Episódios de Se Essa Sogra Fosse Minha

AQUELE DA ABUELITA

14 de julho de 202614min
0:00 / 14:34

Créditos: Este episódio utiliza um breve trecho de áudio de Sônia Braga no filme Aquarius (2016). Todos os direitos sobre a obra audiovisual e seu áudio pertencem aos respectivos detentores dos direitos.A história de hoje conta com a participação da psicóloga Millena Félix. Obrigada, Millena! ♥

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Participantes neste episódio2
J

Julieta

Convidado
M

Millena Félix

ConvidadoPsicóloga
Assuntos5
  • Conselhos para momentos de afliçãoMillena Félix · Singularidade das vivências · Expectativas vs. Realidade · Luto pela realidade não concretizada · Limites no controle do outro · Acolhimento da dor alheia · Diversas formas de ser avó
  • Expectativas e realidades da maternidadeMãe de Julieta · Janaína · Nascimento do bebê · Mãe narcisista · Acolhimento materno · Abuelita
  • Relacionamentos FamiliaresJulieta · Janaína · Irmão de Julieta · Aceitação familiar · Respeito à individualidade
  • Rompimento FamiliarJulieta · Mãe de Julieta · Janaína · Família da Janaína · Visitas não vacinadas · Exclusão da família de Julieta · Promessas não cumpridas
  • O papel do irmão na situaçãoIrmão de Julieta · Janaína · Inércia e omissão · Manipulação emocional · Falta de comunicação
Transcrição34 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz B

Oi pessoal, sejam bem-vindos a mais um episódio do Se Essa Sogra Fosse Minha. Eu sou a Paloma e o episódio de hoje é. Aquele da abuelita. E quem conta essa história é a Julieta, e é mais uma história da categoria Do Outro Lado da Moeda, que é quando a história é contada da perspectiva da sogra, né, ou da família da sogra, a respeito da nora ou do genro. E como esse é um episódio do Outro Lado da Moeda, eu vou ler essa história em primeira pessoa, exatamente nas palavras da Julieta. Por que que eu faço isso?

?Voz C

Porque eu sei que com tudo que a gente escuta aqui, às vezes a gente já recebe esse tipo de relato com um pezinho atrás. Então eu não quero correr o risco de deixar de transmitir alguma coisa que a Julieta pensou ou que ela sentiu. Então, para ficar o mais fiel possível, eu trago o relato na íntegra.

?Voz B

Então vamos começar. A Julieta começa o email dizendo assim: Oi, Paloma, tudo bem? Escrevo buscando conselhos. Na verdade, a minha maior preocupação é com a minha mãe e o problema é a minha cunhada Janaína. Sempre nos demos muito bem e ela foi aceita na nossa família como uma filha pelos meus pais e como uma irmã por mim. Todos os tios, tias, primos e primas adoram a Janaína. Nós sempre fizemos algumas coisas juntas, como ir ao centro do nosso bairro para fazer compras, ir ao supermercado, ao cinema, e até frequentar o mesmo terreiro de Umbanda.

O casamento dela e do meu irmão aconteceu em uma viagem entre os dois, e eu achei incrível porque eu valorizo muito o respeito à individualidade e aos limites que as pessoas impõem no ambiente familiar.

?Voz C

Ensinei a Janaína a fazer uma maquiagem fácil de replicar no dia da cerimônia, emprestei algumas maquiagens, e enfim.

?Voz B

Quando ela e o meu irmão tiveram uma crise, eu fiquei do lado dela, porque apesar de amoroso, meu irmão também é uma pessoa muito chata e muito mimizenta. Em um momento eu cheguei até a dizer para ela que se ela se decidisse por uma separação eu entenderia e eu estaria do lado dela.

?Voz C

Poderia até perder o irmão, mas a Janaína não.

?Voz B

Eu nunca quis ser mãe, eu sempre quis ser tia.

?Voz C

Os filhos dos meus amigos me amam. Eu sou a tia torta, engraçada, que sabe desenhar.

?Voz B

E essa certeza também existe porque eu tenho ótimos tios que sempre foram presentes e muito amorosos e me serviram de exemplo. Eu sou uma pessoa nerd da música e eu sempre brinquei que quando eu tivesse um sobrinho e ele me contasse que tá a fim de alguém, eu diria a mesma frase que a Sônia Braga fala para o sobrinho dela no filme Aquários. Olha, faz uma coisa, toca Maria Bethânia para ela, mostra que tô em teste. E isso finalmente se mostrou possível.

Porque no ano passado eles anunciaram a gravidez e foi uma felicidade sem descrição. Todo mundo chorou muito de emoção. Eu redobrei a minha presença e ajudei com tudo que eu pude. A minha cunhada é brigada até hoje com a mãe dela, que é uma típica mãe narcisista. Então todo o acolhimento materno que ela teve nesse período veio da minha mãe. Todo dia elas trocavam mensagens. Minha mãe conversava muito com ela, abraçava, secava as lágrimas.

Chegava ao ponto da minha mãe vir para minha casa, ela mora em outra cidade, e a minha cunhada fazê-la ir até a casa dela, pois ela precisava desabafar e conversar. E foi assim que criaram uma expectativa muito grande na minha mãe, que eles gostariam de ter a ajuda dela quando o bebê nascesse, que ela seria a avó mais presente, que ela seria a abuelita, vovó em espanhol.

?Voz C

A minha mãe é espanhola.

?Voz B

Enfim, coisas que de certa forma a minha mãe sempre sonhou. E eu, conhecendo a mãe emocionada que eu tenho e como boa ouvinte do Se Essa Sogra Fosse Minha, fiquei muito em cima dela para que ela não tomasse algumas atitudes. E deu certo.

?Voz C

Bom, 98% certo, mas ela me surpreendeu muito de todo modo.

?Voz B

O bebê nasceu e foi uma alegria.

?Voz C

Ficou internado por uma semana, mas logo ficou tudo bem e ele foi para casa.

?Voz B

Para poder estar perto do bebê, minha mãe, meu pai e eu tomamos uma vacina que custou R$200, porque não tá disponível no postinho nem no SUS se você não é gestante. E aí eu fui a primeira da família do meu irmão a pegar o neném no colo. Foi um momento lindo.

?Voz C

Depois disso, segui monitorando a minha mãe e, para o padrão, se essa sogra fosse minha, ela tava gabaritando em se comportar muito bem.

?Voz B

Mas foi assim por pouco tempo. Logo começaram as visitas da família da Janaína.

?Voz C

Metade das pessoas não estavam vacinadas.

?Voz B

Na época em que o bebê esteve internado, a Janaína criou um grupo para dar notícias.

?Voz C

E aí vinha uma enxurrada de fotos, sempre fotos da família dela, tios, primos, a irmã, que é uma patricinha songamonga, não tem filtro algum no que fala, julguei mesmo.

?Voz B

E nada de convites para minha família. Nem para os meus tios, nem para os meus primos. Criando a gente, a minha mãe acertou muito em uma coisa: sempre equilibrou a família dela com a família do meu pai. Então, por exemplo, no Natal a gente ceava com os meus avós paternos, mas ia depois trocar presentes e fazer amigo secreto depois da meia-noite na casa dos meus avós maternos. No dia seguinte, almoçávamos com os meus avós maternos e íamos comer sobremesa com os meus avós paternos.

?Voz C

Tanto é que nos dois lados, tanto do meu pai quanto da minha mãe, historicamente todos sempre se deram muito bem.

?Voz B

Toda vez que o meu irmão e a Janaína chamavam a minha mãe, ela vinha de trem da cidade dela carregada de comida e cozinhava muita comida fresca e nutritiva para eles, para deixar preparadinho. A minha cunhada pedia ajuda para ela cuidar do bebê e ela vinha muito feliz, ela queria muito fazer isso. Só que quando ela chegava na casa deles, depois de cozinhar e tudo mais, eles diziam que não precisavam dela. E aí ela voltava chateada para minha casa.

?Voz C

Isso aconteceu pelo menos umas 3 vezes.

?Voz B

Uma vez eu mandei mensagem para eles num sábado Perguntando se eles gostariam de almoçar no domingo. Podia ser na casa deles, eles só fariam um macarrão e eu levaria um frangão assado de padaria. Eles só foram me responder que não dava no domingo às 18 horas. Mas essa mensagem não é sobre mim. Eu sou ótima em sair de cena, sei ler bem quando não sou bem-vinda, e eu não me demoro um segundo nessas situações.

?Voz C

Eu deixei o grupo arquivado, inclusive.

?Voz B

A minha preocupação é a minha mãe. Ela chora muito porque ela tem mais de 70 anos e fala que vai curtir pouco, Neto. E ela tá muito frustrada com tudo que foi prometido para ela e o quanto nada foi cumprido. A impressão que dá é que nós somos apenas a assistência que está à disposição E que a presença VIP de fato é a família dela. Eu, na verdade, não quero corrigir essa situação porque o meu irmão sabe como minha mãe tá se sentindo e ele não faz nada a respeito.

E eu seria completamente injusta se eu deixar tudo na conta da Janaína. O meu irmão tem muita parte de culpa nessa situação. Ele fica inerte, sem tomar decisões, sem se impor. Quando a minha mãe comunica os seus desconfortos, ele vira a situação e faz um mimimi gigantesco, e ainda se fecha deixando todo mundo de refém. E eu sei que era só ele conversar com a minha cunhada para decidir tudo. Enfim, eu não quero passar pano para o meu irmão, então eu não vou me meter.

A minha intenção ao mandar esse email é justamente para saber como lidar com a minha mãe, como aliviar esse lado para ela, sabe? Ela tá muito frustrada porque ela agiu direitinho com a minha cunhada. Eu fiz questão de acompanhar esse processo todo, mas enfim, como eu posso lidar com a minha mãe?

?Voz C

Me ajudem, por favor.

?Voz B

E essa foi a história de hoje. E aí, o que você faria se essa sogra fosse sua, ou essa cunhada fosse sua, essa mãe fosse sua? Como você agiria dentro dessa situação?

MFMillena Félix

Oi, gente, aqui é a Milena, sou psicóloga, atuo pela abordagem da fenomenologia existencial e tô aqui para comentar um pouquinho sobre essa história de hoje. Bom, primeiro ponto que eu queria trazer é que cada vivência ela vai ser muito singular. Então, que o meu papel aqui não é de interpretar nenhum comportamento, algum diagnóstico, definir quem tá certo e quem tá errado, mas realmente de dividir com vocês alguns pontos que me chamaram atenção.

É muito importante a gente lembrar que cada pessoa pode viver a mesma situação a partir de um lugar diferente. Não tem uma experiência única nessa história. A gente tem a experiência da chegada desse bebê através da mãe, através da avó, através da tia, e todas elas vão coexistir mesmo não sendo iguais, porque cada um desses sujeitos vão ser diferentes entre si. Me parece importante a gente perceber também que tem muitas expectativas sobre a chegada dessa criança na família desde a gestação, e talvez até antes disso também, expectativa de todos esses membros da família.

E a partir do momento que essa criança nasce, muitas dessas expectativas não se concretizam no real, e a gente pode pensar numa espécie de luto a partir disso também, também com a perda da possibilidade dessa realidade que não se concretizou como se era esperado. Então faz todo sentido que tenha um sofrimento, que tenha uma dor que vai vir desse lugar também, dessa frustração daquilo que não foi realizado. Mas é muito importante a gente entender que apesar da gente fazer o máximo possível para que as situações saiam como a gente gostaria, a gente não consegue controlar o comportamento e escolhas de outras pessoas.

Mesmo sendo meu irmão, mesmo sendo minha cunhada, eu posso comunicar a minha necessidade, os meus desejos, mas não há garantias de como esse outro vai responder, seja ele qual for, porque ele ela tá se movimentando a partir do seu próprio referencial, que nem sempre vai encontrar com aquilo que eu espero também. Um ponto que a Julieta trouxe que eu achei muito interessante é esse desejo de ajudar a mãe, é de aliviar esses sofrimentos que ela tem passado também.

E entendo, né, que é algo muito bonito e muito comum da gente ver, né, essa vontade de tirar essa dor do outro também. Mas é entender que muitas das vezes só o outro vai conseguir elaborar aquilo que ele tá vivendo, e a nossa possibilidade pode ser acolher essa dor junto com ele e permanecer do lado dessa pessoa na medida que se faz possível. Talvez me parece interessante entender também essa avó, o que que pode ser o papel de avó além daquele papel que se tinha expectativas?

Porque tem diferentes formas de se ser avó, e talvez ampliar um pouquinho isso possa fazer ela pensar de que outros jeitos ela ainda pode exercer esse papel, mesmo não tendo sido da forma que ela esperava. Bom, gente, obrigada pela atenção aqui também, por estarem me vindo compartilhar isso com vocês. Fico à disposição para conversar mais sobre com quem quiser também. Como eu disse, eu sou psicóloga, atuo na clínica online hoje.

Quem quiser entrar em contato pode entrar em contato pelo WhatsApp, pelo telefone, através do número 16 99615-9837. Um grande abraço para todo mundo!

?Voz B

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