O custo econômico da transição climática | Impacto Social FGV com Amanda Schutze
Durante muito tempo, falar de mudanças climáticas era falar apenas de impactos ambientais. Hoje, o clima dita os rumos da economia, da infraestrutura, da inflação e da competitividade global.Neste episódio do Impacto Social FGV, Amanda Schutze, coordenadora do FGV Clima, explica como a agenda climática deixou de ser apenas uma preocupação ambiental para se tornar uma estratégia central de desenvolvimento para o Brasil.A conversa aborda os impactos financeiros de eventos climáticos extremos, a urgência de encarar a adaptação como investimento (e não como custo), o papel do Plano Nacional de Transição Energética e as enormes vantagens competitivas do país no mercado global de baixo carbono.Temas deste episódio:▪️ A relação direta entre mudanças climáticas, economia e inflação▪️ Eventos extremos (como o El Niño) e os impactos no agronegócio e na infraestrutura▪️ Adaptação climática: por que a inação custa muito mais caro?▪️ O potencial do Brasil na transição energética global▪️ O mercado de carbono e as novas exigências comerciais internacionais▪️ A importância de uma transição climática que seja justa e garanta segurança energéticaGostou do episódio? Compartilhe com quem se interessa por sustentabilidade, economia, mercado de carbono e políticas públicas.O conteúdo desse podcast faz parte do Relatório de Impacto Social 2025, produzido pela Fundação Getulio Vargas. Acesse:https://portal.fgv.br/relatorio-de-impacto-social
Amanda Schutze
- A relação direta entre mudanças climáticas, economia e inflaçãoimpactos de secas na energia e indústria·eventos físicos afetam indicadores macroeconômicos·perda de safra e aumento de preços·Banco Central inclui El Niño como risco de inflação
- O potencial do Brasil na transição energética globalmatriz elétrica e energética renovável·produção de etanol de cana-de-açúcar·recursos naturais e minerais críticos·floresta amazônica
- A importância da segurança energética e da transição justaevitar ficar sem eletricidade·aprendizado da guerra da Ucrânia e Rússia·benefícios da transição afetam de forma diferente·acesso à energia de qualidade para todos
- A urgência de encarar a adaptação climática como investimentoadaptação não é custo, mas investimento·rede elétrica resiliente·custo da inação é muito grande·reagir adaptando, não só reconstruindo
- O Plano Nacional de Transição Energética (PLANTE) e sua implementaçãocontribuição do FGV Clima·coordenação entre agentes·políticas públicas de qualidade·segurança regulatória e investimentos
- O mercado de carbono e as novas exigências comerciais internacionaisprecificação da emissão de carbono·CBAM da União Europeia·exportação de produtos de baixo carbono·contribuição para descarbonização global
O que é importante falar sobre esse El Niño é que a gente realmente tem que investir em adaptação. A gente não pode só reagir reconstruindo, a gente tem que reagir adaptando, ou seja, fazendo com que o efeito seja o menor possível. É claro que a gente quer reduzir as emissões, mas nós não queríamos ficar sem eletricidade, por exemplo. Então a segurança energética, ela é vital. A gente não pode se esquecer disso porque a gente já tem esse aprendizado que se a gente não coloca um peso importante o suficiente para segurança, a gente pode fracassar na própria economia de baixo carbono.
Eu acredito sim que a gente vai tirar vantagem da nossa transição porque a gente vai olhar para esses 3 pontos que eu acho que na verdade são os pilares da transição: a questão da segurança energética, da economia de baixo carbono e da transição justa.
Durante muito tempo, falar de mudanças climáticas significava falar apenas de impactos ambientais. Hoje, esse debate ganhou uma nova dimensão. Clima também significa economia, agricultura, infraestrutura, energia, planejamento urbano e competitividade. As decisões tomadas agora vão influenciar a forma como cidades serão construídas, empresas vão produzir, governos investirão e sociedades se adaptarão a um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes.
Nesse episódio do Impacto Social FGV, vamos entender como a agenda climática deixou de ser apenas uma preocupação ambiental para se tornar uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil. Nossa convidada de hoje é Amanda Schultz, coordenadora do FGV Clima. Amanda, seja muito bem-vinda ao Impacto Social FGV. Amanda, há alguns anos, quando a gente falava de mudanças climáticas, isso era visto principalmente como um tema ambiental.
Hoje a gente já sabe que esses assuntos ocupam espaço nas decisões de governos, empresas, investidores, influencia diretamente na economia. O que que mudou?
Mudou muita coisa. E é exatamente como você disse, antes quando a gente falava de mudança climática, a gente tava focado só nas questões ambientais, na redução de emissões de gases de efeito estufa. E hoje a gente vê claramente que a economia já entendeu que a questão climática ela é determinante para para vários aspectos da economia, dos setores. Então a gente pode trabalhar com diversos exemplos. Se ocorreu, por exemplo, uma seca, então você não tem água nos reservatórios.
Com isso, o preço da energia fica mais elevado. Então o preço vai ficar mais alto tanto para o consumidor residencial, que é a gente, como para indústria. E aí, se essa indústria consegue repassar esse preço, os produtos podem chegar mais caro. Então tudo isso vai acabar afetando o quê? A inflação. Então a gente vê claramente um evento físico decorrente de mudança climática afetando um indicador macroeconômico, que é o IPCA, que é um indicador de inflação.
E a gente também pode pensar em indicadores de crescimento, de PIB, e também a gente pode pensar em diversos outros exemplos e outros caminhos que mostram a questão da mudança climática afetando a economia. É um outro exemplo muito simples de entender, é a questão da produção agrícola. Então você tem algum evento extremo que causa a perda de uma safra. Se isso acontece, a gente tem um aumento no preço dos alimentos. A gente pode pensar também até na questão fluvial, dos rios.
Então, boa parte da produção de milho, de soja do Centro-Oeste brasileiro é escoado pelo Norte através de rios. Então, se você tem algum evento com uma seca extrema e você não consegue escoar essa produção, você tem que procurar alternativas que vão ser mais caras. Então isso também impacta na economia. E o interessante de falar como é a mudança climática hoje tá dentro da economia, no sentido das decisões, como você falou, das empresas, dos governos, das pessoas, O próprio Banco Central, no relatório de política monetária de junho, ele inclui o El Niño como um risco a uma possibilidade de aumento de inflação.
Inclusive, ele fez uma consulta, né, aos agentes de mercado para entender essa magnitude do aumento da inflação para 2026 e 2027. E aí a gente está vendo esse efeito antes mesmo do impacto físico. Então já tá afetando a expectativa dos agentes econômicos.
A gente vai falar do ânimo, mas eu queria voltar uma casa atrás para a gente falar dessa questão do clima e da economia. Hoje, pelo que você colocou, é impossível tratar de de clima sem relacionar a economia. Sim, isso já é uma visão sistemática da sociedade.
Eu entendo que sim, porque nos últimos anos isso tem se intensificado. A gente vê claramente um grande número de empresas já incorporando o risco climático nas suas decisões, nas decisões de investimento, né, em decisões, assim, tanto na questão da própria atuação, né, de buscar ter metas internas para reduzir emissão, como também entender que para o planejamento, para organização, é importante incorporar esse risco. A gente também vê claramente nas políticas públicas recentes o governo incorporando o risco climático em políticas industriais, em políticas energéticas.
Então deixou de ser uma discussão só do campo, na empresa ou no governo, na área de sustentabilidade ou na área climática, para todas as áreas terem que pensar, porque impacta em tudo, sobre esse aspecto do clima. É, além disso, a gente vê também os bancos incorporando claramente isso. Não tem mais só, né, o risco fiscal, o risco cambial. A gente vê o banco colocando risco climático em decisões de crédito, de investimento. Então, atualmente, a gente vê um grande número de agentes que já entendem essa, essa relação clara entre economia e clima.
E aí a gente chega assim a esses fenômenos extremos, né? Há notícias de que tá se formando um El Niño de proporções nunca antes vistas, e isso imagino que seja um impacto gigantesco não só para o meio ambiente, mas para como as pessoas vivem, né, com ou tempestades extremas, alagamento, seca, etc., mas economicamente também eleva risco de quebra de safra, de escoamento de produto, como você falou, né? O que que a gente pode esperar desse super El Niño?
É, a questão do El Niño é que a gente sabe que a gente vai ter, né, um El Niño, mas a gente não sabe exatamente qual vai ser o efeito. A gente sabe, por exemplo, que o Brasil é afetado de forma diferente. Então, no Sul, infelizmente, né, a gente tem a questão toda de chuva, inundação. A gente se lembra do que aconteceu, então a gente entende todo o risco e o problema que isso pode causar, a perda. Não é só, é claro que a gente tem que pensar aqui na perda econômica, mas a gente viu toda a tragédia humana que cerca um evento desse.
A gente sabe que no Norte, no Nordeste, tem a questão da seca e também do calor. No Sudeste, Centro-Oeste, é calor, mas é mais heterogêneo o efeito. Então a gente não sabe exatamente o que vai acontecer, porque outros eventos climáticos podem ocorrer que podem anular ou até potencializar o efeito do El Niño. E eu acho que é importante é contar que o El Niño é um evento natural, então ele não ocorre por conta da mudança climática, mas ele encontra, né, um lugar diferente.
Então se a gente tem essa questão do El Niño e agora ele encontra uma situação em que a gente tem um aquecimento, você até pode ter uma intensificação dos efeitos. E essa é a preocupação, é o que que exatamente vai ocorrer e como é que a gente pode trabalhar com isso. Aí eu acho importante a gente separar em duas coisas que tem um clima. Uma é a mitigação, A outra é adaptação. Então, a mitigação é uma ação para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, né?
Isso que causa a mudança climática. E adaptação é, dado que essa mudança já ocorreu ou que a gente não tem como evitar próximas alterações, o que que a gente faz para adaptar? Então é muito importante que a gente entenda adaptação não como um custo, mas como um investimento. Por exemplo, a gente tem as distribuidoras de energia elétrica que têm que investir na rede de distribuição mesmo. Você não pode pensar nessa rede só como uma expansão, entendendo o clima como era antes, né, de repente com uma base histórica.
Você tem que entender acreditando que o clima mudou, esses eventos extremos podem ocorrer com mais frequência. Então você tem que ter uma rede resiliente. O que é importante falar sobre esse El Niño é que a gente realmente tem que investir em adaptação para se alguma ação, né, dessas ocorrer de fato, algum evento extremo, que a gente minimize os efeitos. E é importante dizer também que a gente imagina muito um custo em relação à adaptação, mas a gente tem um custo muito grande de inação, de não fazer nada.
Então, custo de reconstruir, né?
Exatamente. Então, a gente não pode só reagir reconstruindo, a gente tem que reagir adaptando, ou seja, fazendo com que o efeito seja o menor possível, afete menos, né, a vida das pessoas. Quando eu falo a vida das pessoas, a questão da saúde, da qualidade de vida, e também afete menos os indicadores econômicos.
Você falou da economia de baixo carbono. O Brasil tá preparado?
Essa é uma ótima pergunta, porque A gente sabe que o Brasil tem um grande potencial. A questão é se ele tá preparado.
Mas por que que o Brasil tem potencial grande? O que que ele tem de vantagem em relação aos outros países?
O Brasil tem muitas vantagens. A primeira não é na ordem de importância, mas a primeira é que ele tem uma matriz elétrica muito renovável, é quase 90%. O resto do mundo é cerca de 30%. A matriz energética também, ela é renovável, porque 50%, isso é muito, no resto do mundo é cerca de 15%. Além disso, a gente tem biocombustíveis, nós somos os maiores produtores de etanol de cana-de-açúcar, então a gente já tem até toda uma indústria desenvolvida, a gente tem muitos recursos naturais, Então a gente também tem, a gente sabe a importância dos minerais críticos para essa nova cadeia de transição, porque para painéis solares, para as pás eólicas, para os carros elétricos, você precisa de diversos minerais que o Brasil tem.
Então a gente tem a floresta, Então o Brasil tem muitas vantagens para conseguir de fato fazer essa transição climática, mas a questão é se a gente está preparado. Essa é uma pergunta muito complexa porque eu entendo que a gente pode sim se aproveitar dessa oportunidade E através dessa transição que o mundo tá fazendo, o Brasil também se desenvolver e ter um crescimento econômico elevado. Mas para isso ele precisa de diversas ações. E aí uma palavra que eu acho muito relevante é coordenação.
Precisa que—
é necessário que vários agentes estejam coordenados com esse propósito, porque a gente precisa, né, de política pública de qualidade, mas a gente precisa da infraestrutura, a gente também precisa do setor privado, a gente precisa de investimento. Então, se tudo isso funcionar em conjunto, a gente realmente consegue chegar nessa direção. E um ponto importante é, por exemplo, a questão da segurança regulatória. Você tem que criar mecanismos que façam com que o setor privado tenha confiança e estabilidade para esses investimentos.
E também precisa, claro, de um desenvolvimento de instrumentos. Então muitas coisas precisam ser feitas para que a gente consiga chegar e aproveitar essa oportunidade, que eu acho muito grande. Mas para isso, essa governança tem que ficar muito clara. É quem é responsável pelo quê, quem vai fazer, enquanto tempo, como é que vai ser a implementação.
E nesse aspecto que eu entendo que instituições como a fundação, né, especificamente como o FGV Clima, eles conseguem, elas conseguem contribuir, né, dando alguns tipos de direcionamentos. Eu queria que você falasse um pouco sobre o Plano Nacional de Transição Energética, que foi um trabalho que o FGV Clima realizou. Como é que se deu isso?
A gente chama de PLANTE, né, o Plano Nacional de Transição Energética. Ele faz parte da Política Nacional de Transição Energética. A política tem dois instrumentos: o PLANT e o FONTE. O FONTE é o Fórum de Transição Energética, e o FGV Clima, ele tem como missão é contribuir, né, com evidências para políticas públicas, exatamente para melhorar as ações climáticas e desenvolver o país. Então a gente teve essa oportunidade fantástica, a gente tem um acordo de cooperação técnica com o Ministério de Minas e Energia, a gente acabou de fazer um aditivo até 2029.
E o que que era, o que que foi esse trabalho conjunto? Desde o início, desde a criação da política, a gente vem contribuindo tanto com estudos, e essa parte de diagnóstico é muito importante, mas mais importante do que isso é fazer esse diagnóstico virar uma decisão, uma ação, e uma, e aí ir direto para implementação. Então a gente desenvolveu junto né, ao Ministério, colaborando com a política desenvolvida pelo Ministério de diversas formas.
Primeiro, com muitos estudos relacionados à transição energética, toda a questão do financiamento, é comparação internacional, como diferentes setores envolvidos mais diretamente. Porque como a gente falou, acaba que toda a economia tá envolvida, mas você tem o setor elétrico, setor de óleo e gás, setor de transporte, setor mineral, a indústria. Então fizemos diversos relatórios. Para além disso, essa política veio muito com esse papel de conseguir coordenar, porque imagina, a transição energética passa por tudo.
Então ela vai conversar com todos os outros ministérios. E aí a gente ajudou primeiro nessa construção dessa cooperação interna dentro do governo federal e depois através da participação dos governos subnacionais, da academia, da sociedade civil, da indústria. Então foi uma política construída realmente com a colaboração de todas as pessoas, representando, né, todos os setores que são de fato afetados pela política. Então foi um trabalho muito intenso que agora vai continuar colaborando com a parte da implementação da política.
Quais foram os achados iniciais desse trabalho?
Ah, são muitos achados, mas o que eu— é claro que é um tema muito grande, a gente poderia ficar aqui falando muito sobre isso, mas eu acho que um que me vem à cabeça agora é exatamente essa questão de coordenação e de governança. Então, o que a gente vê no Brasil é que tem diversas políticas, por exemplo, você pode ter uma política industrial e uma política energética que pensadas isoladamente elas fazem total sentido, Mas quando você olha para o todo e até para o efeito de uma política na outra, você vê que elas podem se anular.
Então você tem um resultado péssimo. Eu acho que o fato disso ter ficado muito claro e ter se feito esse esforço de olhar como um todo ajudou muito para que fosse possível desenhar esse plano, porque que o plano, ele olha para o que o país quer no longo prazo. Então ele realmente tem esse objetivo, mas ele tem ciclos de 4 anos e a cada ciclo são determinadas as ações. É claro que a gente tá no primeiro ciclo, então essas ações elas têm que ser feitas nesse momento de forma coordenada para a gente chegar nesse resultado futuro que a gente quer como país.
Perfeito. Então, o Brasil hoje, o desenho qual que é? O Brasil tem um potencial enorme, existe um plano para que governo, sociedade civil e etc. consigam se comunicar para criar um planejamento, e agora é hora de colocar algumas ações em prática. Levando em conta assim essa aceleração que a gente tem de desafios climáticos, eventos climáticos extremos, qual é a janela de tempo que a gente tem para implementar isso e não chegar talvez num ponto de não retorno, ou de que a gente tenha que passar aquela questão das adaptações que você mencionou?
É, quanto menos a gente fizer agora, mais custoso vai ser no futuro. Então, quando a gente pensa em adaptação, tudo que a gente não tá investindo em adaptação, a gente pode mostrar perdas futuras enormes que compensariam enormemente o investimento em adaptação. A questão é, se a gente não tomar atitudes como a preservação da Floresta Amazônica, a gente pode chegar nesse ponto de não retorno. Então, Então que a floresta não vai mais conseguir se regenerar.
Isso é gravíssimo, né, porque a gente conhece a importância da floresta não para o Brasil apenas, mas para o mundo, né, para esse equilíbrio climático. Então assim, para além disso tudo, a gente tem que tomar muitas ações agora para que a gente consiga de fato aproveitar essa oportunidade que a gente tá falando, porque Porque a sensação que eu tenho é que o Brasil sempre vai ter essa chance e que, na verdade, oportunidades passam.
E a gente está tendo com essa transição uma grande nova oportunidade. Então vai custar muito perder isso, porque a gente pode— o crescimento econômico, ele não pode ser— quando a gente fala em crescimento, ser separado de quanto isso é importante para as pessoas, porque isso aumenta a renda das pessoas, aumenta a qualidade de vida, aumenta a quantidade de emprego. Então, os empregos ficam mais qualificados, a gente tem que pensar em profissionais mais bem preparados. Então, deixar essa oportunidade passar tem um custo imensurável.
E quando a gente fala de oportunidade, pensar no mercado de carbono seria um caminho para de alguma forma aproveitar essa vantagem competitiva, já que a gente tem uma matriz muito mais renovável que do restante do mundo?
O mercado de carbono, ele é uma das coisas que tem que ser feitas e ele é absolutamente essencial. A gente está precificando essa emissão. O que acontece é que quando a gente, como pensando numa indústria, por exemplo, eu estou emitindo, eu estou causando uma externalidade negativa a todas as pessoas. Então, de alguma forma, isso tem que ser internalizado, ela tem que entender esse custo. Então, o mercado de carbono é muito importante para ter esse papel.
Para que agora se entenda o custo, né, de emitir, e que dada essa vantagem que você falou que a gente tem, se aproveite exatamente esse potencial para reduzir as emissões. E quando a gente fala do mercado de carbono, me vem à cabeça agora, por exemplo, uma também falando sobre crescimento, a questão da União Europeia, porque ela já tem o mercado dela. E aí ela agora fez o CBAM, que é exatamente uma maneira de colocar um custo nas emissões dos produtos importados.
Então ela não quer impor para a indústria local um custo, né, de emissão de carbono e depois importar produtos que não tiveram esse custo. E como é que o Brasil pode aproveitar essa oportunidade exatamente para exportar produtos de baixo carbono usando todo esse potencial? Então imagina, além das próprias empresas valorizarem e o mercado, né, os consumidores, produtos de baixo carbono. Agora a gente já tá vendo uma questão impositiva.
E se a gente usa, por exemplo, hidrogênio de baixo carbono para exportar energia diretamente, ou se a gente usa todo esse nosso potencial para exportar produtos de baixo carbono, como por exemplo aço de baixo carbono, a gente vai estar contribuindo também para que os outros países alcancem o seu objetivo de descarbonização e para que todos possam consumir esses produtos que usam menos carbono na sua produção.
Bom, com essa questão da União Europeia que você trouxe, eu entendo até que de alguma forma muitos setores da economia eles vão acabar sendo empurrados para fazer uma descarbonização dos seus negócios por até por uma questão comercial e econômica, certo?
Certo.
Então, de alguma forma, as grandes potências mundiais, elas conseguiriam também impor uma agenda climática de baixo carbono.
Sim. E essa, o que a gente vê é como toda a questão geopolítica afeta nessa agenda. Então Não só por conta de uma decisão direta, né, de uma regulação de um outro país, mas também a questão da guerra da Ucrânia e Rússia mostrou a importância da segurança energética para fazer essa transição. E aí todos os países entenderam a importância disso. Até porque não é só eventos extremos que podem causar instabilidade, né? Guerras ou uma pandemia pode causar uma grande instabilidade.
Então a importância também da gente estar preparado como país, não só para aproveitar essas oportunidades, e como a gente tava falando, esse estímulo a produtos de baixo carbono que não só a União Europeia podem querer consumir mais diversos países e consumidores. Mas aí a gente entra na questão que é assim, é extremamente importante, que é a segurança energética. Porque quando a gente fala em transição, a gente pensa que a gente quer sair, né, de um ponto para o outro, a gente quer mudar a nossa matriz.
Mas a gente tem que entender que é muito mais do que isso, porque essa transição, como a gente tem conversado, ela também tá pensando no desenvolvimento econômico do país. E ela não pode fazer com que de forma alguma as pessoas tenham a sua qualidade de vida prejudicada. Então é claro que a gente quer reduzir as emissões, mas nós não queremos ficar sem eletricidade, por exemplo, em algum momento do tempo ou por dias. Então a segurança energética, ela é vital.
A gente não pode se esquecer disso porque a gente já tem esse aprendizado que se a gente não coloca um peso importante o suficiente para segurança, a gente pode fracassar na própria economia de baixo carbono. E acho que o Brasil também, ele tem uma vantagem muito grande na questão da estrutura, do planejamento para a manutenção da segurança energética.
É quando a gente pensa em políticas públicas? Na sua visão, quais deveriam ser prioridade para o Brasil hoje?
Talvez seja mais fácil até eu pensar em termos, eu acho que, de setores. Eu acho que o setor de infraestrutura para esse tema, ele é extremamente importante. O outro setor é o setor de energia. Então a gente tava até falando da Política Nacional de Transição Energética. O Plano Clima, que tem feito, né, o seu papel exatamente na parte de mitigação, e bem intensamente, com muita discussão também em cima de adaptação, toda essa parte também de política industrial criando incentivos e mecanismos, instrumentos para que a gente tenha esse estímulo à indústria de baixo carbono.
E aí, na verdade, de novo, o mais importante é exatamente coordenar todas essas políticas. É a gente como país ter uma visão única, centralizada, do que que a gente quer como país para fazer com que realmente você tenha ali políticas muito bem desenhadas. E aí, uma coisa importante, e de novo voltando para a questão de como a FGV contribui diretamente para essa agenda, a avaliação de política pública é muito importante. Tanto a avaliação ex ante, que a gente olha para entender se aquela política é a melhor opção realmente, todo o acompanhamento mesmo, monitoramento da política com diversos indicadores, e de tempos em tempos uma avaliação ex post para entender como é que a política pode ser aprimorada.
O governo pode estar muito bem intencionado e a gente fazendo essa hipótese, ele pode não estar gastando dinheiro da maneira mais eficiente para alcançar da melhor forma aquele resultado. Então essa cultura de avaliação de política pública, ela é extremamente importante para que a gente vá evoluindo e ajustando as políticas. A gente tem um trabalho muito interessante de eficiência energética. A gente também tá colaborando com o Ministério de Minas e Energia, e esse trabalho é para avaliar a Lei de Eficiência Energética e o Procel.
E por que que ele é tão importante. A eficiência energética, por definição, é você produzir mais, se você é uma empresa, com menor energia, com menos quantidade de energia. Ou se a gente tiver falando da gente, é a gente tá aqui consumindo a menor quantidade de energia possível, mantendo o nosso bem-estar, ou conseguindo aqui ter essa conversa. Então a gente vai fazer opções no uso da energia elétrica que façam com que não tenha nenhum efeito no resultado, mas que a gente consuma menos.
É a fonte mais barata, porque você vai estar com o mesmo resultado e o custo é zero. Você não tá consumindo a energia. Então entender como é que o país pode aprimorar Então não é no sentido de analisar para ver o que que tá errado em uma política, é ao contrário, é dar ferramenta para aquilo ser aprimorado e para a gente alcançar o resultado que a gente quer. E é claro que a gente quer melhorar como país em eficiência energética.
Quando a gente fala de eficiência, eu acho que se a gente pega o eletrodoméstico qualquer um que seja, de 20 anos atrás, ele era menos eficiente do que seria hoje, né? É mal comparando, seria nessa linha, né?
E o que que é uma política pública? A política pública vai te contar qual é o equipamento mais eficiente, por exemplo. Então você pode ter diversos equipamentos e uma etiqueta vai te contar se esse equipamento é eficiente ou não. Uma outra etiqueta pode comparar com outros equipamentos e falar que aquele ali é do melhor grupo de equipamentos mais eficientes. O consumidor então ele vai entender com essa informação que vale a pena de repente ele gastar um pouco mais porque ao longo do tempo ele vai economizar muito em energia elétrica.
Então essa é uma política pública bem clara né, de como que você consegue, através da comunicação com o consumidor, mudar, né, o comportamento das pessoas e elas utilizarem equipamentos mais eficientes.
E extremamente didático, né? É. Voltando agora para a questão dos eventos climáticos extremos, a gente não sabe onde nem quando, mas a gente sabe que eles vão acontecer. Como é que se prepara para um ambiente que pode ser cada vez mais hostil?
A preparação é exatamente a gente conseguir investir em adaptação. Então, como é que você constrói uma rede elétrica mais resiliente? Como é que você constrói cidades para que, se ocorrer um vento muito intenso, não derrube tudo e danifique e impossibilite o transporte. Como é que— então a gente pode ficar aqui conversando, mas a questão é que cada município, né, ele tem que entender quais são as suas vulnerabilidades e atacar isso e desenvolver mecanismos para que você minimize os efeitos.
Então eu não posso comparar o município do Sul com o município do Nordeste, que tem características completamente diferentes e eventos possíveis também. Mas qualquer evento que ocorra, ele vai ser muito menos, ele vai ter um efeito muito menos intenso se você tiver esse preparo. Então é importante entender, né, qual é a vulnerabilidade, investir em melhorias para minimizar tudo isso e Além disso, ter todo um trabalho de, dado que aconteceu, o que que pode ser feito.
Então, a questão de comunicar para as pessoas que aquele evento tá ocorrendo, porque isso também dá um tempo, assim, dá um tempo, porque a pessoa precisa ter uma resposta rápida. Ela pode já tá pensando em sair, ela deixa de sair. Então é todo um preparo também para emergência, mas eu não queria focar aqui só nessa parte da reação ao acontecimento, porque aí a gente fica muito em cima desse estado de emergência e deixa de pensar em investir quando tá tudo bem.
Essa que é a questão toda, assim. A gente tá chegando já ao fim da nossa conversa, né? Né? E aí queria te fazer uma última pergunta assim: a gente olha para os próximos 10, 20 anos, você é otimista em relação à capacidade do Brasil em enfrentar esse tipo de desafio?
Eu sou otimista, né? A gente tá colaborando para esse caminho e eu acredito realmente que a gente não vai perder essa oportunidade. A gente tem que ser otimista porque a gente sabe todo esse potencial que o país tem. E a gente fala muito do potencial natural, mas em várias dessas indústrias a gente já é muito desenvolvido. Então a gente já tem toda a tecnologia, a indústria. Então a gente tem que tomar uma decisão agora de realmente tomar as ações necessárias para que a gente caminhe para utilizar essa oportunidade da transição energética, da transição climática, para um aumento de produtividade industrial, aumento da competitividade, o aumento do crescimento para o desenvolvimento do país.
E eu entendo que nós como brasileiros temos total capacidade disso. E que a gente tem como tomar as ações corretas para ir nessa direção. Mas um ponto que eu não queria deixar de falar sobre isso é que mesmo que tudo isso que a gente conversou até agora aconteça e que a gente tenha esse crescimento, a gente não pode fazer essa transição sem ser de forma justa. Então, da mesma maneira que o efeito de um evento vai afetar as pessoas de forma diferente, então os benefícios da transição também afetam de forma diferente.
Você pode trabalhar numa empresa que faz parte de uma indústria que vai terminar, ou não. Exatamente ao contrário, você se desenvolveu e tá trabalhando numa empresa que é muito importante para essa transição. Então pensar em todos os trabalhadores, na realocação, em como pensar em treinamento, pensar também em como que a transição tá afetando as pessoas. Por exemplo, se você pensa numa pessoa de maior renda, ela pode ter um carro elétrico, ela pode ter painel solar em casa, ela pode ter produtos eficientes.
E aí você pensa numa pessoa de menor renda, ela pode não ter acesso a uma energia de qualidade, ela pode não ter energia para ter o básico de qualidade de vida. Então a gente também tem que pensar na questão do acesso, na questão de um preço que seja possível que essa pessoa pague. Então eu acredito sim que a gente vá tirar vantagem da nossa transição, porque a gente vai olhar para esses 3 pontos que eu acho que na verdade são os pilares da transição: a questão da segurança energética, da economia de baixo carbono e da transição justa.
Excelente. E acredito que o FGV Clima tem muito ainda a contribuir, né, com esse tipo de política. Mano, queria te agradecer pela conversa, pelo papo, foi ótimo. Acho que a gente vai ter que marcar outros para aprofundar alguns outros assuntos. E para quem tá em casa também, que tá nos assistindo, agradeço pela audiência. É, o Impacto Social, ele vai ficando por aqui. Peço que acompanhe a gente nas redes sociais, no YouTube. Em breve a gente volta com ou outro assunto, o outro convidado. Então, até a próxima, tchau tchau!