3ª Temporada: NATUREZA ESTRANHA! | TEASER
Arthur Marchetto, Anna Raíssa e George Amaral retornam para mais uma temporada e para mais Leituras Estranhas!
O tema da vez é: natureza estranha!
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Próximo episódio: Salgueiros Estranhos & Algernon Blackwood ("Os Salgueiros")
Anna Raíssa
Arthur Marchetto
George Amaral
- A Trama das Árvores· CulturaFicção climática·Conflito humano-natureza·Comunicação das árvores·Richard Powers
- Natureza Estranha· SociedadeCrise climática·Crise ecológica·Aquecimento global·Ficção climática
- Contos de Guimarães Rosa· CulturaSagarana·Meu Tio, o Iawarité·Linguagem literária·Protagonismo não humano·Colonialismo
- Nausicaä do Vale do Vento· CulturaMangá·Mundo pós-apocalíptico·Poluição industrial·Ecossistema·Hayao Miyazaki
- Salmo para um Robô Peregrino· ReligiaoBeck Chambers·Linguagem neutra·Sentido da vida·Utopia·Convivência
- Contos de Liliana Colanzi· CulturaVocês Brilham no Escuro·Contaminação·Césio-137·Novas tecnologias·Crenças ancestrais
- Os Salgueiros de Blackwood· CulturaAlgernon Blackwood·Horror folclórico·Atmosfera de horror
- As Águas-Vivas Não Sabem de Si· CulturaAline Wallach·Ficção científica·Perspectivas não humanas·Oceano
- Contos de Lígia Fagundes Telles· CulturaSeminário de Ratos·Realismo mágico·Fantástico
Olá, eu sou Arthur Marqueto, estou aqui com Jorge Amaral e Ana Raíssa para mais uma Leitura Estranha. Dessa vez a gente vai trazer para vocês um teaser, uma sinopse do que vem por aí na nossa próxima temporada, a terceira temporada, essa teve a curadoria de Jorge Amaral, pra gente falar um pouco sobre a natureza, a natureza estranha. Jorge, brevemente, que que a pessoa que vai começar a ouvir a gente vai, pode esperar nos primeiros episódios das temáticas? Que essa temática mexe em você, por que que escolheu ela?
A temática veio pra mim principalmente durante o doutorado, que eu decidi primeiro estudar realmente o estranhamento na ficção, que era o tema, né, nosso esse tema aqui e era meu tema de pesquisa. Mas começando a buscar os livros, a tentar entender qual que era um tema assim dentro disso mais atual, mais contemporâneo, e acabei decidindo optar por falar da crise climática, crise ecológica, né, aquecimento global e todas essas questões tão pertinentes hoje e que essa semana mesmo a gente tem visto aí ciclone, Vendaval, né, um monte de coisa que tem acontecido e tem cada vez mais acontecido ultimamente.
Ou seja, uma manifestação da natureza que até alguns anos atrás a gente poderia dizer que era algo familiar, banal, né, conversa de elevador, falar do tempo, tá calor, tá frio. Hoje em dia não é mais a mesma coisa, né. Hoje em dia a gente fala de clima olhando radar do tempo, vendo previsões meteorológicas que às vezes são catastróficas, mudou um tanto essa forma da gente interagir com essas questões, justamente porque o mundo mudou.
E a princípio isso causa já um estranhamento, já é um tipo de temática que antes era tão familiar e agora ela ressaltou assim, saiu aos olhos. É uma coisa que nos atravessa a partir de certo ponto de uma forma completamente diferente do que era antes. Que é muito dos temas que a gente já falou nas outras temporadas, né? A forma como o que é estranho é muito uma coisa que nos faz ter um olhar renovado, um olhar diferenciado sobre algo antes tomado com certo automatismo, tomado com certa familiaridade que nos fecha os olhos, de certa forma.
Só que essa crise, ela vem nos abrir os olhos assim de uma forma até trágica, né? De uma forma que já é urgente e ameaçadora e tal. Justamente por causa de tanto negacionismo que já houve desde muito tempo atrás e não mudar certas atitudes em relação ao planeta. Então é um tema assim que pra mim é extremamente urgente, importante e atual e que nos toca não só mais de uma forma assim, de ver na notícia, de saber que tá acontecendo lá um furacão no hemisfério norte.
Mas agora já é um tema que nos toca no dia a dia. E a literatura já faz algum tempo também está manifestando essa tendência. As obras de ficção climática, que é um gênero que tem alguns anos já e foi cada vez ganhando mais e mais obras, né? Então a literatura tem mostrado que Esse tema é importante, é algo que precisa ser dito, né, algo que precisa ser lido, e por isso tem proliferado. Dentro disso, várias, ou talvez a maioria delas, acabem indo por um caminho de estranhamento, justamente porque, pelas coisas que eu tô citando aqui, né, da própria realidade, é uma realidade estranha, é algo, né, que nos toca diferente, e a literatura tem que refletir isso.
Por isso a maior parte dessas histórias de ficção climática ou elas vão para uma distopia ou uma ficção científica, às vezes tem um viés mais fantasia e mesmo autores que antes eram do realismo, né, têm se aproximado de algo do insólito, né, de um tipo de literatura mais por esse viés mais fantástico, justamente para dar conta dessa realidade que também está se transformando em algo fantástico, algo tão estranho. Então a minha aproximação por esse tema da natureza estranha veio muito por aí, né?
Só que a nossa ideia na temporada, claro, é trazer essa questão que é mais atual, mas também resgatar um pouco do estranhamento que envolve questões de natureza, mas também de outras épocas, justamente pra gente ir sentindo um pouco do que a gente tem num panorama mais amplo, né? Como que o humano já há bastante tempo tem de relação com os não humanos, assim, e transmite isso através do estranhamento e da ficção. Então a gente trouxe um apanhado que vai, né, passar por várias épocas e estilos, né, e autores e autoras diferentes, indo até bem recentemente, tratando, claro, da crise ecológica, mas também tratando de muitas outras coisas, que acho que é a graça aqui, né, da nossa, dos nossos apanhados tão amplos. Na temporada.
Não sei se a Ana quer fazer algum comentário sobre o assunto, principalmente depois que ela leu Aniquilação e foi arrebatada pelo livro, mas é uma temática que eu também gosto há algum tempo, menos do que o Jorge, mas em alguma medida eu acho que a reflexão de Aniquilação ajudou também. Acho que inclusive ler Guimarães Rosa, curiosamente, eu gostei muito quando você propôs um conto dele aqui pra essa temporada. Porque eu lembro de ter lido Sagarana e ter comentado sobre como ele faz uma descrição de espaço em alguns contos que é fantástica em todos os sentidos.
Fantástica porque é muito boa e fantástica porque ele faz ali uma construção. E aí eu sei que eu tô sendo bastante leviano no uso do termo, mas em que ele consegue descrever uma paisagem natural tão vívida, tão rica e com tanta descrição daqueles tipos de vida que estão ali, que eu, como alguém que cresceu da cidade, não faça a mais vaga ideia do que é uma planta XYZ. Então o que ele descreve pra mim com aquele nome? Não ecoa necessariamente nenhuma imagem.
Aí, ao mesmo tempo, eu consigo entender a sensação que ele tá propondo, o quadro que ele tá pintando, e fica uma coisa muito vívida, né? Foram leituras muito boas do Sagarana. E é um tema que eu tenho pensado muito frequentemente, principalmente no que tange à perspectiva do que a gente tem pro nosso futuro. Porque em alguma medida, falar sobre a natureza também ecoa em como a gente entende a organização do nosso futuro. O que que a gente tem ali, o que que a gente se relaciona, prepara ou visualiza pro que vem, né?
Seja na maneira com o que a gente propõe de tratar o que a gente tem agora, de fazer uma contenção de danos, de pensar num projeto melhor, num futuro melhor, retomar discussões de utopia, seja na discussão de, ah não, nada disso faz sentido, então a gente vai começar a criar um imaginário de colonização em outros planetas, Então como é que essa colonização vai acontecer, o que que a gente vai trabalhar com isso, seja na perspectiva do que acontece politicamente em relação à catástrofe climática, o que que a gente tem no futuro.
Toda vez que eu lembro que a gente tem hoje em dia sementes patenteadas e que se acontecer uma grande tragédia de amanhã para depois de amanhã, a gente não vai conseguir replantar uma série de coisas porque todas as sementes que a gente tem são patenteadas e elas são estéreis e a gente precisa comprar uma semente produzida por uma empresa pra conseguir se alimentar, enfim. São questões que me interessam muito e mexem muito comigo.
Tem uma grande reflexão que eu fiz na primeira temporada da Ponta do Tempo, que foi de Cogumelo, que também passou um pouco sobre isso, enfim. É um tema que eu gosto muito e eu tô bastante empolgado pra discutir. E eu não sei, antes da gente começar a comentar os livros, Ana, você quer comentar alguma coisa sobre isso?
Eu vou estar do lado dos ouvintes que não têm tanta leitura sobre o tema, mas que têm se interessado nos últimos tempos. Que esse tema da natureza tem surgido, né? As discussões sobre mudanças climáticas e tal ganharam o campo da ficção e é um interesse crescente. Eu já tinha lido algumas coisas depois da Aniquilação, então aí você fica assim, ah! E eu estou muito curiosa pelas coisas que eu não li. Tem muita coisa que eu já queria ler, tem coisas que eu li e que eu tô muito feliz em reler, pois relerei.
E ter colocado o Guimarães Rosa e a Lígia vai trazer— eu acho que quem ouvir a gente também vai gostar disso, assim. Eu gosto muito de fazer uma outra leitura com textos que já são mais conhecidos. Eu não vou nem falar cânone, mas assim, dessa lista que a gente vai trazer aqui, por exemplo, eu acho mais comum que alguém conheça, pelo menos de nome. Os contos do Guimarães e da Lígia do que, sei lá, da Trama das Árvores, vamos dizer.
Então, quando você coloca uma outra leitura em cima de um texto que já é conhecido, eu acho muito interessante. Então, eu tô muito empolgada pelas discussões que vamos fazer, pelas leituras que vamos trazer, que já estamos fazendo, porque é um tema que tem me interessado muito recentemente, né, essas discussões sobre o Antropoceno, E o que que vai ser de nós? E quando essa discussão já chega na ficção, eu acho que a gente consegue aprofundar essa reflexão, né?
E se apavorar também com essa reflexão, porque às vezes a gente assim, ai, vem aí, né, gente? O El Niño tá chegando no fim do mundo, vai levar um tempo.
Meu mood, 60 graus de calor, e aí você vê a foto, são pessoas na praia sem camisa curtindo o tempo, você fica, meu Deus do céu!
Não é disso que estamos falando, ó! Então vem aí uma coisa, gente. Vem aí a catástrofe.
Uma coisa interessante disso que a Ana comentou, né, sobre essas leituras diferentes sobre obras às vezes já mais conhecidas, essa é, digamos assim, uma graça da ecocrítica, né, que é um ramo da crítica literária, da teoria literária, que justamente busca olhar para obras às vezes já antiga, você pode fazer uma leitura ecocrítica lá da Odisseia, lá da Grécia, de qualquer obra, digamos, né? Só que com um viés desse mais voltado para o que que tem ali da relação entre humanos e não humanos, por exemplo, qual era a visão cosmológica em relação à posição do humano na natureza naquela época, por exemplo, né?
E em qualquer época até hoje. Então, ecocrítica, ela é uma forma interessante, né, para quem quiser pesquisar mais a respeito, justamente de trazer novas leituras sobre obras às vezes que já foram muito lidas, mas sob outras perspectivas, às vezes mais históricas, mais econômicas, sociológicas, psicológicas. Então, um pouco do que a gente vai fazer aqui é justamente isso, é tentar fazer essa leitura, né, de qual que é, né, nesta obra que já foi analisada muitas vezes por outras perspectivas, qual que é a visão ali que está passando da posição do humano enquanto um ser que faz parte da natureza, que não é apartado, como por tanto tempo se acreditou, de um lado a cultura, do outro lado a natureza, e essa divisão, como que entra nas obras essa divisão, esse dualismo, que é uma coisa inclusive que as obras mais recentes têm buscado maneiras de tentar desconstruir.
Como desconstruir essa separação? Como é que a gente traz um olhar de um não humano, de uma planta, do sol, de um átomo? Sei lá, tem histórias que trazem esse tipo de protagonismo, de coisas que são completamente diferentes, que não têm uma consciência como a nossa. Então esse tema também me atrai muito por essa perspectiva mais assim de qual é a visão cosmológica que a gente tem e que nos trouxe a este momento e para onde isso vai se desenvolver, como o Arthur falou.
A gente tem que mudar a forma de habitar, de pensar, de sentir, né, de entender o mundo e entender a nós mesmos, entender aos outros seres que vivemos em conjunto aqui, né, e pensar essa ideia de conjunto, de parentesco, né, de coabitação, e não de humanos que dominam, exploram, né, e tentam controlar tudo que está à sua volta. É um tema que leva, né, sai do âmbito do que é um não humano, do que é essa relação e vai para um outro âmbito que é muito mais assim de realmente pensar formas de viver, de criar sociedades.
E aí as utopias são muito úteis. Como criar novas formas de habitar o planeta? E a ficção é assim, principalmente a insólita, né? Ficção científica, fantasia, ela vai ter essa possibilidade de criar imaginários, né, de criar possibilidades de pensar outras formas de existência que vão além daquilo que às vezes a gente tá acostumado, tá familiarizado, né. E aí o estranhamento também é fundamental. Se a gente não se permitir estranhar, né, e pensar fora da caixinha ali, das caixinhas, né, como a gente já falou na outra temporada, aquelas caixinhas que nos fazem ser sempre como sempre fomos, Se a gente não sair disso, a gente vai continuar criando um El Niño mais forte a cada ano. E aí?
Não é um desafio, não é um desafio, gente. É importante avisar. Muito bem, Jorge, então vou fazer assim. Eu vou ler uma sinopse padrão aqui, você complementa pra gente o que tiver errado, o que você quiser dizer pra instigar os nossos ouvintes a entrar nessas leituras com a gente. E se eu e a Ana tivermos aqui algum julgamento, alguma inquisição pra fazer, a gente complementa antes de passar pra próxima. Então, a primeira indicação é a narrativa Os Salgueiros, do Algernon Blackwood.
Quando o que o Jorge falou da questão temporal, a gente tem mais ou menos uma coisa parecida com a primeira temporada, porque o Blackwood ele é anterior ao Lovecraft, inspirou ele de alguma forma, tem algumas narrativas longas que são bastante comuns, bastante conhecidas em um certo nicho. O Salgueiros é uma delas, o Wendigo é outra também, que vai trabalhar com uma questão de horror mais folclórico e tal. E aqui no Salgueiros em específico, me corrija ou complemente se estiver errado, aqui na narrativa a gente vai acompanhar 2 viajantes que acampam ali numa região selvagem nas margens isoladas do Rio Danúbio.
Eles percebem alguns ventos estranhos, algumas águas parecem ameaçadoras, uma vegetação que parece ter uma presença invisível. Aí, Ana, aniquilação aqui já estourando.
Tem bastante de aniquilação nessa história.
É, então me pareceu. E aí, à medida que a noite avança, a natureza deixa de parecer apenas natureza. Os salgueiros se movem, sussurram, cercam e parecem abrir passagem pelas forças para forças antigas, incompreensíveis e profundamente perturbadoras. É isso, Jorge? Tá de acordo com essa sinopse?
É isso. É muito interessante essa história, primeiro porque ela inspirou muita gente, né? As histórias dele, do Blackwood em geral, inspiraram muitos autores, o Lovecraft, o próprio Jeff VanderMeer. E ela, assim, eu não quero dar muito spoiler do episódio, digamos, mas ela traz uma atmosfera É uma história muito de atmosfera, que justamente vai mostrar essa visão de um tipo de vegetação, de um tipo de rio, ao mesmo tempo familiar e estranha.
Vai trazendo essas, justamente na forma de descrever ali, na ambientação. Então é uma história muito interessante. Eu acho que eu escolhi ela para abrir justamente porque ela traz essa inspiração que depois eu acho que se ramifica em várias vertentes. É um, é como se fosse um início ali de uma maneira de encarar e descrever certas coisas, né, das plantas, da natureza ali, que trouxe muitos outros autores depois, né, nessa pegada. Então vale a pena conhecer.
Muito bem. O segundo livro então que a gente vai ler é o romance da Aline Wallach, As Águas-Vivas Não Sabem de Si. Esse livro eu gosto bastante. Ele vai ter uma narrativa em capítulos mais ou menos alternados ali. Em uma narrativa a gente vai acompanhar a Corina, que é uma mergulhadora que tá integrando uma equipe de pesquisa, e como especialista ali em mergulho, no teste do traje especial e tal. Eles vão até uma região muito específica que vai conseguir abranger as condições ambientais para o teste desse traje.
E a Corina vai fazer aí parte dessa missão com alguém que vai estar se relacionando, que tem uma relação muito específica com o oceano. Ao mesmo tempo, nesses capítulos intercalados, que é onde eu acho que tem também uma espécie de estreamento no que a gente tá procurando aqui, a gente tem uma perspectiva que vai dialogar com o que o Jorge falou dessas outras possibilidades de narrativas a partir de perspectivas não humanas. Então a gente tem narrativas preocupadas em imaginar como são essas outras formas de vida e que no decorrer ali, no desenvolver do romance, vão também abordar uma espécie de possibilidade de arte ou de vida ou de existência ou de sociedade de uma outra forma de vida não humana, que aí é a graça um pouco do livro, descobrir o que que é esse mistério das vidas marinhas que a Aline trata.
Uma vez eu fiz uma entrevista com ela, quem quiser ouvir tá lá 30 minutos, mas ela falou uma coisa que eu achei muito legal, que ela falou: tem gente que não gosta dos capítulos das vozes não humanas, tem gente que não gosta dos capítulos dos pesquisadores, dos humanos ali. Então ela fala que ela contou que ela tem uma perspectiva bastante dividida da recepção desse livro em relação a quem prefere qual parte. Eu achei muito curioso essa ideia dela.
Você conhece esse, Ana?
Esse é um que desde que a Aline lançou eu quero ler e eu ainda não tinha lido, então vai ser a minha chance de tirar ele ali para ler. Porque eu achei muito interessante desde a época que saiu, mas sabe quando o livro fica ali e você não chega nele nunca? Chegaria agora. Então é um dos que tava sempre aqui no meu horizonte.
Esse é um livro também muito interessante assim, porque ele é ao mesmo tempo uma ficção científica, né? Ele trabalha ali um ambiente, né, uma ambientação 3.000 metros de profundidade, e tem uma coisa meio como se fosse um astronauta chegando no lugar, né, que esses mergulhadores vão estar ali descobrindo uma outra realidade. Então tem muito desse estranhamento de um lugar que existe, mas a gente não tem acesso, né. Então tem esse, muitas descobertas, né.
E a descrição da Aline ali, na forma como ela traz essa imersão, tem toda uma poética, toda uma questão muito sensorial. É um livro muito bonito e muito em todos os sentidos. Tem o lado psicológico, a solidão, o silêncio daquele lugar. E aí a gente vai de 1907, lá dos Salgueiros, pra 2016 nesse livro. Mas eu vejo um link entre eles no sentido dessas descrições, dessa forma de estranhamento mesmo.
E aí, mantendo o recorte geográfico, a gente vai de Ayrini Valek pra Elígia Fagundes Telles, pra dois contos do livro Seminário de Ratos. Que Seminário de Ratos foi publicado em 1977 e na sinopse aqui da editora reúne alguns dos contos mais sutis e complexos de Lígia Fagundes, que palmilha o terreno do fantástico e lança mão de todos os seus recursos literários para tratar de temas como o amor, a loucura, a velhice, o poder e a morte.
A Lígia, eu particularmente não conheço os dois contos, pelo menos não de título, que são os contos As Formigas, Herbário e a Mão no Ombro. Acho que As Formigas é aquele das formigas com esqueleto, né, que as pessoas geralmente comentam. Talvez seja um conto mais conhecido, mas o Herbário e a Mão no Ombro de fato eu nunca li. E eu tive uma experiência muito curiosa com a Lígia, porque enfim, a Lígia geralmente nos grupos ela tem aquelas brincadeiras, né, de Lígia ou Clarice.
E a Clarice eu acho mais difícil em alguns pontos, e a Lígia eu olho pra cara dela e falo, ah, fofinha, né, simpática. E aí no ano passado, ano retrasado, eu fui ler As Meninas, fui de maneira desinteressada. Falei, ah, as meninas, uma senhora simpática. Coloquei de noite no Kindle, deitei para ler. Falei, não, não vai dar para ler isso aqui agora desse jeito. Não é desse jeito, ela só tem uma cara de simpática.
Esse livro é muito mais interessante.
Era só uma fachada. E aí eu fui dormir e recomecei no dia seguinte com muita mais tranquilidade, porque eu olhei e falei, não, gente, que não vai dar para ler desse jeito não, não é desse jeito, fui ludibriado. Mas se vocês tiverem lido ou quiserem comentar mais em específico desses contos, por que que as pessoas deveriam ler?
Esse, a Lígia, né, entra naquilo que a Ana comentou assim, né, são contos que talvez muitas pessoas conheçam e leram sob outras perspectivas. Mas eu gosto especialmente dela assim, eu acho que ela tem isso que um pouco do que você falou assim, ela trabalha temas muito profundos e às vezes que são porradas meio nas entrelinhas, né? Então as descrições às vezes são simples, é um texto que parece fácil, né, que a gente começa a ler assim, vai, tá tranquilo aqui, vou ler e tal.
E aí quando você percebe, você tá envolvido em uma coisa muito mais profunda do que aparentava. Então ela usa do fantástico, de uma coisa meio realismo mágico assim, para trabalhar às vezes temas bastante importantes, né? Luto, questões de morte, até de sofrimento, e tem as questões da natureza também. Então tem bastante, são muitos elementos assim, são contos curtos, mas muito complexos e que trazem muito desse estranhamento, justamente porque ela usa de alguns recursos para nos impactar ali através disso.
Então são contos que vão trabalhar desde o sonho, né, da atmosfera onírica, até uma coisa mais fantasia mesmo, pra nos dar essas porradas que são talvez a marca dela, assim. E esse livro como um todo, Seminário dos Ratos, ele tem um pouco dessa característica e a gente escolheu alguns contos que estão mais próximos dos nossos temas aqui e acabam sendo bem estranhos também. Principalmente quando a gente põe esse outro olhar sobre eles.
Eu li esses contos há muito tempo e eu ainda não reli. Então eu tô só com a impressão que eu tive deles. E é realmente uma impressão estranha, assim. É um... Isso que o Arthur falou da Lígia, você pensa assim, ai, que querida, né? Que senhora chique. Eu acho a Lígia chique, assim. Ai, que mulher chique. E aí você pensa, mulher de Deus, pelo amor de Deus, o que você tá fazendo? Então a sensação que eu tenho desses contos até hoje é uma sensação que quando eu vi que o Jorge colocou na lista, eu pensei, claro que é isso, eu não tinha pensado por esse lado.
Então eu estou muito curiosa de reler com esse direcionamento, porque se eu tiver que falar o enredo de algum aqui, eu já não consigo, tem muito tempo que eu li. Mas a sensação, quando eu lembro, é essa sensação de para onde é que está indo, sabe? Que é uma sensação que a Lígia deixa na gente, né? Eu gosto muito da Lígia. A sensação que eu tenho, eu li As Meninas há muitos anos, e também assim, eu lembro sensações do livro. O Ciranda de Pedra, eu lembro de sensações.
Então ela trabalha muito isso, essas imagens que ficam e a forma como você se sente enquanto lê. Então é uma das leituras direcionadas que eu tô esperando assim, de falar, ah, então era isso, estava o tempo todo aqui, eu que não tinha visto.
Depois de Lígia, outro autor do nosso, abre aspas, cânone, ou com leituras já conhecidas, como a Ana descreveu. São dois contos do Guimarães Rosa, o Conversa de Bois, que tá em Sagarana. Eu gostei muito que o Jorge colocou esse aqui, já explico por quê. E o Meu Tio, o Iawarité, que tá em Estas Histórias. O Conversa de Bois foi o primeiro conto, a primeira coisa que eu li de Guimarães Rosa. Foi num dia também de noite, por incrível que pareça.
Eu resolvo fazer as leituras mais curiosas de de noite. E aí eu comecei a ler e eu fiquei, caraca, que brisa é essa? Que quantidade de palavra para descrever padronagem de pelo de boi é essa? Pelo amor de Deus, que é essa quantidade de coisa? Mas esse eu li até o fim, achei incrível. Mas eu fiquei impressionado, falei, eu vou simplesmente ignorar essas palavras que eu não conheço. Depois que eu parei muito tempo pesquisando palavras muito específicas de quais eram os termos para o padrão da cor Falei, bom, vamos ver onde vai dar.
E aí eu fui, fui lendo em voz alta para minha irmã e aí cheguei no final ali, mas foi uma experiência muito legal e bastante contato com o estranhamento que para mim perpassa bastante a linguagem ali, né? Não sei se foi essa a ideia que você teve na seleção.
É, o Guimarães traz essa característica, né, de ter um estranhamento que não é só da linguagem porque tem o protagonismo diferenciado, tem no Do Tio e ao Aretê, tem toda uma coisa até fantástica, até meio fantasia, mas a linguagem tá talvez na frente assim, né, na fronteira desse estranhamento mesmo, né. Ele usa da linguagem, isso ele faz em todos os contos, né, para nos causar formas diferenciadas de estranhamento e de envolvimento, e às vezes de não conhecimento, o desconhecimento como uma ferramenta para estranhar.
Também, de certa maneira. Então ele, né, eu entendo que o Guimarães ele trabalha várias frentes, né, várias frentes estranhas, digamos assim, né, vários recursos, mecanismos que propiciam esse tipo de sensação, né. Você contou até, né, várias sensações lendo o conto, primeiro não conhecendo, depois se familiarizando, depois contando para outra pessoa. Então é uma toda uma gama de sensações diferenciadas além do Guimarães. Então eu trouxe também por isso, mas porque também o tema deles, né, tem esse protagonismo não humano.
No Meu Tio Iauaretê tem uma questão de a fronteira entre o que é o humano e o que é o não humano. Tem ali uma questão de ambientação também, selva. Tem uma questão colonial grande ali de Ele já trabalha ali uma questão de exploração, né, de genocídio de espécies, e tem muitas questões trabalhadas nesse conto, que é um pouco mais longo que os outros, né, mas é também bastante— ele é difícil de ler, né, eu acho que não é tão simples assim, né, você adentrar no Guimarães, talvez vá precisar ali de mais de uma leitura e tal, mas é muito importante assim, é bem, bem bastante impactante nesse esse tema, né, nessa temática.
Esses contos eu conheço, eu já comentei algumas vezes. Quem escuta a gente já me ouviu falando disso, que o que eu gosto em podcast literatura é você poder entrar em contato com leituras, mesmo as leituras que você não vai fazer. Esse meu interesse não surgiu com podcast, surgiu desde que eu me entendo por leitora, que é saber do que se trata mesmo não tendo lido. Porque eu acho que isso enriquece, sabe? Você saber quem é Guimarães Rosa.
Eu nunca li, mas eu sei quem é Guimarães Rosa, ou eu sei que ele é o escritor de Sagarana, ou eu sei, sabe? E esses contos, eles estão nessa gavetinha aí de que eu já ouvi falando, pessoas falando a respeito, discutindo a respeito, mas eu mesma ainda não li. Eu tava ouvindo o Arthur falar do estranhamento, né? O primeiro estranhamento vem com a linguagem. E a minha família é do Norte de Minas, então eu acho que eu tive 1% menos estranhamento com Guimarães do que as pessoas, sei lá, pessoas do Sudeste, do Centro-Oeste, aqui de onde eu sou.
Porque as pessoas no geral acham que ele inventa muita coisa, e ele inventa muita coisa, mas tem muita coisa que é, embora aquela palavra não seja, sei lá, ele inventou, mas ela vem de uma tradição de formação de palavras daquela região do sertão de Minas, que é o sertão da Bahia ali, né? Aqui, sul de Minas, norte de Minas, sul da Bahia, ali aquele sertão sozinho ali, ele é... Por ter um ouvido já meio acostumado com isso, eu tive esse primeiro estranhamento, na verdade foi uma redescoberta, né, de formas de falar ou de maneiras de formar sentidos.
Usando uma palavra ou inventando uma palavra e você reconhecer mais o significado dela pelo som do que pela palavra em si, porque a palavra foi inventada e tal. O que me é muito caro quando fala de Guimarães Rosa, eu gosto muito disso, né, pessoalmente falando assim. Mas ultrapassar essa primeira, esse primeiro estranhamento, ele é um passo muito grande na vida do leitor, eu acho, porque Tem momentos na nossa vida de leitor que você, que a sua dificuldade é literalmente ler.
É assim, que que é isso? Eu não estou entendendo essas palavras. E quando a gente é mais novo, claro, né? Se vocês já pegaram alguma coisa que vocês tinham lido há muitos anos, ou os meus, eu que sou uma grande riscadora de livros, eu pego livros meus que tem assim palavras que hoje para mim são corriqueiras e que tava lá marcado e tava o sinônimo do lado. E eu achei isso muito especial assim, muito legal. Mas é um primeiro estranhamento com aquela linguagem.
E aí o Arthur falou, né, das palavras assim que até cansou de pegar no dicionário. Tem hora que você tem que deixar a leitura fluir, igual as professoras falavam, né? Não, primeiro você lê, depois você volta para procurar. E a gente tem a tendência de primeiro procurar. E eu lembrei da minha primeira leitura do Velho Mar, que é um livro que eu já li várias vezes, que é um livro que eu amo. E aí eu peguei o Velho Mar em inglês e comecei a ler.
Eu tava lendo no ônibus. Ao contrário do Arthur, eu faço às vezes leitura maluca em ônibus. Eu fico, nossa, mas não vai dar certo isso aqui, eu preciso de mais concentração. Mas o seu é de dormir, as suas leituras malucas de comer.
É, mas aí eu me arrependo.
É, mas eu também me arrependi porque eu peguei, era para ser uma leitura no ônibus, e aí eu pensei, não, eu preciso de mais ferramentas para conseguir ler isso aqui. Essa não é uma leitura de ônibus. E aí eu achei que a minha dificuldade era com o inglês. Eu pensei, ok, o inglês não tá nesse nível ainda, vamos voltar um passo atrás. E aí eu baixei uma versão em português, só que eu não tinha visto que era português de Portugal.
E aí tava mais difícil ainda. Quando finalmente eu cheguei numa edição brasileira, eu pensei, é, não, é o Hemway, não é o problema. É em português de Portugal, foi pior do que em inglês. E quando Eu me dei conta de que eu vou ter essa dificuldade, vou só encarar, porque são palavras muito específicas de um anzol específico do couro do peixe, se esse peixe é de couro ou é de escama, e se ele não— Cara, o problema aqui não está sendo a língua, tá sendo a eu, é o meu léxico não chegou lá, vamos lá.
E aí foi, o Arthur tava falando Guimarães Rosa, eu lembrei dessa sensação de que não, Então deixa eu conhecer a história e depois eu volto para esses meandros, que faz parte do estranhamento também. Estranhamento não é só tema, ele também é forma. E aqui a gente vai levar vocês pelos dois caminhos, que é o tema e a forma às vezes. Então segura aí, vai dar certo.
Bom, a gente sai então desse trio de autores nacionais e vamos para o primeiro grande um aviso a vocês, queridos ouvintes, que é o episódio de A Trama das Árvores, de Richard Powers. O aviso é porque este livro que será discutido no 5º episódio é um livro de 648 páginas. Então a gente deixou esses contos para vocês, essas narrativas menores no começo, para vocês já irem se acostumando e pegando o ritmo para ler A Trama das Árvores assim que possível.
Então quem for ler com a gente, fica já a dica de programação para tentar encaixar pelo menos uns trechos desse livro aí até o episódio. E o livro que venceu o Pulitzer faz parte do que agora é parte do mercado chama de ficção climática. E a sinopse é, abre aspas: um oficial da Aeronáutica Americana mergulha desgovernado pelo céu com seu paraquedas e se salva ao aterrissar sobre uma figueira de Bengala. Um artista herda 100 anos de retratos fotográficos, todos da mesma castanheira destinada a sucumbir.
Uma estudante universitária é eletrocutada, morre e regressa à vida graças a algumas criaturas de ar e de luz. Um cientista descobre que as árvores se comunicam umas com as outras e é desacreditado pelos colegas. Esses 4 personagens e outros 5 desconhecidos, todos convocados de maneiras diferentes pelas árvores, se reúnem em um esforço coletivo para salvar os poucos quilômetros restantes de floresta virgem do continente americano.
Ao entrelaçar histórias e vozes de maneira magistral, A Trama das Árvores explora o conflito essencial do nosso planeta, aquele entre humanos e não humanos. Existe um universo próximo ao nosso, vasto, lento, interligado, engenhoso, magnificamente inventivo, e no entanto quase invisível para nós. Essa é a história de um punhado de pessoas que aprendem a enxergar esse mundo e são atraídas para sua catástrofe em pleno desenvolvimento.
É o nosso livro de descobertas, a gente vai ler junto com vocês. Além do Calhamaço, é um livro que a gente vai ler junto com vocês, é um livro que a gente tinha interesse e que a gente não leu ainda, mas que vai descobrir junto com o decorrer do episódio. Apesar de ser um livro oculto, a gente chegou a pesquisar antes, já era um livro que tava no nosso radar e no nosso interesse, é um livro bem recebido, então a gente vai ter essa descoberta com vocês.
É legal comentar que esse bloco agora, né, terminando ali os 4 primeiros e esses 4 outros, a gente vai para uma parte mais ficção científica, né, fantasia, entra numa outra categoria assim, né, sai um pouco do realismo mágico, uma coisa mais também da linguagem assim, vai para uma coisa mais da imaginação mesmo, digamos, né? Apesar de que As Águas-Vivas tem um tanto disso, mas O Trama das Árvores é esse, é um livro que eu ainda tô lendo também e ele foi muito bem falado e ele tá relacionado às discussões bastante atuais, dessas que a gente comentou da crise ecológica, do desmatamento e tal.
Mas ele traz uma questão temporal muito interessante dessas histórias que às vezes falam de gerações de uma família relacionadas a uma árvore. Toda essa trama entre humanos e não humanos, entre principalmente as plantas, né, as árvores, que são o foco principal aí do livro. E vai passar por histórias que são ao mesmo tempo muito realistas de famílias que podem muito bem ter existido, até outras histórias que vão mais para um lado mais fantástico.
Então eu tô com grande expectativa. Até onde eu li, é muito bom assim, a narrativa flui assim que é uma beleza e é muito interessante. Então tô bastante expectativa do que que vai vir ainda.
Para mim, esse é o grande livro da temporada. É um que tava ali também assim nessa, nesse radar, né, dos leitores. E mas eu não tinha lido sinopse, mas já tinha gostado do título e eu fiquei tão interessada, meu Deus! E quando eu vi que ele é um tijolo, eu pensei, tem que ser uma leitura combinada, porque senão vai entrar na roda-viva do depois eu leio, depois eu leio, depois eu leio. Então é a chance de todos nós darmos as mãos e lermos A Trama das Árvores, abraçarmos esta árvore que é— vamos abraçar essa sequoia.
Depois de A Trama das Árvores, voltamos para as narrativas curtas e a gente vai ler os contos da boliviana Liliana Colanzi, que apesar de não ser brasileira, um dos contos é justamente sobre— se passa, né, tá relacionado ali com o Brasil. A gente tem ali A Caverna Atômetro e Vocês Brilham no Escuro. E este, um livro que vai tratar do incidente que teve ali de Sérgio. Eu não tinha ciência ainda dessa autora, Jorge, não sei qual sua relação com ela, mas eu achei bastante interessante conhecer essa coletânea como um todo, a proposta dela.
Para quem não conhece a coletânea, que tem uma sinopse que é, abre aspas, uma forte vinculação a determinado espaço une os contos de Vocês Brilham no Escuro, seja região onde o axácono méxico El Alto, vilarejos amazônicos ou uma comunidade religiosa na Bolívia ou mesmo a cidade de Goiânia, a história e a cultura desses espaços marcam vivamente as personagens e suas trajetórias. Novas tecnologias e configurações sociais não apagam raízes históricas e crenças ancestrais, e Liliana Colanzi explora com precisão essa convivência e as ansiedades que a permeiam. Ganhou o Prêmio Ribeira do Ouro 2022.
A Liliana tá dentro dessa nova geração de escritoras latino-americanas que trabalham questões em torno do insólito, da ficção científica, do realismo mágico, às vezes se aproximando um pouquinho do horror ali. Ela em especial nesse livro traz muito dessas temáticas, principalmente da temática das contaminações, né? Eu entendi até que ele iria mais por esse lado aqui nessa, na ordem da nossa lista. Falando de natureza, eu Conto da Caverna em especial fala conta de uma caverna ao longo de várias eras, então ele tem uma certa relação ali também com a trama das árvores e nos faz pensar desde o passado profundo até o futuro profundo.
E os outros vão mais para um lado da contaminação, tanto nuclear quanto essa questão do Césio-137, que aconteceu justamente no Brasil e também nos é próxima e trabalha de certa forma coisas que são da natureza, mas que engendradas ali de uma outra maneira se transformam em algo que nos é prejudicial, que de certa forma é o que a gente tá fazendo com o clima. E a forma como ela trabalha o estranhamento também é muito interessante, de várias maneiras ali também, tanto com essa questão de trabalhar familiaridade com estranhamento, quanto um pouco da linguagem, mudanças de perspectiva e de temporalidade.
Os contos variam muito, isso é bastante interessante. Todos eles são muito bons assim, mas escolhemos esses 3 para trabalhar mais em foco.
Então, indo para reta final, temos 2 leituras de missão muito caras. O primeiro deles é o mangá de Hayao Miyazaki, A Náusica do Vale do Vento, o mangá que foi parcialmente adaptado, né, pelo filme de mesmo nome, e vai contar a história principalmente de um mundo, né, ali segundo a sinopse da Amazon, é um mundo que a poluição tomou conta, as águas, o ar e as florestas foram contaminadas por causa do crescimento da industrialização.
E é nesse mundo caótico, onde até mesmo o ar é venenoso e sem esperanças, que Nausicaä do Vale do Vento enfrentará uma jornada que decidirá o futuro da humanidade. Eu comecei a fazer uma espécie de projeto, de ideia, de tentativa de assistir todos os filmes do Studio Ghibli em ordem cronológica. Eu assisti 8 só e até agora o meu preferido ainda é o— não, gente, é porque tem trocentos, né? Então eu fiz o que eu posso, mas já é um bom começo, pô. 8, mas é que isso já faz 3 anos, mas tudo bem.
Mas eu queria dizer que esse ainda é o meu preferido justamente porque que eu gosto muito de como o filme propõe formas e perspectivas de se aproximar dessa questão da catástrofe climática, de tentar lidar com essa percepção do outro, do não humano. E ao mesmo tempo tem uma coisa que eu gosto muito das narrativas, que é essa espécie de temporalidade nos elementos que ficam pelo cenário. Então tem muita coisa ali que a gente entende a temporalidade ou passado pela observação de como o fundo é trabalhado.
Isso é uma coisa que eu gosto bastante, desde, sei lá, Hora de Aventura até outras narrativas assim, sabe? Quadrinho tem bastante. O Aki, acho que do Richard McGuire, tem muito dessa camada do tempo nos lugares. Isso me apetece muito.
Esse mangá, ele, eu já gostava dele, né, do filme, de ter visto primeiro o filme antes de ter lido. Mas ele, eu encontrei, descobri assim, surpreendentemente, que ele é muito comentado por vários autores que falam da questão climática, da questão do Antropoceno. Muita gente comenta, Dona Haro e Anat Singh, vários autores desses comentam sobre o Nausicaä. E realmente assim, ele é bastante inovador nesse tema. Miyazaki escreveu de 82 a 94, né, os 7 volumes.
Do mangá. E ele já trabalha desde o primeiro essas questões de, né, existe uma camada contaminada por causa de coisas que os humanos fizeram em algum momento, que ali brotam outras coisas que criam todo um outro ecossistema, e aquilo pode ser ameaçador de alguma maneira. E tem gente que não entende aquilo, olha como se fosse só algo a ser destruído, etc. Então ele já trabalha, né, temas que são totalmente atuais ali naquele momento.
Então é bastante, bastante de vanguarda, né, como narrativa. E além de tudo é muito, muito legal assim. Os personagens são totalmente, né, já são estranhos em si mesmos. Ele já tem toda uma coisa de uma construção criativa do mundo. É muito bonito assim, eu gosto muito mesmo. E o filme é baseado em mais ou menos 2 dos mangás e E depois ele, do 3 para frente, expande ainda para, né, mais eras ali do mundo, tá? Então recomendamos muito também.
Sim, sim, eu acho que é dos que vai chamar bastante atenção dos ouvintes assim. Eu vi o filme também e eu vi numa mostra que aí eu ia ajudar o Arthur a terminar o planejamento dele, porque era a mostra do estúdio, e foram, foi um mês assim de filme, e aí eu assisti assisti, segui, eu assisti num dia o Nausicaä e no outro dia o Princesa Mononoke. Então eles estão muito, muito relacionados para mim assim. É, e eu, nossa, eu gosto imensamente, imensamente.
Estou muito feliz de poder ler, eu que não sou uma leitora de mangá. Então eu só leio nessas oportunidades. Aliás, né, mas acho que quadrinho no geral eu tenho lido nessa e tenho gostado muito. Então eu estou mó feliz.
Se tiver um caramujo ainda Sou, tem que ter Caramujo.
Eu espero muito que tenha Caramujo.
Uma grande felicidade minha uma vez foi ver tudo que Ana Raíssa tinha lido e registrado no Goodreads e chegar a, sei lá, 8 anos atrás e ver vários quadrinhos ali, uns Batman perdidos. Eu falei, olha só, Ana tem esse lado, ela gosta.
Nossa, eu li demais.
Maquiada, ela gosta de bonequinho também.
O passado nossa paga.
Um detalhe, são 7 mangás. Puxa, quantos eu vou ler? Vai lendo. O importante é começar a ler, discutir, ver onde interessa. Pega o primeiro, vê até onde vai, vai seguindo. Como o Jorge falou, mangá e o filme, né, eles são na proporção de 2 mangás e 1 filme. Então você pode assistir e depois ler, pode ler e depois assistir, pode ler os 7. Enfim, eu particularmente vou tentar ler os 7. Mas não sei nem se há espaço pra gente discutir 7 mangás em um episódio. Então assim, eu tô com essa aflição aí, mas eu tenho a intenção de ler os 7.
Eu gosto muito dessa— É, eu também tô com os 7 aqui esperando esse momento de serem discutidos.
Meus últimos chegarão semana que vem, mas é isso. Então não se sintam intimidados pela quantidade de volume, assistam.
Não é porque tem um livro de 600 páginas pra discutir antes, que a gente vai deixar de pegar 7 volumes para ler depois. Exato, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
O tempo é uma coisa só. E para encerrar, a gente tem o volume Salmo para um Robô Peregrino, escrito pela Beck Chambers, publicado há um tempo pela Morro Branco, agora integrante da Altabooks. É um livro que eu já digo para vocês que pode causar um estranhamento porque é um livro que foi escrito em inglês numa linguagem neutra, e aqui a tradução do Fábio Fernandes manteve essa opção da Beck. Então é um livro que está escrito com a voz narrativa de Elo, e como não é uma construção comum na nossa língua, ela vai causar um estranhamento.
E aí eu gosto de fazer um aviso porque a gente leu esse livro no clube e eu adorei, tá? E aí, antes de falar, explicar para vocês, eu acho que esse livro tá num num espaço, pelo menos a minha chave de leitura funcionou por aí, de um espaço quase arquetípico, de um espaço quase simbólico da construção ali. Porque me parece em algum momento que a gente vai acompanhar a vida desses personagens e vai fazer um ciclo, né? Que que eu quero dizer?
A gente tem a vida ali de Dex, é Irma Dex, né, que é uma pessoa ali que tá, é uma pessoa que é uma monge que trabalha ali com, que faz chá, que trabalha ali também com uma questão de se encontrar espiritualmente, até o momento em que ele alcança e fala: não, não, eu vou encontrar um sentido para vida. Aí vai viver ali numa carroça de chá que passa pelas cidades, que faz quase um processo terapêutico com as pessoas, de ouvir os desejos delas ali e tal.
E depois passa, continua refletindo sobre a vida e fala: bom, não é isso. E aí encontra o grandissíssimo robô Chapéu de Musgo.
Tudo, tudo, Chapéu Chapéu de Músico, meu melhor amigo, amo.
E aí que eles vão discutir um pouco sobre o sentido não só da vida como de existir, né? Tem um diálogo maravilhoso que o Chapéu de Músico fala, mas o que que você é? Aí o MDex fala, não, faço tal coisa. Não, não, beleza, isso é o que você faz, mas o que que você é? Para que que é a vida? E aí no fim das contas, para nada, para nada. E me parece que um pouco desse estranhamento que esse livro vai causar, um lugar no que a gente vai é um espaço mais de reflexão do estranhamento para o sublime ali.
Me parece, no final, vou deixar uma pista aqui, talvez que a gente tem uma espécie de fechamento de ciclo entre 3 níveis diferentes de existência, entre o que é considerado uma deidade, o que é considerado uma vida orgânica e o que é considerado uma vida não orgânica. E todos esses 3 círculos de existência se conectam numa espécie ali de de ritual e de questão circular. Eu gosto tanto desse livro que eu fiquei com receio dele nunca sair em português, a segunda parte, e eu doei a minha primeira parte e comprei a edição 2 em 1 em inglês, porque eu quero muito ler a continuação.
Eu gostei muito desse livro, é bom demais ser doido. Para mim, talvez o grande estranhamento, não sei se o Jorge acha, é o fato de ser um livro otimista e um livro que te deixa com vontade de viver. Talvez esse seja a parte mais esquisita de uma possibilidade.
Para mim, o estranhamento foi esse aí, não vou mentir.
Bom, talvez no cenário atual, né, isso seja bastante estranho, inclusive porque só sai história, né, filmes, só sai coisa de catástrofe, de fim de mundo, né, apocalipse e tal. É difícil ver uma utopia, e foi por isso que eu escolhi ele de propósito, porque eu queria encerrar com uma coisa que nos desse no mínimo um quentinho assim de que, bom, é possível pelo menos ter alguma esperança. E ele vai contar de um mundo onde já houve, né, catástrofes e tudo isso que a gente tá vivendo, muito pior, mas que eles encontraram ali uma harmonia, né.
Ele fala de harmonia e ele fala de convivência, de outras formas de habitar o mundo, tudo aquilo que a gente falou no começo de que a gente precisava, né. Então é um pouco, né, de reflexões que a gente precisa, e que claro vão nos causar estranhamento porque diferem da nossa prática diária habitual. E assim, enquanto psicanalista, é um livro que eu gosto muito também porque ele traz bastante essa questão do sentido da vida, né, do que que a gente tá fazendo aqui, para quê, por quê, né, e de que vale tudo isso, né.
Se a gente vai destruir tudo, né, para quê, né. Então eu acho que ele né, é muito, é um livro sutil assim, delicado até nessas questões mais íntimas, psicológicas e tal. Gosto muito também. Eu não li a segunda parte, acho que eu vou fazer uma coisa meio estranha igual o Arthur e pegar o em inglês para ler.
Eu fiquei muito aliviado porque eu falei palavras como arquetípico e terapêutico. Eu falei, cacete, o Jorge tá aqui, eu nem sei.
Na frente do Jorge.
Exato. E eu usei de forma tão instintiva falei, ai, cacete. Aí quando você falou, foi, então tudo bem. E foi muito legal porque quando o Jorge propôs, quando geralmente a gente propõe os livros, né, a gente discute, tá, o que que vocês acham, tal. A gente fica numa espécie de mesa redonda ali para conversar. Eu falei, eu gosto muito desse livro, Jorge, mas eu queria entender por que que você colocou ele numa coisa de estranheza.
E acho que vai ser uma discussão bastante interessante para a gente falar sobre esse espaço.
É, eu gosto dele como Quando a gente pega uma distopia, geralmente é um mundo em que a catástrofe aconteceu e tá tudo péssimo. É um Mad Max assim, ó, aconteceu aqui uma catástrofe qualquer e tá tudo terrível e as pessoas estão tentando sobreviver. Na utopia, assim, olha, já aconteceu, a gente superou e tá tudo bem, né? Você tá assim, tá tudo bem, a natureza se recuperou, o mundo tá funcionando, a forma como ele, como a narradora descreve as espécies de vilarejo por onde Dex vai passando, mas gente, que delícia é a vila dos Smurfs sem o Gargamel assim, tá tudo correndo bem, tá tudo tranks.
E a ideia de haver monge do chá já me deixa feliz. Como não haver um monge do chá? O mundo precisa disso. O dia que a gente tiver monges de chá passando aqui, ó, com a em que eles servem seu chá. E às vezes você só toma seu chá, às vezes você desabafa ali, às vezes você tem uma coisa para contar ou tem uma coisa para ouvir. Eu já estou me reequilibrando só de lembrar da existência desse livro.
Muito bem, o livro para suas férias, Ana.
Sim, também não li a segunda parte, talvez venha aí.
Pois 700 páginas de Trama das Árvores e 7 volumes de Náusicaä, com certeza. Tá vendo?
É uma boa ler na ordem, porque aí termina com astral para cima, que é o que o Jorge queria. Jorge não quer a gente triste, pensa aí. Ó, sim, Jorge me quer triste? Não.
Contra-intuitivo, né?
Totalmente, né? Psicanalista, você quer o quê? Quando você acha que você entendeu o que que o psicanalista quer, ele te devolve a pergunta. Ó, que absurdo!
Muito bom. Então essa é a apresentação da nossa terceira temporada. Para que ela não seja a nossa terceira e última, fica a nossa recomendação para vocês acessarem o Apoia.se, que é apoia.se/insiders. Se/leituraestranha, tudo junto, leituraestranha, você pode ter acesso às nossas faixas de apoio. Felizmente a gente tá numa faixa em que a gente consegue pagar já a edição dos episódios para o Ace. Ainda não é o valor que a gente queria, mas é o valor que a gente consegue pagar o acertado com ele.
Então se vocês quiserem contribuir, dá uma olhada na faixa de apoio, nas recompensas, vocês podem acessar lá e ajudar a gente a aumentar o financiamento para pagar um valor melhor para o Ace e também para a gente liberar as próximas recompensas. A gente já tá pensando aí no que que pode chegar a vir nas próximas etapas, nas próximas metas do projeto. Então a gente já tem algumas ideias de, de repente, publicação de ficção, outros episódios de outras mídias, ou até mesmo a produção desses textos mais longos sobre os livros que a gente trata nos episódios, para vocês poderem acessar com mais facilidade.
Mas isso a gente só pode conseguir se a gente tiver o seu apoio, a sua ajuda lá no link do nosso financiamento coletivo. O link também tá aqui na descrição do episódio, vocês podem clicar lá e conferir. Lá também é onde vocês vão ter acesso a tudo, todos esses episódios, as datas, aos títulos por extenso, e também as nossas redes sociais pessoais para vocês acompanharem e conferirem os próximos episódios. Fique de olho nas redes sociais quando eles vão sair. A gente fica por aqui e voltamos daqui 15 dias com mais uma Leitura Estranha.