Episódios de Beck Room Studios

Deboche Mode Hard 003 | O Fim do Direito

01 de maio de 20261h3min
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Deboche Mode Hard 003 | O Fim do Direito

O direito não acabou.

Ele só deixou de ser protagonista — e talvez ninguém tenha percebido ainda.

No terceiro episódio do Deboche Mode Hard, Beck parte da obra de Ugo Mattei (La fine del diritto) para explorar uma hipótese incômoda: o direito está sendo silenciosamente substituído por sistemas tecnológicos de controle, de previsão e de indução de comportamento.

Sem teoria conspiratória. Sem romantização.

Aqui, a análise passa por China, Estados Unidos, plataformas digitais, algoritmos e pelo colapso de pilares clássicos, como juiz, livre-arbítrio e sujeito jurídico.

Se as decisões são previstas antes de acontecerem, o que sobra do julgamento?

Se o comportamento é condicionado, o que resta da responsabilidade?

E se o direito chega sempre depois… ele ainda serve pra alguma coisa?

💥 Spoiler: talvez o problema não seja o fim do direito — mas o que o ocupa.

🎧 Episódio em formato de crônica, sem roteiro fechado e com o nível de acidez que você já espera.

Isso aqui não é aula.

É desconforto organizado.

Assuntos7
  • Relação com o DireitoSubstituição do direito por tecnologia · China e vigilância em massa · Estados Unidos e pseudo-legalidade · Plataformas digitais e faroeste regulatório · Colapso do livre-arbítrio e responsabilidade
  • NeomedievalismoEnd User License Agreement (EULA) e Termos de Condição · O usuário como produto · Plataforma como legislador, juiz e executor · Neofeudalismo digital
  • Culpa e ResponsabilidadeLiberdade como tecnologia do capitalismo · O indivíduo livre, racional, autônomo, responsável · Previsibilidade e indução de decisões · Colapso da culpa, mérito e punição
  • Poder JudiciárioJuiz como figura mitológica · Nascimento do direito e a regra 'ninguém pode ser juiz em causa própria' · Requisitos do terceiro: neutralidade, externalidade, ausência de interesse · O juiz como coadjuvante do poder
  • PrivatizaçõesBancos, empresas e plataformas resolvendo conflitos · Alternative Dispute Resolution (ADR) · Lei de arbitragem, mediação e conciliação · O papel do mediador, árbitro e psicólogo
  • As três camadas do problemaPoder saindo do Estado para a infraestrutura · Dados como novo petróleo e poder · Antropológico: indivíduo vira padrão
  • Grande ResetExpansão do poder para a fronteira digital · Tecnologia como narrativa de liberdade vs. realidade de vigilância e controle · Aceleracionismo de direita e o 'reset' do mundo · Morte da privacidade
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O podcast que você ouve agora é uma produção da Backroom Studios.

Bem-vindos ao Deboche e Molde Hard, o podcast onde a gente não passa pano, a gente passa é gasolina. Aqui o argumento entra bonito e sai sangrando. E se doeu era pra doer mesmo, porque era só verdade. Esse aqui é um podcast de crônicas sobre cenário político, socioeconômico e cultural do Brasil, mas também sobre questões internacionais.

que fingem, fingem que não tem nada a ver com a gente até baterem na nossa porta. Aqui eu posso pegar um tema, ir até o limite dele, ou até perder o fio da meada no meio do caminho. O que convenhamos, às vezes, é exatamente o ponto. Para quem é novo aqui, a ideia do deboche mudhard é simples.

falar daquilo que não caberia no outro podcast da Backroom, que é o IDB. Ou porque o tópico aqui é mais ácido, ou porque o episódio é mais longo, ou porque simplesmente não tem estrutura nenhuma. E deixa eu avisar vocês de uma coisa importante. Aqui eu só tenho alguns talking points. Papel e caneta. Só isso. Então, confia.

Antes de mais nada, é importante informar e dizer que esse podcast tem uma outra função, que é meio perigosa, inclusive, que é deixar vocês me conhecerem um pouco melhor. Não aquele back persona, back personagem, back que entra no ritmo do episódio dos Estados Unidos do Brasil, mas o back pensando em voz alta, o que pode ser um erro.

um grande erro. E ó, antes que alguém venha com um papo de me transformar em qualquer coisa, em paraia, guru, metido a pseudo-nostradamus, qualquer coisa assim, tira da reta.

Eu não fui, eu não sou e não tenho a pretensão de ser no futuro, nada disso. Recado rápido, mas importante. Esse podcast é da produtora Beckham Studios. Nós somos uma produtora independente. Isto é no Bom Português, sem edital, sem patrocínio estatal, sem paetrocínio ou sem padrinho. É feito na...

Pura amor, extrato de suco, de ódio. E também para pagar os eventuais boletos e a equipe da produtora. Então, se você quiser ajudar e puder ajudar, qualquer valor é muito bem-vindo. Qualquer valor mesmo. Pode ser R$ 4,20.

Aí você manda seu pix pro nosso e-mail, que é o contato.com. Back é com B-E-C-K. Room é com R-O-O-M. É tudo juntinho. Então é contato.com.

E claro, por favor, dá aquelas 5 estrelinhas no Spotify, segue a gente por lá, ou no seu tocador de podcasts favorito, sua plataforma favorita, porque isso ajuda muito mais do que simplesmente parece. Agora sim, vamos lá, vamos para o episódio.

Eu estava lendo no doutorado de Direito Constitucional e Digital um italiano. E sempre começa assim algumas das histórias, né? Você acha que vai ler sobre o que um italiano tem a dizer e acaba terminando a obra questionando a base, a fundação da civilização ocidental. O nome do autor é Hugo Matei. Sem trocadilhos, meus caros.

e camaradas. E o livro, o livro basicamente diz o seguinte, o direito tá acabando. Não no sentido de ah, vai acabar tudo, vai ter caos, vai ser Mad Max Furiosa, vai ser algo assim. Não, não, não. É mais no sentido de que ele tá sendo substituído. E quando eu digo substituído, eu não tô falando...

de reforma jurídica ou judicial, reforma do judiciário. Eu não estou falando que está vindo uma nova, super, ultra, nova legislação. Eu não estou falando da atuação do STF, do nosso Congresso Nacional. Nada disso.

Eu estou falando de uma coisa mais profunda, muito mais profunda. A tecnologia está começando a fazer o que o direito fazia. Aí você para e pensa, não, calma lá, isso não faz sentido. O direito organiza a vida social, o direito faz a paz social, o direito dá ordem, o direito resolve conflito, o direito garante a minha liberdade.

E aí eu faço a pergunta para você. Será mesmo? Porque se tiver um sistema que prevê o seu comportamento antes de você agir, para que julgar depois? Hum?

Se tiver um sistema que te impede de errar antes de você errar, para que então punir? Se tiver um sistema que sabe o que você vai querer antes mesmo de você ter a ciência, ter a cognição, o pensamento do que você realmente quer, então para que?

Você. Então esse episódio é sobre isso. É sobre a possibilidade de que o direito, esse negócio que a gente estuda, ensina e defende por um caralho, não seja mais o protagonista da história. E talvez nunca tenha sido.

Eu anotei aqui alguns pontos e tenho aqui China, questão de hipervigilância de sociedade em massa, credit score, Estados Unidos com pseudo-legalidade sobre a administração Trump para fazer o que quer e foda-se, até para declaração de guerra no caso da Venezuela e Irã, e vai com Deus a Constituição Americana, plataformas digitais vivendo no faroeste de falta de regulamentação.

E pessoas questionando se efetivamente possuem livre arbítrio ou não. E disso tudo, uma coisa que me incomodou profundamente é a ideia de que talvez a gente nunca tenha sido tão livre quanto a gente realmente achava. Mas calma. É importante ter calma nessa hora.

Vamos tentar organizar a bagaça, ou vamos enfatizar aqui, vamos pelo menos tentar. Porque o primeiro ponto, e ele é, sem dúvida nenhuma, o mais perigoso de todos, é a ideia de que o direito não está evoluindo.

Ele está sendo deixado para trás, meu camarada. Então vamos começar por aí. Eu dividi esse episódio com os Talking Points em alguns blocos. Primeiro, só para vocês acompanharem o raciocínio, é justamente com o título da obra do Hugo Matei, O Fim do Direito. O fim no sentido de a morte do direito. E direito aqui é com D maiúsculo. Ou talvez podia dar o nome desse bloco, ou talvez a gente nunca tenha tido controle.

Tá, antes de continuar, deixa eu situar vocês um pouquinho melhor aqui. Eu estou no segundo ano do doutorado em Direito Constitucional e Digital e acabei de ler esse livrinho, um livrinho daqueles...

perigosos, daqueles que em alguns estados democráticos de direito poderiam ser censurados à torto e direito. E a do italiano Hugo Mattei, com dois t's, e se chama em italiano, peço desculpa aos nossos ouvintes que falam, entendem o italiano perfeitamente, no original se chama La fine del diritto, ou O Fim do Direito, numa tradução livre. É um livro de 110 páginas.

E recente também, 2025, eu saí desse negócio muito incomodado. Mas não incomodado, tipo, dando uma de Monark, da época que ele estava em um podcast ultra famoso, de falar, eu discordo, ou coisa assim, um meme. Mas incomodado, tipo, puta merda, Hugo Matei, pode estar certo.

Porque o que esse cara faz é pegar tudo aquilo que a gente já acreditava sobre o direito, juiz, liberdade, responsabilidade, sujeito, empresas, corporações e tecnologia.

E ele desmonta, sem gritar, sem militância barata, sem thread no Twitter, ou no untruth, antisocial, no Blue Sky, ou seja lá o que for. Hugo Matei na obra, ele só desmonta. E o pior, com exemplos, com método e com muita calma.

Então hoje eu vou fazer uma coisa meio perigosa. Eu vou usar partes dessa obra, principalmente da introdução, também de um fechamento que eu fiz, obviamente, para o doutorado. E estou com ele aqui do lado, uma colinha, para quando for necessário.

para ir construindo com vocês um raciocínio, uma ideia. E a ideia aqui não é que esse episódio seja uma aula, não é também um paper, um artigo acadêmico, é quase um experimento mental coletivo, vamos chamar assim. Porque a tese dele, logo de cara, é essa aqui, ó.

o direito não está evoluindo. E ele está sendo retirado de cena diante de um excesso tecnológico. E quando eu li isso, eu pensei, não, calma, exagero. E não é. A gente parte para perceber que ele começa com duas situações, duas cidades, dois sistemas, dois mundos. E nenhum funciona como você pensa. De um lado a gente tem a China e outro os Estados Unidos. Na China você tem câmera em tudo quanto é lado.

E tudo mesmo não é vigilância. Na perspectiva cultural deles, é mais o ambiente, é o status quo. Você não entra num sistema de vigilância, você já está dentro. E aí você pensa, beleza, controle total, ninguém sai da linha aqui.

Não. Errando, a gente percebe que as pessoas que continuam vivendo lá, continuam fazendo BS, fazendo besteira, fazendo errado. E aí tem o Credit Score, o crédito social de cada pessoa, tipo o que a gente tem o Open Finance aqui no Brasil, do Serasa Score.

Só que as pessoas lá não podem, sei lá, andar de metrô, tem que andar a pé, passam mil e um perrengues piores do que a gente passa aqui no Brasil. Ou seja, vigilância total não gera efetivamente como consequência um controle total. Não estou aqui para demonizar a China, porque do outro lado a gente tem outra maçã, que é os Estados Unidos. E aí o buraco é outro.

Não tem câmera em tudo quanto é lugar, mas tem regra para tudo. Tudo. E o mais importante, a sanção é automática. Você estacionou no lugar errado, é multa, meu amigo. Passou do limite de velocidade, é multa. Respira fora do padrão.

Calma, aí não chegou nesse ponto. Mas já já, quem sabe, se você respirar fora do padrão, é multa na certa. E aí você tem um sistema nos Estados Unidos que funciona assim, sem juiz, sem diálogo, sem devido processo legal e sem contexto. É só execução, é só automação. Agora pensa comigo, qual desses dois sistemas é o mais, entre aspas, jurídico? Nenhum.

A primeira bomba, e essa aqui é grande, o que o Matei está tentando dizer é o seguinte, nem a vigilância da China resolve o problema e também nem o direito resolve o problema. Porque o problema é outro. O problema é que ambos estão sendo ultrapassados. E a tecnologia não ajuda o direito. Ela está substituindo o direito. Isso aqui é crucial de entender. Crucial. Não é tipo...

Ah, vamos usar inteligência artificial para melhorar o judiciário. Olha como, no Brasil, 27 estados, cada tribunal de justiça tem sua própria aplicação de inteligência artificial. Olha como essa Legal Tech está usando a automação dos seus processos. Não, não é sobre isso. É tipo, para que poder judiciário?

Se você tem um sistema que coleta dados o tempo inteiro, analisa comportamento, o tempo todo, ele consegue, dado volume, dada variedade, diversidade de dados, ele já consegue prever ações e ações significativas.

E para esses algoritmos e seus respectivos senhores da casa grande dos data centers, para que esperar o conflito acontecer? Para que julgar depois se você consegue evitar tudo isso antes? Isso muda o game, muda por completo tudo.

você não julga mais, você antecipa. Em vez de estar aqui, você não está mais punindo, você está condicionando, você não está mais interpretando a lei, você calcula. E aí o direito começa a parecer meio misensênia, meio decorativo, pano de fundo, meio teatral. E é por isso que a gente precisa tratar a sobrescedência tecnológica ou, que eu gosto de falar aqui, deu ruim.

Esse é o conceito-chave que o Matei traz. Excedência tecnológica. E na minha tradução, isso significa, essa expressão significa, é que, meu irmão, a tecnologia é o gigante que cresceu tanto, tomou tanto whey protein, tomou tanto anabolizante.

que deixou o direito, que é o que os fisiculturistas estão tomando a bolizante do óvulo, se olhar para a sunguinha deles, ficou pequenininho. O direito virou minhoca. Peço desculpas se alguém fisiculturista levou a sério a piada de mau grado.

A grande questão é que a tecnologia está chegando a um ponto que o direito tem um papel hoje quase que irrelevante, porque a tecnologia não cabe mais dentro do direito. Ela transborda e quando transborda, ela ocupa. Então aqui a gente percebe que tem três camadas para esse problema.

E aqui eu acho que a parada fica mais interessante ou possivelmente mais assustador. O primeiro é o político. O poder sai do Estado e vai direto para a infraestrutura. Não, mas pode vir aí um cara e falar, quem manda é o Congresso, quem manda é o chefe do Senado, é o chefão lá da Câmara de Deputados. Ah tá, vai lá então.

Quem decide o que você vê, meu amigo? Quem decide o que viraliza? Quem decide o que some ou que não emerge na sua timeline? É o código, é o algoritmo, não é o voto.

Segundo aspecto desse problema é o platô econômico, que dados, como muita gente utiliza no direito digital e analisa essa questão, tem uma expressão corriqueira que talvez muitos ouvintes já devem ter ouvido falar que dados viram novo petróleo. Mas isso não é uma frase estilo de LinkedIn, é quase que literal.

é que quem tem esses dados, esses data centers, esses data lakes, com todos os nossos dados, nosso nome completo, CPF, idade, gênero, religião, doenças sérias, até dados sensíveis de acordo com a lei geral de proteção de dados, se a pessoa é soropositivo, quem detém todo esse banco de dados detém o poder. Isso é perigoso.

Ele tem tanto poder que mesmo depois que a gente vem a falecer, esses dados continuam a produzir valor. Então, diferente da analogia que é a comparação literal ao petróleo, já que o petróleo é um recurso finito, escasso, os nossos dados geram valor mesmo após a nossa morte. E quem não tem hoje em dia dado?

E aí eu vou pro terceiro platô desse problema, que é o antropológico. E aqui deu errado. É bem no estilo, aqui fudeu, meu amigo. O indivíduo muda. Você deixa de ser sujeito e vira padrão. Você deixa de ser pessoa. Começa a virar uma previsão.

Você não é mais você. Você é uma estatística associada, correlata a um CPF. E o direito, ele chega tarde e sempre chegou tarde. O direito, ele sempre funcionou e continua insistindo no erro de funcionar assim.

ex post pros meus colegas advogados, que eu não advogo mais, mas no contencioso que digo, mas que amam fazer uso de brocados latinos ex post, o que é que é ex post? é que vem depois, depois do fato depois do dano, depois do merdeler, depois da merda

Já a tecnologia funciona assim, ex-ante, antes de tudo. Ela vê o comportamento antes de virar ação. E aí? E aí é game over. Acabou o jogo. Porque quem age antes sempre ganha de quem reage depois.

E aí, assim, para esse episódio, vem aquele... Eu vejo, às vezes, no YouTube, eu vejo, às vezes, uma ou outra palestra que eu tento acompanhar e eu tento levar a sério quem está lá no palco por respeito. Vem aquele discurso bonito, né? O direito vai se adaptar ao século XXI. O direito sempre evoluiu. O direito, ele tende a acompanhar as mudanças e as necessidades da sociedade.

É foda para não rir porque a gente está rindo da própria merda em que a gente se encontra. A gente está rindo do status quo, o lugar, espaço e tempo em que nós nos inserimos. Dá uma olhada nas empresas de tecnologia, na Palantir, no Peter Thiel. Dá uma olhada no discurso dessa gente, do Moldberg.

do Yarvin, do Janos Varouvax. Dá uma googlada. Eles estão falando de anticristo. Estão falando manifesto próprio de empresa. E estão falando que, meu amigo, a gente está aqui para dominar o mundo. E acabou. O ponto acabou. E você não faz parte do nosso clube. Então é isso. Procura essa gente. Procura.

e depois escuta de novo esse episódio, talvez as coisas possam fazer um pouco mais sentido. É uma galerinha que é do grupinho ali, maluco, bem maluco das ideias, e uns são bem burros, que é do aceleracionismo do Vale do Silício, ou aceleracionismo alt-right, tendo aí como um dos fundadores, um dos papas, o Nick Lent. Mas voltando aqui, o ponto que eu quero chegar é que o direito, ele...

Acaba, o direito vai chegar para o algoritmo e ele vai falar algo do tipo Vossa Excelência Algorítmica, vamos respeitar o contraditório, o direito de resposta, o direito de defesa, o direito de não produzir provas contra si mesmo, vamos respeitar o devido processo legal? E aí vem lá a Vossa Excelência Algorítmica e responde.

Já decidi, inclusive antes de você pensar nisso. Essa parte que incomoda é aqui que o negócio pega. Porque talvez, talvez o direito nunca tenha sido tão essencial quanto a gente acha. Talvez ele tenha sido só uma forma.

eficiente, até certo ponto, de organizar um mundo para não parecer que o mundo é direito natural, terra de ninguém, lei da selva, talvez tenha sido uma forma que a gente não tinha tecnologia suficiente para tudo ser organizado e automatizado sozinho.

Mas agora tem. E para fechar esse bloco, queria só lembrar que o que o Matei está sugerindo não é que o direito acabou. É pior. É o fato que ele está sendo substituído sem a gente perceber.

Isso é infinitamente pior. Porque quando algo acaba, você sente. Você percebe na hora. Mas quando algo está sendo substituído, você continua achando que ele é o que manda. Quando já não manda em mais porra nenhuma. É aquele momento em que...

A sociedade global é aquele sapo que está dentro da panela com água fervendo, ele não sabe que ele está morrendo, e é exatamente isso que está acontecendo com a gente.

E aí vem o próximo problema que eu queria trazer, é que se o direito dependia antes de alguém para decidir os conflitos e realizar a paz social, o que acontece quando esse alguém torna-se irrelevante? Spoiler, o juiz rodou.

Ele foi para o paredão do BBB algorítmico e com 100% de voto na inteligência artificial foi para o espaço. O juiz morreu e ninguém avisou. Esse é o ponto do bloco 2 aqui.

Tá, vamos falar do papel do juiz, o juiz. Aquela figura clássica, mitológica quase, a toga, o martelinho, o gavon, numa tribuna, sentado. Você assiste filmes do estrangeiro, filmes ingleses, eles usam aquelas perucas.

os solicitors, que são os advogados, etc. Você vê aquela vestimenta beca. Até no Supremo Tribunal Federal, o pessoal tem um certo... É desnecessário e pouco ao mesmo tempo do ponto de vista moral, mas tem um certo tesão de querer botar aquela coisa e aparecer na TV Justiça.

Mas, meu amigo, juiz é cara de ter poucos amigos. Porque o sujeito está ali só para resolver conflito. Ou, pelo menos, resolvia. Vamos falar do nascimento do direito numa versão sem romantismo? O direito, na essência, nasce de uma ideia muito simples.

Ninguém pode ser juiz em causa própria. Esse era o estado de natureza antes, mas resumindo, vamos dizer, um semestre, primeiro período de direito, a gente estuda, ou segundo período, foda-se, mas a gente estuda os contratualistas, o motivo de ter um contrato social. Ou seja, para resumir essa ideia de ninguém pode ser juiz em causa própria, é que duas pessoas brigam, entra um terceiro e ele decide a parada.

Ele decide quem está certo, quem está errado, quem é punido, quem ali vai ser salvo. E isso é o direito com D maiúsculo. Todo o resto, todo o resto mesmo, é firula acadêmica. É latim bonito, é brocardo. Verba volante scripta manente.

palavras, o vento as leva, o que está escrito permanece. Olha que lindo. Eu lembro isso do primeiro período que eu fiz direito. Eu nunca mais esqueci e já passou aí duas décadas. Esse latim bonito que eu vejo até alguns colegas de profissão que fazem questão de usar o tempo inteiro, até em conversa de bar, é doutrina para cá e para lá, corrente para cima e para baixo, jurisprudência.

até às vezes do mesmo órgão, por exemplo, o plenário do STF, que às vezes se contradiz ao longo do tempo. Mas o núcleo é esse. Sem terceiro, sem o juiz, não tem direito. Tem apenas força. Tem grito. Tem Brasil em grupo de família de WhatsApp.

E aí eu queria tratar de terceiridade. Palavra chata, mas a ideia é brilhante. Esse terceiro, ele tem que ser o quê? Quais são os requisitos? Tem que ser neutro, não pode estar para um lado nem para o outro. Tem que ser externo, não pode ser o melhor amigo.

Não pode ser a esposa, não pode ser o marido, não pode ser o pai de alguém ali. E não pode ter interesse na causa, para um lado ou para o outro. Ele não pode querer ganhar para um lado ou para o outro. Ele não pode estar envolvido. Ele tem que decidir com base na regra.

Isso aqui foi um avanço civilizatório, absurdo, porque milhões de pessoas morreram para a gente ter o direito, mesmo que esteja muito falho no século XXI, mas para nós termos os direitos que nós temos hoje no mundo.

Mesmo que às vezes eles não são eficazes, mas estão escritos. E que bom que estejam escritos. A gente deve lutar para que eles tenham esse enforcement, que eles tenham essa eficácia garantida. Porque antes disso tudo, antes do direito, era na base de quem bate mais forte. Era...

Quem tem mais gente, mais pessoal, mais exército, quem grita mais alto, meu amigo. Ou seja, era o Twitter depois do Elon Musk que adquiriu aquela jossa. E o problema nunca foi tão neutro assim. Agora vamos ser bem honestos aqui. Esse juiz neutro que eu estava mencionando antes, ele é...

Uma figura mitológica, é um arquétipo, não existe, nunca existiu 100%. O juiz sempre teve influência, sempre teve poder, sempre esteve no meio da política.

Mas ele ainda era uma referência, uma ilusão útil, prática para a sociedade. Um teatro que funcionava até agora. Porque agora a gente começa a perceber o começo do fim. O Matei começa a mostrar que essa ideia de juiz neutro está indo para o saco, está indo para o beleléu, e não é de hoje. O caso clássico aqui foi a...

do que o Matei traz, é na eleição ali, a contagem de votos em 2001, eu acho, entre candidatos à presidência nos Estados Unidos, que era o George W. Bush, o George Bush filho, e o Al Gore, que fez logo depois um documentário, A Época, em 2002, 2004, alguma coisa assim, bastante polêmico, controverso, e que tem ramificações hoje, chamado Unconvenient Truth, Uma Verdade Incômoda, que era...

sobre aquecimento global, coisa que está sendo rotulada hoje em dia como mudanças climáticas, mas isso é marketing, agro é tech, agro é pop, agro vende. E aí no caso, o Matheus, só para voltar aqui, ele trata justamente da eleição do Bush contra Gore, sobre os votos da Flórida, de recontagem e tudo mais, e a Suprema Corte, o STF dos Estados Unidos, naquela época decidindo a eleição, decidindo...

O juiz, o STF americano, decidindo a democracia, a eleição. E aí você olha para aquilo e pensa, isso aqui é direito? Ou é política travestido de direito? Pois é, né?

E aí a gente entra na questão de estado de exceção, ou como eu prefiro perceber aqui, o direito some quando aperta. Depois do 11 de setembro de 2001, o mundo entrou meio que em modo pânico, pelo menos no ocidente.

E aí surgem coisas tipo Guantanamo, presos sem devido processo legal, terroristas nomeados indo para lá, detenções sem processo algum, direitos humanos totalmente ignorados por mais de 20 anos.

Decisões fora do sistema. O direito não normatizou, não criou a norma, a lei, o artigo, o inciso, que dê conta da caixinha para legalizar, para legitimar as ações depois do 11 de setembro. E aqui eu não estou querendo defender necessariamente o cara da Al-Qaeda, o cara...

do Talibã, não é isso. É defender o devido processo legal. É defender os nossos direitos. Porque se essas regrinhas de estado de exceção, se a exceção vira regra, vale tanto para eles quanto para mim, quanto para você. Então o juiz, o papel dele, sumiu.

Ou pior, virou coadjuvante do poder. Não, mas isso é sim exceção. Claro que só acontece quando interessa, para valer. E a parte mais perigosa e menos falada, agora vem o ponto que quase ninguém percebe, que o direito não está sendo destruído só pelo Estado. Ele está sendo privatizado.

De forma bem exemplificativa, o banco resolve o conflito. A empresa resolve o conflito. A operadora resolve o conflito. A plataforma resolve o conflito. Sem juiz, sem processo, sem até você. E aí vem o Alternative Speed Resolutions, como alternativa para resolver tudo. Que é um nome bonito, pomposo, mas que no bom português a gente está falando. Existe lei aqui no Brasil para isso, que é a lei de arbitragem, mediação e conciliação.

Aqui no papel é tudo lindo, tudo eficiente, tudo rápido. E tudo é meio fake, tudo é meio teatrinho. Porque o que isso faz mesmo, muitas vezes, é evitar o conflito real, é esconder a desigualdade, é empurrar o acordo, goela abaixo, como a Vale do Silício fez no caso de Brumadinho.

ou a memória de alguns de vocês já está esquecido do que aconteceu duas vezes com essa empresa de mineração, de moia pessoas, vidas, famílias.

Ah, vamos resolver isso de forma amigável. Claro, vamos. Assina esse NDA, esse Non Disclosure Agreement, esse acordo de sigilo. E a pergunta que faz, me perturba bastante, é que quando a gente fala acordo amigável, é amigável para quem? É só para um lado. E a gente sabe de quem é.

de quem tem o poder, quem tem o dinheiro, quem tem o capital. Não é para mais de 80% da população brasileira, por exemplo, que ganha um pouco mais de dois salários e meio, salários mínimos. Então a gente percebe aqui que a mudança é sutil, mas ao mesmo tempo ela é fatal. Em que antes o jurista decidia, mas agora entra muitas vezes o papel do mediador, do árbitro. Entra o papel do psicólogo, entra o papel do facilitador.

Cara que não decide porra nenhuma, ele só harmoniza. Ele faz uma harmonização facial em que visa atender o interesse do mais forte. Vamos encontrar aqui um ponto de equilíbrio que vai ser um win-win num equilíbrio de Nash perfeito, maravilhoso para ambos os lados. Mas a gente sabe perfeitamente que esse equilíbrio é entre quem?

Amazon e você? Spotify e você? Rede Globo e você? Facebook e você? Instagram e você? Coloca aí qualquer rede social e você? Boa sorte, meu amigo. E aqui chegamos no chefão final do episódio, que são as plataformas.

Aqui acabou o jogo mesmo. Você entra, clica naquela merda de botão do, antigamente a gente chamava de EULA, né? Ainda tem esse nome jurídico, que é End User License Agreement, ou Termos e Condições, que ninguém lê a porra do contrato, mas na minha vida antepassada já escreveu alguns, assim como acordo de privacidade, e você simplesmente clica naquela porra de botão de...

Li e concordo, li e aceito os termos e condições de política de privacidade. E presto, você vendeu a sua alma, porque o contrato está fechado, a regra está imposta, zero negociação. Ah, tem aquela porra de Código de Defesa do Consumidor, meu amigo.

Você pode entrar com o CDC no judiciário, mas você vai ser um em dez milhões de pessoas que usam aquela merda de rede social ou aquele produto que agiram dessa forma. E a empresa vai sair ganhando, pagando seus advogados, porque eles têm uns bilhões para enrolar esse processo por cem anos, se eles quiserem, litigando de má fé.

Então o papo é meio, no inglês, take it or leave it. No bom português, é para pegar o lagar. Ou pega o larga, ou pega o saia. Eu fico pensando no Mark Zuckerberg, falando, não, veja bem, nós oferecemos aqui uma experiência metaverso personalizada, customizada.

Claro, personalizada para quem tem grana, para quem quer pagar, mas não é para você. Você, meu amigo que está ouvindo isso daqui, você é o produto. Sempre foi. E é nesse modelo que não existe mais o terceiro, não existe mais o juiz, porque ele está sendo substituído pela própria plataforma, que cria a regra, que aplica a regra.

que julga a regra e modifica a regra no meio do jogo, diferente das regras da democracia em que regras não podem ser alteradas no meio do jogo, a seu bel prazer. A plataforma é o legislador, é o juiz e é o executor. Os três e tudo ao mesmo tempo. E você...

você aceita, cara. É socialização à submissão no espaço digital. Isso aqui é o mais assustador. A gente, basicamente, tomou Rivotril demais na forma de injeção na testa. A gente está totalmente anestesiado e a gente se acostumou. A gente clica sem ler. A gente aceita sem pensar.

E acha que tudo é normal. A gente foi destrado, castrado, treinado. Treinado pra não questionar, pra não perguntar, não causar. E isso é foda demais. De até que ponto a gente foi chegar. A gente vive realmente numa sociedade do não direito. E aí eu lembro bem de uma frase que é bem pesada do Matei. Que ele fala... A gente vive numa sociedade de não direito. Achando que vive numa sociedade de direitos.

Então, para resumir de um jeito mais brutal possível, o direito nasce do juiz, o juiz perde poder, o conflito sai do tribunal e ele entra na plataforma. Sem mediação, sem neutralidade, sem ilusão. E aí, se não tem juiz, quem decide? Spoiler para o próximo bloco.

Talvez, né? Talvez ninguém esteja decidindo. Ou pior, talvez já esteja tudo decidido por nós há muito tempo atrás. E a gente sequer tem ciência disso hoje. E aqui nesse bloco 3 eu estou definindo como você não decide. O livre-arbítrio era uma história bonitinha. Tá, agora a gente entra na parte que começa a incomodar de verdade. Porque até aqui dava para fingir que o problema era institucional.

ah, o juiz perdeu o seu poder ah, o ministro do STF não vai conseguir fazer isso, aquilo não vai poder ir para os Estados Unidos ler magnífico que saco, não pode fazer executar a ordem da data center lá de fora, as plataformas cresceram demais, empresa OpenAI hoje faz isso, faz aquilo beleza mas agora não não vai poder ir para os Estados Unidos

Porque agora o problema é você. A base do direito é a primeira ilusão. Porque o direito inteiro, o direito por inteiro, ele depende de uma ideia. Uma só. A ideia é que você escolhe. Você escolhe agir. Você escolhe errar. Você escolhe acertar. E por isso você pode ser sim responsabilizado. É simples. Sem isso não tem culpa.

Não tem pena, não tem direito penal, não tem nada. O que o Matei faz aqui é visceral, é brutal. Ele basicamente diz o seguinte, que essa ideia de liberdade não é natural. Ela é uma convenção, ela é construída, é fabricada e ela é funcional.

E aí a gente tem que encarar, tem que enxergar a liberdade como tecnologia do próprio capitalismo, porque a modernidade inventou um personagem e essa noção do indivíduo livre, o indivíduo racional, autônomo, responsável. Mas por quê? Porque o capitalismo precisa disso.

Você precisa ser, entre aspas, livre para contratar, para comprar, para vender, para basicamente se endividar, meu amigo. E depois ser cobrado por tudo isso. E com juros, percebeu o truque?

E aí pode ter professorzinho neoliberal que gosta do Chicago Boys, escola de Chicago, vai falar para mim, olha, veja bem, o indivíduo é livre para escolher, livre mercado, bababá e tal. Claro, meu amigo, livre para escolher dentro de um cardápio que você não montou. Livre para errar em um sistema que lucra com o seu erro. E está aí a máscara. É a fraude mais elegante do direito.

O direito faz uma coisa genial. Ele ignora quem você é. Ele foca no que você faz. Não importa a sua história, a sua condição, a sua realidade. O que importa é o ato. E isso é ser eficiente. Mas tudo isso que eu acabei de falar é uma grande mentira elegante. Porque na prática, ninguém decide porra nenhuma no vazio.

O problema na versão ano 2026 é o seguinte, e aqui entra o pulo do gato. Antes, a gente já sabia que cultura influencia, economia influencia, sociedade influencia, o direito influencia, o poder influencia, mas agora a gente consegue medir, prever, induzir decisões.

Um exemplo simples e assustador disso é o fato de quando você abre o Instagram, rola o feed eterno do Instagram, vê um produto e fala nossa, preciso disso, e vai lá e compra. Decisão sua ou talvez uma decisão construída?

customizada para o seu perfil. E aqui o Matei lembra que a gente chegou num ponto sem retorno, um ponto sem volta, que transforma esse diálogo, esse texto, esse livreto, em algo difícil de gerir, que ele trata, ele fala sobre neurociência, sobre interface cérebro-máquina, da capacidade de prever decisão antes dela acontecer. E aqui ferrou, meus amigos.

Porque o direito depende de uma coisa. Você poderia ter feito algo de diferente, mas se a sua decisão é previsível, se a sua decisão é induzida, se a sua decisão, a sua ação é condicionada, você realmente podia fazer alguma coisa? Você tinha livre arbítrio? E a gente chega, de acordo com o Matei, no colapso da responsabilidade. É quando começa a implodir tudo, meu amigo.

A culpa vira questionável. O mérito vira questionável. A punição também vira questionável. Porque o direito continua dizendo você aí escolheu, você agiu, mas a tecnologia começa a mostrar que não é exatamente assim, porque a gente já sabia o que você pensava antes.

Então a gente começa a perceber o direito como simulação. E essa ideia me assusta. O direito que sempre simulou liberdade, estabilidade, paz social, convívio sempre, só que antes ninguém conseguia provar o contrário, agora consegue.

E puxando aqui uma outra autora que é Matei Fazuso, que é Xochona Zuboff, sua maior obra, no latim vou falar Magnum Opus, se chama Sociedade da Hipervigilância. A gente vai falar um pouquinho sobre capitalismo de vigilância na sua versão crua. O sistema hoje não quer liberdade, ele busca, ele quer previsibilidade, ele quer o consumidor previsível. O consumidor previsível vale mais do que um cidadão livre, muito mais.

E dá para perceber isso com a própria Palantir para fins militares exportando sua tecnologia atualmente no Oriente Médio, que eles querem chegar para um nível comercial. E aí, durante um breve momento, teve uma briga das outras IAs como a Cloud e também o ChatGPT da Fundação, em ênfase em Fundação OpenAI, em que eles estavam falando, nós usamos dados para melhorar a experiência do usuário.

Só que no caso da Palantir é usar drone para cair em escola de civis. Claro, essa tecnologia vai ajudar para um caralho melhorar a civilização humana. Melhorar. Melhorar para quem vende e logo ver o preço das ações da Palantir e quanto isso vai render, quanto tempo você vai obter o dinheiro de volta. É um patamar que a gente não mais está falando de dinheiro, de você ficar trilhardário. A gente está falando de poder pelo poder.

Então, aqui chega um ponto que eu estou querendo finalizar, que a gente percebe que o direito age depois. Isso é um detalhe que ninguém está percebendo, ainda não percebeu o suficiente, em números absolutos. O direito sempre age depois, enquanto a tecnologia age antes, sempre antes. Então, enquanto o direito a gente percebe que julga, ele julga o que já foi decidido.

Se o comportamento, de fato, pode ser previsto, ele pode ser sim controlado. E se ele pode ser controlado, então ele não é mais livre, nunca foi. E essa é a parte desconfortável. Então talvez, talvez, você, eu, nós todos, nós não sejamos tão livres assim quanto nós pensamos. Talvez nunca tenhamos sido. E talvez o direito inteiro tenha sido...

construído nessa convenção humana em cima dessa ilusão. O juiz, ele perdeu a sua relevância. O direito, ele perdeu o seu eixo, sua centralidade. E você, meu caro, talvez nunca tenha tido controle. E aí vem a próxima pergunta, que é se você não decide?

Quem é você? Vamos falar um pouquinho sobre isso para finalizar. Porque você acaba sendo uma máscara e o sistema sabe quem está por trás dela. Então vamos, agora que a gente chegou nesse ponto, vamos deixar uma coisa clara em que a coisa deixa de ser jurídica e vira existencial.

Porque até aqui a gente destruiu o juiz, a gente destruiu o livre-arbítrio. E agora falta você. A ideia mais elegante ou mais traiçoeira do direito, que o direito sempre funcionou basicamente assim. Ele não quer saber quem você é, ele não quer saber o que você fez. Simples. Você matou, você roubou, você assassinou ou assinou um contrato. Beleza, é isso que importa.

Importa se você estava triste, se você estava com medo, se você estava surtando naquele momento. Isso, para o direito, tudo é irrelevante. E aqui entra o conceito lindo e perigosíssimo que é a persona. Do latim, máscara, papel. No teatro antigo, a gente via o ator usar a máscara, mas para quê? Para esconder quem ele era, para padronizar o personagem.

para tornar a história narrativa compreensível. Mas o direito faz exatamente a mesma coisa. O direito é um teatro. Parabéns. Você é uma pessoa, você é um consumidor, você é um réu, você é um credor. Você é um papel, uma função, uma máscara.

E aí vai ter gente chata pra caralho do direito que vai vir. Não, porque no ordenamento jurídico, de acordo com o Código Civil, a pessoa natural...

pessoa, qual pessoa, a real, ou a versão simplificada que cabe no código. E por que isso funciona? Porque basicamente simplifica. O direito não consegue lidar com a complexidade total que é a vida humana. Então ele faz o quê? Ele reduz você a categorias, a papéis, ele cria padrões, ele aplica a regra, a norma, a lei. E isso funcionou por séculos.

O problema, e aqui começa a rachadura, é que isso só funciona se existir uma separação clara entre quem você é e o que você fez, ou o que você faz. Entre o interno, o subjetivo, o sujeito, você e o externo, a ação, o ato, o que você fez, pensamento e ação.

E aí a gente tem que distinguir a parada por uma questão de foro interno e de foro externo. Porque o direito sempre diz que o pensamento é livre, que a ação é julgável. Você pode odiar alguém, mas só é problema quando você efetivamente age. E a tecnologia, ela quebra tudo isso como se fosse uma casa de vidro.

É aqui que acabou o jogo, porque agora o sistema cessa seu comportamento antes da ação. Ele prevê o seu desejo, ele influencia a sua decisão. Ou seja, o interno já não é mais interno, o sujeito não é mais indivíduo sujeito, você não é mais você. Você nem percebe, mas o que você deseja foi sugerido.

Você nem percebe, mas o que você escolhe foi moldado, foi sugestionado. Você nem percebe, mas o que você pensa foi induzido. E o direito ainda está lá. Vamos analisar o ato, vamos olhar para o caso concreto.

Diria um desembargador no Rio de Janeiro que eu nunca mais vou esquecer do timbre de voz e ele eu consigo imitar, mas por questões óbvias não vou mencionar quem. Mas vamos analisar a situação em sua densidade, no extremo da sua gravidade.

Basicamente, a noção aqui é que o sujeito some. E aí vem a frase que deveria dar um arrepio. Que o indivíduo, o sujeito, o você, desaparece atrás da máscara. Porque a máscara, o papel, a função, continua. Mas o sujeito, você por trás, já não é mais tão autônomo ou livre assim. E aí a gente, para fechar aqui, já que já deu uma hora de...

De onde eu devagar queria falar um pouquinho do homo econômicos, o robô que a gente finge não ser, que na teoria clássica dizia que você é racional, que você calcula, você decide. Ergo, como é que é? Cogito, ergo sum, penso, logo existo. Plano cartesiano. Mas na prática, o que acontece na nossa realidade é que você...

reage, você é influenciado, você é previsível. E não sou eu falando isso, sou eu descrevendo a nossa realidade interconectada entre digital e mundo pseudo-offline, porque não é porque você não está na rede social que metadados sobre a sua vida não estão sendo coletados a longuíssimo tempo. Nossa vida se tornou, de certa forma, muito previsível.

Essa noção de eu sou dono do meu próprio destino. Não quero... Eu estou com esse desembarrador na cabeça, mas enfim. A gente não é dono de nada. Você pode até achar. Dono do destino. Com feed personalizado. Com publicidade direcionada. Algoritmo te empurrando a decisão. E quando você está conversando com a sua mulher, com o seu namorado, ou...

na faculdade, no trabalho, sobre um determinado produto que você pensa em comprar e chega em casa e do nada aparece na rede social o produto. Como que aparece aquele comercial, aquele produto, seja do mercado livre ou da Amazon, vendendo exatamente o que você queria? Você não digitou, você não pesquisou usando o seu smartphone e o seu computador, mas está lá. A gente se tornou tão previsível assim?

Os algoritmos estão espionando? É uma combinação das duas coisas? Você realmente ainda acha que é o dono do seu próprio destino? E se for para ser protagonista, é protagonista de quê? Do roteiro de quem? E é por isso que a gente chega na questão do colapso final do direito. Porque o direito depende de uma coisa. Você age externamente enquanto ele julga externamente.

Mas se o comportamento é moldado internamente, antes de virar ação, o direito chega tarde. De novo e sempre. Se o sistema consegue prever o que você vai fazer, influenciar o que você vai fazer, controlar o que você vai fazer, então, meu amigo, o que sobra de você? Talvez só a máscara e o direito.

O direito continua lá, julgando papéis, em um mundo onde os papéis já foram escritos antes. Então, a gente tem esse quadro completo, porém perfeito, e um pouco beirando teorias da conspiração, mas que dizem, retratam que o juiz perdeu a sua relevância, que o livre-arbítrio entrou em crise e o sujeito passou a virar máscara.

O direito continua, mas atuando em sobrevida num teatro, onde o roteiro já foi pré-definido por um algoritmo. Ele é o diretor. E aí vem o último golpe, porque até agora a gente ainda podia fingir que o direito tinha autonomia, que ele era um sistema próprio que sustentava. Mas a gente descobre que talvez ele nunca tenha sido autônomo de verdade. E pior, talvez ele sempre tenha sido só uma ferramenta.

e agora uma ferramenta perfeitamente substituída. Com isso, a gente fala sobre a grande substituição, ou bem-vindo ao neo-capitão feudalismo digital. Tá, acabou a brincadeira, porque até aqui a gente podia fingir que era só teoria. Ah, é um italiano exagerando. Ah, é filosofia jurídica.

Não é. O que Matei chama de grande substituição não é demográfica, é estrutural. Ele explica que o direito está sendo substituído por sistemas tecnológicos de controle, sem votação, sem debate, sem STF. Só acontecendo. No Girund, estamos passando por essa fase, por esse momento de transição.

E a nova fronteira, e a gente caiu direto nela, porque antigamente a expansão do poder era territorial, América, África, Ásia, colônias. E agora, a fronteira digital, internet, volume de dados.

mega infraestrutura de data centers, inteligência artificial. E o mais louco é que a gente entrou nisso totalmente de forma voluntária. É a ilusão perfeita em que a tecnologia vem de uma narrativa de liberdade, de autonomia e de conexão, mas na realidade entrega apenas...

vigilância, precisão e controle. Tem a ideia dos CEOs bilionários do Vale do Silício, esses do aceleracionismo, e para resumir, para quem não sabe aceleracionismo, é o pessoal que quer acelerar o fim do mundo para dar um grande reset no mundo, e como eles são bilionários, eles vão sobreviver porque vão para os bunkers. Esses são os aceleracionistas de direita, de extrema direita. Eles falam, tipo, we are empowering people. A gente está empoderando as pessoas.

Empoderando? É? Empoderando você a fazer o que exatamente? Empoderando indivíduos a consumir melhor, clicar mais, ser mais previsível. Porque a realidade é que a privacidade morreu e a gente fez um velório com stories. A privacidade, que era a base da liberdade moderna, ela, Zé Fini, já era. Porque ninguém proibiu, mas porque ninguém lê. Todo mundo aceita. Tudo é condicionado.

É pegar ou largar. Aceitar ou sair. Pede pra sair. Sempre isso. Take it or leave it. Essa é a nova Constituição. Essa frase é talvez a mais importante. Take it or leave it. Pegar ou largar. Porque não tem negociação. Não tem debate. Não tem direito. Não tem votação, eleição. Não tem julgamento da STF. Tem apenas imposição.

E essa noção de neofeldalismo digital, isso sim, é isso mesmo que eu queria falar, de noção de feudalismos com essas big techs, é que o que eu matei, eu concordo com ele, vai para tudo ou nada. Que as plataformas são os novos senhores feudais, muito parecido com a obra Tecnofeudalismo do Varvács. E você, ouvinte, você ao mesmo tempo é usuário, cliente, dependente. Ou seja...

Você é súdito. Bem-vindo de volta à Idade Média. Só que com Wi-Fi. O poder, hoje, eu percebo que ele não é mais jurídico ou político tradicional. Ele é econômico e tecnológico.

É uma ideologia que puxa pela tecnologia um aceleracionismo tecnológico desenfreado com ultragastos financeiros, econômicos. É um abuso disso tudo e dos recursos naturais na Terra.

que o preço de tudo está subindo no mundo de uma forma artificial. Estou falando desde placas de vídeo, memória RAM, para quem gosta, é nerd, gosta dessas coisas, mas que afeta o setor automotivo, aviação, afeta todo o escoamento de produção de grãos, de tudo, porque depende dessa tecnologia. O conflito no Irã, por exemplo, existe uma empresa no Irã que é responsável por 70% de todas as placas.

de computadores do mundo, placa, aquela PCB, aquela placa verde, que geralmente é um verde musgo, vocês sabem que placas eu estou falando, não necessariamente uma placa mãe, mas pode ser outra placa, pode ser uma placa de vídeo, enfim, aquela matéria-prima, aquilo é uma resina, e a empresa, só no mês agora de abril, aumentou em 40% o valor sobre o seu produto.

e diz que não vai conseguir acompanhar com a demanda do mundo pelos próximos dois anos por causa do Trump fazendo o que ele faz de melhor e pior para a humanidade. Então essa noção de as big techs tomando o papel do Estado, substituindo o Estado, substituindo o direito.

tomando decisões automatizadas, com base nas suas predições e predilições, suas escolhas. Isso é assustador demais, porque a gente está privatizando o papel do Estado numa anuência, numa concordância tácita, velada, porque ninguém levanta e diz não, peraí, eu acho errado apalantir nos Estados Unidos, fazer todo o trabalho de generais de gerenciamento de guerra.

e aponta drone, kamikaze para tudo quanto é lado. Enfim, o que eu quero dizer para concluir aqui o episódio é que quem controla esses dados controla o comportamento. E quem controla o comportamento não precisa mais do direito. O direito fica para trás. O direito continua lento, caro, reativo, enquanto a tecnologia torna-se cada vez mais rápida, automática e preditiva.

Ou seja, num duelo de boxe, o UFC entre os dois, é uma briga desleal. É um 7x1 que o direito sempre vai apanhar. E o juiz final, que não é humano, é o algoritmo, que prevê, classifica e nos exclui. Sem audiência, sem defesa e a gente sem a possibilidade de recurso. Pior de tudo é que você nem percebe o que está acontecendo. Então a virada geopolítica, e essa aqui é gigante...

é que com a sociedade globalizada, e o Almaty aponta isso, o que pouca gente quer aceitar é que o Ocidente está perdendo a sua hegemonia jurídica. Porque o modelo dele depende do quê? Depende de direito, regra, instituição. Enquanto o novo modelo desses dos aceleracionistas do Vale do Silício, esses caras, os Marques Zuckerberg...

Peter Thiel, esqueci o nome do outro sócio fundador da Palantir, mas é um doido lunático, o Maldberg, que é o Curtis Yarvin. Procura esse boçal, Curtis Yarvin, tá? Procura esse boçal na internet, ele é um Olavo de Carvalho americano, só que fala mais merda e pior, esse cara tá vivo. Não é que eu tô desejando a morte dele, mas fala cada merda, procura depois, se instrua.

E aí a grande comparação é que, enquanto o que eu estava divulgando antes, o modelo antes dependia de direito, regra, norma, instituição, separação de poderes, essa bosta toda, enquanto o novo modelo depende apenas de data centers, infraestrutura, recursos hídricos, eletricidade, controle direto, tecnologia.

E aí entra China, porque enquanto o Ocidente ainda discute direito digital, marco civil da inteligência artificial, está até hoje no Congresso Nacional, dois anos de juristas, 908 páginas de anteprojeto, ficou debaixo do bracinho ali do ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, está parado.

A gente discute governança de princípios éticos de inteligência artificial há 30 anos. Existe uma expressão chamada ethical washing, que é tipo lavagem de princípios éticos. Ou seja, ninguém aqui discute, ninguém aqui vai levantar o braço e estufar o peito, levantar da cadeira e gritar. Eu sou contra o princípio da supervisão humana de algoritmos de grande impacto. Ninguém vai fazer uma merda dessa, né? Em sã consciência.

Não, todo mundo é a favor dessa merda, todo mundo é a favor do princípio da supervisão humana, de algoritmos, principalmente os de grande impacto ou de alto risco. E a gente tem concordado a falar a mesma frase pelos últimos 30 anos, e por isso essa lavagem ética que não leva porra nenhuma, é só uma sugestão atrás de sugestão, porque o projeto de lei ainda é projeto de lei e nunca vira norma eficaz, com legitimidade, eficácia jurídica, normativa e plena na sociedade.

O Ocidente vive desse melodrama e fica parado nisso por causa do lobby, por causa das empresas de big tech, mas o que a China faz enquanto o Ocidente fica para trás, ela implementa, sem pedir autorização filosófica, jurídica e caga para o lobby do Ocidente.

Precisamos criar um comitê para discutir os impactos neossociais sobre a vida dos indivíduos com inteligência artificial. É o que algum doutrinadorzinho de merda poderia falar americano sobre o uso de ar no mundo. Claro, enquanto isso o sistema já está sendo rodado a 220 mil rotações por milissegundos.

E, para fechar aqui, o destaque final do Matê, que é seco e não tem meio termo, ele simplesmente vai direto a algo pouco parecido com a provocação que um autor que eu gosto muito, que é o Mark Fischer, com a sobra-prima.

realismo capitalista, e ele é aceleracionista, mas ele é dos bens, ele é um bonzinho. Ele é o Luke Skywalker nessa história toda, eu diria. Ele é o aceleracionista de esquerda. Não é que ele quer acelerar o fim do mundo, ele quer acelerar o fim do capitalismo. Mas na própria obra dele, a máxima é mais fácil a gente pensar no fim do mundo do que no fim do capitalismo. A gente consegue pensar 20 formas diferentes de acabar o mundo. Asteróide, alienígenas, pandemia.

Tsunami, placas tectônicas, ventos solares com radiação, mas a gente não consegue pensar em algo para substituir o capitalismo. É isso que o Mark Fisher faz de provocação. E o que o Matei aponta em 2025, com esse livreto, o fim do direito, ao final ele fala, meu amigo, é ou o socialismo ou a barbárie.

Mas calma, não é o socialismo clássico, é outra coisa. É planejamento baseado em tecnologia, é disso que ele está falando. Ele está falando de organização coletiva, de controle consciente. Isso versus o pessoalzinho lá do Vale do Silício que eu estava falando antes. Isso versus o uso de planejamento, infraestrutura baseada em tecnologia, de organização horizontal e coletiva, de controle consciente com moralidade, versus...

Dominação tecnológica, tecnocentrista, ausência de limites, neo-feudalismo, neo-tecno-feudalismo, enfim. Uma pergunta final, e não é que tem resposta fácil, é que depois disso tudo, quem é que vai efetivamente substituir o direito? Porque substituir é um processo sem teoria, sem demonização, teoria conspiratória aqui.

o direito já está sendo substituído. Então a pergunta é quem vai substituir? Qual o modelo? Então, deixo aqui para fechar do jeito que tem que ser fechado e dizer que o juiz perdeu seu lugar.

O indivíduo perdeu o controle, o sujeito virou máscara, o direito perdeu o seu papel, a sua essência, a sua centralidade, o seu gravitas. Quem, de novo, é babaca, desculpa, mas é porque tem muito babaca que ama o brocado latino.

E é óbvio que eu sei uma caralhada desses, e aí uma vez ou outra vem a cabeça, e aí eu estou meio que aqui dando os meus jabs e meus socos no pessoal do direito que ama o tempo todo usar isso. Então já que o juiz perdeu o lugar, já que o indivíduo perdeu o controle, já que o sujeito virou máscara e deixou de existir, já que o direito perdeu a sua centralidade, e o poder?

O poder não sumiu, ele só efetivamente mudou de forma. Talvez o problema nunca tenha sido o fim do direito, mas sim o que vem depois dele. E se você ainda acha que isso aqui é exagero, relaxa. O sistema já decidiu por você. Modo hard, desligando.

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