainda.
Não há um dia na vida da minha mãe que ela não fale da minha avó. E imagina, minha mãe tem 78 anos. Então a falta dessa mãe também é muito presente nessa família. A falta e a presença também, muito, muito presente assim. Bom, aí meus pais, eles se conheceram no velório, no velório da avó do meu pai lá em Belford Roxo, porque eles eram As famílias eram vizinhas, eu acho que a avó da minha mãe era, sei lá, amiga dessa avó do meu pai que faleceu.
Eles se conheceram num velório. Se casaram muito jovens, com 20 e poucos anos. Se formaram depois de casados. A minha mãe me teve com 30 anos, eu sou meio temporão. A minha irmã já tinha quase 7 anos quando eu nasci. Estudaram depois de casados. Eu lembro da minha mãe prestando concurso. Minha mãe é pedagoga, meu pai é economista. Meu pai tem umas 3 faculdades assim, tudo de ciências contábeis, economia, é tudo, é um cara das exatas.
Eu lembro da mamãe terminar de estudar já casada, lembro dela prestando concurso pro estado, pedagoga e tal, e entrando e celebrando. Aí tem memória da gente rodando prova no mimiógrafo, aquele cheiro de álcool, aquele cheiro de álcool, aquele carbono em cima, ela fazia as... Ela fazia as provas à mão, a gente ajudava a rodar. Aí eu lembro que ela— essa época eu já morava no Meyer. Bom, deixa eu voltar da morte da minha avó. A minha avó morreu, então família muito pobre, os filhos foram cada um lá.
Eles eram pequenos? Porque a tua mãe tinha 17.
A minha mãe tinha 17, a minha tia mais velha tinha 18, a do Meyer tinha 12, o meu tio mais novo tinha 9.
Uma molecada. É.
Esse meu tio mais novo, que tinha 9, é de um outro casamento da minha avó com um homem muito mais novo do que ela. Então era uma mulher realmente pra frente. Essa minha avó, ela era parteira, ela era auxiliar de enfermagem. Então ela era uma super matriarca, sabe?
E fica uma coisa de figura da comunidade, né? Porque a parteira acaba sendo aquela mulher que circula entre as outras famílias, as outras mulheres.
Ela era totalmente, uma figura muito forte, muito, muito, uma mulher muito forte. É isso, ela é matriarca até hoje mesmo não estando aqui, né? E aí cada um foi morar com um familiar. O meu tio tinha o pai que tava vivo, então ficou com a família do pai dele. E quando a minha mãe casou, minha mãe casou com 20 anos, 21, logo depois, ela botou todos os irmãos na casa.
Uau!
E para terminar de criar. E teu pai? Absorveu. A família do meu pai é hoje em dia muito a família da minha mãe.
Escuta, mas pensa assim, né?
Recém-casada.
É, filho, o pai dela é um cara que não botou o nome nos irmãos. Aí ela escolhe um cara que não só acaba de casar com ela jovem, né, assume esses cunhados. Olha que bacana, né, que ela não repete a história, ela faz uma história completamente diferente.
A minha tia mais velha era mais livre assim, mas depois acabou indo, engravidou e acabou indo para casa da mamãe. A minha tia mais nova, a minha mãe botou na casa dela, terminou de criar. O meu tio ficou com o pai até adolescência, depois ele foi para casa da minha mãe também. E aí acabou que eles terminaram de criar os irmãos dela.
Aí você nasce, eles estão ainda lá?
Não, não.
Aí a Cláudia conviveu com eles?
Com a minha tia Solange, sim. É, minha tia, quando minha irmã nasceu, a minha tia ainda morava lá com a mamãe e meu tio Silvinho também. Aí isso, a gente morava em Pilares. Quando eu nasci, a gente morava em Pilares, que é um lugar na Zona Norte do Rio de Janeiro, mas eu nasci numa maternidade em Caxias, na Baixada Fluminense, porque eu nasci de 7 meses. Então eu nasci, a minha irmã tinha nascido na Baixada, e a minha mãe começou a sentir dores e o médico dela tava de plantão lá, e ela foi pra lá, e eu acabei nascendo lá.
É, eu nasci de 7 meses num susto. E eu digo que eu nasci porque minha mãe, fumante, fumou a gestação inteira. E uma semana antes de eu nascer, ela foi pegar um jacaré, grávida de 7 meses, se afogou. E ela diz que mergulhou e falou pra minha irmã assim, ó: olha aqui, ó, o mergulho que a mamãe vai dar, o jacaré que a mamãe vai pegar. E ela disse que quando ela levantou, ela falou: viu? Ela tava no meio da praia e as pessoas estavam pequenininhas.
Ela falou: tava muito longe. Porque as pessoas estavam pequenininhas. E ela foi salva por um surfista, botou ela na prancha e levou ela de volta pra praia. Uau!
Gravidíssima, de 7 meses.
Anos 70, né? Fumava. E eu falo que eu falo, mãe, eu me salvei, né? Eu bati e falei assim, acabou, você vai parar de fumar, eu não vou ficar fumando com você aqui dentro, entendeu? E você para de querer pegar onda com 7 meses, tô achando um pouco de irresponsabilidade. E aí eu resolvi sair. Eu faço essa brincadeira com ela, ela fala, essa brincadeira sua é ridícula. Eu falo, mãe, mas parece, né? Real. E aí, a gente morava em Pilares e tava minha tia e o meu tio.
Na verdade, quando eu nasci, a minha madrinha já tinha casado. A Solange é minha madrinha. E ela se casou e veio pra São Paulo, mas tinha acabado de casar. É, quando eu nasci. E aí, depois a gente se mudou pro Meyer. Pouco depois, eu tinha 2 anos. E o meu tio, lembro que morava com a gente. Meu tio mais novo morava com a gente. Meu tio engravidou uma namorada, que foi a esposa dele durante alguns anos, e ele queria ser músico.
Toca muito bem cavaquinho ali. E aí a minha mãe falou, não, não, você vai prestar um concurso e você vai casar. Você vai ter um filho agora, não dá para ficar numa vida dessa liberdade toda, porque acabou. Você vai ter que assumir essa responsabilidade. A família do pai dele já tinha alguns bombeiros e ele Prestou concurso e foi bombeira a vida inteira e se aposentou, mas hoje toca muito bem cavaquinho, mas é um bombeiro aposentado.
Então minha mãe é essa pessoa que ela foi resolvendo, minha mãe e meu pai, resolvendo e encaminhando.
Não, é uma figura.
A minha mãe é.
Porque o que ela faz é incrível. Você fala da sua avó, mas é uma mulher ultra gregária que junta a família, junta os irmãos, né? Assume uma posição incrível em relação aos irmãos. Ela é recém-casadinha, imagina.
E sem ter nada a ver com isso. Sim, porque poderia, né?
O cara que ela escolhe para ter filho, para assumir isso. Conta um pouquinho desse pai.
Cara, meu pai é um cara genial, assim, ele é divertidíssimo. Esse cara das exatas, você fala sempre que são dois mundos, né?
Humanas e exatas. Eu acho que entendo o que você tá falando, né? Total. A tua escolha de vida toda era desse pai de exatas.
O sonho dele, imagina, era que as filhas fossem engenheiras, porque ele tem uma médica e uma atriz. Coitado. E durante muito tempo, ele, a vida dele toda, ele foi escrivão de polícia quando era mais jovenzinho. Aí depois que ele se formou e tal, ele foi trabalhar numa empresa, numa empreiteira chamada Plarcom. Ele começou lá como office boy, ele terminou como diretor da empresa de vendas. Então a gente teve também uma ascensão social, uma mobilidade econômica grande.
E aí eu considero isso muito a partir da educação. Eles investiram muito na educação deles porque eu sempre vi meus pais, eu pequena, os dois estudando. Imagina, via minha irmã prestando pra concurso. Então, a educação era uma coisa que tava muito presente na nossa vida, na vida dos meus pais. E aí, ele, esse homem, né, eu lembro que trabalhava muito, muito, muito, muito. Então, não era tão presente ali no dia a dia da nossa lida da educação, educação do dia a dia.
Mas minha mãe também trabalhava, então acabava que a minha tia-avó ficava comigo, que é a minha tia Marlene. A minha primeira infância foi toda A mamãe saía, a gente morava em frente à estação do trem ali em Engenho de Dentro, a gente chamava de Membra, estação de Engenho de Dentro. E a mamãe saía muito de madrugada porque ela dava aula na Baixada. Então ela saía, pegava o trem, e aí eu lembro que eu via a hora, ficava esperando a hora dela chegar assim, porque a estação de trem era bem em frente.
Esperava ela chegar e minha tia voltava pro Irajá, que era o bairro onde minha tia morava. Então, meu pai é esse cara trabalhador pra caramba. Que confia na educação 100%, mas final de semana absolutamente presente, né? Os nossos, ele chegava tarde do trabalho. O meu final de semana com ele era lindo porque eu lembro que a gente tinha uma rotina. Eu levantava, meu pai primeiro, acho que ele queria muito que eu fosse um menino.
Então ele me pegava, levava para os jogos do Vasco, eu ia para jogo de futebol. Aí era assim, a Thaizinha come tudo, come olho de peixe, come aí, Thaizinha! Eu pegava o olho de peixe, tá vendo? Ele ia meio... Eu era meio assim, ah, ela é tudo que ele queria ter, sabe?
É legal você falar isso, porque assim, ele queria uma companhia.
É.
E a gente tem esse preconceito de achar que a companhia feminina pra algumas coisas não presta. E de repente...
Exatamente.
Super funciona, se a criança gostar daquelas coisas. Como, né, às vezes tem gente que o pai quer que um filho seja um filho, o cara não gosta de futebol, não gosta de comer...
Exatamente.
O que que é? O olho do peixe?
Olho de peixe. Vamos olhar, Thaizinha, come. Todo mundo, ai, que nojo. E eu, pá, comendo olho de peixe. Hoje em dia eu não como, eu acho que eu só comia realmente pra deixar meu pai quieto. Pelo amor ao pai. Feliz. É, e aí era tão bonita a memória que eu tenho da gente lá no Méier, que era assim: sábado a gente levantava, eu saía com ele, a gente passava num jornaleiro, comprava figurinha ou álbum de colorir assim, passava num galinheiro, escolhia a galinha.
Ai, que bárbaro!
Aí ele falava: quero escolher a galinha. Meu pai é esse cara da comida, né?
Ah, é?
Ah, assim, ele é o cara até hoje, é o cara exagerado da comida e quer fazer comida e quer servir comida, tudo dele em volta de comida. Escolhia galinha, ia para o barbeiro, aí ele ia cortar o cabelo, eu ficava no chão do barbeiro colando figurinha. Na volta ele pegava o pacote da galinha já pronta para cozinhar, ia para casa e fazia o almoço.
Escolhia galinha viva, o cara ia lá no galinheiro, matava ela ali. Entendi, mas assim, acho Acho importante reforçar, porque isso assim é realmente de outra geração, né?
Total.
Que o interior, ele tem uma coisa que fica um pouco mais atrás na geracional do que os centros urbanos, onde as novidades chegam muito rápido, né? Então você tá ali numa parte um pouco mais suburbana, você tem acesso a essas coisas que você não tem no centrão da cidade, que se perde, né?
Hoje eu nem sei se tem isso, tá? Mesmo ali no McDonald's, de entrar, escolher uma galinha, comprar a galinha.
Eu acho difícil, mas...
É, acho que não tem. Engraçado você falar isso, eu falo isso, o cheiro do galinheiro vem na minha cabeça na hora. Na hora, assim, é um cheiro horroroso, horroroso. Aí a gente comprava e ele voltava para casa. Ele sempre cozinhou, minha mãe não cozinha. Então quem fazia comida do final de semana era o meu pai, do almoço. E aí era uma coisa, era engraçado falar que ele comprava galinha, que minha mãe não come galinha, minha mãe não come frango, porque a minha avó, a minha avó era mãe de santo.
Então a minha mãe tem pavor a galinha, de ver aqueles rituais de sangrar galinha, pavor, pavor, pavor.
Ela come mesmo, come mesmo. E ele faz, agora que eu pensei, ele fazia galinha. O que que a mamãe comia? Não lembro, mas ele tinha umas coisas, comida assim, ó. Aí é filé à parmegiana, gente, a gente passava meses comendo filé à parmegiana no domingo que ele cismava que só fazia a mesma comida. Aí é temporada da lasanha, lasanha, lasanha, lasanha, lasanha, lasanha, o frango assado, frango assado, frango assado. Ai, vamos fazer um porco, vamos matar o porco. Olha, gente, matar o porco, que além de tudo é aventureiro, entendeu?
Ele comprou um porco e matou?
Ah, vamos lá, vamos comprar um porco, vamos não sei o quê. Porque meu pai fala, feijoada tem que ter, tudo tem que ter. Eu falo, não, pelo amor de Deus, a minha não. E ele gosta também de provocar a gente nesse lugar, de falar as coisas assim, feijoada tem que ter orelha, tudo, tudo que todo mundo se apavora.
Sim, mas é recente essa coisa da feijoada mais light, né? A minha infância sempre teve. Imagina feijoada que não tivesse todas as partes. Tinha gente que não gostava, mas é o que dá um gosto mesmo, né? É forte o sabor dessas partes. Mas hoje ele tem esse...
Essa graça. Sim, mas ele gosta, ele gosta, ele adora, adora, adora, adora. É uma figura. E ele é divertido, ele é contador de histórias, sabe? Ele é muito figura. Ele teve um problema sério com alcoolismo durante muito tempo. Era assim, ele ia e voltava. A mamãe disse que assim, cara, durante muito tempo falava, meu marido não bebe, porque ele ficou 18 anos sem beber. De repente ele voltou a beber. Aí eu tenho memórias da minha infância dele chegando, mas assim, sempre muito doce. É um cara que eu nunca ouvi o grito dele.
Ele nunca ficou violento alcoolizado?
Nem alcoolizado, nem sem alcoolizado. Ele é um cara doce. Pelo contrário, quando ele chegava alcoolizado, que a minha mãe brigava com ele, eu ficava morrendo de pena dele, porque eu via que ele tava absolutamente vulnerável, né? Então eu ficava chateada com a minha mãe. Hoje em dia eu penso, imagina essa mulher recebendo esse homem bêbado, sabe, em casa. E mas aí ele aconteceu uma coisa com ele ficou um tempo bebia mas eu vi coitado meu pai ele tomava uma cerveja ficar bêbado né que ele bebia muito ele não tinha tendência ao alcoolismo né porque uma das marcas do alcoolismo é pessoa beber muito e não cair ser a última cair né olha que você tá falando isso que eu brinco com ele hoje eu vou chegar nessa história que você falou porque que aconteceu ele bebeu muito tempo mas é isso muito doce muito amoroso muito muito muito mais um problema dentro de casa principalmente para minha mãe né é para a gente Era também, mas não era uma coisa que— eu acho que minha mãe sofria mais.
Eu sofria mais de ver minha mãe brigando com ele, né, por ele. Ficava com muita pena dele. Que hoje eu reconheço realmente que eu tinha que ter pena da minha mãe, sabe? Porque na verdade dos dois, né? Porque era uma doença. Enfim, cara, chegou um dia, eu lembro que ele falou assim— ele chegou e falou, ó, eu fui para o AA sozinho. Ele foi para o AA, era uma Copa do Mundo, era época de Copa do Mundo até. E ele foi sozinho e ele começou lá no AA.
Aí obviamente virou tesoureiro do AA, cuidava das finanças, das coisas do AA. Fez todos os passos, todo o processo e tal, não sei o quê, mas foi sozinho e ele parou de beber. E ele nunca mais bebeu. Eles fumavam muito, os dois, começaram a fumar com 14 anos. Aí papai teve um câncer, tirou, teve outro, tirou, parou de fumar. Eu falo, olha só, pai, vou te falar uma coisa, você não tem vício, você é sem-vergonha. Porque era para parar de beber, você parou, era para parar de fumar, você parou.
Óbvio que ele deve ter sofrido, né? Mas eu vejo a minha mãe, por exemplo, não consegue parar de fumar. Minha mãe não consegue, ela tenta, tenta, tenta, e para ela é difícil, ela não consegue. Para ele não.
Por isso que isso que você falou, né, que a pessoa não é uma tendência, é mais um hábito, por alguma Então, muito frequentemente as pessoas se tornam alcoólatras porque não têm acesso a medicação psiquiátrica, por exemplo, né? Muitos deprimidos se tornam alcoólatras porque é o remédio do pobre, é o álcool para tudo, né?
Para todos os males, né?
É o escape, né? Então, a ver, né, o que que tava em jogo aí. Mas é um cara que vai lá e resolve e assume, se responsabiliza pelas coisas dele, né?
Achei lindo ele sozinho, sabe? Ele foi sozinho.
Geralmente eles vão porque a família briga, a mulher fala isso, divórcio. Tô falando dos homens em geral, né? Mas tem algo, tem muita dignidade nesse gesto dele.
Ele foi sozinho, ele cumpriu todos os passos, mandava carta, enfim, tem todos os passos ali do A, que é super bonito, né? Ele é criado numa família, família batista, mas ele é ateu, ateu que já leu a Bíblia não sei quantas vezes. Ele é um grande estudioso, assim. Eu lembro que minha família muito humilde chamava ele de enciclopédia Barça. Gente, chegou a Barça, a Barça! Então é esse cara, inclusive no ar tem algo determinado, tem uma coisa religiosa, às vezes negócio de Deus.
Falei, pai, e aí, como é que você faz? Ele falou, eu cumpro, tô cumprindo, tem que cumprir, eu tô cumprindo. Mas é esse cara, você acha ele, cara, é um cara que se fez, se fez, se fez sozinho assim. A mãe dele é de origem austríaca, os pais vieram Fugidos da Primeira Guerra, não sei muito bem a história da minha avó. Eu conhecia minha avó paterna. Minha avó morreu, eu tinha 10 anos, eu lembro. O meu avô morreu, eu já tinha 18, um pouco mais até.
Meu avô também muito amoroso, minha avó um pouco menos amorosa. Eu tinha um pouco de ciúmes, a minha avó ficava mais com as minhas tias. Meu pai são duas meninas e um menino, né? Minha tia Santa, minha tia Vilma e o meu pai. Meu pai, o menino era chamado Mino. Ah, o Mino! É o Mino. Minha mãe queria morrer, né? Porque, ai, porque o Mino gosta assim, o Mino gosta assado. E minha mãe, filha daquela outra mulher, falava, o Mino gosta...
Então minha mãe era uma... As famílias não se davam muito bem, então não fui muito criada com a família do meu pai. Apesar de ter... Adoro as minhas tias, a gente convive muito pouco, mas eu gosto muito delas. Mas não é uma família que eu tenha tanta intimidade quanto a minha mãe. A família da minha mãe Os meus primos são criados como irmãos comigo. A gente é uma coisa só. É tanta intimidade, é tanta intimidade. Lembra quando eu morava em casa, Ano Novo, eles chegavam no dia 30 lá em casa e saíam no dia 3, sendo que no dia 2 eu já tinha viajado.
Eles continuavam lá, sabe? A intimidade demais. Mas eu gosto, é de onde eu vim. Então eu gosto dessa coisa que a gente realmente ultrapassa os limites, sabe?
Você com a Cláudia, vocês têm 7 anos de diferença. Então quando você conta dessas Memórias com seu pai, a Cláudia já tava meio grandinha. Ela não ia com vocês?
Não, já tava quase adolescente.
É, tinha uma, uma, ela com 5, ela tava com, os dois tiveram pais e mães únicos assim, um tanto, filhos únicos, um tanto, por causa dessa diferença.
Depois então que ela entrou na faculdade, que ela foi morar fora, que ela foi morar em Petrópolis, eu era sozinha.
Cara de prazer!
Nossa, ela ficava com ódio, ela não conseguiu, ela voltou, ela voltou de Petrópolis, que falava assim, ai, a gente hoje foi comer no Porcão, que era uma churrascaria, ela: sem mim, como é que vocês fazem isso sem mim? Ela ficava revoltada. E a minha relação com a minha irmã é uma relação muito bonita, assim, apesar da diferença de idade, óbvio. No início era péssimo porque eu era uma pirralha e eu queria estar com ela, e a minha mãe horrorosa falava assim: só vai se a sua irmã for.
Ai, é horrível isso, né? Isso detona. Eu também tinha que levar minha irmã mais nova e ficava com uma raiva, cara, que não precisava, né?
Não, a minha irmã odiava ter que andar comigo. Sim, 7 anos é bastante, né? É, e eu andava com ela o tempo inteiro. Engraçado que fazia muita diferença na infância, na adolescência, e hoje em dia não tem diferença, né?
Sim, sim, muito legal.
Não tem nenhuma diferença.
Com as minhas filhas foi assim também, elas têm uma diferença de 3 anos, mas eu tomei bastante cuidado de não obrigar ninguém a ficar com ninguém, nem de gostar. Falei, vocês têm que respeitar. Mas não precisa gostar. E hoje elas são— teve bastante ciúmes da mais velha e hoje elas são as melhores amigas. Deu ficar com ciúmes delas assim. Então uma chamou outra de bebê e eu não posso chamar de bebê porque é uma coisa entre elas assim.
Uma tem 29, a outra tem 26. A mais velha chama a menor de bebê e um dia eu fui chamar ela de bebê, ela falou, tá louca? Isso aqui é entre nós. Falei, gente, deu certo esse negócio de não forçar muito, uma hora a coisa foi ótima.
Ai, mas essa relação de irmão é isso, né, que você tá falando, não tem que gostar. Eu fico olhando você falando isso, falei, será que não tem que gostar? Eu queria muito que os meus filhos fossem amigos.
Mas não tem como você obrigar a gostar, não é da ordem do tem que, né? Tem que respeitar e tratar bem. Eu acho que eles vão acabar se gostando por conta de ter uma história comum, de ter intimidade, poder falar mal dos pais. Tudo bem, mas ter que gostar não dá para você. Você tem que gostar do seu irmãozinho. Tem que gostar.
Mas minha mãe me obrigava, tá vendo?
Mas não funciona, né?
É, não, quer dizer, acabou funcionando, mas não pela obrigação. Acho que funcionou porque funcionou.
Funcionou porque funcionou, porque convívio acaba criando oportunidade, né? Mas ter que gostar é uma coisa que você não é obrigado a gostar de nada, né? Você não consegue forçar o teu desejo, teu gostar. Ele não—
eu lembro que a minha mãe falava, não podia Ah, eu não tô falando. Não tá falando não existia na minha casa, era obrigada. Aí eu briguei com você, não tá falando? Não, gente, vocês estão muito loucas, não tem isso, não tá falando.
Camisa da amizade, né, que os dois têm que entrar na mesma camisa assim, ficar até resolver.
Não existe não falar, não existe estar brigado e parado de falar, tanto entre a gente quanto com a mamãe. Não existe não falar com mãe, vocês estão loucas. E era bem—
então vocês conversavam sobre os perrengues? Tinha essa Ou não falaram, só continuar cumprimentando e sendo educada? Tinha uma coisa de conversa nessa família?
Ah, tinha, tinha. Mas assim, conversa médio. Assuntos tabu não eram conversados, né?
É outra geração, né?
É, não se conversava sobre sexo. Inclusive, a minha mãe é uma coisa maravilhosa, porque se eu fecho o olho, a frase— qual a frase que você lembra da sua mãe? Não dependa de homem.
É tão geracional isso, isso é tão recente assim.
Não dependa de homem.
É muito interessante.
E eu acho que era muito pelo histórico dela. Meus pais depois se separaram, depois de— eu nem sei te dizer quando eles separaram, tá, Vero? Porque eles ficaram anos morando na mesma casa e eu nunca soube que eles estavam separados. Aquilo que eu falei, eu nunca vi um grito do meu pai, eu nunca conheço grito de homem. Né? Uma vez um namorado foi gritar comigo, eu lembro que eu mandei um email falando assim: olha, eu nunca tinha escutado um grito de homem na minha vida, porque eu nunca vi meu pai gritando com a minha mãe, nem meu pai nunca gritou comigo, nem com a minha irmã.
Eu não gostei, eu não quero que se repita. E aí meus pais são essas pessoas que eles separaram, eles continuaram morando na mesma casa. Eu não sei quando eles se separaram, sei que teve uma traição do meu pai, não sei o quê, minha mãe Entendi ali o que tinha acontecido, mas se eles voltaram, quando eles voltaram, quando eles separaram efetivamente, eu não sei te dizer. Porque a gente morava numa casa, era uma casa super funcional, muito respeito, e eles conviviam, e a gente também.
Até que chegou um dia, já depois de velha, a minha mãe: quero me divorciar. Leã? Quero me divorciar. E a gente foi lá, eles foram no cartório, se divorciaram. Depois a gente foi comer numa churrascaria pra celebrar o divórcio. Todos juntos. Eu já era adulta.
Como é que ficou isso pra você?
Aí a gente convidou a família. Ei, papai vai se divorciar, mamãe. Vamos todo mundo? Virou meio uma piada da família. Meus primos foram, a gente saiu pra comemorar o divórcio. Meio assim.
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Que interessante, quer dizer, eles tiveram uma privacidade total enquanto casal em relação aos filhos, assim, não vazou nada.
Nada, não. Quando teve um problema de traição e tal, quando a gente ia assim falar alguma coisa contra o papai, a mamãe não deixava. Ela falava, não abra a boca para falar do seu pai, ele é um excelente pai. Hoje ela faz uma piada, ela fala: excelente pai, péssimo marido. Eles são muito amigos até hoje, né, o Botox?
Mas é uma separação importante, porque os filhos não têm que ficar com o ônus do casal. Os dois se escolheram muito antes dos filhos nascerem, enfim, e têm que assumir a relação de casal. E a relação de pai e mãe é de outra, né? Porque às vezes, como tem muita raiva, né, quando você leva um chifre ou qualquer coisa, né, ou quebra de contratos múltiplos que existem no casal, vaza para os filhos. E às vezes o filho fica tendo que escolher se fica com o pai ou com a mãe. É uma escolha impossível, psicotizante.
Não permitiu isso. E por que que eu acho que essa fala diz muito respeito à experiência dela? Primeiro por causa da minha avó, né? A minha avó, enquanto vivia aquela vida com aquele cara, que eu não sei se minha avó provavelmente ela não era casada, provavelmente era uma segunda família desse cara, né? Mas ela teve uma vida, ela abriu mão da vida que ela tinha, uma vida de conforto na Zona Sul do Rio de Janeiro, tal, não sei o quê, e foi morar na Baixada dentro das possibilidades dela.
Ela criou uma independência que ela não devia ter antes. Sim, né? Não sei essa história, não sei contar, porque essa história também minha mãe conta de uma forma que parece quase um conto de fadas, sabe? Então eu deixo ela com a história dela, com a história que ela contou, e tudo bem, respeito e tal. Mas eu depois de velha fico assim, isso não tá colando, isso não tá colando. Fico tentando fazer uma história que pareça minimamente com a realidade, assim.
E aí, quando a mamãe, quando aconteceu isso, que talvez tenha sido um primeiro rompimento deles, com uma possível separação, e a mamãe escolheu não separar, e depois ela tentou fazer isso com a gente, falar, eu não me separei por causa da educação de vocês, pra manter a educação. E a gente rapidamente falou, isso foi uma escolha sua, a gente não tem nada a ver com isso. E a gente jogou a real pra ela, amor, desculpa, você escolheu isso.
A gente era pequena, a gente não tinha escolha. Então não adianta você jogar a culpa pra cima da gente agora. Mas de fato foi uma escolha que ela fez junto com ele para manter uma situação econômica que era bastante confortável para gente e que poderia manter a nossa educação. Então ela ficou presa, né? Ela ficou presa numa relação.
Ela fez uma escolha, ela fez uma escolha, e a escolha foi pelos filhos. Sim, sim. Mas o complicado é os filhos ficarem com esse ônus, né? Como se fosse uma Como se fosse—
eu e a minha irmã, a gente se livrou logo, falou: escolha sua, temos nada a ver com isso. No máximo que a gente pode fazer assim agora, a gente pode fazer o quê para te ajudar?
Até porque os filhos não foram consultados, né? E às vezes os filhos preferiam que o casal se separasse, o casal que briga para caramba, um pai violento, enfim, do que a escola bacana da Zona Sul. Que a gente não sabe, não foram consultados, não era o nosso histórico, né?
A gente não tinha essa história de violência, de agressão, de brigas.
Tinha um conforto para eles também de ficar junto de algum jeito, né? Não era um horror estar junto, não.
Ah, não, se fosse terrível Se tivesse alguma história dessa terrível, né, de agressão, violência e tal, minha mãe não teria sustentado. Era de outra ordem, era uma violência também, mas acho que de outra ordem. E ela escolheu a manutenção econômica e social que implicava também na nossa criação. Mas é isso, quando eu penso na minha mãe, eu penso: seja, estude para ser independente, não dependa de homem.
Isso é um mantra, é um mantra tão interessante, né, Thaís, que muitas mulheres ouviram mulheres que hoje estão na casa dos 40 assim, e se tornou um mantra para toda uma geração: não dependa de homem. Que é o oposto do mantra que eu ouvi na minha geração, porque meu pai era ainda mais velho, me tiveram com 40 anos. Então meu pai falava assim: não estuda muito para o teu marido não ficar competindo com você, para você não, olha, não vai ficar mais sabidinha que o marido.
Um horror, né? Então muda muito essa, esse mantra. E o que tá acontecendo hoje é que as mulheres Não estão dependendo dos homens para nada, né? Os homens estão apavorados, porque nem para ter filho, né? Você vai no banco de esperma, você adota uma criança, enfim. É muito interessante o revés desse mantra geracional, né? Como isso tá trazendo coisas legais e assustando muito os homens, né?
E ao mesmo tempo, essa mulher que falava assim, você tem que ser independente e tal, era mulher que queria que a gente casasse virgem. Olha isso, olha a contradição. Que loucura! Ela queria muito que a gente casasse virgem, mas que fôssemos muito independentes.
Então era uma coisa... Sim, sim, uma passagem geracional importante, né?
É, é. E também não era aquela pessoa que queria, óbvio, casasse virgem. Ai, eu tenho que casar virgem. Mas ao mesmo tempo não queria nem que a gente casasse, eu acho.
Sim.
Porque não tinha...
O que será que tinha nessa mensagem? Que era uma mensagem um pouco assim, não vai ficar exposta aos homens, né? Porque assim, os homens, a primeira coisa que eles vão falar de uma mulher é vulgaridade, que é sexual, né? Alguma questão sexual que para eles não vale, para nós vale. As mulheres ficavam divididas, né, com os riscos que as filhas podiam correr, os vários riscos, né, que são paradoxais mesmo. A gente vai ter que ir para a segunda pergunta.
Ai, já?
A segunda pergunta é: o que que você fez com tudo isso? Qual que é a tua referência de família a partir disso? Porque você Bom, aí você vai fazer toda a tua carreira, você casa, você tem dois filhos. E o que que você fez com isso daí, com essa história?
Então, eu sou uma mulher que não fui criada para— eu sinto que na minha criação não era assim: você vai casar, você vai ter dois filhos, você vai ter um casamento longevo, você vai— tudo que eu tenho não era esse o objetivo da minha mãe e do meu pai comigo.
Você sacava? Como é que você interpretava? O que que seria a expectativa deles, que é sempre uma interpretação, a gente nunca vai saber.
Acho que eles queriam que nós fôssemos duas grandes profissionais, era isso. Mulheres independentes, boas profissionais. E aí ele criou duas mulheres independentes, profissionais realizadas. Em primeiro lugar, as duas são duas profissões muito vocacionadas, né? O ator, ele tem que ser vocacionado, e o médico também, né? Minha irmã é gineca e obstetra. Olha isso, a minha avó parteira, a minha irmã é gineca e obstetra. A minha irmã tem uma carreira super próspera, uma vida linda, próspera, casada com o primeiro namorado, que ela casou com 17 anos.
Ela tá casada, casou não, começou a namorar ele com 17 anos, ela tava entrando na faculdade, é casada até hoje. Então eles têm duas filhas, casadinhas, com dois filhos cada uma, bem estruturadas profissionalmente.
Mas olha que lindo, porque ela de algum jeito essa mensagem chegou vocês, como vocês não têm que abrir mão de nada, vocês podem ter isso e aquilo, uma coisa não exclui a outra. Acho isso tão legal, porque para mim a ideia era o contrário, é tipo assim, ou você vai ter uma carreira ou você vai ter uma família. E eu sofri muito em análise para deslindar isso aí. Você fala, meu, não, eu quero ter uma carreira e quero ter uma família. Eu achava que eu tinha que escolher. Que legal, Thaís!
É, é, eu, mas eu olho para minha vida assim, eu falo, nossa, que vida caretinha, né? Que vida não tinha, meu Deus do céu, sabe? Um maridinho, vou fazer 22 anos de casada, 22 anos de casada, 2 filhos, 2 cachorros, sabe? Meu Deus, que vida é essa?
Mas como é que foi eu chegar nessa família e ser de humanas, né? Assim, tudo bem, seu irmão foi para biológicas, mas a medicina é um negócio mais, ai, médico, advogado, né? O engenheiro, né? E aí você vai para arte, como é que E que é difícil de se viabilizar.
Nossa, é dificílimo.
Então assim, se a expectativa era de uma carreira que vocês fossem grandes profissionais, você deu uma rompida aí um tanto das expectativas.
É, porque a minha ideia, eu queria ser diplomata, era o que eu queria ser. E aí depois eu falei, gente, mas ninguém vai querer casar comigo. Olha isso, eu não fui criada com essa coisa de casar com ninguém. Depois eu descobri que eles casavam entre eles, né? Os diplomas era tarde demais. E aí eu comecei a trabalhar com 13 anos de idade. Ah, isso é interessante contar. Eu comecei a trabalhar, eu lembro que um dia que eu fui fazer o meu book, e eu comecei a trabalhar de uma forma muito espontânea, tá?
Fazer o meu cabelo no salão de cabeleireiro, que era o salão da Monique Evans. Quando eu cheguei, a Monique tava lá, ela me viu com uniforme de escola e veio falar: você tem que ser modelo. Eu falei: não, eu quero fazer teatro, uma atividade extraescolar. Eu falei: não, eu quero ser atriz e tal. Não, você tem que fazer um book. Aí eles que fizeram tudo. A Monique escolheu um fotógrafo, o maquiador que era maquiador dela falou, eu faço até de graça.
Eles fizeram tudo, Vera. E na noite que eu ia levantar de manhã bem cedinho para fazer as fotos, foi a noite que minha mãe descobriu a traição do meu pai. E aí foi uma noite um pouco caótica. A gente, eu levantei, fui trabalhar, minha mãe foi comigo, fui fazer a foto primeira vez. Aí as fotos ficaram lá no estúdio. O fotógrafo levou a minha foto para agência de modelo, ele que levou. E a Fernanda Barbosa, que era diretora da agência, me ligou.
Eu tava dormindo, adolescente dormindo à tarde. Oi, tô com suas fotos, você não quer ser modelo? Eu falo, eu não posso, que eu estudo, eu quero ser atriz. Ela falou, não tem nada a ver, você não precisa parar de estudar. Falei, minha mãe não está aqui, quando minha mãe chegar eu posso te ligar? Pode. Mamãe chegou, falei, mãe, a moça da agência me ligou e tal. A minha mãe jamais seria aquela que vai levar o book. Olha, minha filha é uma gracinha, jamais. Aquilo queria ficar no fundo de um armário, tá?
Por isso que é interessante que o fotógrafo levou.
E aí a minha mãe, eu perturbei, obviamente levou lá e eu comecei a trabalhar como modelo com 13 anos. Aí depois eu comecei a trabalhar como atriz, a fazer teatro com a Kátia D'Ângelo. Lembra? Atriz, minha professora de teatro. E a Kátia foi me levar na Manchete fazer um teste para fazer Tocar e a Grande. Eu já tinha 16 anos, 3 anos depois. Eu comecei a fazer novela, na sequência eu fiz Cara Silva. Só que dessa noite fatídica que antecede a foto do— as fotos, que a vida da minha mãe ruiu emocionalmente, eu como era menor de idade, minha mãe tinha que ir comigo.
Então o universo se abriu para minha mãe, novas companhias, artistas, pensamentos diferentes. A minha mãe era uma mulher muito pudica, importante. A minha mãe, você olha a foto da minha mãe com essa idade, ela é muito mais jovem hoje do que quando eu comecei a trabalhar. Ela era uma senhora, imagina, ela tinha 43 anos quando eu comecei a trabalhar, ela muito mais nova do que eu sou, mais 5 anos mais nova do que eu sou hoje. Ela parecia uma senhora.
Quando eu comecei a trabalhar, ela teve que ir comigo me acompanhar, ela foi comigo. Meus pais, chegou um momento que aí começou a coisa séria mesmo de ter que fazer novela todo dia trabalhando Eles falando assim, e aí, o que que a gente faz? A gente trava ou a gente deixa aí? Aí lembro que eles falaram assim, meu pai falou, vai, vai, porque se não der certo, vão culpar a gente. Ela vai culpar que a gente travou a vida dela. Então vai.
A minha mãe já tava muito desgostosa com o estado. Como professora do estado, ela abandonou a matrícula dela no estado. Meu pai falou, você tem que ir com ela, vai que eu seguro. Meu pai nessa época já tava muito bem financeiramente, teve uma mobilidade social muito importante, e minha mãe ficou indo comigo. Então a vida da minha mãe mudou 100% no momento crucial.
Como é que você sente isso? Porque é tão bonito você contar que teve algum, raios caíram, né, vários raios, e se abre uma porta para sua mãe assim inadvertidamente, né, que você Elo, vou salvar a mamãe. Não é isso, mas assim, algo aconteceu na vida de vocês duas.
E eu só consigo ver isso obviamente agora, né, Vera?
Na época tem que acender uma vela para Monique Evans. É, acendeu uma vela para Monique Evans, o Beto Carraman, porque levou assim a tua mãe, né?
Eu acho que foi uma salvação assim na vida da mamãe. Não que ela não tivesse capacidade, ela ia se reinventar, porque essa mulher, como ela é, mas assim, foi uma chance mesmo. Ela começou a conviver com Ângela Leal, né? Porque Ela era muito novinha, ela convivia com Roberto Bonfim, Ângela Leal, Miriam Pires, uns artistas, uma cabeçona. E aí ela começou a viver, ela não bebia, né? Então a gente saía da gravação, ah, vamos para um bar, eu era adolescente, vamos, Mercedião.
Ela ia, aí ela não bebia. Então ela pedia uma, para não dizer que ela era chata e que ela não bebia, os artistas, ela pedia uma cerveja, ela ficava com aquele copo a vida toda. Fingia que tava bebendo. Depois ela começou a beber, mas ela foi assim florescendo. Era a coisa mais linda de ver, mais linda.
Porque eu acho, quando assim, eu não sei que idade estão seus filhos, mas assim, tem uma coisa da adolescência dos filhos que você acaba assistindo a sua e vai vendo que você tá envelhecendo, e você vai vendo o que que você fez, você deixou de fazer, você vai se vendo com a sexualidade jovem, né? E é uma coisa que pode tanto te fazer paralisar e ser aquela chata que é muito mais dura com o filho do que foi com você mesma, quanto poder ir junto, aprender alguma coisa, se renovar, né, ou competir.
Tem várias soluções que você dá para isso. Você conta que a tua mãe, ela pegou uma carona aí.
Ela pegou uma carona e a vida dela foi outra, foi outra. Foi, ela teve uma vida, depois daí ela vibrou, sabe, vibrou, porque ela tava machucada. Então ela floresceu assim. Em relação a mim, ela era, ela sempre foi muito rígida, era uma rigidez absurda, rigidez com tudo, com educação, com trabalho, com não sei o quê, e com a relação. As questões sexuais para ela não passavam. A minha mãe, ela foi tão, ela tinha tanto medo do meio artístico, tanto medo.
Você era muito novinha também, né?
Mas olha essa história, isso eu culpo ela o tempo inteiro, eu jogo na cara dela o tempo todo. A minha irmã se formou em medicina e ela não foi à formatura da minha irmã porque eu tinha uma noturna. Ela não quis me deixar sozinha. Ela nem pediu para uma pessoa ir, ela não foi. Ela falou, eu não vou, eu não vou mesmo, eu vou ficar com você. Falei, minha mãe morria de medo de mim, né? Ela tinha medo de mim, do meu artístico. Ela fala assim para mim, Thaizinha não é certa e não dá certeza para ninguém.
Thaizinha não é certa, não dá certeza para ninguém. Então ela tinha esse, era uma rigidez mesmo. Ela, por esse lado de ver a filha florescer e adolescente e tal, ela travava direto. Olha, eu recebi uma proposta quando eu era menor de idade daquele John Casablanca, que era o dono da Elite Models. Ele sentou com a gente, queria que eu fosse para Nova York trabalhar, que é o caminho das modelos, né? Modelo para fazer. Eu baixinha, tenho 1,63m, mas ele falou, você pode ser modelo comercial, que é o que dá mais dinheiro, né, do que modelo de passarela e tal.
A minha mãe falou, não tenho como, eu não vou emancipar, me recuso, não vou emancipar, eu tenho outra filha, eu não posso deixar, então não vai ser não, não vai não. Eu não fui.
E como é que você lidou com isso?
Não sei, porque eu não sei como poderia ter sido assim, né?
Porque você não ficou tão—
não, na época Não, mas é que a gente trabalhava como atriz também.
A gente pensa só no sexual, e talvez a sua mãe pensasse só no sexual, no risco sexual. Mas tem tantas formas de abuso nesses ambientes, né?
Eu acho que ela pensava em tudo, tudo, porque tem o gritar, droga.
Mas das violências outras assim, de submeter a pessoas a situações assim.
E de fato eu nunca passei por nada, porque até depois, quando ela passou a não andar mais comigo, tinha uma sombra dela que as pessoas até hoje falam da minha mãe, entendeu? E depois, para mim, foi horrível, porque também ninguém queria me paquerar, sabe? Pessoa tinha um medo da minha mãe, as pessoas tinham medo da minha mãe. A minha mãe, ela virou para o Walter Avancini e falou a seguinte coisa. Eu brigava muito com Avancini, brigava, brigava.
Avancini foi quem dirigiu o Siqueira Silva, meu grande mestre, mas é um cara historicamente conhecido como uma pessoa muito abusiva assim. Assédio moral era bem difícil e eu brigava muito com ele. E aí teve um dia que ele falou assim, eu vou acabar com a carreira da sua filha. Aí a minha mãe falou, seu Avancini, a minha filha tem 17 anos, o senhor não tem nem tempo de vida para acabar com a carreira da minha filha. Maravilhoso!
Ai, que maravilhoso!
Ela falava essas coisas e ela falava assim para mim, eu tô aqui porque você não quiser fazer, porque você quiser fazer É com você. Na primeira semana de gravação do Chica da Silva, segundo dia, a Vancine falou: que arrependimento, arrependido de ter te escolhido. Eu falei para ela: não quero ficar aqui. Ela: Thaís, pelo amor de Deus, você pode falar para ele, entrega a personagem na mão dele, eu não quero mais, quero ir embora.
Ela: Thaís, pelo amor de Deus, você não vai fazer um negócio desse? Eu falei: você não falou que eu tô aqui porque eu não quiser fazer? Então eu não quero fazer mais. Aí ela foi lá e falou: sua Vancine Thaís agradece muito, mas tá entregando a personagem de volta para o senhor. Só entregar para atriz, que o senhor bem entender, ela não quer mais fazer. E aí ela falou assim: não, que isso!
Não, isso é só uma conversa básica que eu tenho com todo mundo que trabalha aqui.
Sim, aí eu muito ruim, né, adolescente tipo absurda, fiz ele me pedir desculpas. Eu falei: então tá, então agora a gente continua. Sim.
E aí quem bem sabe nesse ambiente, né, esse ambiente muito tóxico, né, muito.
Mas eu acho que tem uma coisa também que me protegia, além da minha mãe, o fato de ter uma família estruturada economicamente. Eu não precisava daquilo.
E a família não precisava daquilo, não dependia de você, como muitas vezes acontece, né? A própria família depende.
Aliás, eu devo as grandes possibilidades da minha carreira— isso faz uma diferença muito grande nesse meio, você poder dizer não, né? Você poder escolher Isso é um privilégio gigantesco. Quando o Avancini me chamou para fazer Xicara Silva, eu falei para ele, não, eu quero estudar, vou estudar fora, eu vou aplicar para uma faculdade fora, eu não quero ficar aqui. Tinha 17 anos e ele falou, nenhuma faculdade vai te ensinar em 4 anos o que eu vou te ensinar em 1 ano de novela.
E ele tava certo, sim, sim, ele tava certo. Tanto que muito do que eu sei hoje eu devo muito a ele. Mas essa possibilidade de dizer não, os meus pais não precisarem para comer, né, porque é isso, para viver não precisavam. Então esse privilégio foi o que me fez e até hoje me faz dizer muitos nãos e poder ter a possibilidade de escolha. Muitos de nós artistas, a gente não tem essa possibilidade de escolher, muitos não têm. Sabe?
Às vezes, e aí quando você não tem, você não consegue nem ter um plano de carreira, sabe? Porque às vezes você tem que fazer o que aparece.
Tua família hoje, como é que é? Porque você fala, bom, então eu fiz a minha carreira robusta, reconhecida, sucesso, mas aí volta pra, eu lembrei imediatamente da sua irmã fazendo partos não sei que horários também, porque é difícil pra família, custa pra família essas duas carreiras, sim, custa. Como é que você administra essa passagem para os teus filhos, para tua família que você construiu? Porque a tua mãe ficava um tanto em casa, trabalhava, mas tinha aquela rotina, né?
Não, a gente não tem rotina nenhuma lá em casa, nem eu nem Lázaro, né? Então as crianças, mas também elas já nasceram assim, né? Já nasceram com dois pais, com duas carreiras muito prósperas. A gente não teve, meu filho tem 15 e a minha filha tem 11. Então é isso, eu lembro quando a minha filha nasceu, eu e o Lázaro, a gente tava estreando o Topo da Montanha aqui em São Paulo, aquele Lindo assistir, maravilhoso, bonito, né? Então a gente vinha com eles, mala, criança.
A gente comprou um apartamento aqui para que eles pudessem ficar bem instalados. A gente levava eles, rodava o Brasil, rodava com eles, com duas crianças bem pequenas. A minha filha tava recém-nascida e o meu filho tinha 3 anos e meio, né, quando a irmã nasceu. E foi nesse ano aí, a Maria nasceu em janeiro, Topo da Montanha estreou em outubro. Aqui em São Paulo. Então a gente carregava os dois. E a gente vive nessa vida hoje, eu e o Lázaro, de alternâncias, né?
Quem tá em casa é que é o responsável pelo funcionamento da casa. Claro que a gente tem funcionários que nos ajudam e tal, mas quem tá em casa é quem tá à frente do funcionamento da casa, das crianças, escola de criança, né? Não as coisas burocráticas, mas as coisas que a gente tem que estar ali é com a gente. Gente, agora a gente tá numa situação em que ele tá gravando, só que eu também tô fora de quinta a segunda. Então a gente—
mas as crianças já estão um pouco mais, pouco mais velhas, né?
É, tá um pouco mais velho, mas ainda adolescência, né? Talvez seja a fase que a gente mais, que não é tão braçal, que não dá para carregar, né? É que eles já têm os amigos, a escola, o esporte, administração, né, da vida deles. E tal. Então vira e mexe a gente fica, eu e o Lázaro somos dois grandes administradores da vida dos filhos. A gente fica, ontem eu falei, ó, tá acontecendo isso aqui com a Maria, fala com ela. Aí ele vai, ó, já falei com ela.
E aí eu também ligo e falo, e aí, como é que foi? Como é que ela reagiu? Ah, comigo também. Ah, então, ah, que legal. E aí a gente, aí o João, como é que tá? Ah, então você fala com ele. Ah, já falei. Então, e a gente fica nessa administração, que é excitante porque eu adoro ter muitas coisas para fazer e me sentir útil, mas ao mesmo tempo também frustrante o tempo inteiro, né? Porque não consegue dar conta. Eu não dou conta, ele não dá conta, a gente não dá conta dentro da casa, dentro das crianças, dentro do trabalho.
Muitas vezes a gente vive numa administração bem caótica mais organizada, no que dá para organizar, a gente consegue.
E é interessante porque você já faz parte dessa geração que preza muito a intimidade com os filhos, acompanhar, né? Porque gerações anteriores assim, leva tua vida, estuda, tá fazendo tudo direitinho, isso aí não tinha grandes conversas. Ó, brigou com amiguinha, ai, não sei o quê, tá chateada com tal coisa, né? Ou tá preocupado, não tinha esse acompanhamento ter um tete a tete, né? Hoje a gente investe muito nisso, né? Então como é que você vai ter isso em tempo real, né? Com a criança lá, você aqui, tem todo mundo.
Eu mais lembro da minha mãe assim: não quero você com essa menina. Minha mãe, era só não. A minha mãe: não é bom companhia, não quero você misturado com essa gente. Era só isso que eu lembro da mamãe.
Grandes conselhos genéricos assim.
Não quero você com essa menina, não quero.
Mas eu não lembro assim de ter esse corpo a corpo mesmo que a gente tem com eles hoje.
Ah, eu tenho com os meus filhos grandes conversas. E aí eu já entendi muito que obviamente a minha maior referência de criação é a criação que eu tive. Então a tendência a repetir, e eu sinto que não funciona.
É porque os filhos não repetem, eles são outras pessoas, né? Não são a gente.
Por exemplo, já eu fui uma criança que apanhei, a gente apanhava, eu apanhei. Imagina, apanhava de cinto, gente, loucura. Com os meus filhos eu já sabia que eu ia criar sem bater, né? Mas aí a gente tá inventando uma nova maneira, porque não é a maneira, não é a referência maior que eu tenho. E aí tá, aí gritar, gritar não adianta na minha casa, não adianta. Eu vou gritar, vou ficar rouca e não vai adiantar nada. O que funciona com os meus filhos é o diálogo, é a conversa.
E às vezes eu vou na grosseria, já que eu vou estar sendo grossa, Para que que está sendo? Porque você tá falando assim.
Nossa, terrível, né? Eu lembro a primeira vez que a minha filha, porque eu venho de uma família, imagina, eu não apanhava, mas era muita grosseria. Meu pai era muito violento, falava coisas horríveis, gritava muito, enfim, show de horror. Mas então uma família violenta. E aí eu, quando eu vinha com muita coisa para cima das minhas filhas, gritava, pá, eu lembro o dia que minha filha falou assim, você não fale assim comigo porque ninguém pode falar assim comigo.
E aí caiu um raio na minha cabeça, porque eu pensei, se você grita com a sua filha Você tá ensinando que, puxa, ela pode ouvir grito. E é exatamente o que você começou falando. Você falou pro teu namorado: eu nunca ouvi grito, não vai ser você que vai gritar comigo. Mas pra isso você nunca— você tem que ter tido uma experiência que você nunca ouviu grito pra falar: isso aqui é pra além do limite. E aí minha filha falou: meu, se você vai gritar comigo, então todo mundo pode gritar comigo. E aquilo foi tão devastador pra mim, Thaís.
Foi terrível, né?
Foi terrível, porque eu queria uma pessoa que me deu um limite assim transgeracional e que me deixou muito chocada, que da violência, como a violência se transmite, né? E ao mesmo tempo eu falei, putz, eu queria essa pessoa, né? Quer dizer, essa pessoa foi capaz de falar para mãe dela que isso, a minha filha me dá, imagina, aquela real, direto, várias.
Ela fala que você tá falando, não se fala mais, você sabe, né? Eu não, ela não. Outro dia, bonitinha, porque ela só tem 11 anos, eu falei, eu falei que eu me senti lesada por não Ai, não pode mais falar lesada. Não, né? Lesada no outro sentido. A Maria Antônia lesada no sentido de prejudicada. Ah, tá bom.
Eu não sabia que não podia falar lesada.
Eu acho que pode, mas eu não sei se pode ou se não pode. Sei lá.
Mas ela tá atenta aos sinais, né?
Amor, ela vai me educando o tempo inteiro.
E 11, essa virada, né? 11, né? Quer dizer, essa entrando na adolescência, né? É. Sendo mulher, se avendo com a criação de uma mulher. Como é que tá essa criação de menino e menina?
Mas é tão docinho ela. Porque ela faz coisas comigo que eu não tinha coragem de fazer com a mamãe, coisas femininas. Ela vem e fala comigo: mãe, tá acontecendo isso e isso, mãe, me ajuda com isso aqui, mãe, você faz isso aqui para mim. Mãe, é relacionada a ela, relacionada ao corpo dela. Sim, ela não tem pudor. Eu acho bonito demais.
É uma geração assim, toda essa parte fisiológica, até politicamente, não tem que esconder menstruação. Por qual problema? É meu corpo, não sabe, eles falam coisas entre eles que eu jamais falaria, constrangedoras, não tem constrangimento com a fisiologia, com anatomia, é maravilhoso.
É uma aula assim, eu acho bonito, e quando ela vem e ela recorre, eu acho bonito, né? Confia, é isso, é confiança. Tão bonito isso. E aí é isso, ela tá entrando nessa fase que é linda, linda. Né? Não sei como vai ser a adolescência dela, porque ela é muito— minha filha, ela é interessante, é uma menina interessante. Ela fala mesmo as coisas, ela ao mesmo tempo ela é muito sensível, aquariana. Então parece que ela— e eu sou sagitariana, né?
Então as duas malucas juntas. Então a gente comunga muito, eu e ela, a gente comunga. E ela é muito parecida comigo fisicamente, ela era. Então antes era assustador, muito estranho você ver. Suas filhas são parecidas com você?
E algumas fotos assim de olhar e levar um susto e achar que me lembra a mim mesmo, assim, não é estranho. Elas não são tão parecidas, mas os traços assim, a gente vai criando um jeito de mexer o rosto que fica tão parecido que algumas fotos, a depender da expressão, fala, meu Deus, sou eu ou ela? Assim, cabelo que corta de um jeito parecido.
A minha filha igual. Agora não tá nem tão igual, mas quando era pequenininha ela era igual. Era de eu ver a minha filha arrumada para ir para escola e olhar, eu falava, nossa, que estranho ter alguém tão parecido comigo, é tão parecida comigo. E aí quando nasce uma menina, eu me senti muito, eu fiquei muito impactada com o nascimento dela porque eu me senti muito obrigada a ter que olhar para mim de novo. E aí não tem fugir. Porque quando eu tive o meu filho, que eu vi que era um menino, eu juro que, olha que machista, eu respirei aliviada.
Eu falei, ah, menino, mesmo sendo um menino negro, né, que a gente sabe das dificuldades e tal, não sei o quê. Eu falei, agora aí. Mas eu queria muito uma menina, quando também uma menina. Quando veio uma menina, eu falei, agora, querida, não tem como você escapar, vai ter que olhar para você. Essa complexidade é muito difícil, mas também eu acho difícil, eu acho uma oportunidade genial.
Passa um filminho assim, né, da tua história, de tudo que você ouviu, que você deixou de ouvir, dos medos, das fantasias, né?
O tempo inteiro.
Eu lembro, Thaís, você é uma boa ouvinte. Quando eu falo, você tem um olhar tão— que eu já percebi que eu já tô falando bastante, porque você tem um olhar de escuta assim que é adorável.
É muito bom. Eu falo pra caramba.
Você é muito fofo do jeito, mas eu tô falando isso porque as pessoas não estão te vendo aqui, mas é um jeito muito receptivo para escuta. E eu lembro que quando a minha filha menstruou, eu achava que, imagina, fazer análise, tirar de letra, psicanalista, tá tudo bem resolvido. Eu entrei num buraco quando ela menstruou por conta da história da minha menstruação, tudo, que a minha analista ficou com dó de mim, me deu um livro para ler, falou, vai ler, vou O Despertar da Primavera, em francês, ela me deu, ver o primeiro capítulo aí, porque realmente teve um impacto.
E você revive cenas que você não sabe como é que elas vão ter sobre você, porque você viveu aquilo de um certo jeito. A pessoa que você prometeu na vida que você vai proteger de qualquer jeito tá passando por aquilo, e você fala, meu, cadê meu repertório? Será que eu vou saber? Será que eu vou cuidar? Eu achei que ela ficou exposta, sabe assim? E tem isso que com menino vai dar outros efeitos, outras questões, né? Tem um estranho, ele é um estranho de saída, né?
A menina, ela tem uma semelhança que é muito impactante na gente, né? É muito interessante.
Eu lembro que o meu filho, quando as meninas começaram a menstruar da turma dele, eu sentei com ele, eu falei, olha só, vai acontecer isso aqui com as meninas, cara, vocês vão ter que se comportar. O ideal era que vocês assim, não dá para fazer gracinha, não dá para fazer piada, tem que entender que elas vão passar por uma TPM, que elas vão ficar nervosas, sensíveis e tal. Então não tem gracinha. O que acontece na menstruação é isso: todo mundo menstrua e você só tá aqui porque eu menstruei, as pessoas só estão aqui porque as mulheres menstruam.
Ok, partindo desse princípio, que fofo, vamos embora. Eu tive essa conversa com ele, sim, sim, e com a minha filha. E aí eu tinha uma coisa muito louca, porque eu uso DIU que solta hormônio, né? Não menstruo há anos, eu só menstruei para ter filho. Eu só não menstruo mais 20 anos, velho, só tirei porque eu também engravidei Então eles não tinham a vivência de ver absorvente. Eu falava, gente, como é que vai ser essas crianças?
Como é que vai ser? E aí eu conversei com eles, a mamãe, vocês vão ver isso na vida, tá? Acontece isso, mas aqui em casa vocês não têm essa, porque tem essa vivência do dia a dia, né? De você tá lá no banheiro, você vai ao banheiro, quando você vê, sim, claro, os pacotes chegam da farmácia, tem tudo, né?
Assim faz parte.
Eu fiquei preocupadíssima. Isso, a gente tá descansando, surgiu uma menstruação, eles vão falar o que que é isso, tá alguém morrendo, sei lá. E eu fiz questão de falar para eles assim, meu filho primeiro, né, a minha filha não, já aquelas coisas que elas conversam entre elas, né, escola, tudo tem uma normalmente. Mas você sabe que tem uma coisa que você falou, ah, o menino é estranho, né, porque a menina é o que você— é para mim a maior dificuldade da maternidade, maior É você entender que o seu filho, eu e os meus filhos, não são uma extensão de mim.
Isso é muito difícil, que é um outro, um estranho, é um estranho. Como é difícil isso, né? Você ter que lidar com isso e respeitar também. A Bel Hooks fala uma coisa, falava uma coisa aqui que é muito interessante, assim: a maternidade, a paternidade pode ser o primeiro lugar em que a gente facilite o abuso, porque você tem poder sobre aquela pessoa, né?
Sim, sim.
Quando eu li aquilo dela, eu fiquei tão impactada de falar, gente, realmente, a criança tá livre, é você com a criança sobre a criança. Como é que você não vai agir de forma abusiva? Muitas vezes você é a mãe daquilo, você já tem um poder enorme. Como é que você vai fazer isso sem abusar desse poder que você tem? Eu fiquei espantadíssima quando eu li isso da Bell Hooks, que eu falei, é possível?
Tem uma psicanalista que chama Piero Lanier e ela escreve um livro que chama Violência da Interpretação, e ela vai explicando como o cuidador, que no geral são as mães, ele vai tendo uma violência, porque ele tem que falar, tá com frio? Tá com fome? Tá com sede? Tá com sono? Você tem que fazer uma interpretação que é meio violenta, que você imputa ao outro, que você nunca vai saber se era isso mesmo, que às vezes o bebê não tava com nada daquilo, Mas só de você pegar ele no colo já resolveu um tanto.
E aos poucos você tem, só vira violência, violência mesmo, se a gente não vai abrindo mão dela ao longo do tempo, porque a criança vai falar, não quero, não tô com frio, não quero mamar, não quero, né? E aí você vai conseguir, é nessa diferença dessa que não vai virando um abuso de fato. Mas tem algo de saída que o bebê é um objeto pro outro, né? A gente foi objeto dos nossos pais, então ele tem que ir saindo dessa posição, né, de objeto e Realmente, quando você vê a criança, você fica muito impactada, né, com esse reconhecimento, reconhecimento da vulnerabilidade dos amparos, da fragilidade, da influência, da influência que a gente tem, das coisas que a gente fala que influenciam.
Eu, quando eu li isso da Bebel Books, me deu um estalo assim de falar: é verdade, a gente tem que ficar muito alerta.
Sim, até porque eles amam a gente, querem corresponder de qualquer jeito, né? Ah, mas eles também se emancipam uma hora, eles falam não. Não vou fazer isso aí não, não vou ser engenheira, papai, eu vou para humanas só.
Você sabe que o meu pai, essa coisa de educação deles, quando eu vi que eu ia ser atriz mesmo, eu comecei, imagina, Tocai a Grande, a novela que eu fiz antes de Chica da Silva, eu tinha 16 anos. Logo na sequência, Chica da Silva. E aí ele falou, e o vestibular, hein? Aí eu fui fazer vestibular e eles falaram para mim assim, não pode ser teatro. Não pode, vai ter que ser uma outra coisa, que você só tem 17 anos. Se isso não der certo, você vai fazer o quê?
Aí eu fiquei em dúvida entre Letras, História e Jornalismo. Eu fiz Jornalismo, me formei. E tinha uma época que eu fazia os dois, eu fazia teatro de manhã e jornalismo à noite, sem parar de trabalhar, né? Porque eu trabalhei, eu trabalhei a minha vida toda. E quando eu me formei, eu demorei anos para me formar, A minha mãe me obrigou a ir pegar o meu diploma, que eu não queria pegar. Mãe, pô, pegar diploma de lá, cara. Ela marcou com a faculdade, me obrigou a ir lá pegar o diploma.
Ela falou, você tem que ter esse diploma. E eu já tinha, velho, acho que já tava até casada, sei lá. Anos depois, anos depois, ela me obrigou a ir pegar o diploma, levar para casa. Eles têm essa coisa assim. Com a educação. E a gente, eu tenho a mesma coisa com os meus filhos.
Vai saber a importância desse diploma na tua vida, né? Assim, alguma coisa esses pais têm que mostrar pra gente como uma referência. A gente não pode ficar sem essas referências. Só o tempo dirá se defeito da tipografia funciona ainda em 2026 ou não, mas funcionava na época, né? Então tem coisas que a gente tem que fazer as nossas apostas. Nós vamos errar, nossos filhos depois vão contar essa história pros filhos deles, falar, ah, minha mãe me obrigou a fazer tal coisa.
É, é isso. Ai, mas coisa de filha, além dessa coisa de a gente entender que eles são, né, outros indivíduos mesmo, e respeitar a individualidade de cada um, desejos que não são os seus desejos, né. Enfim, tem tanta coisa aí no meio. Uma coisa também que me deixa muito apavorada é a minha incapacidade diante do imponderável, sabe? A minha incapacidade de— porque quando você é mãe assim, você tem o desejo de evitar qualquer, todo e qualquer sofrimento, né?
E aí, quando você— como eu me pego nesse lugar da incapacidade, por mais que eu entenda que assim, cara, eles vão ter que construir a vida deles, e construir a vida deles implica em passar por toda a ordem de situação e de sofrimento. Que a vida apresentar, eles vão ter que lidar com isso. E a forma deles lidarem com isso é que vai construir quem eles são. Cara, mas isso acaba comigo.
Então, mas a incapacidade faz supor que existiria essa capacidade. O que você tá falando é de uma impossibilidade, que pra psicanálise é uma castração. Tem uma coisa que não dá pra fazer.
Ai, mas é frustrante, né?
Não, é terrível. É terrível porque a gente se propõe isso, né? E a gente sofre porque a gente se propõe uma coisa que é da ordem do impossível, né?
Não, e tem uma falácia, né, sobre— eu lembro que as pessoas falam, ah, eu viro uma leoa. Gente, eu não, eu não, não. Eu fico pequenininha de falar, que droga, eu queria poder fazer isso, eu não consigo, eu não tenho essa possibilidade, né? Queria evitar isso, mas não vai rolar. E aí Eu posso virar a leoa que eu for, eu vou rugir, eu vou gritar e nada vai mudar.
Sim, sim.
Então é dessa ordem que tem a frustração de, cara, que louco a gente não poder evitar as coisas que a vida impõe. Isso é uma frustração. Por mais que eu entenda, sim, sim, sim, é, não existe, era ordem do impossível, tal, não sei o quê. Mas eu gostaria.
Eu acho que que bom que a gente gostaria, que a gente não desiste de oferecer o melhor para eles, né? Que a gente não desiste da nossa promessa de protegê-los, né? Mesmo sabendo que se ficar muito nesse lugar pode ficar muito frustrada e muito impotente, né? Que tem uma potência no que a gente é capaz de fazer, não é impotência. Mas que bom que a gente é tão, tão insistente, né? A gente nunca desistiu deles em nenhuma situação. Mesmo sendo da ordem do super-herói, né?
E a gente cansa às vezes, né? Às vezes eu canso, às vezes eu fujo um pouquinho, sabe? Dou uma fugida para o meu quarto, falo, gente, com certeza eu tô aqui fugindo para poder respirar e poder voltar, porque eu sei que eu não vou fugir para sempre.
Não dá para ser 24 sobre 7 porque é enlouquecedor, e nenhum filho merece que a gente fique em cima dele nessa proporção de preocupação, né? Porque a gente tem que ter uma vida e eles têm que ter a vida deles também.
Eu lembro que a Arlete Sales falou para mim isso. Falei, ah, Arlete, tô tão culpada. O João Vicente pequenininho, não tinha Maria ainda. Ai, quando eu vou ter que trabalhar, eu não consigo estar ali e tal. Eu queria estar o tempo inteiro junto, eu queria lá. Você queria que a Mercedes estivesse o tempo todo com você? Eu falei, Deus me livre! Ela, então ele também não quer não, tá?
É porque a gente acha que a gente é muito melhor que foi os nossos pais e que eles também querem a gente que nem oxigênio. Não é verdade. É verdade. Ai, Thaís, a gente podia conversar horas aqui. Ai, maravilhoso, muito, muito lindo. Eu gostei também, foi muito, muito bom. Adorei conhecer a tua história, tua família, me diverti com isso.
Obrigada.
E agora a gente tem uma coisa que a gente inverte. Você pode me fazer uma pergunta que você queira fazer e eu tento responder.
Então, isso é uma questão grande minha com a minha família, meus filhos, todo mundo. Meus pais não fizeram análise, lá a gente faz há muitos anos, meus filhos já fazem há anos também, os dois. É possível no país como Brasil você não racializar a psicanálise?
A resposta para essa pergunta interessante da Thaís eu dou no próximo episódio, no bônus Pergunta a Vera. Ele é publicado na quinta-feira aqui no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise.
Até!
Esse foi o podcast Isso Não É Uma Sessão de Análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.
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Podcast O Berro do Boi