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O QUE ACONTECE NA MENTE DO ADOLESCENTE - DR. CARLOS MACEDO - PSICANALISTA

24 de setembro de 20261h14min
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Por que o adolescente muda tanto, questiona regras, afasta-se dos pais e passa a dar mais importância à opinião dos amigos?

Nesta primeira parte do episódio, Marcos Souza recebe o Dr. Carlos Macedo, mestre e doutor em Psicanálise Clínica, para uma conversa profunda sobre o processo da adolescência e a formação da identidade.

Falamos sobre as mudanças emocionais e comportamentais dessa fase, a impulsividade, a necessidade de pertencimento, a influência dos amigos, os conflitos familiares e a difícil missão dos pais de estabelecer limites sem perder o diálogo.

O episódio também aborda como conversar sobre sexualidade, respeitar a privacidade do adolescente e diferenciar as transformações naturais dessa etapa de sinais que podem revelar um sofrimento emocional mais profundo.

Uma conversa necessária para pais, familiares e para todos que desejam compreender melhor uma das fases mais intensas da vida.

Assista, deixe seu comentário e compartilhe este episódio.

Contracorrente Podcast — contra a corrente do óbvio.

Participantes neste episódio2
M

Marcos Souza

Host
C

Carlos Macedo

ConvidadoMestre e doutor em Psicanálise Clínica
Assuntos6
  • A adolescência como fase decisiva para a construção da identidadeperíodo de 12 a 18 anos·construção do eu·alicerce da casa psíquica
  • A influência do desenvolvimento cerebral na impulsividade adolescentesistema límbico e impulso·córtex pré-frontal e razão·maturação aos 25 anos
  • A psicanálise e neurociência na compreensão da intensidade emocional adolescentequantidade de informação e perda de foco·exposição social e ansiedade·aparência de transtornos sem diagnóstico
  • Como impor limites aos adolescentes sem perder o diálogo e a liberdadeliberdade com responsabilidade·pais como professores, não generais·regras necessárias para o desenvolvimento
  • A separação emocional dos pais e o luto da figura heroicadesconstrução da figura dos pais·pais como pessoas normais·busca por identidade própria
  • A importância do grupo e a necessidade de pertencimento na adolescênciaprazer em se socializar·realizar atividades de risco·prioridade na interação com o grupo
Transcrição103 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
MSMarcos Souza

Salve, salve, correnteiros! Mais uma vez para este episódio eu tenho aqui um super convidado que é o Dr. Carlos Henrique Macedo, que é mestre em doutor em psicanálise clínica. E o tema de hoje é muito especial e acontece na casa de todo mundo. A gente vai falar de adolescência e maturidade, o que que muda ao longo desse processo, da construção da identidade na adolescência aos desafios emocionais da maturidade. Então essa é a abertura do nosso novo episódio.

A vida é uma sequência de transformações. Na adolescência começamos a questionar quem somos, buscamos independência e enfrentamos emoções que ainda não sabemos administrar. Na maturidade, outras questões aparecem: a passagem do tempo, as mudanças no corpo, os filhos que seguem seus caminhos, a aposentadoria, as perdas e a necessidade de se encontrar novos propósitos. Embora pareçam fases muito diferentes, adolescência e maturidade têm algo em comum: ambas nos obrigam a reconstruir a nossa identidade.

Para conversar sobre essas transformações, ninguém mais, ninguém menos que o Dr. Carlos Macedo, mais uma vez, que já virou um habitué do Contra Corrente Podcast. Dr. Carlos, mais uma vez, muito obrigado por esse espaço na sua agenda e por vir aqui é para trazer mais riqueza, mais conhecimento para mim e para os meus seguidores aqui no Contra Corrente Podcast. Então é um grande prazer recebê-lo aqui mais uma vez.

CMCarlos Macedo

Muito obrigado, Marquinho. E para mim sempre é uma grande honra participar desse espaço e sempre trazendo essa dica: o importante é que as pessoas pensem.

MSMarcos Souza

Isso, isso aí. E é aquela coisa, né, que eu sempre falo também: a gente aqui não quer, não quer forçar ninguém a nada, mas pelo menos a gente tem a missão de levar alguma coisa para pessoa pelo menos pensar, né?

CMCarlos Macedo

Exatamente.

MSMarcos Souza

Isso aí. Eu acho que quando a gente coloca essa pulguinha atrás da orelha já, já a gente já fez o nosso trabalho.

CMCarlos Macedo

Já é uma grande coisa.

MSMarcos Souza

É isso aí. Então, ó, eu fiz o programa separado em alguns blocos, e o bloco 1 ficou a construção do adolescente. Por que que adolescência é tão decisiva, Doutor Carlos? Por que que adolescência é considerada uma fase tão importante para a construção da identidade, da personalidade e da maneira como essa pessoa vai se relacionar com o mundo durante a vida adulta?

CMCarlos Macedo

Bacana, Marquinhos. Olha, é, a adolescência ela é mais ou menos ali dos 12 até os 18 anos, então um período de 6 anos. Não tem uma receita de bolo, como eu sempre digo, pode iniciar com 13, outros com 11, depende muito da construção psíquica que aquela criança sai para pré-adolescência, para adolescência. Um sai mais maduro, outros não. Normal. Bem, o que que isso é importante? A construção do eu. Isso é que é extremamente importante.

Como esse adolescente ele vai começar a fazer o alicerce da sua casa, porque o nosso eu é a nossa casa. Ela pode ser uma casa de paz, de tranquilidade, ou ela pode ter rachaduras. Então, como esse adolescente, o que está por trás desse processo no campo neurológico, no campo psíquico, no campo físico? E qual, quais são as medidas importantes que tanto o adolescente e os pais têm que entender nessa jornada que vai dos 12 até os 18 anos.

MSMarcos Souza

E que não é nada fácil, né?

CMCarlos Macedo

Não, não é.

MSMarcos Souza

É verdade.

CMCarlos Macedo

Não é.

MSMarcos Souza

Eu separei aqui alguns caminhos para a gente poder aprofundar. Ok. Um deles é, o primeiro deles é: o adolescente começa a se separar emocionalmente dos pais. Isso é verdade?

CMCarlos Macedo

É, é assim. E eu te explico por quê. Na infância, a criança ela se desenvolve, mas a observação principal dela, e até uma âncora, são os pais. Ela se desenvolve, mas tendo os pais como segurança, os pais como espelho, os pais como âncora. Então ela começa a ter esse entendimento do eu pós-período de identificação, complexo de Édipo, mas sempre ligado aos pais. Então, para criança, o pai e a mãe é como um super-herói, é o melhor, infalível.

E quando chega na adolescência, um dos lutos que o adolescente passa é ele desconstruir essa figura heroína do pai e da mãe. Ele começa a perceber que o pai e a mãe são pessoas normais que acertam, que acerta e erra. Então esse, esse é o primeiro luto do adolescente. E o segundo é uma identidade. Então a identidade na infância, ela existe, mas ela é muito refletida no pai e na mãe. Agora não, eu e eu.

MSMarcos Souza

E agora também entra assim aquela fase dos questionamentos de regras e valores familiares também, né?

CMCarlos Macedo

Sim, sim, perfeito, perfeito.

MSMarcos Souza

E qual é a importância do grupo e da necessidade de pertencimento nessa época?

CMCarlos Macedo

Então vamos lá, primeiro nós temos que entender o que acontece com o cérebro do adolescente, né? Então vamos tentar aqui, eu vou tentar aqui pegar na minha mão, vamos tentar entender que aqui é a parte do seu rosto, né? Aqui você tem olhos, nariz, boca, que tá o seu crânio, e aqui a parte de trás. O desenvolvimento da sua parte neural, ele começa de trás para frente. Então ele começa aqui pelo sistema límbico, que é o sistema mais da interação, mais do impulso.

Então esse sistema está em pleno vapor e ele vai se desenvolvendo até a frente, que é o sistema que é o córtex pré-frontal. Esse sistema aqui, o córtex pré-frontal, é responsável pela avaliação. É responsável pelo você receber a informação e você ter como uma maturidade para você avaliar e tomar uma decisão. Só que esse campo, ele só tem essa maturação aos 25 anos. Então, o que que acontece no fundo? Você tem na adolescência, né, você tá sendo impulsionado por esse sistema na parte anterior do cérebro e você não tem a total maturidade para você tomar as decisões.

Então o adolescente, ele vive muito mais por impulso do que por tomada de decisão de forma racional. Então você tem uma luta do que é impulso e do que é razão. A parte do impulso tá mais completa, tá imperativa, tá bombardeando o adolescente. E a parte da razão só completa o desenvolvimento aos 25 anos. Então você tem essa duplicidade neural, você tem uma parte que te impulsiona e a parte da socialização e o risco automaticamente produz dopamina.

Então o adolescente, ele sente prazer em se socializar E ele realizar atividades de risco. Atividade de risco, vamos tentar entender assim, não é o cara subir na ponte, não. É ele fazer coisas que ele não fazia antes. Exemplo: o pai leva o filho normalmente para escola de carro, aí ele passa a ir sozinho. Então isso é uma atividade que mudou. Ele ia no carro do pai e da mãe para escola, para o curso, e agora ele passa a ir só.

Então, no fundo, Isso causa de início uma preocupação, mas é importantíssimo para esse desenvolvimento. E o adolescente em si, ele passa, a prioridade dele não é mais a interação com os pais em si, a interação com o grupo.

MSMarcos Souza

Sim, porque essa necessidade de pertencimento produz dopamina para ele.

CMCarlos Macedo

Sim, com certeza, com certeza. Por isso assim, vamos tentar pensar assim, um Eu não tô falando todos, né? Falo numa maior parte. Que uma coisa que quem já me ouve aqui, eu sempre falo que o ser humano é individual, não existe uma receita de bolo. Isso que eu estou falando acontece com todos os adolescentes, que é uma questão neural, entendeu? É uma questão clínica, né? Todo mundo vai passar por esse processo, mas aí depende muito da inclinação genética que você tem, depende muito ao meio que você vive, a exposição que você tem, sociocultural, se você é de uma determinada cultura, se você é de outra.

Esse ritmo, esse sistema, ele pode ser suavizado ou pode ser aprofundado, dependendo dessas variantes, para não ter uma receita de bolo aqui. Então, o adolescente, por necessidade, ele vai passar a interagir, a dar valor né, nessa interação, muito mais ao grupo do que na infância o que o pai e a mãe pensava. Agora é o que eu penso, que o grupo pensa. Eu, o pai e a mãe também entra, mas não é só o pai e a mãe. O foco dele agora passa ao grupo.

MSMarcos Souza

Entendi. E essas experiências nessa fase, elas podem deixar marcas para vida toda?

CMCarlos Macedo

Podem. Olha, assim, ó, é assim tudo, Marquinho. O grupo, ele é fundamental para esse desenvolvimento do adolescente. Os pais têm que entender isso, tá? Porque vamos, eu vou pegar aqui dois casos extremos, porque eu sempre gosto de fazer isso, porque aí você olha aqui, olha ali, e você busca o equilíbrio. Sempre quando eu trago alguma coisa, eu sempre faço isso. Então vamos Vamos lá, vamos pegar pais que são superprotetores, que não, não, meu filho, eu sei que hoje em dia as coisas estão difíceis, eu sei, mas vamos lá, não, não, você tem que ficar em casa, não, não, só pode se você ficar aqui, não, não, você não pode ir.

Se um, se você tem que interagir com algum amigo seu, ele tem que vir aqui, você não pode ir na casa dele, ou você não pode ir para tal local, se você for tem que estar junto. Então olha só, O adolescente, ele tá numa transição, tá, mas o próximo passo dele é para maturidade. Ele não volta para infância, a infância já passou. Ele vive numa transição de sentimentos, emoções, pulsões da infância, mas o próximo passo dele é para maturidade.

Então Esse é um caso, tá? Então, pais que se preocupam muito, que têm medo dessa perda, que estão muito ligados à infância, então traz, prende o adolescente, não permitindo que ele tenha essa evolução social, que ele tem que passar por isso, ele tem que passar a ter o seu pensamento de escolha. A sua própria escolha, o seu próprio entendimento, porque isso faz parte da composição do eu, que a gente vai bater um pouquinho mais à frente.

O outro lado, vamos lá: meu filho tem que conviver em grupo. Isso é sadio, tem que conviver. E tem que estar comigo? Não, não tem que estar comigo. Ele tem que conviver com o grupo, ele tem que se virar ali. Mas que grupo é esse? Aí é um outro lado, porque o que que acontece nessa fase? Você quer se encaixar deixar, né? Você tem muito, é muito novo tudo isso que tá acontecendo. Então você quer, quando você tá na infância, que você tá com os pais, você vai lá, mas volta aqui para cobertura dos pais.

Quando você é adolescente, você tem que começar a trabalhar esse eu, que é você. Então É importante ter essa socialização em grupo? É, e deve ter. Agora tem que entender que grupo, porque por essa, por esse movimento maior do sistema límbico, que é do impulso, e um movimento menor desse sistema racional, que é o pré-frontal, ele tem uma tendência a tomar decisões sem ter uma maturidade entre bem e mal.

MSMarcos Souza

É, no caso, o impulso vai ser muito mais forte do que o racional, que ainda não tá pronto.

CMCarlos Macedo

Isso é neurológico, tá? Isso eu não tô falando aqui por falar, isso é um movimento neurológico. Então, que grupo é esse? Claro que se esse jovem, esse adolescente, ele tiver num grupo e esse grupo tem pessoas maiores, que bebem, que usam drogas, entre outros. Não é um grupo legal para ele estar, não é. Ah não, mas tem que, tem que fazer parte de algum grupo, tem que se socializar, mas não com esse. Sim, você tá entendendo, Marquinhos?

Então assim, ó, é os pais e o próprio adolescente. Porque assim, uma coisa que eu sempre falo, e a gente vai bater aqui depois, Tudo que acontece na nossa vida, exceto um surto psicótico, passa pela sua avaliação consciente. Ninguém: ah não, porque eu fiz isso. Não, não, pera aí. Mesmo que seja menor, passa pela sua avaliação consciente. Senão todo mundo vai ter desculpa para tudo e todo mundo vai ser vítima de tudo. Entendeu?

Então assim, você, o seu filho, ele tem que participar de grupos? Tem. Mas qual grupo? Quem são esses? Pô, conhece os pais, chama essa pessoa na sua casa, bate-papo, tudo. Todo mundo quer isso. Bons pais quer conhecer outros pais, quer ter esse bate-papo. Isso é normal, gente, entendeu? Então os pais, ele devem trabalhar nessa fiscalização, mas uma fiscalização passiva, não ativa, né? Aquele negócio, ah não, tô indo com você, abre a porta do carro, você tá ali com seu grupo e eu sento aqui, vou aqui tomar uma água de coco, tô sentado aqui, porra, entendeu?

Então isso é assim. E uma outra coisa que o adolescente tem, ele tem uma mania de auto vigilância. Ele acha que tá todo mundo reparando ele, que o cabelo dele não tá bom, que ele tá com espinha, que a roupa dele não tá boa. Ele não quer assim passar nenhum tipo, no entendimento dele, de vergonha perante aquele espaço, perante aquele grupo. E não tem nada a ver, mas isso acontece. Por quê? Porque faz parte dessa formação do eu.

MSMarcos Souza

É impressionante isso. Isso é tão verdade que eu me lembrei de quando eu era adolescente, e eu me lembro disso de todas as fases, de amigos meus, de parente, dos meus sobrinhos até adolescente, anda todos, todos andam iguais, com a mesma bermuda, com a mesma camisa, com o mesmo tênis, tudo preto, tudo preto, tudo preto, tudo preto, não aceita outra cor. De repente o cinza muito escuro e o azul muito escuro pode, pode ser bem-vindo, mas a primeira coisa é sempre se tapar com preto.

CMCarlos Macedo

Exatamente. Justamente por isso que eu falei, porque assim, por essa sensação que tá todo mundo te reparando.

MSMarcos Souza

Sim.

CMCarlos Macedo

Então o mais simples, o mais neutro é o que é melhor, é o que passa batido, que passa batido. Mas isso muda também, isso vai mudando, tá? Isso, isso vai mudando.

MSMarcos Souza

É verdade. Fazer um ganchozinho aqui só para fazer uma despressurizada aqui. Adolescência passa, mas será que o adolescente que fomos desaparece completamente?

CMCarlos Macedo

Não, assim como a criança que nós fomos não desaparece completamente. Mas o que a gente tem que ver nisso tudo, Marquinhos, é o lado bom. Isso, entendeu? Uma coisa que eu sempre falo que é importantíssimo na adolescência, que diferente da criança, a criança tá sempre vendo o lado bom das coisas. A estrutura da criança em si, porque a criança naturalmente ela caminha para ser alegre, Então ela tá sempre vendo o lado bom das coisas na adolescência, até porque é uma fase que ele está mais preparado para o questionamento.

E isso não é ruim, tá? Porque assim, eu não sou o futuro. Esses caras que estão aí, essa garotada que tá aí É que vai ser o futuro, né? Se for como pessoa, como família, como Estado, como nação, eu, você, essa garotada que tá aí é que vai ser o futuro.

MSMarcos Souza

A gente já contribuiu, a gente já contribuiu.

CMCarlos Macedo

Então é o seguinte, cara, como é que essa garotada tá? Isso a gente vai bater aqui bastante, tá? Como que nós estamos preparando, ou eles também, né, se sentem para esse futuro, né? Isso é uma coisa que a gente vai bater aqui também. Mas assim, não é nada tão assustador do jeito que todo mundo pensa, também não é nada tão tranquilo do jeito que todo mundo pensa. Vai ter pessoas e pessoas, como qualquer situação.

MSMarcos Souza

Eu quero, eu quero falar um pouquinho mais do que que acontece na mente do adolescente. A impulsividade, as mudanças de humor, a necessidade de aprovação e a sensação de que tudo é urgente são apenas comportamentos ou também estão relacionados ao desenvolvimento do cérebro? Porque fica parecendo que é um estilo, que assim, ah, todo adolescente é revoltado, é rebelde, e fica parecendo um estilo, uma coisa meio dark, uma coisa meio— mas será que é só estilo ou isso Isso também acontece por causa que o cérebro ainda está em desenvolvimento.

CMCarlos Macedo

Exatamente isso, né? Mas assim, ó, como eu falei, vão ter pessoas e pessoas. Assim, tem a estrutura, a inclinação genética, ela também influencia. Embora, né, esse movimento que eu falei, que traz mais dúvida, traz mais estresse. Por exemplo, tem uma mudança no ritmo circadiano, ou seja, o adolescente, diferente da criança, passa a produzir melatonina mais tarde. Então, por isso que o adolescente dorme mais tarde, tem dificuldade de acordar mais cedo.

Então assim, o que eu tô falando é que tem questões assim, neurológicas nisso tudo, entendeu? Que explicam, né, por que que tem essa mudança. Outra coisa, mudança hormonal, né, que também isso mexe muito com ânimo, com a questão do prazer, com a questão— tudo isso, cara, faz parte desse período principalmente. Então não é um período simples. Mas também não é o fim do mundo para ninguém, nenhum bicho de sete cabeças. Não, nem isso.

Que fique bastante claro, todo mundo passa por isso. Nós temos sociedades que se desenvolveram, grupos de 400 mil anos para cá, né? Esses foram os principais, né? Os neandertais e os homens, todo mundo foi adolescente. Claro que a questão cultural, claro que a questão social, depois nós vamos falar sobre a questão da maturidade. É como o nosso cérebro, ele se desenvolve por informações repetitivas. É isso que 700 bilhões de neurônios eles fazem, eles recebem e passam essas informações.

Então, seguinte, não é do ontem, é de muito tempo atrás que a gente vem adquirindo uma forma de vida. E isso passa pela questão física, pela questão biológica, psíquica e neural, entendeu? Então, o adolescente passa por essas questões? Passa. O adolescente passa por essas questões. Ok, mas isso é definitivo para ser tudo ruim, para ter uma péssima adolescência? Não. Não é, é um pouco mais complicado, mas não é definitivo para nada.

MSMarcos Souza

Pô, tem aqui uma pergunta para você que acho que cabe muito bem exatamente nessa hora: como a psicanálise e a neurociência ajuda a compreender essa intensidade emocional? Porque às vezes só os pais eles não conseguem dar conta. Não, mas se tiver uma ajuda especializada, pode suavizar muito esse caminho.

CMCarlos Macedo

Sim, sim, sim, vamos lá. Dentro de uma estrutura, a gente já falou um pouco, né, sobre a questão da composição neural, a transformação que o cérebro do adolescente passa. Eu acho que já ficou bastante claro: impulso versus razão, muito mais impulso e muito menos razão, né? Tem a questão hormonal. A questão psíquica é muito, é profunda também. Porque é o desapego dos pais e busca de uma nova identidade. Isso não é simples, tá? Isso não é simples.

MSMarcos Souza

E às vezes eles nem conseguem dar conta sozinhos.

CMCarlos Macedo

Não, não dá, não dá. Porque assim, vamos lá, se a gente for pegar eu, você, pessoas que são mais maduras, a gente tá sempre tentando entender melhor o nosso eu. Você tá sempre nesse questionamento. Opa, pera aí, isso aqui você pensa no adolescente, então é muita coisa. Uma outra coisa, Marquinho, é que entra na questão neural e a questão psíquica, que é dessa geração diferente da nossa, é a quantidade de informação hoje em dia.

Uma coisa que tanto adolescente e os pais tem que ter essa atenção é a quantidade de informação, porque a gente até tinha um mito que a gente achava que a gente só usava de 1 a 10% da capacidade do nosso cérebro. Não, a gente usa 100%, mas 100% dentro daquilo que você tá usando naquele momento. Se você busca uma capacidade do seu cérebro para aquela atividade, você vai usar 100% dela. As outras vão em descanso, ou 10 ou 15, entendeu?

Então isso é um mito também, dizer que o homem só usa de 1, 2, 3, 10% do cérebro. Mas pensa assim, quando você tem muita informação, você perde o foco. E uma das coisas que você vê muito na adolescência hoje em dia é perda de foco. Essa é uma das maiores reclamações, ou maior maior reclamação do pai ou da mãe. A perda de foco, não tem mais aquele foco na escola, não tem mais aquele foco no esporte, e parece que o adolescente tem aquele entendimento que ninguém me entende do jeito que eu sou.

Então a quantidade de informação faz com que você perca o foco por uma questão psíquica e neural também. Porque o que que é o foco? O foco é você se dedicar, você usar a capacidade do seu cérebro para aquilo que você determina que é necessário. Esse é o foco. Se você tem 10 coisas que são necessárias você vai perder o foco. E isso acontece muito com o adolescente. A vida social via internet, o que eu posto, o que vão falar de mim, quem é que tá curtindo, quem é que não tá, melhor foto, pior foto, como é que eu saí, como é que eu—

MSMarcos Souza

cara, é muita exposição, né?

CMCarlos Macedo

É muita exposição. Isso é uma coisa nova Dentro dessa estrutura de desenvolvimento, isso é uma coisa nova, de 15, 20 anos para cá. Agora então, porque assim, ó, isso já começa na adolescência. Existe duas coisas, Marquinhos, que realmente mexem com o homem, historicamente falando: poder e riqueza. Agora tá entrando a fama.

MSMarcos Souza

Sim, sim, sim, sim.

CMCarlos Macedo

Então Todo mundo de alguma forma lida com a questão da fama.

MSMarcos Souza

É, todo mundo tem uma certa visibilidade hoje em dia, né?

CMCarlos Macedo

Exatamente. Então, até o próprio adolescente dentro do seu grupo, ele vive essa querência ou essa exposição de fama. Pô, eu tive quantas curtidas, eu fiz aquilo. E tudo isso fica muito pesado dentro de um campo, dentro de um campo neural e de um campo psíquico. Você imagine assim, ó, eu tenho que ir para uma festa, eu vou para essa festa, vou lá me divertir e volto. Esse é o pensamento normal. Eu tenho que ir para uma festa, mas quem é que vai?

Pô, fulano, fulano eu gosto, fulano cicrano eu pô não gosto. Eu já tô vendo isso antes. Caramba, essa roupa aqui tá parecida com a roupa que eu vou. O que que vão falar de mim? Será que eu fico dessa forma? Cara, não tem mais surpresa, né? Não tem surpresa. E outra coisa, você vai mexendo, isso eu vejo muito, com uma carga de ansiedade muito grande que não é compatível para essa fase. Por quê? Porque você já tá bombardeando a parte de instinto com pouca razão, você, e com muito impulso, né?

Pois é, com muito impulso. Você ainda traz para isso ansiedade. Então o que que acontece? Você vai ver que existe Os pais aí que vão ver, às vezes você vê que o seu filho ele fica muito ansioso para uma coisa e ele consegue ir para aquela festa ou para aquele passeio, para aquela situação, depois 2 dias, 3 dias depois ele está acabado. Por quê? Porque o corpo, a mente, ela se prontificou quase como um rito de sobrevivência para aquilo que você falou.

Eu tenho que estar bem, eu tenho que estar bem ali, que depois, para você poder voltar a uma situação normal psíquica e neural, o seu corpo realmente dá uma parada. Então parece que o adolescente, a gente vai falar um pouco depois, que você entrou muito nesse campo psíquico, ele dá aparência de transtornos sem ter o transtorno, sim, de desatenção, de hiperatividade, de ansiedade, de depressão. Então parece que ele, se chegar clinicamente em qualquer profissional, não, não tá com esse transtorno, vamos assim medicar.

Não, pera aí, não é assim. Primeiro você tem que entender a que exposição social, né, e qual a construção do eu que esse adolescente está tendo. Ele tem picos, ele tem até indicações de transtorno, mas ele não tem o transtorno. Isso tá ligado muito assim à composição do eu, cara. Isso é importantíssimo. Nem tudo é diagnóstico, nem tudo é por diagnóstico. Se você Nessa fase você dá muito valor a essas coisas: o que pensam de mim, o que vão pensar de mim, o que vão falar de mim.

Claro que nessa fase isso tá mais vivo, né, isso tá mais forte, mas daqui a pouco você vai passar a maturidade não pensando o que você pensa de você ou que você avalia de você, e sim os outros.

MSMarcos Souza

Isso aí. Engraçado que eu tava, eu tinha feito aqui uns caminhos para aprofundar e você acabou falando todos dele, que eu tinha colocado aqui. Por que que a opinião dos amigos pode se tornar tão importante? Você acabou de falar. Porque o cérebro ainda não está desenvolvendo a capacidade de avaliar consequências. E porque algumas situações parecem enormes para adolescente e pequenas para o adulto. Sim, justamente por causa que não tem tudo isso pronto na cabeça.

CMCarlos Macedo

Não tem, não tem.

MSMarcos Souza

Aí a pergunta gancho que eu faço é o seguinte: muitas vezes os pais enxergam exagero onde o adolescente está vivendo um sofrimento verdadeiro. Sim, justamente por não entender essa fase, essa construção que está acontecendo dentro dele, né? Então assim, para os pais que percebem, que não percebem que isso é um processo e que já acham logo que é um exagero, que tudo é exagero, que tudo é exagero, zero, é, qual seria assim a sua dica para poder dar para os pais, para eles poderem entrar com um pouquinho de um entendimento um pouco maior nesse processo, nesse procedimento, né?

CMCarlos Macedo

Tá, ok, vamos lá. Eu acho que a primeira dica é você ter uma intimidade com o seu filho. Essa é a primeira dica, assim, você ter a capacidade, ou seu filho também, de vocês sentarem e conversar sem julgamento. Não adianta nesse momento você julgar, apontar dedo, que isso afasta, é só vai piorar, né? Pois é. Aí traz aquele entendimento: ninguém me compreende. É uma fase difícil. Veja bem, eu estou falando aqui, e já falei, de transformações neurais, psíquicas.

Físicas, clínicas, tudo em uma mesma fase. Então não é fácil, ok? Esse é um ponto. Bem, com relação aos pais, é assim, ó, vamos tentar pegar aqui, imaginar um sinal de trânsito. Você tem o verde, o amarelo e o vermelho. O que que acontece mesmo com essas transformações Se você entende que o seu filho tá conseguindo se socializar, tem amigos, não precisa ter tantos, tá, mas tem amigos, ele consegue ir bem nas coisas que são necessárias: escola, alimentação, sono.

Isso é necessário. Tá bom? Então assim, você, por quê? Porque isso compõe o ser, tá? Então, cara, escola, se você não, o mundo é muito mais competitivo do que era no nosso tempo. Se você não for bem na escola, depois como adulto você vai fazer o quê? Isso tem que estar no entendimento do adolescente. Como eu falei, o próximo passo dele não é infância, É a maturidade. Então a escola faz parte disso, ok? Alimentação. Então tem muita coisa com alimentação, né?

Porque ele ainda traz aquela coisa da infância, né? Só que na infância você come X e gasta Y, né? Então aqui já não. Então você tem que, quanto antes você tiver uma alimentação mais sadia, melhor. Isso é importante, ok? E o sono, tá? O sono, meu amigo, depois a gente vai falar sobre maturidade, velhice. Cara, abra mão de A, de B e C, mas não abra mão do seu sono.

MSMarcos Souza

É, mas adolescente nunca vai entender isso.

CMCarlos Macedo

Pois é, mas aí é o que eu estou falando assim, mas tem coisas que você pode, que você deve ajudar. Vamos lá, normalmente você perde o sono ou você tá fora do sono, por quê? Porque você tá ali no celular interagindo. Então você tem que ter hora para o celular, principalmente de segunda até sexta-feira, porque no outro dia vai ter escola, entendeu? Então vamos lá, olha, tem um limite, né? Não, é fato, é fato. Porque senão, cara, você dormiu mal, pode ser 2, 3 horas, você não vai render bem no outro dia.

Então é o seguinte, ó, 10 horas, 9 horas, Acabou o celular, você corta ali, ok, entendeu? E aí você, ó, qual é o foco agora? Dormir. O foco agora vai ser dormir. Isso, meu amigo, é necessário. Por quê? Porque independente de adolescência ou não, regras são regras.

MSMarcos Souza

Sim. Nossa, e você me deu um gancho aqui excelente, porque a gente tá dentro do assunto. Eu só vou pedir para você dar um pouquinho mais de explicação. Como impor limite sem perder o diálogo quando o adolescente começa a buscar independência. Como os pais podem estabelecer limites sem transformar a relação em uma disputa constante de poder? Porque é nessa hora aí que tem que colocar o limite, mas tem que ter um jeitinho também, né?

CMCarlos Macedo

Sim, como é que fica? Liberdade com responsabilidade.

MSMarcos Souza

E qual é a diferença nesse caso aí de autoridade e autoritarismo também, né?

CMCarlos Macedo

Sim, sim, vamos lá. Até por essa fase o pensamento do adolescente, ele tá muito mais abstrato. Então ele pode ter pensamentos de questionamentos sobre política, religião, cultura, críticas à sociedade. Isso é bom, isso não é ruim. E também nisso entra os pais. Então tudo que ele foi muito doutrinado na infância, na adolescência, ele começa a questionar. E esse questionamento não é ruim, não se sinta ofendido com isso, né? E não adianta nessa fase você falar: não, isso é assim, pronto e acabou.

Eu vou trazer um gancho que eu trouxe num outro encontro nosso, que os pais nesse período tem que ser muito mais professor do que general. Você tem que falar, mas tem que dizer por quê, né? Por que isso? E aí isso ainda vai passar pela avaliação dele, mas é diferente de simplesmente não é isso aqui, pronto, pronto, e acabou, né? Exatamente. Pode até ser naquele momento, porque, porque ele recebe informação informações do grupo e o grupo tá todo mundo questionando tudo.

Cara, o questionamento não é ruim, tá? O questionamento não pode ser comparado com indisciplina. Indisciplina é uma outra coisa. Bem, eu não vou para escola porque eu não quero ir. Isso é indisciplina, entendeu? Eu não vou comer Cara, tudo bem, a comida vai ficar aqui, uma hora você vai ter fome, entendeu? Isso já deixa, são coisas diferentes. Ah, eu não concordo com isso que você disse. Por quê? Houve, né? Deixa que ele faça a defesa da sua tese, porque o equilíbrio é quando você conhece a tese e a crítica, e você fica no liame entre corrigir e corrigir sem humilhar.

Exatamente, exatamente, entendeu? Então assim, ó, é aquela velha. Agora assim, pera aí, mas como que eu sei que meu filho tá andando bem? Como que eu sei que eu tenho que me preocupar? E como eu sei que eu tenho já que procurar, já procurar uma ajuda profissional? Aí eu venho para aquela questão do sinal de trânsito: verde, amarelo e vermelho. Tem questionamento? Tem, tem conflito, tem, mas esse necessário tá caminhando. Então tá, então tá no verde, tá no verde, cara, porque é uma fase difícil.

Ok, tem conflito, tem, mas o necessário está sendo corrompido. Opa, isso é um sinal amarelo. Deixa eu tentar entender o que que está acontecendo. Vamos dar uma parada. E vamos tentar entender o que que está acontecendo. O vermelho, o que é necessário para ele já não existe mais. Ele não quer o que é necessário daqueles critérios que eu falei: escola, alimentação, sono, uma boa convivência com respeito. Claro que tem essas questões de— agora sim, quando isso é abandonado dentro de um campo psíquico é que está, é preocupante.

Por quê? Porque a revolta não está nessas situações e sim na composição do eu. Aí é preocupante. Por quê? Porque você vai ali batendo cabeça, o adolescente vai batendo cabeça, mas ele vai compondo o eu. Bem, isso serve, isso não serve, isso é a vida, a vida é assim. Né? Mas quando ele nega todas essas coisas que são naturais ou normais, é que aqui está, tem uma causa patológica, pode haver uma situação patológica na estruturação do eu.

No fundo, ele não está aceitando a estrutura do eu. E aí é complicado, entendeu? Então acho que os pais têm que estar entendendo isso assim. E outra coisa que eu sempre falo, que eu até falei da outra vez: não projete no seu filho aquilo que você queria para você, entendeu? Você, meu amigo, passou. Ah não, tinha que ter feito isso no fim, não sei o quê, mas o meu filho não, não, não, esquece.

MSMarcos Souza

Eu acho que isso é uma das maiores covardias que a pessoa pode fazer.

CMCarlos Macedo

É inconsciente, esquece isso, tá?

MSMarcos Souza

Nem sempre. Eu acho que na maioria das vezes é inconsciente, mas tem vezes que é uma covardia, que assim, é covardia de qualquer maneira, sim, mas quando é consciente aí dói muito mais.

CMCarlos Macedo

É porque assim, é talvez assim, tanto no fundo essa pessoa ela precisa de um, de uma ajuda. Por quê? Porque ela não conseguiu resolver essa questão com ela que tem que ser resolvida e acha que o outro vai ter que dar conta de resolver isso. Quer dizer, eu não vivi isso, mas o outro vivendo eu fico satisfeito porque eu vivo através do outro, entendeu? Então assim, ó, tem que haver regras. Não existe nenhuma sociedade, nenhum homem, nenhuma mulher que se edifica sem regras.

Esquece Tem que haver regras. Mas vamos lá, vamos, mas eu já falei isso de outra vez, vamos separar o que é necessário, o que é importante, o que é não necessário e o que é não importante. E aí você vai vendo o seu filho, o que você faz com isso. Vai ter jovens, adolescentes, que você vai ali, pô, eu consigo colocar 6 coisas como necessária. O meu filho estuda, ele faz esporte, ele faz uma outra língua, ele faz informática e faz uma arte marcial.

Ok, dá conta, tá de boa, não tá sobrecarregando. Ok, vai ter outro que vai dar conta de 3.

MSMarcos Souza

É, nem todo mundo vai conseguir.

CMCarlos Macedo

Também vai ter outro que vai dar conta de 2. Ah, porque o filho do povo fulano faz isso, você tinha que fazer esquece.

MSMarcos Souza

É, comparação acho que também é uma das piores coisas que pode ter.

CMCarlos Macedo

Tudo tem seu tempo. Você não tá dando conta agora, mas você vai dar conta depois. Agora, essas coisas assim, a educação, a alimentação, o sono, o respeito, pô, isso você não tem como abrir mão, entendeu? Isso aqui, ó, isso é basal, é, isso é necessário, entendeu? Então assim, ó, Eu sempre assim, é, tenha esse alerta. Isso aqui tá fluindo, pô, mas não tá fluindo 100%, tá 80%, mas tá fluindo, tá bom, tá. Isso aqui flui, mas tem muito desgaste, tem muito, cara, é a fase, desgasta, é a fase.

Controla também, liberdade com responsabilidade, ok. Ah, eu quero ir numa tal viagem, num tal passeio, Ok, olha, você tem o seu bimestre aqui, tem as suas notas. Pô, é bacana você ir, cara, mas se esforça aqui, tá? Que, pô, é bom para você que você tenha notas boas, né? Então pegou ali o boletim, pô, ok, você é merecedor desse passeio. Pegou o boletim, tá tudo mal, cara, o passeio não dá. Vamos estudar. Você tá entendendo o que eu tô falando?

Então assim, não é não pode fazer nada, mas também é eu posso fazer tudo, entendeu? Você tem que ter outra coisa, Marquinho: liberdade com responsabilidade. Isso é importantíssimo, porque tem gente que assim tem medo dessa liberdade com filho. Nossa, a pessoa tem um medo e passa esse medo para o filho. O cara vai, o cara sai daqui A escola é ali, coisa de 200 metros. Aí, pô, mas eu não posso te levar hoje. Ah, chama um Uber. Pô, assim, gente, isso, isso faz parte, isso é importante.

MSMarcos Souza

E ele tá dizendo para o filho que é assim, você não é capaz. Pois é, não, eu sou capaz.

CMCarlos Macedo

Pois é, então, cara, isso aí vem aquele medo. Não, não, se alguém pode te parar, alguém pode te pegar. Cara, assim, a pessoa vai ter que viver. É liberdade com responsabilidade. Então você olha, hoje eu vou para uma festa, ok, você vai ficar de tal hora até tal hora. Dá essa liberdade, entendeu? Qual é a responsabilidade? A hora que você falou, olha, eu tenho que ir embora, sim, eu tô indo embora com um grupo de amigos, ok. Ah não, sozinho não dá, é um local longe à noite, pô, dá para me pegar aqui?

Ok, sabe? São essas escolhas de liberdade com responsabilidade. Você tem responsabilidade, você tem liberdade. É uma negociação muito bem feita, é muito bem feita, e fica bom para os dois lados. Ninguém perde, é verdade, entendeu? Todo mundo só ganha aí, todo mundo só ganha. Porque ele entende, porque assim, eu sei, tá, que você fala: não, mas não interessa isso aqui, você tem que ir bem. Pô, isso aqui não é para mim, eu pago a sua escola caro, eu pago não sei o quê, não sei o quê, cara.

Mas assim, mas na cabeça Tá? De alguns não, mas da maior parte não é, não tem esse peso. Isso a gente tem que entender devido a esse movimento que eu falei, né, do sistema límbico para pré-frontal. Responsabilidade aqui, ou poder de decisão com mais maturidade e racionalidade, tá menor, e o impulso tá maior. Entendeu? Isso é neural. Então assim, gente, liberdade com responsabilidade, entendeu? Faça esse exercício, cara. Você foi bem nisso aqui, tá legal, pô, você vai ter mais liberdade, entendeu?

Você vai— isso é bom porque ele vai começar a, pô, eu já posso fazer isso, entendeu? Já consigo fazer isso. Porque se isso não correr dessa forma também, Marquinhos, você tem adultos adultos, pessoas vividas que ainda são presos à doutrina do pai e da mãe.

MSMarcos Souza

Sim, eu costumo falar que crescem disfuncionais pela superproteção. Exatamente, só destrói a pessoa, só destrói.

CMCarlos Macedo

Assim como a liberdade sem responsabilidade também passa a ser libertinagem.

MSMarcos Souza

Isso aí, entendeu? Gancho aqui ótimo. Controlar demais pode afastar, mas abandonar os limites também pode fazer o adolescente se sentir desprotegido.

CMCarlos Macedo

Exatamente.

MSMarcos Souza

Principalmente nessa época que o adolescente está se construindo, tudo que não tá num controle, não tá num equilíbrio, vai desandar, vai desandar mais ou para menos, vai desandar.

CMCarlos Macedo

Assim, ó, você não consegue manter ali um movimento retilíneo uniforme, você não consegue. Vai variar para cá, vai variar para lá, mas tudo dentro, assim, para a adolescência, tudo dentro de uma normalidade. Não adianta você, não vai ser, porque, porque a criança é assim, ela vai, porque se não for você corrige ali, e a criança aceita essa correção. Só que o adolescente ele já não aceita mais desta forma. E outra coisa, ver o momento para conversar.

Até para você conversar diferente da criança, para você conversar com o adolescente, tem um momento, entendeu? Às vezes chegou, o clima tá mais tenso, espera um pouquinho, espera um pouquinho. Daqui a pouco ele vai sair para te pedir alguma coisa. Mãe, pai, pô, tem essa questão lá no esporte, não sei o quê, não sei o que lá. Opa, aí o subconsciente ali, que aquela luta, né, entre o inconsciente e o consciente, tá mais flexível.

MSMarcos Souza

Esperou a poeira baixar um pouquinho.

CMCarlos Macedo

Exatamente. Cara, senta aí, olha só, já tá com os ânimos mais— Exatamente, exatamente. Você fala, né, mas eu, ó, eu quero te ouvir também, eu quero te ouvir também. Não é você falou e ponto. Final. Eu quero te ouvir também. Deixa falar, mesmo que assim, pô, mas isso não tem nada a ver. Mas faz bem você falar, faz bem você colocar para fora. Isso acalma, né, essa impulsividade que tá ali bombardeando.

MSMarcos Souza

Agora eu vou fazer aqui uma mudança de assunto dentro da relação da adolescência. Vamos pegar aqui em questão um pouquinho mais delicada: como os pais devem falar sobre sexualidade. Quando o adolescente começa a demonstrar interesse por relacionamentos, intimidade e sexualidade, como a família pode abordar esses assuntos sem julgamento, constrangimento ou ameaça? Aqui o foco não é clínico, é mais emocional e familiar mesmo.

CMCarlos Macedo

Claro, assim, é quando você tem intimidade com seu filho, essas coisas ficam, ficam mais fáceis, mais fáceis, né? O filho, assim, se ele escolhe o pai ou a mãe não tem uma receita de bolo nisso não, tá? Às vezes o cara fica, acha que o menino ou adolescente, o homem tem que falar com ele, sim, e a menina tem que falar com a mãe, porque a menina não, não tem uma receita de bolo.

MSMarcos Souza

E tem muitos pais também que evitam essa conversa, não tem que ter, que fogem dessa conversa.

CMCarlos Macedo

Mas tudo que puderes, não tem que ter. E assim, não tem escolha, né? Tem essa coisa muito cultural, não, você é pô menino, vai falar com seu pai, você Você é pô menina, vá falar com sua mãe, não sei o quê, não sei.

MSMarcos Souza

Mas eu acho também, sabe, que é muito desse medo de entrar nesse contato, é o fato de achar que se falar de sexualidade vai incentivar, né? E de repente ele vai preparar a pessoa e não incentivar.

CMCarlos Macedo

Exatamente isso. Porque assim, ó, lembra lá que eu falei de lá que esse instinto lá tá sendo bombardeado? E isso mexe com a sexualidade, isso mexe com a sexualidade, começa esse desejo você trabalhando ele com você mesmo, né? O adolescente, até um pouco antes, passa pela masturbação, que não tem problema nenhum com isso, né? Pecado nenhum isso, né? É, o jovem, ele tem que conhecer o seu corpo. E depois o desejo de ter uma relação com uma outra pessoa, entendeu?

Então isso aí, assim, tem que ser bastante leve isso, porque faz parte. Não adianta. Isso vai ser de cada um, tá? Não tem uma receita de bolo. Pode ser que você tem um filho ou uma filha que com 15 anos venha para você: olha, eu quero ter relação sexual, pô, como é que— ótimo que traga. Olha, isso aqui é assim, existe essas questões, entendeu? Então leva no médico, tem toda aquela questão, exame, aquela coisa toda. É melhor, cara, do que fazer assim, fazer ou não fazer, tendo como limite o medo. É muito melhor o conhecimento. O conhecimento liberta, o medo te prende.

MSMarcos Souza

E tem uma coisa também, Carlos, é a recusa de falar desse assunto pode abrir um precedente muito perigoso, porque quando o adolescente não tem essa, esse feedback, a internet entrega para ele. E se a internet entregar para ele, com certeza vai entrar tudo de uma forma muito errada na cabeça dele. Sim, né? E esse errado vai passar a ser o natural dele.

CMCarlos Macedo

Natural. E outra coisa que a gente tem que entender, assim, ó, quando a gente aborda um determinado assunto, eu gosto assim, a gente não tem uma receita de bolo. Por quê? Porque você tem assim famílias e famílias, estrutura familiar de um tipo, estrutura familiar de outro, né? Tem adolescente que às vezes não tem nem com quem falar, né? Você não tem essa estrutura familiar para isso aí. Bom que tenha, mas quando fala, porque você também passa por esse período que você acha que nunca ou nada acontece com você.

Isso é um impulso que tá te bombardeando, e a parte da responsabilidade tá mais fraca, racionalidade tá mais fraca. Então você não acha que você vai sofrer um acidente, você não acha que você pode usar droga, que tá tudo bem, que nada vai acontecer, ou álcool, gravidez, que você pode ter uma relação sem a camisinha que você não vai ficar grávida. Vida, entre outras coisas. Por quê? Porque essa parte do impulso tá muito forte. Então, o esclarecimento ou conhecimento, e isso principalmente vindo dos pais, liberta.

Nada como um papo. Ninguém tá dizendo se você pode ou se você não pode, isso é uma decisão sua. Mas você tem que saber: você vai para esse caminho? Olha, tem essas consequências, né? Tem essas situações. Pô, você tem que ficar precavido ou precavida nisso aqui, né? Quem é o seu parceiro também? Não é uma coisa qualquer de estalo de dedo, entendeu? E a gente tem que entender que a sexualidade é muito mais exposta do que era no nosso tempo.

Não tem nem comparação, mas é muito. E outra coisa, Lá atrás, acho que primeira vez que eu vim aqui, eu falei que informação gera desejo, desejo pode gerar recalque, sonho ou execução. Então a sexualidade hoje em dia ela é muito mais exposta do que era antes. Então é interessante essa conversa com com os pais ou com alguém, né, de repente uma madrinha, um tio. Não tem uma receita de bolo, mas os pais seria uma pessoa de confiança, né, melhor caminho.

Porque uma outra coisa não é só o ato sexual, mas qual a importância da sexualidade, o que tem por detrás disso: sentimento, respeito, entendeu? Afinidade. Porque aí você tira, hoje em dia, o ato sexual ou a sexualidade tá muito pobre, tá uma coisa muito rasa. E não é assim, isso envolve outras coisas. E quanto antes o homem ou a mulher entender isso, ele vai se sentir mais resolvido com essa questão da sexualidade, entendeu? Que isso até um ponto, eu sei que eu passei aqui por infância, por várias coisas, e a gente não bateu no tema da sexualidade.

Isso é um tema profundo que não dá para a gente falar assim de forma muito rápida, mas esse momento da adolescência é o momento aonde, dentro de uma estrutura psíquica, na parte sexual, isso vai começar a ser avaliado pelo indivíduo, inclusive com o desejo ou não de ter relação sexual com uma pessoa do mesmo sexo. Sim, isso assim tem muita— eu, eu assim, eu não costumo, eu respeito todas as teses, Mas eu não, eu não entendo que isso está muito fixado na infância.

Eu não entendo dessa forma, mas respeito quem coloca dessa forma. Mas na adolescência, aí sim você já começa a se questionar sobre esse entendimento. E aí não é só a abertura com os pais de dar relação sexual, mas do desejo sexual também, entendeu? Porque isso vai existir, vai existir. Isso é do ser humano. Quanto mais assim, quanto é, quando você tem liberdade, as coisas ficam mais fáceis, porque você vai ter que recalcar, você vai ter que se sentir mal, entre outras coisas.

Então assim, nessa idade, adolescência, é que você, eu acho que você tá mais estruturado para você começar a entender esses movimentos. Eu mais uma vez digo, respeito quem defende uma tese diferente, mas eu não associo muito isso à infância.

MSMarcos Souza

Eu também não consigo associar à infância, isso muito adolescência. Um discernimento, você tem que ter um questionamento já é porque assim, eu não sei, né?

CMCarlos Macedo

Não sei, assim, eu pensando aqui, se a gente for pensar, se a gente for tentar ir assim para um lado mais, você tem a sua estrutura, você tem o inconsciente, né? Você tem o ego e tem o superego dentro da psicanálise, a estrutura freudiana. Não é ego de você ser egocêntrico, é ego porque você tinha esses instintos todo, você teve que criar uma barreira e você não deu conta, o ego, você tem que criar o superego, que é cultura. Isso não é porque a gente vive em grupo, a gente vive dentro de uma cultura sócio, né, dentro de um grupo.

Então tem as leis, tem as regras. Isso é o superego. O instinto, você faz o que você, pô, eu tô com vontade, tô com tanta raiva dessa pessoa que me dá vontade de matar. O instinto às vezes tá dizendo isso. Isso, mas você não vai fazer por várias outras questões que estão no ego e estão no superego. Então assim, ó, é nessa fase, na fase da infância, você tem o desenvolvimento psíquico-sexual. Tudo bem, você tem a energia, mas nessa fase é que você transforma, começa a ter um entendimento para transformar essa energia Porque o adolescente, ele tá na fase de se relacionar, entendeu?

Então ele já começa a pensar, pera aí, pô, eu estou desejoso por quem? É aí que você já começa a ter esse entendimento. Mas mais uma vez, para não ficar uma coisa rotulada, eu respeito quem defende uma outra tese, mas eu não associo isso a uma questão da infância.

MSMarcos Souza

Não, o fato de não concordar não tem nada a ver com tudo isso. Não tem nada a ver.

CMCarlos Macedo

Exatamente, exatamente.

MSMarcos Souza

Porque existem várias, várias, agora esqueci a palavra que dá, a psicologia, psicanálise, existem várias vertentes.

CMCarlos Macedo

Sim, sim, sim.

MSMarcos Souza

Então você não é obrigado Não é uma só que é verdade absoluta, não é o que funciona para você ali.

CMCarlos Macedo

Exatamente.

MSMarcos Souza

Agora você tá falando muito de fase e me chegou aqui uma pergunta, eu já tinha separado ela aqui, que cabe certinho para isso aí. Quando deixa de ser aquele famoso, ah, isso é apenas uma fase? Mudanças de humor, afastamento da família, contestação podem fazer parte da adolescência, mas quais são os sinais que indicam que existe um sofrimento emocional mais profundo e que o adolescente pode precisar de acompanhamento profissional.

CMCarlos Macedo

Ok, bem, aí aquela situação do sinal vermelho.

MSMarcos Souza

Sim, porque às vezes a pessoa tá ali isolada, no isolamento intenso prolongado, ou então uma agressividade persistente, ou uma queda repentina de desempenho escolar, abandono de amigos e atividades, comportamentos de risco, alterações importantes no sono e na alimentação, e sentimento constante de vazio ou desesperança. Então assim, como os pais podem perceber que esses sinais estão ali e sem transformar todo o comportamento adolescente em doença?

CMCarlos Macedo

Sim, né? Vamos lá, é, não tem uma receita de bolo, mas vamos lá. É tudo isso, Marquinhos. O que é importante dentro de uma estrutura psíquica é a composição do eu, ok? Você pode oscilar em algumas situações dessa, como eu falei. Parece que se você for olhar o adolescente, você vai dar, pô, bipolaridade, o cara é TDAH, o cara é TODD, o cara não. Ele tem ali momentos de desafio, ele tem momentos de perda de atenção, ele tem momentos de mais hiperatividade, de mais isolamento.

Pode ter mais ou menos. Mas isso são momentos, as coisas se resolvem, né? Eu tava aqui em um grupo de amigos, teve uma discussão, teve uma coisa, eu quero sair desse grupo, tô triste, tenho esse luto, mas eu vou para outro grupo. Sim, ok, entendeu? Agora, quando você tem essa perda e essa perda fica fixada na perda, você não consegue evoluir. E aí você ter buscar um outro grupo, fazer outros amigos, isso vai acontecer, né?

MSMarcos Souza

O luto de relacionamento tem na maturidade também, tem em todas as fases da vida.

CMCarlos Macedo

E isso, pô, não quer dizer que você fique ali no luto. Quando você permanece fixado em uma postura por um tempo maior e o pai, a mãe tá vendo que aquilo ali não é uma coisa de momento, porque quando é de momento você identifica uma causa. Bem, eu tenho um adolescente, tem 14, 15 anos, tem um namorado e rompeu. Tem aquele luto, tem aquela tristeza, mas tem o gatilho. Por que que isso tá acontecendo? Não, porque tinha um namoradinho, rompeu.

Ok. Daqui a pouco vai, segue em frente, sofre, isso faz parte da vida. Agora, quando não tem um entendimento, quando não tem uma causa que você não entenda ali, uma causa para uma situação com profundidade, quando tem uma automutilação, seja ela psíquica ou física, né, Aí, meu amigo, você tem que acender a luz vermelha, tá? Existe casos de adolescência que você inclusive tem que fazer uso de farmacologia, entendeu? Que o profissional terapêutico entende que por um momento curto, né, ele tem que associar o tratamento terapêutico com a farmacologia para ter um equilíbrio químico, entendeu?

Por quê? Porque a questão não está na farmacologia, está na composição do eu. Mas às vezes isso tá tão alterado que você precisa de uma farmacologia para você poder ter um equilíbrio químico, porque o que vai resolver isso é a composição do eu. Por quê? Porque isso acontece Porque não existe ou não está existindo essa composição do eu. Isso está em pedaços. Então você não tem uma estrutura. Lembro que eu falei aqui de início, até de uma forma metafórica, que a adolescência é o alicerce, é o cimento ali que você vai colocar para aquelas colunas para casa que você vai construir em cima.

Se isso não tiver bem fixado, a casa ali, meu amigo, vai ficar, né? A hora cai uma parede, você remenda, a hora faz uma coisa, a hora você faz outra.

MSMarcos Souza

Tem base na estrutura, né?

CMCarlos Macedo

Exatamente. Começa lá da infância, né? A infância seria você ali colocar ali os ferros, começar a colocar ali os ferros, a fundação, a fundação. Adolescência que você vem com um concreto, entendeu? É estrutura, é o eu, entendeu? Então é muito preocupante quando você vê um adolescente que ele não está conseguindo estruturar ou compor o seu eu. Aí sim, questões, outras questões, pode ser questões hormonais, questões neurológicas, psíquicas, momento, tudo isso que a gente bateu aqui.

Às vezes é um ano, às vezes é 6 meses, às vezes é uma semana, um mês, você vai levando. Isso é fase. Fase é coisa que inicia e passa.

MSMarcos Souza

Isso não é diagnóstico eterno, não.

CMCarlos Macedo

E assim, ó, tudo que é composição do eu, assim, não existe assim um diagnóstico eterno. Você vai vai melhorando. Até a gente hoje em dia, você vai se autoanalisando, se autoavaliando, entendeu? Então você vai melhorando. Só que o, só que o seguinte, o próximo passo do adolescente é a maturidade, entendeu? É o próximo passo dele.

MSMarcos Souza

Então ele precisa estar numa estrutura boa né? Porque senão vai dar problema.

CMCarlos Macedo

É assim, ele precisa passar por essa fase, tá? Uma coisa importante também nessa fase, Marquinhos, assim, que os pais ou ele mesmo, né? A gente fala muito os pais, tem os pais, mas tem a responsabilidade dele mesmo, né? Então é o seguinte, entra também nessa fase os maus pensamentos. Os maus pensamentos na infância você não vê muito isso. Os maus pensamentos, ele entra nessa fase: ódio, inveja, vingança, que faz parte da composição do ser humano.

Sim, sim. Só que quando você tá mais velho, você— então já dessa fase, se você puder, você adolescente e os pais, cara, vê o lado bom das coisas. Começa a ver o lado bom das coisas. Teve isso aqui, ok, pô, é chato, é por ruim, mas começa a tentar ver o lado bom das coisas, que isso vai te ajudar. Porque nem tudo é tão bom e nem tudo é tão ruim, verdade, entendeu? E uma coisa que é importante você, é que o seu filho já Entenda que isso faz parte do mundo, cara.

Assim, a fase da Cinderela, fazer aqui uma metáfora, né, que a Cinderela tinha 8 anos, tinha o pai, o pai trouxe a madrasta com 3 filhos, o pai morreu, a madrasta pegou a casa dela, as filhas faziam bullying com ela o tempo todo, ela viveu não sei o quê até achar o príncipe encantado. Meu amigo, isso na realidade A Cinderela, ela ia ter uma depressão profunda, ia passar para um estado borderline, entre outras coisas. Então, o mundo, o mundo, meu amigo, aquela fase da fantasia começa a ter uma transição.

O mundo é real e é duro. É outra coisa, nem sempre a justiça impera, verdade também. Então isso é uma outra coisa que você já começar a preparar seu filho para vida, porque é o real agora. Depois que ele passar dessa fase, meu amigo, vai para o mundo real.

MSMarcos Souza

Tem que preparar assim, entendeu?

CMCarlos Macedo

Então é, você tem que ter esse entendimento, e isso chega para você o tempo todo, entendeu? Às vezes tem coisa que você vai resolver Às vezes tem coisa que não vai, e você vai falar assim, cara, nem sempre o mundo vai ser justo. Às vezes o mundo vai ser injusto. Vou pegar aqui um gancho muito rapidamente de dois adolescentes, de um fato que eu não vou citar nome nem nada para não associar a nada. Você tem uma família muito bem estruturada, você tem um adolescente de 16, outro de 12 anos.

Todos os dois tiveram ótimas escolas, educação, entre outras coisas. Bem, esse aqui de 16 anos, por questões psíquicas, né, se junta com outro maior, e por alguma influência ou negativa dos pais, eles decidem matar os pais da pior forma possível. E nisso tem um garoto de 12 anos aqui. Ok, aconteceu isso, teve essa situação. Como é que tá hoje, né? Esse cara cresceu muito mal, foi para clínica psiquiátrica, ficou tempo na Cracolândia, viveu como morador de rua.

Hoje em dia vive longe de tudo, longe de família, num lugar lá no meio do mato, não tem televisão, televisão, não tem celular, não tem nada. Esse outro aqui passou o tempo, cumpriu lá o que tinha que cumprir, casou com médico, tem filho e tá pegando toda a herança que tinha dessa família aqui. Porque esse aqui tá tão desestruturado que ele abriu mão de tudo, não quer saber de nada, ele vive lá no meio do mato, não tem celular, não tem nada.

Meu amigo, isso é o mundo real. Não é para acontecer, não é, mas acontece, mas acontece e é fato, entendeu? Então nem sempre a justiça impera.

MSMarcos Souza

Verdade. Bom, vamos fazer aqui uma transição agora. Nós falamos muito sobre as dificuldades da adolescência, como se ao completar determinada idade todos os conflitos fossem automaticamente resolvidos. Mas o adolescente cresce e muitas vezes leva para a vida adulta medos, inseguranças, rejeições e feridas que nunca conseguiu compreender.

O QUE ACONTECE NA MENTE DO ADOLESCENTE - DR. CARLOS MACEDO - PSICANALISTA | Castnews Index — Castnews Index