Natuza Nery sente que recebe do mundo o que entrega para ele
A jornalista Natuza Nery briga pela família, pelos amigos e pelo que acredita. Desde pequena, tenta aproximar as pessoas ao seu redor – reunindo irmãs, costurando vínculos e transformando separações em convivência. Na conversa com Vera Iaconelli, fala sobre a ausência amorosa do pai, a força da mãe e da avó, a experiência de crescer em uma família interracial e a decisão de construir, na vida adulta, uma rede afetiva ampla e presente.
Ouça “Como ser mãe?” na Audible, nova audiossérie de Vera Iaconelli, com roteiro de Andrea Del Fuego e direção e produção da Trovão Mídia: https://www.audible.com.br/pd/Como-ser-mae-Audiolivro/B0GZ133PLQ
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- Relação com o PaiAusência paterna e busca por conexão · O pai artista e o alcoolismo · O pai e a negritude · A morte do pai
- Construção de novas famíliasValorização da família e presença materna · Família ampliada e agregados · O divórcio e a manutenção das relações
- Preconceito e Julgamento SocialSer filha de mãe desquitada · Diferenças culturais na infância · Autonomia e solidão
- A figura da avó MariaForça e valores da avó · O cuidado e a sobrevivência com dignidade · A marca da escravidão e a humilhação social
- Desafios nas amizadesAmigas como irmãs substitutas · A habilidade de fazer amigos desde a infância · A transferência de laços afetivos
- Consciência Racial e IdentidadeA negritude do pai como força · Racismo na infância e a dimensão da consciência · A família interracial e a diferença entre as irmãs
- Sofrimento humanoO sofrimento não necessariamente enobrece · Sobrevivência com dignidade · A idealização do sofrimento
- Legado familiarO pai como artista e sedutor carismático · A influência do pai na carreira da filha · O talento desperdiçado e o alcoolismo como antidepressivo
- A descoberta da irmã VanessaO pai assume a paternidade sem teste de DNA · A relação com o alcoolismo e a honestidade do pai
- O papel do cristão no mundoA lei do retorno e a entrega pessoal · Desejo e escolhas conscientes e inconscientes · A costura autoral da própria história
Trovão Mídia. Oi, eu sou a Véria Conelli e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia.
Família é um tema fundamental, lugar constituinte e único para cada um. E é nessa diversidade que a gente consegue encontrar semelhanças para pensar a nossa própria família e a família que a gente constrói a partir daí. Por isso que aqui, a cada episódio, eu convido uma pessoa para contar sobre a sua família da infância até hoje e sobre as mudanças que ocorreram ao longo do tempo.
Minha convidada de hoje é a jornalista Natuza Neri, filha da Dilene e do Neuber, irmã da Mariana, do Nauan, da Raíssa e da Vanessa, mãe do Lian, madrasta da Marina.
O episódio de hoje com a Natuza toca num tema que aparece muito por aqui, a maternidade sem idealização. Isso é algo que eu também quis investigar mais de perto em Como Ser Mãe, uma nova audiosérie que eu apresento e que acaba de chegar na Audible. São oito episódios.
Cada um começa com uma cena ficcional escrita pela Andréa Del Fuego. E depois eu entro para analisar os dilemas e as ambivalências de ser mãe. Sem simplificar nem romantizar. Como ser mãe? Está disponível exclusivamente na Audible, que é o maior serviço de audiolivros e audioséries do mundo, da Amazon.
Você pode ouvir por lá com 30 dias de teste grátis, ou 3 meses se for membro da Amazon Prime. Depois da conversa com a Natuza Neri, é só clicar no link aqui na descrição do episódio para ouvir Como Ser Mãe.
Bem-vinda, Natuza. Obrigada, Vera. Enorme prazer ter você aqui. Nossa, é todo meu. Estou até nervosa. Não precisa. Não precisa. A gente faz uma pergunta inicial. Qual que é a tua referência de família?
A minha referência de família é de uma família separada. Meus pais se separaram, eu tinha dois anos de idade, mas é também de uma família unida apesar da separação. Então, os meus pais sempre se deram bem, sempre se frequentaram, então eu cresci com eles dois andando juntos.
A minha madrasta, Lourdes, que é uma mulher importante também na minha vida, a quem eu chamo de mãe, ela é mãe da Raíssa, ela também sempre frequentou a minha casa. No chá de bebê da minha irmã, Mariana, estavam lá a minha mãe, o meu pai, a Lu, minha madrasta, a Marina, mãe da Mariana. Só não estava a mãe da Vanessa. Meu pai teve uma filha com cada mulher diferente.
Ele foi casado com a minha mãe, depois ele teve um relacionamento com a Marina. Entre esses dois relacionamentos, ele se relacionou rapidamente com a mãe da Vanessa. Não chegaram a namorar. E a Vanessa, inclusive, chega na nossa família muito tempo depois. A gente não sabia da existência dela. Ele sabia? Ele não sabia. Não sabia.
Posso até contar essa história depois porque ela é curiosa. Então, estavam lá as mães das minhas irmãs e a minha mãe. E eles lembrando de coisas do passado. Então, foi uma cena muito curiosa. Então, apesar da separação, que foi um sofrimento muito grande pra mim, porque eu era muito ligada ao meu pai. Apesar da separação, eu cresci com essa referência de família ampliada. Acho que seria o nome que eu daria pra isso.
Você tinha dois anos, você lembra dessa fase? Eu não lembro dessa fase, mas eu lembro do sofrimento, da falta que meu pai fazia, porque eu e minha mãe fomos para Recife. Minha mãe é paraibana, minha tia, Dione, que também é uma outra mulher muito importante para mim, morava lá. E nós fomos morar as três juntas. Então, a separação foi junto com essa mudança de estado. Exatamente. Então, eu me lembro do sofrimento que eu sentia da falta do meu pai. Era algo...
muito doloroso. E aí, quando eu tinha quatro anos de idade, a minha mãe passou a me colocar no avião, ela não podia, ela trabalhava, e eu ia sozinha, vinha sozinha pra São Paulo. E todos os anos eram assim, eu viajava sozinha.
Isso acabou me dando muita autonomia, mas também uma sensação de uma certa solidão, assim, por não ter uma família tradicional. Eu me lembro quando eu era criança, as mães das minhas amiguinhas eram super caretas. Aí a minha mãe ouvia Elomar, ouvia Caetano, ouvia Gil, claro, ouvia Chico. E elas usavam brinco de pérola, e a minha mãe usava brinco de pena. Ah, ah, ah, ah, ah.
Então, eu cresci de um jeito diferente das crianças do meu convívio. E ela era desquitada. Existia a figura da mulher desquitada. Da mulher desquitada. Quem é muito jovem hoje não sabe o que é isso, mas é a mulher separada. E a mulher separada era quase...
Uma aberração, né? Uma aberração, né? Como se fosse uma mulher de segunda categoria. Então, eu também sofria muito preconceito. Eu não podia ir a todas as festinhas porque eu era filha de mãe desquitada. Eu sempre uso esse exemplo aqui para as pessoas lembrarem, né? Porque hoje se faz isso com outros tipos de famílias.
Como se fossem más influências, a mesma coisa que foi feita com a mãe divorciada, que hoje é absolutamente comum, né? Exato, é mais comum, inclusive, do que a mãe casada. A gente chegou nesse ponto. E aí eu via meu pai duas vezes por ano, quando vinha a São Paulo. Depois, num determinado momento, a gente veio morar em São Paulo de novo, ficamos um tempo aqui, depois voltamos pra Recife também. Minha mãe também casou de novo, teve o Naoã. O Naoã é meu único irmão que não é filho do meu pai.
E a minha mãe casou já separada e teve o Naoã, que é meu único irmão. Qual a diferença de idade entre vocês? Há 10, 11 anos. Ah, bastante. Bastante. A gente tinha uma outra relação com... É, o Naoã nasceu, eu tinha de 11 para 12.
Como é que foi ganhar o irmãozinho? Ah, foi incrível. Eu amei. Eu amei. Achei o máximo. É porque às vezes na adolescência dá um pouco de tilt, né? Mas não deu não. Não, você curtiu. Não, não deu não. E a história da nossa família, apesar da família separada, mas não desunida, isso não foi o tempo inteiro.
Porque a Marina, a mãe da minha irmã Mariana, eu sou a primeira, depois vem a Mariana. Ela viveu muito tempo afastada do meu pai, sem muito contato. Muito por responsabilidade do meu pai. E então a Mariana ficou um espaço de tempo distante. Isso me incomodava. Eu já, lá para os 19 anos de idade...
Eu tinha visto a Mariana na minha infância, quando ela era pequenininha, dois anos, e aí eu visitava, acho que eu tinha oito por aí, seis, oito anos de idade. Eu sou péssima com datas. Também.
E depois disso a gente parou de se encontrar e de se falar. A gente perdeu o contato, cortou completamente porque não tinha o elemento central nesse elo que era o meu pai. Meu pai ficou muito enciumado porque a Marina casou de novo, enfim, coisas e traumas da vida. Mas eu me incomodava muito com isso, eu sempre quis ter irmãos.
E eu tinha duas irmãs, que eu conhecia naquele momento. A Mariana, com quem eu não tinha contato, e a Raíssa, que é a caçula, com quem eu tinha contato. E aí, quando eu tinha 19 anos, eu fui na casa do meu pai, peguei a Raíssa e eu disse, hoje a gente vai visitar a nossa irmã, você vai conhecer a sua irmã. E fui encontrar a Mariana, visitá-la.
E fiquei encantada, uma menina inteligentíssima, queria ser bióloga, tinha aos 14 lido toda a coleção de Shakespeare, era uma cabeçudinha. E fiquei muito apaixonada por ela e a gente tem esse encontro, passa mais ou menos um ano e meio, eu conheço meu primeiro marido que era biólogo e eu voltei a ficar com aquilo martelando na minha cabeça.
Eu preciso me aproximar da minha irmã, mas dessa vez precisa ser definitivo. Eu não posso ir aos 19 e depois só encontrá-la aos 29. E aí eu volto e a minha irmã diz que sou eu que trago o pai dela de volta.
E aí eu volto a procurar minha irmã e dessa vez a gente nunca mais se separa e ela volta a se aproximar do meu pai. Nossa, isso é muito surpreendente, Natuza. Você vai fazendo uma costura a partir da relação dos irmãos. É. O que que te dava esse gancho com os irmãos, né? Então, eu acho que... Talvez eu chore. Tamo junto.
Eu acho, Vera, que era a falta que meu pai fazia. E que eu tinha certeza que ele fazia pra parte, né? A Raíssa das minhas irmãs foi a única que cresceu o tempo inteiro com meu pai. Meu pai morre e a Raíssa ainda morava junto com ele. E ele foi casado com a Lu até o fim da vida dele. Meu pai morreu em 2022.
Então, talvez seja isso. Eu nunca me fiz essa pergunta, na verdade, do porquê que eu fiz essa costura a partir dos irmãos. O irmão com quem eu mais convivi foi o Nauan, porque moramos juntos a vida toda e minha mãe, moramos com ela a vida toda.
exceto por um espaço de tempo entre os meus 15 e 16, em que minha mãe resolveu se mudar de volta pra Recife e eu não quis ir. E aí eu morei seis meses com meu pai e depois seis meses com uma tia. E aí eu vou morar com a minha mãe em Recife. Mas eu acho que foi isso, assim. Meu pai me fez muita falta na minha vida.
Embora eu fosse muito apaixonada por ele, ele muito apaixonado por mim, a ausência dele era algo que me alcançava de uma maneira difícil. O que se atribui a isso? Porque esse modus operandi é um pouco recorrente. O homem larga a esposa e os filhos. E ao mesmo tempo ele se acha um pai presente do jeito dele. Uma coisa cultural. Às vezes até chega no final e reivindica um cuidado que ele mesmo nunca ofereceu. Onde você colocaria seu pai?
Ele não era essa pessoa, ele não se intitulava um pai presente. É curioso porque, ainda que ele fosse ausente na minha vida, eu não era ausente na vida dele. Eu tenho certeza que meu pai pensava em mim todos os dias. E era uma conexão muito maluca. Então, quando eu estava passando por alguma dificuldade, ele sentia.
E aí, depois, quando a gente se encontrava e eu contava, minha madrasta dizia, pois ele, nesse dia, chorou de saudade e tal. Mas o meu pai era uma figura muito diferente, Vera. Meu pai era um artista, um cara inteligentíssimo, autodidata, músico, mas tinha um fator álcool na vida dele.
Durante muito tempo, esse foi um ponto muito difícil ali na vida, nas nossas vidas. Eu não sei até hoje por quê. Talvez porque ele fosse um espírito muito livre e ele de fato era. Não era por falta de amor e eu sentia, muito curioso, porque eu sentia a ausência, mas eu ao mesmo tempo sentia o amor, a paixão que ele tinha por mim. Mas ele me faltava na tarefa de casa, ele me faltava nas festas da escola.
A minha mãe também voltava porque ela precisava trabalhar. Então, não tinha. Então, eu tive que me virar muito cedo, assim. Eu, desde muito cedo, fui aprendendo a lidar com isso que tinha posto.
na minha vida. E quando a gente se encontrava, era muito bom. Em geral, a gente se encontrava na casa, ou na casa dele, ou minha avó, Maria, que também é uma mulher muito forte, que é a mãe do meu pai. Minha avó teve quatro filhos, né? Meu pai, minha tia Bete, minha tia Lisete e meu tio João. A minha avó era empregada doméstica, uma mulher preta, da periferia.
Nasceu e morreu na periferia, mas periferia mesmo, sabe, do banheiro fora da casa. E criou os quatro filhos, uma mulher de valores incríveis. E morreu, eu já era adulta, já era jornalista, já morava em Brasília. Então, a minha avó era esse elo, assim. Acho que depois que a minha avó morreu, a família também deu uma separada. Mas aí ainda tem um outro elemento nessa história que é a Vanessa.
Eu já estava casada, morando em Brasília, e aí a Raíssa, mais nova, me mandou uma carta dizendo que eu era tia. E a primeira, sabe quando você não molha o bico, a primeira reação que eu tive? Eu falei, como assim eu sou tia? Ela é adolescente. E aí a linha seguinte era, surgiu na casa da avó uma irmã nossa chamada Vanessa, que tem 22 anos, e eu tinha 24.
E eu falei, mas que história é essa? E eu rapidamente ligo pro meu pai e eu falo, pai? Que história é essa? Assim, uma irmã? E aí ele disse, pois é, minha filha. Ela apareceu dizendo que eu era o pai dela. E eu falei, mas você fez algum teste? É isso mesmo e tal? Ele falou assim, eu jamais duvidaria de alguém que diz que é minha filha. Olha que coisa poderosa, né? Pois é, amiga.
poderosa, sim, porque ele era essa pessoa. Sim. De não botar em dúvida a palavra de uma mulher com quem ele esteve, ou enfim, de uma criança que se diz filha, isso é de uma dignidade. Quantas pessoas você já não acompanhou que precisaram de DNA e mesmo assim não correram, né? É, exatamente. Ele não, ele...
abraçou a Vanessa. A Vanessa já tinha filhos, então ele virou avô do dia pra noite. Ela é fruto de uma relação na época da separação dos seus pais. Eu até perguntei, eu falei, pai, mas você traiu a minha mãe? Porque era muito perto ali da minha... Não tinha chegado a dois anos e meus pais ficaram separados dois anos. E ele falou assim, minha filha...
Eu não me lembro de ter traído a sua mãe. Isso, pra mim, é um mistério. E ele era só honesto. Se ele tivesse... Sim, porque você acha que pode ser fruto do alcoolismo? De uma... Não sei. Não sei. A única coisa que eu sei é que ele não mentiria. Não, e que ele assumiu, assim, contra todas as evidências, até pra ele, antes de qualquer coisa. Quer dizer, eu acho de uma dignidade... Estou chorando aqui, mas assim... É de uma dignidade um homem que não bota em... É muito gatilho pra mim isso dele.
É muito a minha história, cara. O contrário, né? Meu pai não fez isso. Então, eu acho sensacional. Dá pra entender que mesmo ele sendo uma pessoa que te faltou tanto, quando ele tava presente, ele tinha uma qualidade, né? Sem dúvida. Que te marcou pra sempre. E ele era um feminista, assim, né? Quer dizer, ele não era um feminista. Ele tinha porções feministas. Melhor dizendo.
Mas na porção feminista dele, ele dizia que Deus era tão incrível que criou a mulher, porque ele era religioso, não digo, mas ele era um homem de fé. Embora fosse malucão, ele era um homem de fé, acreditava em Deus e dizia que a mulher era um ser tão incrível que era o único ser vivo capaz de gerar osso e cabelo dentro do próprio ventre. A terra não consome isso.
Então, ele era um apaixonado por essa entidade chamada mulher. Tanto que ele teve quatro filhas, né? Ele falou, eu liberei todo o meu lado feminino nessas quatro meninas. E ele fazia músicas pra cada uma das filhas. Ele fazia músicas pras mulheres que passaram na vida dele. Fez pra minha mãe, pra Lourdes, pra Marina, pra todo mundo.
E ele era um sedutor ao mesmo tempo, mas um sedutor não no sentido sexual da palavra. Ele entrava num lugar completamente carismático e ele chamava a atenção de todo mundo. Você tem esse traço? Será? Tem, você tem esse traço. Interessante isso.
E se você olhar pra ele, eu sou a cara dele, só que eu sou branca e ele é preto. Sou a cara dele. Quer dizer, a minha irmã Mariana é a mais parecida com ele. Assim, é a cópia. Mas a gente tem o queixuda, né? O rosto anguloso, a cor do olho, uma cor mel e tal. E é muito doido a Mariana ser a mais parecida com ele, porque foi essa filha que chegou pra ele de maneira definitiva muito tempo depois. E a história é impressionante.
Quando eu fui visitar a Mariana pela primeira vez, eu com 19 e ela com 14, eu perguntei se ela queria ver o meu pai. E ela falou que não, que não queria. Quando eu revisito a Mariana e a gente se encontra de novo, ela me pede. Ela fala, eu quero ver o seu pai.
Aí eu falei, tá certo, então vamos. Aí pego ela, a gente chega, ele morava aqui no centro da cidade de São Paulo, e quando a gente tá saindo do carro, ela fala, eu vejo ele no bar. Embaixo do prédio tinha um bar, ele tava nesse bar escrevendo, escrevia música o tempo inteiro. E aí ela diz, não diz quem eu sou, sou aquela cara dele. E aí eu não falo nada.
E eu digo, pai, essa aqui é minha amiga e não falo o nome. E aí ele olha pra ela e ele fica encantado por aquela menina. Ele fala assim, mas que olhos lindos, mas como você é bonita, menina. E aí ela...
meio travada, ela falava, ah, obrigada. E eu falava, vocês não querem comer um lanchinho? Eu posso subir e fazer um suco de laranja pra vocês? Vamos subir então, faz o suco de laranja. E você, minha filha, como é que tá? Como é que tá o trabalho? E esses belos olhos, ele tinha uma coisa com olhos.
E aí a gente sai do bar e vai subindo um casal na rua. E aí meu pai tá num ponto da calçada, eu tô à esquerda dele e a Mariana tá à minha esquerda. E esse casal tá meio que de frente pra ele. E ele vira com o braço esquerdo e fala assim, essa aqui é a minha filha. Ele falou, eu sei, eu conheço ela. E aí o amigo, porque o cara vira pro meu pai e fala assim, poeta, quanto tempo? E aí ele fala assim, essa aqui é a minha filha. Só que ele aponta pra mim. E o cara entende que é a Mariana.
E ele fala assim, não, ela não, ela é minha filha. E aí nessa hora eu falo, pai, é a Mariana.
E ele sai correndo. Ele atravessa a rua, sai correndo, bate a cabeça na parede, assim, fala, não tô acreditando, volta, pega a minha irmã no colo. É um drama mexicano e tal. E aí, a partir de... Assim, lentamente, não foi automático, mas eles se reaproximam. Num primeiro momento, ele não reconheceu. E ela é a cara dele. Se olhar a foto de um e de outro, não há dúvidas. Não há dúvidas.
Então, é uma família interracial. Como é que esse traço aparece na tua história? Porque não raro os homens negros têm problema com álcool, baixa autoestima, uma série de questões que são também fruto dessa violência estrutural do racismo. Conta a tua experiência um pouco.
Eu nunca enxerguei meu pai com baixa autoestima. Eu me lembro uma vez, eu fazia faculdade de desenho industrial, fazia aqui no Mackenzie, e a minha irmã mais nova estudava. A Raíssa estudava no Mackenzie, acho que estava no fundamental, não me lembro. E daí eu estou saindo da faculdade, encontro com meu pai, com a minha irmã, e aí eu falo, pai, ela me falou, baby, tal, não sei o quê, que bom te ver. E ele estava mal, ele estava triste. E ele estava triste porque a vida profissional dele não virou.
ele como músico na década de 70 ele fez um disco belíssimo e ele era talentosíssimo mas alguma coisa acontecia que ele não não virava artisticamente o álcool deve ter tido uma contribuição muito brutal nisso e aí eu falo, pai, reza aí ele falou assim, minha filha eu escrevo ópera eu tô do lado de Deus o tempo inteiro eu escrevo ópera
Então ele era meio grandiloquente, assim, não consigo ver, talvez fosse uma baixa autoestima camuflada de excesso de certeza e tal, mas eu acho que não teve muito. O que atravessou mais, que atravessa essa relação interracial, é a dificuldade financeira, né?
Da minha avó, do meu pai, do meu tio. As minhas tias foram melhores. Minha tia é professora, minha tia Lizete é professora pública, minha tia Bete virou secretária. Mas eu acho que era mais a dificuldade financeira. Foi muito difícil pra gente. Minha infância foi uma infância de bastante dificuldade. Dentro do meu privilégio de ser branca.
E a minha mãe ralava muito pra me sustentar. Então, a família do meu pai é uma família com muito pouca grana. A minha mãe com um pouco mais, mas assim, numa relação brutal e que não tinha jeito, não tinha muita alternativa. Acho que a minha irmã, Mariana, teve episódios muito tristes de racismo.
Então, a Raíssa, ela é branca também, e a minha avó era uma mulher preta, que acho que durante uma fase da vida tinha vergonha, eu acho, um pouco, sabe? Não sei se minha tia vai confirmar isso, mas eu sinto isso porque não era...
Não era aceita pela sociedade. Mulher preta foi analfabeta a maior parte da vida. Quando ela morreu, eu encontrei uma carteirinha. E ela era super politizada. Uma carteirinha com assinatura dela é aquela letra trêmula da incerteza, né?
Então, era uma mistura de tudo, assim, de dificuldade financeira, do racismo, de ser semi-analfabeta, a grande parte da vida e ainda assim, com todas essas dificuldades, ela criou os quatro filhos.
Ela embalou todos os netos. Na adolescência eu queria morar com ela. Eu sempre tive muita paixão pela minha avó. Neta mais velha. E aí um dia eu falei, avó, acho que eu quero vir morar com a senhora. Porque ela tinha a história do cuidado, né? Ela era o cuidado em pessoa. Ela cuidava de todo mundo. E eu me sentia muito cuidada. E aquilo me fazia muito bem.
Em um determinado momento eu disse, vó, eu quero vir morar com a senhora. Ela falou, ah, minha filha, vai ser tão bom. Você vai pra igreja comigo todo domingo. Aí eu lembrei, todo domingo, seis horas da manhã. Aí eu mudei de ideia. Eu falei, vó, eu acho que não é o momento ainda de morar com a senhora. Eu vou vir morar com a senhora quando eu for um pouquinho mais velha. E nunca fui morar com a vó Maria. Tem uma...
Uma coisa de humilhação social que é muito forte, né? Que a gente estuda bastante também na psicologia, que é um lugar no qual a humilhação vai sendo impregnando o sujeito, né? Porque ele vai sendo tratado tão como um sujeito de segunda classe que ele chega a se envergonhar. Enquanto a vergonha deveria estar do lado...
de quem humilha, né? Humilhado se sente envergonhado, né? E, na verdade, são grandes trajetórias de sobrevivência, de cuidado com essa pessoa que nunca abandona os filhos, que não abandona a descendência. Geralmente são mulheres, né? Uma mulher que perdeu o marido, o meu avô, José Nery, um pintor talentosíssimo, talentoso.
Tinha problema com alcoolismo também. Um dia vai embora e volta 22 anos depois, 20 anos depois. Ele desapareceu. Ela criou esses quatro filhos sozinha e ele desapareceu, voltou e morreu dois anos depois. É uma saga, assim.
Uma saga que você noticia direto, né? É tão Brasil isso, né? É muito, né? A mulher negra, chefe de família, sozinha, cria os filhos, não abandona, fica, o homem vai embora, não volta, não dá o nome, ou dá o nome e volta no final. São histórias que se repetem, né? É, é muito impressionante. E a morte do meu pai foi também outra cena, assim, muito...
Muito doida, eu estava na eleição de 22, era sabatina, a gente estava sabatina dos candidatos a presidente, era sabatina do Ciro Gomes. E meu pai não ia médico, ele não acreditava em médico, ele achava que ele sabia mais do que todo mundo.
Eu acho que ele tinha medo, na verdade. E num determinado momento da vida ele teve um problema de saúde, aí minha madrasta me ligou e falou, ele não quer ir no médico. Eu falei, olha, se você não for no médico, eu nunca mais vou te ver. E aí ele foi. E eu achei que eu tinha esse super trunfo na mão, né? Quando aconteceu de novo, eu falei, eu nunca mais vou te ver. Ele falou, então nunca mais venha me ver.
E aí, é claro que eu continuo indo ver meu pai, mas nesse dia eu tava indo pro estúdio, tava no Rio, toca o telefone, minha mãe, minha madrasta, me liga, e eu achei estranho, eu falei, mãe, tá tudo bem? Ela falou, não, seu pai não passou bem, não acordou bem, e ele pediu pra falar com você.
Aí eu falei, pai, o que foi? Ele falou, ah, eu acordei, eu desmaiei. Eu falei, mas desmaiou e ele tinha tido um AVC anos antes. E foi nesse AVC que eu não consegui fazer ele se tratar. Ele fugiu do hospital, ele teve o AVC no mesmo dia, ele fugiu do hospital e ele não voltou. Eu fui fazer a consulta no neurologista por ele, como se eu fosse ele, pra ver se eu tinha alguma maneira de cuidar dele. Ele era um cara difícil, cabeça muito dura.
E aí ele fala assim, mas agora eu tô melhor? Você podia mandar um entregador aqui? Aí eu vi que ele não tava, eu tava meio desconexo. Aí eu falei, pai, você não tá falando coisa com coisa, eu tô achando que você pode tá tendo um outro AVC.
não, não, não, eu tô bem e tal, não sei o quê. Ele falou, vem você aqui, você é minha médica, vem aqui cuidar de mim. Eu falei, pai, eu tô no Rio, vou fazer a Sabatil, hoje é um dia importante pra mim. Eu queria muito que você recebesse uma médica que eu vou mandar aí, uma geriatra. Promete que você vai receber essa geriatra, porque eu preciso estar com a cabeça em paz pra fazer, executar esse trabalho.
entre essa batida com o Ciro Gomes e tal, mas eu vou ficar muito mal se você não receber a geriatra. Aí desliga o telefone, aí eu já aciono a geriatra, aí ele resistindo, ligo de novo, eu falo com ele três vezes, até que ele aceita receber a geriatra.
E aí a gente ainda brinca. Eu falei, então vou chamar de gato. Ah, doutora gato. Eu falei, pô pai, tá passando mal, tá chamando a médica de gato. Não, é porque o sobrenome dela é gato. Então eu chamo ela de doutora gato e tal, e não sei o que, ela já tinha visto ela uma vez. E foi a última vez que a gente se falou.
Dez minutos depois, ele caiu. Aparentemente, um ataque cardíaco. Mas ele quis se despedir de mim. Sim. Quantos anos ele tinha? 70 anos. Quando eles deixam a gente, é um pacote, né? Porque não é só a pessoa de 70 anos que vai, vai. O pai dos dois anos, o pai de todas as... Totalmente. É um luto trabalhoso, né? Totalmente. Eu acho que eu nem me recuperei ainda, sabe? Disso.
Na verdade, não é que eu não me recuperei. Eu não processei tudo. Eu não processei esses 46 anos com ele, sabe? Não processei. Faço análise pra ver se eu consigo um dia. Porque é um sujeito super intenso e, ao mesmo tempo, com uma proximidade limitada, né? Intenso. E essas figuras talentosas que foram preteridas por questões...
sociais, culturais, raciais, né? Muitas vezes elas ficam figuras muito ressentidas, né? Porque a pessoa sabe que ela tem um talento e ela não... E o outro lá, só porque é branco ou teve uma outra condição, consegue chegar num lugar, às vezes, com menos talento, de ver isso direto, né? E ele era genial. A minha irmã, umas semanas atrás, estava lá em casa, a Mariana.
Vocês continuam tendo essa convivência? Completamente. A gente é muito próxima. Ela contou uma história que eu não me lembrava. Ela disse que estava andando com meu pai, já depois dessa reconciliação, né? Ou dessa conciliação. E ela, um morador de rua no centro, meu pai era esse cara do centro. Então, hoje eu estou morando no centro e é como se eu estivesse voltando no tempo, assim, para esse lugar. Eu andava nos ombros dele. Mas ela disse que ela andando com ele no centro...
O morador de rua tava quase sem roupa. Tava frio. Eles estavam indo pra casa. E o morador de rua disse pra ele assim, eu não tô com fome, eu tô com frio. Aí meu pai tirou a roupa toda. Ficou de cueca. E foi embora pra casa de cueca com a minha irmã. Caraca.
E eu não sabia dessa história. Ele tirou a roupa do próprio corpo. Vocês estão juntando as histórias dele? É, a gente junta. Tem muita coisa, né? Tem muitas músicas lindas que ele só escreveu no papel, que nunca gravou. A gente sempre fala em digitalizar tudo. E aí a vida vai passando, assim. Em algum momento a gente vai ter que parar pra fazer isso, sabe? Porque são letras lindíssimas, assim. Era um cara...
Mas ele fazia de tudo. Nunca estudou inglês, fazia música em inglês. Nunca estudou francês, fez música em francês. Nunca fez faculdade de música. Escreveu ópera. Era um cara, assim... Um talento totalmente desperdiçado. Desperdiçado. E o álcool, muitas vezes, ele vem pra fazer uma função de antidepressivo.
Ele vem pra amortecer, né? Essa experiência já é, né? Uma outra forma de lidar com o insuportável, né? De ter toda essa genialidade, toda essa sensibilidade, esse talento e às vezes não ter como usar isso, né? Como chegar até as pessoas, né? Como chegar no público. Exatamente.
que é ser branca numa família? Porque você fala dessa irmã que sofre racismo, né? Mas como é que pra você, como é que você se sente nessa interface aí? Vera, quando a gente tava crescendo, a consciência do racismo era muito diferente, né? Da consciência que a gente tem hoje.
E como a gente cresceu separada, eu vim saber de histórias da Mirma que aconteceram antes da gente se aproximar e depois da gente se aproximar. Uma delas eu queria acionar embaixada, porque foi um episódio no México.
horrível que ela passou e eu queria acionar a embaixada do Brasil lá, queria brigar com Deus e todo mundo. O meu pai era, tinha muito orgulho. O meu pai de todas as pessoas da minha família paterna era o que assumia a sua negritude. De orgulho de ter uma... É, não que os outros não assumissem, eu só não tenho essa memória. Da ascendência, tinha o orgulho da ascendência. É.
Então, ele dizia o tempo inteiro que ele era preto. Muito raro isso. Ele resgatava as origens africanas, ele fazia samba de forte conteúdo racial, de forte conteúdo social. Então, para mim, a consciência do que o racismo provoca, eu assisti.
com ele. Só que o outro lado da minha família, minha mãe, é branca. Sim. Então, eu via os relatos dele de preconceito, aquilo doía em mim, mas eu não tinha na infância a dimensão que eu só fui adquirindo depois. E a Raíssa, minha irmã, ela é branca.
Então, de todas as filhas do meu pai, só a Mariana é preta. As outras três filhas são brancas. E a minha avó, não posso estar errada, mas é só uma questão de memória. Minha memória é péssima. Eu não me lembro desse discurso forte. Não era muito comum na tua avó. Hoje a gente ouve, né? Mas, sei lá, algumas décadas atrás não era nada comum, né? Até a ideia da democracia racial era muito mais...
Hegemônica, né? A ideia hegemônica, né? Então, realmente, seu pai até nisso, né? E meu pai fugiu de casa, né? Ele tinha 14 anos de idade, ele fugiu de casa, exatamente como o meu avô. Sumiu. Foi pro Rio de Janeiro, foi menino de rua.
Então, imagina, preto, menino de rua, toda sorte de preconceito que ele não sofreu na vida. Então, eu acho que isso trouxe pra ele essa ideia da sua própria negritude como força, sabe? Em algum momento da vida, isso se virou a favor dele. E ele ficou anos. Minha avó achava que ele tinha morrido.
Ele voltou com 19, 18, sei lá, ou até um pouco mais. Como foi pra ele ver a tua carreira, né? Que se tornou uma carreira pública, nem todo mundo tem um sucesso que é público, que todo mundo conhece. Como é que foi essa? Ah, ele era super orgulhoso. Ele era super orgulhoso.
E acho que ele tinha uma satisfação do fato de eu ter conseguido o que ele não conseguiu. Sabe? Eu acho que vinha, o orgulho dele de mim vinha disso também. E ele também muito politizado. Então, a gente tinha conversas espetaculares sobre política e tal. Então, eu acho que ele se realizou em mim, em grande medida. O que, pra mim, é motivo de orgulho, né?
Agora, tem um traço nessa família que é muito mais incomum, existe, mas é mais incomum, que é uma família separada, mas não rompida, como você disse. Eu acho muito bonita essa forma como você traz. É uma família gregária, né? É uma família onde as ex-mulheres do mesmo homem se encontram para contar caos, as filhas de diferentes mulheres se encontram para criar essa rede de irmãos, né?
Isso é tão peculiar, tão interessante. Isso é salvador, Vera. Isso me salvou. Isso repercute, porque eu sei um bastidor aqui, eu não costumo usar os bastidores, mas assim, você tem uma coisa com as amigas, né? Sim. Você acha que isso... Como é que foi a coisa com as amigas?
Então, como uma grande parte da minha vida eu não tive as minhas irmãs, né? Sim, sim. Eu fui ter minhas irmãs, eu já era adulta, assim, com exceção da Raíssa, mas as irmãs todas juntas. A Vanessa é mais difícil porque a Vanessa mora em Portugal, então a gente, ela quase nunca vem pro Brasil. A última vez que eu lembro que a minha irmã veio pro Brasil foi quando a minha avó Maria morreu, foi no enterro da minha avó. Eu sempre fui muito próxima das minhas amigas.
E elas são... De pequena. Você acha que você tinha... Amigas de pequena que funcionavam um pouco como essas irmãs, assim? Tinha. Minha mãe disse que eu era muito facinha. Então, eu chegava nos lugares. E aí, pequena, na praia. E eu tinha o sotaque, porque a gente morava em Recife. E aí, eu chegava e eu não passava um segundo sem amiga. Eu falava, oi, tudo bem? Meu nome é Natuza. Tu quer ser minha amiga? E...
Não, era assim, tu quer ser minha amiga? É. Que é já a confirmação, entendeu? Não dava chance pra pessoa dizer, não, não quero ser sua amiga. E aí a minha mãe falava que ela conta, ela fez uns álbuns incríveis, chamado Tudo Que Vale A Pena Ser Lembrado. Ai, que lindo. Os causos, a primeira passagem de ônibus, a primeira passagem de avião, o primeiro, o papel de chiclete ploque.
E lá tem uma moedinha de um cruzeiro e a história era assim, que num restaurante em Recife eu tava com um seixo, uma pedrinha, aquela pedrinha lisa de cachoeira assim, sabe? E aí eu fui de mesa em mesa conversando e minha mãe só me filmando.
E eu ia, conversava, aí as pessoas riam, eu ia na outra mesa e tal. Até que chegou numa mesa, eu fiquei mais tempo, aí minha mãe foi olhar pra ver o que que tava acontecendo. E aí nessa hora eu tava dando a pedrinha pro casal e ele tava me dando uma moeda de um cruzeiro. Eu vendia a pedrinha pra ele. Maravilhosa.
Então, eu sou uma pessoa de muitos amigos. E assim, muitos amigos, e dá pra contar em, sei lá, quatro mãos, aqueles que são amigos, sabe, até o vento fazer a curva. E acho que vem disso, assim. Eu nunca tive problema de me relacionar com os outros, não. É interessante porque o Winnicott fala desse recurso, a amizade, que é uma competência, né? Dessa possibilidade de fazer amigos e ter relações leais, enfim, constantes.
da relação com os irmãos, né? Às vezes aparece como uma compensação na falta da relação com os irmãos. Mas você realmente mostra isso. Só que você começa com os amigos e depois faz essa transferência para essas irmãs, né? É uma história muito bonita, muito peculiar. Interessante esse olhar. Não tinha pensado nisso. É porque a gente precisa ter tido uma relação bacana, né? Com os irmãos, que não seja só de competição, também de competição, de ciúmes, mas não só, né? Sim.
pra poder transferir isso pros amigos, né? E você vive essa experiência antecipada, mas você tem essas amigas e as irmãs, né? É. É muito linda essa história, Natuza. Não, é. Mas é difícil também, né? Sim. Trabalhoso. Muito trabalhoso. Sim. Dá trabalho até hoje, assim. Se você me perguntasse assim, ah, porque muita gente me diz isso, né? Puxa, mas se tivesse sido fácil, talvez você não tivesse...
chegado onde você chegou. Eu falei, putz, é uma sacanagem me falarem isso. Sabe por quê? Não é que a pessoa seja sacana. É só, assim, é duro, porque eu conheço tanta gente que teve a família presente que não passou por tantas dificuldades e que também deu tudo certo. É uma idealização do sofrimento. É, o sofrimento no geral embrutece, né? Exato.
Você tem que ter feito uma coisa muito bacana pra ele não te embrutecer. E aí você vai falar o quê? Pra uma mãe que vive na periferia, que trabalha em dois empregos, tem que deixar seus filhos, a filha de dois com um filho de dez, duas crianças, porque não tem com quem deixar, porque você abre a geladeira, a geladeira tá vazia, e aí você vai dizer assim, não sofre aí, porque lá na frente você tem chance de... Paraíso é depois, né?
Você sofre agora, é uma visão judaico-cristão totalmente distorcida, né? Quer dizer, no sentido, você sofre bastante que você vai ter uma compensação depois. Não tem compensação, gente. Tem que encher essa geladeira já, hoje, fome zero, não tem essa compensação, não tem essa ideia de que essa pessoa vai ser elevada a alguma potência a partir do sofrimento. O sofrimento, ele embrutece.
E só pra deixar claro, eu não tô comparando a minha realidade, porque com todas as dificuldades que eu passei, ainda assim eu falo... Você pode comparar com a da sua avó, não? Sim, a da minha avó eu posso. Eu vivi num lugar de privilégio, né? Então, tem gente que sofre muito. Minha avó, por exemplo, que sofreu.
demais, viveu a vida inteira numa casinha em que ela tá frio, sabe? Sentia frio, porque a forração não era adequada, porque quando tinha que, imagina aqui em São Paulo, acordar de madrugada pra ir, depois quando os filhos foram se estabelecendo mais, a casinha dela foi melhorando, foi sendo mais arrumadinha. Minha avó era aquela avó que dizia assim, pode trazer suas amigas aqui, aqui a gente é pobre, mas é limpinha.
sabe aquela grande feito ali é sobreviver com dignidade, né, e essa frase Vera, como se o pobre não fosse limpo por isso que eu te digo que ela não tinha essa, era tão opressor pra ela, como se limpeza, pobreza fosse sinônimo de sujeira exatamente e eu falava, vó, e naquela época eu dizia assim Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os
vó, para de dizer isso? A senhora não pode, eu tinha 14 anos de idade. Ô vó, para de dizer isso. E ela falava, não filho, é modo de dizer, todo mundo diz. É modo de dizer, que é da marca da escravidão, né? Aqueles que ficavam na senzala, que ficavam na sujeira mesmo, né? Então, realmente é tentar marcar um lugar. Essa identificação com o lugar de humilhação é terrível de ver quando você não está identificado, né? Imagina que o seu pai também deve ter sido muito sofrido.
Mas você fala de hoje, né? E a segunda pergunta que eu tenho pra você é... Nossa, a gente tava só na primeira. Desculpa aí, hein? É assim mesmo, tá tudo certo aqui. Qual que é a tua referência de família hoje? O que você fez com essa história? A gente sabe o que você faz publicamente com essa história, né? Todas as tuas batalhas, as tuas pautas, a tua militância, mas...
O que você faz na tua vida particular com essa história? No que que isso, essa história de família, levou você pra onde? Levou pra uma valorização muito forte da família. Então, eu sou uma mãe muito presente. Acho que às vezes até peco por excesso de presença.
A minha família é a força que eu tenho. Pode tudo dar errado, mas eu os tenho. Eu os tenho próximo. Eu não sou só uma mãe protetora, eu sou uma filha protetora, eu sou uma irmã protetora. Se precisar brigar na rua pra defender as minhas irmãs, eu brigo na rua, minhas irmãs, meus amigos.
E até mesmo que eu não conheço muito bem, assim. Porque eu sou briguenta. A família, pra mim, é o lugar central. E eu me casei recentemente com alguém que tem uma família ampliada também.
Nesse fim de semana, aniversário da minha sogra, estava lá a minha sogra, o meu sogro já separados e a segunda mulher do meu sogro já separados também, com os filhos dela, que ele é padrasto até hoje.
É muito curioso, porque é uma história muito parecida. Lá na minha família a gente tem uma brincadeira que são os agregados. Então, por exemplo, eu tenho o meu tio, que é um tio muito próximo e exerce um pouco dessa figura paterna pra mim, que é o tio Du. O meu tio Du era marido da irmã do meu pai, da minha tia Bete. A minha tia Bete morreu e o meu tio Du casou de novo. E casou de novo com uma amiga da minha tia Bete. Minha tia Bete deu as bênçãos pra esse casamento. Ela tava viva ainda. Aham.
Sim.
Acho que no começo pode ter tido um estranhamento, mas depois também virou uma coisa ampliada. E aí, quando chega no Natal, ele passa com a gente. No aniversário dele, ele vem. Ele mora no Guarujá, ele vem. E aí, às vezes a gente brinca e fala assim, não, você não é da família. Sua relação, porque aí ele vai a minha prima, que é a minha prima mesmo de sangue. Então, eu tenho uma família ampliada que não tem relação consanguínea comigo. E que são a minha família.
Se você me perguntar, meu tio é quase que meu pai hoje em dia, né? Na falta do meu pai. Então, eu trabalho com o conceito de família estendida. A Maria Rita aqui fala tentacular. Tem muitos tentáculos e se associa. E aí você teve o Liam nesse primeiro casamento? Não, eu tive o Liam no segundo casamento. Aham, aham.
No segundo casamento. E pra você, o divórcio como é que caiu? Foi difícil, porque o Lian tinha seis anos. Mais por conta, eu tô pensando por causa desse projeto de família. Porque às vezes a gente pensa que quando a gente for ter, a gente não... Ninguém casa pra se separar, mas enfim. O quanto te cobrou essa ideia da família? Eu demorei pra me separar exatamente por isso. Porque eu não queria que ele crescesse sem o pai perto e o pai americano. Eu morria de medo que o pai voltasse pros Estados Unidos.
Ele ficou, casou de novo e todos nós nos frequentamos também. Ficou no Brasil? Ficou. Ai, que maravilha. Ficou no Brasil. Eu sou amiga da mulher dele, sou amiga dele. Você imprimiu esse traço, né? Porque você veja que isso funcione depois tem a ver com as outras pessoas também, né? A esposa do seu ex-mairo tem que ser uma pessoa que recebe você. Mas parece que você teve tanto um jeito...
De ir vendendo a tua pedrinha de lugar em lugar, olha gente. De ir juntando todo mundo assim, né? Quantas pessoas também que você escolheu pra estar juntas, né? Eu não sei se isso é fato, mas eu pelo menos adoto como lema de vida. Eu acho que a gente recebe do mundo o que a gente entrega pra ele.
Não deve ser verdade isso, mas... Tem funcionado. Mas tem funcionado. Eu acho que dá, sim. Não deve ter muita ciência por trás disso, não. Não, não, porque para os canários, a gente só descobre o nosso desejo a posteriori. Ou seja, a gente vai fazendo escolhas, consciente e inconsciente.
que vão fazendo a gente colher coisas. E essas coisas que a gente colhe mostram do nosso desejo. Que a gente só sabe depois. Você fala, ah, na verdade, eu queria ter sido astronauta. Não, não queria, bicho. Você não estudou para ser astronauta. Fica aquela fantasia do queria. Mas o que você realizou? Você realizou isso aí. Isso mostra de escolhas, mesmo inconscientes, que revelam, de fato, o teu desejo.
Porque é duro, né? Porque as pessoas falam, ah, não queria nada disso. Não queria? Você escolheu, né? Você fez escolhas. E pode ser escolha alienada. Ah, eu escolhi porque eu quis agradar meu pai e minha mãe. Putz, você também fez uma escolha aí. Mesmo que alienado ao desejo do outro, né? Não escolher já é uma escolha, né? Ah, é uma escolha. Pode ser uma escolha alienada. Pode ser no sentido de eu faço isso para agradar fulano e pago um preço gigantesco porque eu não abro mão disso para escolher outra coisa.
Que poderia ser mais afeita ao meu desejo. Estou separando tipos de desejo aqui. Que também é um preço, né? Eu faço isso pelo bem do outro. E depois me ressinto terrivelmente porque eu não fiz o que seria bom pra mim. Então, acho que sim. Só que nem sempre aquilo que a gente recolhe do mundo, a gente reconhece como sendo aquilo que a gente deu pro mundo, né? E o que você vai dizendo é que, bom, você realmente recolheu aquilo que você deu. Porque era isso que você queria. Você queria poder ter relações.
Para além dessas que são legais no sentido jurídico, né? Uma família X, uma separação que não é uma ruptura, né? É, talvez porque a separação dos meus pais tenha sido dentro de mim muito dilacerante. Talvez seja uma forma de não ter que viver isso, reviver esse sentimento nas novas relações que surgiram na minha vida, né?
É curioso porque as separações podem ser muito dilacerantes, mas o que, não sei porquê, mas formou um desenho para mim. Eu estou surpresa com tudo que você está contando, eu não sabia de nenhuma dessas histórias. Eu tenho a impressão que você foi lá, pegou esses pedacinhos e ficou costurando a vida inteira.
Você foi fazendo um fiozinho aqui e a cena do restaurante é muito engraçada, porque bem ou mal, você ficou circulando nas mesas e criando uma relação com todo mundo, que deve ter se olhado com uma certa cumplicidade. O que é essa criança com essa pedra aqui, entendeu? Mas eu imagino você uma criança que faz uma costura, um patchwork mesmo, juntando essas figuras, as irmãs com esse pai. É muito você isso daí. É um negócio muito autoral que você fez com a separação.
As pessoas separam todo dia, né? Nem todo mundo faz isso. Às vezes as pessoas rechaçam o outro, porque acham que não receberam o suficiente, então não querem dividir. É muito bonito o que você fez. Eu nem tive essa consciência. Talvez eu fosse também reproduzindo um pouco os modelos que eu tinha, né? Porque a minha mãe se esforçou muito para que eu visse o meu pai.
autorizou mostrou que o desejo dela tava lá me botava num avião, pagava passagem, imagina tinha 4 anos, era uma fortuna como eu disse minha mãe vivia com dificuldade muito legal isso que você tá apontando porque você tá dizendo de uma mulher que diz esse é um pai que vale a pena ser visto ser visitado, você não pode perder e ela sempre disse isso o seu pai Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os Os
Tem muitos defeitos, mas ele é o seu pai e ele ama você. Ela nunca falou mal do meu pai pra mim. Nunca, nunca, nunca, nunca, nunca. Até porque é um tiro no pé, né? Porque ela escolhe esse homem como pai da filha e na medida que você destrói, você destrói uma parte da filha também, né? Exatamente. Tem que prestar muita atenção porque o teu problema com o teu ex-marido, né? Ou com a tua ex-mulher é uma coisa, mas...
teu filho é uma combinatória dessas figuras, né? Quando você diz, esta parte é podre, a criança se identifica com a parte podre. Ela fala, não tem uma coisa errada comigo, porque eu gosto desse cara. No mínimo, eu sou grata a existir por conta desse cara. Então, eu tenho que tomar muito cuidado com esse tipo. E ela marcou em ato, né? Não foi só uma fala. Ela botava você no avião, né? Pagar pra isso e depois recebê-lo em casa, receber as mulheres, às vezes mulheres dele e as filhas e tudo isso são marcas de um...
Você tem razão, ela deixa essa marca pra você. Vem muito dela. Uma vez ela me botou no avião, eu tinha acho que, agora não lembro se eu tinha cinco, acho que eu tinha sete anos. Ela me botou no avião, era Transbrasil, botou no avião da Transbrasil e eu vim pra São Paulo. Meu pai esqueceu que era o dia, se confundiu.
E não tinha telefone, a gente não tinha telefone em casa. E aí a minha mãe, quando me botou no avião, deu lá as horas pra eu chegar, três horas pra eu chegar em São Paulo, ela foi pro trabalho dela, porque lá tinha telefone, pra assim que eu chegasse, meu pai fizesse um interurbano do orelhão pra avisar.
Estou com a Natuza. E ele não ligava. Não ligava e não ligava. Minha mãe foi entrando em desespero. Ligou, a companhia a Elia telefonou pro telefone do trabalho. E falou assim, ninguém veio buscar essa criança. E meu pai achava que eu ia chegar no domingo. Mas eu tava chegando no sábado. A comunicação também era toda difícil. Ela tinha telegrama, né? Sim, sim. Você passava telegrama. Era uma doideira. E aí eu fiquei cinco horas lá.
E quando meu pai, a minha mãe conseguiu acionar a minha tia Bete, chamando meu pai, e o meu pai lembrou. E aí eu vejo a Sema, a minha tia com uma cara de pânico, chegando pela direita, o meu pai com uma cara de desespero, chegando pela esquerda, e eu tava felizona.
tomando refrigerante e comendo uma maçã com o cap de um piloto, conversando com todo mundo da companhia aérea. É claro que é uma situação traumática, senão eu me lembro dela até hoje. Mas ela é uma situação que, pra mim, mostra que eu vivi uma parada difícil, mas eu dei um jeito de tirar o melhor possível daquela parada difícil.
Porque eu podia estar chorando, né? É, mas a gente não sei o que se passou com você ali, mas em algum lugar tinha lastro o suficiente para acreditar que a deusa prover, né? Que eles iam aparecer, né? Não é que tinha uma repetição. Porque o trauma tem a ver com uma repetição também, né? A situação, ela cola na anterior. Então, inúmeras cenas nas quais um pai deixa de buscar a criança na porta da escola, deixa de buscar, vão se acumulando e a criança não confia que o outro vai vir.
De algum jeito você sabia que ele ia vir. E aquela cena pode ter, depois, a posterior, se revelado o perigo, porque você vira adulta, você começa a pensar, nossa, eu era uma criança e estava exposta a um risco que eu nem me dei conta. Mas não quer dizer que entre numa série traumática. Não, é verdade, você tem razão. Porque em momento nenhum eu acho que eu tive dúvida de que ele iria me buscar.
Ou que ele não tinha ido porque ele pretendia te abandonar, entendeu? Sim. Tem alguma coisa que a criança... Depois você fala, putz, corre um risco e isso pode ser assustador, mas não como uma marca traumática desse pai que repete essa cena, né? É muito interessante. A gente acha que os fatos isolados são traumáticos e às vezes... Não, às vezes pequenos fatos repetitivos, né? São infinitamente mais traumáticos do que um grande acontecimento fora da curva. É uma cena fora da curva, né? Ele não faz série.
E ouvindo você falar e me ouvindo falar, eu acho que eu não consigo pensar no que foi o meu pai sem recorrer à minha mãe, da importância que ela teve para essa maneira de eu enxergar a relação que eu tive com ele, ela foi muito importante mesmo.
E magnânima, né? Porque ela, não sabemos o que se passou entre os dois, nenhum fim de casamento é fácil, tem sempre acusações mútuas de fracasso, e ela consegue segurar isso em seu favor. É. Pra que você possa sentir que alguma coisa digna, né? Te produziu e tá em você, né? É muito interessante, senão eu teria perdido toda essa experiência.
Natuza, maravilhoso te ouvir. A gente podia ficar aqui. Eu tô muito grata com a tua... Eu que tô. Nunca falei tanto assim. Eu sempre ouço falar muito bem de você. Pelas suas costas, sabe? Suas amigas falam que você é fofíssima. Mas hoje eu presenciei isso aqui de um jeito muito lindo. Eu sou muito grata.
Agora a gente faz a coisa funcionar direito, porque agora você tem direito a você me perguntar alguma coisa, que é o certo, né? Você, como entrevistadora mola aqui, tem o direito a uma pergunta. A uma pergunta. Eu quero saber do seu pai, porque você disse que a minha história te lança para a sua, mas de uma maneira invertida. E eu queria saber o que aconteceu.
Eu respondo essa pergunta pessoal para a Natuza no bônus Pergunta Vera. Esse próximo episódio sai na quinta-feira, que no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Até lá. Esse foi o podcast Isso Não É Uma Sessão de Análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem, a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família.
A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.
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