[BÔNUS] Jorge Drexler pergunta à Vera: como é sair do consultório para o debate público?
No episódio bônus desta semana, o cantor e compositor Jorge Drexler pergunta à Vera sobre a passagem da escuta íntima do consultório para a exposição do microfone e do debate público. Na resposta, Vera fala sobre o desejo de ampliar conversas que antes ficavam restritas à clínica, os riscos da superexposição e a tentativa de sustentar complexidade em um ambiente que muitas vezes exige simplificação e confronto.
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- Crise do debate públicoTransição do consultório para o debate público · Desejo de ampliar conversas · Riscos da superexposição · Sustentar complexidade em ambiente de simplificação · Jorge Drexler · Vera Iaconelli
- Trajetória Profissional da PsiquiatraEscuta do inconsciente · Abstinência psicanalítica · Relação não social no consultório · Diferença entre consultório e microfone
Oi, eu sou a Véria Conelli e esse é o Pergunta à Vera. Um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Podcast que criei com a Trovão Mídia.
Aqui eu respondo a uma pergunta qualquer feita pelo convidado da semana. Dessa vez eu tive uma conversa maravilhosa com o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler. E vale lembrar que esse papo foi ao ar na terça-feira. Se não ouviu ainda, volta lá depois. Agora vamos para a pergunta do Jorge.
em que momento você sai do espaço do consultório e entra no microfone? Porque tem coisas opostas às duas situações. O microfone amplifica e saca fora. E o consultório é centrípeto, entra para dentro. Então, em que momento a força deixa de ser centrípeta e vira centrífuga na sua vida?
É uma excelente pergunta. Eu tenho a sensação, quando eu vou pro consultório, que eu tô pensando num dia muito quente de verão e você tem uma piscina super gelada que você mergulha. Você resiste a mergulhar porque você sabe que vai ter aquele choque, mas depois que você entra, você não quer sair. Claro. Que tem aquela, sabe? Você saiu de uma sauna quente, entra naquele...
Que é uma sensação que a gente... Você fala, não, não, não. Depois você vai, então, o consultório, ele me dá esse espaço de imersão e um espaço de uma certa cisão. Porque o meu papel ali é um papel muito bizarro. Não é uma relação social. É uma relação para escutar o inconsciente. Meu e do analisante. Então, não é social. Não é... Eu tento entrar com o mínimo do meu para poder escutar o do outro. Um lugar referido ao outro, né? E acho que isso estenua também.
Porque você fica muitas horas sem emitir uma opinião, sem falar o que você acha daquilo. É um trabalho extenuante também nesse lugar. Todo trabalho acaba sendo extenuante porque a gente exagera na quantidade também. Então, estar aqui no microfone e poder me relacionar com você. Claro que eu privilegiei o seu esposo, mas eu dei vários apartes, falei um monte de coisa. Às vezes eu comento coisas da minha vida. Eu estou inteiramente aqui com você.
De um jeito muito diferente do que eu estou no consultório, que é um jeito quase no negativo eu estou lá, fazendo uma espécie de empuxo para tentar criar um vácuo para extrair alguma coisa do outro. Então eu me abstenho, que é a palavra que se usa na psicanálise, tem uma abstinência ali.
E aqui não, aqui eu tenho uma escuta, que eu acho que eu adoro escutar, não deixo de adorar escutar, mas eu posso falar alguma coisa também e isso traz um outro universo. E como eu gosto de muitas coisas ao mesmo tempo, o meu grande problema é gostar de muitas coisas, essas coisas são, não diria nem complementares, elas são suplementares, são coisas que se somam e que... Eu também tenho um lado de gostar de me exibir, né, que eu uso nas palestras, essas coisas.
Então, eu fui conciliando as minhas facetas e as minhas vertentes. Muito bem. Acho que é isso. Entre o centrípeto e o centrífugo. Eu gostei muito dessa imagem. Adorei. Obrigada, Jorge. Muito obrigado a você. Muito obrigado.
Trovão Mídia
Isso Não É Uma Sessão de Análise