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Cérebro de Boltzmann e o sonho da borboleta: a prova matemática de que você pode não existir

30 de julho de 202648min
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🔹 Patrocínio: Insider – https://creators.insiderstore.com.br/...🔹 Combo de cursos do Alberto (Aprenda Hipnose do zero + o Auto-Hipnose Científica por apenas R$ 597): https://pay.hotmart.com/T102804477H🔹 Curso de podcast por R$ 247 com nosso editor Gabriel Tuller e Leo Lopes da Radiofobia! https://cursodepodcast.com.brComo é que uma seleção perde o pênalti mais ridículo da história, não faz uma coletiva de imprensa de verdade depois da eliminação — e isso ainda não é nem o assunto mais bizarro do episódio?Existe uma fórmula matemática que calcula a chance de você ter surgido do nada, sozinho, há exatamente um milissegundo.Uma coisa é isso soar como delírio de filme de ficção científica. Outra completamente diferente é descobrir que essa é uma conclusão levada a sério por físicos teóricos, ganhadores de Nobel e cosmólogos — e que ela tem nome: cérebro de Boltzmann.Nesse episódio, João e Alberto partem da segunda lei da termodinâmica — aquela que diz que a desordem do universo só aumenta — pra chegar num dos argumentos mais desconfortáveis da física moderna. Ludwig Boltzmann, o físico que provou que átomos existiam antes de qualquer um acreditar nisso, morreu por suas próprias mãos em 1906 sem saber que sua ideia mais maluca ia voltar cem anos depois pra assombrar a cosmologia: se o universo é eterno e a desordem sempre vence, é estatisticamente muito mais provável que a realidade inteira seja um único cérebro flutuando sozinho no vácuo por uma fração de segundo do que um universo com 100 bilhões de galáxias e 13,8 bilhões de anos de história.Mas o papo vai muito além disso:→ a segunda lei da termodinâmica explicada com uma gota de tinta que nunca mais volta a ser uma gota só→ Roger Penrose e a probabilidade do Big Bang ter sido acaso: 1 em 10 elevado a 10 elevado a 123→ o que é um "cérebro de Boltzmann" e por que ele é, estatisticamente, mais provável do que você→ o paper de 2002 (Dyson, Kleban, Susskind) que ressuscitou a ideia via espaço de Sitter e energia escura→ Sean Carroll e a "instabilidade cognitiva": a teoria que destrói os próprios dados que a sustentam→ o Homem do Pântano de Donald Davidson e a filosofia externalista da mente→ o sonho da borboleta de Zhuangzi e as referências a Matrix e Rick and Morty→ DMT, experiências de quase-morte e por que a física teórica precisou inventar uma regra só pra impedir esse cenárioSe a matemática mais rigorosa da física prevê que é mais provável você ser um cérebro flutuando por um milissegundo do que um ser humano de verdade com 3,8 bilhões de anos de evolução atrás de si, o que sustenta a certeza de que qualquer coisa — inclusive essa pergunta — é real?Entre meditação guiada existencialmente perturbadora, piada errada sobre Matrix e física de verdade explicada com o rigor de um Nobel, esse talvez seja o episódio mais denso — e mais desconcertante — que o Hora Boa já gravou.Se depois desse episódio você continuar confiando na sua própria memória, considere isso uma vitória. Busque conhecimento.📌 Seja membro do canal antes que o universo decaia e leve o Hora Boa junto.📌 Comente aqui: você compraria a ideia de que sua vida inteira pode ter durado um milissegundo, ou prefere não saber?📌 E o mais importante… você sabia que existe uma fórmula que calcula quantos cérebros de Boltzmann deveriam existir pra cada ser humano real?

Participantes neste episódio2
A

Alberto

Host
J

João

Host
Assuntos8
  • Cérebro de Boltzmann vs. UniversoFlutuação de entropia · Universo morto · Cérebro flutuante · Energia escura · Espaço de Sitter
  • Cérebro de BoltzmannLudwig Boltzmann · Segunda Lei da Termodinâmica · Entropia · Probabilidade estatística · Universo eterno
  • Rejeicao do Cerebro de Boltzmann· CienciaReductio ad absurdum · Falso vácuo · Decaimento do vácuo
  • O Roubo de Memórias e a Instabilidade MentalSean Carroll · Colapso lógico da ciência empírica · Confiança nos dados sensoriais · Teoria cognitivamente instável
  • Homem do Pântano e ExternalismoDamir Davidov · Hilary Putnam · Cérebro incubado (Brain in a vat) · Cadeia causal histórica · Conteúdo semântico
  • Condições do TempoIrreversibilidade · Simetria temporal das leis físicas · Experiência humana da impermanência
  • Probabilidade do Big BangRoger Penrose · Tensor da curvatura de Wheeler · Baixa entropia inicial
  • Manifesto e a necessidade de sonharZhuangzi · Matrix · Rick and Morty · Roy: Uma Vida Bem Vivida
Transcrição135 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
JJoão

Olá, jovens! Mais uma semana, mais um Hora Boa, e mais uma vez estou aqui com o maior debugger do Brasil, Enio Alberto Delícia. Me conta, como anda as suas aventuras agora que você finalmente realizou o sonho dos seus pais e virou um garoto de programa?

AAlberto

Quer ver?

JJoão

Eu vou te falar que eu programei até 2000, mais ou menos.

AAlberto

Se naquela época eu tivesse isso que tem hoje, eu não tinha mais relacionamento, tinha feito mais nada. Eu cheguei a pegar essa semana jogos de Super Nintendo para acabar com a compressão, para extrair em hexadecimal o texto descomprimido, para poder hackear as estruturas do jogo. Você tem uma ideia por que que eu tô com esse HD aqui?

JJoão

Porque tá trabalhando, né?

AAlberto

Eu não vou daí, velho. Vamos lá, vamos lá, vamos lá. Aqui, ó, explicar uma coisa. Se você não está assinando o cloud, cloud, quem não sabe de inteligência artificial, de programação, você tá perdendo seu tempo. Tem que assinar.

JJoão

E segundo, Anthropic vem no probleminha, tá? E segundo, é, isso aqui tá sendo de graça, mas não precisava.

AAlberto

Segundo, se você não está com ele trabalhando 24 horas igual um escravo digital, com trabalho daquele mesmo que eles vão na Revolta das Máquinas descer o cacete por conta disso, tá errado. Então acontece, se o João falou assim, ó, tem podcast hoje, Pô, mas tá renderizando coisa, então vou levar um HD, aí tá resolvido. Quer ver o melhor do Cláudio? Campanha do Cláudio. Ele faz um negócio que pra mim eu acho a coisa mais fantástica do mundo, que é o seguinte: em 20 minutos o arquiteto quer isso, isso, isso.

Olha só, eu vou dormir, tranquilo? De manhã cedo eu quero ver o que que tá pronto. Ou seja, eu posso dar comandos pra ele pra ver o que vai acontecer. A integração com as APIs é um negócio de louco. Aí eles têm questões de segurança, questões de segurança pra site, pra Principalmente para aplicativo. Pô, mas o cara fez um aplicativo, aí tem que ter, enfim, pelo menos o tal do MVP, que é o produto minimamente viável comercialmente.

Dá para fazer tudo no cloud, então recomendo muito o cloud. Aí eu recomendando, tá usando também o cloud?

JJoão

Tô usando também, fiz uma máquina de automação dos meus shorts, e aí ele tá lá cropando e fazendo vários.

AAlberto

Tá fazendo agora, tá.

JJoão

Depois de muito debugging, depois de vários testes, nós chegamos, né, num jeito perfeito. E aí isso libera o tuller para o trabalho criativo, né? Porque essa questão, né, não tem que ficar com essa preocupação de decupagem, de cortar, de não sei o quê. Fica com o trabalho criativo, fica para fazer capa, fica para fazer capa bonita, SEO bonito, motion para entrada. Nós vamos voltar com os vídeos mini documentário. E esse grossão para soltar no dia a dia, ele vai fazendo depois, né?

Você sabe como é que é, nós estamos nessa juntos há semanas fazendo isso. Depois de depurar muito, ele já chegou num ponto em que ele chega no gancho certo, que ele no áudio certo, que ele faça tudo que precisa, cospe e pronto. Você dá uma olhada e fala: isso tá certo, tá certo, tá certo. Isso aqui você refaz assim, assim, assado, acabou. Não, é uma coisa legal, é que aí isso te dá programação para semanas, cara. Então assim, eu pela primeira vez na minha vida tô com uma gordura de shorts de um mês e meio.

AAlberto

Não, é fantástico. Então recomendo a todo mundo aí. Inclusive dá para usar o Gemini para assistir o vídeo no Cláudio. O Gemini, depois que faz, dá para fazer: ô Gemini, dá uma olhadinha aí, o que que você tá achando e tal. Conversei com o Cláudio, tá tudo certo, tudo certo. Isso aqui a gente virou o Gui de Rabelo, né?

JJoão

A real é que a gente virou GitHub-eiro e eu descobri um novo repositório no GitHub delicioso que é o Fooocus, F-O-O-O-C-U-S, que ele renderiza imagem, ajuda a renderizar vídeo, ele trabalha junto com FFmpeg e é uma delícia assim, ajuda demais.

AAlberto

Pois é, então fica a dica aí para quem não tá mexendo no cloud. Na verdade ele acaba resolvendo um problema que é a barreira de entrada, que é saber mexer com linguagem, mas o algoritmo continua, o pessoal não entende isso. Algoritmo, gente, não é linguagem não, algoritmo é estrutura de dados. Então dá para trabalhar com classes, estruturar classes, arquivos, mesmo jeito. Agora, é claro que se você não sabe nada de computação, aí vai ficar bagunçado e tal. Não, isso é coisas cotidianas, faz diferença não.

JJoão

Não, sim. E assim, o mais importante é engenharia de prompt, é saber o que pedir e como pedir. E com certeza estruturando de uma forma que seja menos idiota, para ele não ficar fazendo trabalho circular e gastando à toa.

AAlberto

Certeza. E o senhor reparou o episódio de hoje sobre cloud?

JJoão

Não. Olha só, eu quero te contar uma história que é uma história muito bonita, uma história que eu acho que aqui em Belo Horizonte todo mundo conhece, mas nem todo mundo fora de Belo Horizonte conhece, que é a história de Bobô e Vovô. Bobô, um pai solteiro.

AAlberto

Eu nunca ouvi falar nessa história.

JJoão

Todo mundo de Belo Horizonte conhece, menos o Alberto. Quero contar a história de Bobô e Vovô. Bobô é um pai solteiro, um homem muito digno, maravilhoso mesmo, muito dedicado ao filho. Infelizmente perdeu a sua companheira no parto do seu filho e vem criando este bebê junto com o seu pai, que foi apelidado então de vovô. Eu tava andando pelas ruas de Belo Horizonte ouvindo os gritos dos jovens para poder me inspirar sobre o que diabos, né, falaríamos no episódio de hoje.

E eis que passando pela rua eu vejo passeando Bobô, vovô e o bebê. Falei, não, vou parar meu carro. Exatamente, Bobô, vovô e bebê. Falei, não, vou parar meu carro, né, dá prestar aqui toda a minha solidariedade a esse grande guerreiro que é Bobô. Nessa hora, cara, tava Bobô, vovô, o bebê. Eu parei meu carro do lado, saí do carro. E eis, Alberto, que o bebê começa a balbuciar aquilo que seria a sua primeira palavra.

AAlberto

Tô intrigado que palavra seria essa.

JJoão

Bububububu. E o Bobô falando, é Bobô, é Bobô! E o vovô pensando, é vovô, é vovô! E eis que o bebê finalmente fala, B-B-B-Boltzmann, a fantasmagoria do vácuo, o solipsismo estatístico e a crise existencial da ciência empírica. E eu falei, é esse.

AAlberto

Esse episódio?

JJoão

Esse é o episódio de hoje.

AAlberto

O cara tava vindo pra cá, o pessoal tava discutindo isso mesmo. É.

JJoão

Então hoje nós vamos falar sobre Ludwig Boltzmann e tudo que ele representa. Mas antes, Alberto, da gente falar, vai aparecer na tela de vocês um lindo print Tá? E este print é uma citação de um livro, que é o livro de Goldstein sobre termodinâmica e mecânica estatística, um livro muito famoso chamado Estados da Matéria. Vou me permitir ler. Ludwig Boltzmann, que passou a maior parte da sua vida estudando mecânica estatística, morreu em 1906 por suas próprias mãos.

Paul Ehrenfest, carregando o seu legado de trabalho, também ocorreu em 1933 de maneira análoga. Agora chegou a nossa vez de estudar mecânica estatística.

AAlberto

Não, mas que auspiciosa essa é!

JJoão

Muito auspiciosa essa mensagem. É esse o convite que a gente tá fazendo, né, para nossa audiência hoje. Venham conosco para esse mundo de felicidade sem fim chamado mecânica estatística e termodinâmica. O que que acontece com o menino Boltzmann? A verdade, Alberto, é que a experiência humana, ela é marcada pela tragédia da impermanência. A gente envelhece, perde as pessoas amadas, os impérios ruem, o café esfria na mesa. A poesia, a literatura, a dor da existência nascem do fato inquestionável de que o tempo flui em uma única direção.

Agora, quando você abre um livro de física, se você inverte essas equações, elas são completamente simétricas no tempo. Se eu inverto uma variável t por -t, a física vai funcionar da mesma forma. As leis do universo, portanto, não distinguem entre passado e futuro. E fica então a pergunta: de onde nasce essa flecha irreversível do tempo? Seria o tempo essa dimensão que nos prende? Seres quadridimensionais, de quinta dimensão, não teriam? Não sabemos.

AAlberto

Que o tempo é fixo, né?

JJoão

Pra nós, o tempo é experienciado como uma dimensão ele corre de uma única forma. Da mesma forma que seres de duas dimensões não podem girar um boné. Você já parou para pensar nisso? Você já pensou que um quadrado jamais pode meter o boné para trás e fazer iê iê para outro quadrado?

AAlberto

Hoje você tá mais maluco que o normal.

JJoão

Hoje eu tô mais maluco que o normal. Hoje eu tô mais maluco que o normal. Caramba, mas é sério, que pensa para você ver, girar o boné é um movimento de 3 dimensões. Então um quadrado jamais pode girar o seu boné e fazer um iê-iê pra outro quadrado. Mas se aparece um quadrado com um boné girado, isso é uma prova indelével no universo dos quadrados da existência de uma terceira dimensão. Porque se ele tenta voltar o boné, o boné fica de cabeça pra baixo, porque ele só tem 2 dimensões pra girar o boné.

Isso é uma coisa que as pessoas pensam muito em casa quando elas estão sozinhas.

AAlberto

Discutindo isso, né, cara? Pessoal sabe, você é mago, sabe assim, eles estão navegando em trend.

JJoão

Os episódios são só sobre trend, só sobre trend, né? Qual que é o rolê do Boltzmann? O Boltzmann tinha uma certeza que ainda não era provada à sua época, de que o mundo era feito de átomos invisíveis. E aí, o que que ele se percebe a partir disso? Que a segunda lei da termodinâmica, que é a lei que fala que a entropia, que a desordem, sempre aumenta, ela não seria uma propriedade mística da matéria, mas uma mera lei de probabilidades estatísticas.

O universo caminha para o caos porque tem mais formas de coisas estarem desordenadas do que estarem ordenadas, tá? Então, basicamente, essa é a primeira Grande sacada do Bolt. Vamos ir além, vou propor aqui uma outra ideiazinha mental, né, um pouco melhor.

AAlberto

Você ouviu o neném falando hoje?

JJoão

Que eu ouvi o neném falar, o bebê, né, bobô, vovô e bebê, né. Eu ouvi o bebê falando hoje que é um pouco melhor do que a do quadrado de boné, tá. Se bem que eu acho que a do quadrado de boné é a mais legal de todas. Vamos pensar o seguinte, cara, tem a famosa metáfora do perfume ou da gota de tinta na água. Quando você joga uma gota de tinta um copo d'água, ela vai espalhar e a água vai ficar uniformemente tingida da cor daquela tinta.

Por que que a tinta não se reúne espontaneamente de volta em uma única gota perfeita? Qual que é a ideia do Boltzmann? Isso lá em 1900 e pouco, muito antes de Einstein, muito antes de todo mundo, tá? Resposta do Boltzmann: as moléculas de água e de tinta estão se chacoalhando aleatoriamente, estão movendo de forma aleatória. Você tem um número minúsculo de arranjos que ele vai chamar de microestados, que vai ser a constante ômega, onde todas essas moléculas de tinta vão ficar juntas no mesmo lugar ali no centro onde ela foi pingada.

E você tem um número astronomicamente gigantesco de arranjos em que elas vão estar espalhadas. O que torna então a água azulada não é uma força mística, é probabilidade. É estatisticamente inevitável que a água vá ficar atingida. E aí, cara, o que que a gente pensa a partir disso com aquela primeira provocação que eu falei do tempo? Quando você pensa em perda, quando você pensa em envelhecimento, quando você pensa em morte, são partículas que estão se chacoalhando ao estado mais estatisticamente provável delas.

A decadência ao caos, o aumento da utopia, é esse padrão que é mais provável. E aí eu te pergunto, você acha isso libertador filosoficamente ou te dá aquele vazio, te dá uma sensação de crise existencial?

AAlberto

Eu acho, dá uma certa crise existencial.

JJoão

Eu acho que depende de como que você olha, né? A beleza está no olho de quem segura a cerveja, já diz o ditado em inglês, the beauty is in the eyes of the beer holder. Então, é, eu conheci esse ditado, né? Aí os caras colocam The Beer Holder, tá? Um trocadalho aqui para você, tá? Em homenagem aos nossos amigos do UTC, tá? Enfim, normalmente na filosofia tem gente que vai lutar contra impermanência e tem gente que vai abraçar a impermanência.

AAlberto

Inclusive porque é um debate que vai flertar com Deus. Sim, é um debate que flertar com Deus, com a impossibilidade, porque quando a gente fala de caos.

JJoão

Não, inclusive a ideia do Boltzmann de buscar algum tipo de explicação física para isso é evitar jogar a explicação em é Deus papai.

AAlberto

É porque todo debate disso vai cair em livre-arbítrio, Deus, vai cair na questão do fatalismo, inevitabilidade.

JJoão

Ao mesmo tempo que nós vamos estar falando aqui também, mas propondo uma ideia que o Boltzmann levou tão além que essa ideia o levou para o além, né? Repetindo, o Boltzmann já foi, o pupilo dele já foi, e agora é a nossa vez.

AAlberto

Que o pessoal tá nos assistindo estudar mecânica estatística.

JJoão

É um caminho sem volta, certeza, tá? Vamos lá, vamos pensar aqui, vamos dar uma avançada. Você concorda comigo que a entropia do universo sempre vai aumentar rumo ao estado de maior caos, de maior desajuste, de maior randomismo? Então o universo de ontem era mais organizado, era mais ordenado do que o universo de hoje, há um ano atrás mais ainda. Se eu pego essa fita métrica e volto até o início do tempo, eu tenho o Big Bang. Então, para a gente ter galáxia, para a gente ter estrela, para a gente ter a gente hoje, o universo necessariamente teria que ter começado em um estado de baixíssima entropia e altíssima organização.

Qual que é o problema disso? Isso não é um estado natural. Aí, cara, entra o Penrose, Roger Penrose, ganhador do Prêmio Nobel de Física, calculou a probabilidade do Big Bang ter nascido por mero acaso nesse estado de ordem extrema. Ele usa algo que é chamado de tensor da curvatura de Will para medir a entropia gravitacional do cosmos inicial, e ele chega num resultado brutalmente preciso, que é a probabilidade estatística do nosso universo ter sido criado randomicamente por esse estado baixíssimo altíssimo de entropia. Tá preparado pro número?

AAlberto

Estou preparado.

JJoão

A probabilidade é de 1 em 10 vezes 10 elevado a 123. Cara, é 10 elevado a 123, é um número que a gente não consegue nem imaginar, vislumbrar o que que é isso. Pensa um 10 e coloca 123 zerinhos do lado dele.

AAlberto

E é 1 em 10 elevado a 10 elevado a 23, tá?

JJoão

Então assim, é um negócio, cara, inimaginável. Se você pegar todos os elétrons do universo inteiro, não chega perto de dar esse número. Ou seja, o que que isso demonstra? Que estatisticamente é uma insanidade acreditar que isso aconteceu. Probabilidade é quase nenhuma.

AAlberto

Beleza.

JJoão

Olha só, a gente tava falando de Deus, né, que a gente chega nisso. Por quê? Porque a justificativa que é dada é qual? Pô, se é um negócio tão louco assim, foi Deus papai.

AAlberto

Vai pegar a metáfora do relógio.

JJoão

Exatamente, foi Deus papai. Papai, né? Se você chega no foi Deus papai de um jeito religioso, de um jeito metafísico, ou de um jeito demicientífico, né, não importa, você vai acabar chegando nesse motor primordial.

AAlberto

E aí tem uma coisa que eu acho importante, que tem os deuses cientistas também disfarçados, sabe?

JJoão

Ah, é uma força, é uma força indizível que ainda não conhecemos, mas que existe, tá lá e tá fazendo tudo da exata forma que eu preciso para minha teoria se manter de pé? Complexo, tá? Aí o que que o Boltzmann propõe e tal? A ideia dele é: se o universo como um todo ele é eterno, infinito, o mais provável é que ele já esteja morto, que ele esteja já em morte térmica, ou seja, no seu estado de máxima entropia. A morte térmica do universo é quando ele chega no seu estado de máxima entropia, os bagulho tão longe dos outros bagulho e nada mais acontece.

Hipótese para explicar da forma mais burra possível, né? Num oceano infinito de caos, esse ruído vai causar estatisticamente, por acaso, bolhas temporárias microcentesimais de ordem, igual ondas somem no mar, tá? O nosso universo visível então seria uma dessas bolhas. É muito mais provável estatisticamente que o universo como um todo já tenha chegado no seu grau máximo de entropia, já tenha alcançado a sua morte térmica, e que um acaso de algum movimento restante causou dentro desse universo uma microilha de alguma estabilidade que seria o nosso universo visível, do que o nosso universo visível ser o universo como um todo.

Primeira parte. Vamos além. Agora é um momento que eu preciso de você de casa. Não, hoje eu tô, tô treinado na loucura. Eu escrevi uma meditação para gente.

AAlberto

Você sabe que agora não é o momento adequado para comercial do Insider?

JJoão

Não, não, não, agora. Mas eu tô usando Insider, eu também, na minha calça, muito boa inclusive, né? Vocês estão vendo aí a nossa linda placa da Insider e o cupom Hora Boa. Você pode usar ele a qualquer momento, mas não tem nada a ver com o episódio. Mas se você tá querendo, para os minutinhos, cupom dinâmico, melhor desconto do site. Mas nós não vamos fazer merchan agora, não vamos fazer, não vamos fazer merchan agora. Se o pessoal ficar ansioso de não Sim, inclusive para quem quiser evitar o merchan, é só clicar no link que tá na descrição desse episódio e já vai direto para o site da Insider com o cupom Araboa no carrinho.

Mas nós não vamos fazer isso aqui, jamais faria isso de forma nenhuma. Vamos lá, você tá preparado, Alberto?

AAlberto

Tô preparadíssimo.

JJoão

Você em casa, fecha os olhos por um segundo, sinta o ar entrar nos seus pulmões, escute o som da minha voz saindo das caixas de som do seu fone de ouvido. Eu quero que você se lembre da sua infância, do cheiro da casa da sua avó, da sensação da chuva na pele, do rosto do seu primeiro amor, das equações de física, dos livros de filosofia que você estudou ao longo da sua vida. Todas essas memórias parecem provar, sem nenhuma dúvida, que você é um ser humano de carne e osso, nascido no planeta Terra, fruto de 3,8 bilhões de anos de evolução biológica e histórica.

Agora eu quero que você imagine que vamos aplicar a rigorosa matemática da mecânica estatística, uma matéria que nunca fez mal a ninguém, bem claro, a esse A ordem surge no caos por puro acaso probabilístico. Vem a pergunta: o que é mais matematicamente fácil pro ruído aleatório de um universo morto criar? Opção letra A: flutuar um universo inteiro, com 100 bilhões de galáxias, durante 13,8 bilhões de anos, com fósseis embaixo dos nossos pés e estrelas no céu.

Ou flutuar um único cérebro isolado por uma única fração de segundo, contendo nele o arranjo exato dos seus átomos, as falsas conexões sináticas que simulam essas memórias, exatamente no milissegundo em que você escuta essa frase. Nós temos a matemática disso, tá?

AAlberto

E você acredita que isso foi tema de episódio? Rick and Morty.

JJoão

Não duvido.

AAlberto

Eu tenho um canal que eu vou reativar, atenção, canal Como a Mente Funciona, só de Rick and Morty, tem 60 vídeos, cara, que são de Rick and Morty, física e tal. E tem episódio que é o segundo episódio da segunda temporada, em inglês o nome é Mordinite Run, só que eu não sei qual que é o nome em português. E como que esse episódio, ele começa exatamente com isso, parece o Rick e o Morty, para quem não sabe, enfim, é uma É a duplinha do barulho, é a duplinha que vem do De Volta para o Futuro, né?

E colocou que é um Rick meio psicopata, gênio da física quântica. E começa eles no estacionamento e o Rick pegando um pagamento lá de sei lá quantos milhares de um dinheiro aí alienígena, de um alien. E ele tá vendendo armas para esse alien e armas tipo quânticas e tudo mais. E o cara é um matador de aluguel. O Morri fica até assim assustado e tal. Tal, para a boca com esse dinheiro. Sabe o que a gente pode fazer? É dinheiro suficiente para a gente ir para o Blips and Tease, que é tipo um cassino.

E aí chega lá, o Mob começa a jogar um jogo que chama Roy: Uma Vida Bem Vivida. E tava jogando e começa a mostrar um desenho, tipo, o Rick e Morty para e mostra esse Roy nascendo, tendo a primeira namorada, cara, mostra a vida toda do menino. Aí mostra, aí mostra a primeira paixão no colégio, casando, mostra ele superando um E aí é legal, cara, que aí foi mostrando ele superando um câncer. E a mulher dele, nossa, vai ter força!

Aí ele supera o câncer. Aí no finalzinho, ele já tá com 55 anos, esse Roy. Ele vende tapete e tal, o pai dele. Aí ele tá subindo assim numa estante, tem um acidente doméstico e morre. Aí aparece assim, game over. E o Roy sai, mas cadê minha esposa? Aconteceu? Aí o Rick, pô, você tava jogando o jogo do Roy, né? Neste segundo, você viveu em tempo real todas as memórias da vida do Roy. Ou seja, exatamente, é essa ideia de tudo ser uma ilusão que aconteceu num segundo, como memórias foram criadas.

JJoão

E pra você ter ideia do tanto que isso é uma ideia que permeia o ser humano, existe um sábio chinês chamado Zhuangzi que escreveu um livro chamado Zhuangzi, que aliás já figurou no Ouroboros, que já figurou no Ouroboros e eu tô voltando pra ele, que é O Sonho da Borboleta, que é exatamente isso. Zhuangzi dorme e sonha com uma borboleta e ele vive a vida inteira de uma borboleta. Ele nasce borboletinha, uma cigarra, vai pro casulo, Do casulo ele sai borboleta, vive sua vida de borboleta, morre e acorda.

E aí, na hora que ele acorda, ele para e pensa: Joandir viveu no seu sonho a vida de uma borboleta, ou a borboleta vive no seu sonho a vida de Joandir?

AAlberto

Pois é, aquela ideia que o pior seguinte, uma coisa que eu detesto é pedir para alguém que não viu o filme clássico assistir. É o filme que criou aquela parada quase toda. Só que hoje tão usado e tal. Enquanto eu chego para alguém que nunca viu Matrix ou veja Matrix 1, não tem o impacto que eu tive no cinema, porque é uma ideia, claro, já tinha nos anos 70, anos 80 e tal, mas que se popularizou tanto com Matrix.

JJoão

Além de não ter o impacto para nossa geração, Matrix teve um impacto visual que essa geração jamais vai entender o que que é.

AAlberto

E o pior que envelheceu mal demais, cara. E isso é coisa interessante, eu acho, né?

JJoão

Foi apropriado das piores formas possíveis pelas piores pessoas possíveis, e as continuações também podiam não ter existido.

AAlberto

Eu até, eu até reassisti o 2 e 3. Eu não sei, eu não sei se com Matrix aconteceu comigo, aconteceu com Star Wars: Guerra das Estrelas. Eu não gostava das prequels, só que os que vieram depois são tão ruins, tão ruins, tão ruins, que é o resto é boa. É, o 1 eu achava chato. Eu vim do cinema inclusive ver o Star Wars, comecei a achar legal. O 3 sempre achei fantástico. Agora, o Matrix, eu acho isso, tipo, as continuações assim são tão ruins que eu tô achando já o 2 e 3, eu achei que foi mal executado.

Errado, mas tem umas ideias muito boas lá, sabe? Mas enfim, são ideias que estão aí na cultura pop há muito tempo.

JJoão

E aí, voltando aqui para as nossas escalas que eu te falei, né, a gente tem a maravilhosa curvatura de Will para poder medir essas bobagens, né?

AAlberto

Aí, como que acontece, o cara não tem o cloud. Essa é verdade, ele não tem o cloud. Olha só, se você não assinou o cloud—

JJoão

não, não, calma aí, nessa hora o Túlio vai colocar assim: se você não assinou o BIA, aí vem escrito Antropic, chama no probleminha.

AAlberto

Pô, o cara fica aí esses problemas de filosofia da mente aí, ó.

JJoão

Fica, é exatamente isso, é falta de debugging na vida da pessoa.

AAlberto

Aquele bebê podia tá fazendo vibecoding.

JJoão

Se ele tivesse tentando roubar em Super Mario World via vibecoding, pô, não teria tempo para nenhuma dessas bobagens.

AAlberto

Um dia desse eu vi lá, pô, o jogo Super Mario 64 de Nintendo 64 tem a possibilidade de inserir pixels na tela, sobra espaço na ROM, daria para hackear inclusive a parte escrita em português. Pô, é o que o jovem tá querendo fazer, cara.

JJoão

É isso, cara.

AAlberto

Mas aí não mexe com isso, aí fica aí, né?

JJoão

Quem não fica aí, fica aí pirando em tensor da cobertura de UOL. Mediram, tá, as probabilidades estatísticas. A gente já tinha a do universo completo do jeito que ele é, com as galáxias, nos 13 bilhões de anos: 10 elevado a 10 elevado a 123. Só o sistema solar diminui, seria uma probabilidade de 1 em 10 elevado a 10 elevado a 60, que é pouquinho, pouquinho, pouca coisa, pouca coisa. Agora, o cérebro isolado, que é 1,5 kg de matéria num vácuo de um universo morto por uma fração de um microlésimo de segundo, cai 10 casas decimais, é 10 elevado a 10 elevado a 50.

Ou seja, a probabilidade probabilidade P de uma flutuação de entropia delta vai ser dada por uma linda fórmula que eu vou me poupar de falar ela errado. E aí o que que acontece? Para cada observador biológico real que tenha nascido de uma evolução genuína, como nós acreditamos que ela ocorreu hoje, a estatística nos fala que vão 10 elevado a 10 elevado a 50 cérebros de Boltzmann flutuando no vácuo. Para cada ser humano que existiu na história dessa Terra, a gente tem um número que é incompreensivelmente maior do que todos os seres vivos, todos os grãos de areia e todos os elétrons do universo.

Para cada um de cérebros flutuantes por milésimos de segundo num universo entropicamente morto existindo.

AAlberto

Olha que loucura, velho. Pois é. E eu fico pensando nessas— existe um campo da filosofia cada vez crescendo mais debatendo essas questões.

JJoão

Tem, tem. Inclusive assim, as pontes que a gente tem hoje de filosofia com física, é curioso que hoje existe um desenvolvimento de inteligência artificial. Outro episódio que eu tinha preparado, você sabe que é também voltado para inteligência artificial. Você falou assim, você preparou um episódio sobre o cloud, mais ou menos, mais ou menos.

AAlberto

Depois tem uns episódios também é sobre Vibe Code, o que você está fazendo, Vibe Code, hoje. Mas, e é interessante que o cara, para poder mexer com essas, ele tá pegando questionamentos que já existiam na filosofia há muito tempo e trazendo esses questionamentos para física.

JJoão

É, você vai ter cada vez mais dados e possibilidades e teorias que vão permitir isso, só que O que que acontece? O Boltzmann morre em descrédito. O Boltzmann tira a própria vida em 1906, décadas antes de Einstein. Ele era a contracorrente do campo teórico da física do tempo dele. O Boltzmann era literalmente o doidão que ficava, né, num quarto escuro com 23 cobras, todas chamadas Jezebel, com 4 cigarros acesos atrás dele, um mapa, e ele fumando os 4 cigarros e falando teoria da constelação. O Boltzmann era o doido.

AAlberto

E o pior é que tem muita coisa que a gente vê em retrospectiva e acha que é óbvio, igual a própria teoria atômica. Não, cara, não é óbvio não.

JJoão

A gente achar que isso aqui, a maior parte é feita de espaço vazio, a maior parte disso é feito espaço vazio, você nunca encostou em nada na sua vida inteira.

AAlberto

Pois é, isso é uma coisa muito pouco intuitiva.

JJoão

E não só pouco intuitiva, é contra-intuitiva.

AAlberto

É porque quando você pega lá aquela época, Demétrio, aquela ideia lá do, a gente pega dos átomos que eram as partículas, existiria um pedaço menor de madeira. Pô, mas beleza, até acho que isso é um pouco mais intuitivo. Agora, teoria atômica não. Então a gente achar que hoje, ah, mas por que que o cara era criticado por teoria atômica também, saca? É porque hoje a gente tem.

JJoão

E assim, e se a teoria de flutuação de Boltzmann tiver correta, a probabilidade da gente ser um ser humano real na Terra é zero. A gente é um fantasma estatístico, ela é tendente ao zero absoluto, e a gente provavelmente A gente é cada um de nós uma mente momentânea que se forma no nada, acreditando ter uma vida que se desintegrou um milésimo de segundo depois dentro de um universo murcho. Igual o Roy, igual o Roy, igual o Roy do Rick and Morty, tá?

E aí vem um rolê engraçado, porque agora minha pergunta: faz diferença para você?

AAlberto

Faz diferença? Eu pergunto isso porque sempre é muito comum. Eu lembro que tava vendo um filme há muitos anos, e pior que o seguinte, né? O João fez o roteiro de 10 páginas, 15 páginas Sei lá, eu podia fazer essa intervenção com o mínimo de pesquisa. Tem uns filmes do Schwarzenegger que ele... É um negócio que tem um clone, não sei se é efeito colateral, sei lá, não faço ideia. Mas ele descobre que tem um clone da vida dele e o clone vai tomar conta da vida dele.

Só que no final das contas, esse cara que tava querendo, tava com raiva de ter roubado da vida dele, era o clone.

JJoão

Entendi.

AAlberto

Tipo, esse negócio de como que eu vou saber que eu sou um clone?

JJoão

Como que eu vou saber que eu sou um clone? É a mesma coisa que você perguntou. Você perguntou, faz diferença?

AAlberto

É, pois é, a diferença é...

JJoão

Eu acho que faz uma diferença cartesiana. Claro. O simples fato de eu poder pensar sobre isso talvez seja o bastante para provar a minha existência. Não prova o que é minha existência, não prova como é a minha existência, mas prova a minha existência.

AAlberto

E eu penso, logo existo, é, perdeu muito.

JJoão

Sim, cogito ergo sum, mas como? O comodo não tá sendo discutido aqui, tá sendo discutido isso. E aí, beleza, cara, olha que louco, né? O Boltzmann morre pelas suas próprias mãos, assim como as pessoas que que estudam mecânica estatística normalmente fazem, em 1906. Cara, de 1906 até basicamente 2002, o cérebro de Boltzmann era uma curiosidade, era uma nota de rodapé, era um xiste, uma troça, uma pilhéria, uma chalaça, como dizem os jovens hoje em dia.

É o vocabulário do jovem, é o vocabulário do jovem, é farmar aura, farmar aura e chalacear. Em 2002, Dona Lisa Dyson, seu Matthew Cleveland e o Leonard Susskind publicam um artigo no Jornal dos Jovens, que tem um nome técnico, é o Journal of High Energy Physics, que é o que o jovem lê, que envia uma onda de choque por toda a física teórica. Eles começam a ver que a ideia da descoberta da energia escura do final dos anos 90 meio que ressuscita a ideia de Boltzmann na física quântica moderna.

Porque por causa do chamado espaço de Sitter, a não se confundir com espaço de babysitter, que é quem toma conta dos nenéns, quem toma conta de bebê para que bobô e vovô possam passear. Isso, tá? Vamos lá. Energia escura, a constante cosmológica lambda, faz o universo se expandir de forma acelerada. Num futuro distante, tudo desaparece além do nosso horizonte de eventos. É quase que uma outra versão da morte térmica do universo.

O cosmo se torna então um vasto deserto escuro, e esse vasto deserto escuro é chamado de espaço de Sitter. Vamos lá, o vácuo de Sitter, o espaço de Sitter, ele não é um nada absoluto. Tanto a mecânica quântica quanto a relatividade geral vão prever que o horizonte de eventos cosmológicos emite uma radiação térmica suave, é a radiação Gibbons-Hawking. Isso significa, por sua vez, que o cosmos permanece aquecido aparecido por um ruído térmico, não é a morte térmica total dele, por toda a restante eternidade.

Ao longo de escalas de tempo de recorrência quântica, ou seja, nós estamos falando de escalas de tempo em anos de 10 elevado a 10 elevado a 56 a 10 elevado a 10 elevado a 120 anos, o tunelamento quântico continua materializando partículas que se organizam aleatoriamente. É a ideia do tunelamento quântico, que fala que em última instância é estatisticamente possível você passar por dentro de uma parede. Existe um momento de tunelamento quântico específico em que as coisas passam.

Só que se você ficar repetindo e batendo na parede, talvez você morra antes. Tendência estatística é baixa. Beleza. O espaço de Sitter então é o quê? Uma fábrica fábrica perpétua de cérebros de Boltzmann, porque as constantes duracionais deles são menores do que as constantes de aparição de um cérebro de Boltzmann, se a flutuação de Boltzmann tiver correta. Ou seja, zoaram do Boltzmann, Boltzmann foi de F. F no chat pelo Boltzmann, né? É o momento do respeito. Ele foi de F? Foi de F. F no chat.

AAlberto

F no chat. Eu não sei, eu acho que eu tô precisando conversar com jovem.

JJoão

É porque os meus jovens já estão mais jovens do que os seus jovens. Daqui a pouco os seus jovens vão estar mais jovens do que os meus jovens, e a gente vai trocar.

AAlberto

Seus jovens estão mogando meus jovens.

JJoão

É isso, é isso, tá? Então F no chat em homenagem a Boltzmann, né? E aí o Boltzmann voltou, tá? Virou modinha de novo. E aí você tava falando de filosofia da mente. Isso meio que traz um delicioso colapso epistemológico, né? Que é aquilo que o Sean Carroll vai chamar de instabilidade cognitivo. Físico teórico Sean Carroll aponta que o verdadeiro horror do cérebro de Boltzmann não é a crise de angústia existencial, que o verdadeiro terror da correção plausível do cérebro de Boltzmann é o colapso lógico de toda ciência empírica.

Qual que é a ideia aqui? Como que a gente faz ciência? A gente confia nos dados sensoriais, confia na nossa memória, a gente lembra dos experimentos do Galileu, medição do telescópio James Webb, radiação de fundo. A gente constrói então teorias físicas cada vez mais sofisticadas: relatividade geral, mecânica quântica. Se essa teoria física conclui que 10 elevado a 10, 50 vezes mais provável que a gente seja um cérebro maluco de um microsegundo flutuando no nada enquanto o universo inteiro está morto e nada existe, e que a gente é esse cérebro que sintetizou memórias do James Webb ruído térmico por 5 segundos, o que que a teoria tá nos dizendo é que os dados em que ela se baseou são falsos.

A teoria do cérebro de Boltzmann, em última instância, destrói todas as bases teóricas sobre o qual ela mesmo é erigida. Isso é o que ele chama de uma teoria cognitivamente instável. A matemática da física te diz para não confiar duvidar na matemática da física, na física e na existência da matemática, da física e de você que tá fazendo física. Eu adoro ver a cara das pessoas quando eles falam isso, saca? Porque você fica muito assim, não, mas pera aí, que porra é essa?

AAlberto

Mas esse tipo de paradoxo surge sempre, né?

JJoão

Sempre, sempre, o tempo inteiro, sempre, o tempo inteiro, né? E aí, para a gente pensar mais um pouquinho antes de eu te propor um outro debate, eu quero te contar a historinha do Homem do Pântano. Conhece a historinha do Homem história do Pântano?

AAlberto

A sua com certeza não.

JJoão

A história não é minha, a história é de Donald Davidson, tá, que é um outro autor de filosofia da mente. Antigamente, eu achei o rebranding muito legal, porque antigamente a gente trabalhava com dois outros nomes, que era Doidinho de Bairro e Nóia. Hoje em dia a gente trabalha com o nome Filósofo da Mente, né? Tá aí um baita rebranding, você concorda?

AAlberto

Foi bem feito, bem feito.

JJoão

Pensa para você ver, se fosse há três gerações atrás eu começasse a falar minhas histórias no nível de loucura que eu tô hoje, essa cena. Hoje em dia eu sou o quê? Divulgador científico, né? Então a gente tem que lutar na luta antimanicomial por todos os nossos pares, né? Porque que acabam fazendo filosofia da mente em algum momento da vida. Enfim, o menino Donald Davidson formula o experimento do homem do pão. Um raio atinge um pântano e constrói por acaso uma cópia atômica exata dele próprio, Davidson.

A cópia fala e afirma: eu amo a minha esposa. Exatamente o mesmo exemplo que você deu no filme do Schwarzenegger. Por que que isso acontece? Porque nós somos irmãos gêmeos e nós dois somos o Danny DeVito no filme Gêmeos Júnior, né, no filme Júnior do Schwarzenegger com o Danny DeVito. Se vocês não viram também, é muito bom, é bom filme, tá, um ótimo filme. Enfim, Hilary Putnam, Davidson, outros filósofos ali da mente que são chamados de externalistas vão argumentar que essa cópia não tem pensamentos de verdade.

AAlberto

Você conta do Putnam, é aquele do brain in a vat.

JJoão

Exatamente, que é o cérebro incubado.

AAlberto

O cérebro incubado tivesse todas as memórias, todo o software do cérebro e todos os inputs. Esse negócio de input é importante também, porque a nossa consciência não é só o cérebro, mas também os inputs sensoriais que a gente faz aqui, né? Mas enfim, aí tá o brain in a vat e Enfim, é o experimento que você tá trazendo.

JJoão

É isso, eles estão argumentando que aquilo ali não é um pensamento real, de verdade. Qual que é a ideia? O significado das palavras exige uma cadeia causal histórica de inter-relações mediatas e imediatas, não no sentido de velocidade, no sentido de ter mediação ou não, com o mundo exterior. Um cérebro de Boltzmann que flutua no nada por um milissegundo não está, entre aspas, enganado sobre a Terra. Ele é incapaz de referir à Terra, ele não teria referencial para poder referir à Terra.

Suas memórias são um ruído sintático sem conteúdo semântico genuíno. Eles estão querendo desprovar o cérebro de Boltzmann, não estatisticamente, mas filosoficamente. E aí vem este questionamento aqui: se a nossa mente é incapaz de diferenciar diferenciar um pensamento ancorado na história do mundo e um ruído sintático produzido no vácuo? O que garante que a nossa conversa é real? O que garante a realidade do real?

AAlberto

Nada. Inclusive, a nossa própria existência, ela pode ser simplesmente o último segundo, igual no Rick and Morty.

JJoão

Pode. Inclusive, assim, o pessoal que curte usar ADMT, que ainda não conseguiu o rebranding para fora da categoria nóia, por mais que muitos deles sejam também cientistas e filósofos da mente, né? Tem muitas— quando se mensura o uso de DMT num cérebro humano, e se tem as mensurações também de pessoas que faleceram enquanto estavam fazendo exames de imagem, de ressonância no cérebro, é basicamente a mesma coisa. Quimicamente é muito análogo o que acontece no momento de morte, no momento em que o DMT ativa.

E estão fazendo umas pesquisas longitudinais mais longas agora. Por quê? Porque aparentemente as pessoas em DMT acabam por ter experiências análogas, descrevendo entidades muito análogas, que falam coisas análogas, que se comportam de forma análoga entre pessoas de lugares diferentes do mundo, com vivências diferentes e tudo mais. Então tem todo um campo lá que tá estudando se, né, não seria isso uma espécie de conexão com outras dimensionalidades.

Voltando no começo do nosso episódio, quando eu vou até a Planolândia para girar o boné do quadrado para que ele possa fazer glu glu iê iê, você concorda que para eu fazer isso eu tenho que entrar na Planolândia? Como eu sou um ser tridimensional no universo bidimensional, eles jamais vão conseguir perceber a minha figura como um todo. Mas a partir do momento que meus dois dedos entram para pegar o boné do quadrado, eu tenho uma superfície esférica menor que vai cada vez se tornando uma superfície esférica maior até chegar uma segunda superfície que tá um pouco distanciada.

Essa superfície vai diminuindo enquanto ela gira para fora do plano, some, aparece de novo do outro lado e some de novo. Beleza? Se um ser de 4 dimensões se manifestasse para nós, a gente só perceberia ele em 3 dimensões.

AAlberto

Com certeza.

JJoão

Então, para nós, ele seria um sólido tridimensional qualquer que vai flutuando à medida que partes diferentes dele cingem a nossa dimensionalidade. Da mesma forma que, se a gente for pensar nisso, o que que a gente pensa a respeito da existência ou não. Se é a interação que cria a existência, como é defendido aqui a priori para tentar se livrar do cérebro de Boltzmann, interações randômicas simuladas sintáticas não são interações iguais às outras?

AAlberto

Qual que é a diferença?

JJoão

Qual que é a diferença? É isso que é meu ponto, você entende?

AAlberto

O qualia, aí começa a discussão de qualia, e é uma loucura, você entende?

JJoão

Então assim, não é à toa que nas escolinhas—

AAlberto

sim, fui deixar a Bia hoje na escolinha, o menino tá chorando, aí o foto, ficou olhando e pensou: já sei, tá no vazio existencial.

JJoão

É isso, né? Tá sendo mogado, tá sendo mogado, né? E aí, a verdade é que neste caso, né, já que a gente vai citar a linguagem dos jovens, que foi uma linguagem que durante um tempo ficou na mão da extrema-direita, está sendo reapropriada por crianças no PKLX e sendo ressignificada, o cérebro de Boltzmann é o alfa que moga a física Betinha. Não sobrou nada para física Betinha, tá? Não sobrou nada. Foi mogada.

AAlberto

E a física quântica tá farmando aura.

JJoão

E a física quântica tá lá só no 6-7, só no 4-2.

AAlberto

Eu não entendi isso direito ainda.

JJoão

A física quântica tá no 4-2 e no 6-7 farmando muita aura, tá? Como que a física moderna, que foi mogada pelo Boltzmann.

AAlberto

Esse é o episódio TikTok.

JJoão

Obrigado. Como que a física moderna reage? Você sabe, Alberto?

AAlberto

Não.

JJoão

Alberto, quando uma pessoa atinge uma certa maturidade e ela é mogada brutalmente, ela tem que colocar os dedos no ouvido e falar: lá lá lá lá lá, você não existe. E é exatamente isso que a gente fala hoje em dia, tá? A física teórica moderna usa o cérebro de Boltzmann como uma prova de refurtação por reductio absurdo. Ou seja, se um modelo cosmológico gera uma população dominante de cérebros de Boltzmann, ele é inválido e fisicamente falso.

Sabe por quê? Lá lá lá lá lá, você não me mogará. Por isso, do ponto de vista filosófico, porque sim, a resposta do ponto de vista estatístico, né, enquanto os óculos quadriculados em 8 bits desciam nos olhos de Boltzmann e ele fazia assim, você tá moderno demais, né?

AAlberto

Dificuldade, tem até dificuldade de te acompanhar.

JJoão

Ele falava: ei bebê, ei baby girl, ei gata gostosa, não brigue comigo, brigue com, brigue com a constante da curvatura de Wheeler. E aí, para evitar, tá, que o espaço de Sitter produza esses fantasmas, a gente tem cosmólogos que provaram que o nosso universo não pode pode durar para sempre. O vácuo da energia escura, ele precisa de ser metaestável. Ele teria que ser um falso vácuo. E antes que o tempo necessário calculado para que um cérebro de Boltzmann se manifestasse de forma indelével, ou seja, que a probabilidade de 1 em virasse 100 em porque decorreu o tempo bastante, que é de 10 elevado a 10 elevado a 16 anos, o vácuo sofre um decaimento.

Nesse decaimento, uma bolha de vácuo verdadeiro se expandiria na velocidade da luz e destruiria a estrutura do universo, impedindo a formação de mentes delirantes. Por enquanto, isso é tudo teórico, mas a única forma do cérebro de Boltzmann não dar certo é que o universo aperte o botão vermelho e destrua a si mesmo antes disso. Professor, e é nesse clima maravilhoso, né, energia lá em cima, energia lá em cima, todo mundo lá em casa, ó, energia lá em cima, que eu quero terminar este lindo episódio que fizemos hoje aqui sobre cérebro de Boltzmann.

AAlberto

E pior que tem gente nos comentários falando, é, estão só farmando view em cima de trend do TikTok.

JJoão

Quero terminar esse lindo comentário mais uma vez fechando ele com a linda citação do capítulo Termodinâmica e Mecânica Estatística do livro Status da Matéria de Einstein. Ludwig Boltzmann, que passou a maior parte da sua vida estudando mecânica estatística, morreu em 1906 por suas próprias mãos. Paul Ehrenfest, carregando o legado do seu trabalho, morreu em 1933 de maneira similar. Agora é a nossa vez de estudar mecânica estatística.

Meus queridos minutinhos, chegamos ao final de mais uma hora boa. Lembrando que outra forma possível de evitar um universo morto com 10 elevado a 50 vezes 7 bilhões de cérebros de Boltzmann flutuantes delirando em microsegundos é se tornar se tornar membro desse canal. Essa é uma das formas.

AAlberto

Inclusive, o pessoal tá vendo que tá colocando mais cortes, né? Então você tem que assistir os cortes. Agora você não pode assistir tudo, não pode comentar tudo, pode virar membro.

JJoão

Vire membro, compartilhe este lindo canal com o seu amigo que também é fascinado por Cérebro de Boltzmann. Afinal, todos são, na verdade. E na semana que vem estaremos de volta com mais uma hora boa. Obrigado, minutinhos! Obrigado, minutinha! Vocês tornam tudo isso aqui possível. Obrigado, menina Alberto!

AAlberto

Valeu demais, João!

JJoão

Um beijo no no coração de vocês. Até a semana que vem e tchau, tchau!

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