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QUANDO ESCOLHER ERA REBELDIA - BETH MORAIS - PSICÓLOGA

10 de setembro de 20261h37min
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Você sabe realmente o que significa feminismo?

Durante muito tempo, o lugar da mulher na sociedade parecia estar previamente determinado: casar, ser mãe, cuidar da casa e obedecer. Estudar, trabalhar, controlar a própria fecundidade e decidir sobre o próprio futuro eram possibilidades negadas a muitas mulheres.

Quando elas começaram a questionar esse roteiro, essa transformação foi interpretada como uma espécie de insubordinação.

Neste episódio do Contracorrente Podcast, Marcos Souza conversa com a psicóloga Beth Morais sobre as mudanças históricas que transformaram a vida feminina — e sobre as desigualdades que ainda permanecem.

Falamos sobre educação, trabalho, casamento, maternidade, autonomia, desigualdade salarial, liderança, dupla jornada e a sobrecarga invisível que ainda acompanha tantas mulheres.

Também refletimos sobre uma questão fundamental: em que momento a busca por igualdade passou a ser apresentada como uma guerra entre homens e mulheres?

Este não é um episódio sobre retirar o lugar de ninguém. É uma conversa sobre escolhas, respeito, diálogo e responsabilidade compartilhada.

Assista até o final e responda nos comentários:

Quanto da vida que você leva hoje foi realmente escolhido por você — e quanto ainda corresponde às expectativas que colocaram sobre a sua história?

Convidada: Beth Morais | Psicóloga

@bethmorais.psi

Apresentação: Marcos Souza

Contracorrente Podcast — contra a corrente do óbvio.

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Participantes neste episódio2
M

Marcos Souza

Host
B

Beth Morais

ConvidadoPsicóloga
Assuntos6
  • A evolução do papel da mulher na sociedade e a busca por escolhasFeminismo·Insubordinação feminina·Conscientização
  • A compreensão do feminismo e a desmistificação de estereótiposFeminismo estereotipado·Antifeminismo·Liberdade de escolha
  • A importância da independência financeira, emocional e intelectual para todosIndependência financeira·Independência emocional·Independência intelectual·Violência contra a mulher
  • A trajetória profissional de Beth Morais em ambientes predominantemente masculinosFutebol·Psicologia esportiva·Vasco da Gama·Federação de Futebol
  • As três forças que impulsionaram a transformação da vida femininaEducação·Anticoncepcional·Urbanização·Revolução sexual
  • A necessidade de resgatar sonhos e desejos para uma vida verdadeiramente escolhidaSonhos·Desejos·Escolhas
Transcrição154 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
MSMarcos Souza

Salve, salve, Correnteiros! Hoje eu recebo aqui a psicóloga Beth Moraes e o assunto é interessante para as mulheres e principalmente para os homens. Eu tava aqui conversando com ela, a gente num papinho pré-gravação, a gente estava falando sobre como é importante a conscientização. Não que a gente vai mudar uma geração por agora, como a gente gostaria que fosse, né? A gente plantando uma sementinha para um dia tudo isso mudar.

Então a gente tá fazendo aqui a nossa parte de tentar pelo menos levar para vocês um questionamento, tipo assim, pô, vale pensar nesse assunto aqui. Então vou fazer uma abertura do episódio e vocês vão entendendo o papel da mulher na sociedade e o papel do homem enquanto parceiro enquanto indivíduo e enquanto pessoa consciente, que eu acho que essa é a palavra que engloba tudo isso que a gente vai falar hoje: conscientização. Durante muito tempo, o lugar da mulher na sociedade parecia estar previamente definido.

Casamento, maternidade, cuidado da casa e obediência faziam parte de um roteiro que raramente poderia ser questionado. Mas quando as mulheres começaram a estudar, trabalhar, controlar a própria fecundidade e ocupar espaços de decisão, essa mudança foi vista por muitos como uma espécie de insubordinação. Hoje no Contra Corrente Podcast vamos entender o que a história pode nos ensinar sobre essa transformação. O que realmente mudou na vida das mulheres?

Quais desigualdades ainda permanecem? E como os homens e mulheres podem construir um futuro de responsabilidade compartilhada. Para essa conversa eu recebo aqui hoje, eu já posso falar com muito prazer, que além de psicóloga é uma amiga que a vida me deu, Beth Moraes. Beth, seja muito bem-vinda mais uma vez ao Contra Corrente Podcast, e eu espero que você continue sendo habituê da casa, hein?

BMBeth Morais

Então, Marcos e toda a galera aí que vai assistir a gente, é um prazer Né, essa oportunidade, como a gente estava conversando um pouquinho antes nesse aquecimento, ter um espaço onde a gente possa trazer temáticas tão sensíveis, mas de uma forma contextualizada, humanizada, não polarizada, que a gente vai ver aqui, para mim é uma honra. Uma honra. Já estivemos aqui falando sobre violência contra a mulher. Essa é uma nova oportunidade de falar sobre as mulheres no mercado de trabalho.

Essa questão aí da insubordinação foi uma provocação de fato, porque a gente vê muito a questão de ouvir muito alguns conteúdos num tom Né, mas o que ela pensa? Como assim? Sempre naquele tom de alguém que está numa soberania e com a autoridade de uma manipulação de presença nossa no mundo, de local, de definição de local para a gente existir. Todos nós humanos que existimos, nós devemos ter o direito de escolha de onde estar, o que fazer e como fazer, dentro de códigos morais e éticos, não de gênero.

Então assim, mais uma vez eu tô aqui trazendo um conteúdo que gera um desconforto, sim, porque toca em dores sociais, dor diferente, torna o homem que às vezes se sente ainda muito desconfortável nesse entendimento. Então eu acredito que às vezes fica mais fácil para ele reforçar um discurso já conhecido, de um lugar conhecido, do que ter que ver e ter uma expansão de consciência para entender qual é a possibilidade desse novo lugar, porque a partir do momento que nós nos deslocamos do espaço privado para o espaço público, com certeza quem está no espaço público vai ter que dar uma ajeitadinha e também assumir a responsabilidade do espaço privado.

Quando eu digo espaço privado, é a nossa casa. Quando eu digo espaço público, É o mundo lá fora, da porta para fora, é o mercado, mercado de trabalho, enfim, é a nossa presença no mundo. E é essa equação que eu sinto, Marcos, que tá um pouquinho difícil de entendimento, porque eu nem me apresentei, mas eu já me apresento, porque como eu já estive aqui, eu acho que todo mundo que tá assistindo já me conhece. Porque compulsoriamente nós nascemos com papéis definidos, compulsoriamente.

E a gente, ao longo dos séculos que eu vou trazer isso, a gente foi entendendo que não, porque alguns incômodos foram acontecendo. O mercado demandou a nossa mão de obra, e eu vou explicar com a Revolução Industrial. Então nós não vamos falar aqui de insubordinação, nós vamos falar de necessidade de mão de obra feminina no mercado. Aí a gente vai falar da Revolução Industrial, a gente vai falar da Primeira Guerra Mundial, da Segunda Guerra Mundial.

Então, para desconstruir um pouco esse tom, o que que ela pensa? A gente pensa que o mundo nos demandou também sair de casa, fora outras coisas que a gente vai falar aqui. Bom, eu posso me apresentar?

MSMarcos Souza

Claro!

BMBeth Morais

Então, como o Marcos falou, eu sou Beth Moraes, sou psicóloga há 33 anos e toda a minha carreira, praticamente toda, como eu já falei anteriormente, foi trabalhando em espaços culturalmente masculinos. Então eu iniciei toda a minha trajetória no futebol como psicóloga esportiva no Clube de Regatas Vasco da Gama. Fiquei durante 15 anos, fui para a prática docente também, paralelo à clínica e a psicologia do esporte. Na prática docente eu fui lecionar na Universidade da Cidade, que já não existe mais, na formação de treinadores de futebol.

Depois, ainda na Universidade da Cidade, me convidaram a lecionar psicologia aplicada à arbitragem, aonde eu tô há 25 anos na Federação de Futebol.

MSMarcos Souza

Caramba, é uma história de vida!

BMBeth Morais

E paralelo a isso, eu trabalhei no Comitê Olímpico, seleções de judô no Exército, viajei para um país islâmico sozinha para fazer um trabalho, e onde eu vivi, experimentei, digamos assim, o terror e o temor de não sair mais desse lugar. Então eu, enquanto mulher, eu tenho história para contar desses lugares, mas Provavelmente contrariando algumas pessoas que devem estar imaginando, nossa, quanto sofrimento, quanta dificuldade, tirando obviamente a viagem para África, que foi realmente bem desafiadora para mim enquanto mulher num país islâmico.

Eu fui retida no aeroporto, eu tinha que ir em inglês e eles em francês, a gente chegar a uma conclusão que eu precisava da liberdade, que eu não poderia ficar ali. Enfim, mas contrariando de repente ao pensamento de muitas pessoas, eu— sabe aquela expressão: não sabia que era impossível, foi lá e fez? Fui eu. Eu entrei no futebol aos 22 anos, uma menina. Hoje eu tenho 56, uma jovem adulta. Sem aquele olhar do tipo, cara, vou conquistar o mundo, vou botar para quebrar, vou mostrar que esse espaço— a mesma ingenuidade que eu tinha naquela época e que seguiu comigo pelo menos nos primeiros 8 anos a 9 anos de carreira.

Às vezes eu tento resgatá-la para me tirar do incômodo, do ódio e da rivalidade, da agressividade, porque eu acredito que o meu olhar era tão puro, tão puro ali. Era eu e mais 60 homens, é comissão técnica, atletas, dirigentes. E eu ia trabalhando e me colocando com um olhar humanizado e sensível para aqueles meninos, que obviamente várias vezes eu fui questionada que eles eram meninos e que eu não poderia estar trabalhando os sentimentos naqueles meninos.

E naquele momento eu falei, não, mas eles são humanos, não vejo o porquê não. Enfim, e eu fui construindo esse espaço, esse espaço, conquistando espaço de pertencimento àquele lugar. Então eu comecei a entrar no vestiário para assistir uma pré-eleção, comecei a entrar em campo para assistir um aquecimento pré-jogo. Então eu fui afastando, né, não fui empurrando nem com porrada, eu fui ali tateando, sempre argumentando por uma coisa que eu não abro mão, Eu não sei se você já percebeu, é de dados, fatos, argumentação.

MSMarcos Souza

A mulher da fundamentação.

BMBeth Morais

Não dá, não dá para a gente falar porque eu acho, tá? De onde, respeito, mas de onde você tirou esse sentimento de achar alguma coisa? Então enfim, e dessa forma eu fui, fui, fui para prática docente, fui para fora, para fora que eu digo do estado, fui para Minas, ampliei minha vivência docente e tal. Fui para o universo corporativo, que me ensinou muito sobre a minha sensibilidade. Eu fui muito questionada, eu era uma pessoa sensível para RH.

O que hoje existe a NR-1 para ver os riscos psicossociais, fazer esse levantamento, eu já, sem isso, sem esse conceito, sem nada, eu já me colocava com essa mentalidade de cuidado, de entendimento. E aquilo, para o nível de consciência da época, para o modelo da época, gerava um incômodo. E sempre me associaram a uma pessoa frágil, talvez pela aparência, o que eu nunca me imaginei de outra forma. Tipo, ah, eu vou, então vou parecer. Não, eu sou exatamente essa pessoa.

MSMarcos Souza

O jeito tranquilo de falar também. Pode demonstrar sensibilidade, apesar que não tem nada a ver uma coisa com a outra.

BMBeth Morais

Então a sensibilidade ela não necessariamente é uma fragilidade. Nada contra as fragilidades, a gente tem nossas vulnerabilidades, mas a minha sensibilidade ela me dá um olhar, uma percepção que muitas vezes ultrapassa o óbvio. Então eu devo a ela, eu devo a ela o que, né, existia uma crítica. Na verdade, eu devo a ela a minha, hoje, ao lugar que eu tô com tanto tempo de profissão e de atuação, de atuação, enfim. E nós chegamos a esse lugar desse tema de hoje, né, essa mulherada no mercado.

Aí a gente vai nas redes, como essa é uma temática que eu estudo Obviamente o algoritmo ele vai me oferecendo algumas pessoas com algumas falas que eu entendo que tá numa contracultura. Mas assim, eu não nego nem rejeito, eu tento entender de onde tá tirando, o que que tá faltando, que entendimento é esse. Então quando eu comecei a ver Primeiro, eu tenho até um vídeo falando sobre a questão do não ao voto feminino, isso é uma outra pauta.

Mas quando eu começo a ver também mulheres falando sobre um resgate de um modelo de mulher que se chama mulher tradicional, mas se a gente for um pouquinho lá mais atrás, que eu vou trazer recorte de 3 séculos, né, o tradicional não era exatamente o que a gente viu no século 19 e 20, mas enfim. Mas essa mulher doméstica, dona de casa e tal, tal, tal, tem que voltar, a prioridade família e tal. Aí eu penso, vamos lá, como é que a gente debandou para o mercado de trabalho, gente? Que coisa é essa? De onde surgiu isso?

MSMarcos Souza

Isso não foi do nada, né?

BMBeth Morais

Foi, não foi?

MSMarcos Souza

E muita gente não sabe.

BMBeth Morais

E não foram as feministas, né, que o movimento feminista veio depois da primeira demanda do mercado pela mão de obra feminina. Então não dá para colocar na conta dessas mulheres que buscaram ser livres, mas tudo bem. Então vamos lá, a gente vivia numa sociedade agrícola, beleza. Meados do século 18 teve a Revolução Industrial. Até então, na sociedade agrícola, eram as famílias trabalhando, né, todo mundo junto. Não tinha ele é o chefe, cara, era ali, né, na roça, na agricultura, para subsistência e tal, tal, tal.

MSMarcos Souza

Eu não tô falando dos coronéis, não, eu tô falando da galera, cada um na sua função.

BMBeth Morais

Para funcionar, para tudo funcionar, para dinâmica familiar acontecer, tá? Beleza, é uma engrenagem, né? Aí veio século 18, meados do século 18 para frente, veio a Revolução Industrial e os homens foram para indústria. Só que como não necessitava mais a força física que o homem tem Na agricultura necessita. Na indústria, dependendo da natureza da indústria, entenderam que uma mão de obra feminina, ok, daria conta e poderiam diminuir o salário.

Então as mulheres saíram da questão da agricultura, do artesanato e foram migrando para as indústrias. E foi acontecendo, né, século 18 em diante. No século 19, a gente teve o direito a estudar. Então algumas escolas para mulheres foram sendo criadas. Inicialmente para ensiná-las a costurar, a cozinhar, certo?

MSMarcos Souza

Ensinar a ser dona de casa.

BMBeth Morais

Isso, mas tudo, Marcos, é uma construção, porque abrir um espaço de estudo, então a gente já se deslocar, eu falo a gente porque eu me incorporo, a gente já se deslocar, já foi uma grande evolução. Exatamente, meninas, vocês agora têm escola para vocês, beleza? Já é mais no final do século 19, a gente teve o direito de entrar numa universidade. Aí outra evolução, outra evolução. E essas escolas que inicialmente eram escolas para ensinar as prendas do lar, algumas mulheres com um pouquinho mais de expansão de consciência entenderam que seria interessante, interessante de ensinar além das prendas do lar Uma matemática, uma história, trazendo essas disciplinas.

Inicialmente houve um desconforto. Desconforto, ele é necessário, mas senão não tem mudança. Houve um desconforto. Para que a mulher vai saber matemática? Para que que ela vai querer saber história, geografia? Não, é costura, comida, trocar fralda e tal. Mas aí já não dá, aí já veio, aí o olhinho da mulher brilha, né? Olha só, olha, além costurar, de cozinhar, de saber. Olha que matemática é legal, né? Olha, história legal. Enfim, aí tivemos, recebemos, né, fomos agraciadas com direito às universidades, século 19.

Aí veio o grande boom, literalmente dois grandes booms, que foi a Primeira Guerra Mundial, 1914 a 1919, E a Segunda Guerra Mundial, 1939 a 45, o que que aconteceu nesta época? Boa parte das mulheres já estavam nas indústrias, né? E começou a necessidade de bala, a indústria bélica, dar um suporte à guerra, e dá um suporte à guerra. Na Primeira Guerra Mundial, as mulheres brasileiras não foram convocadas a participar, não existia esse alistamento.

Já na Segunda Guerra Mundial, nós tivemos 73 mulheres que foram para Itália, que foram alistadas, fizeram seu alistamento e foram para a Itália. Na Segunda Guerra Mundial, o que antes a mulher já tava na indústria bélica, em outras, né, porque a mão de obra era barata, custava menos que o homem, não precisava de força, né. Na Segunda Guerra Mundial isso reforçou. Após a Segunda Guerra Mundial O que que aconteceu? Aí veio sim o movimento, né, já no século 20, essa questão do movimento feminista.

Lembrando, gente, que o feminismo, ele é os feminismos, porque existem 4 ondas do feminismo. Porque quando a gente fala de feminismo, e muitas pessoas têm raiva, é porque Acredito eu que não saibam exatamente do que se trata. Beth, você é feminista? Eu sou feminista, eu sou uma mulher que defende a dignidade e o direito de existir sem ser submetida a nada. Eu não vou falar contra a sua vontade, que se for contra a sua vontade já Né, já perdi o objeto.

Submetida já é contra a vontade. Bom, enfim, então veio a Segunda Guerra Mundial, a Primeira e a Segunda. Aí a mulher, já lá, Revolução Industrial, escola, universidade, Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, a mulher começou a, vamos dizer assim, a, não vou falar infiltrar, que parece uma coisa de gangster, né, mas começa a a conquistar, infiltrar não, a conquistar espaços, conquistar acesso, né, o acesso e espaços, inclusive políticos.

Aí a gente começa a ter direito ao voto. Em 1962 foi a nossa, eu acredito que tenha sido um marco muito forte onde a gente garantiu o nosso direito de trabalhar, de viajar, de ter cartão de crédito sem autorização do marido ou de um tutor homem.

MSMarcos Souza

Foi, entre aspas, a carta de alforria.

BMBeth Morais

Eu tô falando, gente, de 1960. Eu nasci em 70.

MSMarcos Souza

Isso foi praticamente ontem. Por um fato histórico, isso foi ontem, muito ontem, ontem mesmo, hoje de manhã.

BMBeth Morais

Então, a partir do momento que a mulher não precisa mais de um tutor, ela começa a expandir sua consciência e entender sobre os seus potenciais, e começa a perceber a sua presença no mundo, num outro mundo além do mundo do lar, de casa. Então, o primeiro ponto de ruptura que eu queria— você fica à vontade para falar, sabe, macho? Porque eu recebo crítica.

MSMarcos Souza

Não, tô achando ótimo.

BMBeth Morais

Eu recebo crítica de algumas pessoas que eu não deixo você falar, foi o meu feedback.

MSMarcos Souza

Mas olha só, eu também recebo crítica que eu não deixo ninguém falar. Eu me controlo mais hoje em dia, mas é porque, é porque eu costumo falar o seguinte: Gente, aqui não é entrevista, aqui é bate-papo. A gente tá conversando, então conversa assim mesmo, não cortou outras vezes, né? Mas eu hoje em dia eu já me seguro mais um pouco. Mas depois eu quero só fazer um gancho aí nisso que você tá falando.

BMBeth Morais

Pronto, gente, eu vou deixar ele falar, vocês brigam comigo.

MSMarcos Souza

É porque assim, até na minha visão como homem, é importante eu deixar registrado pelo menos isso. A maioria dos homens, quando ouvem a palavra feminismo, já ficam com o pé atrás porque eles só conhecem um feminismo na forma estereotipada. Hoje eu já tenho uma cabeça um pouco diferente. Quando eu ouço uma mulher falar que ela é feminista, se eu sei mais ou menos do histórico dela, eu sei que ela não tá falando do feminismo estereotipado.

Ela tá falando do feminismo como uma questão de respeito, né? Eu sou um ser humano, eu tenho direito de existir e tem direito de fazer o que eu quiser. Que tá certo, é isso mesmo. Agora, todos os outros estereótipos que colocaram também a palavra como feminista, isso já é uma outra história, isso é uma outra história. Então eu acredito que muitas pessoas falam que tem horror de mulher feminista porque não entenderam o que que é feminismo, pelo menos a essência, não entenderam a essência.

Porque quando entenderem, eu falo assim, ah, era isso que era o feminismo? Ah, então isso aí eu, eu respeito.

BMBeth Morais

Eu, eu sempre fui essa pessoa que você tá vendo assim. Eu me considero uma mulher sensível, uma mulher delicada, que é que às vezes pode incomodar, pode incomodar porque parece que eu estou dissociada de uma imagem feminista, de uma imagem estereotipada.

MSMarcos Souza

Às vezes nem mesmo as mulheres sabem que tem a diferença. Tem muita mulher falar: eu não sou feminista. Eu sei que ela tá falando, que ela tá querendo dizer ali que ela não é estereotipada. Só que essa palavra, ela tem outra vertente.

BMBeth Morais

Toda mulher, eu falo, eu sou uma mulher feminista pelos motivos que eu já disse. Toda mulher que fala, eu não sou feminista, eu sou antifeminista, aí é bom a gente ver aonde essa mulher está. Ela está no mercado? Ela tem poder de fala? Ela se posiciona? Então ela não é antifeminista, ela é feminista. Porque eu acho muito interessante, Marcos, esse assunto assim é fascinante e eu adoro observar, né? Eu observo, eu escuto. Quando eu escuto mulheres nos púlpitos, né, da vida, muito elegantes, com uma oratória muito bonita, falando: somos antifeministas, as feministas acabaram com a família, eu fico pensando sobre a incoerência dessa pessoa, o quão contraditória está sendo.

Por quê? Ela tá usando de um direito conquistado por um movimento para falar contra o movimento.

MSMarcos Souza

Mas eu entendo porque elas falam isso, porque elas não sabem a diferença do feminismo in natura, a essência dele. Ela tá ali, ela tá falando ali do estereótipo. Você pode ter certeza disso, ela tá falando só do estereótipo.

BMBeth Morais

Por quê?

MSMarcos Souza

Porque tem a mesma palavra.

BMBeth Morais

Veja bem, mulheres, né, como você tá falando, estereotipadas, como, né, você tá trazendo para cá, que tem um jeito mais de cortar o cabelo, tem uma forma de se vestir, tal, tal, não quer dizer que elas não tenham uma participação positiva. De repente foi um código de vestimenta utilizado para serem de fato reconhecidas como mulheres que estão aí numa busca por abrir oportunidades, sabe? Não dá para trazer isso negativando. Eu sei que pode incomodar, e é bom que incomode.

MSMarcos Souza

É bom que tudo que incomoda faz a gente pensar.

BMBeth Morais

Eu incomodo, eu incomodo porque eu sou uma mulher feminista, casada há 33 anos, fui mãe e defendo a pauta, assim, várias pautas do feminismo. Como eu já te falei, o feminismo são feminismos, porque nós temos 4 ondas. E eu defendo a questão da liberdade de escolha. E veja bem, Quando a gente tem aí esse discurso antifeminista, é que traz essa questão da família. Gente, a nossa, a nossa busca, quando eu gosto de falar a palavra luta, a nossa busca é para isso.

Você antifeminista, mulher antifeminista, Você não quer sair do seu espaço privado, você quer viver a sua família neste, nesta configuração de casa, do lar, cuidando dos filhos, das refeições, das roupas. Isso você pode escolher. A gente não tá falando para você ir para o mercado, você trabalhar, para você não cuidar. A gente só tá falando assim, cara, você escolheu, você sabe, também a liberdade, sabendo que toda escolha não é no vazio, tá, Marcos?

MSMarcos Souza

Cada escolha tem uma consequência e tem as suas influências, com certeza, né?

BMBeth Morais

Então é entender de onde vem essa minha escolha por esta configuração onde eu me sinto bem, sou feliz. É isso. Então você tá usando o direito do feminismo, o direito que o movimento feminista te deu, mulher antifeminista, de escolher estar nesta configuração de família. Mas não é porque você escolheu esta configuração de família que eu vou perder o meu direito de trabalhar, trabalhar.

MSMarcos Souza

Aí não é bacana, não é só ela que pode escolher, você não pode, né?

BMBeth Morais

É isso aí. Mas entende que lugar louco que a gente, que a gente vive?

MSMarcos Souza

Continua te falando, principalmente por ser um homem falando, a questão de falar sobre o feminismo, esse tipo de coisa que agride a quem conhece o feminismo, a essência dele, É a falta da consciência. Às vezes não é nem por mal, e muitas vezes pode ser por mal, claro, né? Porque tudo tem, tudo tem um porquê, tudo tem um porquê, né? Se eu tô fazendo um negócio que muito pouca gente tá entendendo, aquilo tem um porquê. Nada é à toa.

Mas a maioria das pessoas que falam, eu sei porque eu já estive nesse lugar, a maioria das pessoas que falam mal é porque não tem a consciência dessa essência da palavra, como nasceu e para que que nasceu, entendeu? Porque quando a gente fala assim, ah, porque a mulher, porque não sei o que lá, a gente tem que pensar que a gente tem mãe, que a gente tem vó, entendeu? Ninguém quer ver sua mãe presa numa vida infeliz, né? Você não consegue, é assim, imaginar com outra uma coisa, mas imaginar dentro da nossa casa, dentro da nossa família, da nossa história, já não é tão assim.

BMBeth Morais

O passo adiante no mundo quase utópico seria os homens entenderem sem precisar pensar em suas mães e irmãs.

MSMarcos Souza

Mas é assim que começa, a gente tá só começando a engatinhar, mas vai chegar uma hora.

BMBeth Morais

Eu vou reconhecer o valor sem precisar me colocar no lugar de ninguém. Respeitar o seu espaço, simplesmente porque é um ser humano.

MSMarcos Souza

Exatamente. E você se coloca no lugar de qualquer ser humano. Se eu tivesse essa vida que eu acho certa, se eu tivesse naquele lugar, será que eu estaria feliz? A nossa obrigação, acho que eu acho que a nossa única obrigação nesse mundo é procurar ser feliz. E você não pode ser feliz tendo que fazer coisas. Lógico que existem certas coisas que a gente precisa fazer, responsabilidade, tudo responsabilidade. Mas a gente tem que ter pelo menos liberdade de decidir de quem a gente é, o que que a gente quer ser, qual profissão que a gente quer ter, qual é o modo de vida que a gente quer ter. Isso é o básico do básico.

BMBeth Morais

Quando a gente fala ainda que incomode, eu já sofri preconceito por ser uma feminista feminina.

MSMarcos Souza

Aí tá vendo? Aí entra o estereótipo de novo.

BMBeth Morais

É o que eu tô te falando, porque alguns estudos e algumas pessoas dizem, alguns estudos sociológicos, né, que as feministas mais femininas, elas estão ainda se colocando no lugar de querer ser amada, de querer— não, minha gente, assim, Eu sempre fui feminina, eu sempre fui feminina e não vou deixar de ser, porque eu me amo e eu gosto desse jeito. Não é, ah, então quem não se ama faz qualquer coisa diferente? Não. Ah, eu me amo com o cabelo azul.

Ok, eu me amo assim e eu não escolho as minhas coisas porque eu eu tenho um olhar de um homem que me orienta. Ah, mas isso pode estar no inconsciente. Olha, se tiver, tá bem lá no fundo, porque quando eu vejo as minhas fotos de criança, eu sempre fui uma menina que gostei de adereçozinhos, de vestido, tal, tal. Então assim, aquilo que a gente já conversou, Beth, você se encaixa aonde? Eu não me encaixo em lugar nenhum. Primeiro, não gosto, não gosto de me encaixar.

Obviamente, por questões de estudo e de posicionamento e de prática, a gente vai encontrando alguns grupos, algumas comunidades que a gente trabalha ali uma mesma pauta. Por exemplo, hoje eu sou super partidária, eu não pertenço a lugar nenhum, eu não sou de direita, não sou de esquerda, não sou de centro, eu não sou de política alguma. Eu sou super partidária. Hoje, o único lugar ao qual eu pertenço como voluntária é no Grupo Mulheres do Brasil.

Se nós formos convidadas a uma palestra, uma ação por convite de algum político em algum lugar que não tenha uma conotação, que tenha uma conotação de massa de manobra política, a gente não vai. Se tem uma conotação de atenção a uma comunidade, aí a gente vai, porque a mulher sempre foi muito massa de manobra política, né? Então veja bem o que eu ia falar. Existe um momento que eu acho muito bom da gente refletir sobre, que eu acho que é daí que tudo daqui para frente vai acontecer de uma forma ou de outra.

Quando nós nascemos, compulsoriamente nos foi dado uma questão de gênero, ok? Somos mulheres, somos homens, feminino, masculino. E compulsoriamente foram nos ensinando que a mulher fica com a parte do cuidado, do afeto, da delicadeza, da postura. E para o homem foi ensinado a questão da força, da resolução, do provimento, do provimento, do provimento. E assim foi indo. Para você ter uma ideia, aí o que que acontece quando a gente chega e pensa, é, cara, ok, a gente vive numa cultura do cuidado para mulher, né?

A mulher é demandada a cuidar do filho, a cuidar da casa, a cuidar dos pais idosos, a cuidar de quem ficar doente, a cuidar, né? Quando você olha para essa mulher e para a vida dessa mulher É uma vida de manutenção da existência dos outros. Quem faz a manutenção da existência desta mulher? Beth, eu quero essa vida. Ótimo, é isso. Beth, eu quero me achar, eu quero uma corresponsabilidade nesses cuidados. O Marcos, é muito triste a gente ir em rodas de conversa de mulher e você perguntar seus sonhos e você ouvir como resposta: sonho? Eu não tenho tempo para sonhar. Tá, um desejo? Eu não desejo mais nada.

MSMarcos Souza

Mulheres de 30, 40, tô falando de senhoras, isso é muito fim da linha, né?

BMBeth Morais

Nossa Senhora, muito, cara, muito.

MSMarcos Souza

Posso fazer uma vírgula? Tem uma, isso que te incomoda também me incomoda muito, que a gente vê é um politicamente correto, é um nobre falar isso, e eu acho tão pobre ouvir, tão pobre. Eu já até corrigi uma vez uma pessoa que eu gosto muito, corrigi não, bati um papo mais com essa consciência. Ah, qual é a sua felicidade? Você, ah, sou feliz porque minha filha vai fazer isso. Ah, sou feliz porque minha netinha, o meu netinho fez isso.

Não, não tô perguntando isso. Eu tô perguntando o que que você faz para você ser feliz. É como se a felicidade tá toda atrelada em outra pessoa, nunca tá nela também. Ela— e engraçado que quando você ouve isso, é uma coisa de sistema, você já ouve e automaticamente você já vai falando assim: você tá falando certo, É isso que tem que falar. Aí a gente tem que se policiar, fala assim: ah, eu sou muito feliz porque a minha felicidade é a felicidade do meu filho.

Não que não seja, mas não foi isso que eu perguntei. É a sua como ser humano. É, é o que que você faz para você que te deixa feliz. Não é saber que seu filho passou no concurso, ou que seu filho é isso, que seu filho é aquilo, seu neto. Não é isso que eu tô perguntando. Eu sei que isso traz felicidade, Entendeu? Mas eu tô falando numa questão pessoal e a pessoa não tem resposta. Ela nunca parou para pensar nisso. Por quê? Porque ela já tá adequada àquela resposta, aquilo é bonitinho, que a pessoa aprova, que vai reproduzindo, porque fica num caminho mais fácil. Outro estereótipo.

BMBeth Morais

E o que que acontece assim? A maternidade e a paternidade são papéis. Não quer dizer que são os únicos papéis. Então, a maternidade foi desenhada para ser vivenciada em casa, sob responsabilidade de cuidados da mulher, e a paternidade foi, né, desenhada para o homem prover para aquela família. Só que quando esse um novo arranjo é feito por conta de uma demanda de mercado. E a partir de uma demanda econômica teve um despertar, obviamente começa a grande transição, começa a grande transição em falar para esse homem que é o provedor que ele pode sentir também.

E para essa mulher que foi compulsoriamente, que o seu papel foi compulsoriamente desenhado para ela, que além do cuidado que tem que ser compartilhado, ela também pode desenhar para ela um papel de provedora também. E esse homem de provedor e naquela corresponsabilidade pela manutenção existencial dessa família. Porque o que que acontece? Vamos aos dados e aos fatos.

MSMarcos Souza

Sim, sim, vamos à fundamentação.

BMBeth Morais

Último censo nosso de 2022. Lembrando para quem não sabe, cada censo ele acontece de 10 em 10 anos. Porque a gente fala, ah, censo 2022, eita, muito longe! Não, Acontece de 10 em 10 anos. 49% dos lares eram liderados, ou que falam chefiado, eu detesto as duas palavras, mas enfim, é por mulheres. Eu vou repetir, censo de 2022, 49% dos lares são liderados por mulheres, sendo que 29% desses 49% de mães solo. Aí quando você ouve pessoas, né, trazendo esse questionamento sobre a ida da mulher no mercado de trabalho, eu queria perguntar, que eu sou uma pessoa muito questionadora: essas pessoas, elas estão falando de que camada social?

Onde essa mulher não precisa trabalhar. Vamos supor, vamos supor, em outro mundo, não no nosso, vamos supor que essa mulher não precisa trabalhar, não precisa trabalhar, que tem um homem provedor e que ela fica responsável lá. Onde é que tá essa camada? Onde é que tá essa camada na nossa sociedade? Eu tô falando de Brasil. Que já é coisa para caramba. Quando vocês fazem, vocês que eu digo, nessas pessoas que trazem essa pauta para um debate que é um debate absurdo, mas que nos fez estar aqui hoje, graças a Deus.

MSMarcos Souza

É porque eu tô falando, engaja, ainda que seja para revolta, mas engaja.

BMBeth Morais

Eu falo, gente, às vezes eu brinco, eu brinco com os meus próprios pensamentos, que eu sou uma pessoa que eu eu transito aí no monólogo interno também grande. Eu falo, gente, essas pessoas, quando eu ouço e observo quem fala, em que posição está, para Nárnia, estão em Nárnia, abriram a porta e foram. Então, em Nárnia, eles estão falando que não. Então assim, abrir a porta do armário de Nárnia, eu falo, 49% censo Brasil 2022, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE.

Aí, ah, mas eu questiono a pesquisa, eu questiono o instituto que faz esse levantamento. Aí a gente senta e chora um pouco, né? Então beleza, quando eu sei que 49% das famílias são lideradas por mulheres, desses 49, 29 90% são mães solo, por aí eu já te digo que não dá, não dá para esse movimento. O que dá é para as mulheres que desejam permanecer numa formatação de família que elas desejarem, que elas façam com seus esposos. Eu não posso trazer isso para uma legitimação criação de um novo, de uma nova ordem.

Até porque, vamos aos mais dados um pouquinho, vamos lá. Até porque metade, por cento assim, metade da população, 50% da população é de mulher. Se eu subtraio essa mulher aos direitos dela de existir no espaço público, eu tô dando hegemonia de decisão para 50% da população. Que que eu faço com os outros 50% da população, Marco?

MSMarcos Souza

Finge que não existe. Onde estão?

BMBeth Morais

Que comem? Como vivem?

MSMarcos Souza

É verdade.

BMBeth Morais

Assim, vamos lá, relatório do Ministério do Trabalho e Emprego. Agrupamento de atividade econômica. Aí vamos falar de PIB, Produto Interno Bruto, né? Qual seria a participação dessa mulher nesse PIB, nessa economia do Brasil? Vamos lá. 73,8% das mulheres ocupam cargos na educação, na saúde, no bem-estar, serviço e administração. 54,1% são sobre-representadas nas artes e nas ciências sociais. Vamos aos homens. 73,7% dos homens estão nas áreas de tecnologia, engenharia e matemática. Coisa linda! Aí tá todo mundo no mercado, aí parece um equilíbrio, né?

MSMarcos Souza

Cada um faz uma função, cara. É isso.

BMBeth Morais

E assim, aí você, aí aqui é muito interessante porque as mulheres ainda estão nas áreas do cuidado, da saúde. Ok, você escolheu, eu escolhi ser psicóloga. Você, ai não, mas eu quero ser engenheira.

MSMarcos Souza

Ok, você pode, você é livre.

BMBeth Morais

É o mercado onde você vai transitar Ainda no universo ainda temos faculdades que nos prédios de engenharia não tem banheiro feminino. Ainda existe, ainda existe, ainda existe.

MSMarcos Souza

Parece meio surreal, né?

BMBeth Morais

É surreal, mas ainda existe. Ok, você pode.

MSMarcos Souza

A vírgula perfeita agora. Olha a essência do feminismo aí: você pode ser engenheira, você pode ser professora, você pode ser dona de casa, você pode ser o que você quiser. Essa é a essência do feminismo. Estereótipo.

BMBeth Morais

Homem, você pode ser psicólogo, você pode ser enfermeiro, pode, você pode ser assistente social, você pode, você pode. Porque quando a gente fala desse, desse desenho compulsório de papel, eu sou apaixonada por tudo isso, você sabe. Quando a gente fala desse desenho compulsório de papel e dá o homem o dever de ser o provedor, e a gente vê que não. E esse homem vai adoecendo, adoecendo, porque ele, ele sente, ele percebe que ele perdeu a função na sociedade, mexeram na base dele.

Exatamente. Mas, meu querido, assim, tão junto e misturado. Quando a gente tem um entendimento que a família, a família na configuração que ela estiver, ou na família pai, mãe, filhos, ou enfim, na família que, né, tiver adultos e crianças, onde é das quais esses adultos se responsabilizem pela criação, É na configuração de corresponsabilidade, compartilhamento. E eu volto a falar sobre a manutenção existencial de todos. Agora, a quem interessa a polarização de gênero? A quem interessa a segregação por gênero? A quem interessa o discurso de ódio?

MSMarcos Souza

A quem quer se perpetuar no poder, porque a segregação é ótima para quem manda. Enquanto tá todo mundo ali brigando, o outro tá lá mandando.

BMBeth Morais

E aí cada um vai ter a sua, o seu ponto aqui de reflexão. Porque assim, fala, perdão.

MSMarcos Souza

Não, mais uma virgulazinha. A gente tá falando disso tudo, você tá falando do entendimento e tudo, E quando eu comecei a apresentar o programa de hoje, eu falei: tudo que a gente vai falar aqui tem uma palavra que é a palavra mestra, é consciência, conscientização. Eu até aproveito para fazer mais uma vírgula aqui na minha própria vírgula, para pedir para você que tá assistindo para dar uma apertadinha aí no like, para dar essa essa moral aqui para gente, porque o tema é muito importante, é um tema de relevância, de interesse público, é um tema que ninguém quer forçar ninguém a nada, mas a gente tem pelo menos acho que uma missão de fazer a pessoa pensar um pouquinho.

Porque quando a gente coloca uma sementinha, uma ideia nova na cabeça de uma pessoa que de repente nunca parou para pensar nisso, a gente tá colocando uma missão na sua vida de pelo menos pensar sobre o assunto, que isso pode te ajudar a evoluir, tirar próprias conclusões. Aqui ninguém tá querendo forçar ninguém a nada, só realmente se conscientizar. E a consciência que você tem com a sua própria experiência de vida, sabendo que todos somos seres humanos e todo ser humano, independente de gênero, tem direito à liberdade ao respeito à vida e a viver a vida da forma que quiser, ainda que nos incomode.

A gente pode ficar incomodado, mas a gente tem que respeitar. Então, mais uma vez eu peço aí, se você não segue o canal, siga o canal, porque toda semana sai um assunto interessante, relevante, de interesse público aí. E outra coisa também, antes que eu esqueça, a Beth já fez um programa com a gente na temporada anterior, foi foi muito bom também. E se vocês estão gostando dela, vocês podem seguir também na temporada anterior aí no nosso canal.

Você procura lá Beth Moraes que você vai ver que tem um programa também inteiro e alguns cortes também, tá bom? Então é só seguir lá. E se você gostar, você segue ela nas redes sociais, mas no finalzinho do programa a gente vai deixar aqui tudo de novo, tá bom? Então, ah, e outra coisa também, enquanto aqui a gente tá conversando, eu tô olhando aqui o meu roteiro Você acredita que dentro desse papo a gente já pulou 4 questões?

Já. Só uma coisa que eu vou pedir para você, porque eu tava lendo aqui, pera aí, deixa eu ver aqui. Voltando um pouquinho, quando a gente tava falando do que a mulher adulta precisava da autorização do marido para tomar decisões sobre a própria vida, né? Eu tenho uma perguntinha para fazer em relação a isso aqui. As três, as três grandes forças de mudança, né? Você aponta educação, anticoncepcional e urbanização como três forças que mudaram a vida feminina.

Como cada uma delas produziu essa transformação? Que é só para dar um complemento àquilo que a gente falou.

BMBeth Morais

Ah, é?

MSMarcos Souza

É porque a gente já chegou, essa já é quinta questão É assim, o papo flui. Por isso que eu falo, não é entrevista, nunca serei entrevistador, mas sou um grande batedor de papo. E a gente vai batendo papo e a gente segue o roteiro, e quando a gente vê, fala assim, caraca, a gente já falou tudo, sabe? Assim que é legal e assim que flui.

BMBeth Morais

Então vamos lá, quando você fala sobre as 3 forças que impulsionaram essa mudança e traz a educação, com a educação você trabalha o senso crítico, né? Você cria uma expansão pelo conhecimento, o direito de ter acesso ao conhecimento que ultrapassava o bordado e a costura. Você dá essa mulher uma visão, começa a dar essa mulher uma visão de de possibilidades. Não que as mulheres que estão no mercado não possam, não costurem, embora escolhas, escolha, né?

Então é educação, o anticoncepcional, porque passa a ser de escolha a maternidade.

MSMarcos Souza

Olha que grande insubordinação!

BMBeth Morais

E a revolução sexual Então a gente passa de órgão reprodutor a um ser humano que sente prazer, que descobre o prazer no ato sexual, que não é mais só para reproduzir, e pode escolher ter relações para aumentar as chances de uma reprodução ou não. Então, a educação, o anticoncepcional que vem com a revolução sexual feminina, tá? E a urbanização, porque a urbanização dá à mulher o acesso às oportunidades. Então ela sai de um ambiente mais rural, agrícola, e vai para os grandes centros.

E olha, e olha, e começa a vislumbrar a possibilidade dela neste mundo também. Também porque, Marcos, era assim: eu não preciso mais, a partir de 1962, eu não preciso mais da autorização do meu marido para trabalhar, mas eu fui configurada Ao ter que cuidar da casa, dos filhos e de tudo. Então a minha ida para o trabalho, ela tem condição, a minha ida pelo, desculpa, pelo mercado de trabalho, ela vem inicialmente com condições.

Você não precisa da minha autorização, mas você vai desde que, aí entra o desde que, você vai desde que a comida esteja pronta, roupa lavada, os filhos nas escolas. Aí entra essa questão da sobrecarga, da sobrecarga, que as antifeministas falam: tá vendo o que que vocês arrumaram? Não quiseram ir, agora tá tudo sobrecarregado aí, tá tudo sensível, ansiosa, gente. Tudo é transição. Quando eu escolho viver essa vida no espaço público, a gente inicia uma relação de negociação.

Aí a gente vai para uma outra questão, que são algumas regras compulsórias de gênero. Que o casamento deixa de ser obrigatório. Que quando a gente— eu vou falar por mim um exemplo. Minha mãe começou a trabalhar aos 13 anos, aos 16 ela era uma mulher independente, atravessou o Atlântico, veio para o Brasil, tem 82 anos e é independente até hoje, trabalhando. Mesmo assim, esta mulher, minha mãe, que iniciou sua vida profissional aos 13, aos 16 era independente, ajudava os pais.

Quando ela me criou, ela veio com a cartilha: você precisa estudar, você tem que ser uma mulher independente, casar e ter filhos. Você estude, seja independente, vai casar e vai ter filhos. Na hora de estudar, ser independente, casar e ter filhos, o casar e ter filhos para eu estudar e ser independente precisa de uma negociação, porque eu não consigo ser uma profissional com chances reais no mercado de trabalho de assumir alguma liderança ou algum seja lá o que for de de postura, de encarreiramento, de algum cargo que eu cresça na minha profissão, com tudo.

Aí tá a grande questão. Vamos lá, quando eu falo do mundo corporativo, aí vem a questão do casamento. Então não é mais a questão da maternidade, também.

MSMarcos Souza

A gente já tá indo aqui para sexta, já até passou dela. Eu quero só fazer um aprofundamento aqui, que é assim, até o que você tava falando aí da sua mãe, uma questão cultural, que você precisa, vai estudar e tudo, mas você precisa casar e ter filhos. Ela fala, você precisa, mas ela já falou, como se fosse um complemento da função da mulher.

BMBeth Morais

Vai ser independente, casar e ter filhos.

MSMarcos Souza

Aí aqui, num esse fundamento, eu tenho anotado aqui: a mulher ainda é julgada quando não deseja casar, né? E uma mulher que não quer ser mãe ainda precisa se justificar. E existe culpa quando ela escolhe a carreira. Eu particularmente acho isso uma palhaçada. Mas assim, lógico que eu já tenho uma outra cabeça. Eu acho isso um absurdo, porque ninguém tem que casar e ter filho. A pessoa faz isso se isso for trazer felicidade. Sim, sim, sim, sim, sim.

Mas eu tô falando isso hoje com a cabeça que eu tenho hoje, com as coisas que eu já aprendi, porque eu também já tive lá naquele lugar, né? Então, por isso que eu botei assim como aprofundamento, porque realmente é. E a gente vê até hoje gente até mais nova que a gente que se não arranjar um namorado, se não arranjar um marido, dependendo da idade, já vai começando a uma depressão, sabe, até num certo desespero, que eu acho isso meio patético até.

Eu tenho gente conhecida que faz isso, não porque minha hora tá passando, que não sei o que lá. Hora passando, nem todo mundo precisa ser mãe, nem todo mundo precisa casar.

BMBeth Morais

Assim, para um relacionamento não tem hora. Para maternidade a gente tem o relógio biológico, né? Mas se existe um desejo, é porque fica aparecendo, sabe, que não, se eu passar dessa idade não tiver um filho, eu não fui É isso, é um outro olhar que a gente ama.

MSMarcos Souza

Eu não fui uma mulher completa.

BMBeth Morais

Não, assim, a mesma coisa que a gente passa quando entra na menopausa, que a gente fica infértil reprodutivamente falando. E existe uma tendência da gente acreditar que aquela infertilidade biológica pode ser uma infertilidade para tudo no geral. Gente, isso é uma loucura! Assim, quando eu entrei na menopausa, isso, isso para nossa cultura, tá? Porque existem culturas em que a mulher quando entra na menopausa ela vira a sábia.

Sim, mas na nossa não, ela vira nada. Então aí eu peguei essa questão da sabedoria, falei, cara, agora Aí o que eu já tinha de potencial, eu potencializei meu potencial depois dessa entrada, porque é um olhar que você precisa ter diferenciado. Então, se a questão do casamento, o homem não é mais, o homem não é mais o pilar que estrutura uma mulher, Ele é um companheiro.

MSMarcos Souza

E vamos falar, apesar, é porque isso aí também foi, foi também é denegado, né? Não sei se bem essa palavra, mas aquela coisa é o papel dele, sim. Mas isso também é um peso.

BMBeth Morais

Sim, é o que eu te falo do compulsório de gênero, porque eu ter que fazer alguma coisa é muito pesado. Aí, quando eu não me vejo nesse lugar, tô falando do homem, quando eu não me vejo nesse lugar de provedor absoluto e de alicerce, nós estamos no Setembro Amarelo. Que que é o Setembro Amarelo? É o mês de campanha de conscientização sobre o suicídio. 80% dos suicídios São ambos, porque é muita pressão também. Exatamente. Então, gente, o feminismo, o feminismo é para dar ao homem a liberdade de não ser mais e de não sustentar mais esse papel: eu é que cuido, eu que sou provedor, eu Quando a gente entender isso, quando a gente entender isso, que o que o feminismo traz é uma vida compartilhada de corresponsabilidades, baixa o peso para mim, baixa o peso para você, ficamos muito mais leves nesse sentido.

MSMarcos Souza

Equilíbrio e respeito dentro disso aí.

BMBeth Morais

Eu tô falando, ó, dentro de códigos morais, éticos. Isso.

MSMarcos Souza

E aqui gosto de deixar mais bem claro sempre que a gente tá falando aqui de feminismo de essência, não de feminismo de estereótipo, né, que tem uma grande diferença. E o feminismo de estereótipo nem entra aqui nesse papo, pelo menos não agora nesse papo aqui que a gente tá tendo, apesar dele também ter a função dele, mas não é bem o caso do que a gente tá falando aqui. Né? Então eu quero sempre deixar isso claro.

BMBeth Morais

E eu quero também deixar uma coisa assim clara, Marcos, assim, eu acho que existem movimentos feministas, né, que você fala a questão da estereotipia, que eles foram, continuam sendo necessários e permanecem aí por algum motivo de ser, sim, ou do grito, ou do choque, ou da inteligência.

MSMarcos Souza

É importante, ainda que tire a gente do nosso, aquilo incomoda, irrita, mas assim, tudo que gera um incômodo faz a gente pensar em mais alguma coisa e ter um pouco mais de consciência.

BMBeth Morais

E assim, quando eu falo do feminismo que o feminismo ele veio para nos dar uma consciência de existência sem medir forças. Quem é? Eu não tô falando biologicamente, estruturalmente, muscularmente, falando que os homens são mais fortes.

MSMarcos Souza

Quanto a isso, não, eu não tô falando disso.

BMBeth Morais

Entendeu? Mas assim, de um encontro de gêneros para um fortalecimento, para uma busca de humanidade que seja boa, respeitosa e razoável para todo mundo, seres humanos, que eu sou proibida de fazer alguma coisa, ou no que eu delego você a responsabilidade de me sustentar.

MSMarcos Souza

Olha o peso aí.

BMBeth Morais

E quando a gente fala de feminismo, parece que são as mulheres querendo seus direitos e os homens— não, cara, a gente quer que vocês saiam desse papel de super-herói, dessa— até porque não são. Não são, ninguém é também, não somos heroínas.

MSMarcos Souza

E a essência de virar uma parceria, né?

BMBeth Morais

Virar uma parceria. Eu vou falar aqui uma experiência pessoal. Gosto de falar de experiência pessoal porque eu tô falando de mim, tô falando de ninguém, né? Aí não tem problema. É bom, como eu já falei, eu tô num casamento de 33 anos. Esse é o meu modelo, tá? Eu não tô falando que é o modelo, tô falando que foi a forma que a gente encontrou A questão financeira, uma conta única, uma poupança única. Somos parceiros, pô, somos parceiros.

Tem hora que ele cresce e tal, ambos autônomos. Tem hora que eu chego mais junto, melhor, é outro pior. Aí às vezes, ah, eu vou ser escada para você. Agora tá, cara, brilha aí, brilhou, pô. Agora eu preciso que você seja escala.

MSMarcos Souza

Nem sempre os dois conseguem subir juntos para brilhar, mas vocês têm um equilíbrio, né? Isso é parceria, isso é respeito, isso é convivência com responsabilidade.

BMBeth Morais

Então nós tivemos a nossa filha, né, que já desencarnou, e era dessa forma também. E eu digo, você fala da maternidade, eu escolhi a maternidade E ele também escolheu a paternidade, e foi uma escolha que me cobrou— não vou dizer cobrou, mas demandou de mim 9 anos de muita coisa dolorosa no meu corpo para conseguir chegar a gestar. Então foram 9 anos de intervenção, de dosagem, superdosagem hormonal, enfim. Mas eu escolhi, não foi compulsório.

Você precisa ser mãe. Então eu vivi 9 anos bombardeando meu corpinho por escolha, e ela veio. E eu digo, as duas mulheres da minha vida, minha mãe e minha filha, a maternidade me jogou para um lugar de força, de olhar para as coisas e para o mundo, que de repente se eu não tivesse— não vou dizer que toda maternidade te leva para esse lugar, tô falando da minha história, tá? Que quando eu falo, a mulher agora escolhe se vai casar ou não, com anticoncepcional, se vai ter filho ou não, então você é contra o casamento?

Eu não tô falando nada contra, eu tô falando do poder de escolha. Não é mais assim, você estuda, se deixa independente caso tenha filhos. Você estuda, busca sua independência. Por quê, Marcos? A independência— eu prego por 3 independências, né? Assim, eu defendo 3 independências para o homem, para mulher, para o ser humano, para o ser humano. É independência financeira, Independência emocional, independência intelectual.

MSMarcos Souza

Concordo 100% contigo. A financeira é que te dá liberdade de você sair de uma história que não tá boa para você.

BMBeth Morais

E assim, Marcos, diminui a chance da violência. Sim, porque não que mulheres independentes financeiramente não permaneçam em relações violentas, porque tem toda uma questão Mas eu te digo com quase certeza, é isso, eu não trouxe dados, tá lá no podcast de violência, né, contra a mulher. É a mulher que não tem a violência, não tem a independência financeira, obviamente, obviamente vai ser muito mais difícil para essa mulher sair desta relação se não tiver um apoio.

MSMarcos Souza

Você sabe que a gente tá falando de mulher aqui, mas também pode acontecer o contrário, né? A subjugação, ela sempre vai estar atrelada à falta de autonomia financeira.

BMBeth Morais

Sim, sim. E assim, quer tirar, quer enfraquecer. Quando a gente fala aí do não ao voto feminino, eu tenho um vídeo sobre isso que quem quiser ir no meu perfil Tem um vídeo falando do não ao voto feminino, que foi aí uma galera aí que falou. Todo absurdo falado muitas vezes, todo absurdo falado, debatido muitas vezes, empurra o limite do possível, atrasa a evolução, né?

MSMarcos Souza

Pelo menos dá um pé no freio.

BMBeth Morais

Você vê o nazismo, Holocausto, É absurdo. E foi sendo feito, foi sendo dito, foi sendo entendido, e até hoje nós temos neonazismo. Então é bom a gente ficar atento, né? Porque a primeira coisa para que a gente perca esse espaço é a escolaridade. Diminui a escolaridade. E hoje o maior número de graduados são as graduadas, é a mulher, né? Então atenção à manutenção da escolaridade para as meninas. Então se você quer ir contra uma cultura de evolução e de respeito existencial e subtrair o espaço de uma mulher é limitá-la ao estudo e autonomia financeira.

Então eu vejo jovens de 30 e poucos anos, né, influencers, que estão trazendo isso para uma pauta: se quiser casar comigo, desde que saia da faculdade, desde que— e tem a tal dessa esse novo conceito das tradwives. Já ouviu falar?

MSMarcos Souza

Já.

BMBeth Morais

Que são meninas lindas, camponesas, de máximo 25 anos, que gravam vídeos já estendendo lençóis brancos no seu sítio enquanto o pão está apurando o seu fermento biológico. E trazem isso como se fosse uma possibilidade Para que mundo, Marcos?

MSMarcos Souza

Eu acredito que isso seja um grande teatro, que depois que eles terminam de gravar vocês devem rir muito da gente que estuda e fica aqui querendo debater. É porque na realidade, ó, eu tô aqui dentro de um aprofundamento, tem tudo a ver com isso. A gente tá falando de polarização que impede diálogo, é que os homens precisam ser incluídos nessa transformação, que é justamente para não criar esses grupos, né? E conversar sobre desigualdade sem transformar o outro em inimigo.

Isso aqui acho que é o que mais há de difícil numa época de polarização, né? Então assim, aí tem aqui um gancho, que a igualdade não precisa retirar o lugar de ninguém, ela precisa construir um lugar mais justo para todos, né? E dentro dessas histórias, quando vem essas coisas assim muito surreais, para atualidade que a gente vive. Para mim, isso aí na realidade é um grande teatro. Mas é aquela coisa, é uma retórica que faz o engajamento para uns 4 ou 5 acéfalos, porque uma pessoa para achar isso bonito ela não tá raciocinando.

BMBeth Morais

Tem milhões de acéfalos, tá?

MSMarcos Souza

Porque isso é muito louco, tem milhões de acéfalos seguindo essas pessoas. É, tudo é a mesma palavra que eu falo para esse tipo de assunto. Enquanto a gente não tem uma conscientização de alguma coisa, a gente fica à deriva. E essas pessoas que acham isso bonito, elas estão à deriva. Mas eu acredito muito num poder assim de positividade, de elevação, sabe? Que a gente está indo realmente para um, andando para frente, e nesse caminho não tem volta.

Eu acredito nisso, que é um caminho de evolução. Às vezes é muito devagar, passinho de tartaruga, às vezes mais devagar que uma tartaruga, sabe? Mas não tem como dar ré nesse caminho. Existem esses subgrupos que tentam engatar uma marcha ré aí, porque quando você vê um negócio desse, você tá vendo nitidamente que a pessoa meteu lá na alavanca e botou na ré, sabe? Mas o carro não anda para trás.

BMBeth Morais

Olha, por via das dúvidas, É bom a gente continuar falando sobre isso.

MSMarcos Souza

Sim, sim, é porque é uma questão de dar consciência.

BMBeth Morais

Hoje, com as redes sociais, né, com as plataformas, hoje existem muitas comunidades monetizando em cima do ódio e estimulando a segregação por gênero.

MSMarcos Souza

Então toda vez que você faz um odiar o outro e um se separar do outro, um brigar com outro, enquanto tá todo mundo ali perdendo tempo fazendo isso, tem uma pessoa que tá dominando tudo, que é o que joga aquilo ali. Parece ratinho, ratinho que fica ali rodando naquela.

BMBeth Morais

É, gente, não é possível! Eu não sou, eu sou pouquíssimo conhecedora dessas manobras digitais e tal, tal, tal, mas eu vou fuçando, né?

MSMarcos Souza

Às vezes eu vejo, mas assim, eu fico rindo, sabe?

BMBeth Morais

Me dedico, até porque eu não tenho tempo para me dedicar a estudar, né? Mas eu vou e vou dar uma fuçada, uma investigada.

MSMarcos Souza

Deixa eu ver se isso aqui é verdade mesmo.

BMBeth Morais

Pera aí, milhões de seguidores. E assim, tem um discurso de ódio muito grande e muito perigoso. Outro dia eu vi um jovem senhor agredindo as mulheres na fala. Não tava, não tinha nenhuma mulher não, ele tava gravando um vídeo agredindo as mulheres, nos ridicularizando com esse discursinho: já que vocês querem os mesmos direitos Por que que vocês então não se alistam para o Exército? E para o Exército você não quer, né?

MSMarcos Souza

Tem um monte de mulher no Exército.

BMBeth Morais

Aí eu precisava que esse senhor entendesse que o alistamento voluntário feminino é inconstitucional. Em um país pacificado como o nosso, não existe a obrigatoriedade de alistamento. É inconstitucional, muda a Constituição. Hoje é inconstitucional. O decreto, tem um decreto de lei de 2025 que as mulheres podem se alistar nas Forças Armadas, mas tem uma cota de 1.500.

MSMarcos Souza

É isso que eu tava querendo, eu ia até pedir uma vírgula para falar sobre isso, é porque tem o lance de ser inconstitucional, mas tem um lance de que tem um limite de 1.500.

BMBeth Morais

Então a gente não tenta nos agredir com essa fala de que aí para o exército é porque é inconstitucional. Se o país entrar numa guerra, aí não, você deixa de ser um país pacificado. Então o alistamento para mulher também passa a ser obrigatório. Mas aí se incomoda tanto, tenta mudar a Constituição. Porque vem com discursos agressivos assim, Marcos, do nada vai caindo bombas sobre a gente. E a única coisa que a gente quer é que todo mundo possa ser livre nas suas escolhas, respeitando os códigos morais, os códigos éticos.

Sem ter autoridade e a submissão. Porque quando você submete alguém, você subtrai esse alguém. O amor não subtrai, Marcos, nunca. O amor, se a gente tá falando de família, vejam bem, o amor, o amor que eu entendo, né, eu sou uma mulher cristã espiritualista, O amor que eu entendo não é um amor de subtração. Então, se você vem com discurso: ah, eu te amo, mas eu fico com você desde que— desculpa, se você sabe que alguma coisa é muito importante para mim, muito, é tipo a energia que me move, não tô falando lá da empresa não, mas é uma energia que me faz— e você coloca esta condição para ficar comigo, Tchau, né?

MSMarcos Souza

Porque te impôs uma coisa, né? É um encargo. Amor não tem encargo, cara.

BMBeth Morais

Ninguém que ama, ninguém que ama quer subtrair o outro. Você que ama, você quer a expansão, você quer a explosão, o crescimento. Se você quer a subtração, me Assim, opinião minha, eu não me encaixo nesse lugar. Não, e eu desconfio desse amor.

MSMarcos Souza

É um amor, é tipo assim, eu te amo, mas eu me amo mais ainda, né? Então assim, para eu continuar me amando mais ainda, eu preciso te lançar essa imposição aqui.

BMBeth Morais

É, então você fica com seu amor para você, que eu fico com meu amor para mim.

MSMarcos Souza

O amor é a mesma história do feminismo para mim. Palavra amor sentimento. Tem muita gente aí que não sabe nem o que que é isso, a essência, né, da palavra e do sentimento. Mesma coisa feminismo, é a mesma coisa, essência, palavra e estereótipo, no caso.

BMBeth Morais

E assim, eu acho que não sei se já tá na nossa hora, a gente já tá indo para o encerramento já.

MSMarcos Souza

Eu vou até te fazer uma perguntinha aqui, uma pergunta de encerramento, é para fazer assim um Um fechamento bonito para uma mulher que nos assiste e sente que passou grande parte da vida cumprindo expectativa dos outros. Por onde começa a construção de uma vida verdadeiramente escolhida por ela? Uma mulher que tá conseguindo, né, tá conseguindo ter uma consciência disso agora, e ela pensa: por onde que eu começo? O que que eu faço?

BMBeth Morais

Comece resgatando os seus desejos e os seus sonhos. Os seus desejos e os seus sonhos. Verifique se o repertório dos impossíveis, aquele repertório que você ouviu ao longo da sua vida sobre incapacidade, enfim, tudo que não era possível para você, verifique se esse repertório é seu ou veio dos outros e desenvolva um repertório dos impossíveis. Você precisa resgatar o que é seu, mesmo sabendo que o que é nosso sofre as influências, não vem do vazio.

Mas a gente sabe quando é da nossa essência. Então eu digo para essa mulher: você deseja? Você ainda tem sonhos? Se a resposta for não, recupere, porque todo o movimento nosso ele acontece a partir da energia do desejo, de um sonho. Aí depois você faz as suas escolhas, se prepare, tenha coragem e cria as oportunidades.

MSMarcos Souza

Eu quero fazer um complementozinho a essas lindas palavras que você deixou. É, mas também como, como uma forma de você continuar pensando, sabe? A sementinha que a gente coloca. Sonhos são colocados na gente não é à toa e nem por acaso. Nenhum sonho é vergonha. Sonho é o nosso eu futuro vivendo o presente, só que mais à frente um pouco. Se a gente parar para pensar A gente tá num presente consciente hoje de sonhos do passado. Então a gente nunca pode deixar de sonhar para a gente continuar tendo futuro.

BMBeth Morais

Sim, Marcos, como eu lhe falei, como eu trabalho com mulheres, é muito triste eu ter mulheres que me dizem: não tenho tempo para sonhar. Desejo? Não desejo. E é real, porque às vezes o desejo, o sonho, é só ter a comida da noite. Porque eu volto a te dizer, a gente tá falando de que camada, de que mulher? Porque ainda tem isso. Eu tô aqui numa fala de uma mulher branca de classe média falando da mulher num geralzão.

MSMarcos Souza

Mas se a gente for fatiar isso, É diferente porque cada uma é um mundo diferente.

BMBeth Morais

Exatamente. Por isso quando eu falo que essas pessoas, quando dizem sobre mulher, trabalho, mercado de trabalho, eles estão olhando para onde? Para onde, né? Porque se a gente for olhar nas camadas, qual mulher, cada um, que região Que região? De que região eu tô falando? Aí as particularidades elas vêm surgindo, que aí você pode, se você quiser saber, se aprofundar um pouco mais, vai no censo, vai no site do IBGE, Censo 2022.

Lá você vai ter muita informação, gráficos. Eu gosto, eu sou uma pessoa de humanas, mas que adoro um gráfico e um número, adoro uma estatística. Então Então, cara, se você, como no outro podcast nosso, eu informei a fonte, se você quer ler mais, vou estudar mais sobre isso, cara, vai lá, confia. É uma ferramenta confiável, é uma pesquisa confiável. Agora, se você é tomado por um viés de confirmação em que você só vai querer ler, estudar o que confirma o que você acredita, Aí é porque ditar regra para os outros, né? Aí você questiona todas as ferramentas.

MSMarcos Souza

Eu questiono todo mundo que gosta de ditar regra, porque, ah, porque mulher tem que fazer isso, porque homem tem que fazer isso. Se homem não faz isso, não é homem. Se moleque faz isso, não é mulher séria, não sei o que lá. Isso é tudo uma grande bobagem, que é aquilo que eu te falo, tem uma retórica que dá um engajamento, mas aquilo ali é tudo, é uma conversa vazia. Né? E quem é você para ditar regra do que é certo, do que é errado, se cada um tem uma história, cada um tem uma percepção do que passou?

Você vê, é numa família, tem vários irmãos, às vezes todo mundo passa por um problema, cada um tem um histórico do problema, um vai ser diferente do outro, cada um vê a coisa de uma forma diferente, cada um sente de uma forma diferente ou não Então não tem como ditar regra para o ser humano, não tem como.

BMBeth Morais

Marcos, quando você falou agora uma palavra que é o sentir, quando eu te mandei um roteiro eu coloquei até lá como ancoragem uma pergunta que agora você falou sentir, que a pergunta era: você que tem avó ou bisavó, você em algum momento perguntou como elas ela se sentia. Porque vem muito essa coisa: as mulheres de antigamente eram mais felizes. Quem perguntava isso para elas? Que você está sentindo? Como você está se sentindo nesta vida desse jeito?

Porque era compulsório. Então me falar que as mulheres eram mais felizes, quem perguntou? Quem perguntou?

MSMarcos Souza

E temos uma coisa: quem respondeu também? Cadê? Cadê a base?

BMBeth Morais

E às vezes a resposta vem do tipo: sou, não é isso? É o que eu tenho no momento. Então assim, ouvir mais. Um outro exercício: se você tiver aí uma avózinha, uma bisavó, até Senta e conversa, pergunta para elas se alguns sonhos foram interrompidos. Você, dessa forma, você vai começar a entender qual era o papel das mulheres.

MSMarcos Souza

E também entender aqui, para a gente fechar, que mais uma vez tenta se libertar, tenta, tenta tirar esse lance do feminismo estereotipado da cabeça, porque vai abrir a mente assim como abriu a minha. Eu acredito que possa acontecer com outras pessoas, não que vá acontecer com todo mundo o que aconteceu comigo, mas assim, quando eu consegui diferenciar Porque a gente primeiro tem que conhecer, né, para fazer a prova dos 9, diferenciar, para poder ver o que que funciona e o que que é história.

Quando eu entendi o que que é o feminismo, qual foi o movimento, por como que tudo aconteceu, esse fato histórico todo, nada disso foi para tirar o poder do homem, poder sobre, sobre as mulheres. Engloba alguma coisa, mas nada disso foi para depreciar a figura masculina. Muito pelo contrário, foi para rolar um equilíbrio, né, de uma parceria onde se vive muito melhor. Lógico que nem todo mundo tem conscientização, tem equilíbrio emocional.

Óbvio que não vai ser com todo mundo, mas a intenção desse movimento é essa, a intenção é boa. Então, quando a gente toma conscientização da intenção, quando a gente conhece a diferença de uma coisa estereotipada e de uma coisa que nasceu com uma, com uma raiz, com uma vertente específica, aí a gente começa a entender qual é o real objetivo.

BMBeth Morais

Isso.

MSMarcos Souza

E aí, se a gente quiser continuar no estereótipo para fazer uma brincadeirinha, e tudo. Eu acho que tem certas brincadeirinhas que nem cabem mais. É, é para fazer uma quinta sériezinha ali básica, mas é aquela coisa, aquilo não funciona mais, entendeu? Não funciona mais. Mas depois que você entende o que, qual é a função e por que que nasceu, nossa senhora, tem tudo a ver, tem tudo a ver. E quando você percebe que não foi ninguém para sobre, para se colocar acima de ninguém para subjugar, para sobrepor, não é nada disso.

É para rolar um equilíbrio, porque são seres humanos, para ficar numa balança de equilíbrio.

BMBeth Morais

Porque quando eu falo sobre a corresponsabilidade, principalmente dentro da manutenção existencial de uma família dentro do lar, claro que existem interesses de não mudar. Sim, né? Porque para um homem chegar à liderança sem as obrigações de manutenção da existência do lar é mais leve do que uma mulher chegar a um cargo de liderança onde lhe é atribuído também as responsabilidades da manutenção da existência daquelas pessoas, daquele ambiente.

Então, se existir uma divisão, né, uma corresponsabilidade pela vida daquele ambiente, da sobrevida daquele ambiente, Marcos, não é difícil.

MSMarcos Souza

Eu acho que precisa ter primeiro entendimento, é a boa vontade do entendimento. Eu acredito do seguinte: a gente vive a vida tendo, recebendo entendimentos. Esses entendimentos, quando a gente entende, sendo bem redundante, a gente começa a fazer uma evolução dentro da gente mesmo. A gente começa a evoluir, a gente muda o pensamento, a gente abre o horizonte, e no final das contas a gente se conscientiza Ou seja, quando você toma consciência de alguma coisa, você acabou de fazer uma transição na sua vida para se tornar uma pessoa melhor, para evoluir.

Então toda a missão de tudo isso que a gente falou aqui foi para simplesmente os seres, os seres humanos ficarem todos em equilíbrio. É simples assim, só que o simples às vezes é muito difícil.

BMBeth Morais

É assim, é por menos egos inflados e mais mão na massa para evolução coletiva.

MSMarcos Souza

Até porque ego inflado cansa também, porque você precisa manter uma posição que às vezes você nem quer ter, né? E cansa tudo que você faz tendo que usar máscara, pesa, né? Pesa. Chega uma hora que pesa. Mas é isso. Eu acho que a gente deixou aqui plantado pelo menos um pensamento que pode trazer boa vontade nas pessoas de pelo menos de pensarem. Também. É, pô, deixa eu pensar sobre isso aqui, né? E você tira suas próprias conclusões.

BMBeth Morais

O desconforto, ele é necessário.

MSMarcos Souza

Sem desconforto não há mudança e não há evolução também.

BMBeth Morais

Ninguém faz faxina na casa sem arrastar móvel.

MSMarcos Souza

Claro que não, senão fica só aquela, né, aquela maquiagenzinha. É, Beth, deixa aí suas redes sociais. Pessoal que gostou do teu estilo, que gostou das suas palavras, como é que elas fazem para te seguir?

BMBeth Morais

Então vamos lá, no Facebook é Beth Moraes.

MSMarcos Souza

Eu vou deixar todas essas informações no, aqui no link do nosso episódio, tá?

BMBeth Morais

No Facebook é Beth Moraes, no LinkedIn também é Beth Moraes, no Instagram é @bethmorais. Lembrando que o Beth é com TH, Moraes com IS. Então @bethmorais. E eu tenho um outro perfil singelo no Instagram que é para mulheres, né, e para homens também que desejam se informar, que é Diários da Menopausa.

MSMarcos Souza

É porque é importante o homem entender também esse ciclo que a mulher passa, que é um outro momento de vida muito interessante de se falar. A gente pode combinar um bate-papo sobre isso. E é isso, eu vou fazer um fechamento aqui agradecendo a sua presença. E mais uma vez quero deixar registrado aqui a minha felicidade de ter esse bate-papo contigo. Agradecimento a Patrícia e a Juliana por terem me apresentado você. E eu fiquei apaixonado quando eu vi, porque a gente, eu ficava ali na direção, né, no dia da gravação delas, pelo papo.

Eu falei assim, eu tenho que chamar a Beth para vir no meu podcast. E você veio, e agora tá voltando, e daqui a pouco vai voltar de novo. E não é da boca para fora, eu fico muito feliz de você se tornar uma habituê aqui do Contra Corrente Podcast, porque eu acho que isso é uma missão. Aqui é um divertimento, eu adoro fazer isso, eu adoro fazer isso, adoro bater papo, adoro papo inteligente, gente inteligente. E cada bate-papo que a gente bota aqui eu acho que a missão tá cumprida, porque a gente faz quem tá assistindo pelo menos questionar alguma coisa, concordar ou discordar.

Mas o que que a gente fez? Fez a pessoa pensar, entendeu? Então a missão é essa, tá? Então eu quero fechar aqui, encerrar esse episódio de hoje falando que durante muito tempo escolher foi um privilégio que muitas mulheres não tiveram. Estudar, trabalhar, decidir sobre a maternidade, construir independência e ocupar espaços de liderança são conquistas históricas, mas ainda não encerram todos os desafios. Talvez o próximo passo dessa transformação não seja uma guerra entre homens e mulheres, mas uma nova forma de convivência baseada em diálogo, respeito e responsabilidade compartilhada.

Beth, muito obrigado pela sua presença e por essa conversa tão necessária. E a você que nos acompanhou, eu deixo uma pergunta: quanto da vida que você leva hoje foi realmente escolhido por você? E quanto ainda corresponde às expectativas que colocaram sobre a sua história? Esse é o Contra Corrente Podcast, contra a corrente do óbvio. Eu sou o Marcos Souza e a minha convidada de hoje foi Beth Moraes. Beth, brigadão! Foi muito bom.

BMBeth Morais

Pode chamar.

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