Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

Thomás Aquino quer ser um homem diferente

05 de maio de 20261h5min
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O ator Thomás Aquino cresceu em uma família numerosa, unida e cheia de afeto, uma base que moldou sua forma de se relacionar com o mundo. Caçula entre irmãos mais velhos, hoje olha para trás e percebe que teve mais liberdade do que eles, e revisita esse lugar com mais consciência.

Na conversa com Vera Iaconelli, fala sobre a dificuldade dos homens em lidar com sentimentos, o silêncio entre amigos e a tentativa de construir outras formas de intimidade e cuidado. Ao morar sozinho pela primeira vez, começa um processo de autoconhecimento que muda sua relação com o amor, o trabalho e a ideia de ter filhos.

O livro que Thomás cita ter lido quando foi ao México é “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke. A peça de Elisa Lucinda que ele menciona é  "Parem de falar mal da rotina".

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Participantes neste episódio3
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
A

Ana Bonomi

Co-hostProdutora
T

Thomás Aquino

ConvidadoAtor
Assuntos5
  • Crise da MasculinidadeDificuldade dos homens em expressar sentimentos · Comparação entre a criação masculina e feminina · A importância do autoconhecimento para homens · O papel do álcool como fuga masculina
  • Mudança de Carreira: TI para ArtistaApoio familiar na escolha da carreira de ator · Diferenças na liberdade de escolha entre irmãos · A influência da história familiar nas decisões de carreira · A busca por sucesso e reconhecimento na arte
  • Importância dos relacionamentos humanosA observação como ferramenta de compreensão · A importância da escuta e do diálogo nas relações · A diferença entre cuidado estético e cuidado mental · A inversão da lógica do cuidado doméstico
  • Solidão e IsolamentoProcesso de autoconhecimento após morar sozinho · A solidão como ferramenta de autoconhecimento · Reflexões sobre a vida adulta aos 30 anos
  • Primeira experiência sexual e diálogo familiarA pressão social na perda da virgindade · A abertura do pai para discutir temas íntimos · A importância da empatia e da escuta paterna
Transcrição173 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Trovão Mídia. Oi, eu sou a Veria Conelli e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia.

Aqui a conversa é sobre família, mas isso não tem nada a ver com caber em um modelo, muito pelo contrário. A cada episódio eu recebo uma pessoa que me apresenta uma história de família totalmente nova, diversa, contraditória e justamente por isso interessante. A partir desses relatos, a gente revisita as próprias origens e repensa a família que quer construir agora.

Hoje eu recebo o ator Tomás Aquino, o filho de José e Naide, o irmão de Fábio, Adriana, Tiago e Rafaela.

Oi, eu sou a Ana Bonomi, da Troveu Media. Eu sou criadora e produtora do Isso Não É Uma Sessão de Análise, junto com a Vera e a Conelli. Tem uma palavra que aparece muito quando a gente vira mãe. Cuidado. Cuidado com os outros, com a rotina, com a alimentação, com a casa, com tudo. Mas no meio disso, às vezes a gente esquece de se incluir nessa conta.

E aí eu fui entendendo que cuidar de si não precisa ser parar uma hora para fazer uma massagem ou alguma coisa assim. Claro que pode ser uma massagem, mas pode ser também uma coisa que caiba no seu dia a dia, tipo escolher bem as roupas que a gente usa. Eu uso muito uma camisa de manga curta da Insider que chama Future Form. Ela tem um toque que é muito macio e ela tem essa tecnologia da Insider que não amassa, não pinica e não aperta. Eu me sinto bem quando eu uso essa camisa.

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Bem-vindo, Tomás. Olá, olá. Muito obrigado. Nossa, que apresentação. Me senti contemplado. Opa. Com a família toda. Então, vamos falar sobre isso. A gente aqui começa com a pergunta bem ampla, pensando nas suas histórias. Qual é a tua referência de família?

Nossa, minha referência de família. Falar com felicidade, alegria, barulho. Eu sempre tive uma família muito presente. Eu não digo só dos meus pais. Meu pai é cearense, minha mãe é paraibana, e me conceberam em Pernambuco. Então eu sou bem nordestino. E aí, sempre que dá o que dava na época, quando a gente morava todo mundo junto em Recife.

Meu pai pegava o carro e levava todo mundo até Fortaleza, que é a capital lá do Ceará, e ia para o interior, que é o Iguatu, que é onde ele nasceu. Então a gente sempre visitou minha avó. Eu não conheci meu avô, ele já tinha falecido, mas sempre conheci minha avó, minhas tias. Então ele sempre levava a gente para ver a família lá no Ceará e também na Paraíba, para conhecer minha avó par de mãe. Então assim, minha referência é uma presença muito grande, assim, de...

Ah, vamos fazer um churrasco com tia tal, com tio tal, sabe? Eu sempre tive muitos primos, então brinquei muito na minha infância com meus primos. Porque a diferença do meu irmão mais velho é 12 anos, né? Então quando eu tinha 12, meu irmão tinha 24. Mas quando chegava, a gente mesmo assim ainda brincava.

algum jogo de tabuleiro ou dominó. Então, assim, a gente sempre teve aquelas rixas entre irmãos, mas, ao mesmo tempo, o amor de tirar onda, de brincar. Então, assim, minha referência familiar sempre foi presente, sabe? Sempre foi muito conversar, dialogar, ver desenho junto, ver filme junto. Eu lembro que a gente via muito filme junto.

A gente quem? Os irmãos? Os seus pais também não? Meus pais não. Meus pais, acho que eles aproveitavam esse momento para ficar um pouquinho mais sós. Porque imagina você criar cinco filhos. Meu pai trabalhava... Enfim, aquela família de uma época considerada tradicional, que era onde minha mãe trabalhava em casa e meu pai trabalhava fora. E meu pai trabalhava... Eu me lembro que ele saia às seis e meia da manhã.

E chegava 10 da noite, mesmo assim, pai presente, né? Às vezes levava a gente numa pizzaria, né? Quando chegava mesmo cansado do trabalho. Minha mãe super presente, sempre marcando reunião de escola, indo não sei aonde. Então eles se dividiam entre as tarefas, né? E nesses momentos dos filmes, eles até ficavam um pouquinho, mas eles sempre iam pro quarto, né? Acho que eles queriam ter esse momento deles. Hoje eu entendo, né? Às vezes eu falava...

Meu pai, quer dizer, mãe Você era daquele que ia bater na porta O que vocês estão fazendo aí que eu estou ouvindo um barulho? Eu já fiz isso Não me arrependo, porque eu era criança Era ingênua Mas hoje em dia, que bom que eles faziam isso Porque eles até hoje estão juntos Nunca vi uma discussão Isso também pra mim é uma...

É uma novidade, uma surpresa, porque hoje em dia está tanto feminicídio, tanta coisa acontecendo absurda do masculino com esse feminino, e que meus pais eu nunca ouvi uma discussão, nunca vi um falar mais alto, um bater. E eu estou falando isso não é para fazer mídia para mim, não, é porque é real. Então eu sou muito feliz realmente com a família que eu tenho. E eu acho que é por isso que eu sou esse cara que abraça as pessoas hoje, porque eu tenho esse amor para distribuir, eu recebi muito amor.

Então acho que eu tenho esse amor em dobra. Tem uma alegria, né? Muita alegria. Acho que define também tudo. Alegria, amor, todo adjetivo legal. Você era o caçulinha. Era. Sou, sou, sou ainda. Sim, mas era temporão, assim, tinha uma distância do último? Pro último, tinha uma distância de 12 anos. Fábio, ele... Ah, do último? É, pro mais velho. Ah, pro mais velho. São 12 anos. Ah, aham.

Aí, depois vem 10 anos de diferença, depois 8, depois 4, depois eu. Ah, tá. Para a penúltima são 4 anos de diferença. Eu vou fazer 40 agora, ela já tem 44. Ela faz 44 em outubro.

Seus pais são vivos? São. São. Meu pai tem 81, minha mãe 76. E eles estão no Nordeste? Lá em Recife, na casinha que eles compraram há mais de 40 anos. Uma alegria voltava a casa. Nossa, imagina. Eu fiquei até com vontade de conhecer sua família. Mas vamos lá. Mas aí essas viagens para a casa das suas avós...

Tem uma marca de bênção, de tradição, de raiz? Porque nem sempre as pessoas prestam tanta homenagem à geração anterior. Como é que é essa relação com essa família estendida? Tinha briga? Tinha disputa?

Então, eu não sei se eu era muito jovem e nunca percebi, mas eu nunca vi uma disputa por terra ou qualquer outra coisa nessa questão física, de algo material, eu nunca vi. Eu sempre percebi, na verdade, muita reunião mesmo, reunião que eu digo assim, Aquino chegou, que ele chama o meu pai, o nome do pai é José, mas chamam ele de Aquino, sempre pelo sobrenome.

Aqui não chegou, vamos fazer um jantar. Aí fazia o jantar, ia a todos os tios, tias, primo, prima. E sempre ia todo mundo, assim. Eu nunca vi realmente uma discussão de irmão ou alguém com raiva ou um irmão que brigou com outro, sabe? E eu estou falando isso de verdade, assim. Sim, sim. Então tem uma referência muito boa familiar. Eu lembro que na família do meu pai no Ceará, salve me engano, eu já vi uma questão, mas porque meu pai tem uma padaria lá, a família do meu pai tem uma padaria lá, que é a Luiz Perpétua.

que é do nome do meu avô. Na época ele abriu uma padaria, até hoje essa padaria ainda existe. Aí teve sim uma pequena confusão, mas que eu não sei da história, mas muito rápida. Não foi nada que levou um ódio familiar, ou levou alguém a não falar mais com ninguém, sabe? Houve uma discussão, mas que eles já resolveram isso rapidamente. Acho que foi o máximo que eu vi. E lá, na minha avó, a gente tinha uma tradição. Toda vez que chegava, eu falava, abençoa, avó.

A gente tem que falar isso Deus te abençoe meu filho Isso eu sempre falei com minha avó por parte de pai Já a parte de mãe não Eu chegava, dava um abraço Mas a gente sempre como característica Familiar a gente tinha O café da tarde, então era um pãozinho com manteiga E um café, isso era gostoso E toda casa da minha tia Qualquer tia que eu ia Tinha um pãozinho, um bolinho E um café, isso era maravilhoso Era o que eu mais gostava quando eu viajava Para a casa dos meus familiares lá Então

Então era maravilhoso, assim Eu sou muito grato mesmo, assim Sim, é uma coisa muito aconchegante Muito Eu lembro que meus primos Eles sempre adoravam que a gente ia Porque a gente trazia, parece que a gente trazia Novidade da capital Como a gente era da família que era de Recife Recife era com esse nome

E aí, o que está acontecendo lá em Recife? O que tem de novidade? Meus primos adoravam e a gente conversava. Era ótimo. Acho que a gente tinha essa integração porque a gente só queria saber um do outro. A gente não tinha uma questão de inveja nem hoje. Até hoje. Hoje, por eu ser mais conhecido na família... Um ator famoso.

Vamos lá, vamos dar nome isso aí. Você famoso, eu acho que quando eu chego à festa, nossa, Tomás, meu Deus, você, caramba, como é falar com Letícia Spiller? Como é você ser amigo? E aí eu falo, cara, até hoje eu nem entendo. Eu falo para eles assim, então eles sempre são curiosos, né? Isso eu gosto demais, assim.

E nessa relação com esses irmãos, você ficava... Tem uma hierarquia, assim, tem o irmãozinho protegido, queridinho, tem disputa entre os irmãos, como é que é? Se eu disser que não, eles vão ouvir isso aqui e vão falar, você mentiu no programa. Mas assim, eu confesso que eu não percebia. Porque, claro, eu como mais novo, a gente na nossa pele, a gente não percebe muitas coisas do que acontece. E quem é mais velho sempre está observando ao redor. Então...

Eu lembro que eu realmente era protegido, isso depois... Eu faço terapia, faço análise há 10 anos. Estou falando aqui até com o analista, né? Eu faço análise há 10 anos e fui descobrindo várias coisas da minha infância e dessa família. Então, hoje eu entendo.

Mas antes eu não via. Então, estou falando isso só para introduzir a história, que é... Eu sempre via meus irmãos mais velhos, um pouco, em alguns momentos, irritados, com certas regalias que eu tinha. Ciúmes. Exatamente, das proteções dos meus pais. É difícil usar essa palavra? Ciúmes? É, falar que seus irmãos tinham ciúmes porque você era mais mimado, não.

Rapaz, é que eu não sei. É engraçado, é porque... Eu não sei se é difícil. Talvez eu não tenha um reconhecimento da palavra que seja ciúme, mas eu acho que sim. Você nunca sentia ciúmes deles? Eu nunca sentia ciúmes deles. Já é uma dica. Mas eu acho que deles, pra mim, entendeu? Já é uma dica de que eles sentiam de você, né? Então, acho que é isso. Porque eu sempre fui muito protegido mesmo. Eu lembro que meus irmãos... É porque eles faziam questão de contar as histórias assim. Ah, na minha época...

Quando eu estudava, não era assim, não. Eu tinha o horário da tal hora, tal hora. Se eu não tirasse nota boa, era cinturão, sabe? A gente contava umas histórias. E para esse menino é o quê? Tira nota baixa, é um carinho.

Tem essas resenhas entre os irmãos, né? Então eu via que eles tinham esse aperreio, assim. Mas nunca foi uma coisa de descontar uma raiva de bater. A gente teve brigas, assim, de irmãos, que é uma discussão um pouco mais alta. Um grito. Eu gritava mais, por isso que eu era o mais mimado. Porque eu podia ter essa voz de gritar e falar...

Ai, tá vendo o que tá acontecendo? Sabe, meu irmão, vai chorar pra mamãe, sabe? Então assim... Você era mais dramático. Eu era dramático. Sim. Era muito dramático. Eu acho que eu sou ator. Sim. Você fez alguma coisa com esse dramático, né? Consegui botar na arte, né? Mas eu era mais dramático, sim. E hoje eu consigo reconhecer todo...

Tudo isso realmente, assim, até converso. Hoje a diferença de idade pra mim, 12 anos, não é mais grande, né? Porque antigamente quando eu tinha 12 e meu irmão mais velho, 24, realmente fazia uma grande diferença mentalmente mesmo, assim, até de inteligência intelectual. Hoje em dia eu não vejo isso. E a gente tem várias conversas profundas. A gente até tem conversas de curas de certas coisas do passado. E eu que proponho.

porque pra mim, eu acho que, eu percebo isso, eu acho que é mais fácil eu falar sobre questões que aconteceram no passado do que os meus irmãos. Não que eles não falem, eles falam, mas eu acho que eles têm uma geração que é diferente. E eu, como faço análise na família, eu acho que eu sou o único que faço análise, e eu acho que eu tenho a consciência de, vamos conversar, tá tudo bem, sabe? Você tem alguma coisa pra me dizer? Eu queria te dizer isso. Isso pra mim é muito importante. Você chama PTR.

Mas chama o sutil também Porque eu tenho medo Não sei como vai ser Às vezes a gente vê um bloqueio Quando você puxa um assunto Tem aquele certo campo de defesa Que eu acho que é natural Mas que para quebrar tem que ter muito approach Então eu tento fazer o approach

E os homens não são muito preparados também para essas conversas, né? Não somos. Você acha que você tem essa coisa mais de intimidade, de falar de si? Porque os homens têm uma broderagem, que são brothers, mas assim, para coisas outras, não para falar de si, do que está sofrendo, do que não está gostando, de coisas mais íntimas. Você tem isso? Eu tenho várias histórias. Hoje eu não tenho tanta, eu devo ter, mas eu tenho tentado não ter.

Porque, enfim, eu vim dessa sociedade machista, vim dessa construção, todos os homens vieram E a gente tá num tentar entender, né? A minha análise vem mostrando muitas falas minhas que eu tenho que ter certa atenção Para por que eu falo isso, por que eu penso aquilo E é engraçado porque quando eu fui morar, saí da casa dos meus pais com 27 anos

Aí fui pro Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro fiz dois anos de musical, depois fui pra São Paulo. E em São Paulo começou a dar errado algumas coisas de trabalho, meu relacionamento que eu tinha na época também acabou, a casa que eu alugava ia acabar o contrato, então me vi perdido num buraco. Foi aí que eu comecei a análise, em 2016.

E aí eu comecei a entender quem era esse cara com 30 anos de idade, vivendo em São Paulo. E aí quando eu comecei a fazer análise eu falei assim, bom, agora que eu estou sem trabalho, que deu errado, eu falo no meu analista. Eu vou voltar para a casa dos meus pais só para poder esperar até ter outro trabalho. É bom que eu junto essa grana que eu ganhei. E aí ele falou assim, então você vai voltar para o colinho do papai e da mamãe.

Eu falei, não, não é isso. Ele, não, mas quem é que vai pagar a sua comida? Eu falei, você tem onde dormir? Então ele começou a me mostrar umas coisas que a partir daquele momento eu tive a escolha de tentar virar homem na sociedade, que eu ainda me sentia muito o filhinho do papai e da mamãe protegido. E eu estou te falando isso porque eu comecei a ralar, a ver questões, a ficar sozinho mesmo, viver de mochilão e de entender que...

Cara, 30 anos já são 30 anos, sabe? Para homem, parece que 30 anos você tem 12. Isso é muito maluco. Hoje eu consigo entender essa analogia. E eu digo isso porque depois de uns 5 anos morando em São Paulo, quando eu fui voltar para ver meus amigos de infância lá em Recife, eu estava tendo crises de ansiedade em alguns momentos na época da minha vida, principalmente pós-pandemia e pandemia.

E aí foi um momento muito importante para mim voltar para Recife e reencontrar com os amigos meus de infância. E eu, quando eu encontrei com o Arthur, Marquinhos, outros amigos meus, eu fiquei muito emocionado em vê-los, eles também ficaram emocionados em me ver. E aí eu comecei a sentir uma ansiedade, sabe assim, porque eu não estava entendendo o que estava acontecendo, pós pandemia, a gente se vendo, a gente vivo. Eu comecei a ficar desesperado, ia chegar outro amigo nosso e eu...

Eu comecei a respirar fundo e aí eu falei, cara, eu acho que eu tô passando meio mal aqui, eu acho que eu tô ansioso. Eu queria conversar sobre isso, né? E aí meu amigo falou assim, mas o que é que tá acontecendo? Você tá se sentindo? Eu falei, não sei, meu coração tá acelerado. Eu acho que eu vou pra casa. Eu tava sentindo a sensação de fugir, de ir pra casa.

E aí meu outro amigo fez, ah, vamos beber, esquece isso. Então assim, a gente não aprofunda os sentimentos. Sim, sim. Isso foi uma coisa que eu dar a partir dali. Você estava tendo uma crise de ansiedade e teu amigo falou, ah, bobagem. Vamos beber. Vamos beber. Vamos beber. E eu acho que essa... É assim que os homens são criados. É a terapia masculina que eu acho...

Por exemplo, se você vê o cara teve um problema no trabalho, ou um problema, vai para um bar bebê, vai para um jogo de futebol, vai gritar com o juiz, vai gritar em uma torcida, vai xingar de tudo que é nome, porque ali parece, entre aspas, que é a terapia. E às vezes o pior acontece, que é você voltar para casa, descontar na mulher, descontar na parceira, até chegar um feminicídio. Ficar álcool, porque a resposta é sempre o álcool. É como se fosse o remédio.

E a partir desse momento eu entendi, cara, eu preciso conversar com outros amigos, homens, com amigos homens que queiram falar sobre sentimentos. E por isso que eu falo que eu estou apto a chegar e chamar no ADR. Porque eu tenho vergonha até ainda, sabe? E eu fico me questionando na minha análise, por que eu tenho vergonha? Eu entendo por...

porque é dessa construção social machista. Mas eu tento me impor e falar sobre, entendeu? O que é que tá pegando? Por que eu me sinto assim? Me sinto assado? E hoje eu tenho amigos também, inclusive eles, ainda que a gente continua conversando, e a gente aprofunda algumas coisas de sentimentos. E eu acho isso muito bacana, sabe?

É, que essa é uma solidão muito masculina, né? Os homens estão sempre juntos, estão fazendo coisas juntos, mas as mulheres, se uma num grupo começar a passar mal, as amigas já vão achar o que aconteceu. Conta pra mim, me liga a qualquer hora do dia. É outra forma de lidar. A gente tem uma tecnologia do cuidado, né?

E aí você vê essa diferença, tem vários homens na sua família, tem primos, tem pai. Você acha que você é meio estranho no ninho com isso? Os outros homens têm uma outra cartilha? Eu acho que, posso dizer que sim, eu acho que eu tenho um tio meu que ele fez até...

psicanálise em uma época, então acho que ele também tem uma certa inteligência pra entender certas questões, né? Eu acho que, na verdade, meus irmãos, eles também têm, sabe? Não é que eles são fechados para, né? Eles até escutam e escutam muito, e isso é maravilhoso. Por isso que eu digo que a gente é uma família muito boa, porque meu pai também, meu pai que vem da geração é um cara que também escuta. Às vezes eu batia muito de frente com meu pai, certos comentários que ele fazia, né?

E eu vejo que não é uma maldade, mas é uma coisa encruada de uma sociedade que eu alertava. E ele começou a perceber, entendeu? Ele tinha ou tem abertura para ouvir o caçula fazendo letramento? Mas é porque é exatamente isso. É amoroso, tem um jeito amoroso de fazer isso. Eu não chego de uma forma... Eu chego com a empatia, né? Sim, sim.

Brutal, entendeu? Não chego dizendo isso tá errado Não é assim que você deve fazer, sabe? Eu acho que eu tento contornar pra que Primeiro eu conquiste a pessoa Não sei se eu tô fazendo errado, né? Mas também não sei O que é certo e o que é errado, eu tô tentando é dialogar Tá funcionando, tá ótimo É, pra mim eu acho que o diálogo e a escuta é o fundamental Então eu tento chegar e aproximar

para depois falar sabe ó será que não é por aqui é quase um andar acho que eu tô aprendendo muito como analista mas essa mediação quase que você faz me diz você acha que você tem isso da onde você foi criando isso da onde porque engraçado você foi ser ator mas podia fazer mediação né canalítica só você podia fazer lá tem um jeito de lidar com as pessoas né

Eu herdei uma coisa que eu observo muito, que é da minha mãe. Que ela é observadora demais. Ela adora. Às vezes a gente senta num restaurante e vai almoçar. Ela gosta de ver como as pessoas conversam. Ela gosta de ver o tom que a pessoa coloca. Ela gosta de ver a roupa que a pessoa se veste. E ela não gosta de observar isso pra falar bem ou mal. É o jeito dela.

E eu sou do mesmo jeito E às vezes eu sinto quando a pessoa ou está estressada Ou está com alguma dificuldade Ou está bem Então acho que eu peguei disso dela O que é ótimo para o meu ofício de ator Porque eu consigo construir um personagem através da observação Às vezes eu ando muito na rua com fone Às vezes eu sento até numa praça e gosto de ver as pessoas caminhando E isso é muito bacana Então eu acho que através disso eu fui vendo Então E aí

como cada um é reativo a uma certa abordagem de tema. Sei lá, surgiu o tema futebol. Como cada um surge. O teu time é ruim. Ah, meu time é ruim. Outro fala, não, meu time é ruim. Então assim, eu vejo o tom e a entonação e como eu posso me aproximar dessas pessoas.

Aí eu acho que talvez o porquê de eu ser um cara que consiga esse aprocho é porque eu escuto mais do que eu falo em certas ocasiões. Então, quando começa uma discussão, eu paro. Porque eu vou começar a ouvir cada um e fico observando como cada um fala.

principalmente quando foi na época de política, eu comecei a sentar nas mesas, só observava. Eu queria ver a opinião de cada um, eu queria ver como cada um se sentia, como cada um falava. Então, a partir disso é que eu ia argumentar, porque não adianta eu querer argumentar em cima da voz alta de alguém, ninguém vai se escutar. Vai ficar aquela falação por falação. Então, acho que é por causa disso, acho que é por causa desse observar que minha mãe tinha, eu herdei, eu acho que eu consigo observar bastante. Ainda tenho que aprimorar muita coisa, mas eu acho que esse observar eu tenho.

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E nessa família nordestina, tão calorosa, tão gostosa, como é que foi, ou já tem uma história anterior, ter um filho ator? Você veio com uma novidade, o pessoal já achava, não é tua cara fazer isso, como é que foi?

Eu já escutei muito isso quando eu era no colégio. Eu sempre fui gaiato, como dizem os nordestinos, né? Que é uma pessoa muito engraçada. Eu sempre fui, na verdade, extrovertido, né? Pra frente, solar, sorridente, aberto. Fui muito aberto. Mas eu acho que isso vem do meu pai também. Meu pai, ele é engenheiro civil. Ele foi professor na Universidade Pública de Recife, na UPE. Ele gostava muito de ler poesia.

Eu lembro, isso não é mentira, eu acordava, a gente dormia num quarto, meu pai tem uma voz muito grave, mais grave do que a minha, assim, porque eu acho que ele vai ficando mais velho agora. E eu lembro que ele acordava e começava a declamar uma poesia. Eu acordava ele declamando poesia pra minha mãe. Enquanto minha mãe tava na cozinha, fazendo o café da manhã, ele acordava, aí eu acordava, eu ia até a porta, e via ele declamando a poesia.

E minha mãe olhava pra mim e fazia aquela carinha de... Ai, meu Deus, sabe? Uma coisa de cinema, assim. Então eu já tinha cinema em casa. Era maravilhoso de ver isso. Mas como casal apaixonado, era uma cena de casal apaixonado? Eles são apaixonados até. É impressionante. Ah, eu entendo totalmente. Vocês estão lindos. Eu chego na casa deles, em Recife, eu tenho a chave, né? Às vezes eles estão na rede juntos, vendo a lua.

É uma coisa assim que parece que tem 14 anos, 15 anos, adolescentes, sabe assim, apaixonados. Então é maravilhoso, eu acho lindo essa paixão. Então meu pai, ele sempre leu poesia, leu livros, uma coisa que...

Eu demorei a pegar dele, assim, eu queria ter dado isso dele também, essa facilidade com que ele tem de leituras. Então, ele sempre gostou de ler, ele foi radialista, então ele tinha uma veia artística. Ele até tentou fazer teatro, mas mais uma vez, naquela época...

Ele era um rapagão, esse homem negro, bonito, cheio de vigor. Então começou a sofrer assédio, talvez, de parte masculina. E ele não sabia lidar, ele não sabia o que era, não sabia dizer não, não sabia dizer se era assim. Então ele teve uma retração muito grande e não conseguiu fazer teatro. Não conseguiu...

seguir o teatro, né? Então, talvez ele até fosse ator. Mas aí, muito inteligente também, ele começou a estudar matemática, física, partiu para ser professor e virou professor desde os 18 anos até os 70, ele foi professor.

Então eu acho que minha veia um pouco artística vem daí. Meu tio também, por parte de pai, era músico, morreu com 27 anos. Acho que é a idade perigosa dos músicos que morrem, né? Mas ele era um boêmio, então tinha um vozeirão também, parecia um Dorival Caymmi. Mas eu nunca cheguei a conhecer. Ah, você não chegou a conhecê-lo? Não conheci. Ele morreu, meu pai ainda era jovem, muito jovem.

Então acho que eu tinha pequenas veias artísticas na família, mas eu me enveredei porque realmente eu senti isso com 20 anos de idade. Não era desde criança, mas desde criança eu tinha essa aptidão a ser extrovertido, a falar com quem tinha que falar, a ser aberto, a saber escutar, saber ver, dialogar. Então sempre tive isso. E a família curtia isso em você? Minha mãe era preocupada, ela falava, meu filho, olha...

diploma aqui, vamos fazer um curso, né? Eu falei, ô mãe, mas eu gosto tanto do teatro. Ela, tá bom, faz os dois. Então eu comecei a fazer jornalismo, época, né, com 20 anos, e teatro. Então, mas meus pais sempre me apoiaram. E aí é onde eu acho que entra o ciúme dos meus irmãos, porque os três primeiros, eles não tiveram escolha do que eles poderiam fazer. Meu irmão mais velho, por exemplo, é engenheiro civil, que meu pai era.

Depois a minha outra irmã foi engenheira mecânica, né? E o outro engenheiro elétrico.

Ah, engenharia todos Aí depois a minha irmã conseguiu fazer teatro Mas depois ela envelheceu pra letras Ela é formada em letras E eu tive total liberdade Pra escolher realmente qualquer coisa que eu faria Mas então esse pai Ele realmente conseguiu que os filhos Fizessem a carreira que pra ele foi

Bom, é uma família de ascendência negra, num país super racista, numa região que é menos favorecida. Então, que os filhos estudassem uma coisa que para ele valeu, para sustentar a família dele com dignidade e tudo mais. Então, para ele era um valor, né? Com certeza. E ele viu o quanto que é importante realmente uma faculdade.

De onde ele veio, né? Da família dele, por parte... E da minha mãe também, porque eu vou contar a história. A parte de pai foram retirantes. Eles saíram de uma cidade que eu não me recordo agora o nome pra chegar em Iguatú. Então o pai foi na frente, que era meu avô, pra poder tentar construir uma... Iguatú é uma cidade pequena, também, interiorando. Hoje ela tá até grandinha, mas ela é uma cidade pequena em relação à Fortaleza, logicamente, que é a capital.

E o meu avô, na época, saiu, foi pra lá pra poder construir uma casa, pra ter onde eles moram. Então era aquela coisa de barro. Você levanta a casa própria com as ferramentas que você tem. E aí mandou um telegrama. Aí um pau de arara buscaram a família, o restante da família do meu pai.

Foram para lá. Isso é o seu avô, quer dizer, uma geração antes do seu pai. Exatamente. Aí chegaram lá, meu avô já aprendeu a fazer pão, abriu uma pequena padaria no fundo, no quintal da casa. Meu pai, com seis, cinco anos de idade, começou a trabalhar como padeiro, fazia pão e distribuía os pães. Então, assim, a infância dele, até os dez, foi distribuindo pão e fazendo pão. Então, acordava, eu lembro que ele acordava, ele falou que acordava três e meia da manhã.

Aí fazia uma coisa, dormia um cochilo, acordava às 5h30 para entregar os pães. E a família tirava um pouco da grana, que ele é o mais velho dos irmãos. Mas tem as irmãs que são as mais velhas, que trabalhavam com costura, trabalhavam com outras coisas que geravam outro tipo de renda.

E por parte de mãe, mesma coisa, minha mãe só teve até a oitava série, porque era mais velha, então ela teve que cuidar das outras irmãs, não tinha como, mas ela viu o quanto era importante uma formação por questões financeiras, por oportunidades, na verdade, pelas leis que o nosso país tem. Caso você precise de algum apoio, uma formação dentro da lei, vai te colocar em primeiro lugar em certa circunstância.

dependendo do emprego, a formação te dá a entrada na frente de alguns que não tem. Então, assim, eles viam, eles tinham essa visibilidade, porque eles ralaram muito. Eu tenho muita história, tá? Eu vou falando aqui, você não me interrompe. Não, mas essa história é super interessante, porque a gente tem que entender de onde as pessoas estão vindo, né? De uma geração pra outra, você sai de uma família de retirantes, que faz uma casa provavelmente de pau a pique.

Isso. Crianças trabalham, tem trabalho infantil, porque é a condição da família. Aí já esse filho já vira engenheiro.

Vai ser professor. E sabe como é que ele virou engenheiro? Pra você ver como a aposta da minha avó, a mãe dele, jogou na loteria. Ganhou. Isso também pra mim é uma coisa maluca. E uma parte dessa grana, ela deu pro meu pai, pra ele fazer uma formação na Paraíba. Que foi onde ele conheceu a minha mãe. Olha que história. Então meu pai pegou essa grana. Ainda é uma geração que pra conseguir fazer faculdade precisava ganhar na loteria, né?

Não tinha cotas, né? O que foi graças... Exatamente. O que graças a Deus minha avó ganhou...

E usou pra isso Porque ela poderia ter gastado com outra coisa Que inclusive o marido dela Meu avô era viciado em jogos

E eu lembro que na época a casa era muito barata, principalmente no interior, então com o dinheiro também eles começaram a comprar algumas casas, queriam fazer, enfim, alguma coisa imobiliária, não sei. Mas meu avô apostava tudo e foi perdendo tudo. Então minha avó falou assim, olha, se você apostar essa casa aqui onde a gente mora, eu fujo com os nossos filhos, você nunca mais vai ver a gente. Então foi onde ele parou e continuou na padaria. Então...

para você ver o equilíbrio né o homem tava totalmente ali um viciado no jogo a mulher teve como como tem acontecido na maior parte das famílias né tanto que essas esses programas de habitação a casa vai com o nome da mulher né exatamente disso olha olha que interessante né

É para a gente ver também de onde vem a formação masculina. A gente acha que está tudo bem, está tudo certo na vida e é isso mesmo e vamos. E quando vê que está tudo errado, está tudo... A gente não fala sobre... A gente sempre fala que a mulher faz o trabalho do cuidado porque o homem é provedor. Mas na verdade as mulheres são provedoras também. Muitas vezes o cara vai embora, o cara aposta o dinheiro, enfim. Mas que interessante. Mas o seu pai ficou.

E aí meu pai ficou na Paraíba, aí ele começou a estudar e começou a... Aí fez, foi ali onde ele fez alguns pequenos cursos de teatro que não vingou, não foi pra frente, enquanto estudava. E ele tinha muita aptidão pra matemática, pra números, começou a ensinar algumas pessoas. Aí foi quando passou na Universidade Federal da Paraíba, começou a cursar em engenharia, começou a lecionar pra ganhar um dinheiro, morava numa república e...

Enfim, foi levando a vida, foi construindo, aí entrou numa grande empresa, aí foi pra morar em Recife, pedir mamãe em casamento, e aí foi construindo a vida. Então ele viu o quão importante realmente uma formação faz e quanto você tem a oportunidade de entrar, infelizmente é assim, realmente é o nosso país, de entrar na frente de pessoas que não têm a formação.

muita gente também não tem o dinheiro ou não tem a oportunidade então meu pai foi uma loteria porque a minha avó conseguiu esse dinheiro e conseguiu financiar uma parte do estudo enfim, quantas famílias não conseguem isso e a gente vê

A gente consegue compreender que para ele, de fato, agora inferindo aqui no centro, para ele estudar não era um plano B, era o plano. Então, falar, obrigar, exigir ou incentivar os seus irmãos a fazerem engenharia era ser coerente com a história dele. Olha, isso é o melhor para vocês.

Porque ele viu que é ali onde tem a segurança, né? Onde ele ganhava o dinheiro todo mês, onde todo mês entrava na continha e ele sabia que ele podia prover a comida, naquele sentido, onde ele sabia que podia dar o suporte, né? A gente teve muita sorte, sabe? Dos meus pais estarem juntos e quererem criar a gente juntos. A gente estudou em escola particular, aí cada um depois passou na universidade pública.

Mas assim, a gente teve aquele apoio na mensalidade, que pra época era caro e hoje em dia ainda continua super caro, né? Então, o foco dele realmente é a melhor criação para. Não deixou a gente com asas soltas, sabe? Então, no entanto que a nossa família, cada um, meu irmão Fábio, por exemplo, mora hoje no Canadá, em Quebec.

Minha irmã, Adriana, por ordem, ela mora em Paris. Meu outro irmão mora em Curitiba. Minha outra irmã mora em Toulouse. Então, assim, a gente conseguiu viajar e ter oportunidade de vida pelas formações que a gente teve. Está todo mundo fora. Está todo mundo fora. Você não está sentindo falta deles? Até hoje eu estou sentindo falta deles, que já é amiga de todo mundo. Eu tenho muita saudade, cara. A gente tem um grupo de WhatsApp, assim, que a gente se fala todos os dias.

Sério? E eu vou te falar uma coisa. Eu que empuxo mais a videochamada. Eu sempre ligo pra videochamada. Olha, mais uma vez, eu acho que eu me sinto também nessa dívida com eles, sabe? Eu não sei se é dívida a palavra certa, mas eu tenho, acho que, uma grande gratidão por eles terem suportado esses ciúmes pra que eu possa ser quem eu sou hoje, sabe? Eu acho que eu sempre tô querendo agregá-los.

Sabe, eu sempre tô querendo... E aí, Fábio, como é que tu tá? Adriana, tô com saudade. Quando a guerra vai se ver? Então, eu sempre tô puxando o assunto. E eles, claro, eventualmente também estão. É que esses filmes agora você associou com uma liberdade de escolha, de bancar o teu desejo, né? Esses pais deram mais lastro pra você sonhar, né? Exatamente. E eu percebo isso. Hoje eu percebo isso. Antigamente eu falava, nossa, por que tanta revolta aqui em casa?

Mas de fato hoje eu entendo Entendo muito eles E eu sou muito grato a isso A vida como seguiu E ao entendimento deles Que eu acho que não deve ter sido fácil Eu acho que não deve ter sido fácil para os meus irmãos mais velhos Terem tido a educação que eles tiveram naquela época Ainda mais forte, geracional De um sistema machista Porque meu pai realmente foi muito rígido com eles E eu não culpo meus pais Eles estavam tentando entender como é que se educa os filhos Ninguém nasce aprendendo como se educa os filhos Entãoetingeting

Eles queriam que os filhos seguissem uma linha boa de vida, né? Que aproveitassem, que tivesse um futuro pela frente. Então, como fazer isso? Tem que apertar aqui, tem que apertar ali, sabe? Então, acho que eles educaram da maneira que eles sabiam. De uma convicção, né? E eles foram entendendo que não precisava daquela rigidez. Mas é isso. Então, eu agradeço muito pela paciência, por tudo. Por isso que eu sou, acho que eu puxo, né? E como é que esses irmãos lidam com o seu sucesso?

Isso já foi terapia na minha análise, né? Porque às vezes... Acho que agora eles vão me ouvir, né? Eu nunca falei isso pra eles. Mas assim, eles lidam muito bem. Eles são muito meus fãs, na verdade. Porque toda vez que eu vou num programa ou que eu faço um filme, cara, é impressionante como eles sorriem, eles ligam pra mim, eles me aplaudem, eles vibram com o meu sucesso. E isso me deixa muito contente, assim, de uma maneira que eu não sei nem explicar.

Porque tinha tudo pra ter aquele negócio, ah, mas fez sucesso porque pôde, fez sucesso porque isso. E não, eu sinto que é um amor tão genuíno, sabe, tão verdadeiro, assim, tão legítimo, que isso me deixa emocionado. Por isso que eu os amo demais, assim, e quero estar sempre ligando. Então, assim, hoje já foi um dia que eu estive em vários lugares e aí eles me aplaudiram, a gente fez um vídeo, falaram, nossa, você falou muito bem, ó, mas aquilo ali eu falaria dessa forma.

E eu acho isso legal, que eles acabam sendo meu coach também, assim, sabe? De uma certa maneira. Tomás, adorei a roupa que tu foi. Aquele tênis estava velho, sabe? Tem umas coisas muito boas. Mas eu adorei a tua postura. Foi muito bom. Ai, que bom que tu não perdeu tua essência. Então, assim, isso pra mim é o ouro. E você nunca falou isso pra eles? Porque você tá falando isso agora.

Nunca falei assim, na verdade, porque eu não sei, sabe? Às vezes eu me sinto... Porque eu também não sei muito da vida pessoal íntima deles. Isso eu confesso agora. A gente tem uma conversa aberta, mas aí é onde eu tento... Quando eu tento chegar no approach, tu tá fazendo o que agora? Tu trabalha com o que? Eu sinto que ainda há um certo escudo e tudo bem. Cada um é do seu jeito, cada um se cria do seu jeito depois de adulto e tá tudo certo. Então eu tento ainda fisgar certos lá... E aí

O meu ofício é muito aberto, né? As pessoas conseguem ver. Então, às vezes, eu acho que eu me sinto constrangido de falar do meu ofício, porque aí não sei se vai entrar em dilemas financeiros e não financeiros. O que, para mim, não importa entre família, sabe? Eu acho que o que importa é a gente se apoiar, entendeu? Para mim, isso é que está bem. Então, eu já tive essa... O que eu falo que eu nunca falei é isso, assim. Porque, às vezes, eu tenho vergonha de falar de onde eu estou sem parecer soberbo. Porque eu não quero.

Você tem medo de estar se exibindo. É, ou de parecer maior. E eu me vejo assim. A gente é irmão, a gente fala besteira, a gente se ama. Pra que que eu... Mas é bom vocês tocarem nesse assunto logo, porque a tua carreira é muito pra cima, né? Tá em ascensão e tem muito pra crescer, né?

E vocês são diferentes, né? Sim. Agora, tem uma parte que os pais fazem e tem uma parte que a gente panca, né? Quer dizer, um pai exige, exige, exige, mas você faz escolhas também, né? Então, se os seus irmãos fizeram outras escolhas, eles têm que assumir isso também. Esse pai não é onipotente, né? Claro. E outra coisa, assim, passados 10, 15, 20 anos, você continua escolhendo... O rumo que você quer tomar, né? O rumo que você quer.

Então, não dá pra jogar nas costas de um pai que há 30 anos atrás te obrigou a fazer, entendeu?

Isso também é uma bela desculpa para cada um de nós, né? A gente reescolhe todo dia, né? Aquele lugar. Cada um que lide com a sua inveja. Mas é importante saber, porque você é uma pessoa que tem uma coisa muito solar e uma carreira muito promissora, né? Que assim, você já realizou muito, mas promete realizar muito mais, né? Então aguenta, gente. Um dia vai ter um Oscar aí. Rapaz, eu tô atrás, viu? Não é? Eu já beirei com o filme, né? Isso pra mim já é uma grande coisa que eu consegui, né? Então eu acho que...

Eu vi que é possível, eu fico muito feliz por Wagner, acho que Fernanda também, acho que quando a gente vai vendo os brasileiros chegando ali, eu fico, poxa, realmente é possível. É possível, quando um vai na frente, os outros conseguem sonhar, né? Eu torci, sabe, assim, de dizer, caramba, vai, vai, quando eu perdia, mas eu continuei vibrando porque eu digo, pô, o cara tá ali, entendeu? O cara chegou ali, Fernanda chegou ali.

Em dois anos seguidos, não só com 30 anos de diferença. Então, a gente está falando que tem uma coisa que está esquentando, né? Está esquentando, uma promessa que vai esquentando. Agora, esse assunto é muito importante dentro de uma família, né? Como as pessoas se destacam de formas diferentes. Como é que entre os irmãos se lida com as diferenças, né? Com as diferenças de escolhas, com as diferenças de sucesso, do quanto cada um conseguiu realizar. Porque, às vezes, não é o desejo da pessoa fazer um sucesso tão público.

A pessoa está felizinha lá na casa dela, morando sei lá onde. Mas como continuar pertencendo aos irmãos e ao mesmo tempo se destacar? Eu acho que isso é um dilema que você traz que é importante. Você se destacar entre os irmãos que querem estar juntinhos, todos iguais, mas não são iguais.

Não tem como também, né? Mas uma coisa que eles me chamam sempre atenção é sobre a essência. Eles falam muito assim, Tomás, você vai conquistar muita coisa se você mantivesse a sua essência que é muito linda. E eu poderia ter mudado ela na época que eu falei aqui da história dos meus 30 anos, que foi na época em quando... Eu nunca tive uma índole de passar por cima de alguém. Isso eu nunca tive. Já tive inveja, já tive ciúmes, já tive o desejo de...

Queria que fosse comigo, mas tudo no meu limite, o que eu acho que é saudável, que nunca ultrapassou o limite ético. Então, assim, eu lembro que quando eu fazia o musical, na época com o João Falcão, que eu saí de Recife para fazer esse musical, aquilo ali me encheu, me inflou o ego. E eu acho natural cada um ter o ego, a ambição, a vaidade dentro de um limite, porque quando começa a ultrapassar, você se perde no caminho.

Então eu comecei a perceber que eu, isso só depois, quando em 2006 meu trabalho e tudo, e relacionamento na época e a casa que eu tinha foi por água abaixo. Porque eu ganhava bem naquela época, tava bem, tava sendo falado em Recife, tava tudo dando certo, as pessoas vinham me aplaudir, eu tava, nossa, que legal, ia pra shows de músicos, e tava aquela coisa, e levei essa rasteira.

Então foi quando eu disse, cara, você tem que manter seu pezinho no chão. Percebi que eu não tinha economizado nada, percebi que eu só estava na boemia, percebi que meu ofício estava começando a virar uma coisa não profissional, mas uma coisa mais de boemia, né? Estava me desviando de uma linha. E foi ótimo levar essa queda, foi ótimo começar a análise ali, porque hoje a minha essência, eu dou graças àquela porrada que eu levei lá atrás.

10 anos fazem muita diferença na minha vida. Fizeram muita diferença. Porque eu perdi tudo ali com 30. Aí na hora que eu começo a galgar para recuperar, vem uma mega pandemia, onde muita gente morreu, onde quase minha mãe morreu, onde eu quase morri. Aí o artista fica sem emprego. Sim, foi terrível, né? Foi muita coisa que, quando eu começo, leva outra queda. Então, assim, eu percebo que a gente está sempre com o pé no chão. A gente não sabe o dia de amanhã.

Então, quando meus irmãos falam isso, eu respondo, pô, muito obrigado, eu tô muito atento a isso, tô sempre vendo, porque eu não sei o dia de amanhã. Tem que entender o que vai acontecer hoje, entendeu? Então, o meu hoje é esse brilho aqui, eu tô olhando no teu olho, tô conversando contigo, a gente tá se entendendo aqui, a gente tá conversando, amanhã eu não sei, então eu não posso virar algo que...

tem que estar enraizado aqui não tem nada garantido eu acho que é um lado importante porque você fica numa coisa onipotente né e vai passar nesse mundo por cima dos outros para manter porque você vai manter uma coisa que não tem garantia né mas também tem um lado né que eu acho que se lastro afetivo quais são as relações que realmente porque quase você fica rodeado de um monte puxa saco né

Tem que saber quem são as pessoas. Que também vai ficando uma chatice. As relações são totalmente esvaziadas, não te alimentam. E você tem uma experiência de relações muito robustas, de muito afeto, né? Logo, você percebe a diferença entre estar rodeado de pessoas porque você faz sucesso e é insensado. Ah, é divertido, mas eu brinco assim, é meio alface americana, é crocante, é gostosa, mas não serve para nada, né? Que nem água, do jeito que entra, não alimenta ninguém, né? Não alimenta ninguém.

E tem uma coisa que essa família que você diz é uma família, é um alimento para você, é uma coisa que realmente nutre, né? Pois é, eu acho que eu sou muito assim hoje, inclusive, por causa da minha família mesmo, sabe? Me nutre mesmo, meus irmãos estão sempre atentos. Eu sou muito o que eu sou por causa deles mesmo, não tem como eu ser diferente, entendeu? Até porque eles também são um grande exemplo para mim. São pessoas focadas, dedicadas, aplicadas, são pessoas que eu me espelho, me inspiro. A gente tem uma essência do amor mesmo, entendeu?

Então a gente vai passar pra segunda pergunta. A segunda pergunta é bom. Você teve essa família que você escreveu, que inclusive você me mostrou até um... Como chama isso? É um pingente. Um pingente com a foto do seu pai, da sua mãe. E depois, achei a coisa mais lindinha, porque é tudo emprateado assim, né?

Uma graça, uma graça, gente Do outro lado meus irmãos com meus pais Uma doçura Bom, essa é a sua referência de família Qual a sua referência de família a partir daqui? Da família que você pensa, sei lá, um dia inconstituiu, constituiu Isso dá no quê? O que você está procurando como família para você hoje?

Essa é uma pergunta ainda que eu estou em processo. Porque eu fui casado, né? Quatro anos. Eu passei a pandemia casado. Foi uma relação muito maravilhosa, né? Assim, construtiva. Foi uma relação que veio do casamento de quatro anos, mas foram doze anos de história, entre idas e vindas. Então, foi muito, muito proveitoso. Pude aprender bastante, pude errar muito também, enfim. E depois, eu tinha vontade de ser pai, queria constituir, ter filhos.

Porque eu via que eu vinha de uma família de filhos e tudo isso, e de primos e de primas, então sempre quis ter. Quando eu me separo, que eu sofro essa separação, e que aí vou morar sozinho, aí começo a ter meu luto sozinho, eu nunca, a minha vida inteira, desde quando eu nasci, até os meus 38, eu estou dizendo 37, até os meus 37 eu nunca tinha ficado sozinho.

E em que sentido? Porque assim, às vezes você num quarto fica sozinho Mas não é sozinho, não é solidão E eu vou tentar explicar o porquê Pra chegar na pergunta que você fez Porque assim, eu sempre tive uma família grande Então sempre dormia num quarto, sempre acompanhado

Fui morar no Rio de Janeiro, dividindo com quatro pessoas. Depois fui morar em São Paulo, dividindo com um casal. Depois com um mochilão, morando de casa em casa. Depois casei, morei casado. Separei e aí sim me vejo sozinho numa casa, pagando as minhas contas sozinho.

fazendo meus deveres de casa sozinho, vendo toda essa construção de solidão sozinho. Então, eu acho que isso é muito fundamental. Muito fundamental para o masculino, inclusive. Porque eu comecei a entender o que eu quero, o que eu gosto, conceitos de filmes que eu quero ver, livros que eu quero ler, cinema se eu quero ir, decisões que eu posso ter, relações que eu gosto. Então, quando você está sozinho, você se autoconhece.

Eu comecei a me autoconhecer com 37. Então faz dois anos, vai fazer três agora. Chorei. Eu li até um livro. Ai, meu Deus. Eu vou lembrar o nome do livro. É um livro pequenininho que fala sobre solidão. Eu vou lembrar até o final aqui do... Que eu li no México, quando eu estava no México. E foi muito bonito ler esse livro, porque ele fala da solidão de uma forma bonita. A gente acha que solidão é uma coisa ruim. Ai, meu Deus, eu vou ficar sozinho. Eu não quero ficar sozinho.

Mas não, a solidão é maravilhoso, porque você começa a se enxergar de uma maneira, você consegue entender por que você está rindo daquilo, ou está chorando, ou não quer mais estar naquele ambiente, ou quer estar em sua casa, ou quer estar em outro lugar, porque você começa a ter propriedade de si.

Então, eu comecei a perceber isso e comecei a ver por que eu queria ser pai. Pai é uma grande responsabilidade, sabe assim. E agora que eu estou solteiro, estou muito focado no meu trabalho. Eu acho que o meu filho é o próximo projeto, sabe assim. Eu comecei a abrir mão um pouco da questão social, de impor que nós temos que ser pais ou ser mães, para entender quem eu sou.

Claro que eu não tenho um tempo biológico como, infelizmente, as mulheres têm de ser mães. Então, eu estou nesse meu tempo de refletir sobre o que eu quero de família a partir de agora. Eu tenho um cachorro que eu sinto que é meu filho, que eu tenho muito afeto, muito carinho e cuido bem dele.

mas não estou com a ambição como eu tinha quando eu era casado de ser pai. E eu acho que isso é natural também, acho que eu vivi um luto, vivi uma separação, e agora estou realmente focado no meu trabalho. Então, tive algumas relações pós o fim do casamento.

Mas ainda nada que eu perceba que eu digo vou constituir uma família. Porque eu fico refletindo sobre, será que agora que eu estou tendo propriedade de mim? Que eu estou me autoconhecendo? Será que eu quero dividir, compartilhar essa energia? Isso pode ser muito egocêntrico de minha parte. Mas eu acho que eu sinto que eu ainda tenho muito a aprender comigo mesmo. Entende? Então eu estou nessa fase. Então a família a partir de agora eu acho que é comigo mesmo. Estou sentindo que é esse aprendizado.

É engraçado, porque sempre que a gente fala da pessoa ou não querer ou postergar ter filho, vem isso que você chamou de egocêntrico, né? Mas, na verdade, a decisão de ter filho é tão egocêntrica quanto a de não ter. Porque tudo vai partir do teu desejo.

E o filho vai aparecer aí a partir do teu desejo. Porque o filho não pede pra nascer, né? A gente que resolve que vai botar uma pessoa no mundo, né? Então, é muita ilusão a gente achar que só porque você não quer ter um filho, eventualmente ou oportunamente, isso se tarte de algo egocêntrico. Parece que tem que se justificar, né? É, porque você tem que criar novas gerações, o que não é verdade. Ainda mais num mundo que a gente não sabe nem se vai ter água pro futuro.

Está tudo em aberto. Tem isso que eu penso também, meu Deus. É uma geração que está se havendo com um futuro muito incerto. Mas de qualquer jeito, mesmo que não fosse isso, botar uma pessoa no mundo para cumprir um papel de então a gente casou e tem filhos, é o que as pessoas mais fazem. E não tem nada mais egocêntrico do que isso. Porque na verdade você está fazendo isso porque você quer. Ninguém pediu para você fazer.

Não me abriu os olhos. Não tinha visto como essa. Não, eu acho super importante. E pras mulheres isso é muito pior, né, Tomás? Elas nem têm esse, vou pensar nisso, você tem que fazer lá rápido, porque você não vai poder mais gestar, não vai mais poder parir. Depois elas se vêm com o filho e muitas se arrependem. Amam a criança, adoram a criança, mas se arrependem da maternidade, que é muito pesada, né? Além de ter um filho em vó.

Bom, quem vai ser a mãe desse filho? Quem vai ser a avó desse filho? Quem vai ser? Envolve muita gente. Você não tem um filho só pra você, né? Ele tem relações com outras pessoas também.

E eu acho que, se me permite acrescentar, o que eu vejo muito de amigas minhas, por exemplo, são os pais que fazem o filho e que abandonam essas mães que viram mães solas, e às vezes nem pra pagar uma pensão. Aí fala, não, eu sou pai presente, pego o final de semana e devolvo. É um completo absurdo que acontece desse masculino em relação a esse feminino na maternidade e paternidade. Então acho que isso também é uma grande revolta.

que acontece. É, então, e aí tem essa cena, por exemplo, vocês acabaram não ficando juntos, vocês poderiam ter tido um filho nesses quatro anos, nesses 12 anos, aí você ia descobrir, nossa, mas eu nunca vivi sozinho. Mas agora eu tenho filho, quer dizer, então nunca vou viver sozinha mesmo, né, quer dizer, então tem uma reflexão que a gente já pode fazer, a gente não precisa ir no piloto automático, como os nossos pais foram. Você começa falando de uma família muito apaixonada.

Muito apaixonado. Os pais muito apaixonados, os irmãos muito apaixonados. Mas por que isso é tão raro? Você até falou assim, olha, eu juro que é isso. Porque muitas pessoas constroem as famílias no piloto automático. Ah, tá na hora de casar, essa moça é bonitinha, vamos casar. Ah, eu vou casar com esse cara. Aí a gente vai ter que ter filho. Por que eu tive filho mesmo? Ah, eu nem pensei, porque tem que ter filho. E aí as coisas vão dando muito errado, né?

Então, que as pessoas estejam apaixonadas, que o projeto seja comum, que seja um desejo que se comprove verdadeiro para a pessoa, é mais difícil de acontecer. Não quer dizer que não aconteça. Mas é mais difícil porque tem sido compulsório. Eu acho que isso é uma reflexão...

tão importante da gente fazer. Por isso, eu estou amando estar sozinho, no sentido de que eu estou amando me amar, entendeu assim, no sentido bom mesmo da palavra, não no sentido de que, ah, eu sou isso. Não, é no sentido de que cada passo que eu dou é eu comigo mesmo de uma maneira tão diferente que eu não sei explicar aqui para quem está ouvindo. Eu acho que os homens, e eu tento falar isso para meus amigos que estão solteiros e falam, nossa, preciso namorar, que a namora falou, rapaz.

Ele respira. Eu acho que os homens, antes de ter uma relação, é muito importante se autoconhecer. A gente entra no automático, às vezes a gente não sabe nem se quer mesmo, como você falou. E é isso que o projeto pode dar errado, o projeto de vida entre os dois, a parceria. Porque a gente escolhe uma parceira ou um parceiro para a vida. Se for ter filho, é para a vida. Mesmo que se separe porque deu algo errado, mas que continuam amigos.

Tem que ser pessoas que não criem desavenças, que estejam sempre juntos, porque tem um filho ali no meio, tem algo que foi construído ali no meio. Então, acho que esse auto-se conhecer, isso é muito importante para que você tenha paciência, tenha diálogo, tenha escuta, tenha visão do que está acontecendo, porque muitas vezes o homem é muito mimado socialmente.

Tomás, você traz duas coisas que eu acho muito importantes para os homens. Uma, que vai na contramão do masculino. É do masculino hegemônico, do jeito que ele foi construído na atualidade. O masculino tem que comportar essas duas coisas. Capacidade de ter intimidade, falar coisas íntimas para si e para o outro, compartilhar essas coisas, que é muito raro entre homens. E uma coisa que você está falando, mas você não está usando essa palavra, mas me ocorreu, me corrija se estiver errada, que é aprender a se cuidar. Porque os homens não se cuidam.

mas não se cuidam no nível, não cuidam dos outros e não cuidam de si, não se autorregulam. Tem sempre uma mulher para escolher uma roupa, para botar comida no prato, para dizer agora a gente vai fazer isso. Depois eles dizem que as mulheres são mandonas, mas na verdade eles precisam que alguém regule, que nem uma mãe regulava. E as mulheres, elas aprendem a cuidar muito rapidamente, aprendem a se virar, mas poucas vezes também elas têm oportunidade de morar sozinhas e não cuidar de mais ninguém. Quando elas moram, elas moram com uma renca que elas têm que cuidar.

Eu acho que você está falando de duas experiências que eu tinha que falar para os homens mesmo. Vamos morar sozinho um pouquinho. Mas é muito importante isso. É engraçado você falar isso de a mulher que escolheu a roupa. Enfim, na minha casa, quando eu morava, meu pai não sabia nem onde estava a cueca. Nenhum ficava cueca.

Então, isso vem uma coisa realmente geracional e de, ah, onde é que eu deixei minha carteira? A mulher que sabia onde estava a carteira, onde é que eu deixei, não sei o que lá. Isso é um tipo de cuidado. Eu acho que o cuidado mais fundamental é o mental. Eu acho que a gente tem que olhar nossas raízes de onde a gente vem, a construção social de onde a gente vem.

Por que a gente tem tanto medo de falar sobre sentimento? Esse se cuidar, para mim, na minha análise, está sendo muito importante porque eu estou começando a entender dos meus medos, das minhas vontades, das minhas virtudes, do meu foco, do meu pensamento, da escolha de ter sido ator. Tudo isso que envolveu a minha infância e que me envolve como ser humano. Então, acho que o cuidado, além do estético, é o cuidado de dentro mesmo, da gente. Por que quando eu me sinto...

frágil ou com medo, eu preciso falar mais alto, eu preciso bater em alguém ou eu preciso ver um jogo, eu preciso... Ah, vou desestressar com meus amigos e a forma de desestressar é inumbar, às vezes falar uma putaria ou falar uma coisa que não é uma temática que aprofunde realmente o que tu tá sentindo.

Eu assisti uma peça de Elisa Lucinda que foi maravilhosa, que ela fala sobre várias questões e dentro de um momento nessa peça ela interage com a plateia e ela começa a perguntar, porque ela fala do feminino, e ela começa a perguntar aos casais e fala para os homens assim, quando foi a última vez que você comprou a tua cueca?

foi outra vez que tu comprou uma meia, sabe? E eles sempre falavam, era impressionante. Ela perguntou na peça que eu tava pra uns cinco ou seis casais, cinco ou seis, eu acho. Todos responderam, minha mulher que compra. E olha que coisa, assim, cara, qual o problema de tu sair? Vai, sei lá, bota um sapato que tu queira, vai fazer uma coisa que tu quer, vai dar uma caminhada, vai fazer uma coisa. Eu acho que é esse o se autodescobrir.

Então, mas essa pergunta não é uma pergunta banal, né? Qual é o problema? O problema é que isso inverte toda a lógica do lugar do homem e o lugar da mulher, né? O homem não sabe ter a piada, né? O homem não acha nada dentro de casa, porque aquele espaço doméstico é da mulher. Então, ele tá entrando ali pra ser cuidado. Ele não tá entrando pra cuidar. Ele não tá entrando pra saber onde estão as coisas, pra manter a casa, né? Então, esse cuidado reprodutivo, que a gente chama de manutenção da vida, está do lado da mulher.

Não remunerado, para que o homem possa fazer o trabalho remunerado e seja o provedor. O que muitas vezes não é, né? Porque os homens vão embora e deixam as mulheres na mão. Mas é uma lógica, não é incompetência masculina, é programático, mesmo que inconsciente. Mesmo que inconsciente, né?

Muito louco isso, né? E às vezes o homem acha que... Ah, não, mas eu paguei a reforma da cozinha. Sim. Sim, e... Eu acho que é muito mais profundo do que isso e muitos não enxergam esse pensamento. Não, metade dos lares brasileiros é chefiado por mulheres. Então a reforma da cozinha funciona para muito pouca gente. Agora, me diz o seguinte. Você acha que essa tua experiência faz você rever o teu casamento? Coisas que você acha que no teu casamento poderiam ter sido diferentes?

Eu ainda estou em processo de analisar. Numa futura relação, você já entra diferente nessas relações hoje? Com certeza. Eu acho que para uma futura relação... Porque eu nunca me arrependo ou me arrependi do que eu fiz. Eu acho que tudo que foi vivido até hoje, eu acho que a gente tem que viver mesmo baseado que é assim que a gente também vai aprendendo. Isso é uma opinião minha. Eu acho que a gente pode discordar e está tudo certo. Se eu tivesse feito... Sim, você tem razão. É mais no sentido de...

Porque a gente não sabe o si. Se olha diferente. É, não, é um delírio. Isso é super pesado também, né? É uma ilusão, eu acho. Com certeza, com certeza. A gente pode sonhar. E se eu tivesse ótimo sonhar, mas assim não foi. Então a realidade pra mim é o que eu vivi. Eu queria te comparar, comparar você. O que que essa experiência pode ter afetado a tua forma de ver as próximas relações? Perfeito.

Exatamente, então quando eu vi o que eu fiz, ok, eu fiz da maneira que eu sabia fazer, que a minha cabeça processava e que era aquilo. E cada experiência que eu vivo realmente ela me alerta para um futuro. Então hoje realmente morando sozinho, tendo esse espaço, faz dois anos que eu moro sozinho, dois anos que eu estou nesse foco de trabalho.

de me conhecer, de me amar, desse autoconhecimento. A partir disso, próxima relação que eu for construir, com certeza, eu acho que eu vou estar mais apto de entender melhor uma parceria. Não que minhas parcerias não foram boas, mas eu acho que eu talvez entenda melhor agora, de uma outra maneira, com mais maturidade, um outro tipo de parceria. Então, com certeza, para o futuro, sim. Eu acho que eu faria diferente algumas coisas.

E pro futuro, né, caso venha esse filho, ele já vai ter uma transmissão da masculinidade outra, né? Que bom que você tá esperando, tá? Porque se você vier ter filho, seja menino ou seja menina, ou seja intersexo, né, ou não binário, whatever, de qualquer jeito tem algo ali que você já não é o pai que você seria sem essa experiência da nova masculinidade, né? É uma pessoa que consegue sustentar a intimidade e consegue sustentar o cuidado.

Eu queria falar também que meu pai, por exemplo, ele sempre foi um cara muito... Ele era da geração lá atrás, mas algo nele era diferenciado. E eu vou dizer o porquê. Eu perdi minha vingidade com 18 anos. Com 17, meu amigo tinha feito 18, aí, enfim, conseguiu um carro, né? Tirou a carteira, tava lá e a gente, os amigos juntos, ah, vamos farrear, é, parabéns e tal. O que é que...

Os homens adolescentes e os adultos, nessa geração, a maioria fazem prostituição. Vamos perder a virgidade com prostitutas. E eu não estava afim. Eu não queria perder a minha virgidade com uma prostituta. E tudo bem, a prostituta, o ofício dela, está tudo certo. Só que o problema era comigo. Eu não queria. E aí foi cada um com uma, cada um para um quarto.

Eu não consegui, cheguei a abrochar, né? Assim, porque eu tava muito nervoso. Seria a minha primeira vez. Ela totalmente é uma mulher muito mais experiente, né? Enfim, a gente ficou no quarto conversando. Foi ótimo. Foi minha experiência. A gente ficou nu no quarto conversando. E aí, voltou pro carro. O que é que eu fiz? Ah, foi maravilhoso! Arrebentei, né? Assim, a gente não queria porque os outros estavam todos animados. Não sei também quem tava mentindo.

Mas foi ótimo Foi uma experiência E eu cheguei em casa frustrado Meu Deus do céu

Será que eu gosto disso? Será que eu... Confuso. Confuso. Eu estava perdido. E aí eu falei, pai, eu queria conversar contigo. E aí ele falou, vamos conversar. Eu falei, não, vamos no quarto. Aí ele já... Nunca tem... Vamos. Cheguei no quarto e aí ele falou assim, diga-me, meu filho. Eu falei, eu acho que eu engravidei uma pessoa. Aí ele falou, como assim? Não, não. Aí eu falei, não, não é que eu engravidei. Eu acho que eu... É que...

Eu não consegui ver. Eu não sei se eu gosto. Aí ele falou, calma, respire. Ele entendeu, né? Tá tudo bem com você? Você tá bem? Eu tô meio confuso. Ele, ok. Veja só. Aí eu falei, o pai, eu brochei. Ele falou, ok, tá tudo bem. Você tava nervoso? Você tomou alguma coisa? Ele perguntou, acho que eu não tava nervoso. Ele falou, foi com uma pessoa que você ama? A primeira coisa que ele falou também. Foi uma pessoa que você ama? Eu falei...

Não a ele. Certo. Próxima vez você tenta com uma pessoa que você ama, independente do que seja. E aí tudo bem. Se for isso, é isso. Se não for, você tenta com outra pessoa que você pode amar. Então ele deu uma abertura de que era uma coisa sem preconceito. Deu uma coisa que é o que você gosta.

E olha que interessante, pro meu pai, que veio de uma geração, que ele tem 81 anos hoje, totalmente mais machista ainda, ele mesmo que não conseguiu no teatro fazer o teatro, mas ele tinha essa cabeça pra me falar...

o que poderia ser mais importante para mim, sem uma questão de preconceito, sem falar, meu filho, você falhou, sem falar, eu vou te levar, sabe? Falou de uma forma de dentro. E aí logo no ano seguinte, com 18 anos, comecei a namorar uma mulher e aí foi isso e perdi a minha vigidade. Um beijo para o seu pai, que fofo. Como as coisas acontecem com o diálogo.

Eu acho que você está trazendo uma coisa que eu sempre aponto aqui, que eu acho super importante. Tudo bem um homem ser de uma certa geração, uma mulher ser de uma certa geração, também somos, mas isso não justifica tudo. Porque tem um sujeito ali que lida com a sua geração de um jeito ético próprio. Ele tem que se responsabilizar pelo que ele faz com a própria geração. O que teu pai fez foi dar um passo para além da própria geração e olhar para o filho com sensibilidade, com empatia, com abertura. Isso é simplesmente...

Simplesmente maravilhoso. Mas é um cara que assumiu uma posição, uma autoria ali, né? Que se colocou em ato. Então, ele se responsabilizou pela ética dele. Não foi o que o vizinho vai pensar, o que o filho do amigo vai pensar. Não, ele foi pra você, ele foi o seu pai. Único e maravilhoso. Um beijão pra ele. Que bom que você contasse essa história que eu adorei. É isso. Era a história que eu queria contar, compartilhar. Acho que é importante pros homens...

A gente tem que falar mais sobre, sabe, sentimentos, sobre o que está dentro do nosso peito. Acho que isso é muito importante. Autoconhecimento é muito importante. Maravilhoso. Maravilhoso. E agora a gente tem uma coisa que é assim, que é você fazer uma pergunta para mim. Seja o que Deus quiser.

Eu quero saber como é ter esse título de receber o Jabuti, o prêmio Jabuti. Ai, meu Deus do céu. Eu respondo essa ótima pergunta do Tomás no Pergunta à Vera, o episódio bônus aqui do podcast. Ele sai às quintas-feiras aqui no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Te vejo lá.

Esse foi o podcast. Isso não é uma sessão de análise, um original da Truvão Mídia. Na semana que vem, a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. Até lá.

A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.

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