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Vale o Replay: Saúde Social: a importância das conexões para viver bem | Mamilos 530

28 de julho de 202650min
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Saúde Social: a importância das conexões para viver bem | Mamilos 530

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#MamilosPodcast #PodcastBrasil

Participantes neste episódio3
C

Cris Bartis

Host
J

Ju Wallauer

Host
K

Kelsey Killam

ConvidadoAutora, fundadora da Social Health Labs
Assuntos8
  • Vulnerabilidade SocialSistema imunológico enfraquecido · Risco de doenças cardíacas e demência · Impacto na produtividade no trabalho · Custo econômico da solidão
  • Musculatura emocionalAlongar: fazer novos amigos e encontrar comunidades · Descansar: reduzir o ritmo e investir em conexões existentes · Tonificar: aprofundar relações com vulnerabilidade e perguntas significativas · Flexionar: sustentar conexões com intencionalidade e consistência
  • Saúde SocialConexão humana como dimensão da saúde · Solidão vs. Solitude · Impacto da solidão crônica na saúde
  • Ambiente de TrabalhoCultura de conexão e segurança psicológica · Rituais de gratidão e compartilhamento · Valorização da conversa pré-reunião · Programas de conexão interna (Nestlé Brasil)
  • AmizadeBorboleta (muitas conexões casuais) · Vagalume (poucas conexões profundas) · Wallflower (algumas conexões casuais) · Evergreen (muitas conexões profundas)
  • Interações sociaisTecnologia e redes sociais · Aumento de pessoas vivendo sozinhas · Mobilidade geográfica · Planejamento urbano e isolamento
  • Programas SociaisParalelo com a saúde mental nas escolas · Ensino de habilidades sociais e resolução de conflitos · Currículo de conexão e comunidade
  • A Regra 5-3-1 para Saúde SocialInteragir com 5 pessoas novas por semana · Desenvolver 3 relacionamentos próximos · Dedicar 1 hora por dia para conexões
Transcrição67 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
KKKelsey Killam

Quando estamos scrollando nossos telefones ou estamos distraídos pelas notificações, a quantidade total de tempo que gastamos nos nossos celulares significa que estamos passando menos tempo ao vivo com outras pessoas.

JWJu Wallauer

Mamilos, mamilos, mamilos, mamilos.

CBCris Bartis

Mamileiros e mamilhetes, sejam bem-vindos ao nosso espaço de diálogo de peito aberto.

JWJu Wallauer

Eu sou a Juvalauer, eu sou a Cris Bartz, e esse aqui é um Mamilos muito especial para a gente falar sobre um tema novo. Para muita gente ainda, que é a saúde social. Mas antes da gente entrar na conversa, só um minutinho para os nossos anunciantes. Não tem como negar que a ciência e medicina tem voltado aí o seu olhar para o bem-estar nas últimas décadas. E aí, com isso, a gente tá vivendo muito mais. Isso já é uma realidade.

CBCris Bartis

Mas será que viver mais tempo já é o bastante? Ou será que o verdadeiro desafio O que a gente realmente quer é viver mais e melhor.

JWJu Wallauer

Pois é, cuidar do corpo e da mente, claro, é o primeiro passo. Mas no meio de uma rotina entre trabalho, família, mil compromissos, fica aí um desafio: como manter esse cuidado de forma constante, prática e prazerosa?

CBCris Bartis

Todo mundo nessa dúvida. Foi com esse objetivo que nasceu a TotalPass, um benefício de saúde e bem-estar integrado que facilita esse cuidado no dia a dia.

JWJu Wallauer

Em um único aplicativo você tem acesso a milhares de academias e estúdios no Brasil e pode fazer também terapia online, acompanhar de perto sua alimentação e até meditar.

CBCris Bartis

Eu uso bastante, quem me segue no Instagram já viu fazendo mil atividades diferentes. A TotalPez acredita que viver mais e melhor é possível quando o cuidado é completo e quando é acessível para todo mundo.

JWJu Wallauer

Se a sua empresa já oferece TotalPass, baixa aí o aplicativo e comece a usar hoje mesmo esse benefício. E se ainda não oferece, fale com seu RH e peça já.

CBCris Bartis

Vamos começar então. Vocês já ouviram falar dessa tal de saúde social? A gente cresce ouvindo sobre cuidar do corpo, da mente, da alimentação, do sono, mas como anda as nossas conexões?

JWJu Wallauer

A nossa convidada de hoje é a Kelsey Killam, que é mestre em saúde pública por Harvard, autora do livro The Art and Science of Connection e fundadora da Social Health Labs. Ela defende que a qualidade das nossas relações é tão vital quanto o exercício, a dieta, pra gente viver melhor.

CBCris Bartis

A Kelsey já levou essa pauta pra palcos como o SXSW, o Wired Health e até pra Casa Branca. Ela vem acumulando pesquisas e experiências que mostram que cultivar vínculos não é luxo, é uma questão de sobrevivência.

JWJu Wallauer

Então hoje a gente vai conversar sobre saúde social, como ela pode transformar nossa vida cotidiana e de que forma a gente pode repensar o futuro para colocar a conexão humana no centro do bem-estar.

CBCris Bartis

Seja muito bem-vinda, Uma Milus! É um prazer te receber aqui. Eu queria começar perguntando o básico: o que que é essa tal de saúde social?

KKKelsey Killam

Obrigada, eu estou muito feliz em estar aqui com vocês. Muito obrigada. A saúde social é a dimensão da nossa saúde geral e bem-estar que vem da conexão humana. Se pensarmos na saúde física, a gente pensa no corpo, saúde mental na mente, e a saúde social sobre as nossas relações. E nós vimos na literatura e nas pesquisas de décadas de estudos que essas conexões são igualmente importantes como o exercício, o sono, a nutrição, mas nós não necessariamente incorporamos isso no nosso dia a dia, pelo menos em outros países.

Eu sei que aqui vocês brasileiros têm normas culturais maravilhosas, mas muitas pessoas se sentem solitárias no mundo hoje. Na verdade, há uma estatística que eu li em um estudo recente que mostra que para 1 entre 2 brasileiros a solidão é uma constante. E por isso começar a valorizar essa ideia de saúde social e fazer dela uma prioridade nas nossas vidas é muito importante.

JWJu Wallauer

Você acabou de tocar no ponto central da minha dúvida, que é a palavra solidão. Me parece que ela tem ampliado o seu significado ao passo que a vida vai ficando cada vez com mais tarefas a serem cumpridas. Quando você inicia sua pesquisa e ela tem como base as pessoas se sentirem sozinhas, qual é o conceito de solidão que você trabalha?

KKKelsey Killam

Sim, essa é uma ótima pergunta. Então, a solidão é sobre quando a quantidade de interação e os tipos de conexão que a gente está tendo não são suficientes, certo? Sentimos que estamos muito tempo sozinhos, não temos conexões profundas que tenham significado, e é quando nos sentimos sozinhos e de um jeito ruim, certo? E isso é diferente de solitude, que pode ser algo bom. A gente pode estar bem quando está sozinho, principalmente se você é uma pessoa introvertida.

Pode ser bom ter um tempo sozinho. Mas quando a gente sente que não está recebendo conexões o suficiente ou do tipo certo e nos sentimos mal por isso, essa é a solidão que começa a causar preocupação. Agora, todos nós sentimos um pouco disso, certo? É similar a sentir fome ou sede. Sentir solidão é normal e, na verdade, um alerta útil. Mas quando isso se prolonga por tempo demais, é aí que vemos que pessoas cronicamente solitárias têm riscos mais altos de coisas ruins acontecerem. Como doenças cardíacas, demência e depressão, e até de mortalidade precoce.

CBCris Bartis

São, mas o que eu acho que é interessante para a gente entender essa definição, eu tive o privilégio de te ouvir em Austin, eu acho que você deu uma definição bem clara de você pode estar com muitas pessoas ao seu redor, solidão é quando você não vê que você pode contar com alguém, que você tem alguém com quem você pode se abrir sobre um problema. Então eu posso ter uma família numerosa, como no Brasil a gente tem, eu posso ter vizinhos, eu posso ter colegas de trabalho, mas se eu não sinto que tem uma parte que é essencial minha, que eu encontro alguém com quem dividir, aí é quando eu me sinto sozinha.

Eu achei essa definição tão legal, mas isso é o que eu me lembro. Traz o que que, como você define isso.

KKKelsey Killam

Sim, certamente. Você falou exatamente o que é. Você pode ser alguém muito sociável, que vai a festas, a eventos, etc. Ou talvez tenha muitos amigos, esteja sempre interagindo com várias pessoas, mas ainda assim não sinta que é ouvida, que é valorizada e que as pessoas te conhecem profundamente. E nós, como seres humanos, precisamos fundamentalmente sentir que as pessoas sabem quem nós somos de verdade e que nos amam incondicionalmente.

E esse tipo de qualidade realidade de conexão é muito importante. E nessa mesma linha, você pode acabar passando bastante tempo sozinho e ter só alguns amigos próximos ou família que você vê regularmente. Mas se esses vínculos são profundos, você não se sentirá sozinha, certo? Você na verdade terá saúde social e estará muito bem. E essa é uma diferença muito importante.

CBCris Bartis

Outra coisa que você falou, desculpa se é a CDF que tá lembrando do livro da professora, né? Eu anotei, professora. Mas que eu também achei importante pra eu entender, né? Porque pra você ter um remédio, você tem que entender exatamente qual é o problema. E eu achei interessante, ela fala da identificação. Que é, se eu acho que eu sou a única pessoa que se sente daquele jeito, ou que pensa daquele jeito, aí eu me sinto muito sozinho.

Aí eu sinto que eu sou um pária. É esse tipo de solidão que você tá falando. Fala um pouquinho, isso é o que eu me lembro, fala um pouco melhor sobre isso.

KKKelsey Killam

Interessante. Certamente isso é uma parte do todo. Quando a gente se sente que é a única pessoa que está se sentindo daquela forma, acho também, por exemplo, que a gente pode pensar na qualidade e na quantidade dos nossos relacionamentos. Se você tem um número legal de amigos ou interações no seu dia a dia, isso é ótimo, é uma parte disso. E aí temos a qualidade.

JWJu Wallauer

Você está se conectando de forma mais mais profunda com as pessoas.

KKKelsey Killam

E nós precisamos de ambos, certo? A quantidade certa de interação e a profundidade das conexões para termos a saúde social e florescer. E a falta disso pode nos levar a sentir solidão. Mas como você disse também, a gente pode se sentir isolada, como se fôssemos os únicos passando por certas experiências. É por isso que vemos que, por exemplo, se você for diagnosticada com uma doença rara, você pode se sentir muito isolada e sozinha, mesmo que tenha apoio de pessoas para passar por essa situação.

Mas só você está vivendo isso. E é nesse ponto que pode ser uma experiência muito difícil.

JWJu Wallauer

Como a gente chegou até aqui? Porque quando você começa a me explicar o que significa essa solidão e a gente começa a aprofundar sobre como a gente se sente hoje, como você vê o caminho para que hoje essas conexões estejam enfraquecidas? Eu vejo até um lado quando, quando a gente tá conversando sobre isso, que a diversidade aumenta a minha dificuldade de comunicação, que a gente hiperfragmentou os grupos. Tem a ver com isso? Isso talvez seja o efeito colateral de algo bom, da gente reconhecer tanta diversidade.

Mas quais pontos você identifica na sociedade que nos levou até esse momento de precisar olhar para isso como um problema de saúde pública?

KKKelsey Killam

Então, é uma ótima pergunta. Eu queria ter uma resposta única e simples, porque aí a gente teria uma solução fácil, mas infelizmente existem muitas forças em jogo aqui. Por exemplo, uma delas, claro, é o surgimento da tecnologia das redes sociais, a forma como a gente se conecta online, o que muitas vezes é automático e não significativo, certo? Quando nós estamos scrollando nossos celulares, quando estamos distraídos com as notificações, sabe?

A quantidade total de tempo que passamos nos celulares significa que estamos passando menos tempo ao vivo com outras pessoas. A tecnologia é com certeza uma parte disso, mas tem outras forças também, outros aspectos. Por exemplo, nas últimas décadas, o número de pessoas vivendo sozinhas aumentou muito. Então, cada vez mais e mais pessoas têm sua própria casa e alguns estão felizes assim, mas também pode ser um fator de risco para a solidão.

Nós também vemos coisas como pessoas se mudando para lugares diferentes, certo? Eu já morei em 12 cidades em 3 países. Então, é difícil quando você está sempre se mudando, para manter os relacionamentos que construiu e também criar uma nova comunidade no lugar que você está vivendo. E isso também vem aumentando. E tem também coisas relacionadas à forma como as nossas cidades são planejadas. Você pode se sentir muito isolado vivendo em uma cidade muito movimentada, onde você está sempre rodeado de pessoas que você nem sempre conhece.

Você não necessariamente conhece os seus vizinhos ou conversa com eles. Existem diferentes fatores realmente que juntos nos levam a sentir que na sociedade moderna Muitas vezes é difícil ter saúde social. Muitas pessoas sentem isso. E então realmente precisamos fazer duas coisas. Uma é nos empoderar como indivíduos para ter as habilidades e a consciência para saber o que nós podemos fazer em nossas próprias vidas para melhorar a nossa situação e sermos mais saudáveis socialmente.

Mas também coletivamente, nós devemos trabalhar em como podemos criar melhores condições para a saúde social, como podemos mudar a sociedade, criar culturas que são mais conectadas de formas que tenham mais significado.

CBCris Bartis

Quando você fala de mudar a sociedade para que a gente seja mais saudável socialmente, eu acho importante que você traga alguns dados de qual o impacto dessa falta de saúde na nossa vida e na sociedade. Porque pode parecer para a gente, no estágio que a gente tá hoje, que é uma questão de conveniência e não de saúde. Ah, eu prefiro ter boas conexões do que não ter. Mas isso não é uma prioridade, isso não é uma questão de sobrevivência.

E você tem muitos dados para mostrar que isso é uma questão de saúde. Traz alguns deles para gente.

KKKelsey Killam

Quando temos problemas de saúde social, sabemos que afeta todas as áreas da nossa vida. A saúde é a que eu mais foco. E quando a nossa saúde social é fraca, as pessoas têm um risco maior até mesmo para coisas simples, como pegar um resfriado. Tem um estudo muito bom que eu falei, que eu apresentei também na Southern Southwest. As pessoas foram avaliadas durante 2 semanas e tinham que responder todos os dias o quanto elas se sentiam apoiadas e quantas vezes foram abraçadas.

E no final das 2 semanas, elas foram expostas ao vírus da gripe. As pessoas que se sentiam mais apoiadas e receberam mais abraços tinham menos probabilidade de pegar o resfriado e tiveram menos sintomas se pegassem, certo? Ou seja, nosso sistema imunológico é de fato mais forte quando temos esses laços de apoio e mais fraco quando não temos. Coisas simples como essa, mas também no externo, pessoas que carecem de saúde social tem maior probabilidade de sofrer derrame, ter infarto, desenvolver demência na velhice, desenvolver depressão, ter declínio cognitivo e, no limite, pode até ter uma vida mais curta.

Há muitos dados ligando os nossos relacionamentos a quanto tempo vivemos. E o que está claro hoje é que viveremos mais tempo se tivermos esses vínculos mais fortes. Então, a saúde é uma parte muito importante disso e podemos dizer que, individualmente falando da nossa saúde e da sociedade, quanto estamos investindo em saúde? Se investirmos na saúde social das pessoas, haverá um benefício para a economia porque haverá menos gastos em hospitalizações, idas ao pronto-socorro, etc.

Isso também tem um grande impacto no local de trabalho, certo? Então, vemos nos dados que os funcionários se sentem desconectados no trabalho e na vida São menos produtivos, menos engajados, menos inovadores, menos comprometidos. Eles têm mais probabilidade de procurar um novo emprego ou de pedir demissão. Então, tem sim um custo para a economia nesse sentido. Nos Estados Unidos, as pesquisas também mostram que o custo total para a economia da solidão é de 46 bilhões de dólares por ano.

Pela menor produtividade e menor retenção. Isso é significativo, né? E esses são alguns exemplos de que isso não é apenas um tópico delicado. Ah, precisamos de amor. Não, isso é muito sério. Não é só sobre se sentir bem. Nós precisamos levar os relacionamentos a sério porque eles impactam todos nós, individualmente e coletivamente.

JWJu Wallauer

É, há pouco tempo, vamos colocar na última década, a gente vem discutindo sobre a qualidade das relações que a gente tem. E nessa, nessa visão mais, mais profunda das conexões, descobrimos coisas como machismo, o racismo, o bullying, questões de relacionamento que nos fez afastar muito, né, olhar de fora as relações e falar: isso não vale a pena, isso aqui também não vale. Inclusive dentro da própria família. Não, não preciso tolerar isso.

Os relacionamentos tóxicos estiveram em voga e várias cortinas parece que se abriram para a gente avaliar mais as relações. Mas quando você vem com seu discurso mostrando que, peraí, você precisa de conexões, você acredita que a sua proposta é para a gente ser mais flexível com as pessoas que a gente vive, reavaliar isso, ou escolher ainda melhor as relações que a gente precisa ter?

KKKelsey Killam

Ótima pergunta, adorei. Bom, para ser bem clara aqui, a pesquisa sobre relacionamentos e saúde são as relações positivas, certo? As tóxicas, as abusivas, têm o efeito contrário na nossa saúde e bem-estar, com toda a certeza. É muito importante que avaliemos quem são as pessoas em nossas vidas e com quem temos benefícios mútuos, certo? Quem tem amor, respeito e gentileza. Todo relacionamento tem uma certa dose de conflitos e desentendimentos, e isso pode fazer parte de uma relação saudável.

Mas quando cruza aquela linha, aí pode ser algo negativo para nossa saúde social. Mas sim, mas sim, eu diria que existe valor em aprender a ter mais empatia, tentar entender a perspectiva das pessoas e buscar construir pontes entre as diferentes culturas. Sabe, algumas pesquisas mostram que ter saúde social significa ter vínculos diversos e, claro, ter conversas, amigos que têm culturas diferentes, que têm visões diferentes, idades diferentes, trabalham em áreas diferentes.

E esse tipo de diversidade nas conexões é bom para nós, é interessante, é estimulante e nos ajuda a ter essa conexão de formas diferentes. Então tem uma nuance bem interessante aí, né? E se pensarmos individualmente, quem são as pessoas que podem enriquecer nossas vidas? E existe esse valor mútuo? E onde é que a gente vai desenhar a linha e falar: não, essa relação não está boa para mim?

CBCris Bartis

Você, voltando para a questão de saúde pública, eu achei muito interessante o paralelo que você trouxe de que a saúde social vai percorrer o mesmo caminho que a saúde mental já fez. E porque a saúde mental já fez esse caminho, teoricamente vai ser mais rápido. Traz um pouco essa discussão pra gente, essa reflexão pra gente do que que você tá falando.

KKKelsey Killam

Sim, claro. Nos Estados Unidos e no Canadá, pelo menos onde eu passei a maior parte do tempo nos últimos 10, 20 anos, vimos um aumento enorme na indústria da saúde mental e na conscientização sobre saúde mental. Falar de ir à terapia se tornou comum. Celebridades, políticos, todo mundo fala de saúde mental agora, e não era assim quando eu era criança. E o que vemos agora é que, sim, tem muita inovação na área da saúde mental, e essa indústria globalmente deve chegar a mais de 500 milhões de dólares nos próximos 5 anos.

A saúde social está no mesmo caminho, mas ainda está começando. E o que tenho visto, especialmente nos últimos anos, é um grande aumento no número de startups. São fundadores e inovadores que vêm trabalhando nessa área, tentando criar soluções para a solidão ou programas para que a gente tenha mais saúde social. Estamos vendo, sim, que essa indústria está crescendo e vemos que a linguagem está mudando também. Há 2 meses atrás, a OMS, a Organização Mundial da Saúde, lançou um relatório onde a saúde social é considerada igualmente importante à saúde física e mental.

Isso é um marco enorme nesse movimento, ver em nível global que isso está recebendo esse tipo de reconhecimento, e veremos ainda mais. Eu acredito que nos próximos 10, 15 anos, a saúde social também seja tão prevalente como a saúde mental é hoje. Mas eu sei que hoje no Brasil talvez seja um pouco diferente, né? Claro, as culturas são diferentes. Eu não sei se as pessoas falam muito de saúde mental aqui, mas na América do Norte é assim.

JWJu Wallauer

A gente tem falado muito, sim, porque no Brasil a gente tem muitas conexões, mas não quer dizer necessariamente que elas tenham a profundidade que você tá falando para que a gente se sinta, digamos, acolhido no mundo. Então eu queria que você nos ajudasse a identificar o que que é essas conexões que acontecem no dia a dia E o que são as conexões que você tá falando que realmente ajudam você a ter uma boa saúde emocional, social?

Inclusive, os números de pesquisa sobre solidão no Brasil estão muito parecidos com do resto do mundo. Parece contraditório. Como esse povo que pula carnaval e cumprimenta todo mundo ao mesmo tempo se sente sozinho? Então, por favor, aprofunde um pouco mais sobre o que que é essa qualidade de conexão.

KKKelsey Killam

Sim, é muito interessante. Eu estou tentando entender o que está acontecendo aqui no Brasil também, porque parece um pouco contraditório. Quero dizer, vocês têm a reputação de serem muito orientados à família e à comunidade, e ainda assim estamos vendo nos dados que muitas pessoas se sentem desconectadas. Acho que a tecnologia pode ter um papel nisso, certo? Você sabe, as pessoas passam muito tempo scrollando ao invés de realmente se conectar profundamente.

Acho que as gerações mais jovens em particular estão estão enfrentando dificuldades no mundo todo. A maior prevalência da solidão hoje é entre os jovens e a geração Z. E eu acho que precisamos enfatizar e ensinar essas habilidades muito mais cedo, mostrar para eles como eles podem formar essas relações, ser bons amigos, e como resolver conflitos quando as coisas ficam difíceis com alguém. Então, quanto mais cedo a gente começar a distribuir essas ferramentas, melhor vai ser.

CBCris Bartis

Eu acho que o Brasil, para pular um pouco nessa explicação, nessa reflexão sobre o Brasil, acho que a gente é profundamente impactado por tendências globais. Então, tanto individualismo quanto as leis de mercado e a competitividade, quanto os desafios de urbanização que você tava falando, que é você passa a ver em oposição a uma vida numa vila, numa comunidade, numa cidade de interior em que você depende dos seus vizinhos, a vida na cidade grande é muito mais— as pessoas que dividem o espaço com você estão competindo com você o tempo inteiro pela vaga no estacionamento, no trânsito, pela vaga de trabalho, pelo último pacote de bolacha no mercado.

Então é uma dinâmica que não privilegia essa cultura que a gente tem social, eu acho, e que é uma cultura que é globalizada. Tem pouco a ver com a cultura brasileira e tem mais a ver com a globalização, com uma cultura globalizada.

JWJu Wallauer

Deixa eu só acrescentar para ter talvez aqui te apresentar um pouco do nosso país. Eu apostaria em duas, vou chutar aqui, dois elementos que colaboram para essa solidão. A primeira, o tempo. No Brasil você precisa trabalhar muito para conseguir sustentar sua família, então o trabalho ocupa uma parte muito grande da vida, o transporte até o trabalho ocupa muito tempo, então diminui o seu tempo de conexão com outras pessoas. E o segundo elemento, infelizmente, a violência.

Vivemos num país muito violento onde os jovens ficam em casa e de alguma forma a gente a gente sente que estamos protegendo mais esses jovens com eles ali. Os horários para sair, para chegar, contam. Então eu acredito que isso também prejudique a nossa conexão social. Então tempo e violência são elementos que precisam entrar quando a gente olha para países da América Latina em geral, eu acredito. Porém, você traz aqui uma regra muito legal para a gente explicar como que a gente pode cuidar e ter uma coisa prática para cuidar dessa saúde social. Por favor, conta para a gente essa regra dos 5-3-1?

KKKelsey Killam

Claro, com certeza. A regra dos 5-3-1 foi inspirada por pesquisas e pelas experiências de pessoas que são realmente saudáveis socialmente, para ajudar as pessoas a terem um ponto de partida. Então, se você não souber por onde começar, comece aqui. Então, procure interagir com 5 pessoas diferentes por semana para desenvolver 3 relacionamentos próximos e dedicar 1 hora por dia para as conexões. Então, 5 pessoas novas por semana, 3 relações mais profundas e 1 hora por dia para conexões.

Eu estou curiosa para saber de uma perspectiva brasileira se isso parece alto ou baixo.

JWJu Wallauer

Me parece possível o desafio. Se você trabalha fora de casa, necessariamente você vai entrar em contato com outras pessoas. Você propondo 5 na semana, 1 por dia útil, vai de segunda a sexta.

CBCris Bartis

Parece, parece bem fácil, mas aí quando você fala de ter uma conexão significativa, a gente tem necessidades diferentes de conexão, né? O que eu preciso de conexão é muito diferente do meu marido, que é um introvertido. E aí você fez um quiz sobre estilo de amizade que viralizou no New York Times. Eu queria que você falasse um pouco sobre 3 tipos diferentes: o borboleta, vagalume, evergreen e wallflower, para a gente entender quem que a gente é aqui.

KKKelsey Killam

Sim, eu adoro ouvir essas palavras em português, é muito único. E então, realmente, como você falou, cada um de nós tem um estilo quando a gente fala de conexão e saúde social, certo? Na verdade, eu sou introvertida, então preciso de uma certa quantidade de tempo sozinha, outros não são assim. Então eu criei essa fórmula para a gente entender a quantidade e o tipo de conexão que precisamos. A borboleta é alguém que gosta muito de conexões assim, casuais, ok?

Muitas conexões casuais. O vagalume é a pessoa que gosta de poucas conexões profundas, então uma quantidade menor de conexões profundas. O wallflower é aquela pessoa que gosta de algumas conexões casuais, E o Evergreen é alguém que gosta de muita conexão mais profunda. A razão para pensar nisso é entendermos as nossas próprias preferências e basearmos as nossas decisões nelas. Então, se você tem que estar sempre com várias pessoas porque você é extrovertida, ótimo.

Então, que tipo de conexões você gosta? Uma coisa mais casual, mais superficial, ou conversas mais profundas? Gosta de se conectar mais com a pessoa? Prefere ser a borboleta na festa, que é onde você tá voando e conversando com muita gente? Se você é mais introvertido e precisa de menos interação no geral, que tipo de interação você gostaria de ter? Valoriza encontros um a um com um amigo em que há uma conversa mais profunda? Ou então você prefere só ficar ali observando o que tá acontecendo e ouvindo mais desse jeito?

Então esses são os 4 estilos que podem ajudar as pessoas a entenderem quais são as suas preferências.

JWJu Wallauer

Qual é o seu, Juliana?

CBCris Bartis

Eu acho que é mais fácil você dizer qual é o meu e eu dizer qual é o seu. Mas eu, me parece que eu sou o vagalume, que é, eu gosto de ter interações, mas que sejam interações profundas. Eu não me dou bem com o small talk, para mim é difícil. Quando eu vejo duas perguntas, eu já tô lá no fundo. E você?

JWJu Wallauer

Eu gosto de muitas conexões rasas e poucas conexões profundas, porque eu sou uma pessoa que bastante privada. Então nas conexões profundas eu acredito que é necessário uma troca, né? Eu preciso entregar algo profundo meu para receber algo profundo do outro. Então prefiro isso num núcleo pequeno. Mas as conexões mais rasas, a alegria de encontrar os outros, aí para mim pode ser uma multidão.

CBCris Bartis

Não, eu sou a pessoa que conta a vida para moça que sentou do lado no ônibus, entendeu? Na fila a gente já tá conversando sobre grandes questões do mundo, do universo, enfim.

KKKelsey Killam

Eu também sou vagalume.

JWJu Wallauer

Ah, então ela também é vagalume. Pronto, temos resolvido. Agora imagina uma pessoa assim tem como melhor amiga uma vagalume. Imagina como isso acontece.

KKKelsey Killam

Sim, isso é desafiador. É interessante pensar sobre isso em relacionamentos também. Você mencionou que seu marido é mais introvertido, então pensando em casamentos ou nas pessoas com que nos relacionamos, como isso se aplica é muito interessante.

JWJu Wallauer

Bom, em contexto de trabalho você mostra que equipes com vínculos fortes performam melhor. O que que os líderes das organizações podem fazer para incentivar mais e assistir mais os funcionários para essa saúde social corporativa Certo.

KKKelsey Killam

Bom, eu diria que é uma área promissora. Você mencionou que muitas pessoas se sentem sempre ocupadas. Nós temos que trabalhar o tempo todo, passamos muitas horas trabalhando. Muitas vezes passamos mais tempo com os colegas do que com a família. Então o trabalho representa uma oportunidade enorme para a gente melhorar a saúde social, mas não deveria ser a única fonte de conexões, né? Mas é uma oportunidade, sim, e acho que os líderes que priorizam a saúde social no trabalho terão bons resultados.

Até porque há um benefício, sim, para o resultado. Algumas das formas de fazer isso são, antes de tudo, definir intencionalmente essa cultura a partir do topo, modelando isso para outras pessoas. Ou seja, pode ser a partir do primeiro dia que a pessoa entra naquela empresa e é nova na empresa, e ela precisa tomar o café 5 dias da semana com pessoas diferentes para já ir conhecendo todo mundo e se sentindo acolhida. Também você pode ter um lembrete da gratidão para uma vez na semana às sextas essa pessoa falar com um funcionário ou com um par, ou também elogiar alguma coisa que você gosta ou valoriza naquela pessoa.

No final das contas, são coisas assim que a gente pode começar a fazer para inserir oportunidades de conexões mais profundas no trabalho. E acho que qualquer um de nós, seja Wallflowers ou Vagalumes, não quer ser apenas mais um evento de networking, sabe? A gente não quer um happy hour para ficar conversando com alguém aleatoriamente, mas sim conseguir proporcionar estrutura de maneiras mais significativas. Um exemplo que é bem interessante, que vem da Microsoft, é que algumas equipes criaram uma sessão chamada Assuma Suas Falhas, em que o time se reúne e cada um compartilha um erro que cometeu, o que aprendeu e o que faria diferente da próxima vez.

E a pessoa mais experiente na sala é a que fala primeiro, para ser exemplo para as outras pessoas. E elas descobriram que isso cria uma segurança psicológica, um ambiente de apoio acolhedor e uma mentalidade de crescimento, porque todo mundo é muito real e muito aberto. Então isso quebra o gelo. Esse tipo de ritual pode ser muito importante em uma empresa. Outro exemplo que eu adoro é o Hinge, que é um app de encontros muito popular nos Estados Unidos.

Lá, o CEO tem reuniões de equipe executivas a cada semana de 2 horas. Nessa reunião, eles passam os primeiros 30 minutos compartilhando sobre gratidão, ansiedade e esperança relacionada com o trabalho ou a vida pessoal. Mas essa é uma forma para que todo mundo se conheça melhor no nível mais humano e depois sim partir para o trabalho. Mas eles começam a cultura com essa ideia de que nos importamos com conexões, em sermos humanos e nos conhecer melhor, e aí trabalhamos.

Esses são exemplos dos Estados Unidos, mas eu quero saber como é aqui no Brasil. Vocês já devem fazer tudo isso.

CBCris Bartis

A gente tá rindo porque eu falei para ela que Na hora que ela foi falando isso no #SDSW, eu fui falando assim, isso aí, isso aí já é norma social no Brasil. Isso aqui a gente faz. E eu falei que eu achei muito legal porque a gente sempre é corrigido de que a gente não é muito produtivo no Brasil, porque a gente é muito casual e que a gente fica muito nas relações pessoais. E que numa reunião, por exemplo, demora 30 minutos pra chegar no assunto da reunião.

Porque a gente tá falando da novela, do futebol, do filho, que nananã, e que americano vai lá straight to the point, vai lá e fala direto e tal. E ver uma americana falar que o que a gente tava fazendo antes é importante e que isso também ajuda o trabalho, eu achei muito legal. Não quer dizer que a gente não tenha aos poucos perdendo essa cultura, porque a gente tá se moldando. Muitas empresas que são grandes aqui e que que dão exemplo para o mercado são empresas americanas que colocam essa cultura para gente, ou empresas europeias que colocam essa cultura para gente.

Então, evidente que a gente tá mais alinhado com essa cultura de objetividade, de produtividade, e que deixa um pouco de lado. Então, acho interessante ela dizer que, olha só, a conversinha, o papiapinho que tem antes da reunião faz parte da reunião. Porque vai construir a conexão que vai fazer o trabalho funcionar melhor. Acho que você vem para— as coisas que você disse não é que não é uma novidade, mas é muito bom de ouvir aqui no Brasil, de entender que isso também tem valor, que não é só falar de índices e que a conexão humana ajuda o trabalho a fluir melhor, né?

JWJu Wallauer

Aqui na Nestlé Brasil, Tem um programa de conexão entre as pessoas que eu acho muito legal, que é você tá trabalhando num projeto pessoal, você pode postar esse projeto para encontrar alguém na empresa que também queira participar do projeto com você. Então eu acho que são incentivos para conexões mais profundas, né? Porque vocês vão criar alguma coisa juntos a partir de iniciativa própria e não o que o trabalho tá exigindo. Quando você traz essa conversa, eu que olho e falo, imagina, a gente é super social, me faço uma segunda pergunta, que é a profundidade dessa conexão.

E eu volto nisso porque eu acredito que a gente foi para um lugar bastante individual, que eu me sinto muito singular e quero ser abraçado nessa singularidade e na totalidade. E na verdade, as nossas relações, quando a gente, por mais apaixonado que esteja com companheiro, ou por mais que ame um filho, ou por melhor que se dê com um colega de trabalho, existe o conflito, porque nós somos diferentes. E o fato de eu não me dar bem com você em uma determinada perspectiva, pode ser que a gente seja amiga em várias outras perspectivas.

Então eu gostaria que você falasse o que que é essa conexão profunda, para que a gente pudesse sair um pouco dessa superficialidade que a gente fala: eu gosto de todo mundo, eu faço o papinho antes da reunião, eu corro atrás do tri-elétrico, abraço todo mundo na hora do gol do meu time, mas eu me sinto sozinho. Então, quando é que eu me sinto realmente acolhido? O que que é essa pessoa que fala: eu tô bem, Kesley, eu não, minha saúde social tá em dia?

KKKelsey Killam

Muito obrigada por falar tudo que você acabou de compartilhar. Acho que eu diria que o que você está dizendo é que nós todos somos singulares, temos nossos pontos de vista, perspectivas e as coisas que nos empolgam. E precisamos que as pessoas nos aceitem como nós somos, e precisamos poder falar sobre essas coisas e nos conectar a partir delas. E na verdade, a conexão humana é difícil na maior parte do tempo. Os relacionamentos são um desafio, especialmente os familiares, para muita gente, certo?

Seja quando a sua família tem uma visão política diferente ou pontos de conflito, diferenças geracionais, pode ser difícil navegar por isso. Eu adoraria que chegássemos a um lugar em que possamos permitir essas diferenças, entender de onde o outro vem e ainda assim nos amar. Ainda assim sair para dançar e nos conectar para além disso, porque, sabe, é isso que nos torna interessantes, belos e únicos. Então, esse é o X da questão.

Falando sobre o trabalho e como talvez seja menos eficiente gastar 30 minutos conversando, conectando, mas o que a gente está fazendo agora? Claro que vamos usar o nosso tempo com isso. É por isso que nós estamos vivos também, para a gente se divertir, para trabalhar sério, para concretizar coisas, mas também para aproveitar cada dia com significado e propósito. E muito disso vem das conexões.

CBCris Bartis

Eu vou explorar um pouco mais o que você falou de essas causas multicausais da gente tá tão se sentindo sozinho, que enquanto vocês estavam falando eu fiquei pensando numa pesquisa que a gente recebeu aqui também, a pesquisadora chamada Adultopia. E aí ela fala que a gente mudou o ideal de juventude e agora todo mundo quer ser adulto. Os idosos querem demorar, a gente quer demorar de sair de adulto para idoso, que é, eu quero alargar o meu tempo de independência.

E os jovens querem pular logo para vida adulta porque eles querem poder decidir sobre a vida deles. Deles. E a gente conversou bastante naquele programa sobre isso, sobre essa falácia da independência, sobre eu ser independente. E eu lembro que em algum lugar que eu tava ouvindo sobre saúde social, não lembro se era no seu estudo, falava de que também uma forma de você saber se você tá sozinho ou não é: você tem para quem ligar?

Se o carro quebrar às 3 da manhã, você tem alguém para ligar? E eu acho que tem pouco a ver com a qualidade das nossas relações e tem mais a ver com esse desejo, essa utopia, que o estudo fala disso, essa utopia de independência. Me contaram e eu comprei essa ideia de que eu tinha que resolver tudo sozinho. Só que a resposta disso, a consequência disso, não é um sentimento de que eu sou forte, feliz, uma completude. É um sentimento de solidão.

Eu queria saber se essa necessidade de independência aparece nos seus estudos como um dos fatores.

KKKelsey Killam

É muito interessante. Isso conversa bastante com o fato de que não é natural que a gente faça tudo sozinhos. Se pensarmos de onde os humanos vieram ao longo da história, nunca estivemos por aí isolados tentando sobreviver, certo? Nós sobrevivemos e prosperamos em comunidade quando nos apoiamos mutuamente. Cada um tem habilidades e maneiras diferentes de contribuir. Isso está no nosso DNA para querer isso, certo? E embora eu ache que há coisas valiosas em ser independente, eu sou muito independente, certo?

Mas basicamente nós precisamos uns dos outros no final das contas. Seja alguém que te busca no aeroporto, que te leva no pronto-socorro no meio da noite quando você precisa. Então, é essencial termos esses vínculos. E é por isso que eu acho fascinante viajar para lugares diferentes e aprender sobre culturas diferentes e como nos aproximamos disso, porque temos muito o que aprender uns com os outros. Há prós e contras em cada cultura e na forma como abordamos isso.

E eu acho que alguns dos rituais de comunidade e família que nós, na América do Norte, podemos aprender, e vice-versa. E então eu acho que sim, balancear a independência de uma forma boa, mas também realista, e compreender que em uma cidade o sentimento de comunidade, de se sentir apoiada, como se fosse parte de algo maior, isso é vital para quem somos como humanos e para sermos socialmente saudáveis.

JWJu Wallauer

Eu queria que você trouxesse um pouquinho a experiência do Social Health Labs, que você fundou e tem financiado iniciativas ali comunitárias. Quais projetos que mais te emocionaram pelo impacto que eles tiveram e você viu florescer conexões?

KKKelsey Killam

Sim, eu fundei a Social Health Labs em 2020 e uma das primeiras iniciativas foi um programa mensal de financiamento no qual dávamos $1.000 por mês a uma pessoa construtora de comunidade em algum lugar dos Estados Unidos, com uma ideia para conectar vizinhos e aproximar pessoas. E essa iniciativa tem sido uma das mais inspiradoras em que eu já trabalhei, primeiro pela quantidade de pessoas que levantaram a mão dizendo, temos ideias, queremos fazer muito mais do que conseguimos financiar.

E isso é incrível. Ver que existe em nível local muita gente motivada a unir pessoas. Então há muita energia na base e é inspirador ver os projetos que nasceram disso. Então, por exemplo, nós tivemos uma bolsista em Pittsburgh que criou um projeto para conectar novos moradores. E agora, 3 anos depois, o projeto ainda está ativo, chama-se Pittsburgh Social Health, e ele continua até hoje. Nós vimos lindos efeitos em cascata. Para as pessoas que não faziam isso como profissão, nós demos um pouco de dinheiro apenas para ajudar com o pagamento de locais e comidas e coisas assim, mas essa paixão continuou e viveu.

E mais amplamente, o Social Health Lab Insiders fez muita advocacia, trabalhando com muitos parceiros diferentes no governo, assim como muitas ONGs, para gerir um número de iniciativas. Então foi muito significativo.

CBCris Bartis

Falando dessas iniciativas, quando você traz o paralelo com saúde mental, a saúde mental conseguiu entrar dentro das escolas. Então a gente entende que isso é importante, isso tá incorporado de alguma maneira no currículo, no cuidado, na Na nossa expectativa de educação, também educar para isso. Como seria uma escola que inclui a saúde social no aprendizado?

KKKelsey Killam

Sim, boa pergunta. Bem, para tirar uma analogia, eu quero dizer agora que é normal ter aula de educação física nas escolas, certo? Onde os filhos vão e fazem educação física e trabalham seus corpos. Precisamos do equivalente disso para a saúde social, e faz todo sentido. É uma das habilidades mais importantes para prosperar como humanos. Então, uma aula de conexão como essa— eu trabalho com uma ONG chamada Only 7 Seconds, que ensina crianças sobre saúde social.

E eu espero que surjam muitas outras iniciativas e que isso se torne um requisito escolar, para ter isso como um curso, ensinar habilidades sociais assim como ensinamos matemática, química e etc. Mas o que isso realmente ensinaria é, primeiro, ensinar a importância da saúde social, o que é isso mesmo, por que isso importa, por que é tão importante que você tenha amigos e família, e depois como fazer isso. O que é a sua saúde social, como ser um bom amigo, como resolver conflitos, como construir comunidade onde você vive, como fomentar conexões mais profundas e significativas.

Na verdade, ensinando isso como habilidade. Parece loucura que todos estejamos improvisando e torcendo pelo melhor, certo? Nós deveríamos conversar sobre isso, nós deveríamos ter uma educação formal sobre isso, e nós sabemos o suficiente da pesquisa agora e da sabedoria das pessoas para desenvolver esse tipo de currículo.

JWJu Wallauer

Bom, para fecharmos, eu gostaria que você falasse diretamente com os nossos ouvintes, quem tá nos ouvindo aqui hoje. Qual seria o primeiro passo passo que as pessoas podem dar para cuidar da própria saúde social? Como elas deveriam começar a colocar isso no radar, no seu dia a dia? E o início, como destravar?

KKKelsey Killam

E assim, o primeiro passo é realmente você perceber como você está se sentindo. No meu livro, eu explico um processo de 3 etapas para avaliar formalmente a sua saúde social, mas no trata-se de refletir se você tem a qualidade e a quantidade de conexões que te satisfazem, onde há oportunidades para você mudar isso e melhorar. E nele eu compartilho 4 estratégias para você fortalecer os seus músculos sociais, como a gente faz com os físicos.

E a primeira é alongar os seus músculos sociais. Sociais. Se falta conexão, faça novos amigos, encontre novas comunidades que você possa fazer parte. Esse é o passo 1. A segunda estratégia é descansar seus músculos sociais. Então os introvertidos vão gostar disso, certo? Trata-se na verdade de reduzir o ritmo. Talvez você precise de mais tempo sozinho, ou talvez já tenha conexões suficientes e precise apenas continuar investindo nelas.

A terceira é tonificar seus músculos Então, isso é sobre ir mais profundo, certo? Você perguntou bastante sobre isso. Como nós realmente fortalecemos essas relações? Se você já tem a conexão na sua vida, mas você quer ir mais profundo, talvez isso apareça com perguntas diferentes para essas pessoas, perguntas que provocam conversas mais profundas. Talvez isso signifique ser um pouco mais vulnerável, compartilhar um desafio que você está passando e dar a alguém uma oportunidade de te apoiar através disso.

Essas são maneiras que nós podemos aprofundar as nossas conexões. A quarta e última é flexionar seus músculos sociais, sustentar as conexões profundas a longo prazo e garantir que você continue investindo neles. Então isso pode significar um jantar semanal com família e amigos, onde uma vez por semana todos vocês se juntam e estão em uma comunidade juntos. Talvez isso signifique escrever uma carta de agradecimento uma vez por semana e enviar para alguém, certo?

Mas o mais importante é ser intencional, a consistência de tudo isso. Assim como você pode ir ao esporte uma vez por semana ou correr 3 vezes na semana, devemos investir com intenção nos relacionamentos.

CBCris Bartis

Eu gosto demais dessa analogia com músculo porque nos fala que não tem nada de um dom divino que ou você tem ou você não tem. Tipo, ah, eu não consigo mais, eu não sei, sei, eu sou desajeitada para essas coisas.

JWJu Wallauer

Tá tudo bem.

CBCris Bartis

Se você aprendeu a andar e você era desajeitadíssimo e mesmo assim você aprendeu, você vai aprender isso. A gente tem uma entrevista com também uma professora de Harvard que escreveu o livro Talk, Alison Brooks, e ela fala sobre isso. Vale a pena, se você não assistiu esse programa, assiste esse programa porque ela vai falar sobre como é que a gente pode aprender a conversar melhor. Tá tudo bem se você não sente que você tem as habilidades para conversar com quem você não conhece ou para conseguir ir nessa conversa mais profunda, não tem problema.

Você não tá sozinho, dá para aprender. Ela ensina como. Eu acho que também a gente tem que abrir mão desses tabus, né? Aí, eu já deveria saber. Isso atrapalha muito adulto. Não, isso é uma vergonha. Eu já deveria saber. Ninguém deveria saber nada. O mundo tá muito complicado, tá muito complexo. Tá tudo bem a gente ser desajeitado e aprendendo caminho, né?

JWJu Wallauer

Acredito que sim. Acredito que flexibilidade, flexibilizar a ideia de ter amigos que podem pensar diferente de você, pode não concordar com você em diferentes pontos. Há um mundo inteiro tá vivendo uma polarização, né? Estados Unidos talvez esteja com problemas até mais complexos que os nossos no momento sobre isso, mas a gente precisa encontrar mais espaço para viver com o diferente, porque ele também nos alimenta de alguma forma, nem que seja na fricção, mas porque a gente precisa de boas companhias para viver, e elas não são perfeitas, assim como nós não somos.

Então é importante olhar para isso com mais carinho. Kesley, muito obrigada por levantar esses dados, por trazer esse livro interessantíssimo. O Alex vai colocar ele aqui bem bonitinho na capa para que os ouvintes possa conhecer e aprofundar mais no assunto lendo. Foi um prazer te receber, a casa tá sempre aberta, volte quando quiser.

KKKelsey Killam

Muito obrigada, isso foi maravilhoso, eu fico muito grata, muito obrigada.

CBCris Bartis

Muito obrigada para você que ficou com a gente até aqui. E já sabe, seja o algoritmo que você quer ver no mundo, pega esse conteúdo e espalha para todo mundo que precisa ver. Ó, esse é um bom jeito de você treinar o seu músculo social. Manda aquele link, convida para um cafezinho. Beleza? Beijo, até semana que vem.

JWJu Wallauer

Até semana que vem.

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