Pedro Tourinho precisou sair de Salvador para voltar para casa
O empresário e comunicólogo Pedro Tourinho saiu de Salvador ainda jovem. Foi longe de casa que começou a descobrir quem era. Ao voltar, reencontrou a cidade, a família, a fé e uma nova forma de pertencer. Na conversa com Vera Iaconelli, ele fala sobre identidade, Candomblé, orientação sexual e a construção de uma família onde o afeto cabe sem que ninguém precise deixar de ser quem é.
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- Impacto familiar e traumaImpacto na adolescência · Preconceito e estigma · Luto não elaborado
- Subida Monte Carmelo EspiritualidadeDescoberta da fé · Ausência de pecado na religião · Fernanda Yang
- Homofobia SenegalMedo de morrer jovem · Frases homofóbicas na família · Processo de autoaceitação
- Identidade e RepresentatividadeBusca pela essência · Transformação pessoal · Autenticidade
- Empresas e Relação com TerritórioTravessia por El Salvador e Guatemala · Impacto da mudança de cidade · Eleições Rio de Janeiro · Relação com São Paulo
- Construção de novas famíliasRelacionamentos e Casamento · Desejo de ter filhos · Família por afinidade
- Genealogia e Historia FamiliarInfância na casa das avós · Dinâmica familiar · Relação com irmãos e pais
- Pertencimento social e políticaJuventude de direita · Transformação para o progressismo · Crítica ao próprio passado
Trovão Mídia. Oi, eu sou a Véria Conelli e isso não é uma sessão de análise, um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. A cada episódio eu recebo uma pessoa para falar sobre a família dela. A de origem, mas não só, porque o significado de família é único pra cada um e pode mudar ao longo da vida. São histórias diversas e às vezes difíceis que fazem a gente repensar a nossa própria família. Hoje eu recebo o empresário e comunicólogo Pedro Tourinha, o filho da Maria Elisa e do Rodolfo, o irmão do Thiago e do Marcos. O marido do Kevin David.
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Pedro, bem-vindo! Obrigado, obrigada por estar aqui.
Tô muito feliz de estar aqui.
Eu também tô bem feliz que você veio, muito bom.
São poucas oportunidades que a gente tem de acessar outras camadas, né? Porque eu acho que nesse ambiente todo digital, de várias personas, né, várias formas de comunicar, a gente acaba sem poder conhecer as camadas, outras camadas das pessoas, né? E te ouvindo a gente acaba conhecendo histórias que às vezes não aparecem, né?
Me ouvindo não, ouvindo os meus convidados que trazem essas histórias maravilhosas. É muito legal. Vamos começar então. Qual que é a sua referência de família na sua história assim?
Eu acho que a minha referência de família, acho que são minhas avós, ó. Acho minha avó, convivência em família na casa dos meus avós, eu acho. É o que eu tenho de referência no sentido de quando você me pergunta isso, que vem primeiro à minha mente, né? Porque foi uma infância muito feliz assim com eles em geral, assim com as duas avós, né? Em alguns momentos mais com uma, mais com outra, mas eu acho que essa visão de família assim reunida e essa infância assim, quando eu penso em família, é o que vem à mente. Apesar de hoje eu nem conviver tanto mais.
São vivas?
Minha avó, a parte de pai, é viva, 96 anos. Foi até no meu casamento ano passado. E meus outros avós não, já se foram. Mas a dinâmica de família mudou, né, para mim, acho que para muita gente nos últimos anos. Então é uma memória, né, não é uma coisa que eu acho que a gente consegue tanto replicar hoje em dia, né.
Dinâmica de família muda porque aconteceram coisas, e eu acho que a gente vai ter oportunidade de falar desse desdobramento. Mas também tem uma coisa que as famílias, elas têm um ciclo, né, as pessoas morrem, as pessoas mudam de território. Você ter sua avó paterna e materna junto, vocês estavam nesse mesmo território que que não é muito comum hoje, né? Conta um pouquinho desses começos assim.
Eu acho que assim, a coisa do hoje em dia, pelo menos assim em Salvador, uma cidade que a gente acaba se mudando, não mora lá o tempo inteiro, né? Então todo mundo— eu tenho um irmão hoje que mora em Lisboa, tem um outro irmão que mora aqui em São Paulo, meus pais são casados, ficam pingando de cidade em cidade atrás dos netos, né? Eu já morei em Salvador, já morei em São Paulo, agora tô morando no Rio, já morei em Milão. Acho que a dinâmica da família mudou um pouco de quando era dos meus pais, por exemplo, que todos moravam na mesma cidade, viviam juntos com todo mundo, casas próximas ou casas que as pessoas se reuniam.
Então acho que isso mudou muito assim essa convivência, né? Então acho que esse é um ponto estrutural assim da história. Aí política também, obviamente, tem esse impacto, né, de comportamento, de você se identificar com outras coisas e por outros caminhos assim. Não necessariamente tendo alguma ruptura, mas acaba visão de mundo. Quando você muda de cidade, você constrói outras referências de família.
Eu chamo isso de afinidade, né? Você tem as suas afinidades, né? E às vezes não tem na família muita afinidade, né?
No caso assim, com meus irmãos e com meus pais, a gente tem muita afinidade. Assim, não teve muito, pelo contrário, assim, a gente se dá muito bem. Assim, eu tenho com meus irmãos uma relação muito próxima, muito boa, assim, com meus sobrinhos. É tudo muito Muito próximo. A geografia que não facilitou, que não ajuda, né?
Sempre foi assim? Como é que era quando vocês eram pequenos?
Porque também sempre foi assim, obviamente com a dinâmica de brincar, né, de briga, de não de briga séria, mas de coisa de criança, disputas, né? Mas sempre foi muito próximo assim, sempre. E depois na adolescência, eu tenho um irmão que é mais próximo de idade, o outro não é tão, são 2 anos e meio, 5 anos de diferença. E a gente, enfim, acaba que tem muita afinidade. Tiago, que mora em Lisboa, acabou de lançar um livro também.
A gente gosta muito de literatura, gosta muito, visão de mundo parecida. Então tem uma, acho que essa relação com os irmãos é uma grande referência de família assim para mim. E meus pais também, que são casados há mais, sei lá, estão juntos há mais de 50 anos, né? E de fato vivem juntos e E com uma harmonia muito grande também, assim, e convive com a gente também. Então é tudo muito—
E essas avós, porque você fala da casa das avós, como é que elas entram nessa história?
Eu acho que no caso das avós e meus pais, enquanto a gente morava todo mundo junto na mesma cidade, também replicavam isso. E eu replico isso com a minha família de afinidade. A gente sempre gostou muito de receber as pessoas em casa. Uma família aberta para receber as pessoas sempre, assim. Eu diria que assim, mais receber a família em casa. Eu tenho essa característica de receber mais de fora, né? Acho que dos meus irmãos, acho que eu sou quem tem mais essa característica de ter estabelecido uma outra família por afinidades, né?
Então minha casa é muito cheia assim. Sempre eu faço almoço todos os domingos quando eu tô em Salvador, recebo amigos diferentes que eu já considero parte da família. Natal geralmente eu faço para quem não Não tem uma casa para ir também, então acabo reunindo as pessoas. Então acho que essa atitude assim de querer reunir as pessoas ao redor em casa vem dessa experiência na casa de meus, de minhas avós, dos dois lados, dos dois lados, dos dois lados.
Se davam bem elas?
Elas não lembro exatamente muito delas juntas, mas era uma coisa meio uma dinâmica parecida assim nas duas casas, sabe? E a gente replicou isso, meus pais também, quando a gente, meus amigos todos de colégio viviam lá em casa.
Mas esses de fora meio via filhos assim? Isso. Não tanto os amigos dos pais, mas...
Isso. Então meus amigos de colégio, que são meus amigos até hoje, conhecem meus pais, iam passar final de semana lá em casa, ia pro sítio. Então acho que esse aprendizado assim de família, eu acho que...
Você acha que era uma família que se voltava muito pros filhos?
Com certeza sim.
Porque senão você teria mais os amigos dos pais também.
Não, também tinha os amigos dos pais, também tinha. Era meio lugar de reunir mesmo as pessoas, eu acho que era mais, que era mais isso assim. Tinha uma, a gente foi criado numa casa muito grande assim no sítio, que era um pouco longe da cidade. Então final de semana todos os amigos iam passar o final de semana.
Vocês moravam no sítio?
Vocês moravam no sítio?
Ah, como é que é isso?
É um sítio que era na época era meio distante da cidade, hoje a cidade cresceu em Salvador. Então era um sítio que as pessoas iam, um sítio mesmo com com espaço, com piscina, com tudo. Então os amigos todos de colégio se reuniam lá, os tios, os primos. Então a gente teve uma juventude assim muito movimentada assim dessa relação de família assim, ou de amigos de escola. Para mim é uma sensação de sempre ter gente ao redor, que depois quando eu fui mudar de cidade e tudo mais, a gente vai aprendendo a lidar mais com a solidão.
E tem cidades que você não consegue ter essa relação de— aqui em São Paulo, por exemplo, quando morei, nunca consegui estabelecer essa essa dinâmica. No Rio de Janeiro, que eu já consigo assim de realmente ter essa coisa dos encontros.
Interessante como você vai trazendo como os territórios fazem diferença na estrutura familiar, né? Quer dizer, Salvador também da sua infância não é igual Salvador de hoje, mas ainda é uma cidade que a gente sabe que mais pessoas circulam melhor, né?
Para mim tem uma coisa que eu não sei explicar em relação a Salvador, porque assim é um lugar que eu Que é como se fosse, mesmo que eu não encontre com minha família estando lá, eu me sinto recarregado, me sinto realinhado em termos de minha frequência, como se eu tivesse voltando para origem mesmo assim. Tanto que na pandemia, quando deu 3 dias, eu peguei o avião e fui para Salvador e passei lá 5 anos direto lá depois, né? Mas é uma coisa assim, se eu tô em São Paulo 3, 4 dias, já começa a ficar meio murcho.
Sim.
E aí vou para lá.
Algo a ser estudado, né? Algo a ser estudado. Eu não sou de lá, alguma coisa acontece, alguma coisa Quando a gente chega ali, que eu não sei o que tá no ar, tá na água, tá no—
eu não sei. E aí eu tenho essa relação de voltar para lá do território. São Paulo para mim tem um outro lugar muito oprimido de trabalho mesmo, de aqui eu não consegui ser feliz aqui em São Paulo.
Sempre tem um lugar do consumo, um lugar uma certa compulsão, tem um pouco de medo de sair das aparências talvez, porque assim, dependendo do como você chega no lugar, com a roupa, com o carro, e a praia talvez ela ela cria essa coisa meio democrática, né? Você pode estar de chinelo e camiseta e não faz tanta diferença.
Tem uma relação minha com a cidade mesmo que eu fico muito deprimido aqui em São Paulo. E Rio de Janeiro não, eu tenho uma relação parecida com Salvador assim. Então para mim realmente cada cidade tem um vínculo assim. E Salvador representa essa grande família assim, porque além de minha família, de ter crescido lá, da origem, de como me formei como pessoa, pela religião também, eu sou de Candomblé, que é uma religião que eu entrei tardiamente, mas foi onde eu entendi a fé.
Eu era um jovem ateu, sempre fui questionador nesse sentido, sempre. Apesar de ter sido criado na religião católica, mas eu sempre não falava muito de Deus e não achava que existia. E aí, quando eu tive contato um pouco mais com candomblé, primeiramente pela via intelectual, entendendo que era uma dinâmica que fazia mais sentido para mim, depois quando eu pude entender a força ali do contato com os orixás e de acreditar em alguma coisa e ter uma perspectiva de mundo por outro viés, também me criou um outro pilar que eu posso dizer que também é uma relação familiar, que é essa experiência da crença e dos ritos, né?
Candomblé, a gente repete muitos rituais. E o que é família se não é também repetir rituais, né? Reviver o mito. Diversas vezes da origem, né, da origem. Então Salvador também tem esse território um pouco para mim, de onde você disse que foi tardio e você ainda morava lá ou não?
Fala um pouco da tua saída de lá.
Eu morei lá até os 23 anos, 24 anos, e sempre trabalhei muito. Era um jovem de direita carlista, era uma coisa assim bem— minha família inteira É uma família muito antiga da Bahia, né?
De classe média alta.
Minha família literalmente chegou nas capitanias hereditárias. E a gente então tem esse mapeamento todo assim. Coronéis. Um outro tataravô meu foi quem, sei lá, era o Barão de Jaremoabo, que combateu Antônio Conselheiro e sabe, tem todas.
Nossa, conta isso daí.
Tem todo um contexto. Minha família realmente é um outro O outro avô meu chegou a ser presidente da República no final do século 19. Então assim, tem uma família muito tradicional nesse lugar, apesar de não ser uma família bolsonarista nem nesse lugar agressivo de direita, mas é uma família que sempre teve ali nesse lugar de conforto, nesse lugar. Então eu era um jovem, a direita era só direita, né? Eu era um jovem de direita assim na faculdade ainda.
E depois eu vim mudar para São Paulo para trabalho e eu comecei, talvez eu comecei a ver o mundo de outra forma ao sair de casa, eu acho. E comecei num processo de autoconhecimento, um processo crítico também do meu próprio pensamento e conhecer outras pessoas e buscar uma perspectiva mais humanista de alguma forma assim muito intuitiva assim, tava dentro de mim já, mas ali eu tava performando uma coisa na minha infância, na minha adolescência ali.
E aí eu fui me transformando numa outra, eu fui encontrando, fui me transformando, mas eu fui deixando aflorar um outro lado assim e fui virando uma pessoa, se for colocar no lado político, enfim, mas uma pessoa mais progressista e mais humanista nesse sentido, preocupado com questões que são questões existenciais assim, que eu acredito para humanidade, para sociedade. Comecei realmente a me transformar nesse sentido e me criticar Então tive um processo de crítica do que eu vivi, do que eu fiz, do que eu já falei, do que— e fui construindo uma identidade que tinha mais a ver com quem eu—
Mas nessa chegada em São Paulo?
Eu acho que foi na saída de Salvador. Não sei se São Paulo tem esse crédito, mas acho que foi na saída de Salvador.
Você poderia ter permanecido ali, porque devia ser um ambiente bem protegido para você, né?
Super protegido, super protegido. Mas é muito bom a gente ter a possibilidade da gente se reinventar.
Você tava procurando isso quando você saiu de lá?
Sim, eu acho que tava assim, eu acho que era mais do que me reinventar, eu acho que era, tem uma frase do Agostinho da Silva que eu amo, que é o que guia todo o meu pensamento hoje, inclusive de gestão de carreiras artísticas, inclusive de gestão de marcas, meus livros são a base, é essa frase que eu li em 2005 e ali foi quando virou a página um pouco para mim, que é torna-te quem tu és e seja contagioso, né? E essa frase é muito forte porque ela diz o seguinte: se você for quem você é de verdade, você vai perpassar a vida das pessoas, você vai ser contagioso no sentido de você tá conectado com mais pessoas e tá vivendo uma outra vida não isolada, né?
E o axé, que é o candomblé, é um conceito que diz que você tem que fazer o que te leva para frente. O axé é uma energia que te faz você realizar mais, que faz você se movimentar para frente. E eu juntando essas duas coisas, eu entendi que eu sou o que me leva para frente. O que me leva para trás eu posso abrir mão, pode ser até parte de mim em algum lugar, mas eu, a minha identidade é o que me leva, leva para frente, o que faz eu estar mais feliz, mais potente.
Realizar mais, tá mais seguro, tá mais potente no sentido de menos vulnerável também, mais forte. Então acho que eu comecei a trabalhar essas características minhas que me davam a sensação de tá indo para frente e de fato indo nesse sentido. Então acho que foi essa saída de Salvador, o contato com esse conhecimento filosófico, né? E o contato com esse conhecimento também filosófico do candomblé que fez eu começar a ir trabalhando em mim essa lapidação da minha identidade, assim.
Engraçado que você me fez lembrar que eu também tenho uma frase mantra, a ver o que que isso diz do inconsciente, mas é uma frase bem pop do Beto Guedes que eu amo. Eu sempre pensava nisso em algum momento que eu tava meio, sei lá, baixo astral, qualquer coisa, e até repeti para minhas filhas recentemente, que é deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo. Então quando eu só tava meio O pessoal, calma, velho, deixa tua luz brilhar, todo mundo tem a sua, fica tranquila, né?
Engraçado, a gente captura algumas coisas que dizem da tua experiência, do teu momento, você não sabe exatamente o quê. A gente ouve milhares de frases, milhões de frases, né? E alguma coisa reverbera, né?
Eu gostei do tranquilo.
É, tranquilo.
Tem uma frase de uma música de Candomblé que fala, sem paz haja lá, não há felicidade. Então acho que tem um pouco a ver com isso, né?
E essa saída, então você sai porque você tá buscando alguma coisa, você encontra algo diferente do que você tava procurando, você acha que era isso mesmo?
Eu acho que eu entendi assim, tá, quem eu sou de fato, né? O que é que me define? O que que eu quero que me defina também, né? Isso, quando teve um choque, quando você, um cara direita com uma família de elite, com uma tradição, meus pais não são ativistas militantes, nem são, nem definiria eles como pessoas de direita. Sabe? Meu pai trabalhou com Antônio Cármen Magalhães a vida inteira e sempre dizia, eu trabalho na área empresarial dele, eu não me meto nas questões políticas.
De alguma forma eles tinham trabalhado com isso. Então meu pai nunca foi político nesse sentido, então não teve choque nenhum disso assim, na verdade. Quando eu comecei a me envolver um pouco mais com política, com ativismo, foi lá para 2013 no Rio de Janeiro, né, que movimentou tudo ali, né. Aí talvez eles tenham ficado um pouco mais preocupados com segurança. Ou com segurança própria de discurso também, né? Você fala coisas na rede, brigas na internet.
Você acha que foi, era uma família mais arejada? Sim, sim, mais progressista.
Sim, não sei se eles se definiriam assim, mas sim, na prática sim, é uma família muito progressista nesse, na prática. Você perguntar, eles vão dizer que não, talvez.
Mas que interessante, né? Porque às vezes a gente, porque a gente reconhece o outro em ato, né?
Porque eles têm um discurso no ato Totalmente. Mas no discurso, uma dificuldade de se definir, ou até uma falta de necessidade, talvez.
Sim, pode ser, claro.
Se definir assim. Então não chega— com meus pais sempre foi tudo muito tranquilo, com meus irmãos também, que são também pessoas mais progressistas, declaradamente, já declaradamente progressistas. Acho que é uma coisa geracional também. Talvez na geração dos meus pais, naquele contexto da Bahia, eles não precisassem se definir de alguma forma.
Às vezes não tava tão polarizado, né?
Não tava tão polarizado. E as redes sociais acabam que fazem com que a gente se expresse mais publicamente, né? De alguma forma. Que até uma coisa que no livro eu falo, que não é necessário, você não precisa dar opinião sobre tudo, mas a gente acaba—
as escolhas elas acabam sendo transparentes, né?
Acho que sim.
Onde você tá ou deixa de estar num dia de manifestação importantíssima, né? Que fica subentendido alguma coisa, né? Quer dizer, O que você consome, o que você não consome, como você se apresenta, onde você compra tua roupa. No fim, mesmo que sem querer, né, a gente fala da neutralidade, mas na verdade a gente tá sempre transparecendo algo, né.
E nesse processo de transparecer, foi muito bom ver colegas meus de faculdade voltando para mim dizendo, cara, como é que você se transformou positivamente nisso, né, com pautas. Porque não era a pessoa que eu era na juventude assim. Então vários amigos meus, amigas, né, que eu tinha embates na faculdade ideológicos e tudo mais, voltaram recentemente. E aí fala, pô, como é que interessante sua jornada, né?
Que você fez a faculdade aqui em Salvador, lá, e você vem para cá quando acaba a faculdade. Isso. Então como é que esses amigos estão se referindo ao tempo da faculdade? Eu estava indo, ainda tinha um discurso de direita na faculdade, super, e batia boca com o povo.
Era meio oposto, né? As pessoas falam que realmente quem não é jovem esquerda, jovem marxista, e termina como direita, tá errado. Eu fiz o oposto, né? Eu comecei como um jovem carlista de direita e hoje eu tenho um posicionamento mais claro nesse sentido, assim, declaradamente e orgulhosamente uma pessoa mais progressista.
Você acha que você tava defendendo um pouco a posição da tua família?
Acho que não. Eu acho que era uma coisa de seguir um pouco a onda ali de onde eu tava.
Sim, teu ambiente.
Ambiente geral, assim, do privilégio. E de realmente não ter contato com nada muito diferente. Eu acho que era um pouco isso assim, mas fico feliz de ter feito essa jornada assim. E olha, eu olho também para aquele Pedro de um jeito também positivo também, não é fase, né, que eu passei ali, que foi, me levou, me trouxe onde eu estou hoje, que eu tô super feliz onde eu tô hoje, né.
Então você sai desse ambiente e aí chega em São Paulo, encontra o quê?
Mais uma vez assim, não é sobre vir para São Paulo, é sobre sair de Salvador, sabe? Que eu acabei de falar, mas alguma coisa aconteceu ali nessa passagem. Eu acho que eu sair do fluxo da vida que eu tinha, me permitir ver outros fluxos, outras, ver de longe aquilo, né? Tem essa história roots and routes, como a raiz se alimenta quando você vai seguir seu caminho e como o caminho também fica, torna-se mais próspero quando você volta a alimentar sua raiz.
Eu acho que ali foi o momento que eu saí. Acho que ali foi o momento que eu saí. Passei a valorizar muito mais minha cultura depois que eu saí.
Então, porque tem essa história de que aí você vai para o candomblé, que é onipresente em Salvador.
Depois que eu saí, é isso. E aqui em São Paulo, no Rio, não, Salvador. Mas eu ia muito a Salvador ainda, mas a minha religião, quando você volta para lá, você já volta em busca de uma outra coisa, uma outra identidade quase assim. Meus amigos de infância são totalmente diferentes dos meus amigos de Salvador que eu tenho hoje. São mundos completamente diferentes. Hoje eu moro no centro histórico em Salvador, que é totalmente diferente.
Morava no sítio, sabe, um condomínio fechado. Então é uma mudança que numa cidade relativamente pequena você tem realmente mundos completamente diferentes, né? Então para mim isso tudo foi muito— é isso, acho que a coisa de sair, sair de uma zona de conforto, sabe?
Você vai falando que a tua história familiar, né, particular particular dentro dessa história, mas uma história totalmente territorial, né? E a gente sabe como território ele é totalmente atravessado pelas questões de classe, de raça, né? Questões políticas, né? Quem pode morar no centro, quem não pode morar no centro, que centro é esse que nas nossas capitais é sempre um tanto deteriorado e de repente fica gentrificado. Então tem umas contradições em relação ao território, na periferia empobrecida, no fim você vivia numa aspas periferia, que não é periferia por conceito, mas em território ela é fora do centro, né?
E como você precisou sair para poder voltar num outro lugar, não foi possível fazer esse movimento ali, né? Você precisou de um distanciamento. Claro que não é assim, não é só um distanciamento de quilômetros, é psíquico, né?
E afirmativo também. Por exemplo, era sócio de um clube há 25 anos, eu saí do clube, tá?
Você saiu de vários clubes, saí de vários clubes. Escuta, mas aí a família falava assim: Pedrinho, que você tá morando no centro da cidade, menino, vem morar aqui com a gente, é muito perigoso. Eu vi isso dos familiares.
Não, isso não, porque meus pais, enfim, me conhecem, acompanharam esse processo meu, né? Não é que foi uma surpresa para meus pais, eles acompanharam esse processo.
Você acha que eles admiraram esse processo ou só temeram?
Admiraram, acho que eu fiz coisas que eles gostariam de fazer.
Como é que você acha que eles gostariam de ter feito?
Porque assim, agora, por exemplo, esse mês eles passaram uns 2 meses, 1 mês lá em casa, meus pais, que tava em obra a casa deles, ficaram na minha casa no Centro Histórico. Eles amaram. Assim, eles sempre olham de um lugar de muita admiração assim por essas belezas que estão por aí.
Você acha que você capturou inconscientemente algumas dicas de que esses pais curtiam? Com certeza. Conta desses pais, quero saber mais deles.
Minha mãe sempre fala assim, ah, eu quero tanto ir para o carnaval, vai ser ótimo. Aí começa, marca, faz programações de carnaval no bloco tal e vai, no final não vai, mas sempre quer muito ir, né?
Você sacou que tinha uma coisa assim.
Sempre assim. Meu pai também sempre trabalhou com cultura, mesmo do lugar de executivo, ele sempre foi um incentivador da cultura. Então ele sempre fez muito, promoveu muitos artistas locais, produziu muitos shows e participava, incentivava e fazia parte. Então ele tem essa, tem essa vivência ali, tanto meu pai quanto minha mãe. O pai dela, meu avô, tinha uma agência de turismo que era no centro histórico, então que era no bairro do Comércio.
Então ela ia, trabalhava lá, eu ia lá quando criança, do lado do Mercado Modelo. Minha avó era professora de história, na biblioteca no Palácio do Rio Branco, também na Praça Municipal. Então tinha essa vivência ali com eles desse centro. Mas interessante que eles em si não viveram nessa profundidade, eu acho que eu fui, né? E eu fui bem fundo, né? Porque além de eu ter voltado afirmativamente, me deslocado, quer dizer, tem amigos meus de infância que nunca foram no meu bairro, e o meu bairro é o Pelourinho, é o Santo Antônio do Carmo.
Pessoas que nunca nem foram Foram a primeira vez quando eu chamei pessoas que moram em Salvador e que nunca nem viajam tanto, embora. Então assim, é bem. E quando eu voltei, volto primeiro experimentando candomblé, depois de fato iniciado, morando no centro histórico. E aí me torno secretário de Cultura e Turismo dessa cidade que eu amo, com uma pauta totalmente racial afirmativa em direção à periferia e ao povo negro de Salvador.
Que a maioria mais é periférica no poder. Eu fui fundo nisso, de verdade, assim, foi um mergulho na minha cidade, assim, de poder realmente ir fundo e de verdade, né? Eu digo sempre que assim, o impacto é onde sobrar, só alcança. Então não é só de ficar postando e uma baianidade que a gente vê muito, baianos em São Paulo, uma baianidade folclórica, como ir lá e viver isso. Eu vivo isso. Hoje e nos últimos anos. E foi muito transformador para mim, assim.
E é interessante que, embora minha família não viva isso cotidianamente, como você disse, eu acho que intuitivamente eu dei um passo.
Sim, eles flertavam e você casou, né?
Acho que sim.
Alguma coisa você sentiu que tinha uma possibilidade ali, talvez um desejo mesmo de—
É, eu acho que eu fui no caminho deles, assim. De alguma forma, mas fui para outros lugares assim que eu pude ir.
Você escolheu, né?
Escolhi.
Porque é uma família que tinha muitas possibilidades de escolha, né?
Totalmente, foi uma escolha. E nesse sentido de buscar quem essencialmente eu sou. Então tá ali, não é que eu inventei, tava ali.
Sim.
Mas eu acho que eu fui assim, isso me fez um bem enorme assim. De identidade, de coisas que me levam para frente, né, de fato.
Como é que era essa família então? Papai e mamãe ficaram casados até hoje, já faz uns 50 anos que eles estão juntos.
Meus irmãos também casados.
Esse modelo de papai e mamãe na casa com os filhinhos e avós te marcou como?
Tem esse lado que é um lado super estável, mas minha família também passou por uma tragédia da AIDS. Que deu uma desestabilizada assim muito grande na minha adolescência. Essa casa feliz de minha avó, ela desmontou quando o tio meu teve AIDS entre 87 e 94, ou seja, bem naquele momento que ninguém sabia exatamente o que tava acontecendo. Imagina essa família tradicional, o preconceito que eles não passaram.
Irmão de quem?
Irmão de minha mãe.
Irmão de sua mãe. Quantos anos você tinha?
Eu tinha 7, 8 anos, e eu acho que ele devia ter uns 30, talvez, ou 27. E a gente conviveu com aquilo sem saber o que era, né? A gente criança, né? Acho que esse trauma, a tragédia que foi AIDS para milhões de pessoas, né? E eu só fui entender isso depois com muita terapia para entender o impacto disso também na minha identidade sexual e como eu lidei com sexualidade, lidei com a própria sociedade, porque foi uma época muito importante da minha vida, né, dos 7 aos 15.
Sim, sim.
Então é bem definitivo assim. Então é uma família que tem essa camada estável, mas que não deixou de passar por seus, claro, por seus dramas, né. Então acho que esse fato também é bem determinante assim um pouco na nossa identidade minha e dos meus irmãos assim. A gente lidar com esse.
Como é que foi? Essa família lidou como?
Era uma família muito feliz lá da minha mãe, sempre com muita festa. Meus avós eram super feliz. Eu não lembro direito, na verdade. Eu tô tentando resgatar um pouco, né? Mas você via um tio muito querido defiando, né? E o preconceito, a gente não sabia o que era aquilo, na verdade, né?
Ninguém falava.
A gente era muito criança e foi um longo tempo adoecendo.
As pessoas, vai estar doente, era uma coisa meio assim, né?
Lembra? Salvador, 87.
Sim, sim, sabe?
Então é uma coisa bem velada assim. Acho que meus pais, meus avós, eles não sabem. Quem é que sabe lidar com isso, né?
Você acha que eles mesmos sabiam do que se tratava naquela época?
Não, né? 87, 88.
Mas sabiam que esse tio que usava drogas, ou essa contaminação foi?
Não, acho que foi uma coisa corriqueira, como foi para todos os outros ali. Não tinha nenhum estigma nesse sentido. Mas essa questão toda foi um momento que eu acho que a família acabou se retraindo um pouco, mas viveu essa tragédia, né? Porque não é só a doença, também o preconceito e tudo mais. E uma família totalmente normativa vivendo um preconceito era uma— imagino que seja uma novidade, não é uma coisa normal, né? Para quem conversa sobre isso até hoje, muito pouco, porque Ainda dá, acho que tem muito sofrimento ali ainda. Então a gente conversa muito pouco sobre isso.
O paradoxo é que o sofrimento fica ali ainda porque ninguém conversa sobre isso, né?
Exatamente.
Dos times, da torcida.
Quando você convidou para vir para cá, eu falei, pô, acho que eu vou entrar nesse assunto, porque é uma camada que às vezes as famílias não falam.
Fica um luto em aberto, né?
Fica um luto em aberto. E hoje, vendo tudo que se passou, acho que meu irmão também lembra muito disso, assim, a gente vai entendendo um impacto na nossa identidade, mas não também de um jeito assim, até fazendo um disclaimer para minha mãe, meu pai, eu tô bem, né? Não é isso, é uma coisa que a gente vem trabalhando há muito tempo. Mas o que a gente passou em conjunto em família, o que eu passei, eles passaram muito pior, né? Pela idade, pela consciência, por estar mais próximo de tudo.
É uma marca em nossa família que a gente cuida, cada um do jeito do jeito que pode. Então, ao mesmo tempo que tem essa identidade estável de uma família arejada, sim, isso faz com que a gente também passou por situações que transformaram a gente de uma forma muito definitiva, eu acho assim, tanto no sentido de reforçar a questão da convivência e como é bom ter os filhos perto e ter os amigos, e como isso no fim é uma fortaleza quanto também de entender o que é que uma tragédia humanitária como foi aquela também impacta famílias privilegiadas também, né?
Então acho que tem, são várias camadas assim um pouco dessa história. Que assim, minha sexualidade demorou muito para eu entender ela, porque para mim naquele momento, pelo que eu vivi de informações, não literal, mas subliminarmente, era quase uma sentença de morte. Ser gay era um, em algum momento poderia, para uma criança, para um jovem que tá descobrindo uma sexualidade, é uma coisa. O seu tio era gay? Era gay. Não sei também quanto era uma identidade pública que ele era gay, não sei exatamente qual era o nível de exposição disso, mas assim, então para mim isso foi um impacto grande na minha própria definição da minha identidade sexual, assim, porque Eu fiquei durante muito tempo, eu só fui entender isso na terapia, faço terapia há 30 anos, que assim, pode ter filho, pode casar, será que eu vou viver mais do que os 30 anos?
Eu achava que eu ia morrer cedo. Casamento para mim, a minha família, para mim, Pedro, sempre foi uma coisa que talvez eu não imaginasse ter.
Quem é um homem, cara, eu imaginei que eu fosse morrer cedo.
Não, e modelo eu tinha, porque tinha minha família.
Não, mas você tinha modelos de casais gays vivendo, tendo nada disso?
Não tinha amigos gays, não tinha amigos de meus pais gays, não tinha essa relação assim que eu lembre assim. Então para mim, durante muito tempo, minha identidade foi assim: eu vou— não é que eu tinha essa proibição assim, mas eu não enxergava uma possibilidade de casar, ter filhos e ter o meu núcleo familiar.
Não tinha representatividade nenhuma de outra forma de vida, né?
Tem um lado da família que nem é um lado desse meu tio, tem um lado esse lado tourinho, que era um lado mais tradicional, família grande, que eles diziam assim: tourinho, viado nasce morto.
Uau!
Era o tipo de frase que eu ouvia num tom meio de, não sei se não era de brincadeira, mas assim, outro dia eu até voltei esse assunto que eu falei, gente, a gente não pode deixar esses comentários homofóbicos virarem uma brincadeira, porque isso mexe com as pessoas. Eu ouvia isso. E de um outro lado eu tinha um um tio homossexual que estava de fato morrendo. Sim, né? Isso fez com que eu não tivesse nem a possibilidade de vislumbrar um futuro em família.
Que nessa identidade que eu fui me trabalhando e aprofundando em mim mesmo, do tipo, quem é que eu sou? O que é que de mim vai me levar para frente? Eu fui criando uma outra, e Pedro também, uma outra força assim para poder ser o que eu queria ser de fato, sabe? Então eu casei ano passado Em Salvador, um evento que eu fiz, a gente, eu e Kevin, fizemos questão de ser um evento grande, histórico, histórico. Chamamos a família inteira, fizemos inclusive num lugar, numa instituição católica que minha família, parte da família, mantenedora há muitos anos, que é a Casa Pia dos Órfãos de São Joaquim.
Um casamento com o pai de santo e a gente fazendo votos de casamento, de família. Para a sociedade. Minha avó de 96 anos estava presente. Ela é a mãe do meu pai.
Escuta, mas deixa eu só comentar uma coisa que eu acho super importante assim, é quando tem essa frase, que é uma frase não tão original, né? Porque prefiro um filho morto do que gay, nessa família não nasce gay.
Isso não era meus pais, isso não, mas essa é família grande, era uma coisa que vinha ali naturalizada numa cultura da família, era ela era preferida por X, mas ela era tolerada por todos por ação e omissão, né?
A questão é que essa frase ela pode ser incorporada de um tal jeito que ela vai dar lugar a esses suicídios, sim, né? A essas depressão, não, e cada pessoa não se cuida e adoece, ela se mata porque ela faz o ditame familiar. Então eu nasci gay, eu sou um erro, eu me identifico com essa frase, eu odeio os gays, eu me odeio, e de repente a pessoa suicida. Quer dizer, então é difícil porque isso vai sendo incorporado também pelo sujeito, né?
Na época o que aconteceu é que eu não me via gay, na verdade. Então não, para mim não é, eu não lidei com isso nesse lugar de não pode. Eu lidei no lugar de não endereçar esse assunto.
Você acha que você se defendia até de se imaginar nesse lugar? Acho que sim.
Então perdi, na verdade, assim, entrei direto, muito, comecei a trabalhar muito cedo. As minhas relações afetivas nesse lugar de namoro, de companheirismo, nesse sentido, não existia. Então eu fui muito para o backstage, fui trabalhar, fui estar nos bastidores, fui fazer outras coisas para que eu não aparecesse ali de alguma forma, né? Então acho que eu só fui entender a minha sexualidade já próximo dos 30 anos. Nesse processo de fortalecer quem eu sou, nesse processo de me fortalecer, eu fui entendendo, ó, isso faz sentido, isso não faz sentido, isso me faz bem, isso me faz mal, isso, por que que eu tô me sentindo mal por isso, porque que eu tô me sentindo bem com isso.
Você foi tendo experiências, eu fui tendo várias experiências, não só em relação à sexualidade, mas em relação a tudo assim. Por que que isso aqui me faz bem? Por que que eu falo essas coisas? Faz sentido o que eu tô falando? Eu acho que eu entrei no processo muito de análise mesmo. Sempre fiz análise, tem 30 anos que eu faço análise, mas momentos diferentes e não continuamente, no sentido de não é a mesma analista 30 anos, né?
Mas houve sim um processo meu de autoconhecimento e de buscar o que que fazia sentido para mim. E chegou no ponto que eu falei, que eu pensei, não, isso aqui é o que faz sentido para mim, é isso que me fortalece, é isso que me dá prazer. É isso que faz com que eu me sinta livre, me sinta potente. Então é isso que eu sou. Essas outras coisas que eu reproduzo não necessariamente são coisas que eu devo alimentar como uma identidade que me leve adiante, né?
Essa coisa da identidade que não me pertence, mas ao mesmo tempo faz parte. Eu acho que eu encontrei um jeito muito pragmático de lidar com isso, que foi realmente o que me faz bem, me leva para frente, eu mantenho e fortaleço. O que me faz mal, me atrasa, eu Eu trato, eu não boto debaixo do tapete, eu trato e aprofundo.
Perfeito. Quando você, então, quando você sai de Salvador, você ainda tá no meio dessa busca, né? E aí quando você volta, e a religião é interessante porque é uma religião muito aberta à questão queer, né?
Quer dizer, então é ao contrário, a religião mais aberta à comunidade LGBT que existe no mundo.
Exatamente. Já de saída, porque eu acho que nem tem a questão LGBTQIA+, mas não tem assim, ela já tá totalmente naturalizada dentro dos próprios, dos próprios orixás dentro, né? Então é interessante porque você vai para lá, nesse processo escolhe essa religião também, no meio desse processo de descoberta de que você é, que é como se já desse uma dica.
Quem me incentivou muito para ir para essa religião, você não vai acreditar porque é muito aleatório, mas uma vez eu recebi Fernanda Yang em Salvador porque uma amiga em comum falou assim: ah, você tá indo para Salvador? Fala com Pedro que ele vai te receber lá. Eu tava alguma temporada morando em Salvador, 2007, alguma coisa assim. E aí a gente saiu para almoçar e conversamos muito, várias coisas. Ela falou: eu amo candomblé porque é a única religião em que não existe o conceito de pecado.
Sim, sim.
E aí eu fiquei com isso na cabeça, que é verdade, né? Não tem culpa.
É o budismo também, né? Mas acho que candomblé tem outras coisas tão interessantes quanto.
A Fernanda Yang me disse isso, e isso fez com que eu talvez me conectasse mais pelo lado intelectual. Aí eu passei uns 10 anos estudando candomblé. Candomblé, indo ali vendo pelo lado intelectual da coisa, que é o jeito que você faz, é o teu jeito. E aí depois eu me iniciei em 2017 de fato, e aí eu vi que tudo que eu li na verdade era muito pouco diante da experiência, da experiência. Mas foi Fernanda com essa frase de dizer que no Candomblé não tem pecado. Eu acho que eu me senti meio—
é lindo porque não tem pecado, mas tem responsabilidade pelo que você faz, tem consequências, né? Não é da ordem de alguém que vai dizer isso aqui tá certo, tá errado, mas é da O mal está disponível. Isso, cada um faz o que quer com ele e assume o que que volta disso daí.
Então foi a Fernanda, é uma gratidão com ela por isso.
Uau!
Mas voltando, uau!
Então você, bom, aí tem esse luto não realizado com essa morte, essa, isso que você pôde fazer, né, com isso, que é muito lindo, né? Porque se ser gay é uma sentença de morte que tá no ar, em dois sentidos, na morte real que se presenciou sem saber o que era, mas também não digo nem de uma pessoa da sua família, mas de todo o discurso social que essa fala reproduz, né? O gay não deveria nascer. Isso, você se virou naquilo ali, você falou, meu, não é que eu vou ter que encapsular isso até a hora que dias melhores virão, né? E aí quem sabe eu posso até me perguntar o que tá.
Eu acho que o fato de eu ter um núcleo familiar muito acolhedor e estável, meus pais e meus irmãos, eu acho que fez toda a diferença também para que eu conseguisse sentir lastro amoroso, né? Porque não é que eu saí ou que eu fiquei só, ou que eu— não, eu sempre tive eles ali comigo. Sim, o luto foi de todo mundo, na verdade, assim, o que a gente viveu nessa história. Cada um lidou de um jeito, mas eu acho que a gente se manteve ali e cada vez mais unido ali, mesmo sem necessariamente endereçar o assunto, que é muito doloroso para minha mãe principalmente, né?
Claro, tanto pelo sofrimento em si e também pelo preconceito que eles viveram, que eu acho que é um preconceito que nós LGBTQIA+ vivemos mais ou menos, né? São vários níveis, né? Eu vivo muito menos porque eu não sou totalmente heteronormativo, mesmo sendo declaradamente homossexual, mas pela minha Enfim, eu me criei até os 30 anos quase como homem hétero, branco, com todos os privilégios que isso tem. Então é de outro lugar, né?
Mas ainda assim há atravessamentos. E esse momento ali da família foi o momento que a família inteira de alguma forma teve contato com esse preconceito.
Sim.
Então até imagino o medo que eles tiveram inocentemente de ter um filho que fosse passar também por isso eventualmente, mesmo que não seja literalmente.
Mas sim, porque às vezes fica confundido, né, para os pais, o que é da ordem do preconceito. Esse filho não responde ao meu modelo de filho que eu queria ter, então não é narcisicamente me preenche, porque eu quero um macho alfa. E o que é da ordem do não é isso, é do medo que esse filho sofra com aquilo. Então você acaba, porque são duas coisas bem distintas, né, são coisas que também podem dar muito errado, mas uma em prol do filho, tentando proteger, às vezes de um jeito muito tacanho. E outra é, meu, você não me pertence, né? Não era isso, né?
Isso eu não tive nunca essa, nunca essa vivência dentro de casa. Mas o medo que eu também tinha, eu lembro os primeiros exames de HIV que eu fazia, mesmo sem ter transado com ninguém, eu tinha certeza que ia dar positivo.
Sim, que interessante, né?
É, mesmo sem, é uma sentença, é uma culpa também, né?
Como se fez aquilo, vai dar nisso, né?
Mas eu nem tinha feito isso propriamente, sabe?
Então assim, judaico-cristão, né?
Conversando com outros amigos gays, eles também passam por esse medo ali, sim, dos primeiros exames que a gente faz. E é uma coisa que realmente torna assim um— hoje você tem a questão do PrEP, né, dessa, desse protocolo que você consegue tirar essa sombra da cabeça, mesmo que você nem esteja correndo risco de fato assim. Mas para mim foi outro ponto que eu comecei a localizar esse medo de onde é que vinha, né? Então por que que eu tô com medo de dar um exame positivo se eu não—
Por que que você localizou, Pedro?
Não, aí fomos voltando para isso que você tá falando, né?
Mas nem todo mundo tem uma— porque assim, bancar o desejo é difícil para todo mundo, né? Então eu acho que bancar o desejo na cultura que a gente vive, né, que a gente tá impregnado nela de pecado, enfim, sempre vem com uma cobrança, né, que pode ser para o homem, mulher gay, né, algum adoecimento, algum problema. A culpa vem de qualquer jeito, a culpa vem de qualquer jeito, só que ela tá materializada na ideia de que— então às vezes as meninas nem transaram, deram um beijo, já acham que estão grávidas.
Mas é claro que é todo um grupo que foi ostensivamente culpabilizado, né, violentamente culpabilizado, condenado, né, condenado. Então acho que a gente tem uma outra camada que já bate com uma coisa que temos, que é até culturalmente achar que o nosso desejo é pecaminoso de saída, que ele, né, a reprodução é para, né, o sexo é para fins reprodutivos. Então é na gente de algum jeito esse tipo de discurso, né, mesmo que muito inconsciente.
E essa busca pelo que me fortalece, eu acho que foi muito bom nesse sentido, porque eu fui começar a tirar as coisas que não faziam bem.
Sim, mas é uma escolha pela, é meio pragmática, mas é uma escolha importante sustentar, né, que é a escolha do desejo, da vida, da né, de se cuidar, né, de escolher o que te faz bem.
Eu acho que tem um elemento que é assim, um desejo da coerência com quem eu sou, com a identidade. Sempre que eu penso alguma coisa, que alguma decisão errada que eu possa tomar, ou quando eu penso fazer alguma coisa, desisto, eu fico pensando: faz sentido para mim isso? Vai me fazer bem? Não é que não vai me dar dificuldade, porque essas escolhas do desejo e do e da coerência existencial, elas passam por você escolher passar por desafios, por questões, né?
Mas elas são decisões muito mais acertadas, porque ninguém nunca vai te julgar. Podem até te julgar, mas você não vai ser condenado por ser quem você é. Obviamente, muita gente é condenada por ser quem é, mas no sentido, você não pode se condenar por estar dizendo a verdade, por ser verdadeiro. Você pode até assumir o erro e arcar com as consequências, Mas os erros são seus, né? Então para mim também foi um entendimento que veio também desse contato com a filosofia yorubana, assim, de realmente o certo pelo certo, a verdade o vento não derruba, algumas frases que fazem com que a gente vá fortalecendo quem a gente é.
E enquanto está satisfeito com uma sensação de que o caminho que a gente tá percorrendo tá dando certo.
Eu te ouço, mas para mim, como associação minha, fica como se fosse um direito inalienável de ser si mesmo, assim, algo que ninguém pode te dizer: não seja você.
Eu penso na questão de direito, mas eu também, até pela minha formação depois como pessoa que potencializa carreiras artísticas, é também uma estratégia, uma estratégia de sobrevivência, sobrevivência, e não só sobrevivência, uma estratégia de prosperidade. Eu acho que você escolher ser quem você é é muito mais próspero, seguro, potente do que você tentar idealizar ou construir uma, ou sustentar uma imagem ou uma verdade que não seja sua.
Mentira dá muito trabalho. Sustentar mentiras, ilusões, demanda uma energia vital gigantesca. Se eu tô errando pelo que eu sou, eu tô pagando por isso, é a conta. Agora, eu pagar por uma coisa que eu não sou—
eu tenho um colega psicanalista que fala que no sintoma a gente perde no atacado, né, e acha que tá aí, você perde no atacado e achar que tá levando a maior vantagem do mundo, né. Na verdade, você perde no atacado, você não é para defender um varejinho de, né. Mas, e aí você volta para essa família e se assume assumir a sua sexualidade e volta para essa família? E como é que é chegar para eles e assumir perante eles?
Eu acho que foi muito orgânico assim, na verdade. Eu acho que eles foram—
você acha que já sacavam?
Acho que sim. E foram percebendo que eu estava bem assim, e portanto eles ficaram bem com isso, sabe? Tipo, eu acho que eles foram percebendo a minha potência crescendo, eu acho, minha identidade, foram te vendo mais feliz, melhor, mais Então acho que isso no fim assim nem foi um assunto, porque você sacou inconscientemente que tinha possibilidade, aquilo era assunto que era palatável.
Porque assim, às vezes a pessoa fala, nunca falei, mas você não falou a questão do luto do seu tio, por exemplo. Não é que ninguém falou, falou sobre esse assunto, não falaremos. Mas o clima que dá para cortar com uma faca de tão pesado que fica, que você saca que não dá para falar. O tabu, ele é um tema que poderia ser dito, mas ele não é porque você o clima, né, o clima de dor.
Você tem onde tratar, idealmente você tem onde tratar disso, né. Necessariamente, eu tenho famílias que eu conheço de amigos que bota tudo na mesa do jantar. Eu não sei se é tão por aí.
São dinâmicas familiares, né. Sim, eu também admiro, mas assim, nem sempre se resolve, né, porque às vezes é só uma catarse da catarse, é só uma repetição e não elabora nada, né. Às vezes se resolve. Então também eu que não tem um jeito certo, errado.
Minha família é mais da depuração do que da catarse. Então as coisas vão se sedimentando e vão se compreendendo. Até porque, como a gente convive muito e não tem ruptura, sabe, não tem esses momentos de catarse, mas é um momento mais de depuração, eu diria assim, sabe, de conversas que vão se estabelecendo e surgindo de uma forma, tudo de uma forma muito suave, totalmente suave. Assim.
Acho que tá mais para Dorival Caim do que para trio elétrico.
É a família do meu pai, que é família Torinho, e a família Pereira Torinho, na verdade duas, né? É uma família que é muito amistosa assim, não são pessoas de grandes altos e baixos, sanguíneos, não, todo mundo muito amistoso, muito legal, todo mundo é muito legal assim, amigo de todo mundo. Então por mais que eu tenha ouvido esse tipo do documentário culturalmente ali. Obviamente, tenho certeza que se eles soubessem que poderia ter alguma criança gay ali, é um jovem gay, acho que eles não falariam. Mas acho que era uma coisa tão—
e uma coisa da época, era muito liberal esse tipo de frase, né?
Então acho que é uma coisa que eu acho que hoje eles não se falaria isso totalmente, ou não se passaria ileso. Sem alguém fazer algum tipo de correção, né? Tô falando dos anos 80 em Salvador, sabe? Então não é uma família que seja bélica. E então por isso foi muito natural para mim. Então no meu casamento tava todo mundo, chamei minha família inteira. Então super natural assim, todos super amistosos e tudo mais. Eu que ainda tenho algum resguardo nesse sentido, não de achar que de convivência, não de achar que, de culpá-los ou de puni-los, ou de, é porque realmente as marcas ficam, né?
Então tem, eu ainda não me sinto totalmente, tem memórias familiares que para mim hoje não dizem mais, apesar de ser memórias que eu citei, os encontros familiares, hoje eu não participo mais de todos. E aí às vezes eles me cobram, por que você não vai? E aí já tive até conversas um pouco mais profundas nesse sentido. E eu falo, o que eu vivi de homofobia na minha infância e adolescência foram muito determinantes na forma como eu lido com o mundo e como eu me transformei.
E eu sou muito feliz com quem eu sou hoje, mas o tempo de eu retomar uma convivência familiar como era antes vai ser o meu tempo.
Sim, sim.
É quando eu me sentir bem para isso e não quando vocês acharem que eu devo me sentir bem para isso. Porque para— é o meu tempo, que você não estaria mais uma vez sendo captulado pela sensação de, sei lá, pela família normativa, tipo, pô, era uma besteira isso.
É, tem que desbravar, né?
Tem que ficar de parada. Porque por um naturalismo, não, não preciso.
Vamos fazer a lição de casa, depois vocês me chamam.
Vamos fazer meio isso, vamos fazer a lição de casa, depois vocês me chamam. Ou depois eu posso perceber que vocês fizeram e posso voltar.
Sim, sim.
Mas é importante que as pessoas também saibam que essas marcas ficam e que o tempo é nosso também de curar. Não é no tempo do que agora você se eletrou e agora, agora eu sei. Não, são dois tempos diferentes, né?
Que legal você respeitar isso.
Então eu vivo nesse meu tempo e eles às vezes me cobram, não meus pais, meus tios, meus primos, pô, a gente tá sentindo sua falta, você não tá no grupo da família, você não tá aqui, você não tá ali. Eu falo, mas eu amo vocês, adoro vocês, mas você é para passar raiva. Ah, mas eu passei o Sim, eu sei o que eu passei. Sim, eu vou cuidar disso para mim e vocês cuidam de vocês. Em algum momento a gente esteja, mas ao mesmo tempo, né?
Não que eu vá e me sinta agredido, que tem qualquer— não tem. A família é muito legal mesmo assim, não tem. É uma coisa mesmo do meu processo de entendimento da minha, do que eu passei ali, e de ser muitas vezes afirmativo no que não quero mais. Sim, como eu te falei, isso me enfraquece, não vou viver isso mais, não preciso viver isso mais. Então eu vou para outro lugar. Se isso não, em algum momento isso não me sentir muito fraco, é tão legal, é uma negociação tão boa entre o amor e o limite, né?
Entre o afeto e o que você não, que não é tolerável receber do outro, mesmo de pessoas que você ama. Porque a gente vai tolerando, né?
Vai tolerando receber, não é nem que eu fosse receber algum tipo de reação, ou de— é mais o gatilho, sim, das experiências anteriores, marcas mesmo.
Precisariam de um, talvez de uma retratação mais clara ali, né?
Aí você fala, uma retratação também não sei se eu queria não, sabe? Sim, eu acho que é mais uma coisa assim, melhorem, tipo, me entendam, eu estou mais distante porque eu passei por isso. E não tô culpando ninguém, não tô cobrando que ninguém também, mas assim, entendo que eu estou aqui por isso e não me cobrem uma outra coisa, né?
Vamos para a segunda pergunta então. O que que você fez com isso? Porque agora você casa, né? Você vem de uma família, você tem todas as referências. E eu queria agora que você trouxesse um pouquinho dessa família que você tá formando. O que que você pensou para estar vivendo?
É, foi super— no casamento eu falei isso, né? Os votos diziam mais ou menos assim: Eu desejo que você seja o máximo do que você possa ser de você mesmo, e é que eu seja o máximo do que— a frase exata não é essa, era melhor, mas que cada um seja cada vez mais si mesmo e não que seja o outro. E que eu não acreditava que eu poderia casar, eu achava que eu ia morrer cedo, não achava que casamento era uma possibilidade. E hoje, Kevin fala, a gente fala de filhos, e para mim filho nunca foi uma possibilidade. Mas não que eu não queira, é que eu nunca tinha pensado nisso, nesse lugar.
Mas você deseja?
Eu desejo. Mas é que para ter uma coisa seguinte, para o casal heterossexual é uma coisa quase que você não tem nem que desejar, é quase, quase não, é imposta, né? Imposta. É tipo assim, se vira, engravidou, foi. Nós temos que nos planejar, tem que fazer processos de adoção, enfim, que dá chance para pensar o desejo de fato, né? E eu não me dava o direito de desejar isso, porque eu achava que não tava no meu horizonte isso. E aí Kevin trouxe isso para o meu horizonte, o que é formidável.
Então a gente tá se planejando já para começar esse processo, que não é uma gravidez, mas que é um processo também, é a gravidez de alguém, né? Com certeza, longo, né? Então a gente tá construindo uma família assim completamente, ao mesmo tempo que é completamente diferente do que eu via como família é completamente igual, porque é uma casa cheia de amigos, de primos, de tios, de irmãos convivendo junto aos domingos. Enfim, ao mesmo tempo que é muito diferente, é muito igual, né?
É igual na forma, mas tem um desejo—
não no desejo, porque é prática, né? Na dinâmica da felicidade em conjunto, da comunhão com os amigos, da casa aberta. E aí a dificuldade, se eu sou homem, se ele é homem, quer dizer, se são dois homens se relacionando, se os filhos, como é que serão os filhos, isso vira um arranjo quase que, sei lá, não é burocrático, mas é um arranjo que fica pequeno diante do que é a dimensão da família e de amigos e de tudo, né? Eu acho que estruturalmente isso é um, é quase como se a gente não lembrasse que no dia a dia a gente tivesse o direito e a vantagem de não lembrar tudo que a gente passou, né?
Porque Kevin também passou por situações, outras situações de homofobia relacionadas ao racismo, que ele é um homem negro. Então são outras, outras dinâmicas que a gente passou, mas acho que a gente, na nossa condição familiar, a gente tá conseguindo viver uma dinâmica de família como a que a gente, as boas lembranças que a gente tem das nossas famílias, sabe?
É interessante porque essa estrutura de cuidado, de responsabilização, de estar junto, de troca, né, que seria o que significa uma família, né? Quando ela não fica com essas marcas de tem que ser um homem, uma mulher, tem que ser consanguínea, tem que, tem que, tem que, tem que, tem que, né? Tem que ter uma religião X todo mundo, porque também quando você volta do candomblé, você também fala, olha, gente, assim, não vou. São valores diferentes, são crenças diferentes, né?
Então cabe a diferença, rituais diferentes, dedicações diferentes, né? Hoje em dia o católico diz que é católico e vai na igreja simplesmente, né? Então é difícil se dizer do candomblé sem ser um frequentador, né, que tá ali dentro de uma comunidade, né? Então esse arejamento faz muita diferença, porque realmente as pessoas que estão dentro da família são de fato cuidadas do jeito que elas são. Porque, por exemplo, você conta do seu tio, ele poderia poderia ter sido expulso de casa, ele poderia ter sido expulso de casa até antes, né? Porque são famílias tão fechadas.
Foi super acolhido. O que todo mundo viveu foi uma tragédia da vida.
Sim, sim.
Que poderia ter sido—
Então isso já é um diferencial da família heteronormativa cis, porque geralmente ela é montada para se fechar em si mesma e rejeitar tudo que não for igual a ela. Ela se reproduz nessa ideia. Então quando você diz que essa família, embora seja cis heteronormativa, tem uma poderosidade que você testou o limite, que eu testei o limite, e você não foi expulso, né? Não saiu sem arranhões.
É claro, claro, caminhar da vida é assim, né? São esses, poderiam ser outros.
E a próxima geração dos seus filhos e sobrinhos já vão viver outra coisa, que não é sem os atritos dentro de qualquer família. Não vai ter família sem atrito, dificuldades da vida, e as coisas, atravessamento, sem questões, né? Não é, a gente não tá achando que então vai ter a família que não tem contradições e não tem problemas, não é isso. Serão outros, mas não esses, né? Tem uma porosidade.
Eu acho que a questão, o que que a gente faz com isso, né? Eu acho que essa forma pragmática que eu encontrei de fortalecer minha identidade foi muito boa, na verdade, assim, que é tipo, investe no que te leva para frente.
Mas você sabe que isso não é uma ideia, né? Isso é uma coisa que só funciona, essa frase, para você Porque ela tem muito lastro em algum lugar inconsciente, senão seria só uma frase, né? Quer dizer, tem algum lugar no qual você fala, meu, eu tenho direito, eu posso, tá garantido para mim que eu posso fazer essa escolha. Tem gente que não pode fazer essa escolha.
Eu acho que minha família possibilitou isso, sim, sem dúvida, mesmo que ela não tenha vivido, viveu, né? Na verdade é uma família que viveu isso de alguma forma, né?
Só deles estarem todos na igreja onde que você, no teu casamento, já mostra que eles fazem uma escolha procura, olha para o bem deles também, né? Eles não querem perder um membro, eles não querem se afastar.
Isso nunca foi nenhuma possibilidade assim, né? Então acho que é interessante isso, porque é uma família totalmente maravilhosa assim, o que não nos deixa imune às questões da humanidade.
Nenhuma família. Só que isso é importante, porque às vezes as pessoas acham, ah, então a gente tá dizendo que essa família que tem problemas e as outras não terão? Não, todas têm, todas têm, porque são seres humanos convivendo numa super intensidade, com atritos, com com diferenças, né, com anacronismo, com uma época, com atravessamentos de tragédias e acontecimentos do mundo, né. Uma família maravilhosa.
A nossa família não teve atrito, teve tragédia, sim, mas não é uma família de atritos. Isso é um privilégio, acredito, maravilhoso assim. Uma família que se dá super bem.
Então o que a gente passou junto foram questões da sociedade que a gente foi super É, e de como a gente consegue ou não falar sobre isso, né, sobre os efeitos disso, porque senão ficam os lutos muito difíceis de serem elaborados, né. Porque a gente pode falar do que é da dor, que é difícil falar da dor, né. A gente quer só olhar para frente, não quer se debruçar sobre esse cenário.
Isso é um ponto que eu acho que assim, que para andar de cima dos meus pais, eu acho que é mais difícil. Não fazem análise, não são tão religiosos, Então acho que eles lidaram de um jeito que eles tinham ferramenta para lidar, que já no andar dos meus irmãos a gente já trata isso.
Já deixaram um legado melhor para vocês do que eles receberam.
Acho que eles entregaram para a gente melhor.
Agora, quando você diz para essa família, tem coisas que eu não vou fazer com vocês porque tem marcas, você também tá dizendo, olha, tem coisa que a gente talvez precise ainda, não dá para fingir que não aconteceu, né? Acho que é importante que fica marcado, não vamos passar por cima disso, né?
Sim, então deixa lá a questão de alguma forma para que eles, quem quiser, trabalhe, se quiser. E também uma sensação de que a gente não é obrigado a nada. Isso, né? Porque todas as, todo mundo se encontrava todos os dias durante toda a infância. Quem tem que se encontrar todo mundo todo dia durante toda a adolescência? Beleza.
Quer dizer, essa coisa compulsória que é horrível na família, né?
E não quer dizer que seja ruim, mas é meio dado como se fosse o esperado. Sim, não é nenhuma regra, mas o esperado. E eu acho que, meus irmãos, a gente se deu o direito também de não seguir essas, o esperado. Que eu acho que meus pais ficam meio tristes com isso, porque eles viveram uma outra dinâmica de família, com primos e tios, muito grande, muito unida. A gente não é desunido, a gente simplesmente não convive tanto entre uma família macro assim.
Mas ninguém brigou com ninguém também. É tipo, a gente não precisa também forçar uma barra. Sim, sim, né? Dado que teve marcas, né, que tem. Então o que que faz sentido? Então minha casa é uma casa super familiar, super de amigos de anos, de amigos de 20 anos, amigos de 30 anos, amigos de 5 anos, amigos de 3 meses. Todo mundo frequenta junto. Então eu tenho uma experiência de família que não anula minha experiência anterior. Eu acho que ela seja só possível porque, por conta da minha experiência anterior, mas que é diferente.
Pedro, que delícia te ouvir, que suavidade, que sabedoria! Foi muito, muito bom te ouvir. E a tua história, eu acho muito linda, muito bacana.
Eu tô muito feliz de poder— a gente, como eu tava dizendo no início, nessas camadas a gente não vê das pessoas, né? Então poder também falar sobre isso, e não é uma sessão de terapia, mas eventualmente terá um efeito terapêutico para mim, para muita gente.
Para mim, com certeza. Obrigada, querido.
Obrigado.
E agora a gente faz uma coisa que é pedir para você me perguntar alguma coisa.
Em que momento a gente consegue estabelecer uma cura de uma dor antiga? Ou uma— em que momento do processo terapêutico ou no processo de autoconhecimento a gente diz assim, pô, isso curou? Quer dizer, que momento eu vou poder dizer para minha família assim, ó, eu, isso não me fere mais?
Eu respondo essa pergunta instigante do Pedro no Pergunta à Vera. Esse episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise sai às quintas-feiras aqui no feed do podcast. Até lá! Esse foi o podcast. Isso não é uma sessão de análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem, e a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.