Episódios de Mamilos

Vale o Replay: Momentos Offline | Mamilos #549

08 de julho de 20261h31min
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Curadoria do Mamilos: Vale o Replay! ⏪

Dar conta de todo o conteúdo que sai diariamente é quase impossível, né? Por isso, em julho, o Mamilos faz uma pausa nos inéditos e traz uma curadoria carinhosa com as nossas conversas mais instigantes.

É um convite para desacelerar: puxa a cadeira para ouvir aquele papo incrível que acabou passando batido, ou aproveita para reouvir com calma e descobrir novas camadas da nossa conversa.

Dá o (re)play e vem com a gente!

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#MamilosPodcast #PodcastBrasil

Participantes neste episódio3
C

Cris Bartis

Host
M

Michelle Prazeres

ConvidadoJornalista, Professora, Pesquisadora
P

Pedro Burgos

ConvidadoJornalista
Assuntos8
  • O valor da presençaA utilidade como critério de sobrevivência · O silêncio como comunicação · A experiência do inesperado · Momentos de contemplação e foco pleno · A importância do tédio e da pausa
  • Tecnologia e percepção de realidadeAlgoritmos e personalização da experiência · Perda da realidade compartilhada · Comunidades de nicho · Erosão da confiança
  • Importância dos relacionamentos humanosSeres relacionais e a capacidade relacional · Solidão como epidemia · Plataformas digitais e isolamento · Cuidado com as relações como resistência · Amizade de baixa manutenção
  • Desacelerar e o cuidado de siO automático: tempo do não pensar · O ininterrupto: tempo do não parar · O anestésico: tempo do não sentir · A necessidade de parar, pensar e sentir · Cultura da velocidade
  • Uso de Telas por CriançasExaustão de conteúdo digital · Retorno de eventos presenciais · Popularidade de hobbies analógicos · Mudança no tipo de cansaço
  • Imperfeição Humana e RedençãoTecnologias como eliminadoras de fricção · Dificuldade em apreciar a complexidade · Romantização do passado analógico · O perrengue como parte da experiência
  • Comissões e concertação socialComunicação como cola social · Erosão da atenção e presença · Hiperindividualismo · Aceleração da experiência
  • Produtividade e Desenvolvimento EconômicoTeatro de produtividade vs. produtividade real · Dificuldade em medir produtividade no conhecimento · Ansiedade por demonstrar produtividade · Cultura do busy e glorificação do ocupado
Transcrição108 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Mamileiros e mamiletes, a gente já sabe que todo dia sai conteúdo legal, gostoso, interessante, que ninguém dá conta de assistir, de ver, de ler tudo que tem vontade. Por isso, nas férias, o Mamiros dá uma pausa nos conteúdos inéditos e escolhe a dedo algumas das conversas mais provocantes, mais interessantes, que a gente quer trazer de novo para o seu radar. E aí, férias, tá todo mundo meio que pensando como é que a gente pode desacelerar, como é que a gente pode descansar de verdade.

O episódio 549 tem o Pedro Burgos e a Michele Prazeres trazendo algumas reflexões interessantes. Todo mundo diz que tá exausto de tela, no entanto, a gente sai para ir no teatro lotado, para ir no museu com fila, para ficar até em clube de leitura lotado. Será que isso nos ajuda a descansar ou a gente só troca o tipo do cansaço? Se você já ouviu, vem trazer os amigos para conversa. Se você não ouviu, apenas venha, que tá uma delícia.

MPMichelle Prazeres

No automático, que é o tempo do não pensar. No ininterrupto, que é o tempo do não parar. E no anestésico, que é o tempo do não sentir. Então desacelerar nesse caso é botar seu corpo para parar, pensar e sentir de novo, para dizer: opa, Ai, que gente!

PBPedro Burgos

Enfim, a gente vai estar navegando por diversas formas de dizer que é ver o mundo menos como um quebra-cabeça de otimização do tempo.

?Voz A

Mamilos.

CBCris Bartis

Mamilos. Mamilos. Mamileiros e mamilhetes, eu sou a Cris Bartes e esse é o Mamilos, o nosso espaço de diálogo de peito aberto. Essa semana a gente vai falar um pouquinho de momentos offline, mas antes uma pausa para os nossos anunciantes.

MPMichelle Prazeres

Você é do tipo que vai acampar e leva uma barraca só para o seu cachorro? Isso é outro nível de amor, e é por isso que você deve oferecer um outro nível de proteção com NexGard Spectra. Spectra, o único tablete mensal que combate sarnas, pulgas, carrapatos e até vermes. Proteção completa e com sabor carne que os cães adoram. NexGard Spectra é outro nível de proteção.

CBCris Bartis

Voltamos. Do que que a gente tá falando? Vamos lá, eu vou falar uma introdução aqui para contextualizar para vocês do que que a gente tá, o nosso ponto de partida. Tem uma coisa curiosa acontecendo. Tem muita gente saturada das telas, das redes, desse excesso de conteúdo. Ao mesmo tempo, os encontros presenciais, eles estão voltando com força. São shows lotados, estádios cheios, museus abarrotados com fila, lançamento de livros lotados.

Os hobbies analógicos, como clube de leitura, cantar junto, ouvir vinil junto, estão aí explodindo. Tem mais gente querendo sair de casa e estar com outras pessoas, mas o que será que tá por trás desse movimento? Se todo mundo diz que tá exausto, por que sair de casa parece a resposta? Isso resolve alguma coisa ou isso só vai mudar o tipo de cansaço? E mais, de que offline que a gente tá falando? Quem de fato consegue acessar esses encontros presenciais hoje?

A gente tenta entender o que a gente está buscando e o que realmente a gente encontra quando a gente decide sair do online. Eu não posso fazer isto sozinha, pois o encontro é o quê? Presencial. Eu trouxe gente que vai me ajudar a entender um pouco desse momento, começando por quem já é de casa, Pedro Burgo. Seja muito bem-vindo de volta ao Mamilo. Já tem um ano que você veio, fui olhar a data. Por favor, se apresente para os nossos ouvintes. Quem é você na fila do pão?

PBPedro Burgos

Obrigado, Cris. Sempre um prazer estar aqui. Meu nome é Pedro Burgos, eu sou jornalista, professor do INSPE, programador e eu escrevo e falo sobre tecnologia, o impacto da tecnologia na vida das pessoas e mais recentemente inteligência artificial que parece que tá comendo tudo, mas tô muito feliz de falar aqui com vocês.

CBCris Bartis

Muito bom, bom te ter de volta. Michelle, por favor, quem é você na fila do pão?

MPMichelle Prazeres

Oi, Cris, oi, Pedro, muito bom estar aqui com vocês hoje, obrigada pelo convite. Eu sou Michelle Prazeres, sou jornalista, professora, pesquisadora, desenvolvo a minha pesquisa sobre tecnologias na relação com o que a gente chama de aceleração social do tempo, que tem a ver com como essas tecnologias estão acelerando a nossa experiência e deixando a gente cansado. Eu sou professora de faculdade, né, aqui em São Paulo, dou aula aqui já há uns bons anos.

Nasci em Recife, sou pernambucana e sou mãe de Miguel e Francisco, que eu costumo dizer que é a minha melhor credencial. Mais do que tenho pós-doc, doutorado, mestrado, eles são os verdadeiros mestres, são os marcadores bons Marcadores de tempo, né?

CBCris Bartis

Os filhos são.

MPMichelle Prazeres

É, eu costumo dizer que quando o Miguel nasceu, o tempo encarnou pra mim, assim. Eu vejo o tempo passar no corpo dele, que já é um tempo de 1,80m.

CBCris Bartis

É um tempo longo!

MPMichelle Prazeres

É um tempo longo.

CBCris Bartis

Vamos lá, Pedro. Eu queria começar por você, porque a gente precisa começar contextualizando a tecnologia. Se a gente tem um algoritmo pra cada um diferente, cada pessoa tá vivendo uma realidade meio personalizada. Com muita convicção de que aquilo é real, pois eu vi, está ali. Em que momento a tecnologia deixou de ser só um meio e ela passa a moldar a própria experiência de realidade? E quando isso acontece, faz algum sentido ainda falar que verdade é algo comum para nós?

PBPedro Burgos

É, eu acho que todas as tecnologias relacionadas à comunicação, né, da fala, até as pinturas rupestres, elas envolveram criar representações da realidade para as pessoas terem histórias em comum. E a gente juntava pessoas ali para contar as mesmas odisseias e mitos, etc., para passar para as pessoas aquilo. E a escrita e a imprensa e outras coisas vieram para compartilhar histórias, né? Então o conceito, a história sempre foi uma coisa comunal.

E você fala bem, assim, eu acho que os algoritmos, né, a ideia de você, cada pessoa que entra numa rede, cada login no Netflix, né, todo mundo já deve ter visto isso, quando você chega na casa de alguém, vai na casa da sua mãe, Netflix é outra história, né, indica outros filmes, o YouTube de pessoas diferentes indica outras coisas, né. E eu acho que por um lado você tem laços mais fortes com determinados grupos, então meu grupo de jogos de tabuleiro consegue entender coisas muito específicas, Por outro, você perde essa realidade compartilhada que permite o que a gente tinha, né?

Eu acho que talvez na infância a gente vivia Rock Santeiro, 90% dos lares assistindo. Você, sua mãe, sua avó, todo mundo conhecia a mesma coisa, né? Quando estreava o clipe novo do Michael Jackson no Fantástico, né? Gerações diferentes tinham assuntos em comum. Isso não existe mais. Então eu acho que a gente tem e a gente sente um Claramente as pessoas sentem falta de pelo menos partes disso, né? Se por um lado elas têm visto essas comunidades de nicho mais fortes, é interessante, especialmente se você é jovem, você ter um vocabulário, interesses que você é capaz de falar com o seu grupinho.

Mas eu acho que essa volta do offline, não só offline, mas o que você descreveu também são experiências comunais, você juntar muita gente com o mesmo interesse.

CBCris Bartis

Eu acho que é uma reação esse, essa lógica de interesse específico. É, você falando me fez lembrar da novela Vale Tudo. É, Eric Bretas, um beijo. Eu lembro trabalhando com Eric na Globo, uma vez ele falou, sempre que falava, ah, isso é um sucesso, ele falava, alguém na Central do Brasil tá comentando sobre isso? Né, que é, vamos tentar aqui ir pra uma realidade um pouco mais compartilhada. E Vale Tudo foi uma novela que eu acho que retomou um pouco esse sentimento, porque Mesmo quem não tava acompanhando todos os capítulos falou sobre isso.

Eu acho que tinha tempo que eu não via um mesmo assunto sendo discutido em lugares tão diferentes e uma experiência de estar junto, né? Uma experiência de acontecer. A gente vai ter Copa e eu não tô vendo ninguém falando disso, mas o brasileiro começa a chegar mais perto, né? Ele costuma falar, não, vamos aí, vamos aí. Mas, Michele, a gente no dia a dia parece que não tá mesmo compartilhando minimamente a mesma realidade. Isso de assistir a mesma coisa, por exemplo, é uma coisa que me faz muita falta.

Você assiste e fala, vou comentar com quem? Você lê o livro e fala, vou comentar com quem? Eu tenho escrito no próprio livro os meus comentários, tô conversando com o próprio livro, porque não, né, para compartilhar com isso, esse coletivo parece que fica mais fraco. Que tipo de ruptura que isso cria nas relações? A gente tá falando só de um desencontro ou tem uma erosão mais profunda de identificação e confiança?

MPMichelle Prazeres

Legal, tua pergunta, porque eu acho que ela dá margem para eu comentar algumas coisas assim, que eu acho que são questões de fundo que tem a ver com o que eu tô pesquisando, né? Hoje a minha pesquisa é sobre o que eu tenho chamado de comunicação regenerativa, mas eu ainda tô tentando entender se dá para deixar esse conceito de pé com as experiências que a gente tem, por exemplo, de experiências offline, né? Primeiro, se a gente entender a comunicação não do ponto de vista funcional, com essa história, né, transmitir uma mensagem e tal, se a gente entender a comunicação como essa espécie de cola social, né, a comunicação como atividade de construção do comum, da gente compartilhar das mesmas histórias, histórias ou das mesmas questões, enfim, ou da gente conviver, ou da gente tá aqui junto, enfim.

Se a gente entender comunicação nesse sentido mais largo, o que eu estudei, né, numa das minhas últimas pesquisas, é essa história de erosão das relações humanas, erosão dos vínculos. Primeiro, a erosão da nossa própria atenção, que vem sendo sequestrada por esses mecanismos de retenção, né, da nossa capacidade de presença, né, e captura disso, né, para as tecnologias ou para as plataformas, né, para as dinâmicas desse mundo em geral.

Depois, a erosão dos nossos vínculos, porque se eu tô hiperisolado, fragmentado na minha experiência tecnológica particular, e sem— aí, né, esgarçando, né, e sem interesse pelo outro, né. O sul-coreano, o Byung-Chul Han, que é um dos caras que eu estudo na minha pesquisa, ele escreveu A Expulsão do Outro. É isso, a gente tá desinteressado pelo outro. A pessoa começa a contar a história, a gente fala, meu Deus, não vai terminar nunca.

?Voz A

A gente ainda, se não tem paciência, né?

MPMichelle Prazeres

A gente, eu escrevi sobre isso na minha coluna de UOL, que é: a gente começou acelerando o WhatsApp e agora a gente quer acelerar as pessoas. E isso não é por acaso, né? Então a minha pesquisa situa um pouco essa coisa da tecnologia como aceleradora da experiência e desenvolvedora então dessa incapacidade da gente se conectar. E isso tem uma série de consequências, né? E eu acho que um pressuposto, aí eu acho que vale a pena como marcador de lugar mesmo, na minha pesquisa eu entendo que a gente a gente pode até fazer um esforço imenso de ter uma experiência offline.

Então a gente tá aqui conversando agora, deixei meu celular lá fora. Tá devendo, né?

CBCris Bartis

Pra onde vai esse conteúdo?

MPMichelle Prazeres

É, então, e aí assim, na comunicação, né, uma corrente aí do pensamento que diz: a nossa experiência ela é always on hoje em dia, né? Antigamente, e o meu filho mais velho ele fala que sabe quando uma pessoa é 40 a mais, que a pessoa fala que saiu da internet. E é verdade, porque a gente saía da internet e a gente entrava na internet. Hoje em dia a gente é always on. A gente tava conversando Insider, né? Mesmo em lugares mais remotos, as pessoas vivem as reverberações dessa cultura digitalizada o tempo todo conectada.

Então a gente faz até um esforço de ficar offline por um período e a gente percebe, por exemplo, né, em técnicas que eu tenho chamado de regeneração da atenção, a gente percebe que a gente volta para o corpo, mas a gente tá tomada por esse mundo. Então será que a gente consegue de fato a coisa do equilíbrio, que eu acho que às vezes é um mito que pode até deixar a gente mais estressado?

CBCris Bartis

O que tem essa preocupação que eu tô trazendo de percepção de realidade é justamente o que me deixa com mais medo das pessoas irem erodindo cada vez mais a confiança do outro. Porque se eu tô vendo uma coisa, você tá vendo outra, e eu só trabalho no e, né? Ou eu tô certo ou você tá certa. Como eu tô certo, só pode ser que você esteja errado, né? Então vira sempre um embate sobre tudo.

MPMichelle Prazeres

Agora, Cris, você me permite só assim? Essa história dessa hiperindividualização das coisas. E a gente tende a achar que isso é uma consequência do mundo hiperconectado, e não necessariamente. Na verdade, ela é o motorzinho que alimenta esse funcionamento desse jeito das coisas. Porque quanto mais hiperfragmentado e hiperisolado eu tô, mais eu vou consumir, mais eu vou trabalhar e mais eu vou ficar tempo nas próprias plataformas. E é isso que esse povo quer, né?

CBCris Bartis

É muito desconfortável essa fricção o tempo todo, que eu saio desse universo e vou de encontro ao outro, né? E aí, Pedro, se essa divergência ela deixa de ser uma interpretação, passa a ser o ponto de partida, o que que acontece com a ideia de verdade que organiza a nossa vida, né? É verdade que a gente tinha esse compromisso hoje, esse horário, mas se o digital não entregou o horário certo, um de vocês não vai aparecer. Então essa percepção que organiza os nossos compromissos, nossos rituais, os nossos desejos, né? Como que isso fica abalado?

PBPedro Burgos

É, eu acho assim, só rapidamente, num ponto que a Michelle trouxe, é de fato a gente tá discutindo a questão de individualização faz um tempo, né? Você pega aquele livro Bowling Alone, né, que é dos anos 90, que as pessoas não se encontravam mais nos terceiros lugares, né? Na igreja, no boliche, no clube, etc. Então isso acontece antes do offline, né? Eu concordo que a gente acelerou. Então é só pra gente lembrar que coisas ruins que estão acontecendo agora já estavam, começaram a acontecer.

E é a mesma questão da verdade, né? Assim, se você lembrar, eu era pequeno, mas eu lembro da campanha de 1989, a primeira campanha a presidente, teve muita fake news, teve um negócio maluco assim.

CBCris Bartis

As pessoas... Que definiu o resultado da eleição.

PBPedro Burgos

Que definiu, que foi muito relevante. E as pessoas tinham, e era a mesma coisa, se você tem o chamado motivated reasoning, né? Se você acredita muito em alguma coisa, você tende a crer na veracidade de algo que confirma aquilo. Isso sempre foi verdade, né? Assim, se você acha que imigrantes são ruins, você vai acreditar mais em histórias que reforçam essa tese. O que mudou recentemente é que você tem muito mais oferta de factoides para confirmar a sua teoria.

Então, se você tem muito mais oferta, você vai gravitacionar para pra esse tipo de coisa. E eu acho que é difícil porque a gente, quando, né, eu sou jornalista, a gente veio desse mundo e a gente tinha uma noção até quixotesca lá atrás de criar um menu de realidade diverso pras pessoas, né? A composição de uma capa de jornal, fala assim, ó, eu acho que a sociedade precisa de entender um pouco do clima porque vai vir uma chuva, mas também desse escândalo político, mas de uma história bonitinha aqui que reforça o heroísmo e sei lá, e a cultura porque lançou um disco novo.

Você tinha essa crença de que você tinha que mostrar diferentes coisas pra que, de uma forma um pouco mais holística, você tinha várias verdades ao mesmo tempo, mas era uma verdade mais ou menos comum, né? Hoje em dia não, as pessoas podem pegar cada um o seu pedaço de verdade. E eu acho que isso Eu não vejo muita saída nesse sentido, eu não acho que as coisas vão ficar melhores, mas puxando um pouco a sardinha para o assunto da inteligência artificial, se a IA ela é meio que o amálgama do conhecimento anterior, ela pode ser usada em alguma medida para inclusive trazer um pouco mais de verdade.

É meio esquisito você entrar no Twitter e ver as pessoas discutindo com a Mas Grok e tal coisa, tal coisa. Eu falo, não, não é isso, é outra coisa. Não é perfeito, obviamente, e erra um monte ali e tal. Mas eu acho que a gente existe, eu acho que começa a existir uma demanda. Essas coisas são pendulares.

CBCris Bartis

Elas são, né? E eu gosto de vocês falarem desse caminho da individualização ser anterior ao boom do online que a gente tá vivendo, justamente porque o terceiro lugar ele já vem ruindo há algum tempo, né? As instituições, seja a religião, seja a família. A gente começou a questionar essas instituições e esse sentimento de tô sozinho, é eu por mim. Se não tá na minha família, se não tá em Deus, se não tá no esporte, se não tá nesse terceiro lugar, eu tô por minha conta.

Então essa percepção de solidão, de só posso contar comigo, ela já vem há algum tempo e que o volume tá muito alto, né? Eu costumo falar, não tem nada de novo no rumo do sol, mas o volume tá cada vez maior e essa oferta tá cada vez maior. Então ela me dá mais certeza de que eu tô sozinho e o que eu acredito é correto.

?Voz A

Cris, vou compartilhar uma dor de cabeça que muita gente vai se identificar, que é a gente precisar de internet fora no Brasil, até porque a gente não vive mais sem isso, né? Na primeira vez que eu fui cobrir o SXSW, descobri na marra que festival grande tem Wi-Fi ruim. E quando a gente viaja a trabalho, esse é um tipo de uma energia caótica bem específica, né? Desespelo. Porque eu precisava de mapa para me encontrar, de dado para subir vídeo nas redes em tempo real, precisava de sinal que fosse bom o suficiente para conseguir compartilhar com um notebook.

E aí a escolha ficava entre dois pontos de dor de cabeça: ou eu chegava cansada, com malas, meio desnorteada, e tinha que encarar a fila em loja de telefonia gringa para comprar um chip, ou, que acontecia com mais frequência do que eu gostaria de assumir, bancava a preguiça, ficava na operadora brasileira, nem pensava nisso, e assumia e o rombo na fatura na volta.

CBCris Bartis

Ô Ju, a Airalo acabou com esse dilema. Ela é um eSIM, que é um chip virtual que não precisa de cartão físico. E daí você instala o plano antes de embarcar, escolhe entre os mais de 200 destinos oferecidos, e quando o avião pousa, minha amiga, você já tá conectada. É sem loja, sem fila, sem Wi-Fi ruim e sem susto no cartão. A Airalo, ela tem plano locais, regionais, globais e pacotes ilimitados para dar conta de mapa, vídeo e tudo que a viagem da gente sempre pede.

Na próxima viagem, vai de airalo.com e garanta o seu pacote de internet ilimitada. Mas aí, Michele, você vem na contrapartida desse lugar falando: a gente precisa desacelerar um pouco, criando esses espaços onde tem escuta, presença. Quando as pessoas vêm nesse nesse ritmo e visão muito diferente e se encontra ali, o que que acontece na prática? Existe alguma reorganização da forma que elas percebem o outro ou até ela percebe a si mesma?

Como que as pessoas chegam e o que que você tem visto de quando elas chegam de verdade? Quando chega e quando chega de verdade.

MPMichelle Prazeres

É ótima essa pergunta também, Cris. A gente percebe, a gente anualmente faz o Dia Sem Pressa aqui em São Paulo, que é o festival de desaceleração da vida. E é um dos exemplos que a gente vê. Então assim, Comecei essa história com um guia, né, para as pessoas desacelerarem em São Paulo. E aí eu ouvi assim, tá massa ter um guia, mas não adianta nada porque ninguém é autorizado a desacelerar nessa cidade. E foi aí que eu comecei a pesquisar a dimensão cultural disso tudo.

E aí entendi que tinha de fato, e eu tô falando de 2015, antes da pandemia, que foi um empuxo, digamos assim, de fermento nisso, né. Eu gosto de pensar nessa imagem das tecnologias como fermento para coisas que já aconteciam antes, já eram fenômenos, mas ela é como se ela trouxesse um novo véu assim para tudo que a gente já vivia. E esse véu ele vem com uma camadinha de velocidade, né, com a camadinha disso que eu chamei na minha pesquisa de currículo oculto, né.

Então de alguma forma a gente tá acostumado a pensar na verdade do ponto de vista temático, espacial ou dos conteúdos. Então a novela, o clima, o tema. E aí o que eu trago, né, nessa descoberta do doutorado e do pós-doc assim, sim, as tecnologias trazem uma nova verdade comum, mas ela tá num âmbito sensível. A verdade é: é bom ser ágil, é bom ser móvel, é bom, né, ser responsivo, é bom ser hiperconectado. Isso é uma grande verdade, independente do tema que a gente tiver falando, de como a gente tiver recheando essas mídias do ponto de vista do conteúdo.

Então assim, sim, temos verdades coletivas. Uma delas é essa história do hiperindividualismo. E aí, quando a gente quer, não é só assim tipo, ah, um exercício de offline ali da gente tá sem o celular. É assim, a gente proporcionar experiências de descanso, de convivência e de partilha para que essas pessoas construam esse aprendizado no corpo. Porque no limite é o nosso corpo que tá sendo indexado por essa cultura, digamos assim, do always on, e que deixa a gente ansioso, achando que não fez nada no final de um dia que você fez um monte de coisa, você não acha que não foi produtivo.

Porque como eu falei, a gente tá vivendo sim, mas a gente tá vivendo performando o tempo todo. Então é mais do que o trabalho sequestrou a nossa vida e eu tô trabalhando 24 horas por dia, é também a gente estar performando o tempo todo. Essa coisa da cultura de um desempenho. Eu tenho, eu escrevi sobre isso, né? Eu não comi o morango do almoço se eu não tiver postado. Se eu não postei, eu não comi. E a gente então tá refém dessa lógica.

O que a gente faz Vamos embora descansar, vamos embora ficar offline, vamos embora conversar, vamos embora partilhar aqui alguma coisa. E a pessoa no corpo entende o efeito que aquilo dá. E aí é transformador no sentido de que quando você atravessa essa experiência, você conta pro seu corpo que você é gente. E a gente tá sendo treinado pra ter desempenho maquínico. E aí você diz, nossa, sou um corpo de pessoa. Consegui descansar, né?

Consegui ativar aqui uma... acessar aqui uma coisa que fazia muito tempo que eu não fazia. Um pensamento profundo, uma emoção, sabe? E às vezes é esse tipo de retorno que a gente tem das pessoas quando elas passam por experiências de desaceleração. E aí, só esse parênteses, porque assim, eu sou pernambucana, né, gente? Então quando eu comecei a falar de desaceleração, aí já veio toda xenofobia acumulada das pessoas, do tipo: ah, lá vem, vai, deita na rede, não sei o quê.

Não é sobre isso, né? Toda pesquisa sobre cultura da velocidade, de dizer estamos doentes de velocidade, tem a ver com a gente tá vivendo no automático, que é o tempo do não parar, né? No ininterrupto— desculpa, no automático, que é o tempo do não pensar, no ininterrupto, que é o tempo do não parar, e no anestésico, que é o tempo do não sentir. Então desacelerar nesse caso é botar seu corpo para parar, pensar e sentir de novo, para dizer: opa, aí sim, gente! E aí o que vem, né? Um monte de verdades, rituais, desejos, Botei tudinho aqui.

CBCris Bartis

É muito interessante isso que você tá falando, porque nas experiências presenciais a gente sente com o corpo, né, todo o desconforto e a reconexão desse desconforto de estar realmente presente. A gente fala de rituais comuns, e é muito interessante isso, que na minha época de ir para escola e para faculdade de ônibus, como você pega o ônibus no mesmo horário, você começa a pegar o ônibus com as mesmas pessoas. E aí você vê que uma ficou grávida, o outro que parece que casou e perdeu o ônibus hoje, fulano não veio.

Mas é porque você tava olhando para as pessoas que estavam no ônibus. É, hoje a minha filha precisa pegar ônibus para ir na terapia. Eu pergunto para ela, você pega sempre no mesmo horário? Você tá pegando com as mesmas pessoas? Ela não vai saber, ela não está olhando para essa pessoa. As pessoas paqueravam no ônibus, né? Teve gente que casou porque encontrou, encontrava sempre, aí um carregava do ônibus, ah, quer sentar? Então esse lugar de você perceber o ambiente onde você tá, quem são as pessoas que estão ali com você.

Mas Pedro, a gente, tô aqui romantizando ônibus, né, mas a gente tende a olhar para esse lugar do presencial como ele mais verdadeiro. Eu tô vendo a mesma coisa que você, mas o conflito também existe ali. O ônibus é ótimo para falar disso e às vezes até de uma forma mais intensa. O encontro físico ele aproxima, mas ele pode tornar mais difícil ignorar a diferença com o outro. Vale a pena fazer esse check de verdade?

PBPedro Burgos

É, eu acho, quando eu, enfim, escrevi um negócio super interessante pouco tempo depois que o Tinder foi lançado, né, falando que o Tinder resolve um problema econômico, porque paquerar de uma maneira geral é um negócio muito pouco produtivo e eficiente, né. Imagina, você paga muita tentativa e erro, paga uma grana pra ir numa balada uma música que você não gosta, você chega na pessoa e tomam fora, você tem que lidar com rejeição e você gasta dinheiro para se colocar em diferentes ambientes e tal.

Assim, ele resolve do ponto de vista econômico, de oportunidade, custo, etc. e tal, resolve tudo. Mas ele elimina a fricção de forma geral, né? Eu acho que boa parte das tecnologias, o que elas acabam fazendo é eliminando a fricção fricção. E a fricção, ela permite você ver o custo das coisas, né? Assim, quando você usa o iFood, a comida aparece magicamente na sua e você perde um pouco a noção de como que ela, o que que aconteceu para ela chegar lá, né?

Enquanto muitas das coisas mediadas por tecnologia, elas são eliminadoras de fricção. E aí eu acho que o que a gente tem visto muito nesse mundo super otimizado, né, a dificuldade de ver essas dificuldades, esses problemas, essas imperfeições do mundo comum faz a gente ter pouca capacidade de apreciar quão complexo é isso acontecer, né. Eu acho que a gente tende a romantizar o mundo passado, digamos assim, Porque a gente guarda só as coisas boas, né?

Então você guarda essas histórias de conhecer um pouco a vida de cada um, mas tem todos os problemas de você pegar um ônibus, perrengue o tempo todo. Então eu acho que a gente, a fricção ela é útil porque isso é um conceito clássico de toda a humanidade, que é o negócio muito, tem até o slogan no pain no gain, né? Quando você se esforça mais, quando você sente dor para chegar no resultado, parece que ele valeu mais a pena. Então a gente tem, né, eu gosto muito, né, desse framework que você trouxe, dessas 3 características e do anestésico, né?

Porque se a gente não sente a dificuldade, a gente parece que é menos valioso o que a gente chegou, sabe? Se faz sentido. Então em alguma medida é o que a gente sente falta, e mesmo quando a gente o perrengue que a gente, né, deixa de lado, ou às vezes a gente idealiza o passado analógico, na verdade, o famoso it's a feature, not a bug, né? O perrengue faz parte e valoriza a experiência.

CBCris Bartis

Michelle, fala, descreve um pouquinho esses 3 pontos que você colocou, porque eu achei eles realmente muito valiosos, né? Não parar, não perceber o tempo, não sentir, O que que você vê isso prática do dia a dia pras pessoas que tão ouvindo falar assim, é esse momento que tá acontecendo comigo, a gente conseguir aterrissar um pouco esses conceitos?

MPMichelle Prazeres

Boa. E aí, eu acho que tem um aviso, né, assim, porque aí é isso, né, ah, tô falando de desaceleração e tô falando da tecnologia como aceleradora da experiência. Ah, então ela é anti-tecnologia. E não é sobre isso, né, porque seria muito ingênuo da minha parte ser antitecnologia. Mas quando a gente tenta fazer qualquer contraponto tecnológico, é nesse lugar que as pessoas colocam a gente.

CBCris Bartis

Ah, mas você tem celular?

MPMichelle Prazeres

Isso. Ou então, ela vem aludida, ela vem dinossauro, é antiprogresso, sabe? Na minha pesquisa de doutorado, especialmente que eu pesquisei isso na educação, era muito vista essa coisa, ah, é antitecnologia porque um computador por aluno, como assim não? Tablet por aluno, isso é o progresso. E aí automaticamente as pessoas te colocam nesse lugar, né? E eu acho que o presencial e o remoto foram para esse lugar no pós-pandemia, se é que a gente dá para chamar assim, né? Pós-pandemia vai ser o resto da nossa vida, né?

CBCris Bartis

Mas no imediato, pós, você pode ver o que é um AC e um DC.

MPMichelle Prazeres

Isso, de novo, da nova era. Exato. E aí é isso, essa é a favor do presencial, essa é a favor do remoto, e não é isso. Eu acho que o favor que que esse momento traz pra gente, não que tenha tido nenhum aspecto positivo, porque foi uma enorme tragédia e não teve aspecto positivo, mas desempacotou algumas obviedades. E assim, por que que eu preciso estar no presencial? Porque eu quero promover um encontro, é uma reunião importante, é importante estar olhando no olho, é importante estar aqui e as pessoas se entenderem nos gestos, né, a linguagem corporal.

Por que que eu tenho que estar presente? Porque tem uma intenção atenção nessa presença. E o que que dá para ser remoto? Porque sim, facilita a vida em alguns casos. Alguns tipos de trabalho podem ser perfeitamente desenvolvidos até com mais qualidade no remoto. Pode ser uma reunião remota ou pode ser uma reunião— a gente parou para pensar nessas perguntas, ou seja, desautomatizou alguns processos. E aí o desacelerar, nesse caso do automático, que é o parar para pensar, eu brinco que é instalar o chip do não Não pera, não pera, eu, porque é bem pernambucano.

Não, pera, mentira, preciso responder essa mensagem agora. Chegou no WhatsApp, eu respondo na hora. Às vezes eu não lembro nem o que eu respondi, às vezes eu olho, acho que respondi mentalmente e não respondi. Isso tem a ver com estado de automatismo, né? A gente tá indo, sabe aqueles gírias que eu odeio, que é só vai, foguete não dá ré? É isso, entendeu? É tipo, entra no automático e vai. Os memes, gente, Esse automático é tipo, eu estou correndo, estou com pressa, nem sei por quê, para chegar não sei nem aonde, numa ideia de sucesso e progresso que eu não sei nem se eu quero para minha vida, mas eu tô indo.

Isso é o automático, né? E aí o automático ele gera os outros dois estados, né? Porque se você não para, você muito raramente vai pensar sobre uma tarefa que você tá fazendo. Então você tá indo ali meio, né, no flow, tá indo na— e o não pensar, ele é esse estado do automático, anestésico, ininterrupto. Mas ele é uma qualidade, essa coisa do 24 por 7, né? Então assim, 24 horas por dia, 7 dias por semana, o tempo todo trabalhando, performando, consumindo na rede social, a gente não para.

E aí a gente pouco para para pensar no que a gente está fazendo. E depois, um anestésico tem a ver com duas condições: um pouco essa história do não parar e não pensar vai deixando a gente meio incapaz de sentir. E a gente meio que já ficou— já chorou de cansaço? Eu muito comumente choro de cansaço, né? Sou mãe solo de duas criaturas, vivo em São Paulo, não sou herdeira, trabalhadora, trabalho em 3 lugares, pá, bora lá. E eu tenho um projeto chamado Desacelera.

As pessoas acham que isso é incoerência, mas é biográfico, né? Eu só cheguei onde eu cheguei porque eu pensei sobre isso. Só que a gente vai vivendo sem fazer esse exercício de parar, de entender, de sentir no corpo o que tá acontecendo. E repare, não é responsabilidade nossa, não é culpa tua tu ser estressada, não é culpa de Pedro que ele tá ansioso hoje. A minha pesquisa toda é para mostrar, tem um componente sistêmico nisso que aparece no nosso corpo.

Então parece que é nosso, né? Parece que eu, Michele, sou ansiosa, mas tem uma boa parte disso que faz parte desse mundo que tá muito interessado interessado em ter a gente ansioso, isolado, angustiado, porque desse jeito a gente trabalha mais e consome mais.

CBCris Bartis

Virou só essas duas coisas.

PBPedro Burgos

E só fazer um comentário aqui, não sei se vocês conhecem, né, tem um pesquisador que eu gosto bastante chamado Cal Newport, né, ele tem um livro sobre, chama Produtividade Lenta, não sei se foi traduzido para português, mas ele fala, então chamando de produtividade sustentável, sustentável, é, mas a ideia dele é um pouco assim, a gente chama produtividade é um negócio que na indústria e no agro é simples. Você tem X hectares, você planta X e recolhe tanto.

Então você tem a produtividade, área plantada e dinheiro. Indústria, a mesma coisa, peças e pessoas versus quanto que você fatura. A produtividade na indústria do conhecimento, do escritório, é muito mais difícil de medir. Qual que é a sua contribuição de fato para o bottom line da empresa? Então, como a gente, ele fala assim, ó, se o cara da Nike que inventou o Just Do It nunca mais fosse para o escritório, a produtividade dele tava paga porque ele não precisava.

Mas como a gente não tem isso, né, o quanto que a gente acrescenta, a gente acaba usando marcadores de produtividade. A pessoa que responde rápido o WhatsApp, que aparece na hora no Teams, que manda o PowerPoint, sei lá o que mais. Então a gente fica acostumado a, digamos, esse teatro de produtividade e não necessariamente Produtividade de fato. Então não é só na vida pessoal que a gente tem esse problema, né? No trabalho a gente não sabe muito bem explicar para o outro que a gente tá fazendo nosso trabalho e que aquele trabalho é relevante para empresa.

Então a gente fica muito ansioso para demonstrar, responder o email rápido, mostrar a proposta, etc., que não necessariamente são coisas produtivas.

CBCris Bartis

Pedro, peraí, você tá me incentivando a ser ineficiente? É isso que você tá mandando eu chegar atrasada? Você tá falando que eu não preciso responder na hora? Como que dentro de um mundo que Michele acabou de descrever é sistêmico, aí você vai falar que é contracultura chegar atrasado?

PBPedro Burgos

É exatamente, mas eu acho que o ponto dela é maravilhoso, porque a gente não é uma questão simplesmente individual, né? Quando a gente fala assim, ah, eu decidi que eu vou ter o detox digital, né? É o problema clássico que a gente vê, que talvez a gente entre nessa discussão, que é dos pais e mães regulando o telefone do filho. Meu filho. Não adianta, se ele é o único da sala que não tem telefone, vai ser muito difícil. Se toda a sala decide, né, se todos os pais responsáveis decidem, é muito mais fácil.

Então você tem o famoso collective action problem, né? Então se a gente decidir como sociedade, como empresa, né, não manda a mensagem depois de tal hora, né, tem, a gente faz mais. A gente não pode crer que isso é só uma decisão individual de disciplina, etc., né? O buraco é mais embaixo.

CBCris Bartis

Não, isso é super simples. Tem uma frase milenar que mãe fala, que é: você não é todo mundo. Todo mundo tem, você não é todo mundo. Eu queria aproveitar esse exemplo para justamente falar o que que é todo mundo, né? Outro dia era justamente isso. Ah, mas todo mundo na sala tem celular, só eu que não tenho. Eu falei, mas será? Aí eu saí do automático de só falar você não é todo mundo e fui perguntar, tem celular? Tem celular? Tem celular? 2 tinham.

Essa percepção de todo mundo tem, todo mundo faz, só eu que não faço, tá vindo assim mesmo antes de acessar esse online totalmente disponível. O que que a gente consegue fazer? Quais são os pequenos acordos que a gente conseguiria fazer? Não é fácil, difícil, mas que a gente deveria se mover a fazer para dar uma equilibrada nisso, para a gente tentar dividir a mesma realidade.

MPMichelle Prazeres

Sabe, Cris, eu fico falando por aí sobre o tempo, aceleração e tal, e a primeira dica que eu dou é: não tem dica. Se alguém me pede assim, tá, beleza, mas aí quais são os 7 passos para desacelerar? Eu falo, tu não entendesse nada do que eu tô falando. Exatamente. Mas de fato, sim, acho que ao longo esses anos todos pesquisando isso, a gente vai percebendo uma outra coisa que fala, ah, isso daqui pode ser um caminho. Mas eu sempre digo que o acordo inicial básico é a gente falar sobre isso.

Porque, por exemplo, isso que Pedro traz, na maior parte dos lugares tem estabelecido uma cultura do que é uma boa performance, mas aquilo não tá dito. E agora a NR-1 vai obrigar as empresas a mapear isso, né? De alguma forma, aspas pequenininha, por favor, da NR, da nota regulamentadora número 1, que regulamenta a necessidade das empresas mapearem os riscos psicossociais dentro do ambiente de trabalho. Ou seja, elas vão ter que ter um plano de ação e um plano de gerenciamento de riscos para mostrar como as pessoas que trabalham ali percebem a possibilidade de ter problemas de saúde mental relacionados ao trabalho.

E essa norma entra em vigor em maio e vai obrigar as empresas a terem um mapeamento de riscos e um plano de ação né, e participativo e comunicado. Porque a comunicação é um elemento da norma regulamentadora, porque se percebe que muitas dessas coisas estão no âmbito da cultura, mas não estão estabelecidas. Eu chamei de cultura da produtividade tóxica junto com alguns colegas que estão trabalhando com isso, porque é isso, tipo, tem alguns combinados que são acordos, tá bom?

O horário comercial, vou, tô falando de um jeito bem caricato, mas vamos lá, das 9 às 2018. A pessoa que não sai para almoçar ou a pessoa que trabalha no fim de semana, ela tá gerando nessa linha da produtividade tóxica um diferencial competitivo. Ela tá produzindo num horário que é um acordo coletivo de que é um horário de descanso. Nesse mundo ela tá sendo ótima. Tem gente que glorifica isso, né, acha o máximo, acha lindo falar assim: ai, não tenho tempo.

Vamos marcar? Vamos, mas só daqui a 15 dias. Tem gente que estuda isso, né, glorificação do busy, do ocupado. Então acho que nessa cultura, né, vai se estabelecendo acordos invisíveis e que a gente precisa falar. Então falar sobre o tempo é sempre a dica zero que eu dou para as pessoas. Tipo, tu podes amanhã uma coisa aqui, não sei o quê? Olha, preciso fazer um arranjo aqui, podemos chegar no caminho do meio? Pô, esse prazo que tu me pedisse é mesmo para amanhã?

Porque meu filho tá doente, eu vou ter que ir para casa. Posso te entregar outro dia, não sei o quê, falar sobre isso. Porque às vezes essas regras não são regras, elas estão só meio veladas ali. E às vezes quando a gente fala, a gente— poxa, uma vez eu saí de uma reunião e aí a advogada falou assim para mim: ah, te mando agora no seu email esse arquivo que eu acabei de apresentar. Eu falei: olha, eu só vou olhar para isso semana que vem, então se tu quiser me mandar até sexta, tá tranquilo.

Ela me regalou o zóio, ficou me olhando com Tipo, nossa, que tipo de gente é essa doida, né? Porque ela não quis imediatamente o arquivo? Não, porque eu não vou conseguir olhar pra isso agora, então não faz sentido tu me mandar, né, no imediato. Fica com ele aí, dorme com ele, digere, mexe, o que tu quiser, depois tu me manda. E aí isso gera espanto num primeiro momento, né? Então esse botãozinho do não pera, ele é um pouco do tipo, o que a gente tá fazendo aqui falando sobre prazos, falando sobre o que é produtividade pra esse ambiente, falando sobre as relações das pessoas e como elas podem se tratar.

Esse é o primeiro caminho para a gente entender como que a gente pode cuidar coletivamente de algumas coisas, né?

CBCris Bartis

Eu vivi uma experiência recente, eu estive na Amazônia e passei 7 anos lá, quer dizer, 7 dias, porque a minha percepção do tempo mudou muito, né? O dia começa 5:30, tá começando o amanhecer o de nada do que eu sei funciona lá, porque eu só sei daqui para cima e tudo que eu precisava era daqui para baixo. Então meu conhecimento, peanuts, né? O corpo precisava estar muito presente, senão poderia sofrer um acidente, né? E tem barulhos que você precisa escutar que são fundamentais para que você performe bem nesse lugar.

Então o silêncio também é importante. E eu percebi um constrangimento do silêncio, né? Parece que se eu tocar, a gente vai ficar aqui sentado junto, um do lado do outro, sem falar nada. O Pedro, seu trabalho é esse, né? Você produz um conhecimento que serve para o mundo e você fala sobre esse conhecimento. Qual que é o espaço do silêncio e em que momento esse silêncio pode ser constrangedor? Você consegue sustentar silêncio, por exemplo?

PBPedro Burgos

Exemplo? Eu acho que é uma— eu respondi menos de meio segundo depois que você terminou a pergunta, né? Então já diz um pouco. Eu acho que entra, tem várias questões nesse quebra-cabeça. Um que é um conceito de produtividade levado às últimas consequências em toda parte da vida, né? Então quando você entra no elevador, você vai ter aqueles 20 segundos, você tira o celular, porque onde já se viu, né, ficar no elevador sem usar esse tempo para alguma coisa.

Se você vai almoçar sozinho, que tempo maluco é você só comer, né? Assim, então essa lógica de que você só vai estar fazendo uma coisa e essa coisa não demanda sua atenção plena faz com que a gente ocupe os espaços com outras coisas. Então eu acho que a gente foi entendendo ao longo dos últimos muitos anos que tédio é um negócio inerentemente ruim, né? Então não ter nada para fazer, não ter nada para ver, não ter nada para consumir, não ter nada para falar é um desperdício de tempo de todas as partes envolvidas.

E isso não é uma construção só individual, é uma coisa coletiva, eu acho. E a gente fala assim, pô, vou ficar aqui fazendo o quê, né? Eu acho que isso são várias coisas. Eu acho que vai desde um medo de você ficar com seus próprios pensamentos, né? Porque se você não tem nada em volta, você é obrigado a batalhar com a sua mente.

CBCris Bartis

E aí, que companhia chata!

PBPedro Burgos

Exato. E aí pode ser bom, pode ser ruim, né? Então eu acho que isso é parte do problema. E outra é uma questão de que as alternativas são sempre muito boas, boas, né? Colocando muitas aspas. Mas assim, eu tava comentando falando como as pessoas 40 a mais aqui, né? Mas quando a gente era criança ou adolescente, tipo, os períodos para você rir eram meio marcados. Terça-feira à noite tinha o Casseta e Planeta, tinha uma coisa assim, mas não existia uma oferta de coisas engraçadas o tempo todo.

Então aquele tio que contava uma piada, nunca era engraçado porque você não ouvia aquilo com muita frequência. Coisas para rir eram coisas raras. Tinha um professor que era engraçado, E tinha só uma, 3 pessoas no fundão, talvez. Assim, o conceito de você rir, em meia hora de TikTok você tem mais coisas engraçadas, genuinamente engraçadas, que você tinha em um ano de vida quando a gente era adolescente, entendeu? Então é muito difícil de você competir com esse nível de estímulo, e eu acho que exige uma certa disciplina mesmo para a gente não ocupar os silêncios.

CBCris Bartis

Já sei que você quer falar, Michele, não vou nem falar.

MPMichelle Prazeres

É treino. Não, é maravilhoso isso, porque tem uma ideia de tempo contida aí nesse pensamento, que é o que a gente estuda em aceleração, que é a compressão do tempo, né? Assim, a gente, se é que o tempo é cronológico, e se a gente resolveu medir ele em unidades, dias, meses, anos, segundos, minutos, A gente foi ao longo do tempo acreditando nisso, né? Então os povos originários, por exemplo, trabalham com o tempo de outro jeito.

E tu vivesse uma experiência de tempo, de percepção totalmente diferente na Amazônia, acabasse de contar. Mas a gente convencionou que o tempo anda só para frente, que ele é cronológico, que ele é medido em unidades. E aí a gente tenta gerenciar esse tempo, controlar esse tempo, medir esse tempo, antecipar o tempo. Então, ó, vai durar uma hora a nossa conversa aqui. Disse, estamos aqui, né? Mas a gente tem que regular coletivamente o tempo.

Então, ó, vai até no máximo tal hora para a gente conseguir se organizar, tem que pegar filho na escola e tal. Enfim, mas essa ideia da compressão do tempo, que é a essência da ideia de aceleração, porque a gente tá vivendo mais coisas numa mesma quantidade de tempo, ela também dá essa sensação ou traz essa camada de que a gente tem que usar esse tempo, bem entre aspas, do melhor jeito possível para ser produtivo, porque é esse sentido que tá orientando a nossa vida, né?

Produtivo, devo desempenhar ou performar, é tudo a mesma coisa aqui nesse meu argumento. Seja produção de trabalho, seja produção do Morango do Amor na minha rede social, seja produção do, como eu já ouvi, não tô entregando nada na minha relação, ou amizade de baixa manutenção. Tudo isso é performance, certo? Para as relações humanas. Não, calma, a gente vai se desdeprimir daqui a pouco. Aí isso tem a ver com que o Krenak fala, de que a vida não é útil se a gente não usar o tempo para algo que a gente acha que é útil, produtivo ou performático, etc., não tá me trazendo nada de volta, que é uma perspectiva muito utilitária, né, da vida, do tempo, a gente acha que a gente tá perdendo tempo.

E o silêncio é inútil, a arte é inútil, a festa é inútil, ritual é inútil, descanso é inútil, tédio é inútil para esse mundo que acha que a gente tem que produzir o tempo todo. E é justamente essas coisas que fazem da gente humanos. O silêncio também faz da gente humano, né? O silêncio também é comunicação. Quando a gente acelera o rápido. Quando a gente acelera um filme, gente, eu falo, gente, não assiste, porque a pausa, a hesitação, ela é constitutiva daquilo dali.

O jeito que eu falo, o tom que eu falo, é constitutivo do meu gesto de falar. Aí tu me acelera, duvido que as pessoas consigam me acelerar porque eu falo muito rápido, mas tu me acelera, tu tira minha hesitação, tu tira minha pausa, tu tira meu tom, tu tira minha humanidade. E aí a gente aprendeu a, portanto, até essas coisas que nos fazem gente, a colocar elas numa chave de produtividade. Então eu vou para as férias para voltar mais produtivo, eu vou descansar para recarregar as baterias.

Ou seja, a pausa serve à produtividade. Ela não é pausa porque eu mereço, porque eu sou gente, porque eu preciso do descanso. É a pausa para ser mais produtivo depois, que é uma loucura, né? A gente transformou útil até o que não está a serviço desse mecanismo da produtividade, né?

CBCris Bartis

Outro aprendizado que eu tive lá: tem uma maneira de caçar que pega, pode ser numa flecha, numa zarabatana, o que vai atingir o animal passa-se na ponta uma casca de uma árvore que ela é anticoagulante. Então o animal vai sangrar e vai morrer. Mas aí o que que acontece? Basta que você atinja um animal e aí você vai esperar o tempo daquele animal. Ele vai ficar andando sangrando até ele morrer. E aí o que que você faz nesse tempo?

Espera, agacha aqui, espera, fica aqui esperando, enrola meu cigarro. Eles fumam uma árvore que tem lá que é muito saborosa, inclusive. Mas você sabe o tempo que vai demorar? Não. Você sabe onde o animal vai cair? Não. Então depois ele vai seguir aquela trilha de sangue, vai encontrar o que vai ser alimento deles ali por um período. Esse desespero de não saber quanto tempo vai demorar é um negócio inacreditável assim, porque rasga uma ficção que você tem o controle, que é muito Pega assim, primeiro que você nem sabe se você vai achar o animal.

Isso já é assim uma loucura. Se achar, ainda tem esse senão. Essa percepção, esse véu que se rasga quando a gente percebe que não tem controle, ele acontece muito mais no presencial, né, nesse momento offline, porque eu não controlo o horário de chegar, eu não controlo quem vai estar. Eu detesto quem fala quem vai para saber se vai ou não, sabe?

MPMichelle Prazeres

Quem vai?

CBCris Bartis

O João Gilberto, que era assim, chegava: quem vai? Ah, vou não. Eu não sei quem vai, eu não sei se a comida vai ter comida, não sei, né? Tem uma série de fatores que são colocados ali para mim. É num momento offline essa disponibilidade de ir, de acontecer, que muitas vezes ela acaba nem acontecendo. O que que nos seus ciclos, nas suas conversas, no seu estudo, você tem de disposição das pessoas a se entregar ao imponderável que é sair de casa, que é se encontrar com alguém.

PBPedro Burgos

É, e é engraçado que invariavelmente, né, você vai num encontro pessoal, aí vai alguém, escolhe um lugar que você não gosta, e você vai lá meio, pô, a gente vai naquele restaurante, né?

CBCris Bartis

Eu já olhei aqui, a resenha dele não é boa, né?

PBPedro Burgos

3,9 no Google Maps, é terrível. E aí você vai me contrariar e tal, mas em algum momento alguém vai falar assim, não, mas o que importa é que a gente tá aqui, né? E efetivamente essa fala aparece em algum momento assim. Então eu acho que é uma questão de reorganizar prioridades, né? E eu acho que a gente tem que, de novo, isso é uma disciplina, porque eu acho que o que a Michelle tá falando assim, eu acho que a gente tem a a tendência de ver tudo por esse prisma da produtividade.

Assim, bom, se a gente vai, se eu vou passar, ir para um hotel com a família, aí depois eu chego lá e o hotel não é isso, nisso, nisso, você fica com essas, poxa, dava para otimizar muito mais essa experiência com a família se a gente fizesse isso, isso, isso e tal. Mas assim, tipo, isso não é relevante, essas não são as coisas relevantes na vida. Então eu acho que é esse constante, né, reexaminação de tipo o que que é o objetivo disso aqui de fato.

A gente tá conseguindo fazer isso? Tô tudo bem, né? A gente, expectativa versus realidade, então a gente tem que pensar um pouco. E às vezes assim, e mesmo que seja o caso, você se abrir um pouco para o inesperado, né? Eu acho que isso que as pessoas têm muita dificuldade também. Então assim, se você vai numa uma reunião e essa reunião ela é feita para decidir uma coisa X. E durante essa reunião, especialmente reuniões presenciais que são meio caóticas, né, você começa falando, ah, e o Corinthians, e sei lá o que mais e tal, e no final vocês não chegam a uma conclusão, parece que ela foi um fracasso, né?

Mas você foi exposto a uma outra ideia, ou você conheceu mais o jeito de pensar de diferentes pessoas que estão ali, que vão te dar produto no futuro. Então eu acho que no fim a gente vai estar navegando por diversas formas de dizer que é ver o mundo menos como um quebra-cabeça de otimização do tempo. Assim, enfim, no fim das contas é isso que a gente tá falando, porque vários desses mecanismos, né, muitas vezes eu vou, a gente vai, sei lá, vamos esperar, vamos comer almoço novo hoje.

Aí abre o Guia da Virgínia, aí vê o Guia do Paladar, aí liga para 15 lugares, aí vê o Michelin, aí vê, ah não, mas aqui no Google Maps diz X. Você gasta tanto tempo indo no Netflix, né? Já fizeram essa conta, as pessoas gastam 12 horas por ano só escolhendo, né? Porque elas querem otimizar.

CBCris Bartis

Dado que eu vou gastar meu tempo, você não fez uma boa escolha, você errou.

MPMichelle Prazeres

Então o erro não é bem-vindo, né? Tipo, não tem espaço para erro.

CBCris Bartis

Eu queria te perguntar esses momentos presenciais? O que que você vê nas pessoas condiz com o que o Pedro tá falando? Quando você olha para esse grupo que tá se disponibilizando a passar momentos presenciais, fazendo coisas presenciais juntos, isso tem virado um grande hobby, né? O que que você tem visto da experiência do corpo no jogo ali?

MPMichelle Prazeres

Não, muito bom. Eu tenho visto pessoas muito aflitas e pessoas culpadas porque podem fazer isso, sabe? Mas eu já conto mais sobre isso. Teve uma vez conversando com professor amigo que ele me lembrou que espera, desespero, esperança e inesperado, que são palavras que a gente acabou de falar aqui, são a mesma palavra, né? É a mesma coisa, estão na mesma ordem de coisas. Repete. Então, ó, espera, que é tipo tu ficar esperando o bicho lá morrendo.

Desespero, tu falar assim: eu desespero de ter Não, não, não. A esperança que a gente falou na pergunta anterior, calma, a gente já vai falar sobre possibilidade de horizonte aqui, e o inesperado que tava na tua pergunta, Pedro, são a mesma radical, né? E que morreu assim, a gente não espera mais porque a gente tá entendendo que esperar é perder tempo, sendo que na espera muitas coisas podem acontecer. E quando a gente mata esse tempo achando que ele é inútil, a gente também tá matando uma série de aspectos humanos da nossa vida, né?

E aí a gente vai optando pelos atalhos, que são os inibidores de fricção. Só que o atalho é uma fantasia, gente, né? Um aluno outro dia tava me contando que ele já passou por uma situação social e que desconfiaram dele porque ele não tinha Instagram. E aí assim, aí a pessoa vai e entra no Instagram do outro. Gente, aquilo dali é pura performance, não é verdade. Por que que a pessoa acha que a pessoa ter Instagram é porque ela é confiável?

Eu entendo, inclusive assim, tem várias amigas que usam esse recurso quando conhecem uma pessoa em aplicativo, vai lá ver se tem, para ver se a pessoa existe, se ela não é um psicopata.

CBCris Bartis

Mas é uma ilusão de controle. Ver se ele tem um Instagram.

MPMichelle Prazeres

E pronto, então tem um dos alunos que trabalha com médico, e é isso, o médico não tem clínica hoje se ele não tiver rede social. Então a gente tá passando por uma provação nesse sentido, né? E aí o que eu vejo as pessoas do tipo, tem gente que não quer ter rede social. E aí essa pessoa ela perde eventos sociais, ela não é convidada para algumas coisas, ela fica sem saber de coisas que estão acontecendo ali, né? O grupo de amigos termina, sei lá, combinando as coisas por outros caminhos e tal.

Mas essas pessoas elas falam sobre a escolha delas de não ter essa rede social. Tem gente que vive nesse mundo desse jeito, né, ansioso, que a gente falou, e que aí tem um período que pode ficar. E aí ela se sente privilegiada, culpa porque ela tá descansando. Aí ela acha que tem que fazer alguma coisa. Aí ela não consegue descansar por muito tempo porque tá se sentindo: ah não, eu vou ler um livro, eu vou ouvir um podcast, eu não vou, né, não fazer nada.

Culpa por não fazer nada é comum. E a outra coisa é uma aflição, uma angústia de descobrir que essa questão não tá na pessoa. Então dá conforto. Ai, que bom, não é só comigo, né? 50% da população brasileira acha que vive na velocidade vezes 2. Poxa, que bom, não é só comigo. Ao mesmo tempo, que desespero, porque então se é sistêmico, a gente começa por onde? E aí vem toda essa, né, essa ideia de que esse mundo tá roubando da gente inclusive a capacidade da gente esperançar.

Porque quando a gente tá muito preso no presenteísmo, a gente não consegue essa imagem, né, de levantar a cabeça e olhar para o horizonte, imaginar que pode existir outros modos de vida. Isso, de novo, não é efeito desse mundo. Isso é o que esse mundo quer que a gente viva. O Siddhartha fala muito disso, né, da nossa, da perda da nossa capacidade de sonhar. Tu conseguiria responder hoje a pergunta, tipo, qual é teu sonho? Onde tu quer estar daqui a 5 anos?

A maior parte das pessoas, elas se desesperam. Aí, voltando para as nossas palavrinhas, quando a gente pergunta isso, porque elas estão vivendo hoje num modo de sobrevivência e não conseguem Então essas atividades às vezes elas geram esse tipo de angústia do tipo, tá, mas então se é sistêmico, e agora? Ou então elas geram essa culpa do tipo, pô, então quer dizer que eu sou privilegiado de poder desfrutar aqui de um certo tempo para fazer tal coisa?

Porque é isso, tempo livre é uma ideia que inexiste, né? Assim, não trabalhamos mais com tempo livre.

CBCris Bartis

É ou não é privilégio?

MPMichelle Prazeres

Cara, não deveria ser. E eu acho que acordo todo dia acreditando, senão eu não levantava, num mundo em que o descanso vai ser reconhecido como direito. Acho que tem agendas aí, né? A NR-1 é uma delas, a Escala 6 por 1 é outra delas, o ECA Digital. Então assim, eu acredito que regulando coletivamente a vida comum, a gente consiga em algum momento pensar juntos que existem outros modos de vida, né? O Bem Viver tá aí, o ecofeminismo também ajuda a gente a pensar nisso, o decrescimento, que é uma plataforma política de não é só crescendo que a gente vai avançar, a gente pode, né, ser suficiente, ser menos.

Mas se isso não acontecer numa ordem muito temporal, as pessoas não vão elas sozinhas conseguir cuidar de si. Então todo o trabalho que eu faço de trazer essa ideia do bem-estar para um contexto de desigualdade é para dizer: a experiência temporal das pessoas é atravessada por marcadores sociais de desigualdade. Então não é verdade que todo mundo tem as mesmas 24 horas. Então não é verdade que eu me autocuidar é eu acordar mais cedo para meditar 5 minutos, porque aí eu vou querer dar na tua cara se tu falar isso.

PBPedro Burgos

Inclusive, a expressão Tipo assim, ah, eu fui na academia em horário de herdeira. Isso é parte do pressuposto que é uma pessoa que é privilegiada.

MPMichelle Prazeres

Exato. E aí a gente precisa falar sobre esses privilégios de tempo, porque quando tu fizesse aquela pergunta lá atrás para Pedro, eu falei assim, quem são as pessoas desorganizadas que a gente conhece? Quem são as pessoas que se atrasam? Não tô falando esporadicamente, normalmente é a mãe, eu, uma mãe doida descabelada que chega atrasada nos negócios. Ai, precisei levar não sei o quê, tô atrasada. É geralmente uma figura que leva ali suas horas no ônibus para se deslocar, que mora longe do trabalho, que não vai a pé nem de helicóptero.

CBCris Bartis

Tem um privilegio aí, né? Pontual sempre é um negócio, você consegue organizar o tempo com essa precisão.

MPMichelle Prazeres

Isso. Só que aí é isso, é você perguntar: é privilégio hoje, no agora? Sim, talvez a gente possa afirmar isso, mas eu não gostaria de falar isso. Eu gostaria de dizer, não, não é privilégio, é um direito descansar e ter tempo livre.

CBCris Bartis

Não, eu acho que as pessoas estão caçando isso, né, Pedro? Porque é claro que eu tô falando de São Paulo. Eu tive uma experiência coletiva maravilhosa e cara, que foi o show do Bad Bunny. Foi uma catarse coletiva. Tinha tempo que eu não sentia isso. Todas aquelas pessoas muito felizes, todo mundo querendo muito que aquilo acontecesse. Aí o cara começa a chorar porque tem com 40 mil pessoas sentindo a mesma coisa e esperando o refrão para gritar.

Então eu vejo as pessoas fazendo caber no orçamento alguma coisa para estar no presencial. Os shows estão sempre cheios, os estádios de futebol, apesar do ingresso tá mais caro, é também exposição. Exposição em São Paulo é super difícil conseguir ir porque tá sempre cheio. No meio. Mas eu também estou falando de momentos presenciais que eles são um pouco menos de grana, né? Se você for, tava no centro esse final de semana, e ali perto da Galeria do Rock tem algumas pessoas, inclusive mais velhas, que andam com som, caixas de som, fone para quê, que o contexto ali é outro.

Ele coloca a caixa de som, ele começa dançar e algumas pessoas vão se juntando ali e dança. Que que você vê isso como um movimento social com a tecnologia como meio? Porque muitas vezes eu só fiquei sabendo do show porque tecnologia, as pessoas que vão ali dançar naquele ponto provavelmente se combinaram por tecnologia. Quando a tecnologia ela é um bom meio, é engraçado isso, né?

PBPedro Burgos

Você foi no show da Experiência Comunal que o cara falava que deve ter tirado mais fotos, né? Enfim, né, que não é só o de ir todo mundo filmando lá, que essa coisa é meio maluca.

CBCris Bartis

Uma coisa muito doida que eu não tinha entendido, só entendi depois, que a hora que eu olhava para plateia, foi no Allianz, cabe umas 40, 45 mil pessoas ali, tinham muitas luzes de celular. Eu falei, mas como é que fizeram isso? Não era, eles fizeram uma camerazinha para dar essa percepção, mas parecia que tava todo mundo com celular mesmo.

PBPedro Burgos

É assim, é interessante isso porque tem várias, você for usar, né, tem dados de fato, isso é verdade, Tem até um estudo do Serasa que diz que as pessoas estão se endividando para ver show, né? 25% das pessoas que vão aos shows se endividaram para isso. O preço está aumentando. Nos Estados Unidos tem um aumento de mais de 40% em 7 anos, o preço dos shows. Então as pessoas estão gastando mais com isso. E tem várias, mas tem vários marcadores.

Se você pensar que a tecnologia, as pessoas estão vendo a tecnologia inclusive até desaceleradora, né? O vinil é um mercado que tá crescendo há 18 anos, ele brutalmente, né? No passado foi o primeiro ano que passou de 2 bilhões de dólares. Câmeras digitais voltaram a crescer nos últimos 4 anos.

CBCris Bartis

É muito legal o álbum de foto, gente. Imprimir as fotos da formatura da minha filha é outra experiência.

PBPedro Burgos

E as pessoas estão querendo. E assim, eu sou uma pessoa, eu uso a tecnologia. Eu tive agora, né, em— eu vou dar só um exemplo, eu vou contar um monte de anedota aqui, mas é tipo tecnologia maximizando presencial, que é, eu tive com a família, família da minha esposa, que é uma família enorme, foi para um casamento, né, de primos na praia em Porto Seguro. Então toda a família no mesmo hotel. Eu sou uma pessoa que tem todos os gadgets, né, eu tenho drone para filmar na praia, né, eu tenho uma impressorinha de foto desse tamanho que cabe no bolso.

CBCris Bartis

Então eu tenho um kit de costura.

PBPedro Burgos

Então assim, os meninos, tipo, as crianças de 8 anos foram pra gente levando no carro, foram pra praia contando uma história maluca. Na volta eu fui lá, fiz uma música com IA de Suno e aí coloquei no som a música baiana da história deles. Os moleques ficaram malucos, né? Aí pra uns outros eu tirei uma foto de drone de umas meninas que estavam brincando e fiz uma mexida lá na IA e imprimi pra elas assim também, um negócio meio louco assim.

E eu acho que que eu fiz uma música da casamento assim, usei todos os meus gadgets. Eu acho que a gente pode usar essas tecnologias para maximizar a experiência presencial, não para fazer elas mediadas, né? Eu não tô dizendo, ah, para a gente tirar foto e ter uma experiência, né, mas ter um registro mais fidedigno do que aconteceu. Mas eu acho que a gente pode, né, assim, de fato, agora a gente fez, foi ver o Oscar no domingo, e eu fiz uma aplicativo para você experimentar as roupas do tapete vermelho para as minhas amigas que estavam lá.

Mas assim, eu acho que a gente pode usar mais a tecnologia para amplificar e deixar essas coisas, esses momentos até mais interessantes. Então eu acho que é possível. E você tem total razão, né? A gente tá aqui em certa medida porque este podcast existe, né? A gente não tá falando só para audiência 3 pessoas aqui, né? A gente tá tentando falar para muita gente e a gente conhece, tem grupos de WhatsApp que a gente encontra pessoas.

Então acho que é importante isso que você falou, né? A gente não é, a gente não é anti-tecnologia de forma alguma. E eu acho que a gente tem muitos caminhos de fazer essas tecnologias serem potencializadoras, desde achar um lugar novo para você ir e ficar offline, mas você usou o Google Maps para chegar lá, usou outras formas de comprar passagem, etc. Então eu acho que a gente tem que tomar cuidado também para não colocar essas, essas coisas, não são antagônicas, não devem ser.

CBCris Bartis

Eu tive uma experiência ano passado, eu fui para Coreia e eu não sei nada de coreano, e eu passei 10 dias completamente perdida, né? Eu não consegui conseguia ler e eu não conseguia ouvir nada, né? Eu não entendia nada do que estavam me falando. E nos primeiros dias eu fiquei muito exausta, que é essa sensação de estar completamente perdida num lugar. A tecnologia ajuda porque— e o carinho das pessoas quando percebem que você tá tentando se comunicar ajuda muito.

Então você escreve, transforma, mostra em outra língua, que você fala e ele traduz. Mas esse desconforto de lidar com esse outro é um músculo que eu sinto que tá meio flácido na maioria das pessoas, né? Então assim, quanto menos eu tenho contato com as pessoas, menos eu tenho contato. E aí quando eu vou ter algum contato com as pessoas, parece que é uma exaustão. É como se tivesse todo mundo na Coreia. Eu tenho essa percepção, tipo, nossa, mas é muita energia.

Se eu vou, é muita energia que eu gasto para interagir com as pessoas, para estar com o outro. Eu morava num apartamento até pouco tempo atrás, bem antigo, e todo mundo chegava na minha casa, fala: meu, como esse elevador é lerdo! Como esse elevador é lerdo! O que que eu fiz? Medi o tempo e era 1 minuto. Então todo mundo que chegava falava: nossa, esse elevador muito devagar! Sabia que é 1 minuto que ele demora para subir 12 andares?

Então, esse tá perdido e a energia que eu gasto para estar com outro. É realmente importante fortalecer esse músculo? O que que a gente ganha como indivíduo e como sociedade se eu faço essa musculação que é estar com outro?

MPMichelle Prazeres

Nossa, eu acho que a gente ganha essa sensação de pertença, de acolhimento, de que a gente não não tá só. E isso é muito inerente à experiência humana. Assim, nós somos seres relacionais, e se a gente tá vivendo numa realidade que aos poucos vem minando a nossa capacidade relacional, é isso, ele tá roubando uma parte importante da nossa humanidade. E aí não é um discurso do tipo exaltando o coletivo de um de jeito bobo assim, é fazendo, sei lá, proselitismo.

É porque de fato a gente só vive assim. Então a gente tá abrindo mão de uma camada muito relevante da nossa experiência. E aí eu acho que é a história da amizade de baixa manutenção, que é a história do não tô entregando nada na minha relação. Quando a gente olha desse jeito, né, vou fazer uma crítica à tua pergunta, Cris, o que a gente ganha com isso? Tipo, olha você colocando as relações no âmbito da cultura da produtividade. Relacionar-se não tem que ser útil. Relacionar-se é porque a gente vive.

CBCris Bartis

O povo já não quer. Se não ganhar nada, aí tu vai mesmo.

MPMichelle Prazeres

Então eu acho que no fundo é a gente entender que a gente não vive sozinho. O que esse mundo tá tentando fazer com a gente não é... Porque aí tem uns discursos também de empoderamento, do tipo... De não aceite essa relação se você tiver sendo tratado não sei que jeito. Tem pesquisas que já mostram que as plataformas treinam a gente pra terminar os relacionamentos. Porque elas ganham dinheiro com as pessoas isoladas. Elas ganham dinheiro com as pessoas angustiadas e sozinhas.

CBCris Bartis

E uma assinatura premium do Tinder.

MPMichelle Prazeres

E uma assinatura premium do Tinder, ou de qualquer outra coisa que tu vai ficar enfornado na tua casa consumindo, vendo conteúdo ou trabalhando. Então é um jeito de resistir a tudo isso cultivar as relações. Só que como eu vou cultivar relações se eu tô vivendo no modo de sobrevivência?

CBCris Bartis

Então, como é que a gente só mandando no WhatsApp, fico no WhatsApp cultivando a relação, tá tudo bem?

MPMichelle Prazeres

Não, acho que não. Acho que cultivar relações não é só pelo WhatsApp. Acho que de vez em quando tem que se encontrar pessoalmente para dar essa liga. E aí, claro, tem amizades que atravessam anos de distância e parece que encontrou ontem. Sim, essas coisas vão continuar existindo, mas não assim, não estamos mais num mundo que era esse mundo, né, do rock santeiro, não sei o quê, onde não tinha esse grande motor fabricante de angústia e de isolamento.

E de que a solidão já é considerada epidêmica, porque de fato tem repercussões muito graves para a saúde mental das pessoas elas viverem isoladas. Então assim, eu acho que é tudo sobre a gente pensar que é um treino, né? A gente tá sendo condicionado ao isolamento. E aí a gente tem que treinar esse músculo pra gente gostar de novo de estar junto das pessoas. E eu tô falando, gente, eu tô entrando aí no momentinho que pode ser perimenopausa.

Eu tô odiando, chega uma hora que eu tô com raiva, eu quero ir embora. Eu tipo, gente, eu quero que essa pessoa suma da minha frente. Tipo, eu tô nesse momento e eu tô tipo—

PBPedro Burgos

Neste momento agora?

MPMichelle Prazeres

Mas nesse momento de vida, daqui a pouco eu vou odiar vocês, mas agora não. Mas tu entende que é um esforço mesmo, né?

CBCris Bartis

Um esforço.

MPMichelle Prazeres

Se a gente tá sendo condicionado, e assim, o descanso também requer um esforço. A gente não consegue só parar e descansar, a gente tem que treinar nosso corpo para conseguir descansar.

CBCris Bartis

Eu acho que a gente tá naquelas, sabe aquelas competições horríveis que tem muito nos Estados Unidos? Quem come mais cachorro-quente? Sabe aquela cena grotesca? Eu acho que a gente tá assim conteúdo, passa o dia enfiando daquele mesmo jeito. Para mim é, essa é a imagem mental, e nunca digere, só passa.

PBPedro Burgos

Mas tem uma coisa assim, entrando nessa questão das relações, é porque você deve ter essa experiência aí, né, que é o que a gente chama de relação parassocial. A pessoa ouve uma Milus há uma década e acham que são suas amigas, né? Fala assim, ah não, mas eu lembro, você mudou minha vida. Eu fico, não, mas E não só isso, as pessoas, sei lá, se vão encontrar você, falam como se fossem suas amigas, né? Você fala assim, não conheço você, né?

Então a gente tem um problema que a gente tem uma oferta de amigos de prateleira, né? Eu tenho uma Cris super inteligente, eu sou vascaíno. É difícil eu achar vascaínos em São Paulo.

CBCris Bartis

É verdade esse bilhete?

PBPedro Burgos

Eu vejo, é verdade esse bilhete. Pô, eu vejo o react do Kazé jogando o jogo, ele é o casé, é o cara legal para ser uma companhia. O react é isso, é a gente tá pegando emprestado alguém para reagir algo que a gente gosta, né? Então, se antigamente eu era moleque, a gente ia jogar videogame e a gente reagia a uma outra pessoa fazendo alguma coisa no videogame. Hoje em dia a gente vê no YouTube o cara fazendo, né? E a gente gosta muito disso.

Eu falo que é interessante como a imagem imagem que ficou para a história da Copa de 94 é o Pelé e o Galvão gritando. Até foi o primeiro react da TV, né? O react ficou mais relevante do que o fato, porque a memória é aquilo, a memória é aquilo. A gente gosta de ter essas relações, né? Então a gente tem várias relações parasociais, da gente ter a amiga inteligente que a gente ouve no podcast, né? O cara engraçado que acompanha os jogos comigo.

E várias dessas relações que a gente acaba que elas são mais eficientes no tempo, né? Se você pegar assim, pô, eu vou chamar umas pessoas lá para ver o Oscar comigo, elas não são tão inteligentes quanto o outro cara que sabe muito, escreve, fazer comentários incríveis. Pô, eu vou ver a live da Isabela Bosconvi, que pô, vamos lá, né? Sabe muito mais. Então eu acho que essa oferta do tempo todo, digamos assim, de uma alternativa que é melhor faz as pessoas às vezes gravitarem.

E de novo, né, a gente tá voltando sempre a ideia de que existem alternativas mais produtivas, mais eficientes.

CBCris Bartis

Sabe o que que é o pior desse programa? Existem alternativas piores e você deve fazê-las porque elas são piores e isso é bom. É muito contra-intuitivo, né? E eu acho que esse puxão de orelha na pergunta que você fez, que eu acho muito interessante, me fez lembrar de novo isso, é para que a serventia das coisas, né? De novo, na Amazônia, pelo jeito nunca mais eu vou voltar de lá, já até escrevi sobre isso, é um caminho sem volta.

Tem uma árvore gigantesca que é essa maúma, e essa árvore que eu fui visitar, ela tem 400 anos no mínimo. E você olha para aquela coisa majestosa que tem uma infinidade de tempo, né? 400 anos, você aí correndo porque tá acelerando o áudio de 1 minuto. Então essa percepção de tempo fica muito abalada. Mas aí você, né, o indígena que tava com a gente, ele foi e falou, ah, a preservação da floresta, como que a gente conseguiu manter aquilo ali, né?

É que ela não tem utilidade comercial, por isso que ela tem 400 anos, porque ela não é útil. E aí dá uma bugada na tua cabeça, né? Ela sobreviveu porque ela não é útil, ela é majestosa porque ela não é útil. Então eu queria que a gente amarrasse Márcia aqui para a gente fechar esse episódio convidando as pessoas para o inútil, talvez, né? O que que é esse momento offline? Ele é caro, ele tem que ser cultivado, ele vai causar fricção.

Esse tudo parece tão complexo. Por que ir para essa inutilidade da vida, né? Como que a gente pode fazer bons convites? Como que a gente pode se colocar nesse mundo do trazer os momentos offline para fazer parte da vida. Quer começar, amor?

PBPedro Burgos

É difícil, né? Você tá perguntando para exatamente isso, né? Esse, essa contradição em termos, né? Fala para galera, né? Então eu posso oferecer outros podcasts piores para as pessoas gastarem o tempo, né? Então é muito difícil. Eu acho que a ideia é as pessoas pensarem um pouco, tipo, olharem para atrás. Eu até escrevi um livro, né, 14 anos, que falava assim, pô, se você for parar e tentar lembrar dos momentos memoráveis que você tem, acho difícil de ser tipo aquele vídeo no YouTube, talvez um episódio do Mamilos, né, que é diferente, é outra coisa.

Mas na média, o que a gente— se eu pedir para você pensar em alguma coisa É provavelmente um presencial, né? Não vai ser algo que você assistiu ou tava ouvindo. Então seu corpo tava lá. Por quê? Porque quando você tá, tem mais partes, mais sentidos envolvidos no processo, você tende a lembrar mais coisas, né? Então você talvez você lembre de um jantar, porque mais seu corpo inteiro tava presente, né? Seu paladar, G4, etc. Possivelmente, uma chance grande não ter sido um negócio super bem organizado, né?

Envolve outras pessoas de verdade. Não é difícil de você pensar, tipo, não é um, não é um grande, uma pegadinha, né? Tipo, para 10 segundos, né? Lembra, tenta lembrar das coisas que você julga como muito interessantes e memoráveis. As coisas que são memoráveis é que talvez durante a gente nem tenha sacado o quão relevante aquilo ia ser, mas é o que ficou. E o que a gente é, o que a gente tem essas memórias, né? E se você começar a pensar, essas experiências não foram otimizadas, né?

Muitas vezes envolveram silêncios, elas não foram super perfeitas. E eu acho que que de novo, se a gente reexaminar a nossa vida, né, assim, eu lembro, eu não fui para Amazônia, mas eu fui para Patagônia, né, tem o Glaciar Perito Moreno que você vê. Eu fico arrepiado de verdade assim, que quando você vê aquele bagulho, você fala assim, eu primeiro que, né, eu tava ouvindo, até coloquei uma música, né, que eu gosto lá do Bon Iver, né, que ele fala assim, and at once I knew I was Magnificent, né? Assim, você entende que você é isso aqui.

CBCris Bartis

É muito bom ser insignificante, né? Que delícia!

PBPedro Burgos

E você fica parado assim, né? Porque a experiência é mesmo ficar parado. Não é assim, ah, é tédio. É um pouco a contemplação, né? E eu acho que esses momentos são os momentos que a gente literalmente vive para, né? A gente vive para ter momentos de contemplação absoluta ou de foco pleno são os momentos que são mais legais. Então, se a gente ficar mais abertos para essas coisas, significa que a gente vai talvez tentar otimizar menos, tentar planejar menos. E não é muito difícil, não tem uma pegadinha aí.

MPMichelle Prazeres

Tem uma pesquisa de um colega da FABC, vou lembrar o nome dele depois, se eu conseguir recuperar eu passo para vocês. Mas ele pesquisou como percepção de tempo E como esses episódios que são muito massa e aí passam muito rápido na nossa percepção ficam na memória como momentos mais, como se eles tivessem tido mais duração. E os momentos que são muito lentos, entediantes, tendem a não entrar nesse âmbito das coisas memoráveis. Então, como percepção de tempo na hora, isso aqui tá super gostoso.

Quando falar acabou, a gente vai Mas já, né? E as outras coisas que são super, mas depois fica na memória como uma coisa que aconteceu e que foi isso do âmbito da experiência, né? E aí eu tô estudando isso porque tô para escrever sobre isso, que em breve a gente não vive— o Byung-Chul Han também, esse mesmo autor que eu citei antes, ele fala que a gente não vive experiências conclusivas e que a conclusão é um modo da gente conseguir espiralar aquela experiência para ela acumular como bagagem.

Pra gente. E se a gente tá sempre vivendo novo, que é a lógica do scroll infinito, da novidade, da mudança, que é esse mundo, a gente não conclui, a gente não elabora e, portanto, a gente não gera bagagem. Então, muito em breve, longevidade, 400 anos, não vai ser sinônimo de experiência. Tipo, uma pessoa mais velha não vai ser sinônimo de que a gente pode aprender com ela alguma coisa, porque eu tô muito na caricatura, né? Mas assim, não estamos, a gente tá acumulando vivência atrás de vivência, acumulando conteúdo, né?

Isso. Que é essa coisa do excesso que tu trouxesse antes. E aí, acho que nesse mundo das diquinhas, né, eu diria assim, tem a coisa do falar sobre o tempo, estabelecer contratos de tempo que sejam contextualizados, né, e tal, combinar as coisas de tempo. Mas tem uma coisa do ver o que tá possível e ao teu alcance, sabe? Tipo, cara, dependendo de novo, né, dos marcadores sociais, dependendo da tua condição de gênero, de classe, de raça, de regionalidade, de território onde tu vive, vai ter coisas que não estão ao teu alcance.

Se transformar. E aí tu vai ficar angustiado se tu ficar tipo te culpando por causa disso. Não vai dar para acordar 5 minutos mais cedo para meditar. E aí não tá na tua governabilidade. Mas o que está e é possível mover? O que não está e eu só vou conseguir mover daqui um tempo? Essa perspectiva de dar uma esticadinha no tempo para tirar do, sabe, dessa coisa do hoje, hoje, hoje, daqui uma semana, daqui um mês. Tira, estica o tempo, né, para tentar fazer essa coisa do exercício do que que dá e o que que não dá, o que tá na minha governabilidade.

E acho que para o coletivo esse exercício do o que que eu posso fazer e que vai mudar aqui, ó, as placas tectônicas do meu entorno minimamente. Se eu sou uma liderança de uma empresa, eu tenho muito poder de transformar as relações ali, né? Ou de pelo menos tentar medidas mais do âmbito cultural, de, né, de cuidado que pode mudar as relações ali. Se eu sou mãe em casa, né, isso, acabei de bolar um joguinho para falar com os meninos sobre o ECA digital.

Eu Eu tenho capacidade de transformar o meu entorno. Então, de um lado, esse exercício individualmente do o que é possível para mim, entendendo que o seu bem-estar, sua saúde mental e o seu cuidado não dependem só de você, porque tem um tanto disso que é do mundo. E de outro lado, se eu fizer esse movimento, que outros movimentos vão reverberar perto de mim? Então, qual é a minha responsabilidade nessa história, né? Então, cada um do seu lugar pensar isso.

Que já seria bem saudável, né? Com essa consciência de que, cara, não vou desacelerar assim rápido.

CBCris Bartis

Eu queria terminar contando uma anedota, né? Contando um caso pessoal que foi muito uma experiência de visualização. Eu gosto muito de carnaval, eu adoro esse todo mundo na rua. Você sabe, né? Pernambuco só dá para atravessar a rua se for pulando, né? O agente secreto aí vou mostrar isso. É, não importa seu estado de espírito, você vai ser afetado pelo coletivo. E os meus filhos não gostam tanto. E a mãe quer saber? Não, vai no carnaval, né?

E aí a maior tem 15, falou: ai, não vou, não tô a fim. Eu falei: vamos respirar, você não tem alternativa. O de 7, você vai. Ele, eu comprei uma fantasia super legal para ele, aí E fomos. Quando chegou no bloco, passou um pouquinho, ele começou a chorar. Ele ficou muito incomodado. E aí ele começou a chorar, começou a chorar. Eu abaixei e falei, o que que foi? Aí ele, aí tá todo mundo olhando para mim, aí a minha fantasia e tal.

Eu falei, meu amor, ninguém se importa com você, só a mamãe. Você não é importante para ninguém aqui, ninguém tá te olhando. Tá vendo aquela pessoa enrolada no lençol? Sol? É Jesus. Tá vendo aquele outro ali com a peruca loura de jacaré? É a Cuca. Tá todo mundo se divertindo. Ele segurou e falou, eu quero ir embora. Eu falei, eu não quero, é a minha diversão. Eu visito seu mundo, eu queria que você visitasse o meu. E aí ele falou, mas eu não quero ficar assim.

Eu, tira a fantasia. Não quer fantasia? Tira a fantasia. Tiramos a fantasia, enrolamos e colocamos tipo poucinha. Daí, aí, a hora que ele percebeu que ele ia ter que ficar ali, e aí começa, vai enchendo mais gente, vai pulando mais gente, vai, a música vai ficando mais alto, apareceu um confete, apareceu uma serpentina. Daí a pouco ele tava pulando que nem um louco e dançando muito, tava lá. Ele, o espírito dele foi completamente transformado.

Ele tava muito mal-humorado, mas todo mundo ali tava tão tão feliz que de repente, né, ele foi, ele foi se modificando pelo ambiente. Aí riu de um não sei o quê, tá, saímos dali, aí fomos comer. Eu falei, fiquei muito feliz. Na hora que a gente chega em casa, ele vira para nós, ele fala, foi o melhor bloquinho que eu já fui na minha vida. Aí ela, ela, ele, e tinha Jesus de lençol, e tinha nananã, que aí ele já vai super valorizar experiência, né?

No outro dia ela quis ir. E aí foi super legal, porque esse outro bloco já tava muito mais cheio, a gente ficou muito apertado. O Amoz ainda é pequeno, ele fica meio na altura da bunda das pessoas, ele passa sufoco. Aí levanta a criança, aparece alguém. Aí tombou um carrinho de um vendedor, de um ambulante, todas as bebidas dele caiu. Todo mundo pegou, ajudou, colocou no lugar. A gente se perdeu, né? Nós estávamos em 4, ficou 2 para um lado, 2 para o outro.

Eu lembrei o número de celular, pedi para uma pessoa no bloco: eu me perdi, eu posso usar seu celular? Claro. Liguei. Então assim, é tanta experiência social ao mesmo tempo. Tipo, você sabe o número de celular de alguém, né? E o outro te empresta. E aí vocês marcam na esquina que tá a Cuca. E aí encontra. E aí alívio. E aí, então assim, eu queria trazer essa experiência porque ela é totalmente inútil e totalmente maravilhosa. Maravilhosa, né?

E ver e criar o músculo na criança, né? É claro que eu teria me divertido mais adulta sem estar prestando atenção, mas eu me diverti tanto vendo eles se divertirem também e criando esse músculo. Aí encontra uma pessoa que você não conhece, mas ela te deu serpentina, e o outro viu a criança e ofereceu pipoca. Então é esse estar com o outro, sabe, que eu acho que é totalmente inútil e totalmente maravilhoso, né? Então vai no carnaval sim, mamãe não está perguntando.

MPMichelle Prazeres

Então eu acho que é o vai no almoço, vai sentar no almoço na mesa, que é o vai no aniversário da prima, que é o vai no não sei o quê, que é isso.

CBCris Bartis

Eu fico dobrando a aposta. Então lá em casa a gente já joga, a gente joga buraco. E agora a próxima emboscada é pescar. Que pescar, olha! E é, são, eu acho que o Pedro deu uma dica muito maravilhosa, que é lembre dos momentos marcantes, né? Você vai lembrar dos momentos presenciais. E a hora que você tá falando isso, eu lembrei muito que eu pescava com meu avô, né, que foi quem me levou para pescar. E eu lembro que eu ficava impaciente porque o peixe não vinha, mas quando ele vem, putz, é um guerreiro!

É o inesperado, é o inesperado, é uma vida com mais inesperados, né? Esse é o convite do Mariluz para todos vocês. Obrigada, Pedro. Obrigada, Michele. Michele Prazeres, né? Eu acho esse nome um pouco condescendente, né?

MPMichelle Prazeres

Mas vamos aí. Eu costumo antecipar a piada, porque senão alguém vai fazer. Aí eu falo, é muito bom ter Michele Prazeres trabalhando no Desacelera.

CBCris Bartis

Então assim, já tá posto. É eficiente esse nome, eu achei. Vai ter que mudar. Gente, obrigada, foi um prazer recebê-los. Podem se despedir dos ouvintes.

PBPedro Burgos

Muito obrigado.

MPMichelle Prazeres

Obrigada, Cris, pelo convite. Foi ótima a nossa conversa, passou rápido.

CBCris Bartis

Eu queria que que vocês estivessem aqui para esse momento também ser presencial para vocês. Na impossibilidade, espero que escute com alguém. Um beijo, até semana que vem.

?Voz A

Mamilos.

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