Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

[BÔNUS] Débora Falabella pergunta à Vera: viver um personagem muda quem somos?

23 de abril de 20266min
0:00 / 6:15

No episódio bônus desta semana, é a vez da atriz Débora Falabella fazer uma pergunta a Vera Iaconelli. A partir da própria experiência no teatro e na televisão, Débora fala sobre o impacto físico e emocional de interpretar histórias intensas por longos períodos. Na resposta, Vera reflete sobre o que o corpo guarda, os limites entre ficção e realidade e como essas experiências atravessam quem atua.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
D

Débora Falabella

ConvidadoAtriz
Assuntos1
  • Impacto de viver personagensEfeitos físicos e emocionais · Empatia e identificação · Dissociação e trauma · Saúde mental do ator
Transcrição16 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Oi, eu sou a Velha Conelli e este é o Pergunta à Vera. Um episódio extra do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei junto com o pessoal da Trovão Mídia. Aqui quem faz a pergunta é a convidada da semana e eu que respondo. Hoje é a vez da atriz Débora Falabella.

Se você ainda não ouviu nossa conversa completa, ela está no episódio anterior aqui no feed. Agora vamos à pergunta da Débora. E agora, Débora, a gente inverte o microfone. Tá. E eu, arriscando tudo aqui, peço pra você fazer uma pergunta que eu vou ver se eu consigo responder. Tá. Então, uma curiosidade que eu sempre tenho, assim, e que talvez você, por ser psicanalista, eu sou tão entendida, assim, desses aspectos...

Como que você acha que um ator ou uma atriz, assim, se eles carregam em si as questões do personagem? E como que isso reflete, assim, no nosso corpo? Porque eu, às vezes, tenho a sensação que eu vivo personagens durante muito tempo.

Por exemplo, no teatro, né? Eu tô fazendo uma personagem que foi violentada sexualmente, que passa por uma via cruz aí na justiça, e faço isso todo dia. E eu acho que isso, por mais que seja uma ficção, no meu corpo me afeta, né? Assim, eu durmo mal, eu tenho dormido mal tem um ano e meio. Então tem coisas que...

Então, a mente, ela confunde isso? Você dorme mal, mas nos outros personagens que você fez, você não tem isso. Alguns não. Alguns eu fico excelente. Outros, eles me perturbam mesmo, assim. Mesmo quando eu não tô mais em cena, quando eu não tô... Então, olha que... Vamos responder isso juntos. Porque me interessa que, veja, pra você conseguir ter essa empatia com o personagem, pra você entender o personagem...

Você tem que acessar alguma coisa que já está aí previamente. Não pode ser uma coisa completamente estranha a você, né? Ou seja, aquela fragilidade, aquele medo, aquela sensação. Porque veja, vamos usar o exemplo do estupro, né? Talvez você nunca, espero que nunca tenha passado por nada nem parecido com isso, tá? Mas a gente tem uma experiência, surpreendentemente, a experiência do bebê, do bebê. É uma experiência de um corpo que está à mercê do outro.

E que a gente roga para que esse outro seja generoso, seja bom, seja autocontrolado. Mas aquele tempo foi um tempo de estar à mercê do outro. E ele poderia ter feito, como às vezes acontece, qualquer coisa com você. Você está à disposição da bondade ateia.

Isso quando você é bebê, você graças a Deus não sabe e acha que estão cuidando você, né? Você acha que está tudo garantido ali. Quando você cresce, tem gente que olha para o bebê e fica muito angustiado com o desamparo do bebê. Então esse desamparo, esse corpo desamparado, à mercê do outro, é o mesmo que comparece na cena de estupro. Porque tem um outro...

que pode fazer e faz qualquer coisa revelia. A gente tem essa marca. Só que a gente, pra psicanálise, recalca isso. Tipo, eu não quero ficar lembrando do bebê desamparado que eu fui. Às vezes a gente lembra, mas a gente não fica no dia a dia. Você tá lá cavucando isso pra criar uma coisa pra gente que assiste e se identifica com esse personagem.

Isso se cavocou em você também, de algum jeito. Mesmo sem saber qual foi o caminho, né? Mesmo sem saber, o caminho pode ser totalmente inconsciente, mas você teve que procurar alguma coisa pra se identificar com essa mulher que passou por essa experiência de ser um objeto do gozo do outro, vamos dizer assim. Que é isso, né? Quer dizer, eu acompanhei mulheres que sofreram crimes sexuais, a menor questão era o que foi feito com o corpo em si, né, da penetração.

Era exatamente esse desaparecimento de si, esse congelamento. Que chamam de dissociação também, né? Dissociação. Então, assim, a lâmpada, eu lembro da lâmpada piscando, a lâmpada piscava. A pessoa sai do próprio corpo para poder preservar um pouco do psiquismo, enquanto aquele corpo está sendo aviltado. Então, a gente tem esses mecanismos, né? E eu acho que o ator, ele se presta a uma coisa muito arriscada.

que é ir procurar esses meandros, né? Isso vem pra você. Agora, que você, pra mim, ouvir de você, né? Que essa experiência mexe com... Chega no teu dia-a-dia de... Eu não duvido, porque justamente durante a noite é que esses conteúdos vão começar a tentar aparecer pelo sonho, que é uma forma de elaborar isso. É, e até uma hipersensibilidade ao tema, né? Que é a parte que a gente fica, assim. Então, eu tenho muita curiosidade mesmo, assim, de...

de entender como é que... Porque a gente vai lidar sempre a vida toda com diversos personagens, e às vezes vão ser muito diferentes da gente, e que nos afetam igual, mesmo a gente não tendo passado por aquela experiência específica. Mas eu acho que tem duas coisas aqui, tem uma que é a empatia, então você ficou sensibilizada, você, quando ouve agora falar de alguma coisa, está muito mais ligado, você está entendendo.

Isso a gente tem na experiência. Mas outra coisa que o ator faz, que é entrar em contato com a experiência em si, de poder transmitir como se tivesse vivido mesmo. Aí eu acho que você chega num nível um pouquinho mais... O ator tem que ter saúde mental suficiente pra ir e voltar. Sim. Porque vai descer ali naqueles...

profundidades e sublimar, né? Não enlouquecer, ou pelo menos não enlouquecer totalmente, enlouquecer um pouquinho faz parte, mas poder transformar isso em arte. Sim. Senão você entrava lá e não saia mais. Exatamente, é. É um trabalho, por isso que os analistas babam com os atores, a gente fica só babando aqui de ver o que vocês são capazes de fazer com o inconsciente, assim, é maravilhoso.

Obrigada pela coragem. Eu que agradeço. Eu queria horas aqui sabendo mais. Muito, muito bom te ouvir. Obrigada. Obrigada.