Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

[BÔNUS] Natuza Nery pergunta à Vera: como foi a relação com o seu pai?

14 de maio de 20265min
0:00 / 5:29

A jornalista Natuza Nery falou bastante sobre a relação com o próprio pai ao longo do episódio da semana de “Isso não é uma sessão de análise”. Agora, ela pergunta à psicanalista Vera Iaconelli sobre a relação dela com o pai. Ouça a resposta neste episódio bônus.

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Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
N

Natuza Nery

ConvidadoJornalista
Assuntos3
  • Relação com o PaiVera Iaconelli · Natuza Nery · Dupla face do pai · Filhos fora do casamento · Repúdio paterno
  • Sentimento duplo pelo paiAmor e ódio · Culpa por sentir paradoxo · Luto e elaboração
  • Histórias de famíliaRepetição de histórias não elaboradas · Adoção na maternidade
Transcrição13 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Oi, eu sou a Velha Conelli e esse é o Pergunta Vera. Um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia.

Aqui eu respondo a uma pergunta feita pelo convidado da semana. Dessa vez, quem conversou comigo foi a jornalista Natuza Neri. Nosso papo completo já está disponível, saiu na terça-feira. Se você ainda não ouviu, volta lá depois para ouvir as histórias de família da Natuza. Bom, vamos para a pergunta dela.

Eu quero saber do seu pai, porque você disse que a minha história te lança para a sua, mas de uma maneira invertida, e eu queria saber o que aconteceu. Meu pai nunca saiu de casa, morou com a gente até o final. Ele era uma cóltera, uma pessoa muito difícil, e uma pessoa também cheia de qualidades que me marcaram profundamente, porque ele tinha essa dupla face, mas ele pecava bastante nessa parte ética.

Então, como ele teve dois filhos fora do casamento, né? Ele teve duas famílias simultaneamente. Sem que se... Então, minha mãe até sabia, mas era tudo muito escondido. E aí ele negou até o final. E aí depois de velho, todo mundo sabia que os filhos eram a cara dele. Você conhecia os seus irmãos?

Os meus irmãos conheceram um pouco mais do que eu, porque ele fazia, evitava o máximo que a gente se encontrasse, né? E depois ficou toda uma disputa familiar. Quer dizer, o meu pai lidou com isso de um jeito tão ruim, tão indigno, que isso só piorou uma situação que, ok, ele tinha uma outra família mesmo, com essa outra mulher, e dois filhos, e preteriu eles, deixou eles numa... cuidou financeiramente deles, mas nunca sumiu socialmente, sabe?

De um jeito, ah, tá, não quero nem saber não fazer DNA, é meu filho, tá a minha cara aqui, né?

E eu acho isso me marcou de um jeito muito negativo. Isso teve efeitos negativos geracionais, assim, pra todos nós. Muito traumáticos. Então, quando você conta isso do meu... Olha, eu tinha que ter um ato falha agora. Quando você conta isso do meu pai. Você contou do seu pai. Mas eu adoraria ter ouvido isso do meu pai. Era isso que eu esperava dele. Assim, meu, é meu filho. Dane-se. Depois a gente vê. E como diz meu marido, filho é quem cria, né? Depois que criam, a gente vê. O Daniel é depois. Mas, assim...

Porque imagina uma criança, né? Ser repudiada pelo pai ou pela mãe, assim, né? É uma coisa... Eu acho que é uma dor que não... Nossa! Não se repara, assim, não se desfaz. Você pode fazer análise a vida inteira, assim. Eu não consigo enxergar uma dor assim passar.

Não consigo ver como... De ser preterido. E é uma repetição também da história da minha mãe, porque minha mãe foi adotada na maternidade, né? Então, ela também foi entrega em condições muito ruins. E a história se repete, né? A história que não é elaborada, ela se repete, né? Exatamente.

E ainda assim, é um pai que eu amo, que eu sinto falta, que eu acho que tinha outras inúmeras qualidades. Eu acho o álcool também uma coisa que atrapalhou muito a vida dele. Mas nesse lugar, ele foi muito indigno. Eu acho isso muito humilhante. Não tenho contato com esses outros filhos, porque nada foi criado para dar condição para isso. Acho que hoje seria uma coisa até esquisita. Mas fiquei muito...

muito lindo, ai, essa história que você conta do encontro do seu pai com a sua irmã é um negócio que é um sonho maravilhoso. Eu acho que você falou uma coisa, né, desse sentimento duplo e paradoxal pelo seu pai, que é o que eu sinto também pelo meu, mas eu me sinto culpada de sentir a parte do paradoxo que é ruim, assim, eu ainda me sinto mal, e eu acho que vai, eu vou me relacionar melhor com...

o meu pai, mesmo depois da morte dele, quando eu parar de me sentir culpada de pensar mal dele em condutas que ele teve ou comigo ou com a vida. Isso ajuda bastante o luto, né? Quando a gente consegue juntar as pecinhas, assim, tanto do amor quanto do ódio que a gente tem por eles, né? Que faz parte do amor, que é inescapável.

Eu de pequena já reconheci meu ódio pelo meu pai. Muito pequena, porque ele era um alcoólatra bem malo sem alça. E bem violento. E depois eu fui resgatando o amor. Então foi um pouco invertido pra mim. Bem pequenininho eu já achava ele trash. Já era a Vera e a Connelly, né? Já sacava tudo. Já sacava. Era o jeito. A minha sensibilidade depois virou psicanálise. Mas eu já sacava que tinha alguma coisa muito errada ali. Mas ajuda no luto a gente poder juntar que eles também foram, em algum momento, deixaram a desejar. Eu vou falar o foro.

odiosos, né? Mas também foram nossos amores. Ah, completamente. Eu sou apaixonada por ele. Fui muito apaixonada por ele. Tem muita coisa dele em mim que eu gosto e tem muita coisa dele em mim que eu gostaria de não ter. Pois é. Isso que é parentalidade resumida numa frase. Querida, brigadíssima. Obrigada, velho. Muito obrigada. Fiquei emocionada aqui.

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