O que ninguém te conta sobre a saúde mental da mulher: ciclo hormonal, burnout e TDAH
Talvez você não esteja fraca. Talvez você só esteja cansada de carregar o mundo sozinha nas costas.
No episódio de hoje, a Dra. Laís Freire Silva, psiquiatra especializada em saúde mental da mulher, fala sobre o que a gente raramente nomeia: o peso de performar em todas as áreas da vida ao mesmo tempo, o impacto real do ciclo hormonal na saúde mental, por que mulheres são diagnosticadas com TDAH muito mais tarde do que homens, como funciona um tratamento psiquiátrico de verdade, e o que muda na vida de uma mulher quando ela finalmente para de se colocar por último.
Dá o play e me conta: você já parou pra se perguntar se o que você está sentindo tem nome?
Site da Dra. Laís: https://www.laisfreiresilvapsiquiatra.com/
Nos acompanhe nas redes:Instagram do Valente Cast: https://www.instagram.com/valente.cast/Spotify: https://open.spotify.com/show/5Ns8itpE1KptD2DOTENtwVDeezer: https://www.deezer.com/br/show/1002058851Apple Podcasts: https://podcasts.apple.com/us/podcast/valente-cast/id1828431040
TikTok da Graziela: https://www.tiktok.com/@grazielajurca
Instagram do Jurça Fanti Advocacia e Consultoria: https://www.instagram.com/jurcafanti/
- Ciclo Hormonal e Saúde Mental FemininaDinâmica hormonal e ciclo menstrual · Impacto na qualidade mental · Fases do ciclo menstrual (folicular e queda hormonal) · TPM e sofrimento latente · Menopausa e climatério · Alterações hormonais e saúde mental
- TDAH em MulheresExpressões típicas masculinas do TDAH · Adaptação feminina e resiliência · Camuflagem de sintomas · Diagnóstico tardio · Impacto hormonal no TDAH · Diferença entre TDAH e exaustão
- Tratamentos psiquiátricosFases do tratamento: conter o incêndio, intervenções e desmame · Papel da medicação · Medicina do estilo de vida · Autocompaixão e autoconhecimento · Autorresponsabilização · Fluidez das emoções
- Impacto da Pandemia na Saúde MentalMudança de olhar sobre as relações · Necessidade de relacionamento · Olhar para dentro · Conhecer o outro e a si mesmo · Dilema do contato social
- Trajetória Profissional da PsiquiatraInteresse em saúde mental · Observação e mediação · Formação e contato com a saúde mental · Escolha pela psiquiatria · Encontro na psiquiatria
- Autocuidado e Autoestima FemininaCapacidade de projetar-se na vida · Aceitação de si mesmo · Exploração da potencialidade · Autenticidade
Tem um tipo de cansaço que não melhora com descanso. Não é só físico, é mental, emocional e existencial. É o cansaço de dar conta de tudo, de ser forte o tempo inteiro, de se colocar sempre por último e ainda se sentir culpado quando tenta se priorizar. Talvez o mais assustador é que muitas mulheres nem percebem que já estão adoecendo. Para falar sobre isso com muita responsabilidade e profundidade,
Eu trouxe hoje a doutora Laís Feire Silva, que é psiquiatra especializada em saúde mental da mulher. Laís, seja muito bem-vinda e muito obrigada por topar e gravar esse episódio comigo. Obrigada. Boa tarde a todos. Espero ajudar vocês a entender um pouquinho mais sobre saúde mental da mulher. Perfeito. Laís, antes da gente falar sobre a sua atuação hoje em si, me conta como você chegou até aqui, né? Da onde veio essa ideia de fazer psiquiatria? Como surgiu esse desejo?
Acho que a interface de saúde mental sempre se fez presente na minha vida, porque eu sempre fui uma pessoa muito observadora e mediadora, né? Então, acho que não sabia que isso tinha um toque especial dentro de um contexto de psiquiatria.
mas era algo que se fazia presente na minha vida, na minha vivência. Eu gostava muito de observar os cenários, e acho que durante a formação me deparei com muitas realidades ali que proporcionaram esse aprofundar ali das vivências. E quando eu me formei...
Eu acabei atuando ali dentro de um cenário de cuidado em saúde, né? Eu trabalhei em unidade de saúde, assim que eu formei, no período ali entre a residência, e eu acabei tendo um contato muito ativo com a saúde mental mesmo, né? Eu acho que por muito tempo foi e ainda é negligenciado.
e a maioria dos profissionais não tinha esse olhar e esse cuidado com os pacientes, eu acabei sendo um chamariz, né? Eu inicialmente, eu ia fazer o torrino, e a psiquiatria acabou me conquistando ali de uma forma bem ativa, eu trabalhei no consultório na rua.
Então, eu achei que isso encaixava muito bem dentro de um contexto da minha vida e acabei prestando prova de residência para a psiquiatria. E eu acho que me encontrei dentro desse cenário de observação, de entendimento, de escuta, de empatia com as pessoas. Acho que foi o que me encantou e ainda me encanta na psiquiatria e na saúde mental como um todo.
Perfeito, é muito curioso, porque se a gente analisa tendência de mercado, saúde mental é um assunto que a gente fala dele não faz nem 10 anos, eu acho, acho que 10 anos ainda é muito tempo, e com seriedade, eu diria que...
começou pós pandemia, né? Porque antes assim, o pessoal de mim não era absolutamente tido como ai, que mimimi, ai, que frescurentra, mas nossa, eu não tinha nada disso quando tinha sua idade. E hoje, principalmente depois de todo mundo ter ficado completamente desgraçado da cabeça na pandemia, a gente começou a olhar como mulher um pouco mais de seriedade, né?
Justo, justo. Acho que a pandemia possibilitou a gente lidar com um olhar diferente sobre as relações, né? Porque como um conceito ali social, a gente, para se sentir humano, a gente precisa se relacionar, né? Eu acho que é o maior propósito e às vezes o maior desprazer em alguns momentos, né? É um propósito de vida que eu acho que a gente tem de estar se relacionando, a gente só consegue ser integralmente a gente mesmo quando a gente se relaciona.
Mas também pode ser um desprazer, porque essas relações podem ser desastrosas, meio catastróficas, acho que isso acaba também gerando muito sofrimento mental na maior parte das pessoas, justamente por essa interface, né? De almejar tanto algo e necessitar disso para sobreviver, né? A gente precisa do outro para sobreviver, mas também essas relações podem ser muito danosas e prejudiciais também, então a gente precisa lidar com esse limbo, né? Entre...
essas interfaces e conseguir não só usufruir desse mecanismo de estar com o outro, mas também conseguir se achar. Eu gosto de falar muito uma frase do Jung que fala que a gente tem uma projeção ali no sonho. Então, quando a gente olha para fora, a gente sonha, mas quando a gente olha para dentro, a gente desperta. Então, acho que esse olhar para o outro como uma forma de projeção de espelho
faz com que às vezes a gente tenha esse dinamismo ambivalente, sabe? Amo e odeio ao mesmo tempo. E tudo isso acho que está muito relacionado com realmente esse momento da pandemia, né? Porque eu entendo que ao mesmo tempo foi um momento que a gente não se relacionou com ninguém, mas a gente se relacionava com todo mundo, né? Porque era isso, era todas as relações socialmente reproduzidas, mas também foi o primeiro momento, eu acho, que a gente olhou para dentro de uma forma tão objetiva, né? Ok.
dentro da dinâmica do dia a dia, de estar no Altecida trabalhando, lidando com todos os P.O.s, dentro de família, restava pouco ou quase nenhum tempo para a gente olhar para si e falar não, calma, eu acho que talvez isso diga mais respeito a mim do que ao outro, isso, enfim, está relacionado com a forma como eu enfrento as situações.
Como eu lido com cenários. E daí também teve esse exercício, né? De conhecer o outro profundamente, de uma forma inclusive muito desgostosa. Desde a pandemia. Mas também de conhecer a si de uma maneira muito desafiadora e enlouquecedora, né? E aquele momento que a gente fala, caramba, eu sou chata mesmo. Impressionante. Acho que também desafiou o nosso senso de gostar, de se relacionar. Porque...
Quando houve o auge ali da pandemia, gente, um ato de amor era justamente não estar com o outro para não transmitir nada, né? Acho que eu parti muito desse dilema porque eu continuei trabalhando, continuei me expondo e tive que me privar do contato das pessoas.
com quem eu amo, com quem eu me relaciono, justamente para não passar nada, não infligir contra a saúde das pessoas e, ao mesmo tempo, me cercear desse contato que é tão necessário para a gente se recarregar. Perfeito. E como começa essa trajetória lidando com mulheres, especificamente dentro da psiquiatria? De onde vem esse desejo?
Acho que esse desejo vem de um cenário de descobertas, né? Eu acho que eu sempre tive esse olhar para o feminino, né? Dentro dos processos de construção, acho que tive histórias muito fortes, as quais eu tive o prazer de compartilhar ali dentro de um cenário de terapia e de tratamento mesmo. E isso fez com que eu buscasse cada vez mais, eu acho que a mulher tem um olhar mais aberto para...
o olhar para dentro, a refletir, ou mesmo dar suporte e procurar suporte. A maior parte do meu cuidado hoje tem sido com mulheres, não só dentro do quesito de cuidado, mas porque elas também prestam cuidado para os parceiros, para os filhos, e eventualmente elas são a principal, o principal fio guia. Então, acho que isso que me trouxe esse brilho nos olhos para me amparar ali dentro desse cenário, acho que não seja...
A gente tem muitos desafios dentro de um contexto hormonal, dentro de um contexto ambiental, dentro de um contexto cultural, e olhar para isso, acho que não só trouxe clareza como pessoa, mas também para proporcionar um cuidado mais individualizado.
e mais justo ali com as mulheres, né? Porque, querendo ou não, essa interface terapêutica precisa levar em consideração essas minúcias, assim. A gente não pode comparar um cenário feminino e masculino, né? Dentro de um contexto de emoção. A gente vivencia de uma forma diferente, né? A gente se expressa de uma forma diferente. A diferença faz parte da nossa vivência, mas eu acho que ter esse olhar mais profundo me permitiu dar um cuidado mais assertivo.
Sim, perfeito. Esse assunto me encanta muito, porque toda vez que eu trabalho exclusivamente com mulheres pessoas LGBT, e quando a gente olha para a forma como a sociedade atravessa o corpo feminino, é muito duro, inclusive sendo uma mulher e olhando para isso.
Nós temos influências sociais em relação à forma como nós somos socializadas, à forma como o mundo nos trata, à forma como as coisas são projetadas dentro da nossa vivência. A gente tem a questão nível biológico aqui, e vou falar isso com muitas aspas para não soar transfóbica, porque existem outras vivências de mulheres que não são mulheres cis, mas ainda assim, lidar com uma dinâmica hormonal de ciclo menstrual, que é um alto e baixo, é infernal.
É, enfermagem. Tá, é legal. Isso impacta muito na qualidade mental, muito mesmo.
E também temos, obviamente, a forma como a sociedade se estrutura para se alicerçar em nós. Então, você disse, a mulher é um fio guia da família e é inevitável, né? No final das contas, as dinâmicas femininas recaem muito sobre nós. Aliás, olha o ato falho. As dinâmicas sociais recaem muito sobre nós, justamente porque elas são uma demanda feminina de cuidado da casa, gerenciamento das relações interpessoais da família, cuidado do marido, do filho.
filhos, gerir todo o lar, enfim, é enlouquecedor ainda, dentro de um cenário que, pós-evolução industrial, a gente também ocupa o mercado de trabalho e, não o suficiente, ainda somos exploradas e remuneradas inferiormente aos jovens, né? Justo, justo. Acho que é um cenário muito desigual, em vários quesitos, não só na cobrança, na responsabilização.
mas também na violência, na negligência, né? A gente é muito negligenciado desde sempre, a gente é muito cobrada desde sempre, isso faz com que a gente tenha estereótipos preconcebidos, não porque a gente deseja, mas porque a gente tem necessidade de se encaixar.
E isso faz com que forje meio que a ferre e fogo o que a gente precisa fazer, o que a gente precisa conquistar, né? E a gente precisa estar em todos os lugares, ocupar todos os lugares de uma forma muito... A gente tem que quase impregnar os lugares pra gente conseguir ser visto e olhado de uma forma assertiva, né?
Não, isso é muito curioso, principalmente porque acho que isso está muito em alta na internet dentro do cenário de threadwives, que são as mulheres daquele movimento norte-americano, de mulheres que se voltam ao lar, que voltam a depender dos seus maridos. E é curioso porque eu acho que a threadwife, por isso que, por mais que eu tenha inúmeras críticas, eu acho que ela escancara essa dinâmica que você está trazendo sobre o parto dos lugares, que é uma dinâmica típica do capitalismo e que a threadwife, ela nega.
Qual que é a grande questão? Então, eu, sendo uma mulher, eu preciso estar no mercado de trabalho, eu preciso ser uma boa empregada, mas eu também preciso ser uma boa filha, uma boa irmã, uma boa mãe, uma boa esposa. Então, eu preciso performar em todas as áreas da minha vida e isso gera uma baita doença fundamental. E daí, eu queria entender com você, hoje em dia, qual que é a demanda que mais traz clientes para o seu consultório?
A demanda, acho que, traz mais, assim, dentro de um cenário, acho que é a demanda de exaustão, que aí vem desde uma dinâmica de burnout, transtornos ansiosos, transtornos depressivos, ou mesmo até ali o transtorno de estresse pós-trauma, que ninguém procura achando que é, mas às vezes teve tanta vivência de violência que acaba sendo cerceada e conduzida para quase que reviver uma sequência traumática.
Acho que isso vem com um contorno ali, né? O cenário de humor, assim, né? Seja para o ansioso, seja para o depressivo. E essa demanda de multitarefa faz com que a atenção, né? Seja o esgotamento, né? Seja quase que uma sentença para as mulheres.
Não, isso é surreal. Mas daí eu queria entender com você. Eu já conversei com psicólogos nessa dinâmica e os psicólogos me falavam que, geralmente, homens são levados ao consultório do psicólogo por uma demanda de suas esposas, de suas filhas, de suas parceiras. Como que essas mulheres chegam até você? São demandas delas ou elas são levadas por alguém?
São demandas delas. Acho que as mulheres têm esse cenário de uma necessidade de se auto-observar e de tolerar tanto, né? São tantos pratos que a exaustão vem de uma forma significativa. Então, elas procuram essa demanda, mas não só de uma forma com olhar individual, e eu preciso, mas eu preciso dar um suporte.
então acho que é a demanda de eu preciso estar bem para dar suporte para todas as pessoas que eu amparo então eu acho que a queixa vem sempre dentro disso quando a pessoa fala, a mulher fala eu estou triste, mas é porque está triste que não está conseguindo viver e contemplar as vivências ali dentro dos contextos de vida, está se sentindo ansiosa porque tem uma sobrecarga ali por todos
por todos os ambientes que ela permeia, e dentro do contexto atencional é essa sensação também de que, nossa, não estou conseguindo prestar atenção a todas as demandas que estão vivendo. E é claro também o contexto hormonal, tem bastante trabalho ali dentro dessa dinâmica gestacional, de menopausa, que também são momentos muito reveladores para a mulher, são mudanças muito abruptas.
dentro de um cenário de vida, onde a gente percebe que elas são muito pouco acolhidas. Na gestação, o olhar é todo para o bebê. A mãe é ali negligenciada, como se fosse uma incubadora, que ela precisa soltar bem para o que o bebê nasça. Ninguém fala, eu vou visitar a mãe do bebê. A pessoa fala, não, vou visitar o fulaninho que nasceu agora. E a mãe precisa tanto de um...
tanto cuidado quanto, assim como dentro da dinâmica de menopausa, onde as mulheres estão vivendo muito mais e elas não precisam se inibir porque não estão mais dentro da idade reprodutiva ali, e ainda assim existem muitas demandas, os hormônios mudam muito, essa transformação faz com que haja uma falta de reconhecimento, sabe? E isso gera muito impacto para a nossa vida, a gente já tem esse...
na TPM, mas acho que a menopausa é uma queda muito disruptiva, não só da autoimagem, mas também da auto-observação. Acho que a gente tem essa transformação.
até porque eu vejo esse momento da menopausa dentro de um momento bem colidente com outros fenômenos sociais, né? Então, não é só o momento de, ok, vou parar de menstruar, vou parar de ter ali meus hormônios, mas também, geralmente, esse momento coincide com um momento que a mulher perde sua função social, entre todas as aspas, e que ela não tem mais os filhos para criar, mas ainda não, naturalmente, tem netos, né? Porque, socialmente, nossas filhas cuidaram de nós, né?
E daí perde-se a função social dentro de um momento que você já está ali enlouquecendo por conta dos próprios processos psicológicos da menopausa. E eu queria entender, porque eu confesso que dentro da minha ignorância, eu nunca tinha imaginado que uma mulher com menopausa poderia procurar um psiquiatra. Eu achei que era puramente endocrinológico. Como que isso funciona dentro da psiquiatria, por exemplo, tratar uma mulher que está entrando na menopausa?
Eu vou falar sobre toda a interface hormonal, não só da menopausa. Acho que esse momento disruptivo ali, da menaca que a gente diz, quando a mulher entra na dedo reprodutiva, ao longo do ciclo menstrual ali com os transtornos disfóricos menstruais.
E dentro ali do cenário da menopausa e do climatério, onde a gente tem essa questão hormonal que modula de uma forma muito importante, a busca vem sempre dentro de um cenário do que a transformação proporciona.
que na menaca ali, no início da vida reprodutiva, o assustar-se vem de uma necessidade de inserir-se na sociedade de uma forma diferente, ou seja, vou deixar de ser visto como menina, como que ali é um objeto de cuidado, né, para ser uma mulher que é um objeto de desejo, né, então isso acaba impactando muito as mulheres, mesmo que de uma forma indireta, então tem uma cobrança, né, a gente precisa se portar de uma forma diferente, a gente precisa se...
alimentar de formas e expressões diferentes, né? E a gente é muito objetificada, né? Então, a gente é colocada dentro de um cenário muito hostil, né? Além disso, dentro do processo ali do ciclo menstrual como um todo, até o fim do ciclo, a gente é muito negligenciada. Porque quando a gente tá ali na modulação hormonal, a gente fica mais vulnerável, mais inquieta, mais irritada, né? Mais aflanta pele.
E a gente vai falar, é cotada de louca, de instável, de bipolar, e aí vem essas conotações pejorativas, tipo, já tá na tepulho de novo. Então, acho que tudo isso gera essa sensação, é uma comoção interna mesmo, como se a gente se sentisse inadequado, porque a gente tá vivendo um efeito biológico e os homens não compartilham, né? Assim como ali no climatério, na menopausa, essa pontuação vem, porque há uma queda muito importante do cenário de auto-percepção.
então vem ali da contemplação do envelhecimento, que isso já gera muito desconforto mas também dentro de um cenário cognitivo, porque a baixa hormonal faz com que há uma predisposição ali, a gente vai chamar de brain fog, é uma dificuldade ali de...
de se concentrar, de conseguir se relacionar com as pessoas, de ter essa interface mais assertiva, e isso faz com que as mulheres se sintam muito vulneráveis, porque é como se elas tivessem que se realinhar dentro de uma projeção física, e também de uma projeção social, então acho que é uma interface.
e ao mesmo tempo fisiológica, que faz com que exista uma fragilização emocional e elas acabam procurando e também sofrendo mais dentro desses quesitos ali, transtornos ansiosos, transtornos depressivos e transtornos cognitivos, né? Perfeito. É como se a gente vivesse uma dezena de vidas dentro de um único mês, né?
A gente tem dois grandes blocos, a gente fala que é a fase policular, que é onde as coisas se proliferam, que a gente tá ali super bem, sabe? E aí a a queda hormonal ali, a gente fica se sentindo mais.
frustrada, deprimida, né? Então a gente tem quinzenas, né? Que aí vamos tendo nuances. Aí a última semana do ciclo é aquela sensação de ai, Jesus, e agora? O restaurado, né? Eu falo assim, aí útero, sangue e a gente chora junto, entendeu?
Não, e é muito curioso, né? Porque, perceba, eu sou uma mulher feminista e eu demorei anos da minha vida, anos já era feminista, mas eu não tinha a menor noção em termos de letramento biológico mesmo, sobre como menstruar afetava o meu desempenho. Literalmente, né? Até na academia mesmo, né? A gente consegue internar das fases do ciclo, a gente...
a gente performa pior, né? Enfim, a gente forma pior, a gente precisa de mais sono, precisa de alimentação específica. E assim, gente, eu não fazia a menor ideia de... Não se fala sobre esses aspectos, né? É, porque se a gente for parar pra pensar, a primeira, a nossa mobilização física é numa quinzena, que é essa coisa de ovulação e preparar ali pra um processo gestacional, caso aconteça. Então, é uma fase onde a gente tá construindo, né? Biologicamente.
Então, a gente está disposta, a gente está ali com capacidade de esmiu, né? Então, o estrogênio e progestorão estão lá em cima. A partir do momento que o povo fala assim, olha, não chegou nada, agora vamos desconstruir? Aí ele começa a falar assim, ai, caiu tudo, né? Caiu o desejo, a vontade, né? A vontade de fazer as coisas e aí isso vai também junto os hormônios ali, né? Na derrocada emocional e a gente se sente físico e mentalmente muito esgotado.
Dentro desse cenário, né, existem uma porcentagem de mulheres que sofrem muito, muito acima ali da média, esse desbalanço hormonal a ponto disso gerar um sofrimento latente, né, que pode sim simular um quadro ansioso e depressivo e a mulher pode sim ficar numa vivência super disfuncional.
E nesses momentos, até em mulheres que não têm ali uma TPM muito disruptiva, mas que estão passando por um processo terapêutico de tratamento de ansiedade, de tratamento de depressão, e agora as evidências mais recentes até mesmo um TDAH.
A gente faz ajuste de medicação, porque a gente entende que precisa de um compasso a mais para conseguir fazer os alinhamentos que na quizena anterior estava funcionando bem. Porque a maioria das mulheres fala, mas parece que eu estou tendo uma recaída. Não, você não está tendo recaída, seu corpo que está em sofrimento mesmo por conta da mobilização dos hormônios e do estresse que é isso, física e mentalmente.
Isso é muito curioso. Eu tenho uma amiga que viveu esse processo exatamente nesses termos. Então, ela tinha a fase de TPM em que ela ficava absolutamente, assim, debilitada psicologicamente. No nível D, ela passava todos os dias da TPM dela chorando. Podia não ter acontecido nada, ela ficava sentindo o cocô do cavalo do bandido.
E eram dias horrorosos, e ela passava em psiquiatras normais, enfim, psiquiatras tradicionais, ninguém conseguia, achavam que era uma depressão comum. Ela passava em clínico para ver se tinha algum problema, não perguntava nada. Até que, de fato, ela conseguiu, através de uma psiquiatra com tratamento, enfim, biológico de gênero, virou para ela e falou, não, calma, isso está relacionado, de fato, com o seu ciclo, vamos regular, enfim, daí com a medicação correta, com o documento especializado.
Foi lindo, maravilhoso, né? Obviamente isso... Tem os altos e baixos também, né? A vida não era inédita. Foi revolucionário na vida dela, né? E eu nunca tinha ouvido falar disso.
Sim, e essa interface é importante porque não é só um processo ali de arranjo físico e mental que a gente precisa fazer, mas é uma autocompaixão, sabe? Porque a gente se cobra o mês inteiro da mesma forma, mesmo sabendo que a gente não entrega a mesma forma, entendeu? Que a gente fica num perfil de autocobrança e de necessidade de se amparar em tudo que a gente faz.
E aí, quando a gente passa por esses momentos, a gente se sente vulnerável, né? Porque, de fato, a gente está vulnerável. Então, ter esse olhar de falar assim, olha, essa semana eu estou capiroto, entendeu? Não mexe comigo, né? Eu brinco com as minhas pacientes, eu falo justamente isso, olha, marque esse dia. Tem pacientes que fazem um calendário de cante na geladeira, ó, nesse dia não me provoca.
ela fala que é o dia dela, o dia que todo mundo vai mimar, que todo mundo vai dar atenção, e ninguém vai torrar a paciência. Então é importante a gente ter esse momento de autocompaixão e falar, caramba, essa semana, esse dia, porque isso é muito variável de mulher para mulher, mas esse contexto precisa ser salientado.
Não é um contexto que é reforçado de uma forma positiva. É sempre negligenciado e acusatório, né? Tipo, ah, que chata, nossa, que bipolar, né? Que a gente ganha até nome de bipolar sensei, né?
que a gente oscila de humor, não porque a gente quer, mas é porque acontece, né? E dentro de um cenário ali de vivência, ter o entendimento do outro, ou seja, sinalizar pro outro, olha, eu não estou numa semana muito boa, né? Não espere muito de mim, né? E tenha isso também junto com a gente, falar assim, caramba, não vou me demandar muito essa semana, não vou querer equilibrar todos os pratos como sempre faço, porque de fato é muito difícil, né?
acho que é contabilizar a bateria, sabe? A gente aprender a contabilizar essa bateria, acho que a mulher precisa ter esse olhar, e eu acho que a gente aprende de algum modo, nos trancos e barrancos, a fazer esse olhar mais ativo, e acho que é por isso que a gente é tão resiliente.
E daí também vejo a importância de termos bons parceiros ao nosso lado, né? Porque você está nesse processo ali de tentar entender como é que funciona o seu ritmo, como funciona o seu ciclo e, consequentemente, as respostas organizadas que você tem. E o cara lá falando pra você, não, que infernal, como você é chata, e PPE, sendo que... E aí
Eu acho que é o tipo de coisa que, a partir do momento que você tem a compreensão, que se olha para isso como uma questão, isso melhora a quantidade do relacionamento, né? Com certeza. Talvez ela esteja, de fato, mais bericosa nesse dia, não porque ela é insuportável, mas porque ela está passando por uma fase hormonal que...
propícia a isso. E ela não está chorando necessariamente porque, ai, fiz algum erro de errado, mas sim porque ela está numa fase hormonal propícia a isso. Então, acho que aumenta, inclusive, também o grau de comunicação, né, entre os casais.
Justo, acho que ter esse olhar, não só por outras mulheres, como pela sociedade como um todo, permite a gente ser vulnerável, e falar assim, tudo bem, eu estou numa semana meio ruim, eu vou avisar que eu não estou numa semana muito boa, e que as pessoas me acolham e não me acusem, porque eu não estou me sentindo bem. Eu acho que isso tem sido, de certa forma, colocado ali em evidência.
Não tanto como deveria, né? Mas acho que é algo que está sendo construído e quem sabe vai ser mais bem visto, né? E mais bem estruturado futuramente. Com certeza. É um processo lento, né? Mas ele precisa acontecer e é bom que a gente já está em movimento. Você falou uma coisa que eu confesso que eu não sabia. Você falou a respeito de TDAH, né? Como que isso é visto dentro de corpos femininos. Me explica mais sobre isso, por favor.
Tá. Hoje, a gente tem um olhar sobre as alterações de neurodesenvolvimento, seja TDAH, seja autismo, com essa interface entre feminino e masculino. As expressões típicas são expressões típicas do cenário masculino, né? Quando foi descrito.
porque é um cenário onde se constrói a dinâmica do racional. Então, a figura do racional sempre é alimentada pela figura do masculino. Então, acho que quando se construiu, os estereótipos e os protótipos eram muito masculinos, até porque são quadros que são...
mesmo a prevalência sendo quase que equiparada, tem um predomínio mais masculino. Hoje a gente percebe que não há essa interface, porque as mulheres conseguem se adaptar dentro do quesito emocional, e elas têm um pouco mais de resiliência dentro desse componente, dos quadros mais de regulação de humor.
E isso faz com que a gente tenha esse olhar mais atento, e até porque, para não negligenciar o diagnóstico na infância, quando teriam um curso bem mais favorável, numa perspectiva terapêutica. Mas dentro de uma perspectiva terapêutica mesmo, medicamentosa.
o que a gente vê, principalmente dentro do TDAH. Quando há essa prejeção hormonal, como há uma alteração ali do funcionamento cognitivo, do funcionamento atencional, do funcionamento físico, motor, né? Então, a mulher, se a gente fosse pegar ali os três pilares ali dentro do que é relatado como TDAH, né? Que é muito maior que isso, mas se a gente fosse pontuar ali a desatenção, a capacidade ali de...
das relações, que o TDAH também é bem comprometido, e o comportamento mais impulsivo compulsivo. Então, quando a gente olha para esses três cenários, a mulher geralmente tem uma adaptação natural das relações interpessoais. A gente é exigida desde sempre a ser mais amistosa, menos bélica, então a gente tem essa tendência a segurar esse cerne que é tão disfuncional no TDAH.
muito pouco se fala, mas é muito disfuncional, né, a maior parte dos TDAHs tem uma dificuldade nas relações interpessoais, seja ali pelo componente mais impulsivo, né, daquela pessoa que fala o que pensa, ser um pouco mais hostil ali no contato, se expor mais socialmente dentro de um cenário negativo, né, uma tendência a maior abusos, uma tendência a se envolver com dinâmicas mais violentas e também dentro do contexto atencional, né.
que é essa dificuldade em prestar atenção nas coisas, né? Que o homem passa muito bem como cabeça de vento e tudo bem. Ah, alguém sempre passa a mão e a mulher não, vamos lá, você tem que se adaptar, você tem que ser multitarefas. Então, a gente acaba tendo esse contorno de exigência que dá um tono de resiliência, mas que também camufla o sintoma.
Então, são processos adaptativos que a gente naturalmente constrói e que acabam também sendo usados de uma forma negativa para a gente conseguir ser diagnosticado de uma forma mais precoce.
Quando acontece o diagnóstico, geralmente vem pelo desgaste, né? A mulher já não tá conseguindo mais compensar, né? Ou um cenário de mudança, e isso faz com que a demanda fique ali latente, evidente, e aí o diagnóstico vem. Dentro do cenário hormonal, hoje, se estruturando, né? As novas pesquisas estão ali dentro dessa percepção, recentemente até fui numa palestra sobre isso, fala que é necessário um ajuste terapêutico, né? Tchau.
Porque nesse momento vai ter um declínio cognitivo mais importante. As relações interpessoais vão estar mais comprometidas. Os comportamentos impossíveis e compulsivos vão estar mais vigentes. Porque não vai ter esse freio social que a gente acaba permeando, porque os hormônios também acabam tirando a base, o esteio da gente, e a gente acaba fazendo...
uma abertura de quadro um pouco mais florido, e aí precisa também desse contraponto da medicação ser um pouco mais ajustada, a gente ajusta um pouco mais dentro desse momento. Perfeito. E conforme a gente mais fala sobre autismo e TDAH, você tem percebido um aumento dessa procura dentro do consultório?
Sim, principalmente dentro do cenário do TDAH, por conta da interface com burnout. A gente é muito demandado, a gente tem muita informação. Então, a queixa da atenção vem de uma forma muito pertinente, pela maior parte dos pacientes tendo ou não o TDAH como um diagnóstico confirmado posteriormente.
Mas esse excesso de demanda vem fazendo com que haja essa observação mais vigilante sobre esses quadros. E eu acho que o cenário do autismo vem como uma dificuldade cada vez maior nas relações. Eu acho que ser colocado em voga a dificuldade e o diferente tem feito com que algumas pessoas tenham um olhar mais atento ali, principalmente do cenário feminino.
Perfeito, então pode ser que você tenha TDAH ou pode ser que você não esteja prestando atenção em nada, porque você está completamente exaurida, é isso? Justo, justo. A gente fala assim, a atenção ela tem dois grandes, a gente tem dois tipos de atenção. A gente tem a atenção vigilância, que é a nossa capacidade de prestar atenção no entorno, né? Que é o módulo que a gente...
fica ligado de uma forma até constante para a gente sobreviver, se tem algum estímulo ali externo que pode me atacar, então a gente é um mecanismo de sobrevivência nato, e a gente tem a outra tensão que a gente fala que é a tenacidade, que é a capacidade de manter o foco.
Quando no cenário do TDAH a gente observa que essa tenacidade tem um componente deficitário, a pessoa tem essa dificuldade de manter o foco nessas atividades que exigem cognitivamente e existe um excesso de hipervigilância. Então a gente sempre tem pesos e medidas, teoricamente a gente teria que ser equilibrado no TDAH, é um descompasso, por isso que a pessoa se distrai com tudo.
E há momentos onde a pessoa consegue ter essa tenacidade, que é essa capacidade de focar nas coisas, mas é geralmente à custa de mecanismos prazerosos, que é o hiperfoco, né? Que é aquela coisa, aí eu gosto muito, aí se você gostar muito, você vai até perder a noção do tempo, né? Então a pessoa vai ficar ali horas e nem perceber que tá, né? Às vezes esquece de ir no banheiro, de comer, de... Então...
A gente tem essa capacidade de se modular dentro desse cenário e acho que com o excesso de exposição e essa dinâmica de uma dopamina, um prazer imediato que a gente acaba desejando consumir,
Acaba que esse contexto da atenção fica muito fragilizado, então, seja ali pela exaustão, né, na quantidade de informações, seja ali por um quadro de humor mesmo, a ansiedade provoca essa dificuldade, o transtorno de estresse pós-trauma também provoca essa dificuldade, a própria depressão provoca essa dificuldade, que às vezes pode ser confundida ali com o TDAH.
Isso é muito, muito curioso. Eu ia te falar, inclusive, exatamente sobre esse aspecto, porque o que eu venho discutindo muito com psicólogas, ainda não tinha motivo de trazer uma psiquiatra aqui para o podcast, é justamente sobre o fluxo de informações que a gente tem via redes sociais hoje, que derrecha a nossa féria para a nossa capacidade de prestar atenção, inclusive tem alguns estudos que estimam que hoje em dia a nossa capacidade de...
de foco, né, cerca de... Eu não vou saber, desculpa, se elas vão me faltar sete, sete, sete, sete, sete. Eu sei que é muito curto, assim, né? Sim, sim. A gente tem que pensar em algo, tanto que se fala muito sobre, ah, ganchos estratégicos para aprender a atenção de quem está assistindo o seu vídeo, mas, no final das contas, tudo volta para esse aspecto, né? A gente recebe, hoje em dia, muita informação de um fluxo surreal, completamente fora do que a gente tem capacidade enquanto seres humanos, é...
E isso gera consequências tenebrosas no curto, no médio e no longo prazo, né? Inclusive sobre qualidade do sono, sobre capacidade relacional e atenção, enfim, entre outros, né?
Sim, se a gente fosse tentar de forma mais teórica e colocar, acho que a gente pode se basear no método Pomodoro, não sei se você já ouviu falar. O método Pomodoro, ele geralmente se norteia como um fator guia ali, a nossa capacidade cognitiva de ficar de 25 a 30 minutos focado, com atenção plena. Depois desse intervalo, a gente tem uma queda.
substancial, assim, não é assim, a gente cai 15%, não, a gente cai 50% de produtividade, então a gente vai de 100 a 50, né? Então, a gente faz essa interface, né, quando há um diagnóstico ali de TDAH ou mesmo um distúrbio ali mais cognitivo com alteração de foco, de atenção.
A gente pede para as pessoas fazerem fracionamento de rotina justamente com o intuito de ter uma atenção plena quando for fazer aquela atividade, principalmente se exige muito cognitivamente, e de antecipar ao máximo as atividades que exigem mais esforço, porque as primeiras horas do dia...
são as horas de maior atenção, de maior capacidade, né? Tem alguns contextos ainda que reforçam dentro de um contexto psíquico que a gente precisa usar os 90 primeiros minutos do dia em prol da gente, né? Porque a gente vai ficar dando os 90 minutos de ouro para alguém, de brinde, assim, para o nosso trabalho, ou para uma pessoa, né? E não para a gente mesmo. Então...
com essa interface, acho que é importante, ainda mais hoje com excesso de exposição à informação, mostrar que o fracionamento das atividades se faz necessário, as pausas se fazem necessárias para a gente conseguir conceber a memorização, a atenção mais plena e o desligar-se também. Não é uma pausa só...
De, ah, eu não vou fazer mais isso. É uma pausa de tudo, né? De desligar mesmo, né? De não falar com ninguém, de não olhar no celular, não acessar a internet, né? É uma pausa, assim, de recarga, né? Porque isso vai te ajudar a fazer com que o seu cérebro entenda que...
Esse momento é um momento de respiro, de não vai entrar mais nada, só vai encaixar ali as peças e consegue consequentemente pontuar isso. E isso vai melhorar muito o performance, tem vários estudos que reforçam isso, se você ficar desde a parte cognitiva até a parte física, se você fizer 30 minutos consecutivos de esteira, se você fizer, sei lá...
pausas de cinco minutos entre um intervalo ali tipo 15, 15, 15, né? E aí faz um intervalo a pessoa tem muito mais performance se ela tiver uma pausa do que se ela foi lá desempuradamente fazer tudo ao mesmo tempo, porque a gente precisa das pausas pra gente se recompor, né? O fracionamento te dá previsibilidade. E o famoso controle que a gente tanto ama.
E é muito importante falar, né, que essa pausa não é sinônimo de você falar ai, vou ficar aqui scrollando meu feed durante 15 minutos, né? Não, é pausa mesmo, de ausência, né? De ausência de tudo, né? É aquela coisa da espera do nada. O Tia Famente, né? É.
Hoje em dia, enfim, coitada, a gente não consegue ficar cinco minutos olhando o teto que começa a dar desespero e, meu Deus, preciso produzir, preciso fazer coisa, tô perdendo tempo e vira aquela loucura de autocobrança, né? E me conta um pouquinho em relação a como que é uma dinâmica de tratamento, porque eu tenho a percepção, Laís, que as pessoas acham que psiquiatra é basicamente tomar remédio.
E eu sei que não é isso, né? Que é um tratamento específico, que é multifatorial, multissetorial. Então, me conta como que é, de verdade, um tratamento com psiquiatra.
Tá. Em essência, eu gosto de dividir o processo terapêutico em três fases, e em cada uma das fases tem algo que se torna mais importante, né? O primeiro momento, se a gente fosse exemplificar com fogo, seria conter o incêndio. Então, seria um momento onde a pessoa está muito sintomática, onde a medicação vai se fazer presente, importante, para o manejo dessa desregulação emocional.
Então, esse momento do tratamento é o momento onde a gente engaja o paciente a partir de uma dinâmica medicamentosa para fazer com que a pessoa consiga equalizar ali a equação e consiga resolver aquele sintoma, tá? Então, seria esse o primeiro passo do tratamento, né?
Supressão de sintoma. E a maior parte das pessoas acham que o tratamento é isso. Não. Aí eu falo que a melhor parte do tratamento é o meio, né? Que a gente fala que é quando a pessoa já tem uma capacidade de resolutividade dos sintomas, ou seja, ela não está vivendo permeada por sintomas, por efeitos de disfuncionalidade, e ela consegue vivenciar de novo.
e contemplar de novo a vida, aquela coisa assim, nossa, eu tô bem e quero continuar assim. Acho que nesse momento do tratamento, é o momento onde a gente faz intervenções, né? Eu em específico, assim como os terapeutas também, eu gosto de fazer intervenções dentro de um contexto de vivência, né? Qualidade de vida, estruturação de dinâmicas de vida pra, consequentemente...
é organizar essa dinâmica de funcionamento do paciente para que ele evite novos quadros e evite uma recaída ali dentro do curso de tratamento. Então, é o momento onde há uma possibilidade dessa interface, onde eu vou entender quais são as dificuldades, quais são os desejos, quais são os propósitos do paciente.
E aí, consequentemente, conseguir ir trabalhando cada um dessas interfaces. Dentro da perspectiva da medicina do estilo de vida, que geralmente eu tento fazer essa abordagem para alinhar essa proposta, assim como técnicas de psicoterapia, é justamente olhar, por que que na minha ansiedade eu desconto na comida, que a gente chama de comer hedônico, porque aquilo ali te movimenta o mecanismo de prazer. Será que eu consigo deslocar?
essa dinâmica prazerosa que fica só ali concentrada na comida para outras atividades prazerosas, que outras atividades prazerosas você tem, o que a gente pode construir, que você vislumbra ali dentro do cenário de vida, assim como atividade física, as relações interpessoais, o manejo de estresse, o controle ali de mecanismos mais de uso de substâncias, então isso tudo...
vai fazendo com que não só mude a curva de funcionamento terapêutico, mas também abra o olhar da pessoa para uma nova vivência, que eu falo que o meu objetivo não é fazer com que a pessoa volte a ficar bem, o meu objetivo é que a pessoa fique melhor do que antes.
que a pessoa tenha a sua melhor versão, porque daí o cenário de tratamento medicamentoso, nesse momento ele vai ser secundário, a medicação vai estar ali para dar subsídio, suporte, para que a pessoa não tenha recaída, mas essas outras estratégias vão fazer com que a pessoa tenha um olhar diferente sobre a vivência e consiga não só se antever para possibilidades de sofrimento, mas consiga ter as próprias ferramentas para combater aquilo.
pra gente chegar no cenário que eu falo que é o final ali, o fim do front ali, né, que é o desmame da medicação e fala, agora você está pronto e você pode ir pra guerra e que vai dar tudo certo né, que é aquela sensação que o paciente tem de se libertar mesmo porque a medicação já não vai se fazer necessário porque a pessoa já tem as ferramentas pra conseguir viver da melhor forma
Exato, eu luto muito contra essa ideia de medicação como um fim em si mesmo. Como se a pessoa ficasse ali, né? Usou, nunca mais pode tirar, né? Lógico que tem quadros que precisam a vida inteira, mas a maior parte nem.
mas tem uma máxima que acho que as pessoas ainda não absorveram, embora elas usem para várias questões, que é ninguém, de fato, se cumprir no mesmo lugar em que adoeceu. Isso não é sobre o lugar físico. Também é sobre o lugar mental, é sobre relações afetivas, é sobre o ambiente que você está insulito de fato. Isso permeia todas as nossas áreas, porque, no final das contas, o processo de adoecimento, ele é isso, ele é um processo, né? Ninguém dorme bem e acorda com depressão, né? As pessoas...
processo de adoramento psíquico, e consequentemente isso tem várias influências, do meio, próprias, pode ter influência biológica, me corrija até se eu estiver errada, mas pode ter influência biológica, pode ter influência em relação ao ambiente de trabalho, então é nesse momento, eu acho, do processo do bom tratamento psiquiátrico que você consegue olhar pra sua vida com essa visão de, tá, o que tá dando certo, o que tá dando errado, o que eu preciso mudar, o que não tá me fazendo bem, o que eu quero manter, o que eu quero melhorar, porque...
Gente, não adianta a gente ficar aqui sem suplente remédio, não fazer nada para a vida mudar, porque não vai resolver o problema, muito pelo contrário. Daqui a pouco você vai ter que aumentar a dosagem, até trocar o remédio, porque não vai fazer o remédio. Então, basicamente você só está usando o remédio como um tapa-buraco, sendo que a ideia do remédio é justamente o contrário, que ele te auxilie no processo, mas que ele não seja essencial para o resto da vida.
Justo, até porque ele tem um fim limitado, né? Quando a pessoa fala assim, o remédio já não está funcionando mais, mas na verdade é porque a vivência já não está contemplando mais, o sofrimento está maior do que antes. Então, a medicação não tem intuito de tirar o sofrimento, amortecer o sofrimento, ele tem o intuito de regular de uma forma que você consiga acessar.
os seus repertórios de vida, as ferramentas que você tem para lidar com aquilo e que você seja mais assertivo, mas se você não tiver ferramenta, não tem o que usar. Então, a gente precisa construir isso, tem pessoas que conseguem, dentro da vivência, fazer isso por si só e tem outras pessoas que precisam de um suporte, porque dentro do processo de vivência foi muito negligenciado.
Exatamente, acho que isso é um debate muito precioso e que muda de fato a forma como a gente encara a questão de saúde mental, porque eu vejo que ainda há muito preconceito com a medicação, eu vejo que as pessoas têm muito resistência, falam não, não quero, vou ficar dependente, porque isso, aquilo, aquilo, outro, mas no final das contas...
Não é sobre medicação, é sobre todo o resto. É, não é sobre... Eu acho que também uma interface muito importante é que eu vejo muitas pessoas que, ao mesmo tempo, têm esse receio de não querem usar medicação como se aquilo fosse quase que um... Assumir o contrato de fracasso, né? Que falam assim, ah, eu vou precisar de uma coisa química para me ajudar.
E ao mesmo tempo tem algumas pessoas que se vestem, sabe? Daquela medicação e falam, agora eu não vou ficar sem, né? Eu preciso disso para sobreviver daqui para frente. E ao mesmo tempo, que eu vejo dentro dos dois cenários, é uma dificuldade de acessar o...
as outras coisas, né, eu acho que o orgulho ali de não querer usar um remédio que pode te possibilitar acessar as suas ferramentas e suas capacidades porque a gente não entra em sofrimento porque a gente quer, é um acumulado de vivências que vai fazer com que física e biologicamente a gente se sinta comprometido e dentro de um cenário ali de thì
vivenciar uma necessidade de estar com a medicação sempre, de ter muito receio de tirar a medicação, vem também dentro dessa dificuldade de explorar o próprio repertório, de falar assim, caramba, eu sou capaz de lidar de uma forma diferente, eu vou conseguir fazer isso sem o remédio. Lógico que com todo o amparo e o suporte, tem gente que fala assim, hoje eu vou tirar o remédio, aí tira do nada, então assim, gente...
não é assim, né? A gente não começa do nada e tira do nada, né? Sempre tem um trabalho, acho que é um trabalho constante, né? Que a pessoa fala assim, ah, eu vou uma vez no psiquiatra e ele vai me passar o remédio e é isso, né? Eu vou, sei lá, ficar só trocando receita. Então, a gente tá ali, essa interface de conversar, de entender, de alinhar, embora pareça muito subjetiva, é muito objetivo. A gente olha o padrão de funcionamento, o padrão de desenvolvimento cognitivo, né? De expressão.
Às vezes a gente fala assim, ah, eu gosto de falar para os meus pacientes que eu vejo duas grandes curvas, né? A curva da boca e a curva do olho, né? Quando a pessoa está feliz, o olhinho fica para baixo e a curvinha do sorriso fica para cima. Então a gente percebe que essa interface, o nosso rosto expressa muita coisa, o nosso corpo expressa muita coisa.
A nossa mente acaba expressando muita coisa e a gente consegue, a gente tem um olhar treinado para ver isso e parece uma menúncia, mas ela é importante para que isso acelere, né? Às vezes a pessoa fala, ah, eu vou voltar, sei lá, depois de tanto tempo porque eu estou bem, mas assim, você está bem o suficiente, né? Será que a gente não conseguiria fazer ajustes? Será que não teria uma estratégia nova nesse lugar de se sentir bem que possa possibilitar você de sair mais rapidamente desse cenário? Então...
Então, acho que o desafio da minha prática clínica hoje é isso, de mostrar para o outro que eu não estou ali para convencer de nada, eu estou ali para proporcionar, acho que sou um mediador entre o bem-estar da pessoa e essa necessidade de conseguir alcançar isso.
E eu acho que tudo isso gira ao redor de uma grande questão, que é muito doloroso e é muito custoso emocionalmente você enfrentar os seus próprios feitos e defeitos. Justo, justo. Porque, óbvio, a gente sabe, não estou falando que as pessoas não... que as coisas não acontecem na vida por responsabilidade dos outros, mas olhar para si como...
como sendo parte responsável pelos seus bons resultados, pelos seus maus resultados, também é difícil, né? Porque às vezes entender que o comportamento que você está reproduzindo é violento para você ou violento para outras pessoas é se questionar. E se questionar mexe com nossas origens, mexe com nossos pressupostos, mexe com as questões que a gente tem sobre nós mesmos, sobre nossa família. Então, assim...
é muito complicado, né? E nem todo mundo está disposto a comprar essa batalha, né? Justo. E culpabilizar o outro é tirar uma carga, né? Tipo, é do outro, né? Então, eu não preciso, eu não tenho responsabilidade ser do outro. Então, quando a gente faz esse exercício de autorresponsabilização, de falar assim, eu tenho a culpa parcialmente a mim, embora a gente, às vezes, seja infligido por um sofrimento que...
não caberia, né? Que invariavelmente acontece, grandes sofrimentos na vida, onde a gente tá ali num momento errado, na hora errada, e acaba passando por isso. Mas a forma como a gente lida com a situação, com a vivência, com a emoção, representa muito dentro de um cenário cognitivo ali, né?
Até porque é isso, né? A gente não pode mudar o comportamento da outra pessoa, mas a gente pode mudar a forma como a gente lida com o comportamento da outra pessoa. Justo. É a forma como o outro nos afeta. A pessoa pode ser super mal educada, mas você pode escolher ser mal educada de novo ou você ser educada e falar, olha, não é bem assim.
mas quando a gente coloca a responsabilização para o outro, a gente impede da gente ver esse cenário de uma forma mais clara de como a gente pode se proteger. Não é que a gente necessariamente tenha que construir um escudo para tudo e para todos, mas a gente precisa construir esse alicerce para...
Construa um limite, sabe? Até aqui você pode ir, depois que você passar disso, isso vai me impactar, então eu vou recuar necessariamente e eu não vou deixar você entrar dentro dessa área emocional. É difícil, é muito difícil, né? Mas a gente precisa construir essa interface para que o sofrimento não nos invada, né? O sofrimento, assim como...
as emoções positivas, elas precisam ter essa projeção de fluidez. A gente não é represa de emoção, né? A gente é um rio, né? Precisa fluir, né? As emoções precisam fluir. A felicidade só é boa porque ela flui. Se você ficasse constantemente feliz, você não ia sentir.
assim como a euforia ela só se faz presente de uma forma legal, porque ela é momentânea, se a pessoa ficar constantemente eufórica, ela vai ser inadequada então a emoção negativa é da mesma forma a gente não pode represar uma emoção a gente tem que deixá-la embora pra ela voltar de novo, tem que ser um hóspede legal você vai construir uma casinha legal pra aquele hóspede vir o máximo possível não pra que ele more com você não pra que ele more com você
perfeito, nossa maravilhosa e agora é pra encerrar a nossa conversa o que você acha que muda de fato na vida de uma mulher quando ela começa a se cuidar de verdade
Acho que o que muda é a capacidade dela se projetar na vida, né? Ela não vai querer ser reflexo de ninguém. Ela vai querer mostrar o máximo dela, sabe? Ela não vai olhar pro outro querendo ser o outro. Ela vai se olhar no espelho e vai ficar contente em ver quem ela é e o máximo que ela pode ser, sabe? O objeto de desejo vai ser ela mesma, sabe? Vai olhar pro espelho e falar assim, você é poda. Você.
consegue, né? Então, acho que o cuidar-se, né, dentro desse sentido, seja físico, seja mental, é justamente explorar essa potencialidade de você se olhar, né, conseguir contemplar.
quem você é, o que você pode ser, lógico que a gente vai se alimentar do outro, porque a gente, como premissa maior, a gente precisa do outro pra sobreviver. O ser humano só tá aqui porque ele construiu uma sociedade, uma cultura ali que mobiliza. Mas a gente não pode fazer com que isso aliene a gente, nem que isso gere medo. Porque quando a gente...
tem como objetivo o reflexo do outro, a gente tem medo de ser a gente mesmo, a gente tem a necessidade que não é nossa, o propósito que não é nosso. Então, acho que o espelho seria um reflexo da gente mesma, acho que a mulher que tem a sua potencialidade é aquela que se olha no espelho da forma mais desnuda mesmo e fala, me reconheço e é isso aqui, eu sou foda.
Maravilhoso. O Leonel fez até um bocejo de concordância no meu cachorrinho. Fez um participação. Muito obrigada pela nossa conversa. Antes da gente encerrar, me conta onde a gente pode te procurar para quem quer passar em atendimento com você. Por favor, faça o seu merchan.
Para quem quiser entrar em contato, tem um site, é só procurar ali, doutora Laís Freire Silva, em breve farei o Instagram, inclusive eu lembro na nossa conversa que você falou não se faça o Instagram, né? Estou me abrindo para isso, quem sabe, né? Em breve também terei o Instagram ali para colocar um pouco mais de informação sobre essas questões de saúde mental da mulher que são fundamentais.
Perfeito, muito obrigada. Bom, talvez você não esteja fraca, talvez você só esteja cansada de carregar o mundo sozinha nas costas. Cuidar da sua saúde mental não é um luxo, não é egoísmo, é uma questão de sobrevivência. E aos poucos também pode ser uma questão de liberdade. Obrigada, Laís, por trazer tanta clareza e acolhimento para uma conversa que ainda precisa ser feita com muito mais honestidade. E se você ficou até aqui, muito obrigada por assistir o LenteCast. Não esquece de seguir a gente no seu tampador de áudio favorito.
comentar nas nossas redes sociais e sim se inscrever no nosso Instagram. Um beijo e até a próxima semana. Tchau!
Dra. Laís Freire Silva
Psiquiatria especializada em saúde mental da mulherJurça Fanti Advocacia e Consultoria