Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

Marjorie Estiano busca nas personagens o que ainda quer entender sobre si

26 de maio de 202653min
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A atriz Marjorie Estiano cresceu entre o rigor, a independência e a sensação de que precisava dar conta de tudo sozinha. Na conversa com Vera Iaconelli, fala sobre família, controle, dificuldade de pedir ajuda e a tentativa de se escutar mais aos 44 anos. Fala também da atuação como um lugar de intensidade e investigação: uma maneira de acessar perguntas sobre ela mesma que ainda seguem abertas.

Ouça “Como ser mãe?” na Audible, nova audiossérie de Vera Iaconelli, com roteiro de Andrea Del Fuego e direção e produção da Trovão Mídia: https://www.audible.com.br/pd/Como-ser-mae-Audiolivro/B0GZ133PLQ

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Participantes neste episódio1
M

Marjorie Estiano

ConvidadoAtriz, cantora e compositora
Assuntos8
  • PNL como ferramenta de autoconhecimentoPersonagens como espelho · Processo de construção de personagem · Entrega e intensidade na interpretação · O papel social da atuação
  • A vida cotidiana dos padresRelação com o pai falecido · Relação com a mãe · Influência paterna nas escolhas de vida · Desejo de sair de casa
  • Memórias de infânciaFamília de Marjorie Estiano · Infância em Vitória da Conquista · Memórias sensoriais e afetivas
  • Reconstrução de identidade e autonomiaIndependência financeira e pessoal · Transição de classe social · Herança de valores familiares · Legalismo e flexibilidade
  • Relacionamentos FamiliaresDiferenças entre o ideal e o real da família · A família como célula 'hardcore' · Rejeição à ideia de ter filhos · Amizade como forma de família
  • Relação com o CorpoSomatização de emoções · Exercício físico como ferramenta · Importância do sono e alimentação · Dificuldade em pedir ajuda
  • O papel do humor em momentos de tensãoHumor como mecanismo de defesa e salvação · Não se levar muito a sério · Oscilação entre foco e dispersão
  • Tratamentos e TerapiasProjeções na figura do analista · A influência da personalidade do terapeuta na escuta
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Trovão Mídia Oi, eu sou a Velha Conelli e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia.

Aqui a gente fala sobre famílias, no plural. A cada episódio, eu recebo uma pessoa que mostra mais uma das múltiplas faces que formam as supostas famílias tradicionais brasileiras. Famílias que, na verdade, estão sempre longe dos ideais e com os quais nos identificamos a partir das próprias imperfeições.

Hoje eu converso com a atriz, cantora e compositora Majoris Tiano, a filha da Marilene e do Eurandir, a irmã da Ellen e do Marlos.

Ser ou não ser mãe é um desses dilemas que se apresentam para muita gente e que aparece em quase todos os episódios desse podcast. Cabe a nós nos havermos com os nossos próprios desejos, com as ambiguidades e com as perdas que toda escolha carrega. Na minha nova audiosérie, que já está disponível na Audible e se chama Como Ser Mãe, eu proponho uma imersão sem respostas prontas para as questões que surgem com a maternidade. Cada episódio começa com uma cena de ficção criada pela autora Andrea del Fuego,

A partir delas, eu entro para ligar alguns pontos à luz da psicanálise. Como ser mãe? Está disponível exclusivamente na Audible, o maior serviço de audiolivros e audioséries do mundo, da Amazon. Ouça com 30 dias de teste grátis ou 3 meses se for membro da Amazon Prime. Basta clicar no link aqui na descrição desse episódio com a Marjorie. Te aguardo.

Oi, Majorie. Oi, Vera. Que bom ter você aqui. Prazer, que bom que a gente conseguiu. Muito legal. Vamos começar com a pergunta que se tornou um clássico. Qual é a sua referência de família? É o meu núcleo principal, o mais presente, porque a família é grande de um lado e dividida. Meu pai é do sul, minha mãe é do nordeste. Minha mãe é baiana, meu pai é do interior do Paraná, ele é de Maringá.

Eles se conheceram em São Paulo e aí tiveram lá a minha irmã e foram para Curitiba, onde eu nasci e nasceu meu irmão também. Esse núcleo central, que é eu, meu pai, minha irmã e eu, meu irmão, a gente ainda tinha ali os agregados, porque minha mãe é a segunda mais velha de sete e ela fez toda aquela trajetória de ir para Salvador, de Salvador foi para São Paulo, traz o irmão, traz mais outro irmão, ela cuidou muito dos irmãos todos.

E aí alguns foram pra Curitiba também. Então, meu convívio foi muito com esse meu núcleo central. Aí eu tinha o Maiúcio e a tia Vera, que é de São Paulo. Tia Maiúcio é irmão da minha mãe, casado com a tia Vera, que tinha dois filhos, o Vinícius e o Vitor.

E a tia Lia, que é Maria Cláudia, irmã da minha mãe também, que também tinha um filho, o Ilan. E a gente convivia. As crianças eram, era esse grupo aí. Eu, minha irmã, meu irmão, Vitor Vinícius e Ilan. A gente estudava na mesma escola, ia todo mundo junto, final de semana todo mundo junto. Era esse o grupo mais assíduo.

Pouca viagem, assim, mas muito encontro em casa. Churrasco, final de semana, todo domingo era churrasco. E aí reuni a família, esse núcleo todo ali. Aí, às vezes, num determinado momento da minha vida, acho que mais ali na pré-adolescência, eu comecei a passar as férias com as minhas primas de Londrina, que são da parte do meu pai.

Eles moram ali em Londrina, que é a Bruna e a Roberta, com o tio Edson e a tia Clé. E aí eu passava as férias com eles, ou em Cianorte, que era onde morava a minha avó, mãe do meu pai. Acho que o meu círculo ficou bem isso, assim. Eu pouco fui para a Bahia, muito embora... E a família mora em Vitória da Conquista. As primeiras memórias da minha vida são de lá. São imagéticas e sensoriais, assim, né? Eu me lembro...

do cheiro de banana frita, da casa um pouco mais escura, de madeira escura, com maçanetas altas. Acho que eu devia ter uns quatro anos essa minha primeira memória da vida. E foi lá, em Conquista.

Mas a gente convivia muito pouco. Eles vinham um pouco pra Curitiba e a gente ia... Eu acho que eu devo ter ido, talvez, essa vez. Que marcou, né? Ficou uma memória afetiva importante. Super. Nossa, eu estive em Salvador há pouco tempo, no final do ano passado. Fiquei no Pelourinho e eu tava numa posada. E aí eu senti... Ele fez o rapaz no café da manhã, trouxe banana frita e eu chorei. Ai, que lindo! Foi!

Eu falei, gente, não sei porque eu tô chorando. Ai, que lindo isso. Puts, gostei disso daí. Me identifico totalmente por esses momentos epifânicos, barra, atravessados. Que quer dizer o quê, né? Eu fico intrigada. É, são memórias efetivas importantes, né? Eu sou o tipo de pessoa que chora diante de uma banana frita fácil. Um lugar que você foi pouco e que te marcou, que te leva às lágrimas.

E você recupera um pouco dessa tua ascendência? Você sabe que cada vez mais com o meu amadurecimento, eu fico mais voltada para a minha origem, para tentar descobrir quem são, ter algumas respostas, conhecer de novo, porque quando a gente conhece durante cada período da nossa vida, respectiva a sua capacidade de compreender aquilo naquele momento da sua vida.

Agora, eu acho que eu fico tentando rever, por exemplo, meu pai faleceu já tem um tempinho, mas a minha relação com ele continua, sabe? Eu continuo pensando quem foi a criança, quem foi o jovem, quem foi o pai, como é que era essa pessoa, assim. Eu continuo pensando nele, continuo refletindo sobre ele, assim como com a minha mãe que tá viva e que pode talvez me dar mais respostas. Obrigada.

Ela está com 75 Nossa Já compensou uma coisa aqui Eu me identifico muito com essa relação Com o pai que já foi E no caso do meu pai, meu pai era muito mala sem alça Mas ele tem umas lembranças Que eu converso com ele

acontecimentos importantes da minha vida que eu penso, ele ia falar tal coisa. Claro que eu tô querendo um pai muito melhorado e ótimo, que bom que eu posso fazer isso. Mas assim, nossa, o que ele ia achar desse momento da minha vida, assim? O que ele ia falar? Ele ia adorar. Ele ia falar, filha, que legal, entendeu? Esse pai tá comigo, bicho. Continua viva a relação, né? Viva a relação, gostei disso. Continua viva a relação.

E ressignificando coisas, interferências, né? Interferências no sentido de orientação. Influências, talvez. Influência que ele teve, que talvez naquele momento não soubesse dimensionar a importância daquele gesto dele no desdobramento da minha vida, da minha escolha, da minha carreira, né? Por exemplo, quando eu fui pra São Paulo, minha mãe era contra. Eu fui pra São Paulo com desdobramento. Há muito tempo eu queria ir embora de casa. Há muito tempo eu queria ir embora de casa.

Desde muito pequena, eu tinha um conflito com a casa, com aquele lar. Eu era muito exigente, muito questionadora. Então, eu tinha na cabeça também que quando eu fizesse 18, eu ia para São Paulo.

E aí, com uns 15 anos, assim, até usava isso. Meu pai sempre foi muito bem-humorado, né? A gente se comunicava muito na piada, na brincadeira. E aí ele, quando a gente se desentendia de alguma forma, eu falei, olha, você me aproveita porque daqui a pouquinho eu estou saindo.

Aí ele falou, calma, o que é isso? Eu com uns 15 anos, né? Calma, saindo como? Quando? Eu falei, é isso mesmo. Estou saindo, você me aproveita. E ele foi fundamental, porque minha mãe muito protetora, assim, né? Muito controladora também, assim, querendo um pouco ditar o caminho correto, o caminho que ela achava que talvez fosse o mais acertado, né? Você acha que era mais conservadora, assim?

Cara, isso foi engraçado. Tipo, casar, ter filhos, alguma coisa desse gênero, não.

Eu acho que esse era um pensamento meio padrão da época, especialmente para as mulheres, né? Então, acho que caminhou por aí também, mas ao mesmo tempo era aquela mulher do corre, né? Ela nunca teve muitos privilégios, então ela estava sempre correndo atrás de conseguir se manter, ajudar os irmãos. Então, sempre trabalhou muito, se formou em turismo, depois foi fazer enfermagem, depois fez psicologia.

E trabalhou com meu pai muitos anos no comércio que ele tinha. E meu pai também era mais... Meu pai era um pouco mais impulsivo. Minha mãe era a segurança. Ela financiava, ela sustentava aspirações do meu pai. E é engraçado, porque no patriarcado esse caminho é o inverso. Esse papel, o homem é a segurança.

E a mulher é talvez a mais emotiva. Na prática não, né? As mulheres têm sido esteios das famílias desde sempre, que isso não se fala muito. E continuam sendo e cada vez mais. É o ideal, né? Estou falando do ideal. Sim, perfeito. O que se vende e o que é real. Exatamente. São as provedoras, são os esteios, cuidam dos filhos, a gente vai acumulando aí. E ela sustentava isso, os impulsos do meu pai, assim, um pouco.

Onde eu tava? Olha, conversando com o Piscina não é fácil, não. Eu te conto, amiga, se você não sabe. Mas tava contando do teu desejo de sair de casa e do teu anúncio aos 15 anos, que já tava antecedido de um desejo, né?

E eu acho que também vem um pouco a partir da minha tia Vera, que ela era de São Paulo e ela viajava muito, me levava. Ah, vamos pra São Paulo, vou passar as férias lá, vamos pra São Paulo comigo. E aí eu conhecendo São Paulo e ela sempre muito desbravadora, assim, né? E a minha mãe, ela falou que eu não podia ir pra São Paulo, que eu não tinha a menor capacidade de morar sozinha. Com 18? Com 18.

E isso já não, tipo, você não vai ou tipo... Não vai. Não vai. E o meu pai falou, acho que sim, acho que ela tem que ir. Se ela quer ir, ela tem que ir. E é muito engraçado porque a história deles também, e dela, né? Porque ela foi com 15 anos pra Salvador. Sim. Depois foi pra São Paulo. Ela foi desbravando. Então imagino também que talvez ali na cabeça dela, ela não quisesse que eu quisesse ter tido outra experiência, né? Ah, que interessante.

Quer dizer, o que serviu pra ela, ela não queria que você repetisse, né? Que acontece muito, né?

Os riscos que ela deve ter corrido, tudo, né? Talvez o projeto de que com a filha seria diferente. Ai, coitada das mães. Minha filha não vai engravidar na adolescência. Pimba, engravidar na adolescência. Isso também, acho que na nossa relação em casa, também somos em três, né, irmãos.

E ela teve seis irmãos. Lá em casa, as coisas eram todas muito separadas. Cada um tinha o seu brinquedo. Cada um... A gente dormia no mesmo quarto, eu e minha irmã. Mas eu tenho a sensação de que era tudo assim muito... Cada um tem a sua roupa, o seu presente. Talvez fosse alguma coisa, eu tentando interpretar hoje, alguma coisa impossível para ela com seis irmãos, né? Devia ser tudo muito compartilhado. E talvez não fosse muita coisa para compartilhar. Exato.

Sempre, claro, eu passei pela coisa do... Tenho uma irmã mais velha, então recebia muita roupa dela. Sim. Um ponto de eu querer, por favor. Eu quero nunca comprar uma roupa nova. Eu quero só arrancar uma etiqueta.

O terceiro, então, só vai ter uma roupa nova quando começar a trabalhar e comprar, né? É, no caso do meu irmão, como ele era menino, ele tinha essa vantagem de não dar... Eu era quinta, ele levou muito tempo, viu? Mas aí o meu pai foi por conta dele que eu fui pra São Paulo. E foi muito importante pra mim a saída, essa mudança pra São Paulo. Pro meu adolescimento, pra minha carreira, pra tudo, né?

E a gente ficou meio sem se falar há algum tempo. Não lembro quanto tempo que a gente já não se falava muito. Nossa relação nunca foi de muitos diálogos. Você e sua mãe. Eu e minha mãe. Sim. Mas depois já aos poucos ela foi me respeitando. Essa mudança de casa também foi bem importante. Uma virada assim.

na nossa relação, para entender um pouco que somos dois seres diferentes e indivíduos, né? Porque eu acho que é isso, tinha muito uma ideia de gestão, de controle, de decisões, que não eram individuais, que não diziam, eu faço as minhas próprias escolhas, né? Era um pouco ela, talvez, tentando fazer, orientar as minhas.

E não só isso, acho que vários, acho que meu pai tinha um pouco esse lugar aí mais impulsivo, né? Mais fantasioso, né? Minha mãe era sempre muito objetiva, prática, funcional, né? Do concreto. Tinha brigas ou era só um...

Não me lembro de ver brigas entre os meus pais. É engraçado como os casais, eles se juntam numas diferenças, meio que na esperança de aprender alguma coisa desse outro que você não é e que teme. Admira de certa forma. Mas muitas vezes, você encontra esse outro.

E briga com ele sem parar. Querendo que ele seja. E você tá com ele, não apesar disso, você tá com ele por causa disso, mas tá tentando demovê-lo de algum jeito, e aí ficam esses casais horríveis. E às vezes não, né? Porque você diz que a tua mãe financiava os sonhos do seu pai. Talvez uma coisa que ela não pudesse sonhar através dele, a coragem dele, a ousadia dele, ela pudesse viver aquilo.

É, talvez pelo apaixonamento também. Minha mãe também. Eu tenho descoberto muitas coisas sobre a minha família. Sobre a minha mãe, né? Como eu falei, a partir do meu adolescimento. Eu acho que eu sempre pego carona nas personagens que eu faço. Tentando entender. Para mim, é sempre um lugar para voltar. Os personagens. Sim.

Até porque as duas últimas, pelo menos, foram mulheres da mesma época da minha mãe, né? Então, ali dos anos 70, com um pouco... Mesmo a ar de mundo, eles viviam, né? Classe média, quer dizer, Angela era classe alta, mas Ruth, por exemplo, era mais classe média. Então tinha ali um...

algumas personagens, que não só a dela, mas as outras personagens também tinham suas histórias e viviam dentro do mesmo contexto histórico, cultural ali. Cercadas de um certo tipo de homens também. Também. Os perfis são os mesmos. Isso te aproximou da tua mãe, de entender? Não só ela como mulher, mas como mãe, eu como filha também. Tem alguns momentos muito bonitos.

Análise, é um processo analítico também, compor uma personagem, viver uma outra pele, né? Assim, se colocar no lugar, dentro daquele contexto, daquelas escolhas de vida, né? É necessário você se pensar dentro daquela pele pra viver e construir um personagem. Mas, Juli, eu sou muito, muito apaixonada por interpretação. Assim, se eu tô assistindo uma série e o ator não tem olho, sabe? Não tem presença.

Não consigo seguir. As pessoas vão me falar, gente, eu não consigo. Eu não vou atrás desse personagem por nada. E eu fico muito impactada com a tua interpretação. Acho ela muito madura. Desde sempre. Sempre achei a tua presença maior. Maior mesmo. Você tá lá mesmo.

E é engraçado que eu trabalho com interpretação analítica, né? Até quando eu falo que sou apaixonado por interpretação, eu fico pensando essas palavras ecoam, né? Mas isso é até irritante. Tem coisa... Eu quero ver um filme falando, ai, putz, esse ator tá em outro lugar. Ele tá se olhando na câmera e se achando lindo. Você percebe. Acontece, a gente percebe, né? Você percebe, é um gosto de olho, não sei o que é. E aí eu fico pensando o quanto que isso tem a ver, bom, com o talento incrível que você tem, mas talvez com essa possibilidade mesmo de se entregar ao personagem numa identificação muito profunda, né? Não sei muito bem como funciona essa coisa da interpretação.

Eu acho que o meu processo de construção de personagem, de arco, ele vai sempre muito dentro, se ampara muito em estudo, em pesquisa, em personagens da vida real, em imagens da vida real. Eu, por exemplo, não gosto de assistir outros filmes como inspiração para um determinado tema. Eu gosto de pesquisar pessoas na vida.

E aí acho que hoje a internet ajuda muito nesse sentido, né? De você ter mais acesso. Fico pensando como era antes da internet, onde você tem essa biblioteca, ou talvez você vai, só pode ir a determinado local e viver aquela experiência, tentar viver alguma, por exemplo, sei lá, numa cidade de interior. Então, hoje é mais acessível, ao mesmo tempo também é mais rápido, você tem menos tempo, é dado menos tempo.

a você de estudo pra construir, pra pesquisar, né? Mas eu acho que é isso que vai me trazendo Mas você não se poupa, né? Profundidade. Você vai, né? Eu diria que, assim, eu sou muito medrosa fisicamente, mas psicologicamente...

Eu acho que, assim, não quero sofrer, tipo, não gosto de velocidade, de altura, de água, de nada, que possa ameaçar a minha integridade física. Mas a emocional e a psicológica, foda-se, né? Mas, assim, vai indo e não tem nem noção mesmo, assim, clara, do buraco que você tá se metendo, assim. Às vezes eu vou, eu tenho essa percepção depois que eu tô exaurida, assim, que eu tô...

que não sobrou nada de mim, assim, aí eu vou entendendo, vai começando a dar umas reações na pele, umas coisas na barriga, aí eu vou falando, gente, mas por que eu tô com isso? Somatizando agora, né? Sim, sim. Nem depois e durante, às vezes, também, né? Eu tive, durante esse processo desse último trabalho, tive várias crises de pele, de digestiva, porque...

Às vezes eu acho que eu dou mais conta, assim, e o corpo vai me dizendo que não. E aí eu tento respeitar, eu tenho ali, né, acho que o exercício físico é um ponto que me ajuda muito a manter e adrenar a minha ansiedade. O exercício físico, o corpo sempre, né? Tem esse diálogo de corpo e mente que eles são...

muito unidos e se amparam mutuamente. Tanto um tenta segurar o outro, ou um fala que o outro não está tão bem quanto você acha que está. E eu vou para ele, eu vou para o corpo, vou para o exercício, vou para a natureza, uma análise.

A alimentação é a que mais fica prejudicada nesse processo, porque eu não consigo manter um esquema para ter uma boa alimentação. O sono também é fundamental para uma reparação do seu organismo e da sua cabeça, da minha cabeça. Se eu não durmo...

Poucas vezes eu tive problema com sono. Agora eu tô com 44. Meu sono tá mudando um pouco, assim. Mas eu sempre tive, aliás, mais dificuldade de ficar acordada. Tô rindo aqui porque eu também, cara. Eu tô totalmente assim. Eu durmo super bem. Sou super boa de cama. Acordar que é difícil. Eu dormia em todas as circunstâncias. Mas eu dormia em show, assim.

Nunca dormia de pé, mas eu dormia sentada na mesa durante um show. Dormia em qualquer situação eu dormia. E dormia descansava mesmo. Sim, eu sou essa pessoa total. Sonhava. Tipo, 20 minutos eu sonho, cara. Impressionante.

Meu desejo é parar de achar que existe um jeito certo de ser mãe. A gente entende que cada gestação é única e que cada fase pede cuidados diferentes. Por isso, Nestlé Materna desenvolveu uma linha completa de suplementos para acompanhar você em toda a jornada da maternidade. Desde o apoio à fertilidade para mulheres que estão planejando a gestação até linhas exclusivas com vitaminas e minerais para cuidados na gestação e no perpério. Nestlé Materna, com você, do seu jeito.

Mas eu tenho que voltar numa questão. Quando você fala da sua mãe, você fala de uma transição de classe? Porque ela vem, traz os irmãos. Em que condição? Tudo bem você trazer um pouco? Eu acho que sim. Eu não tenho tanta certeza. A minha mãe foi crescendo, meu pai também. Eles tiveram lá uma ascensão.

Sempre dentro do espectro da classe média, assim. Com mais ou com menos. Por exemplo, a gente estudou em escola particular. Recentemente, a minha mãe quitou a casa. Que eles moram. Foi uma casa paga, acho que, em 30 anos. Sim. Com financiamento, né?

E ela falou assim, ah, aqui estamos a casa. Eu falei, que casa? Ela falou essa que você está vivendo, que você viveu a sua infância toda. Então, eles cresceram um pouco, mas a gente teve, assim, escola particular, até o ginásio. Depois eu fui para a pública. Minha irmã estudou em faculdade pública. A gente não tinha muito luxo no sentido de viagens para outros lugares. Assim...

Mas nunca faltou o essencial. Então, assim, nunca passamos. Meus pais passaram perrengue. A gente, nas crianças, não. Mas aí tem a transição de classe, porque seus pais passaram perrengue. Sim, mas eles passaram perrengue ainda já casados com filhos, né? Eu lembro deles sempre muito... Meu pai, então, nossa, muito estressado com dinheiro, com conta pra pagar, com a coisa do comércio, né? Assim...

Mas eles cresceram e depois meu pai precisou fechar o comércio porque não tava... tava endividando, tava se endividando e não conseguia. E ele fechou. E minha mãe ficou durante anos depois lidando com... encerrar esse comércio com os funcionários.

Mas eles tiveram um crescimento, tiveram uma ruptura financeira ali também. Minha mãe começou a viver só do dinheiro do trabalho, porque ela é terapeuta agora. E ela começou a viver só isso, além de ficar trabalhando e negociando dívidas durante muitos anos. Nossa, que coragem, três filhos. Nossa, que leoa, né? Leoa, leoa, nossa.

Então, a vida financeira sempre foi um pouco dentro desse arco, assim. Meus irmãos também, sempre assim, tudo muito contadinho, não tá muito confortável. Tem que trabalhar pra conseguir pagar as coisas, senão... Minha irmã trabalha com pilates, então ela dá aulas que... Férias, ano novo, natal, você não ganha. Então, tem sempre esse...

Não tem o fixo, né? O autônomo, eu conheço bem. E aí você vai ser atriz que talvez tenha dado um gatilho também, no sentido da falta de estabilidade, né? Eu era pra ser a mais instável, né? Da família. Sim. E acabou que por investimento deles, e por sorte, por privilégios, etc. E por talento, né? Tudo junto. Tudo, foi um pacotinho ali.

eu consegui, a gente foi até engraçado, porque bem no momento em que teve essa ruptura financeira da minha família, foi quando eu comecei a ter mais sucesso, mais oportunidade de ter renda, então eu pude suprir as necessidades que eles estavam demandando, precisando. E como é que é isso pra você? Como foi isso pra você? Você tá lá começando e tá ajudando a família, isso era uma coisa...

Eu me sentia em débito, era uma retribuição, assim, também. Ao mesmo tempo, eu tinha medo de não ter, porque agora eu tinha essa responsabilidade. Então, interfiri um pouco nas minhas escolhas também. Eu falei, não, preciso continuar aqui porque eu preciso ter esse fixo, porque esse fixo não é só pra mim, eu não posso me colocar no risco, sabendo que eu tô colocando outras pessoas também. Mas...

É um processo também, é engraçado essa coisa da ajuda financeira também. Ela é delicada, né? Parece que tem algo às vezes moral, algo às vezes que mistura um pouco. Principalmente nas relações familiares que são ainda tão difíceis de se atualizar, né? Às vezes a gente fica às vezes com...

A coisa da infância com a sua irmã. Ah, mas ela falou isso naquela época. Tem umas magoinhas, né? Tem umas coisinhas que você ainda se refere. Não que elas tenham importância, mas elas voltam de alguma forma. Sim, voltam, claro. É, que nunca foram conversadas. Aham.

Por isso que eu falo, assim, pra mim é constante, tem muita coisa ali pra descobrir ainda no meu núcleo familiar. E que eu tenho curiosidade de saber. E tem uma geração de pais que tinha por convicção que os filhos, ao crescerem, deveriam sustentá-los. Que é uma coisa que essa geração de pais já não vê assim. Os filhos têm que se emancipar, seguir a vida deles. Mas essa dívida com a geração anterior era muito forte mesmo, né? Então, agora acabou, não tem aposentadoria, me sustenta, né?

Ah, mas eu sinto isso enquanto uma retribuição com gratidão, assim mesmo. Não, mas isso pode ser colocado assim, isso pode ser colocado como uma... Uma obrigação, né? Uma obrigação moral, né? É. Num lugar ruim mesmo.

que é geracional. Não sei nem se é ruim, se é bom. É simplesmente uma questão geracional, né? Eu entendo que isso existe, mas nunca me vi nesse conflito. Pensando hipoteticamente, teria um pouco de dificuldade de me achar, de me ver obrigada a isso. Nem se sentiu em nenhum momento da parte deles nesse lugar. Acho que não. Não me lembro de ter sentido isso.

Mas uma coisa muito interessante, né, Marjorie? Porque eu acho que quem não te conhece, ou pelo menos eu não tinha essa impressão, muito pé no chão com a coisa da grana, né? Muito. Muito pé no chão. E eu acho que isso é herança da minha família. Acho que a maior herança dos meus pais é caráter, é valor, é ética, é compromisso. Ai, que melhor herança ainda mais hoje, né? Onde nada disso está valendo mais.

Mas o meu trabalho também é dar um pouco mais de contorno e flexibilidade pra isso. Porque isso foi escrito na pedra pra mim, sabe? É muito forte. Legalismo, né? É acima de qualquer coisa. Eu sei que isso pode ser terrível. Eu também vivo um pouco isso. Ainda estamos no lucro, porque a gente vive em tempos muito complicados em relação a isso. Mas sim, flexibilizar, deixar de ser tão legalista.

Tentar se ouvir um pouco mais, assim, também, né? Sentir, contar menos com o concreto e mais também com o subjetivo, né? Aquilo de o que você tá sentindo, como você... Porque era isso, realmente sempre tudo muito... Não, eu falei que era isso, tem que ser assim. Sim.

Custe o que custar, em qualquer situação, não pedir ajuda. Demorei muito, acho que ainda não tenho facilidade de pedir ajuda. Porque era sempre assim, eu tenho que resolver meus problemas sozinha. Eu tenho que saber, porque é a batalha da independência. Eu acho que meus pais trabalharam muito também pra gente ser independente.

mas você acha que foi mais forte em você ou com seus irmãos também? varia da personalidade eles trazem um cardápio e você escolheu o que você quis e eu acho que assim, a educação também, ela tem algo que se mantém pros três mas também tem a individualidade a minha relação da minha mãe com meu irmão é muito diferente da minha relação com ela e com a minha irmã mesma coisa com meu pai, é muito individualizado mesmo sim

E tem a questão de gênero também, né? Os meninos serem criados de uma forma totalmente diferente, né? É, o meu pai tinha uma projeção também no meu irmão de macho alfa, assim. E meu irmão é completamente diferente. Ele veio completamente diferente desse padrão, né? Ele é muito sensível, ele é minimalista, ele é mais introvertido, ele é lindo, assim.

completamente diferente desse padrão conversador, de protagonista e tal, que era um pouco a persona do meu pai. E como é que seu pai recebeu esse filho que não saiu conforme as projeções idealizadas?

Olha, quando eu saí de casa, ele ainda, acho que ele devia ter uns 14 anos, talvez, 13. E aí eu já não tinha mais esse contato do dia a dia. Mas desde muito cedo era a formação do macho alfa.

Mas acho que meu irmão não tinha tanta consciência disso. Acho que foi a partir da adolescência, que é quando eu já não fazia mais parte, desse núcleo que eles foram tendo um pouco mais de atrito nesse lugar. Acho que foi bem sofrido para ambos. É, sustentar que os filhos nunca saiam contentos, né? Que um dia eles falam, eu vou embora. Você quer que eu fique, mas eu vou embora. Você quer que eu seja macho? Eu não quero.

Eu não sou, né? Às vezes não é nem... Pode ficar tentando uma vida inteira ser isso e não se encontrar ali. Vira uma frustração imensa, né? Vira, mas também é uma prova de amor, né? Que você possa amar o outro, mesmo ele não correspondendo ao teu desejo, né? Que não seja só da ordem de uma ingerência, de uma coisa narcisista.

É, não, eu digo a frustração de alguém tentar ser aquilo que não é por conta dos seus pais. É impossível se alienar ao desejo do outro e se perder mesmo. Porque esse lugar do pai e da mãe é um lugar de, pra mim, sempre foi, e que mistura um pouco com a professora. A minha professora de atuação é a Helena Varvac, e ela sempre teve um lugar ali.

Eu fiquei pensando na análise também, falando com a Beatriz, falei, Beatriz, tem alguma coisa em comum da professora com a mãe também, que eu acho que é um lugar de quem te apresenta o mundo, de quem te orienta, de quem te pega pela mão e te ensina. Os pais ensinam, assim como os professores, é outro universo, mas eu sempre tive uma projeção nos meus professores, um apaixonamento pela figura do professor.

Me lembro até que minha mãe tinha ciúmes de uma. Ela desdenhava assim. Ela falava assim, ah, o que você com essa professora Rosângela aí? Estou toda apaixonadinha pela professora. E aí eu cobrava dela muito esse lugar aí de dar a mão de um jeito mais explicadinho. Minha mãe... Mas são lugares... Eu não sei o que a Beatriz respondeu, até porque o analista fica numa situação complicada. Ela não responde muito. É, foi o que eu imaginei. Ela só fala... É, foi o que eu imaginei.

Imaginei, ponto pra você, viu Beatriz? Você não tá lá pra isso não, viu amigas? Muito bem. Mas é um lugar transferencial, né? Quer dizer, que a gente transfere exatamente aquilo que a gente tem com os pais, a gente transfere as outras figuras. O padre, o professor, né? Essas pessoas que têm um lugar de ascendência sobre nós. São figuras de autoridade.

E no caso pra mim eram professoras Eram sempre as mulheres que me... Eu ficava muito emocionada com as professoras das minhas filhas, porque eu não tive exatamente essa experiência, eu ficava muito encantada Falei, gente, que lindo ir pra uma escola tão legal Enfim, a gente vai passar pra segunda pergunta agora. Vamos. Qual que é a tua referência de família hoje? O que você fez com isso? Essa tua história pregressa, né? Como eu te falei, assim, acho que ela tá...

Porque no início, né como a gente tinha pouco diálogo assim, era uma relação um pouco mais Então, deixa eucher.

individualista, entre os irmãos, nós nunca fomos muito de brincar junto, né? Eu até demandava, eu sempre demandei muito. Falei, vamos brincar, Ellen, vamos brincar, ela não queria, ela queria ver filme, ela queria a turma dela, e eu falei, não deixa eu ir pra sua turma, então, não, não, você fica lá. Você é pequena. É, a gente tinha até uma diferença que nem ela tão grande, eram três anos, mas era separado, eu não podia muito ser amigo dos amigos dela, então...

essa relação ainda está se construindo e eu acho que está cada vez mais interessante pra mim porque antes inclusive com a Beatriz ela falava assim sua família, seu irmão, seu pai não, não, tá tudo certo tá tudo bem eles estão lá, eu tô aqui não é um problema pra mim, não preciso discutir isso

Eu aceito, eu aceito a falta de diálogo, a falta de cumplicidade. É assim que é, pronto, respeito. E ela, eu sentia que ela gostava muito quando falava de família. Um certo ranço psicanalítico. E eu querendo conquistar a Beatriz. Eu falei, tá bom, vou falar de família porque ela gosta, então vou dar isso pra ela.

genial. Vou contar um sonho, porque ela adora ouvir sonhos. Ela adora ouvir sonho. Sempre quando eu tenho um sonho, eu falo, vou notar, mas vai adorar. Isso chama transferência maravilhoso. Mas eu acho que a relação se torna, pra mim, cada vez mais interessante, integrante, me fala muito mais...

sobre mim. Eu tô muito mais interessada na minha vida familiar do que jamais tive, assim. Eu acho que é uma coisa crescente, inclusive, quando eu observo, assim. Então, onde você acha que surge isso? Você pensou em formar uma família a partir de você agora? Uma descendência? Nunca. Ou uma relação estável? Ou amigos? Eu acho até que talvez, por esse ambiente, assim, mais bélico, com a minha mãe e com... Eu falei não quero ter filho.

Não é bom isso, isso não é legal, não quero ter. E depois eu fui, inclusive, com a Beatriz novamente entendendo. Assim, porque eu acho que análise é um processo de autorreflexão, de autoconhecimento, que devia estar ali, junto do português, da matemática, é básico, você precisa, talvez mais importante até do que isso, se conhecer para conseguir viver em sociedade, viver na sua, entre aspas, de plenitude, no seu lugar de...

potente, assim, de comunicação e de entendimento. Você sabe que você pode ter uma mãe maravilhosa, um pai maravilhoso, uma experiência familiar maravilhosa, ainda assim, não querer ter descendência, né? Porque, pelo amor de Deus, né? Sim, claro. Já foi isso o tempo que a mulher tinha que ser mãe, né? Mas eu acho que o caminho que eu fiz foi um pouco esse da rejeição. Sim. Inclusive, rejeitava o romantismo, rejeitava tudo que fosse mais...

amoroso e afetivo. Mas onde? Nas relações amorosas? Nas minhas relações. Eu não, eu sou uma mulher prática, uma mulher objetiva, eu não quero ter filho, eu não quero ser independente. Me aproveite enquanto estou aqui. E depois é que eu fui entendendo também que isso era uma defesa, porque eu queria, eu desejava muito esse lugar e não sabia muito como, então não é pra mim, sabe?

recentemente eu estive em Lisboa com as minhas filhas, eu tenho duas filhas, uma de 29, faz agora, e outra de 26. E eu estava numa coisa muito pegajosa com elas lá, e eu percebi que eu tinha muita vergonha dessas mães pegajosas, uma absoluta vergonha, assim, tipo, eu jamais vou ser essa mulher.

E eu fui ultra pegajosa. Quando eu fui me despedir, eu chorei copiosamente. E foi uma coisa que contrariou todas as minhas expectativas sobre mim mesma. Sabe aquela maniquelogia? Ai, que horrível que é maniquelogia, né? O próprio filho em público, assim. Eu me vi sendo ridícula. Mais aqueles vexames da vida da gente que a gente jura que não vai. E, na verdade, são totalmente reativos. É, que tem isso, né? Às vezes é alguma coisa que a gente deseja muito, mas não tem... Teme, né? De algum jeito. Então, acho que essa coisa do romantismo...

Eu não me considero exatamente uma pessoa romântica, mas eu sou muito mais pegajosa do que eu achei que eu fosse.

Não, pisciano é difícil sustentar isso, é de não ser nada pegajosa e romântica, né? Mas ainda assim, essa coisa do contato físico é a prática, pra naturalizar. Eu estranho ainda, assim, muito contato físico com pessoas que eu ainda tô conhecendo. Nossa, eu te dei dois abraços aqui. Não, aqui, mas foi eu que dei.

Já cheguei abraçando, assim. Não, não, não. Mas o exercício vai naturalizando algumas coisas ali. Tudo bem, você pode tentar entender que eu tenho um limite. Eu gosto de muito contato com o Fusca até esse ponto. E nessas circunstâncias e tal. Mas eu acho que ainda tem muita coisa aí pra explorar. Que é falta de exercício.

E você acha que você encontra relações amorosas que correspondem a essa tua expectativa? Como é que você está? Na minha vida? É, na tua vida. Graças a Deus. Pessoas que tem essa... Que respeitam o teu tempo, a tua sensibilidade. Ah, tem que, né? Não tem outra opção. Não tem jeito. Até porque essa coisa de dar limite é um lugar onde eu me reconheço melhor. Muito embora eu muitas vezes também não dê e só perceba depois que eu não estou dando limite.

Mas que esse lugar mais defendido, mais de um contorno do meu espaço, eu acho que é mais, chega um pouco mais na frente quando eu começo uma relação, sabe? E com os amigos também? Você fala dos limites amorosos, mas como é que é teu círculo de amigos? Eu considero os amigos amorosos também, assim, né? Então, assim, quando eu falo dos relacionamentos com...

Os namorados, assim, junto aí os amigos também. Então, eu tenho essa mesma condição, assim. Eu não sou uma amiga muito assídua, assim. Eu tento, assim. Tem alguns que eu falo assim, não, a gente tem compromissos em se encontrar pelo menos uma vez por ano. E vai ser sagrado. A gente não vai poder deixar de se atualizar nesse um ano. A gente tem que se encontrar. Mas tem poucos, mas muito bons. Muito bons amigos.

Pra mim, isso me incomodava muito quando eu era mais jovem. Não consegui ter essas... Eu queria muito. Mas também tinha as minhas questões com os meus irmãos, né? Então, ficava... Não conseguia, não conseguia. E agora eu tô adorando ter um monte de amigos. Tô achando uma delícia. É um monte. Eu acho que eu ainda tenho que trabalhar. Um monte pra mim...

O que quer um monte pra mim é minha amiga, assim, tipo, mamão, né? Mamão e olhe lá. Mas, assim, talvez amigos intensos, né? Com essa presença mais forte. E eu ligar pra uma amiga e falar, te amo. Pra um amigo, isso pra mim era bem pensado. Sim, leva. Eu levo um tempo pra falar, eu te amo pra qualquer um.

Mas eu me lembro dessa que você falando aí, da coisa da amizade. Na minha infância, eu era aquela que tinha a melhor amiga, sabe? Não, é a minha melhor amiga. Minha melhor amiga e tal. E eu me lembro até de uma circunstância em que uma menina... Eu não me lembro quantos anos a gente tinha. Acho que a gente era muito pequeno. Devia ter, no máximo, dez. E aí ela falou, posso ser sua amiga? Eu falei, ai, que eu já tenho uma.

Como se você já pudesse ter uma amiga. Sim, monogâmica. Eu falei, olha, desculpa que eu já tenho uma. O Gregório tem uma brincadeira, o Gregório do Viver, né? Que ele tem amigos demais que não dá mais pra ter ninguém. Pelo amor de Deus, que eu vou ter que lembrar da data do aniversário. Eu vou ter que, entendeu? Sair, tomar um chope eventualmente. Não, me poupe. Não é o meu caso. E tem aquela criança, aquele meme daquela criança que falou. E os amigos, ela troca por outros.

maravilhoso mas aí quando você pensa numa você não pensa, não passa pela tua cabeça por exemplo, formar uma família ter uma relação duradoura e isso não eu já me considero numa família na minha relação com alguns amigos e com meu namorado então, mas essa é a tua referência de família hoje é isso que eu queria chegar

Porque, justo, porque é importante quebrando esse paradigma de família, que é super moderno, que é moderno no sentido da modernidade mesmo, né? Burguesa, da ideia de papai, mamãe, filhinho, então formamos uma família, né? Tem outras estruturas de laços significativos, igualmente importantes, que...

São as quais a gente não vive, né? E eles são, às vezes, mais fáceis, né? Não que eles sejam fáceis por natureza, eles não são. É uma relação viva até sempre aí, né? Vulnerável às nossas mudanças individuais e os conflitos, a personalidade de cada um. Mas o núcleo familiar, ele tem muitos vícios de infância, de outras fases que você vai, e que é difícil atualizar.

E as projeções. Então, acho que o núcleo familiar, pra mim, é uma célula ali, é uma caixa de Pandora. Eu fico tentando entender, assim, porque ela tá envolta sempre numa roupinha ali de uma moralidade, né? De amor incondicional, de parará. E eu acho que é o núcleo mais hardcore que tem, é o familiar.

Não à toa as violências domésticas são as mais pregnantes e a violência contra a mulher se dá dentro do núcleo familiar. Os estupros se dão por parentes. É claro que essa é uma lógica nossa de família. Quando você pensa que uma comunidade indígena pensa que a família são todos dentro da aldeia, imagina o quanto dilui.

A neurose familiar. Agora, a nossa família é sempre pensada como herdeiros dos filhos. Eles herdam a genética, porque os filhos não biológicos, até pouco tempo a gente considerava que eram os filhos, né, que não tinham o mesmo status dos filhos biológicos. Então, você tem uma herança de bens, você tem herança genética, de valores. É um horror, né? Porque você tem um projeto muito fechado.

tanto para os teus filhos, que eles têm que entrar e ser aquilo que você está esperando, quanto você mesmo como pai e mãe, como se cobram de um certo jeito de ser, às vezes nem aproveitam os filhos que têm, porque ficam imprimidos por uma lógica de eu estou falhando, porque meu filho deveria... Mas esse aspecto da culpa na maternidade, paternidade, imagino, ele é o quê, hein? Ele é... E aí, Vera?

Por quem se culpa? Deixa pra pergunta no final, depois você tem aquela pergunta, você sabe, né? Que já me martiriza até, deixa pra depois. Maravilhoso. Eu queria só saber se, os atores sempre falam que quando eles ficam, né, meses trabalhando juntos, você ficou aqui, né, presa em São Paulo, coitado, seis meses em sua casinha, trabalhando num projeto super lindo que você estava contando, e com esse grupo, também você acha que forma uma certa família que se forma ali, né, de uma intensidade, você vive isso como?

É um núcleo bem específico, assim, esse do trabalho, porque embora seja intenso e parece que você vive tudo ali ao mesmo tempo com uma pessoa que você ainda não conhece direito. Então, a maneira mais, assim, violenta de se conhecer o outro é nos limites deles, né? Então, é na expectativa, é no erro, é na cobrança, e que isso tá sempre pra mim muito dentro do meu trabalho, né? Eu sou...

Muito exigente como uma pessoa, na minha personalidade, eu sempre, né, isso exigente em relação a mim, a minha entrega, aquele trabalho, mas em relação ao trabalho, a entrega dos outros também, então é um processo pra mim também entender que a régua é uma pra cada um. O meu 100% não é o mesmo 100% do outro e é isso que temos, assim.

E também tem aquele que não tem ambição ali no trabalho, que tá ali um pouco mais, sei lá. Tem ambições em outros lugares da vida, que é talvez na família, talvez nos amigos, talvez no social, que às vezes leva o trabalho também ali mais como... É mais uma coisa que eu tô fazendo. E pra mim é tudo. É assim, é o meu trabalho, aquele tema, né?

o reflexo que isso pode ter em quem vai assistir, a discussão, a reflexão sobre aqueles temas. Tem muita responsabilidade para mim. Eu levo isso tudo sempre com muita responsabilidade. E aí, então, nesse núcleo de trabalho... Resumindo, Vera, eu sempre termino um trabalho achando que a pessoa me odia. Eu sempre acabo falando assim, me desculpa, obrigada.

sempre acaba um pouco em divórcio esse negócio pois eu acabo sempre falando me desculpa, me desculpa em vez de falar obrigado me desculpa mas eu tenho essa impressão de você dessa entrega que não é pra todo mundo assim, você vai é que tem um lastro, em algum lugar você sabe que vai voltar

Mesmo pagando muitos preços dermatológicos, enfim. Mas eu me identifico muito com isso. Você vai, né? E não é pra todo mundo isso daí. O Reich vai dizer, né? Quer dizer, poder enlouquecer com algo é na garantia de que você tem uma corda que te puxa de volta, né? E pra algumas pessoas não volta, né? Não tem volta. Se for muito fundo num personagem, por exemplo. Isso é muito...

É muito... É uma droga isso, assim. É muito excitante, é muito gostoso. Eu tava conversando com a Denise agora. Denise Fraga. A gente tava falando sobre a atuação, sobre como é atuar e tal, como é que é a contracena.

Quando o parceiro é muito técnico e tal, às vezes funciona. Outro falando assim, não, acho que não funciona. Eu falo, não, acho que até às vezes funciona, no sentido que você pode acreditar, mas não dá onda. Não tem, não dá tesão você ver que, né? Aconteceu algum negócio ali com você, que não é que você tá em transe, né? Que se te chamarem, você não vai atender, que você virou o personagem. Até acho engraçado quando as pessoas falam o encarnou.

Eu acho bonitinho, porque fica ali na coisa da fantasia do que é atuar, né? Ah, encarnou. Não tem encarnou. É muito trabalho, assim, é muito estudo, é muito amparado. E mistura a técnica e a intuição junto. Elas têm que estar trabalhando juntas. Mas se não tem a contracena, não tem a troca e não tem a onda, né? Tem uma onda, uma coisa química, talvez, ali que aconteça em você, que é maravilhoso. É uma sensação...

Por mais que seja numa cena de violência, numa cena de ódio, numa cena de discussão, assim como na cena apaixonada, numa cena amorosa, numa cena delicada, todas essas qualidades, assim, elas se resumem em a onda, dá uma onda. Tem uma coisa ali, um prazer.

Que eu fico querendo entrar em contato com isso sempre. Isso, pra mim, é uma das coisas que me jogam sempre nesse lugar. Eu acho que eu sinto mais isso no meu trabalho do que na minha vida pessoal, né? Mas mesmo porque seria uma vida muito difícil, né? Viver isso o tempo todo, não dá? Sem dúvida. Até porque os personagens, eles... Só tem problema, né? Os personagens, eles precisam ter sempre um conflito, um trauma, um negócio, uma... Você tem que... E aí...

E as relações estão sempre, elas se mostram muito a partir desse arco, né? Desses conflitos todos. Então, nossa, Deus me livre de ter vivido todos esses conflitos que os meus personagens viveram. Eu tenho já os meus ali, são suficientes. É porque também, ao mesmo tempo que é um lugar...

Seguro não é, né? É um lugar onde você... Eu não vou morrer disso, eu acho. Mas eu vou sentir muita coisa. Eu vou sentir... Talvez não, né? Como assim, vivenciar a maternidade. É muito diferente vivenciar a maternidade. É muito específico na ficção e viver isso na sua vida.

Real, né? Mas tem alguma coisa ali que é diferente, que é especial e que eu busco, que me excita, me intriga, junto, não para além, junto com o que isso pode causar no outro, no espectador, os debates, o papel social dessa profissão, da construção da subjetividade, um pouco da denúncia, um pouco da reflexão sobre nós e o coletivo mesmo.

O meu trabalho tem a intensidade da escuta, né? De, às vezes, cenas muito terríveis, de testemunhar coisas muito terríveis. E depois eu só quero a paz. Em casa, eu quero zero conflito, eu quero paz. Eu quero um amor tranquilo, assim. Um amor apaixonado, apaixonado, mas tranquilo, né? Nada de conflito. Tem zero tolerância aos conflitos domésticos, assim. Viver uma relação... Não, pelo amor de Deus, eu quero um colo, sabe? Em casa eu quero um colo.

Um colo sexy, mas um colo. Puts, que delícia te ouvir. Muito legal. Muito bom, muito surpreendente. Você é surpreendente como atriz, né? Eu acho você excepcional. Mas como pessoa também, um encanto. Engraçada, né? Muito engraçada. Dei muita risada quando eu cheguei. As coisas que você me falou. Adoro humor. Acho humor é...

Salva a vida. Nossa, pra mim, assim, ele é, de novo, fundamental, assim, como a tentar ter mais leveza. E esse é um contraste, assim, digamos, não é um contraste, mas da minha personalidade. Eu acho que eu sou uma pessoa humorada, eu não sou uma pessoa, não sou piadista. Eu não vou fazer graça, assim, mas eu vejo o aspecto engraçado, ridículo, divertido das coisas de uma maneira.

na geral. Mas é não se levar muito a sério também, né? Poder ser descolado desse personagem que a gente é, né? Ficar um pouco ridice é fantástico, né? É. Pessoas que levam muito a sério. Eu acho que eu oscilo entre o se levar muito a sério e o ridículo. Sim, perfeito. E o ridicularizar. Eu acho que eu vivo muito nesses extremos, assim, de um ultra-foco e de uma dispersão absoluta, sabe? Eu tenho... É curioso, eu fico tentando entender o que que isso...

É uma pergunta só mesmo? Então agora eu vou passar a pergunta pra você. Você vai me fazer uma pergunta. Graças a Deus é uma só, mas as pessoas me fazem três, quatro. É um horror. Nada do combinado. Ah, Vera. Posso dividir? Não, tem uma só, né? Tá bom. Não, pergunta o que você quiser, imagina.

Assim, sobre a sua profissão, o quanto da sua personalidade interfere na sua escuta, do seu analisando, também no sentido das projeções, da sua maneira de ver o mundo, da sua personalidade, da sua crítica, quanto a sua crítica pode interferir na sua escuta de uma personalidade que está lá no seu divo?

Eu respondo essa ótima pergunta da Marjorie no bônus Pergunta Vera. Esse episódio bônus do podcast é publicado toda quinta-feira no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Te encontro lá.

Esse foi o podcast. Isso não é uma sessão de análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem, a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família.

A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.

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