Sidarta Ribeiro desmonta o próprio lugar como filho, pai e homem
O neurocientista e escritor Sidarta Ribeiro fala sobre crescer em uma família marcada por perdas, a morte precoce do pai e as transformações que atravessam os laços ao longo do tempo. Na conversa com Vera Iaconelli, revisita a relação com o irmão, a centralidade da mãe e os caminhos que o levaram a repensar o que significa ser um homem no mundo hoje.
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- Relacionamentos FamiliaresMorte do pai · Relação com irmãos · Padrasto e novas dinâmicas familiares · Transformações na maternidade
- Realidade da paternidade e pressão masculinaDesconstrução do patriarcado · Cuidado parental · Mudanças na relação com os filhos
- Impacto da PandemiaMudanças na rotina · Prioridades familiares
- Paternidade e MaternidadeCuidado e responsabilidade · Desigualdade de gênero
- Experiências de InfânciaMemórias de Natal · Relação com avós
Trovão Mídia Oi, eu sou a Véria Conelli e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia.
Toda semana eu escuto histórias de família por aqui. De certa forma, sobre o que herdamos delas. Principalmente sobre como cada um transforma essas heranças em algo próprio. E também na família que se vai construir.
O meu convidado de hoje é o neurocientista e escritor Cidata Ribeiro, o filho do Sérgio e da Vera Lúcia, o irmão do Júlio e da Luísa e é casado com Luísa também. É pai do Ernesto e do Sérgio.
Oi, aqui é a Ana Bonomi da Trovão Mídia. Eu sou produtora do Isso Não É Uma Sessão de Análise e mãe de duas crianças. A gente tá em abril e já tá tudo acontecendo ao mesmo tempo. É filho com influência em casa, reunião sem câmera pra ele poder ficar no meu colo, prazo curto, esses mil feriados da escola, e você tentando lembrar se já tomou os três litros de água, passou pro teto solar e fez o treino do dia. Nesse caos, eu não tenho tempo nenhum pra roupa que pinica, que amassa ou que veste mal. Roupa precisa funcionar e pronto.
Por isso eu uso Insider, porque lá tem roupas tecnológicas, confortáveis e ótimas para usar na vida real. Eu gosto bastante da camiseta básica deles, chama Tech Daily e tem um kit que vem 3. É básica, mas não é básica. Veste super bem e é fácil de combinar. Com o cupom ISSO NÃO É UMA SEÇÃO, você garante desconto no site. 15% OFF na primeira compra, 10% se já for cliente. Repetindo, ISSO NÃO É UMA SEÇÃO, tudo junto, SEÇÃO com dois S e sem TIL. O link para você comprar está na descrição desse vídeo.
episódio. Bem-vindo, Cidarta. Muito obrigada por ter arranjado um horário. Obrigado, Vera. É um prazer estar contigo aqui. Cidarta, a gente começa com essa pergunta que é qual a sua referência de família? Que pergunta boa. Ué, é a minha, né?
É o que temos? É, exatamente. Muito, né, com todas as dificuldades de famílias, mas muito maravilhosa. E uma família estendida, né, uma família que tem muita gente amada, com quem a gente convive em parceria, harmonia, partilha, em comunidade, que não é parente, né. Então, eu tive uma sensação, assim, de ter uma família como uma coisa extremamente sólida por toda a minha infância e adolescência.
Na idade adulta, eu acho que não é incomum a sensação de que as coisas vão se esboroando. Acho que são raras as famílias que conseguem atravessar muitas gerações com essa sensação que a gente pode ter quando criança de que está tudo sempre muito bem, que todo ano vai ter um Natal com todo mundo lá.
enfim, eu tive isso apesar de muita coisa mortes, pessoas ausências, mas assim a sensação de ter essa família como um porto seguro eu tive até a minha mãe morrer então era você a sua mãe seu pai e seus dois irmãos
Não, é assim, o Júlio e eu somos muito próximos em idade, o Júlio é um ano e um mês mais novo, mas meu pai morreu muito cedo, quando eu tinha cinco, e o Júlio tinha quatro. E aí minha mãe casou de novo com o Edson, meu padrasto, quando eu tinha uns treze, e aí com o Edson ela teve a Luísa, minha irmã. E aí a gente morou junto, todo mundo um tempo, até que depois eu saí de casa, meu irmão saiu de casa, e eventualmente a minha irmã mais nova saiu de casa.
Mas esses natais robustos aí eram com o seu padrasto, então? Quando ele chegou, sim. E antes era muito na família de Belo Horizonte, do lado da minha mãe. Os natais em Belo Horizonte, na casa da minha tia Biba, irmã da minha mãe, às vezes na casa dos meus avós, menos, mas na casa da tia Biba. E aí eu encontrava um monte de primos, né? Até é legal, assim, que esse ano a gente voltou a se falar. Os primos estávamos há muito tempo sem nos falarmos.
Desde muito tempo mesmo, desde décadas, assim, em alguns casos. E também tem, além das questões da família, que as pessoas, cismas familiares, depois teve essa coisa política dos últimos anos, então isso também deu uma afastada nas pessoas. Mas agora voltamos a bater papo com as regras que são nesse zap dos primos, não pode falar de... Em ano eleitoral. De futebol, de religião, de grana e de treta. Não pode falar dessas coisas. Bárbara, e no ano eleitoral, vocês arriscaram tudo esse ano.
É, mas a gente não vai falar não, acho que não. Não adianta a gente conversar esse assunto. O que acontece esse ano que faz essa reaproximação? A idade, alguma questão conjuntural? A gente tem só, dos cinco filhos da minha avó e do meu avô, só tem vivas duas mulheres, a tia Bíblia e a tia Tia. E aí a tia Tia teve um problema de saúde. E aí, de repente, todo mundo queria saber dela, e ela foi internada e gerou aquela coisa em torno dela.
E aí, meu irmão estava afim de fazer isso há um tempão, e jogou essa ideia assim, e todo mundo entrou. Na hora, todo mundo topou. Já teve umas briguinhas assim, mas... E aí, então, esse padrasto, como é que é ter padrasto?
É muito bom, meu padrasto é super bom. O Edson é ótimo. A gente se dá super bem. A minha mãe já fez a passagem há vários anos já, em 2018. E a gente mantém com ele uma relação de família. Quando ele apareceu na minha vida, eu tinha 13. Então eu não chamava ele de pai. Ele não foi o substituto do meu pai.
Eu tive outras figuras paternas muito importantes, meu padrinho, meus tios. E o Edson também é uma figura paterna muito importante. Hoje eu chamo ele de Mizipai, a gente tem uma relação que, enfim, são muitas décadas de convívio. Por que Mizipai? Meu pai. Mas por que Mizipai, Mizifio? Ah, que bonitinho. Agora que eu entendi, que legal. Muito lindo.
É uma brincadeira carinhosa. Mas ele pegou você entrando na adolescência, né? Foi. Ele chegou, eu estava começando a querer sair. Foi muito interessante, porque minha mãe ficou viúva vários anos, e foi um período muito difícil, por uma série de razões, e também foi um período de transformação. Ela mudou muito, nesse final dos anos 70, início dos 80. Virou uma mulher feminista, marxista, ativista, coisas que ela não era, de forma alguma, antes.
E aí, quando ela encontrou ele, eu e o Júlio, meu irmão, a gente estava indo em direções diferentes, mas a gente queria ir em velocidade. E aí ela ficou muito bem com ele, eles se entenderam bem, um casal que gostava de fazer coisas juntos, viajar. Foi uma época muito massa, inclusive com viagens de família. Tivemos umas viagens épicas de Brasília para Pernambuco, para Praia dos Carneiros, quando lá não tinha nada ainda, era super desconhecido, da Mandaré. E aí a gente tinha um barquinho à vela, um laser.
E ele, pô, super parceiro, botou em cima do carro, dirigiu 3 mil quilômetros com aquele negócio em cima do carro. Pra gente poder curtir. Ficamos um mês velejando num mar, assim, né? Um paraíso. Então, a gente tem um convívio muito legal. Muito bom ter padrasto. E com esse irmão, como é que era? Porque é próximo, né? Muito próximo. Quer dizer, algum bebê aí saiu do colo rápido.
A história que eu tenho é que me amei tomou um susto quando engravidou pela segunda vez, muito em cima do primeiro, e aí ele veio e eu tive um período muito difícil. Eu odiei perder metade de tudo que eu tinha. E aí quando ele chegou eu tinha ataques, xiliques homéricos, assim, birras homéricas, e ficava batendo a cabeça na parede.
E aí a minha avó veio ajudar, e aí eu gritava tanto de noite que ela me pegava e saía comigo às duas, três da manhã, pelas quadras de Brasília. E aí uma vez minha mãe chegou, eu estava já um pouquinho mais maiorzinho, ele estava num bercinho, e eu estava tentando empurrar uma gamela cheia de banana em cima dele.
E aí a gente, quando começou a crescer, tinha muito conflito, a gente brigava muito, todo dia tinha tapa. Ele era muito forte, ele era mais forte do que eu durante a infância, apesar de eu ser mais velho. E a gente brigava muito. Depois que meu pai morreu, então, acho que ficou tudo muito... Teve um período bem disfuncional. E aí a gente brigava tanto que as famílias, assim, ninguém recebia os dois ao mesmo tempo.
Ah, que interessante. Minha avó no Rio de Janeiro, mãe do meu pai, falava, ó, eu recebo um ou outro. Mas os dois não dá. E era um problema, minha mãe trabalhava o dia inteiro, ainda fazia universidade nos intervalos, chegava em casa, teve um problema ali.
no final dos sete e os treze isso rolou. Aí, com treze anos, a gente começou simplesmente a andar em caminhos separados, ter amigos diferentes, outra galera, não tinha mais conflito, não se falava muito. E aí a coisa da cena violenta até foi pra... Brasil é... Brasil é.
Violento. E era violento nos anos 80. Ser um menino nos anos 80, assim, na Asa Norte, tinha ampla oportunidade de conflito físico. E isso meio ficou deslocado, assim, o que tinha dentro de casa meio que acabou. Eu tive essas experiências. Depois de um tempo eu resolvi que eu preferia ler livros do que brigar. E aí eu e o Julio, a gente se afastou muito até aos 18. Aos 18 ele fez uma sarabanda completa. James Dean, assim.
E aí deu aquela piração toda na família. Até escrevi um livro por causa dessa época, porque ele foi expulso de casa e a culpa era da maconha. Escrevi um livro, As Flores do Bem, que é um pedido de desculpas a ele. Porque eu fiquei nessa época do lado da minha mãe. Eu era o filho certinho. Eu era o bom menino.
E ele tava encarnando naquele momento contrário. A gente passou uns dois, três anos nessa oposição. Aí teve um conflito físico, assim, dentro de casa, na frente dela. Gente já adulto, bem ruim. E aí eu tava numa crise, assim, terminando a graduação. Não queria fazer o que eu fazia. Não tava satisfeito com a vida que eu tava levando. Cheio disso. Enfim, as coisas foram... Eu falei, eu vou pra Índia.
E aí falei pra minha mãe que eu ia pra Índia e juntei uma grana, ela não me financiou, mas não me impediu. Eu já era adulto, mas acho que se ela tivesse tentado me impedir, talvez tivesse conseguido. Porque ela tinha essa influência ou porque você tava muito dividido? Eu era muito colado com ela, a gente era muito próximo. A gente conversava tudo, era uma relação muito íntima, muito próxima. Quase tudo, né? Quase tudo. Não é tudo.
E aí eu fui, só que aí no meio do caminho eu mudei de ideia, porque eu senti o tranco, que eu saí de carona, viajando de carona, fui indo pela Argentina, cheguei ao Chile, e era para pegar uma carona num barco, num navio mercante, que um primo meu tinha conseguido uma possível carona. Ele me conseguiu uma carona de Paranaguá até Rosário, na Argentina, de lá eu fui.
E aí quando chegou lá no Chile, eu já tinha passado uns três meses, que eu tava na estrada, já tinha perdido uns 10 quilos, né? Menino privilegiado de classe média de Brasília, de repente, na estrada mesmo, e não tinha celular, não tinha nada, então era assim, totalmente fora dos enquadros todos que eu tinha. Aí várias coisas aconteceram, foi quando eu comecei a fumar maconha, conheci a maconha, foi quando eu decidi fazer neurociência, foi quando eu tive uma iluminação, assim, maturana e marihuana, uma mistura de...
de ideias e experiências que me colocaram no trilho que eu tenho sido meu trilho, nem vou falar profissional, é mais do que isso, é um jeito de estar no mundo, né? Então foi ali, nessa viagem. E nessa viagem, lá no Chile, quando eu tava passando por essas transformações, eu me dei conta de que a parada com meu irmão tava errada, de que ele tava sendo demonizado, de que estavam demonizando a planta, que não estavam olhando pra situação, né?
Tinha toda uma questão, assim, a morte do meu pai foi uma coisa muito traumática. Mais do que pra todo mundo, pra ele, que era o mais novo, foi quem presenciou.
E isso nunca foi adequadamente tratado. Seu pai morreu em que circunstâncias? Você quer comentar? Ele teve um aneurisma órtico. Ele morreu muito de repente. Mas, claro, teve toda uma... Antes, ele descobriu isso meses antes. O médico falou, você vai morrer em seis meses. Então, ele lutou de uma...
Coisas muito traumáticas para a família dos três ali que sobreviveram. E que eu acho que tem tudo a ver com essa confusão que rolou na família, nessa passagem da adolescência para a idade adulta. Aí lá do Chile eu escrevi para ele uma carta falando, cara, eu estou revendo as coisas e tal, vamos nos encontrar? Ele falou, tá bom. E era assim, eu fazia uma carta e falava para ele me responder. Eu escrevi essa carta, eu estava em Puerto Natales, bem pertinho lá de Punta Arenas, lá no Sulzão mesmo do Chile.
E aí eu falei, ó, tô indo pra Santiago. Aí ele me escreveu uma aposta restante em Santiago. Então eu fui lá no Correio de Santiago, tem uma carta pra mim, tinha. E o tio proposto a ele a gente se encontrar na Bolívia, lá onde o Tia Guevara foi assassinado. Eu era um militante de esquerda, eu era um militante do PT, muito disciplinado nessa época. Lia Lênin, Lia Trotsky.
E aí ele topou. E aí a gente foi nesse tipo de combinação. Uma carta, não sei o quê, nos vemos tal dia, mais ou menos. E aí eu fui encontrar ele em Santa Cruz de la Sierra, meio sem saber que dia ele chegaria. Então todo dia eu ia lá esperar o trem e ele chegou. E aí desde então a gente nunca mais virou, a gente sempre foi brother desde então, a gente ficou muito amigo desde então.
Mas que precisou estar tão longe dessa mãe para conseguir fazer esse encontro, no tempo e no espaço. Interessante como... Foi, a gente precisou sair daquele... Tinha uma configuração, fico coçando para usar a palavra, palavra que é tão polêmica e que tem tantas acepções diferentes, mas tinha uma constelação.
ali, né, simbólica, posicional, com as suas compensações, com os seus ganhos secundários, tinha várias coisas rolando ali. Realmente tinha muita ansiedade em relação ao meu irmão. Ela achava que ele ia ter também o que meu pai teve, então tinha todo mundo. E também um tendo que ser exatamente oposto do outro, né, pra garantir a própria identidade, então se um era muito certinho, o outro era mais rock and roll. Tem esse jogo entre os irmãos que é importante, né, de marcar diferença pra se reconhecer, né.
E acho que também teve uma coisa que produziu diferença na hora que papai morreu, que era, de 5 para 4 anos, tem muita diferença cognitiva. Aos 54, 53, não. Mas dos 5 para os 4, tem.
Então, na hora que o papai morreu, eu virei um adultinho. E o Júlio foi o contrário. Fica muito tempo assim, sem entender o que tinha acontecido. É, porque o encontro com a morte é exatamente uma realização que começa nessa fase. E lá com 7 anos a criança começa a sonhar que os pais podem morrer, começa a ficar com medo, mas é porque ela está começando a realizar a possibilidade de perder as pessoas que são a segurança dela.
No mundo, no universo, quer dizer, a criança está garantida por esses adultos, né? E aí você perde essa garantia, o que sobra? Sobra nada, né? Você se depara com o desamparo muito precocemente. Realmente, são fases diferentes, né? É. E isso que são assuntos até hoje, gente, né? São coisas que têm repercussão até hoje, até porque eu tive, depois de um pouco, meses depois da morte do papai, eu tive muitos sintomas.
pesadelos, tive sintomas positivos, pesadelos muito repetitivos que motivaram a minha mãe a me levar pra uma psicoterapia que deu muito bom. Deu muito bom. Doutor Maurício, eu não lembro sobre o nome dele, mas eu lembro muito bem dele. E através de jogos, ele me, basicamente, me ensinou a fazer sonho ilustre. E sair dos pesadelos.
E ele, cara, isso me abandonou. Nunca mais tive pesadelo repetido. Nunca mais. Muito eficaz. Eu imagino que deve ter durado no máximo seis meses. Então, incrível. O Júlio não teve isso. Ele embotou. Foi uma coisa de sintoma negativo. E acho que isso ficou, então, não tratado até que quando ele deu 17, ele...
ele passou uns dois anos assim nossa, muito rebelde muito rebelde mesmo, depois ele foi se acalmando e tal, e toda a minha questão com canábis e com psicodélicos quem me iniciou foi ele foi ele que me abriu essas portas aí inclusive pra me tratar porque quando ele me apresentou o cogumelo quando a primeira vez que eu experimentei o psicodélico eu tava no final da graduação super deprimido a única vez que eu me senti que acho que eu preencheria critérios de depressão clínica mhm
e ele foi lá e me resgatou, entendeu? Então é um irmãozão, assim. Porque é interessante, né, o saldo dessa infância, quando você começa a contar, assim, meio pacotão, né, muita intensidade, umas relações muito amorosas, mas quando você vai abrindo, bom, tem todas as, né, dramas familiares e algumas tragédias também, né, alguns acontecimentos que não são necessariamente...
A gente está esperando que um pai morra tão cedo, né? Mas ficou a lembrança desses natais, né, Siddhartha? Dessa intensidade... Os natais eram muito importantes para a minha mãe. Porque eles eram muito importantes na infância dela. E tinha a ver com uma coisa que rolou na minha família. Que é a seguinte, a minha avó, ela vivia doente. A mãe da sua mãe.
A mãe da minha mãe. Ela era uma pianista maravilhosa, ela era uma compositora, ela era uma maestrina, dava aula no conservatório, uma pessoa incrível. E meus primos, que me perdoem se não gostar, que eu vou dizer, mas assim, meu avô foi pirando ela. Ele foi medicando ela. E ela foi perdendo a possibilidade de fazer tudo aquilo que ela fazia. Ele era psiquiatra?
Não, ele era paciente. Ele era um paciente extremamente munido de remédios. Ele era da geração dos barbitúricos. Sim. E aí os dois viviam sorumbáticos. Eu lembro disso bem. Os dois muito dopados o tempo todo. Uma vida muito reclusa, por silêncio, aquela coisa vetusta.
e só música clássica e muito conservador. Minas Gerais bem conservadora. Tinha um lado interessante espiritualista porque pessoal da teosofia tinha coisas boas também, meu avô muito inteligente, muito culto. Mas muito autoritário, patriarca, assim da moda antiga, barra pesada que na minha avaliação despeito de muitas coisas boas detonou os filhos.
E a relação com a companheira, enfim. Minha avó era uma pessoa apagada. Era uma pessoa brilhante, poderosa e mais apagada. E aí, quando chegava na noite de Natal, ela levantava da cama e tocava. Tocava.
E depois ela entrevava de novo. Então eu acho que a minha mãe tinha muita saudade dessa situação. Tinha um dia no ano em que tinha uma magia ali que colocava aquela família pra rodar. Sim, sim. De um outro jeito. E eu peguei muito disso, mas mais como um afeto dela, né? Pra mim era o encontro dos primos. Minhas tias maravilhosas. Encontro com... Nem todos os meus tios frequentavam, mas as tias sim.
A gente tinha primos de muitas idades diferentes. Eu tava ali entre os... No pelotão dos mais novos. O mais velho entre os mais novos. Então, é... Era muito divertido. E na adolescência a gente tinha muitos encontros. A gente foi muitas vezes pro sul de Minas. Minha tia já tinha uma fazenda lá. E a gente ia pra lá. E ficava semanas. Todo mundo junto. Isso tudo foi se acabando, né? Na minha experiência, entre os 15 e os 40, mudou tudo. Mas não é uma coisa de uma mudança repentina. Então é uma coisa que...
As famílias acabam também, as famílias têm começo e meio fim, a gente acha que é uma eternidade, a gente vai se modificando, mas é muito bonita essa imagem dessa mulher, essas mulheres que a gente conhece vários casos, que vão ficando oprimidas pela relação marital, pela conjugalidade.
e que os filhos conseguem ver alguma coisa da mulher sair numa cena, em algum momento, e fica aquela coisa tão separada, uma vida oprimida com a mulher, aquele lampejo. E às vezes você pode capturar esse lampejo para você, e às vezes você pode negá-lo, porque depois você conta que a tua mãe segue buscando essa faísca.
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Essa mãe que se renova com a viúvez, que história é essa? Como é que ela faz essa virada? A mamãe, ela era uma caçula, muito inteligente, muito ótimo estudante, melhor aluna da turma, primeiro lugar no vestibular de matemática, muito CDF, teus ofício, vegetariana, fazer yoga, bem ingênua.
E aí ela conheceu meu pai, que era um cara bem mais carioca, gostava de samba, de cultura popular, outro tipo de pessoa, que adorava política, que queria saber das fofocas da política, e ela totalmente esotérica. E ela se atraiu por ele, se apaixonaram, aquilo, né, viemos eu e Júlio. Mas quando ele morre, ela ficou assim, ela rompeu com tudo que ela era. Ela falou, pô, nada disso mais serve, entendeu?
Então ela sai da matemática, vai parar na biologia, depois sai da biologia e vai parar na antropologia. E aí isso é o que ela conclui, ciências sociais e antropologia. Mas ao mesmo tempo ela tinha um emprego público, ela era funcionária primeiro do Supremo Tribunal Federal, era taquígrafa, depois ela foi para a Câmara, passou toda a vida dela do STF para a Câmara Federal e foi subindo na carreira e foi passando da classe média baixa para a classe média, da classe média para a classe média alta.
Esse período da viu-vês é da classe média, baixa, para a classe média. Então você viveu essa transição de classe também, né? Porque vocês já eram nascidos nesse momento. Sim. Totalmente. Nos anos 70 a gente era classe média baixa, nos anos 80 a classe média, nos anos 90 a classe média alta. Junto com o salário do funcionalismo e o meu padraço também, funcionário público em Brasília. Então, nos anos 90 a família teve uma...
uma ascensão social. E aí nessa época ele já estava num outro esquema, que era diferente do esquema da minha mãe solteira, dizer viúva, mas assim, não sei estar namorando ninguém especificamente. Foi um período em que ela estava realmente, entendeu? Assim, conhecendo coisas novas, de fato.
se envolvendo em movimento feminista passando a ter um pensamento crítico passando a se importar com política, participar da vida política nos envolver nisso me lembro da minha mãe levando a gente para eventos feministas em que o comando de caça aos comunistas ia lá e arranhava o carro de todas as mulheres e só tinha as mulheres e seus filhos
Às vezes elas levavam a gente para panfletar, ir para o Beirute, o barzinho de Brasília famoso, para panfletar as coisas do movimento feminista, porque sabiam que a gente não ia ser preso. Enfim, tinha toda uma questão do final dos 70, início dos 80, que eu acho que se minha mãe não tivesse passado por aquilo ali, talvez ela nem visse.
Ela estava fazendo yoga e meditando, ela estava em um outro... É porque tem algo de passar de um pai machão, patriarca, para um marido, tem quase uma... nessa geração tem essa passo bastão, né? Então, agora você cuida da minha filha e segue, então tem esse homem que provê, que cuida, mesmo que a mulher trabalhe, de algum jeito tem um imaginário. Estou dizendo por minha conta também, no meu primeiro casamento, já era uma mulher super...
Mas em algum lugar na minha cabeça eu achava que o marido garantia algo. Alguém garantia algo se alguém era o marido. E de repente esse marido morre, né? Que se mostra mais frágil que todo mundo, né? Interessante isso. É. Quando ele morreu ela não sabia fazer nada. Ela não administrava dinheiro. Ela estava nesse lugar. Das mulheres, digamos, pré-anos 60. Ela ainda estava nos anos 70. Mas ela ainda estava nesse lugar de uma pessoa que estava cumprindo aquela função feminina. De repente ela tinha que fazer tudo.
E ela fez e deu conta muito bem. Mas há um custo muito alto, foi muito difícil pra ela. Um pouco a Eunice Paiva, né? Assim, sem a parte trágica, política, mas com essa coisa. Dois filhos e agora. Você tem que passar de uma geração pra outra, né? Isso. De uma mentalidade pra outra.
E isso eu acho que foi uma coisa que também castrou ela, porque se ela não tivesse dois filhos pequenos pra cuidar sozinha, ela podia correr mais riscos, profissionalmente e tal, e ela ficou meio que, ela não gostava daquele trabalho dela, mas ela fazia muito bem e ela ficou ali, e ela queria fazer outras coisas, na época que ela quase foi pra Moçambique, fazer um trabalho social lá, a gente imagina, essa vida é completamente diferente.
Muito interessante. Mas ela ficava sempre assim, pô, eu tenho dois filhos, tô viúva, vou ficar nesse emprego aqui, tenho um bom salário. E o salário foi melhorando, e o tempo foi passando, ela foi subindo na carreira, e aí ela ficou os últimos dez anos assistindo aquilo horrível, né, desenvolvendo lesão de esforço repetitivo, enfim, coisas da taquigrafia, coisas que agora a revolução da IA nem vai existir mais. E aí...
Quando ela se aposentou, ela se aposentou ainda jovem, porque tinha começado muito cedo, ela teve um negócio, foi uma época que ela fez um movimento muito lindo de ver, que ela foi resgatar a relação dela com a música. Ela sempre cantou muito bem, cantava em casa, e ela tinha muita música em casa na infância por causa da minha avó, mas depois a minha avó, a neurose foi comendo ela, ela foi parando, minha mãe perdeu o contato, e aí ela, depois de se aposentar, foi estudar canto, foi estudar piano, e ela chegou a ter que ela foi εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ εκ
Ela se mudou pra França, ficou quatro anos na França estudando canto e fazendo psicanálise. Uau! Lacaniana, inclusive. Porque tava a época do dólar paridade um pra um. Primeiro o Fernando Henrique. Então ela conseguiu, ela e o Edson conseguiram ficar lá esse tempo. E aí foi massa, assim, porque ela pôde... Imagina, né? Ela chegou a fazer recitais. Depois voltou pro Brasil fazendo recitais. Tava super bem. E foi bem legal esse período. Durou vários anos. E aí depois ela teve um tumor.
que nem era maligno, mas rolou um pânico na família, a gente saiu correndo para arrancar o tumor na tireoide, e aí a voz dela não ficou legal depois disso. Isso é uma coisa muito... Me arrependo de eu ter participado do corre-corre que nós tivemos. Eu fui uma voz importante, cientista da família. O que você acha? Eu falei, vamos correr com isso.
Mas se tivesse feito uma biópsia, sendo benigno, talvez não precisasse tirar. Ou fizesse com mais... Enfim, o fato é que... Sim, decidiram todos por isso. Sim. Importante essa mãe, né? Mamãe é. Importante essa mulher. Como é que é pra você essa... Mãe que criou dois meninos, né? O que ela fala dessa... Ah, mamãe é por... Da masculinidade, do seu lugar.
Acho que ela tentou fazer um ótimo trabalho de desconstrução do patriarcado na gente. Acho que ela fez ótimos esforços. Acho que ela teve resultados mais ou menos. E eu acho que tem uma questão... É engraçado você falar sobre isso, porque eu pensei nisso hoje, me veio esse pensamento.
que se o atravessamento de classe sabotou a questão de gênero. Porque tinha uma pessoa em casa, uma mulher negra trabalhando. E aí nem eu nem meu irmão, nós éramos de fato adultos autônomos aos 18 anos. E vou falar que até hoje eu estou fazendo um esforço para ser de fato plenamente 100%. É difícil. Não sou de uma geração que foi criada para isso.
Acho que ela fez o que ela pôde, mas ela não estava em casa. Sim, sim, sim.
E ela tinha que delegar. E a gente não ajudava, não. A gente não conseguia brigar, não sei o que, era uma treta. Então, eu acho que foi muito difícil pra todo mundo. Hoje eu percebo, pra mim é muito evidente, se não tivesse essa pessoa em casa, sempre cuidando de tudo, fazendo tudo, tanto eu quanto meu irmão seríamos pessoas mais preparadas pro convívio. Acho que isso é uma grande questão pras pessoas da minha geração, pros homens da minha geração.
Olha, eu acho que isso salva um casamento. Vou te dizer que o meu marido não teve essa benesse, né? Que não é tão benesse assim. E ele sabe fazer tudo em casa. Isso faz tanta diferença na relação com a gente. Faz muita diferença ter um homem que se põe a cuidar da casa igualmente mesmo, assim. Ele é um homem de 65 anos que...
Faz tudo, né? Ele até brinca, faz mais do que eu. Mas faz diferença na relação, porque eu me sinto respeitada, eu não me sinto perterida, eu me sinto... Para a mulher hoje, tem coisas domésticas que a gente pode fazer que se tiver que fazer, sente aviltada. Por exemplo, claro que eu posso fazer uma mala para ele um dia, numa pressa, mas me ofende um pouco fazer uma mala para ele.
Mas ele faria uma mala pra mim, passaria minha roupa, cozinha pra mim direto, sem o menor, porque ele tá numa posição diferente. Então, quando ele faz pra mim, ele é um homem que mostra que é um homem evoluído, bacana, né? Eu, quando faço, me sinto explorada. É louco isso, né? Mas é porque é uma reação a uma desigualdade, né? Isso é uma coisa que traz muita leveza no meu casamento, porque eu acho que eu vou ficar, assim, muito ressentida com...
Com a diferença de tratamento, né? Eu só fui entender o tanto que isso detona uma relação no terceiro casamento. Ah, então. Nos primeiros dois casamentos, eu com certeza pisei na bola. Vamos passar para o segundo a pergunta. Nessa questão aí... Até agora só teve uma pergunta, Cidata. Qual é a sua referência de família? Agora a gente quer saber isso daí. A sua referência de família hoje. O que você fez com essas histórias?
Ah, são principalmente minha companheira com quem eu vivo no meu cotidiano, Luísa, que tá grávida, cinco meses. Parabéns. Obrigado. E meus filhos, né? Os dois que já estão aqui do lado de fora, Ernesto e Sérgio, que são da minha ex-companheira, da Natália e meus. E quem tá vindo aí, que ainda não tem nome, nem sabemos do sexo.
Mas você estava contando que é o terceiro casamento agora? Você teve um antes da Natália? Eu tive três. Eu tive um relacionamento longo com a Janaína. Depois eu tive um relacionamento longo com dois filhos com a Natália. E agora eu tenho um relacionamento que já está se tornando longo também com a Luísa. Você estava se colocando na reta. E fala, como é que é essa coisa de ser homem despreparado para o casamento?
Ah, eu acho que eu fiquei muito... Porque assim, eu morei sozinho vários anos. Então eu sei fazer tudo o que eu preciso pra viver. Óbvio, né? Mas fazia de um jeito que não dá vontade de viver naquela casa.
A casa não estava legal, de verdade. Estava só... Por quê? Porque eu jogava toda a minha libido no trabalho e nas experiências da vida. Não estava... Isso não era uma questão para mim. Aí quando eu comecei a viver primeiro com a Janaína, foi os sete anos que a gente viveu junto nos Estados Unidos.
A gente teve uma parceria e foi legal, mas eu acho que ao longo do... Não no início, mas ao longo do tempo, eu acho que foi havendo um desequilíbrio. E esse desequilíbrio estava atravessado pelas assimetrias das relações, que são de várias ordens. Então acho que fui ficando sempre nessa... Ao longo do tempo, eu fui caindo numa situação assim, ah, o meu trabalho é mais importante do que tudo.
e isso vai destruindo, acho que destrói o amor, destrói a sensação do respeito mútuo e aí no segundo relacionamento eu acho que eu caí na mesma esparrela, comecei tentando me conscientizar disso e a coisa foi indo, existe um atrator muito forte, e de fato me envolvia super pouco, acho que foi, pisei na bola mesmo, assim, porque tava também, sabe, totalmente projetado pra fora porque que eu vou fazer realização e isso e aquilo e pá, e tal então
E o artigo, e outro artigo, e outro artigo, e o livro, e o artigo, e a palestra, e não sei o que, e viaja. E muito aluno, e muita coisa, e instituto. Então, esse mundo de fora muito demandante, e eu também com muita dificuldade de moderar isso tudo, e acho que isso parte da razão pela qual, em algum momento, o seu relacionamento acabou. Ou melhor, se transformou. Porque acabar não acaba, é mãe dos meus filhos. Somos parceiros nisso para sempre.
Com a Luísa é tudo muito diferente. Primeiro porque ela é uma mulher que não perde nenhuma oportunidade de botar o dedo na ferida do patriarcado em nenhuma circunstância com pessoas conhecidas ou não. Então é tipo assim, é pedagógico, né? E aí não é comum você encontrar esse tipo de pessoa.
A gente também começou a relação na pandemia, então foi um período que a gente acabou convivendo. Eu não estava mais com aquelas demandas todas, estava com outras, principalmente online, mas de fato foi um grande freio de arrumação naquela dinâmica e foi uma hora em que eu me dei conta que estava errado. Que não é jeito de viver assim, que não é jeito de se relacionar assim. E aí fui me transformando, estou me transformando.
A gente vai até o final com essas transformações, porque vai demorar para a gente sair desse registro, né? Homens e mulheres do registro do patriarcado, mas o que que você acha que deu esse clique? Acho que o encontro com a Luísa foi muito forte. A fala dela? Está apaixonado por uma mulher que te fala coisas? É isso. E o jeito de viver. O jeito de viver.
é viver de um jeito bem alinhado com certos princípios e levar isso muito a sério. Então, levar muito a sério que a gente tá fazendo a comida que a gente vai comer. Desde o momento que você escolheu a comida, até o momento que você cortou a comida, até o momento que você refogou a comida, que você escolheu os temperos.
levar isso a sério até o final do começo ao fim, e não comer correndo olhando nada, não, numa tela, então essa coisa de ritualizar o cotidiano, assim, de dar muita presença pra essas coisas, eu passei muito tempo que eu tava só correndo e olhando pro futuro, e pro passado, e projetado, e pra lá, e eu não tava, eu comia qualquer coisa.
Mas é muito lindo isso, porque você está falando o seguinte, estou entendendo, você está dizendo que o cuidado é muito relegado a um segundo plano, o que se come, o que se dorme, o que se... Fica ali porque o que importa é a realização no mundo público, remunerada, reconhecida. O mundo da casinha, do cozinhar, do estar junto...
Resgatar a importância do cuidado, eu considero toda essa parte de cozinhar, de cuidar da casa. Nossa, entendo perfeitamente os lindos que você está dizendo. Porque isso é grande questão da gente sair do registro patriarcado e pensar que todo cuidado invisível, toda manutenção da vida tem tanto valor quanto...
Esse outro lado do trabalho público, que é assimilado aos homens, né? Que legal esse data. Exatamente, exatamente. Por exemplo, antes eu cozinhava, eu gostava de... Eu falava, eu gosto muito de cozinhar, mas eu cozinhava super pouco. E sempre nessa situação da festa que você faz, que chama os amigos, uma cozinha performática. E hoje não, hoje não, na verdade, qual que é o jogo hoje? O jogo hoje é acordar bem cedo e fazer o café da manhã pra ela acordar e ter um café bacana.
isso aí, nossa se isso funciona bem, tá tudo nos trilhos e a gente teve ela, digamos, é uma piada mas é real, ela dizendo assim pô, o que dá tesão é você lavar louça é, mas é, tem estudos que mostram que homens que tem uma que tem uma presença bacana dentro de casa afetam a libida das mulheres eu entendo isso perfeitamente
Essa ficha tá caindo pra mim há alguns anos, não fui treinado pra fazer isso. Então eu tô me treinando, né? E ela mais ainda. E aí descobri o prazer disso, né? E aí isso tem tudo a ver com a questão do cuidado parental.
também essas transformações me deram a oportunidade de mudar muito a minha relação com meus filhos pra melhor. De ter muita presença com eles. E como eu me separei, eles moram no Rio, né, tô com eles muito menos do que eu gostaria. Você tá em Natal, né, normalmente? Tô em Natal e eles vêm, eu vou, eu fui muito. Agora eles tão vindo mais, porque já tem idade pra viajar sozinho, o Sérgio.
e moramos um ano no Rio para poder ficar perto deles, mas antes da pandemia, e quando eu estava, antes, digamos, dessa autocrítica, desse desejo de transformação, era aquela coisa de uma relação de fim de semana, de feriado, de coisa boa, de fazer programa, muito festiva, divertida, mas, assim, aquela coisa do...
Escova a dente, foi pra dormir, fez a lição. Escova a dente, passou o fio dental, tá com muita cárie, não pode... O que a escola mandou? Ele volta, mas é isso mesmo, faltou. Não, tem que ser o outro. Esses detalhes, assim, eu não tinha o menor envolvimento com isso. Esse perrengue, eu não chamaria de detalhe, não. O perrengue mesmo do dia a dia. Detalhe é farrinha, né?
Sim, sim, sim. É, mas assim, que eu digo que é no detalhe do detalhe. A professora falou que aquele canetinha não serve, tem que ser outra. Exatamente. Então não dá pra você fazer isso no atacado, é no varejo. É, tá certo. E aí eu achava isso, né, imagina, antes eu me sentia assim, drenado, essas coisas viravam mega problemas, eu não dava conta de fazer, eu dava conta de fazer um monte de coisa, mas isso eu não dava conta de fazer.
E aí eu comecei a perceber a neurose disso, como que isso é patriarcal, como que se eu amo eles de verdade, então, na verdade, tudo isso me interessa. E aí isso foi se transformando, então, hoje é bem assim, o tempo que eu tô com eles é presença total, entrega minha total, pegando no pé deles, lutando contra as telas, aquela coisa assim.
Muito louca. E eles acusaram isso de algum jeito? Eles reconheceram, demonstraram uma diferença? Eles mudam muito também. Às vezes é difícil saber qual é a variável que está em jogo aí. Perceberam esse pai diferentão que mudou? O menor não percebeu porque ele tinha dois quando rolou a separação. Então o pai que ele conhece é esse.
É um pai que presta muita atenção nele. O Ernesto, que sempre foi minha paixão, então a gente sempre teve uma relação muito íntima e tal, mas ele disse pra ele, ele falou, pai, era ótimo quando eu era criança, a gente se divertia muito, mas você faz um monte de coisa com o Sérgio que você nunca fazia comigo.
Porque eu tava sempre trabalhando. Então eu tava com ele, mas não tava com ele, de fato, totalmente. Eles têm uma diferença grande de idade? Tem sete anos. Ah, sim, sim. Entendi. Ele pegou o antes e o depois. E como é criar dois meninos? Com todas essas contradições e questões.
Adoro, eu adoro, a gente se diverte muito, eu gosto de coisas que eles gostam e vice-versa, a gente faz música junto. O Sérgio é meio rebelde para isso, nem sempre, porque ele fica um pouco inseguro. O Ernesto adora. Cerdou essa coisa da música, da família, da sua avó materna, da sua mãe?
Mais ou menos, eu estudei música na infância, estudei piano, estudei violão, depois larguei tudo e voltei pelo lado da capoeira. Então eu toco berimbau, toco atabaque, pandeiro, a gogô, a gente faz música em casa juntos com esses instrumentos. A Luísa também é capoeirista, o Ernesto é capoeira também, o Sérgio fica um pouco assim porque ele vê todo mundo, né? Aí ele fica meio... Mas ele, de vez em quando, canta, toca, se joga, dança. Ele é bem teatral.
A gente joga muito, eu gosto muito de jogos. A gente joga uma versão Kids, do Dungeons & Dragons, que é tudo imaginação, tudo na cabeça, sem jogar dados, joga uns dados imaginários. É meio RPG, não é? É RPG, eu venho daí, a minha infância veio daí, eu sou uma pessoa do RPG.
E eu faço isso muito com eles. E é muito divertido. A gente se diverte muito juntos. Muito difícil também, né? Porque, pô, essas coisas todas que eu tava falando, né, da questão dos meninos de classe média e o jeito como o patriarcado vai se reproduzindo de geração em geração, são coisas que a gente enfrenta com eles. Então, são meninos que você tem que ficar em cima pra ele poder participar minimamente da vida comunitária. É difícil.
Porque é o dilema das mães, né? Elas saem para trabalhar, elas precisam de alguém que cuide dessas crianças. E essa pessoa que cuida das crianças acaba fazendo coisas demais. Coisas que as crianças deveriam aprender a fazer, porque são funcionárias e que então vão fazer o que não deveriam fazer, né? Coisas que a criança deveria...
Mas você precisa de alguém lá para olhar teu filho. Então, são mulheres que muitas vezes são mães solas, ou mães sozinhas, ou mães abandonadas, ou mães separadas, enfim. Tem várias mulheres aí que são chefes de família, acima de tudo. Mas cria esse dilema, porque a gente tem essas funcionárias que estão acostumadas a servir mais do que deveriam, de fato. E essas patroas que exigem isso também. Acho que você está tocando no ponto central aqui. Se a tarefa dela é uma tarefa fechada,
Isso não vai acontecer, mas a tarefa dela é aberta, ela tá lá pra fazer qualquer coisa, ele passa a estar no lugar da mãe como patrãozinho. Aí é um problema. Não tô falando de uma pessoa específica, em geral, acho que é uma relação que se estabelece, né, e acho que isso gera homens de mão quebrada, homens que não tem iniciativa em casa, homens que não sabem fazer as coisas e que ficam usando o não saber pra não fazer. Eu vejo que tem uma galera jovem que já tá com outra pegada, acho que também é um problema de classe social, acho que a galera mais pobre, todo mundo tem que trabalhar e se virar.
Então tem um recorte de classe. E acho que para os homens de classe média tem que fazer um trabalho ativo, quando ele não teve essa educação, para se transformar. Porque senão a pessoa vira burro velho e não tem autonomias simples que qualquer mulher tem. E também vai criando uma identidade no qual o homem acha que isso é trabalho de mulher e que é criptonita. Se eu pegar isso daí, minha masculinidade não funciona. Tem uma galera mais velha que ainda está nela.
e acho que os mais jovens talvez menos tem outras repercussões, né Vera? por exemplo, marcação de exame médico eu tô falando disso porque isso aqui é um problema aqui em casa, hoje eu marquei um exame médico e eu me dei parabéns, falei, meu Deus não, e tem homens se data que eles vão só até o ponto eu marquei, mas eu não lembrei de marcar então ela me lembrou, eu fui lá e marquei tem muito homem que fala, mas eu fiz, escuta, mas você fez mas você não planejou então
Não era uma responsabilidade sua, você não tomou isso pra si. Você levou o filho pra tomar vacina, mas você não tá ligado que tem um calendário de vacina. A carga mental, né? É a carga mental disso. Então é muito complicado sair desse lugar. Acho que a parceria que funciona mais legal, eu vejo isso no meu casamento, a gente tá mais harmônico quando a gente tá jogando frescobol e um tá ajudando o outro e a gente tá na parceria.
Se você deixar cair, eu pego, mas você tenta segurar. Acho que essa é a questão.
E tem as, eu também acho que tem as preferências, por exemplo, tem umas coisas que o Júlio faz melhor do que eu, meu marido, e tem coisas que eu faço melhor, são bem poucas. E aí a gente divide, assim, tem coisas que eu não vou fazer, entendeu? Manual eu não vou ler de jeito nenhum, não vai ter jeito daquele entrar na minha cabeça. Ele senta, ele lê, blá blá blá. A gente tem umas divisões, cozinhar ele não deixa entrar na cozinha, porque ele acha que eu sou um horror na cozinha.
E ele tem, e é verdade, entendeu? É verdade. Então, assim, a gente vai dividindo também, não quer dizer que todo mundo tem que fazer tudo, tem coisas que eu não sei fazer, né?
Mas tem que se sentir parelho, a gente tem que sentir que está justo, que ninguém está se encostando. Eu demorei um tempão para entender que para ter uma harmonia em casa, a gente não pode ter nenhuma compensação. Não é porque eu trabalhei muito que eu vou deixar de trabalhar em casa. Isso é difícil de entender, mas eu entendi. Demorei anos. E eu tive muito conflito com a Luísa por causa disso.
Essa é uma formulação excelente. Gostei do jeito que você colocou a coisa. A expectativa de uma compensação. Agora você vai pagar com o teu serviço doméstico, alguma coisa que eu tô pagando de outro jeito, né? É, o meu trabalho é o meu trabalho, mas assim, ele termina na hora que eu chego em casa e a casa tem que ter comida, a casa tem que estar limpa, a casa tem que estar... Isso é uma responsabilidade do casal. Eu fico feliz de ter a chance de me transformar, porque eu não gostaria de estar sendo o que eu era, sei lá, sete, oito anos atrás.
nessas questões aí não. É, porque os homens acham que vão perder uma coisa, mas eles não entendem o que eles vão ganhar, né? Na relação com os filhos, na relação com a companheira, né? O consultório tá cheio de gente que tá casado, tem 35 anos, quer dizer, super jovem e já tá tudo deteriorado. Viraram dois gestores de uma casa, mas não tem sexo, não tem carinho, não tem admiração, porque tão batendo cabeça com essas compensações, tão batendo cabeça com essa...
E não entendem qual segredo do casamento. Não tem segredo nenhum, cara. É tentar ter uma relação equânime, respeitosa. E as outras coisas vêm junto. E agora vem beber. Uma nova chance de se haver com esses começos que não são fáceis. É isso aí.
Mas escuta, mas tem uma coisa masculina também, que é também da ambição no trabalho. Eu sou muito ambiciosa no trabalho, você também, mas essa medida de como o trabalho... É difícil para um homem abrir mão nesse ritmo de trabalho, de super realizações, de se dedicar totalmente, falar, não, eu quero buscar meu filho na escola, não, eu quero almoçar com ele tais e tais dias, eu quero... Você mudou, eu estou perguntando se você mudou a relação com o seu trabalho.
nesse sentido. Mudei, mudei, porque foram duas coisas simultâneas, a pandemia e o divórcio, porque na pandemia, muito do que estava me demandando assim, eu viajava muito, muito, muito, sem parar não sei como eu aguentei não sei, minha ex-componheira reclamava cheia de razão, e eu viajava eu não conseguia parar eu dizia não para muitos convites, mesmo assim, não parava
E aí quando veio a pandemia deu aquele tum. E eu percebi todas as vantagens disso. Falei, nossa, como é bom parar. Como é bom. E ao mesmo tempo meus filhos foram pro Rio. E eu queria eles comigo aqui. Isso não foi possível até hoje.
ainda não foi, mas será, em breve, espero. Não foi possível porque, enfim, não tive um acordo com a mãe, ela quer ir com ela. Mas eu passei a ser esse cara que antes estava muito demandado com pouco tempo para os filhos, de repente eu tinha que lutar para ter tempo com os filhos. Então eu tive que inverter completamente a minha relação. Passou a ser minha prioridade principal estar com eles. E quando estava com eles, estar de fato. E também quando estava com eles, não estava mais com a mãe por perto.
Então era tudo comigo mesmo. Claro que a Luísa me ajudou bastante, me ajuda bastante, mas o pai sou eu. Então, pra mim foi muito pedagógico, porque eu tive que lutar por aquela paternidade.
que realmente lutar por ela, e no começo foi muito difícil, no contexto da pandemia e também do início do pós-divórcio, que é muito difícil Mas só tem, né, Cidarta tem muito homem que se divorcia dos filhos quando se divorcia da mulher, simplesmente vai comprar um cigarrinho e não volta mais, cara você desejou, né revelou seu desejo O caso foi o contrário, foi tipo assim, caramba, se eu não me mexer eu não vou conseguir vê-los e foi muito bom, foi muito bom, foi doloroso gostaria de ter muito mais B B B
deles comigo. Todo ano eu falo para as minhas companheiras, mande eles no ano que vem, o convite meu e da Luísa para eles. E espero que no ano que vem venham mesmo conviver com a irmãzinha ou com o irmãozinho que está chegando. Mas ter que lutar por eles foi uma oportunidade de transformação também.
E você continua tendo uma carreira incrível, né? Quer dizer, na verdade, não é que você abdicou da tua carreira, você continua sendo um cara super celebrado, com um trabalho super importante. É, eu acho que quando a gente é muito jovem, a gente tem a sensação de que o nosso trabalho vai ter tudo a ver com quantas horas a gente fizer aquilo. Mas à medida que a gente envelhece, você não precisa de muitas horas para fazer o que você precisa fazer.
a gente está desesperado na adolescência, na juventude por reconhecimento, por chegar em alguns lugares e depois isso cai de algum jeito preciso viver minha vida enquanto há vida, vamos viver a vida e o que tem de mais vital do que filho? é muito vital é
Depois eles vão sair também de perto da gente em algum momento. E vão estabelecer uma outra relação. Eu estou com as minhas mais velhas agora. Elas estão com 29, 26. E é muito sensacional quando a gente se encontra. Eu não tenho que cuidar delas. Muito frequentemente elas cuidam de mim. Quando eu vou ver, elas estão fazendo coisas por mim. É adorável. E é muito legal ver o resultado dos adultos. É muito emocionante. Está sendo muito...
Muito lindo, mas não é mais da ordem do cuidado do dia a dia, né? Já é uma outra... Exato, exato. Outro tipo de cuidado mútuo, assim, muito mais horizontal, de uma certa forma. Exato. Você continua sendo uma referência, o que você fala ainda tem um peso, que não é o peso de uma amiga, né? Para o bem e para o mal, mas você já consegue estabelecer, ver a pessoa que se formou ali, né? Com a sua...
E aí o tempo fica muito precioso. Meu tempo é muito precioso. Você tem essa... Eu tenho. Nosso tempo é muito precioso. Eu tenho. Meus amigos, vamos almoçar? Vamos almoçar. Eu paro tudo que eu vou almoçar comigo. É importante ter esses tempos de... O trabalho, essa coisa de ter o trabalho em primeiro lugar...
Se você tem condição de viver a vida sem ser assim, porque tem gente que não tem jeito. Se você tem que acordar assim quando vai pra trabalhar, então é isso que você vai ter que fazer. E tem um monte de gente que, inclusive, nem tem esse emprego. Mas pra quem tem o privilégio de poder dosar, eu acho que essa coisa que você falou, essa urgência, ela, de fato, a partir de um certo momento na vida, ela não faz sentido, porque a vida vai acabar, né? Tá correndo pra onde? Você tá indo que... Que pressa pra chegar aonde?
É, puro suco de capitalismo, né? Que também tem toda a relação com o patriarcado. Quando você desmonta uma coisa, esse bonequinho tende a ir dissolvendo, né? Ai, que bom conversar com você, que bom conversar com o homem que tá nesse processo, né? Que a gente tá curtindo muito ouvir os homens e ouvir cada um no seu momento. Algumas pessoas um pouco mais atrás, algumas pessoas lá na frente, mas...
vocês tem que correr pra poder até viver uma vida melhor, né? Pra não ficar tão ameaçado pelas mulheres, tão oprimido, né? Criar meninos também mais legais e meninas também menos oprimidas. É muito bom te ouvir, Cidata. Que legal. Que história de família. Boa conversa. Tenho certeza que vai afetar as pessoas que ouvem porque é uma história de família muito...
Cheio de nuances, né? De muitas superações. E essas mães que são sensacionais, né? Tua mãe vai pro rol das minhas mães. Sensacionais. Minha madrinha, Luciana. Barros, Jacu, maravilhosa. Meu padrinho que acabou de fazer a passagem. Mário Teodoro. É uma família muito linda. Tem pessoas muito amadas. Teve muita tragédia, mas eu acho que isso não dá pra gente controlar, né? Agora, quando a gente consegue ter a sensação de que foi amado e amou.
Sim. E que é amado e que ama e tá tudo bem, apesar de tudo. Você é um querido total. Você também. Querido, muito obrigada, muito obrigada. E agora eu vou inverter, não sei se você sabe, mas agora você me faz uma pergunta. Eles inventaram essa história de que vocês me fazem uma pergunta no final, mas é pura sacanagem da produção aqui. Se você pudesse falar com a sétima geração depois de você, sobre esse momento da história humana, pra dizer o que você tá sentindo, o que você diria.
A resposta para essa pergunta cabeçuda do Cidata, você vai ouvir no próximo episódio. A gente publica quinta-feira aqui no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Te espero lá.
Esse foi o podcast Isso Não É, uma sessão de análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem, a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. Até lá.
A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção e o roteiro são da Eduarda Cunert. A montagem e edição de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur de Chloé.
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