Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

Jorge Drexler era otorrinolaringologista. Até que, aos 30, decidiu ser músico.

19 de maio de 202643min
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O cantor uruguaio Jorge Abner Drexler é filho de médicos e seguiu os passos dos pais até que, aos 30 anos, foi tentar a vida na música. Virou um artista internacional, vencedor do Oscar. Na conversa com Vera Iaconelli, ele fala sobre o medo de romper com a família e a tentativa de conciliar mundos aparentemente incompatíveis. Fala também da paternidade como escolha central da sua vida e de como passou décadas tentando sustentar vínculos sem abrir mão de si mesmo.

Ouça “Como ser mãe?” na Audible, nova audiossérie de Vera Iaconelli, com roteiro de Andrea Del Fuego e direção e produção da Trovão Mídia: https://www.audible.com.br/pd/Como-ser-mae-Audiolivro/B0GZ133PLQ

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Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
J

Jorge Drexler

ConvidadoCantor e compositor
Assuntos5
  • Carreira ProfissionalFormação em medicina · Crise vocacional · Psicanálise · Decisão de seguir a música · Mudança para a Espanha
  • Paternidade e alinhamento do casalPaternidade como escolha central · Manter vínculos familiares · Relação com os filhos · Morar no Uruguai e Espanha · Luto e reconexão com o Uruguai
  • Formação e herança familiarRomper com expectativas familiares · Impacto nos irmãos · Pai escritor · Escolhas de carreira na família · Manter o vaso comunicante
  • Identidade e TradiçãoDiferença entre músico, poeta e cancionista · Interpretação das próprias composições · Voz própria e presença de palco · Semiótica da canção
  • A personalidade do fonoaudiólogo no atendimentoForça centrípeta vs. centrífuga · Amplificação do microfone · Natureza do consultório de análise
Transcrição112 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Trovão Mídia. Oi, eu sou a Vera Iaconelli e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia.

Falar de família é mais complexo do que pode parecer. Todo mundo tem alguma referência familiar, mas isso está longe de ser uma coisa banal. Isso porque, de perto, nenhuma família é igual ou normal. E é por isso que elas são tão interessantes. Aqui, a cada episódio, eu recebo uma pessoa que me conta histórias de família, das origens às mudanças ao longo da vida. São relatos francos sobre o que é familiar e que fazem a gente se identificar.

Meu convidado de hoje é o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler, o filho da Lucero e do Gunter, o irmão do Daniel, da Paula e do Diego, o companheiro da Leonor, o pai do Pablo, do Luca e da Léa.

Tem conversas, como essa que eu tive com o Jorge Drexler, que fazem a gente prestar mais atenção nas sutilezas dos vínculos, no que sustenta uma relação, no que escapa, no que muda com o tempo. E é esse tipo de nuance que eu explorei com o Ser Mãe, uma nova audiosérie que chegou agora na Audible.

A escritora Andrea del Fuego roteirizou as cenas ficcionais que abrem cada um dos oito episódios e que passam pelas diferentes fases da maternidade, desde a decisão de ter ou não filhos até a volta ao trabalho e a transformação da libido do casal.

Como Ser Mãe está disponível exclusivamente na Audible, que é o maior serviço de audiolivros e audioséries do mundo, da Amazon. Você tem 30 dias de teste grátis para conhecer a Audible, ou 3 meses se for membro da Amazon Prime. É só clicar no link aqui na descrição depois dessa minha conversa com o Drexler. Te espero lá. Bem-vindo, Jorge.

Muito obrigado por me receber aqui. Eu que agradeço muito. Sei da tua correria. E aqui a gente começa com uma pergunta que é qual é a sua referência de família na sua história?

Eu me criei numa família que eu achava completamente normal, como você fala aí, citando o Caetano, de perto ninguém é normal, que eu achava completamente normal, mas com o passar dos anos eu entendi que era tudo menos normal na minha família. Meu pai era judeu alemão, nasceu em Berlim, ele fugiu aos quatro anos de idade com a família dele, com os pais. Ele fugiu tarde, no ano 39, já depois da Kristallnacht na Alemanha. É porque...

Eles se sentiam muito alemães, pensavam que isso ia passar. Quando saíram, já era tarde demais e o único país que recebia judeus refugiados, no 1939, foi Bolívia. Ele morou em Bolívia dez anos. Ingressou no Uruguai, depois clandestino, porque não tinha papéis no começo, mas depois regularizou a situação e aí conheceu a minha mãe, Lucero, que tem uma origem completamente diferente.

filha típica do Uruguai, muitas gerações de uruguaios misturados com parte da família do Rio Grande do Sul, sem religião, ou seja, de uruguaio agnóstico, os pais da minha mãe, meus avós maternos, eram mestres de escola, escola rural.

Uma garota e um garoto da cidade que se juntaram e foram organizar uma escola rural. Minha mãe nasceu e se criou numa escola rural onde o pai era o diretor e a mãe era a maestra. E aí meus pais se conheceram e formaram uma família mixta, completamente. Mitade da minha família é judia, a outra mitade é cristiana ou sem religião.

E aí eu me acostumei de pequeno de ver o meu avô, Georg Drexler, judeu alemão, vestido de Papá Noel para a Navidade. O meu avô, não judeu, Abner Prada, ele indo na sinagoga saludar o meu avô.

E eu achava isso completamente normal. A minha família toda integrada, sempre gente dos dois mundos, até que eu saí para fora do mundo. Eu comecei a entender que era um privilégio enorme para mim, esse tipo de formação. Eu acho que essa dicotomia, essa dualidade, dois pais com origens completamente diferentes, tão diferentes que às vezes eu pensava como é que eles estão juntos, porque eram muito diferentes.

Cada um deles tem uma versão diferente do mundo, política, socialmente, culturalmente, musicalmente, os dois quase opostos um do outro. E aí eu, o filho mais velho desse casal, nasci já com esse dualismo que eu devia aprender a compaginar. A minha vida inteira, seguindo essa referência familiar, consistiu em fazer pontes entre dois mundos aparentemente contraditórios.

E aí estou ainda hoje. Quando se diz que eles eram completamente diferentes, como é que eles negociavam essas diferenças no dia a dia? Também de temperamento, de gênio, de opiniões com certeza, mas como é que era essa negociação?

Essa negociação nos anos 60, que eu nasci nos 64, nos anos 60, essa negociação estava mais torcida para o lado do pai, nesse momento. A minha mãe se convirtiu para o judaísmo para casar com o meu pai. Nunca tive certeza completa de que ela tinha se convertido internamente. Sempre achei que tinha sido... Mais cultural e pragmático. Para continuar com a vida. Essa negociação, meus dois pais eram médicos, os dois. Os dois eram otorrino, leringolô. Minha mãe e meu pai, cirujão, os dois. Isso, não?

E aí, essa negociação não era 50-50, não, nessa época. Minha mãe fazia tudo. Ela era médico e, ao mesmo tempo, era quem levava a casa. Era quem organizava tudo na casa e, ao mesmo tempo, fazia consulta.

E o meu pai tinha seu espaço com muita música, muitos livros. Ele desenvolveu uma carreira acadêmica, chegou a ser presidente da Sociedade Teoronaringológica do Uruguai. Os dois eram muito bons médicos, mas meu pai fez uma carreira mais longa até que a ditadura começou. E aí eles saíram da universidade por causas políticas.

Mas essa era a negociação, eu acho que... Bem nos moldes dos anos 60, assim, de mais pro lado da mulher como cuidadora da casa, e esse homem podendo solar e fazer sua carreira. Claro, era diferente do tipo de negociação que você pode atingir, pode atingir hoje em dia, não? E com esses irmãos, como é que era? Filho mais velho?

Eu sou mais velho, mais velho. Você não sei se sabe que no judaísmo é proibido botar nome no menino de parentes vivos, que ainda vivem, não? E a vontade das duas famílias de sentir que o primeiro neto, que era eu, pertenecia aos dois clãs, foi tão grande que eles transgrediram esse nome. Eu tenho os dois nomes dos meus dois avós. Jorge.

por Georg e Abner, que é o nome do meu avô não judeu. E isso é uma transgressão que é bastante forte no judaísmo. Mas eu acho que eles sensaram esse medo de que o menino ficasse no meio das duas famílias. Eu levo as duas. Eu levo já no nome a dicotomia. E quando é que você se deu conta disso?

não sei, na verdade não sei. Eu nunca vi, assim, nunca vi não, mas assim, como essa nomeação foi explícita, né? Completamente. Do teu lugar dentro dessa família. Eles não botaram o nome do pai nem da mãe, botaram os nomes dos avós maternos. Sim, sim. Dizendo, família, olha, temos uma criança aqui, recebam ela, sabe? Sim. E mesmo transgredindo essa primeira norma, assim, que se transgrediu, eu acho que eu...

Já nasci com uma vontade de conciliação que pode até chegar à transgressão para conciliar. Sim, que interessante. Que parece um paradoxo, mas que me marcou a vida inteira.

Nossa, adorei essa ideia de transgredir para conciliar, do que a gente precisa às vezes fazer para sair de uma certa norma que não concilia as diferenças, que é o que a gente tem visto muito hoje. Eu não tinha feito a associação entre conciliar mediante a transgressão, o que aparenta ser uma contradição, porque você tem uma ponta a transgressão e a outra a conciliação. Também se torna uma dialéctica, não? E também aí no meio disso você estabelece uma ponte. E eu agora estou vendo que eu sempre fui.

o conciliador que tinha transgredido alguma norma. Me afastei da medicina, me afastei também do judaísmo, me afastei do Uruguai no momento, agora eu voltei. Me afastei da minha concepção de masculinidade que eu tinha recebido. Me afastei da formação da música clássica. E sem parecer uma pessoa transgressora, eu acabei...

deixando o trabalho e uma casa completamente consolidada no Uruguai com 30 anos e mudando para a Espanha para começar de cero na música, que foi realmente uma transgressão que me marcou para a vida inteira depois, a partir daí.

Mas antes disso, tem a história sua com ter feito medicina, de alguma forma, seguindo esses pais, e romper com isso. Como é que foi essa passagem? Mas você fala que seu pai gostava muito de música. Como é que era a música nessa casa para quem depois se torna músico?

Eles gostavam muito de música, mas não eram músicos, meus pais. Meu pai tinha como uma espécie de fantasia sobre ser músico. Ele tentava, mas ele não tinha ouvido musical. Aí eles perceberam muito cedo que eu tinha ouvido musical e eles botaram em mim essa expectativa de você pode ser músico, ao mesmo tempo que médico.

Sim, tem sempre isso e aquilo, né? Eles sempre fomentaram muito as duas coisas, né? Sempre a medicina como um side effect. E quando eu tentei deixar o piano, que eu estudei piano, começo piano clássico, entre os cinco e os dez anos, quando eu tentei deixar, meu pai se sentou comigo e falou, não, se você quer deixar o piano, tem que pegar outro instrumento. Aí peguei o violão. E ele insistiu muito para eu continuar com a música.

até que a música comia, se devorou a medicina, e aí ele começou a entender que era um perigo. Mas quando você está nesse começo, como é que era essa insistência dele? Como é que você ouvia isso assim? Ah, que legal, é isso mesmo que eu quero, meu pai está me estimulando, ah, que saco. A música sempre para você teve esse apelo, ou foi mais...

Ah, sempre teve. Sempre teve. Teve um apelo completamente mágico. Concorria já com as outras coisas. Mágico, completamente misterioso. Eu me criei num entorno completamente amusical, não musical. Eu me criei na ditadura no Uruguai, que começou no ano 73. Todos os músicos do país fugiram fora do país. A ditadura uruguaia, que é menos conhecida fora do que a ditadura argentina ou chilena, foi...

muito dura porque o Uruguai é um país muito pequeno. Então a repressão chega até à intimidade das famílias. Você não podia andar com cabelo longo com barro na rua. Então todos os músicos da geração dos 70 foram embora do país. Eu não tinha nenhum amigo músico. Tenho um familiar que morava longe da casa que tocava o violão. Quando ele chegava a gente se juntava com o meu tio mas não tinha acesso a nenhum tipo de contato com outros músicos.

Tinha uma vizinha que era professora de piano clássico, que virou uma tia, avó, nossa, que me ensinava piano clássico, mas ela não sabia fazer a ponte com a música popular. Então eu me criei sempre num mundo muito isolado. Meus pais estavam sempre com muito medo na ditadura, metade da família exiliada, e eles só tinham amigos dentro da profissão.

Em casa entravam só outros casados de amigos médicos, não eram muito sociais meus padres, estavam muito fechados na família. Então eu acabei a secundária e entrei a estudar medicina sem pensar o que eu estava fazendo. Foi completamente automático. Saí da secundária e entrei na faculdade de medicina, sem calcular o que significava estudar medicina.

Nos primeiros três anos da faculdade no Uruguai, na minha geração, você estudava na faculdade. Era bem parecido a continuar a secundária. Você mudava de edifício e ia para outro edifício. Tinha classes de bioquímica, biofísica, genética, citologia, histologia.

Parecia uma continuação da secundária, até que em quarto ano você começava o primeiro dia do ano no hospital, entrava no hospital. E aí, quando eu entrei no hospital, olha só que inconsciência que eu tinha. Quando eu entrei no hospital, eu entendi, estou estudando uma coisa que vou ter que trabalhar todos os dias no meu hospital. Neste lugar. E não tinha reparado disso. Que inconsciência.

Aí eu tive uma crise enorme com a medicina, porque eu pensei, eu não quero, eu gosto de estudiar, gosto muito da biologia e tudo, mas eu não quero trabalhar num hospital. Não quero essa vida, né? Não quero essa, então eu comecei a tentar fugir da medicina.

Você estava com quantos anos? 22. 22. 22 anos. 22, 23. E aí eu saí primeiro para o psicoanálisis. Eu achei que ia ser uma maneira de... Eu gostava muito, não? Gostava de ler. Eu pensei... Eu pensei para mim, eu quero trabalhar num quarto com livros. Não quero trabalhar num hospital que tem que entrar num ascensor, marcar tarjeta na entrada e estar o tempo todo com essa responsabilidade e esse contexto assim.

E aí eu fiz psicoanálise, estive em um grupo de psicologia médica. De estudo, você estudou psicanálise, não é que você fez análise? Eu fiz análise, o que chamam em Uruguai, eu fiz análise didáctico, que eram três vezes por semana, freudiano com divã, que podia ser depois acumulativo, quando eu decidisse finalmente se ia querer seguir a carreira de psicoanálise.

Mas dentro do SICUARACE foi que eu percebi que, na verdade, o que eu queria fazer era fazer música, continuar com... Eu nunca tinha deixado de fazer música, mas queria entrar em sério aí.

Então a psicanálise cumpriu sua função de mostrar que é o teu desejo. No momento eu achei que não tinha servido absolutamente para nada, eu achei no momento, que era muito caro e me gerava muita dependência aos meus pais. Mas foi aí que eu encontrei essa situação. Então parece que sim que funcionou. Aí comecei a planificação conciliadora da transgressão.

Isso, porque aí você tem que chegar para esses pais e falar, oh, oh, não era bem isso. Aí começou um processo, processo que acabou nove anos depois. Foi super lento, eu fui super estratégico nesse processo. Primeiro não sabia muito bem o que queria. Tinha uma crise vocacional que ocupava 80% do meu espaço mental.

Quem sou? O que eu quero fazer? Quem eu sou? Quando a crise aumentou, eu parei a carreira no quinto ano. Tinha uma oportunidade entre clínica médica e cirurgia, materno, infantil e pediatria, que tinha uma cissura na carreira, e eu saí fora, fui de viagem um ano inteiro. Já foi um escândalo na família, porque era como, você vai perder a sua geração, vai perder a sua oportunidade.

Mas eu fui embora, viajei pelo mundo um ano assim. E aí se consolidou o projeto musical. Comecei a escrever músicas, preparei um repertório, fui para a Europa, toquei nas ruas, nos bares de Espanha, de Bélgica, de França, na rua, e aí eu já voltei com essa coisa, dizendo...

Não sei se vou seguir com a medicina, mas com a música eu vou seguir. Aí fiz as duas coisas. Eu paguei os meus dois primeiros discos com a medicina. O ano que eu me graduei de médico, em 1992, foi o ano que eu saquei o primeiro disco também. E no ano 95, três anos depois, quando eu apresentava o meu segundo disco, eu fui convidado a ir para a Espanha por um cantor muito conhecido na Espanha, Joaquim Sabina, que é como o nosso Bob Dylan.

Ele me viu tocando um multivídeo e me falou que o que você está fazendo aqui, você deve sair daqui já. E eu fui por um mês à Espanha e ficou 30 anos aí. E aí foi que de um dia para o outro, assim eu não voltei nunca mais para a medicina.

Mas você atuou como médico, então? Eu estava fazendo a mesma pesquisa eléctrica com os pais. Eu já tinha meu próprio... Dentro da empresa, meus pais tinham um serviço privado de turma de biologia muito bom, muito exitoso, muito vídeo. Eu já tinha meu próprio consultório dentro disso. Eu já tinha uma vida completamente... Tinha minha casa, tinha a vida completamente resolvida já no Uruguai. Eu levava seis anos de experiência em cirurgia.

audiológica com meu pai e com a minha mãe. Eles operavam um ao lado do outro. Eu operava com um, operava com o outro. E na verdade era, por um lado, a inveja de todos os estudiantes de doutorrinolaringologia, porque meu pai tinha aprendido na Alemanha depois. Ele voltou para a Alemanha e aprendeu todas as técnicas de microcirurgia que ninguém mais sabia no Uruguai. Ele me ensinou a mim. E tal, tem essas aranças de médica.

Então, ao mesmo tempo, a inveja do resto dos estudiantes, porque eu estava muito avançado na microcirurgia. E ao mesmo tempo, era uma trampa perfeita. Ou seja, como se diz trampa em português? Era como um trap. Uma armadilha. Uma armadilha. A golden trap. Uma armadilha dourada. Absolutamente sedutora. Maravilhosa. Mas uma armadilha que era impossível sair daí.

Que leva as pessoas para a depressão e para os consultórios de análise aos montes. Porque ele fala, minha vida está perfeita e eu estou infeliz para caramba. Eu estava com essa sensação, mas eu saí fora disso. E foi uma grande transgressão familiar. Como você faz essa passagem? Porque você não aguenta mais? Porque você se sente mais... Você já cumpriu a sua função?

O que é essa virada, chegar para os pais, já não tenho mais idade para... O que você acha que deu esse start? Foi esse convite? Foi o convite, eu fui para a Espanha e teve muitos fatores. Eu cheguei no primeiro de fevereiro de 1995 para a Espanha, 95. E aí...

Na verdade, esse músico que me convidou... Isso é um caso de sorte, de um acaso, né? Sim, ele me levou para fazer dois ou três shows com ele só. Não mudou toda a minha vida, mas o conselho dele, ele me viu e falou, sai daí, vai para a Espanha. Tem uma pessoa que você admira reconhecendo que você tinha esse talento, você acha que te deu esse aval? Você fala, nossa, realmente... Ele me deu esse aval explicitamente, assim, numa sentença que me...

Alguém estava comigo na noite que eu conheci ele e falou para ele, mas ele é médico. E o outro músico que disse isso, ele disse um pouco despreciativamente, não tome ele a sério. Ele me tinha visto tocar e ele falou, estivemos cantando toda noite com ele. E ele me disse assim.

tu não é médico, nem po**. Você não é médico, nem po** nenhuma. Eu fiquei assim como, toda a minha vida tinha me sentido que eu era, até hoje, às vezes, que eu estava na música como colado, sabe, como um impostor, sabe. E aí ele me falou,

E o postor é o médico. Você não é médico nem porra nenhuma. E aí foi, pum, fui para a Espanha. Também o que aconteceu é que ao mesmo tempo eu cheguei para a Espanha, três dias depois de chegar.

Eu conheci a mãe do meu primeiro filho e aí o desencadenante foi que eu me apaixonei e decidi, tá, já tenho aqui muitos motivos para ficar em Madrid. E aí eu comecei a dosificar a informação com o Montevideo, assim, falando, vou demorar em voltar. Eu tinha pedido licença por um mês, Montevideo, vou demorar mais um mês, mais outro mês.

Vou voltar a fazer alguns trabalhos que estavam pendentes, umas operações aí, mas depois vou voltar para a Espanha. E aí, quando quis, chegou um dia que eu falei, eu já não vou trabalhar mais. E aí foi uma crise familiar breve, porque, na verdade, minha família, o amor está por cima de tudo. Aí meu pai ficou muito desesperado no começo, mas, afinal, ele entendeu que eu era feliz. E já o que mais...

producia dor nele à distância que eu estava na Espanha. Não sou o ato de ter deixado a... E aí, de a pouco, começou a evoluir a minha carreira na Espanha, mas demorou ainda 10 anos mais em se dar bem. Os primeiros 4 discos que eu saquei na Espanha foram...

presente maravilhoso pra mim, uma mudança de vida cheia de orgulho, mas o fracasso comercial completo. Mas eu estava tão feliz que não... Depois a prova, né? Depois totalmente a prova, porque você tinha que bancar teu desejo mesmo numa coisa que não era aquele lugar confortável, né? De já ter uma carreira que te dava dinheiro, que você já estava super... São dez anos pondo a prova e esse desejo. Se era isso mesmo...

Se você voltasse, você ia voltar para uma situação super confortável. O que aconteceu ao mesmo tempo, que eu estava fracassando como cantor, estava tendo reconhecimento como compositor. Então, tinha outros artistas que gravavam as minhas músicas, que eram artistas de sucesso. Mas ninguém entendia por que eu insistia em ter o meu próprio projeto de cantar. Por que você insistia?

Pelo mesmo que eu insisto até hoje, eu sentia que tinha uma voz própria que tinha que cantar. Eu sentia que tinha algo para dizer. Algo para dizer você tinha nas suas letras, mas você queria se apresentar tocando também, queria tocar para as pessoas. Você acha que dizer é só com as letras?

Não, não acho que seja só, mas uma parte disso estava contemplado, porque você podia ter grandes cantores através das suas letras. Mas você queria essa presença do palco. A minha própria voz, certo. Isso, sim. Sim, tem essa coisa na canção, que muitas vezes a gente fala que eu não sou músico.

Nem sou poeta também não. Eu sou cancionista, que é bem diferente das duas. Ah, é? Sim. Eu trabalho com músicos, gente que se move muito comodamente numa linguagem abstracta como a música. E trabalho também, tenho muitos amigos poetas e escritores que se movem numa linguagem simbólica como o texto. Mas essa canção, essa interface entre os dois...

onde realmente a importância não é cada uma das partes, senão essa conexão estranha e misteriosa entre as duas, que ninguém pode explicar muito. Tem uma semiótica própria, a canção, que é diferente da semiótica da letra e diferente da semiótica musical. É isso que eu estava buscando. E eu estava procurando isso. Mas não sabia, você foi tateando isso daí.

Eu sentia que eu devia interpretar as minhas próprias composições, porque eu nunca ficava muito feliz com as versões, porém, sejam grandes artistas, eu sentia que a música não era exatamente isso, que era outra coisa. E ainda eu não encontrava mais eu, mas devia procurar eu essa outra maneira. E aí segui.

Esse pai, você acha que ele tinha medo do quê? Porque você não falou como é que a sua mãe reagiu. Você fala de uma distância, não seguir os passos da família, talvez, mas também, sei lá, medo que você não... A mãe também reagiu mal. A minha mãe não tinha religião, mas a universidade era seu Olimpo.

Ser um universitário era a coisa mais importante que um ser humano podia atingir. Meu pai era o primeiro universitário da sua família. Minha mãe era filha de maestros, mas era o primeiro médico da família. Então, para eles, a universidade era como o Olimpo dos Deuses. Era super importante. Eu tinha entrado nesse Olimpo e estava abandonando o Olimpo. Então, indo para um mundo...

misterioso que eles não conheciam. Minha mãe tinha muita desconfiança no mundo da música. Esse mundo, ela achava como essa boemia, ela era muito desconfiada dessa boemia e dessa coisa assim. Você fez uma negociação incrível, né? Porque você chega e entrega isso para eles e consegue fazer esse passo porque você reconhece que tem um lastro amoroso, né? Que tem uma...

consistência nessa relação amorosa de vocês, que você apostou que superaria sair do olímpico, deixar de ser o golden boy deles e falar, olha, desculpa, se isso aqui era o projeto, eu tenho o meu próprio, porque eu acho que é nessa diferença entre que os pais projetam pra gente e o que a gente entrega que a gente descobre o amor, porque se a gente só entregar o que eles estavam esperando você é só o espelho, imagem e semelhança, mas se você fala, olha o amor se encontra na distância, não? sim, sim sim

Você estabelece essa distância e pode enxergar o outro. Se o outro está pegado, você não vê ele, está perto demais. E esse impacto na família, teve algum impacto para os irmãos também? Porque eles vêm depois e de repente você vai escancar uma diferença brutal em relação ao desejo dos seus pais.

Toda a família é muito trans referencial. Todo mundo impacta em todos. Toda uma família onde todo mundo está muito pendiente do outro e é influenciado. Mesmo também meus pais me influenciaram muito também. Meu pai era um cara que com 40 anos comprou os discos dos Beatles, quando os Beatles tinham 24 anos. Ele não era dessa geração, mas ele entendeu, ele estava aberto às gerações mais...

mais jovens. Ele era muito curioso com o mundo. Ele estava em contato com o mundo contemporâneo, por ele ser já um senhor de 40, porque nos anos 70, um senhor de 40 era um senhor de 40. E aí, influenciou em todo mundo. A minha transgressão. Sim, sim.

Meu pai virou escritor depois disso. Ai, que barra. Ele deixou, assim, ele preferiu, isso é muito lindo, ele preferiu, antes de estabelecer uma distância terminal com seu filho, tentar entender esse fenômeno artístico que ele estava procurando, não? E tentar ele também entrar nesse mundo, assim, quebrar essa distância. E atrás de você, né?

E meus irmãos também, meu irmão Daniel, ele, eu sou mais velho. Depois vem Paula. Paula tem um ano e meio menos do que eu. Ela é odontóloga e é DJ também, a Paula. E é pianista, é muito boa pianista. O Daniel, que vem de cinco anos menos do que eu.

Ele estudou medicina, fez otorneilorangologia e se dedica a audiologia e tem um projeto de canções próprias muito bem sucedido no Uruguai e no sul do Brasil. Ele trabalha muito no Brasil. É um grande compositor, o Daniel. E eu acho que esse... O Daniel me influenciou a mim, porque ele começou antes com a sua banda e eu influenciou ele quando mostrei que era possível fazer isso dentro da família, não continuar na via universitária. Ele ainda...

trabalha em audiologia, mas muito lateralmente. Ele se centra na canção agora. E o mais jovem dos irmãos, Diego, ele entrou em medicina também, mas viu o crash que tinha acontecido e saiu de medicina e entrou em arquitetura, que é o que ele queria fazer realmente. E hoje ele é arquiteto e também é músico, também tem um projeto próprio de canções.

É interessante quando uma pessoa banca um desejo dessa magnitude, que rompe, como ela abre uma porteira de possibilidades para os outros. Aquilo que nunca, como você disse, você passou para a medicina ignorando que você tinha feito uma escolha importante de carreira. E alguma coisa te fez ver. E, na verdade, o teu gesto faz também a família ver que outras escolhas poderiam ser. O teu pai escrever, eu achei sensacional. Teus irmãos poderem...

Fazer outras escolhas. No fim, a gente sofre tanto, mas fica pensando, que pena que eu não fiz antes para ver se a coisa não pudesse... Não poderia ter, com certeza, porque foi o possível. Mas quanto abre de portas para o outro, para o desejo do outro. Aí você entende que é possível. Sobretudo...

Se você mantém esse vaso comunicante com o filho aberto, porque o que poderia ter acontecido também era que, quando você faz uma transgressão tão forte das expectativas que os pais têm de você, que eles façam uma raia no chão, dizendo que você está morto para mim, eu não quero nem saber nem de você, nem desse mundo. Esse mundo da música agora virou meu inimigo. Mas ele não quis perder essa conexão.

Sim, mas isso acontece com várias coisas, né? Quando descobre que o filho, enfim, é gay, ou tem vários lugares nos quais o narcisismo dos pais não supera a diferença dos filhos, né? E tem aqueles pais que falam, meu, eu posso prender tanto com essa pessoa, eu posso me trazer tanta coisa. Claro.

Jorge, a gente passa agora para a segunda pergunta. O que se tornou a sua referência de família hoje? Que família que você, a partir dessas experiências tão profundas, né? Forma depois, né? Você forma uma família, como é que é? Você começa contando que você teve um filho quando você vai para lá. Você teve vários filhos quando você chegou na Europa aos 30, mas...

Três filhos. Não digo a quantidade de filhos, mas alguma coisa acontece aos 30 anos que você vai pondo filhos no mundo, né? Você vai produzindo as suas músicas. O que você entende de referência de família hoje pra você?

Os três filhos que eu tenho, desde o mais velho, de 28 anos, até o mais jovem, de 14, Lea, e o do meio, o Luca, que tem 17, os três nasceram na Espanha. Aí aconteceu que eu tive que fazer uma opção, porque eu estava feliz na Espanha, mas também o centro do meu trabalho era em Latinoamérica, na verdade. Eu cruzava o Atlântico um promédio de 20 vezes por ano.

de ida e vente de volta. Eu ia por duas semanas a Chile e voltava para a Espanha. Depois ia duas semanas a Colômbia, Venezuela e Panamá e voltava para a Espanha. E depois ia duas semanas para o Brasil, Uruguai e Argentina e voltava para a Espanha. Porque eu queria ficar perto dos meus filhos. Essa é a razão porque eu em 30 anos ainda não voltei a passar muito tempo no Uruguai. Quando?

logisticamente, muito mais conveniente para mim morar em Uruguai, na verdade, porque eu faço 60% dos meus concertos no Cono Sul, América Latina, pelo menos os 50%. E poderia perfeitamente me estabelecer ou no Rio de Janeiro, que seria uma boa ideia, ou em Motivideo, ou na Cidade de México, mas nunca quis. Eu sempre fiquei assim, porque tenho esse conceito também de que é importante não perder a nunca.

o contato da criança com os filhos, que foi o mais... Eu acho que essa definição de família, para mim, é diretamente o relacionamento que você tem com os filhos também. Porque eu separei da mãe do Pablo, do mais velho.

Mas eu fiquei morando nesse mesmo lugar perto de Madrid, onde a gente morava, só para ter contato com ele os dias que eu tinha que estar com ele. E nesse momento, teria sido ótimo para mim ir embora, para Barcelona ou morar no outro lado, mas eu não quis, eu quis ficar lá. E tinha essas viagens malucas de ir e voltar para estar cinco dias em Madrid e voltar a sair de novo para a América, tentando estar perto dessa criança.

Hoje em dia, que os meninos são adolescentes de 14, 17 anos, essa é parte da ideia de por que estou começando a fazer um disco no Uruguai agora também. Eu fiz uma casa no Uruguai, na praia, e estou começando a passar mais tempo independente. Também tempo para mim. Eu viajava tanto, tanto, tanto, ficava muito tempo só viajando que eu não tinha.

escolhido, tempo meu. Para mim, não é trabalho, vai ser meu. E só agora comecei a fazer isso aí, bem de a pouco, porque sempre estava com a sensação de que eu viajava, eu fazia 60, 80 concertos por ano, muito.

e ficava muito fora da casa também. Então, eu sempre voltava para casa com a sensação de que estava devendo tempo na casa. Mas eu consegui construir uma casa, os três filhos têm um relacionamento super intenso e super independente de mim, entre eles.

Eu agora tenho uma muito boa relação com a mãe do primeiro filho e moro ainda com a mãe do segundo e do terceiro filho. Ela é atriz também, então a gente está construindo uma maneira de... Leva muito tempo construindo um relacionamento que inclui muito movimento pessoal.

E geográfico também, porque ela viaja muito também. A minha ideia de família pode se resumir no fato de que os três filhos meus têm viajado comigo para o Uruguai todos os anos, desde que nasceu o Pablo, faz 28 anos. Todos os verãos a gente viaja todo mundo junto para o Uruguai e volta todo mundo junto para a Espanha. Eles se sentem muito uruguaios também e têm essa ligação muito forte com a família uruguaia. Eu tenho uma grande família no Uruguai. Seus pais são vivos? Não.

Meu pai morreu faz um ano e meio. De fato, o disco novo que eu acabo de... É um disco de luto, na verdade. É super celebratório, mas é um disco de reconexão com o Uruguai por essa pérdida. E a família é super determinante de tudo o que eu faço. Agora estou aqui, em São Paulo, falando com você, porque a minha irmã fez 60 anos e juntamos a família toda na Ilha Grande.

todo mundo veio, desde Uruguai, desde Espanha se juntou todo mundo, né? E aí estamos muito unidos, Salmão, também, né? Muito unidos, e por muita coisa, circunstâncias familiares que puseram à prova essa unidade familiar, né? E determina tanto a família que eu tô vendo agora neste disco, assim, que eu tive dois pontos de inflexão familiar, que são...

O momento em que você deixa de ser só filho e passa a ser filho e pai, e o momento em que você, se tudo sai bem e continua, é o momento em que você deixa de ser filho e pai e passa a ser só pai, porque os pais morreram. Sim, sim. Nesses dois pontos de inflexão, no ano 97, que nasceu o Pablo, meu filho mais velho, e no ano 2024, que morreu meu pai, quando eu estava fazendo o disco, nesses dois momentos eu voltei para o Uruguai a gravar o disco.

Os dois discos que eu fiz depois desse ponto de inflexão, esse câmbio na qualidade do status que você cumpre dentro da família, eu voltei para o Uruguai para me sentir como, não sei bem porquê, eu acho, para me sentir como reconectado com alguma coisa assim. O status que você tem dentro da sua família é muito determinante do que eu faço.

Do jeito que você vai contando, eu vou ficando com a impressão que a paternidade já era uma coisa super no horizonte pra você, como uma coisa importante, desejável, investida, não é? Porque pra muitos homens a paternidade é meio um checklist. Ah, ter um filho, o cara abandona, enfim, mas não é nem isso, assim, às vezes não tá no horizonte, foi um acidente. Tem algo ali de um, mesmo que conscientemente, tem algo de um projeto mesmo nessa paternidade, ela é super investida.

Sim. Para mim, sim, é completamente determinante da minha vida, completamente. Todas as escolhas vitais têm a ver com a cercaninha dos meus filhos. Mesmo decisões muito íntimas de vida de casal, sabe que você às vezes toma essas decisões tendo em conta essas coisas também, dizendo, agora não quero tomar distância dos filhos, aconteça o que aconteça.

é muito importante para mim e é muito importante não somente a minha ligação com os meus filhos mas a ligação do resto da família com eles também e a minha ligação com a família das mães dos filhos também, tentando estabelecer uma unidade, um bloco não sempre consegui

É, mas você é o nome que carrega, o homem que carrega os nomes das famílias, né? Você junta as famílias, você continua fazendo isso de um jeito muito emocionante, muito lindo, inclusive com a tua música, né? Quando você vai lá e faz esses álbuns e passa pra gente, transmite pra gente essa experiência, né? Pode ser, sim. É, tem algo muito interessante que você fala e que eu acho que concerne a todos nós, que é se diz, bom, teve um momento na minha vida que se eu fosse pra Barcelona teria sido muito melhor. Teria e não teria.

Porque você ganharia de um lado e perderia de outro. Eu acho que nessas escolhas a gente escolhe o que perde também, né? Claro. E você fez escolhas que hoje talvez você olhe pra sua família e fale, putz, aquilo que eu perdi não chega aos pés daquilo que eu ganho, ou era isso que eu queria, enfim. Quando você perde o seu trabalho como médico, você sabe que você perde alguma coisa, mas você sabe o que você ganhou, né? Quando você perde algumas coisas na sua carreira pra ficar com seus filhos, só você sabe nessa balancinha o que pra você foi o mais importante. Nem todo mundo faz essa escolha.

principalmente os homens, os homens abdicam muito pouco da carreira em nome dos filhos e depois dizem, ah, mas era a minha carreira tá, mas é uma escolha e não estou julgando em absoluto. Eu sou um conciliador sim, eu sempre tomei essas decisões agora olhando para trás, levo 30 anos morando

onde meus filhos moram. Meus três filhos moram na mesma cidade, se vê o tempo todo. E aí eu viajei por todos os lados, mas sempre fiquei aí. Está claro que eu fiz essas eleições sempre pensando neles. Os três se sentem uruguaios, os três conectam com a sua família, tem uma ligação muito forte com o resto dos primos. Está claro que eu fiz isso, mas nunca tive a sensação de ter sacrificado.

Nada na minha carreira. Eu sempre fui uma estratégia para conseguir fazer as duas coisas a vez. Sempre senti que eu acabava fazendo o que eu queria fazer na minha vida, com essa transgressão conciliatória. A diferença entre a transgressão pura e a transgressão conciliatória é que a transgressão pura é muito mais teatral.

é muito mais genera uma admiração muito grande, você quebra tudo e salta fora mas na minha experiência é muito menos duradeira, está menos estabelecida do que a transgressão

meditada, sabe como você vai assegurando, sabe como quando você construiu toda a estrutura do arco romano e você tira a caixa de embaixo de madeira e isso fica... Se você tem presa, isso não vai... Pode ser muito espetacular, mas não vai ficar. Tem que ser...

passo a passo. Que imagem linda. E você não queima as suas pontes, e também você aguenta a frustração de 10, 20 anos. Isso sim. Tem um investimento libidinal tremendo nesse processo. Não tinha percebido o aguante que eu tive, esses 10 anos. Não tinha percebido que foi uma prova. Mas eu aguento muito, na verdade. Eu sou muito... E é um tanto uma prova de amor a esses pais.

Também. Sim, uma coisa que você dedicou a eles. Jorge, que maravilhoso poder ver a tua história. O que você fez com a tua história e como você fez essa conciliação. Para mim foi um prazer te ouvir.

Foi muito lindo falar com você, na verdade, também. Todo mundo te diria, assim, que a gente aprende coisas quando rola esse tipo de conversação. Muito obrigada. E agora a gente tem uma pegadinha, que é você fazer uma pergunta pra mim. Ou... Seja o que Deus quiser, como eu sempre digo. Ou... Em que momento você sai do espaço do consultório e entra no microfone, assim? Porque tem coisas opostas das duas situações. O microfone amplifica e saca fora. Aham.

E o consultório é centrípeto, entra para dentro. Então, em que momento a força deixa de ser centrípeta e vira centrífuga na sua vida? A resposta para essa pergunta instigante do Jorge, eu dou no próximo episódio, no bônus Pergunta Vera, que é publicado na quinta-feira aqui no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Até lá!

Esse foi o podcast. Isso não é uma sessão de análise, um original da Truvão Mídia. Na semana que vem, a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família.

A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.

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