[BÔNUS] Pedro Tourinho pergunta à Vera: quando uma dor antiga deixa de machucar?
O empresário e comunicólogo Pedro Tourinho conversou com Vera Iaconelli no episódio da semana de “Isso não é uma sessão de análise” e, no fim do episódio, fez uma pergunta. Agora, é a vez da Vera responder.
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- Superando a estagnação e a dorProcesso terapêutico · Autoconhecimento · Relações interpessoais · Idealização do outro
- Finitude e fragilidade humanaLimitações individuais · Aceitação de imperfeições · Relações que valem a pena
- Confronto e Expectativas FamiliaresExpectativas familiares · Preço das escolhas · Ganho e perda em escolhas
Oi, eu sou a Vera Iaconelli e esse é o Pergunta à Vera, um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia. Aqui eu respondo a uma pergunta qualquer feita pelo convidado da semana, que foi o empresário e comunicólogo Pedro Tourinho. A nossa conversa completa saiu na última terça-feira, tá aqui no feed do podcast, vale muito a pena ouvir. Agora vamos ouvir a pergunta do Pedro.
Em que momento a gente consegue estabelecer uma cura de uma dor antiga, ou uma— em que momento do processo terapêutico no processo de autoconhecimento, a gente diz assim, pô, isso curou. Quer dizer, que momento eu vou poder dizer para minha família assim, ó, eu, isso não me fere mais?
É porque você não tá falando só do que se passou com você, mas de curar relações. Então isso daí não acontece só do teu lado, né? Você tá falando de uma situação que, mas da parte que me cabe, é, então, mas da parte que te cabe depende se o outro lado também muda de algum jeito, ou senão você pode ter uma relação que é de uma certa indiferença. A gente vai se relacionar porque o que você, que o outro pensa não significa nada para mim.
Então me é indiferente. Ele continua pensando daquele jeito que me magoaria, mas eu anulei ele. Ou seja, uma relação que perdeu sua intimidade, perdeu seu brilho, perdeu sua graça, perdeu seu investimento. Você retirou uma parte do investimento.
É, isso foi o que eu fiz.
Para recuperar esse investimento, para que a relação não seja só protocolar, porque a gente faz várias relações protocolares, né? Quantos natais não são puros protocolos?
Inimigo de ninguém, né? Não precisa ser muito amigo. Você pode—
você tá falando de uma relação na qual as pessoas podem se reencontrar, o prazer de estar junto, admiração mútua, a intimidade. Então é uma ponte que tá sendo construída dos dois lados, né? E pode se encontrar lá no meio ou não, né? Então essa cura não depende só de você. Mas é claro que muitas vezes essa cura passa por um processo de, bom, Qual o tamanho da queda, né? O quanto você idealizava o outro, ele se mostrou no limite. O quanto o limite do outro também bate no limite seu.
E aí tem uma outra camada que assim, eu falei o verbo cura, curar, mas é uma doença?
É, então a gente usa cura, mas não é doença. É a doença da humanidade, né? De ser humano e suas limitações, né?
Então assim, é uma própria culpa aí. Na minha pergunta tem assim, quando é que eu vou me curar? Como se eu tivesse doente.
Como se você tivesse alguma coisa para resolver.
Eu posso estar ferido, mas não... Doente, né? Então talvez superar fosse uma—
é, mas tem coisas que não são para serem superadas, né? Quer dizer, no sentido de pessoas que não vale a pena, né? E às vezes a pessoa não consegue chegar onde você quer, mas consegue te dar uma outra coisa que vale a pena.
A gente fica ali.
É, a gente teve várias pessoas aqui que trouxeram, por exemplo, casos de, ah, o pai ele continua um tanto homofóbico, entendeu? Mas ele é um cara generoso, ele é um cara ético, ele é um cara bom. Ele não consegue superar aquilo nele.
Eu vi essa entrevista.
Então quer dizer, então depende o que que é saudável e desejável para você. Agora, a gente insiste em relações que às vezes não valem de forma nenhuma a pena, não trazem nada, por uma forma, né? Então aquele é meu parente X, como é que aquele é meu amigo de infância, e você acha que você tem que continuar, né? Então eu não acho que seja uma resposta simples não, mas eu entendi o sentido de que tem que valer a pena o outro, não?
Primeiro que tem que ser não recíproco, mas tem que ser duas caminhadas que vão ter que se encontrar novamente.
Sim, sim.
Eu acho que são caminhos que—
Se a ponte estiver muito baixa de um lado, a de cima não vai encontrar, né? Então você tem que— E pessoas que têm limitações, mas que valem a pena por outras questões, né?
Eu gosto muito de encontrar o lugar dessas pessoas, um novo lugar que tenha uma relação de afeto, de cuidado, mas que não precisa estar exposto a outras, sabe? Encontrar um lugar numa prateleira específica.
Agora, tudo que tem a ver com a sexualidade, né, mexe em coisas inconscientes muito profundas, né? E pode provocar coisas que a gente não controla. Tem pessoas que têm limitações importantes, fantasmas importantes em relação à própria sexualidade, né? De desejos inconfessados, de coisas que não pôde viver. E pode ser muito provocativa a figura do outro, né? Muito assustadora. Às vezes—
Entender que o outro alcança isso, né?
É, então, por exemplo, às vezes você conviver com um casal bem casado, quando você tá há 40 anos aguentando um casamento de merda, pode ser intolerável, porque o outro vira um espelho daquilo que você poderia ter em algum momento escolhido, mas não teve a coragem. E aquilo é um horror. Então não precisa ser, né, homossexualidade, não é isso, entendeu?
Mas você acha que a minha resposta para isso de ser muito, é muito pragmática, no sentido assim, o que me faz bem eu alimento, o que não me faz bem eu enfraqueço? Porque no fim eu lido um pouco dessa forma, né?
Mas você enfrenta o que não te faz bem? Você olha, você cuida? Porque você falou que você cuida, mas não necessariamente realmente eu insisto. Mas por que a gente insistiria no que não faz bem? Em nome de quê, né? É bom saber em nome de quê, né? Porque pode ser só uma violência a mais, né?
Acho que é só uma violência a mais, eu acho. Porque o nome de quê seria para tentar atender uma expectativa.
Sim.
De quem, né? Para quê?
De família.
De família. Mas é isso, a que preço, né? Então essa escolha eu já fiz alguns anos atrás. Sim, mais de 10 anos atrás.
Toda escolha tem um preço, né? Você sabe que você tá perdendo alguma coisa e você sabe que você tá ganhando outra. Então precisa ver o que que você tá ganhando no atacado e o que tá ganhando no varejo, que às vezes a gente troca o varejo pelo atacado. Exatamente, queridão.
É isso, obrigada, obrigado.