#05 - Lilith | E a sua recusa
Em Narrativas, conduzimos uma expedição intelectual através dos arquétipos e mitologias que fundamentam nossa compreensão do mundo. Com uma abordagem que entrelaça literatura, filosofia, psicanálise e antropologia, cada episódio é uma imersão profunda nos símbolos que nos habitam - desde as narrativas clássicas até suas reverberações na cultura contemporânea.
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EPISÓDIO #05: LILITH | E SUA RECUSA
Por que Lilith, que aparece uma única vez na Bíblia, e apenas como uma palavra solta no meio de ruínas, se tornou uma das figuras mais reconhecíveis do imaginário ocidental? E como a mulher que se recusou a deitar por baixo, num texto satírico medieval, acabou transformada em estampa de camiseta e curso de "energia feminina selvagem"?
Neste episódio, desvendamos a fabricação de Lilith: da Mesopotâmia ao mercado, camada por camada:
A arqueologia de um medo. O lilû, o lilītu e o ardat lilî da Babilônia e da Assíria: demônios do vento e da noite, temidos e nunca adorados. Como a mortalidade infantil virou nome, e o nome virou amuleto.
O Alfabeto de Ben-Sira. O texto hebraico medieval, satírico e não-bíblico que inventa a história inteira. Lilith criada do mesmo barro que Adão, a briga sobre quem fica por cima, a fuga pelo Nome Inefável, os três anjos no Mar Vermelho e o pacto selado em amuletos.
Silvia Federici e a caça às bruxas como acumulação primitiva. A expropriação do saber feminino e o cerco ao trabalho reprodutivo. Uma tese forte, que o episódio apresenta como contestada, e não como consenso.
Alexandra Kollontai, a recusa levada à política. Creche, lavanderia pública, cozinha comunitária, salário. O que o mito não podia dizer, porque não basta dizer não: tem que ter pra onde ir.
O deserto, o voo e o espelho. A imaginação material da recusa em Gaston Bachelard, a terra que resiste, o peso vencido pelo voo, e a boca que fala nos símbolos teriomórficos de Gilbert Durand.
Bibliografia do Episódio:
ALFABETO DE BEN-SIRA. In: PATAI, Raphael. A Deusa Hebraica. São Paulo: Perspectiva, 1967.
BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1989. [1942].
BACHELARD, Gaston. A terra e os devaneios da vontade. São Paulo: Martins Fontes, 1990. [1948].
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.
DURAND, Gilbert. Estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
KOLLONTAI, Alexandra. O comunismo e a família. 1920. Disponível em: marxists.org/portugues/kollontai/
KOLLONTAI, Alexandra. A nova mulher e a moral sexual. Disponível em: marxists.org/portugues/kollontai/
MACDONALD, George. Lilith. Londres: Chatto & Windus, 1895.
PLASKOW, Judith. The coming of Lilith: essays on feminism, Judaism, and sexual ethics, 1972–2003. Boston: Beacon Press, 2005.
ROSSETTI, Dante Gabriel. "Lilith" [também publicado como "Body's Beauty" e "Lady Lilith"]. In: Ballads and sonnets. Londres: Ellis and White, 1881.
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS
Luis Otávio Ribeiro, Hemanuel Jhosé Alves Veras; Henrique Zoccoli Franco; J Felipe Oliveira Araujo; Jaqueline Valentina da Costa; Juliana Gomes Martins; Leticia Passos Affini; Raquel Ribeiro Albert; Sabrina Rodrigues