Devo ficar?
Pesquisa Acadêmica sobre Compulsão por Jogos
Olá, pessoal!
Somos estudantes de Psicologia da PUC Minas (campus São Gabriel) e estamos realizando uma pesquisa acadêmica sobre a experiência de pessoas em recuperação da compulsão por jogos.
Gostaríamos de convidar os ouvintes do podcast Quer Apostar? para colaborar respondendo um breve questionário. A participação é voluntária, anônima e confidencial, e leva aproximadamente 5 minutos.
O objetivo é compreender melhor os desafios, vivências e processos de recuperação relacionados ao transtorno do jogo, contribuindo para a produção de conhecimento científico e, futuramente, para ações que possam beneficiar outras pessoas que enfrentam essa realidade.
Acesse o questionário pelo link: https://forms.gle/sXT4HSHXxfSpEzbJA
Agradecemos imensamente a sua colaboração. Sua experiência é valiosa e pode ajudar muitas pessoas.
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O "Quer Apostar?" é um podcast sobre vício em apostas, recomeços e histórias que poderiam ser a sua.
Esse espaço é pra você que já se perguntou: "Será que eu tô no controle?"
Ou pra quem só quer ouvir histórias reais, com afeto e sem julgamento.
Link para a plataforma de Autoexclusão de Apostas do Governo Federal:
https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/autoexclusao
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💌 Quer mandar sua história: queroapostarpodcast@gmail.com
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- A história de Natália e o vício do marido em apostasAlexandre com personalidade viciada·perdas financeiras do marido·Natália descobre o problema·impacto na vida familiar
- O impacto do vício em jogos na vida de quem conviveNatália exausta com a situação·planos de ter um segundo filho interrompidos·medo de confiar novamente·dúvida sobre permanecer no relacionamento
- A importância de cuidar de si ao lidar com a dependência alheianão tomar decisões sozinha·Alexandre reconhece o problema e busca ajuda·ludopatia não é só força de vontade·perdas emocionais e quebra de confiança
- A experiência pessoal da host Pâmela com a ludopatiaPâmela também é esposa de ludopata·podcast nasceu da experiência pessoal·não é psicóloga nem pesquisadora·importância de contar histórias sem julgamento
- A necessidade de apoio e limites para familiares de ludopatasbuscar apoio profissional·grupos de apoio para familiares·cuidar de si antes de cuidar da relação·estabelecer limites
Oi você, eu sou a Pâmela e esse é o Quer Apostar, um podcast que conta histórias reais sobre o impacto que os jogos de azar online podem ter na vida das pessoas e de quem está ao redor delas. Eu acho que a gente passa boa parte da vida tentando não pensar muito no que pode dar errado. A gente faz planos, guarda dinheiro, imagina os próximos anos e vai seguindo, porque no fundo a gente gosta de acreditar que sabe o que vem depois.
Só que a vida tem dessas, né? Ela entrega uma caixinha, a gente abre achando que sabe o que tem dentro e descobre que tava completamente enganado. E algumas surpresas não mudam só o dia em que acontecem, elas mudam o futuro que você tava planejando. Essa é a história da Natália. E antes da história de hoje, eu queria fazer um convite rapidinho. Eu recebi o pedido de um grupo de estudantes de psicologia da PUC Minas, do campus São Gabriel, que tá realizando uma pesquisa acadêmica sobre a experiência de pessoas que estão em recuperação da compulsão por jogos.
Então, se você já viveu essa experiência e está em recuperação, talvez você possa contribuir com essa pesquisa respondendo ao questionário que eles prepararam. É anônimo, confidencial, leva cerca de 5 minutos e a coleta das respostas fica aberta até o dia 30 de setembro desse ano. Eu vou deixar o link do questionário na descrição desse episódio. E se você puder participar, a sua experiência pode ajudar a produzir conhecimento sobre recuperação e sobre uma realidade que a gente tanto conversa por aqui.
Bom, agora sim, vamos para a história de hoje. A Natália tem 34 anos e o marido dela, o Alexandre, tem 35. Eles estão juntos há quase 15 anos, são casados há 8 e têm um filhinho de 3. E antes de chegar na parte das apostas, a Natália conta uma coisa sobre a família do Alexandre que é importante para entender um pouco de onde ele vem. Ele cresceu numa família com muitos vícios, tinha jogo, cigarro, álcool e também muitos traumas relacionados a isso.
Ela, por outro lado, nunca tinha convivido com alguém que tivesse um vício antes de conhecer o Alexandre, então ela não tinha muito essa referência, não sabia exatamente o que observar ou em que momento uma coisa que parecia só um interesse começou a virar um problema. A Nathália diz que o Alexandre sempre teve uma espécie de personalidade viciada. Não no sentido de que ele já tivesse um vício, mas que ele se apaixona, ele se empolga muito com as coisas.
Quando ele descobria algo que parecia interessante, ele ia atrás mesmo. Ele queria entender como funcionava, quanto custava, se dava para ganhar dinheiro com aquilo. E aí ele acabava se envolvendo bastante. Teve época que ele se interessou por ações, depois teve uma fase em que ele comprava e vendia action figures, e teve também uma época em que ele começou a ir para o Paraguai e comprar algumas coisas assim mais ligadas à tecnologia e revender por aqui.
Era sempre essa lógica de descobrir alguma coisa que pudesse, além de interessar, render um dinheiro extra. Isso foi acontecendo ao longo dos anos com assuntos diferentes, mudava o interesse, mudava atividade, mas tinha uma coisa que permanecia: o Alexandre gostava de encontrar uma maneira de fazer um dinheiro a mais. E naquele momento isso não parecia necessariamente ruim para Natália, pelo contrário, podia até parecer uma qualidade, né?
Pô, o cara tá trabalhando, tá cuidando das contas e ainda tá procurando uma forma de aumentar a renda da família. E ao mesmo tempo O Alexandre, ele era muito responsável com dinheiro. Isso é uma coisa que a Natália faz questão de falar, porque ele nunca foi aquele cara que atrasava a conta, que gastava sem pensar, que vivia estourando cartão. Muito pelo contrário, ele quase não usava o cartão de crédito e ele odiava parcelar as coisas.
Então, até aquele momento, ela tinha uma imagem do marido como uma pessoa financeiramente responsável, apesar dessas várias fases de tentar ganhar um dinheiro a mais. E aqui a gente tem que abrir um adendo, que a Natália e o Alexandre, eles dividem as despesas da casa. Então cada um tem o seu salário, cada um junta o seu dinheiro, e aí, ah, a conta de luz deu R$300, R$150 para cada um. A conta de água deu R$250, R$125 para cada um.
Ah, tem a prestação da casa que é R$2.000, R$1.000 para cada um. Então assim, tudo muito bem dividido desde o começo do namoro e o que sobra cada um investe, guarda, então é cada um ali com o seu dinheirinho. E quando eles querem comprar uma coisa em conjunto, eles conversam junto ali, se resolvem, né, quanto que dá para cada um, mas assim, sempre deu certo. Até começarem as apostas esportivas. No começo, a Natália sabia que o Alexandre apostava de vez em quando, principalmente porque os amigos do trabalho também apostavam e eles conversavam sobre os jogos, faziam apostas juntos, todas as coisas.
Não era uma atividade que ele escondia dela, não era uma coisa que naquele momento parecia estar tomando conta da vida dele, era só mais uma coisa que ele fazia, assim como ele já tinha feito várias outras coisas ao longo dos anos. Até que ela descobriu que ele tinha perdido R$5.000 das economias dele. E aí ele falou para Natália que não ia jogar novamente, e ela acreditou, chocada, mas Ela acreditou porque até então ela não tinha um motivo para imaginar o que ia vir depois.
Ele era o marido dela, uma pessoa que ela conhecia há muitos anos, que sempre tinha sido responsável com dinheiro. Ele tinha perdido uma boa quantia, mas ele tava dizendo que ele não ia fazer aquilo novamente. Então, para ela, aquilo terminava ali. Só que não terminou. E aí, um tempo depois, a Natália precisou sair de casa por 2 semanas porque a mãe dela ficou doente, morava em outro estado, ela foi para lá para cuidar. E foi nesse período que o Alexandre voltou a jogar.
E dessa vez ele perdeu mais R$5.000 e pegou R$15.000 emprestado para continuar jogando. Quando a Natália descobriu, ela ficou chocada porque agora não era só o dinheiro que ele tinha juntado que tinha ido embora. Além dos R$5.000, né, ele tinha perdido mais R$5.000 E para continuar apostando, ele tinha colocado mais R$15 mil de uma dívida nas costas, totalizando R$25 mil. Ele ficou totalmente arrasado com o que tinha feito. Ele dizia que aquele tinha sido o pior momento da vida dele, que ele odiava tudo aquilo e que ele nunca mais ia jogar.
E mais uma vez, ele pediu para a Natália confiar nele. Ele dizia que não tinha problema, que ele tinha força de vontade, que ele conseguia parar. E ainda assim, com aquele alarme soando nos ouvidos dela, ela confiou. E um tempo depois, o Alexandre voltou do trabalho olhando para baixo. A Natália percebeu que tinha alguma coisa errada, e foi então que ele falou que tinha feito de novo. E dessa vez o estrago tinha sido maior. Ele pegou mais R$15 mil de empréstimo, estourou outros R$20 mil do cartão e esvaziou praticamente todos os R$80 mil que ele tinha nas próprias economias.
Então, gente, se a gente colocar essa conta na mesa, é muita grana. E para Natália, justamente aí que cai a ficha do tamanho do problema que ela tá enfrentando. Ela disse que ela ficou tão em choque que ela mal conseguia respirar. E ela fez questão de explicar que não é jeito de falar, ela realmente sentiu que o ar não vinha direito. Era muito dinheiro, gente, muita coisa que levou muito tempo para guardar. E não é assim para pagar essa dívida, né?
Quem dera pagar a dívida e ainda ter que juntar de volta todo o dinheiro que ele tinha guardado. E ela falou que ela acha que chega uma hora que a cabeça simplesmente não consegue acompanhar. Ela olhava para o marido, olhava para aquela situação e pensava: não é possível, Como é que a gente chegou aqui? E ela tava ali tentando respirar e ao mesmo tempo tentando entender o tamanho do buraco que eles estavam, porque não era uma dívida pequena que apareceu de repente, era uma quantidade de dinheiro que o Alexandre tinha levado meses, anos para juntar e agora simplesmente tinha desaparecido.
E tem uma coisa que no meio daquele choque todo fez a Natália perceber que pelo menos uma parte dela tava protegida, né, porque eles não tinham contas conjuntas. Então as economias dela não tinham sido tocadas, os cartões dela também não. Então mesmo com todo aquele caos, ela conseguia olhar para as próprias contas e saber que aquilo ainda tava ali. E isso era importante porque o tamanho do dinheiro que o Alexandre tinha perdido era absurdo.
Ela não sabe quando que ele vai conseguir juntar esse dinheiro de novo e pagar as dívidas que ele ainda tem. Só que dessa vez ainda assim aconteceu uma coisa diferente: o Alexandre, ele reconheceu que ele tem um problema. Ele fez a autoexclusão dos aplicativos que ele usava ali pelo site do governo, ele colocou o gambá no celular, foi a algumas reuniões já dos Jogadores Anônimos e ele tava disposto a entregar pra Natália o controle total das finanças.
Então agora existem atitudes, não é só mais uma promessa de eu nunca mais vou jogar. Só que a Natália, ela ainda tá tentando colocar os dois pés no chão depois desse tombo. E tem uma parte dessa história que não tem como colocar numa planilha. A Natália tá exausta. Ela falou que ela não sabe se ela consegue lidar com todo esse estresse, porque apesar do Alexandre ter feito tudo isso, quem também tá tendo que lidar com as consequências é ela.
É ela que agora precisa pensar nas dívidas, no dinheiro, na segurança da família, no que pode acontecer daqui para frente, em como confiar novamente em alguém que já prometeu que não ia fazer isso outra vez. E ali no meio de tudo, né, tinha uma vida que ela tava planejando, porque ela tava literalmente planejando ter um segundo filho, né, ela e o Alexandre. Ela é filha única, ela sempre teve esse sonho de que o filho dela tivesse um irmão.
Era uma coisa que ela imaginava para família, né, uma coisa que tava nos planos dela. E agora ela disse que ela sabe que isso não vai acontecer, e é uma das partes mais tristes para ela, né, gente, porque além do dinheiro mudou tudo, né? Não é só o que aconteceu com as economias ou com os empréstimos. De repente ela tá tendo que olhar para uma vida que ela imaginava para os próximos anos e perceber talvez que aquela vida não exista mais.
E é por isso que a pergunta dela não é simplesmente como eu faço para ajudar o Alexandre a parar de jogar. Ela tá se perguntando: e eu? Como eu fico nessa história? Ela não sabe o que ela precisa fazer para garantir a própria segurança. Ela não sabe até onde ela pode confiar nas mudanças que o Alexandre tá que ela tá tentando fazer. E principalmente ela não sabe se ficar do lado dele significa aceitar viver com esse medo de novo.
Ela chegou num ponto que ela tá se perguntando se deixar o marido é a única opção que ela tem. E é uma pergunta muito difícil, né, porque ela não tá dizendo que ela deixou de amar o marido, ela tá tentando descobrir se ainda é possível construir uma vida com ele sem colocar ali a segurança dela e a do filho deles em risco. E agora ela sabe de uma coisa que antes também ela não sabia, né, que uma promessa ela pode ser sincera e ainda assim não ser suficiente.
E a Natália tá tentando entender isso agora, se as atitudes que o Alexandre começou a tomar são o começo de uma mudança de verdade, ou se ela ainda precisa se afastar para conseguir ficar segura. E no fim das contas, né, ela não tá se perguntando apenas se ela deve ficar ou ir embora, Ela tá tentando descobrir se existe um jeito de ficar sem se perder junto. E principalmente quem chegou agora e não quer apostar, talvez também esteja se perguntando: tá, Pamela, e quem é você aí pra ficar contando essas histórias?
Você é psicóloga? É pesquisadora? É especialista em alguma coisa? Até porque eu tenho recebido muito essa pergunta ultimamente, na DM do meu Instagram ou por email, empresas entrando em contato. Até reportagens. E eu digo que não, gente, eu não sou psicóloga, não sou pesquisadora, eu não tô aqui para dar diagnóstico ou dizer para ninguém o que deve fazer com a própria vida. Eu tô aqui porque eu também sou esposa de um ludopata e foi justamente daí que nasceu o Quer Apostar.
Eu também cheguei nesse assunto pela porta da família. Eu também fui aquela pessoa que precisou tentar entender o que tava acontecendo dentro da própria casa. Que começou a pesquisar porque precisava entender uma coisa que até então eu não entendia. E quanto mais eu pesquisava, mais eu percebia que aquilo que eu tava vivendo não era uma história isolada. Tinha muita gente vivendo coisas parecidas, gente que tava perdendo dinheiro que não tinha, gente que tava escondendo dívida, gente que tava tentando ajudar o marido, a esposa, o filho, o irmão, gente que tava exausta.
E muitas vezes sem saber nem por onde começar. E foi aí que eu comecei a perceber que essas pessoas também precisavam de um espaço para contar o que elas estavam vivendo. Então, quando eu sento aqui para contar a história da Natália, eu não tô falando de um lugar de quem sabe mais do que ela, muito pelo contrário. Eu sei o que é ouvir uma história dessas e reconhecer pedaços da sua própria história ali no meio. Eu sei o que é olhar para a situação envolvendo o jogo e pensar, meu Deus, e agora?
E foi por isso que eu comecei a fazer esse podcast, não porque eu tivesse todas as respostas, eu não tinha. Na verdade, eu comecei com muito mais perguntas do que respostas e eu continuo com elas. E nesse último ano eu venho estudando, pesquisando, trocando ideia com outros profissionais e principalmente ouvindo pessoas, pessoas que jogaram, pessoas que estão tentando parar, e pessoas que, como eu, estão do outro lado, convivendo com alguém que tem um problema com jogo.
Então, se você chegou agora e tava se perguntando por que eu tô aqui falando sobre isso, é por causa disso. Eu estou aqui porque essa também é uma história que atravessou a minha vida, e é justamente por isso que eu queria tanto que essas histórias fossem contadas sem julgamento. Porque quando você tá dentro de uma situação assim, a última coisa de que você precisa é de alguém olhando de fora e dizendo simplesmente é só parar.
Não é tão simples. E eu acho que a história da Natália mostra muito bem isso, que ela não tá tentando decidir apenas o que fazer com o problema de jogo do Alexandre, ela tá tentando descobrir o que fazer com a própria vida depois que o jogo entrou nela também. E é nesse momento que a gente abre o Cartas na Mesa com a psicóloga Yara Simões. E vale lembrar, essa conversa não substitui terapia e nem é um diagnóstico. É um espaço de informação e reflexão.
Antes de começar, eu quero agradecer a Natália por compartilhar a história dela com o Alexandre, porque essa é uma história muito mais comum do que a gente pode imaginar. Quando falamos sobre dependência em jogos e apostas, é muito comum que a gente olhe apenas para quem joga, para as dívidas, para as recaídas, pro processo de tratamento dessa pessoa. Mas existe um outro lado que também precisa ser cuidado, que é o lado de quem convive, de quem ama e de quem também sofre as consequências desse vício.
E como essa história foi contada pela Natália, que trouxe suas dúvidas e suas angústias, eu quero focar nisso. Principalmente, eu quero começar pela pergunta pergunta que ela faz no final da história, que é: eu devo ficar ou ir embora? Natália, essa é uma resposta que só você pode construir, mas existe uma coisa bem importante: você não precisa tomar essa decisão sozinha, principalmente em um momento de tanta dor, medo e insegurança.
Quando estamos em um estado de choque, como você descreveu, é muito difícil enxergar todos os caminhos possíveis. Buscar apoio pode te ajudar a entender melhor o que você sente, quais são os seus limites, quais as escolhas que fazem sentido para sua vida. Sobre o Alexandre, é importante reconhecer que algumas atitudes que ele tomou caminham bem na do tratamento. Ele falou sobre o problema, ele procurou um grupo de apoio, bloqueou o acesso aos aplicativos, aceitou mudanças e ajuda no controle financeiro.
Mas a gente também precisa lembrar de uma coisa: a ludopatia não é simplesmente uma questão de força de vontade. O tratamento envolve entender o que aumenta a chance nessa pessoa apostar? Quais são os gatilhos? Quais consequências imediatas reforçam esse comportamento? E quais novas estratégias precisam ser construídas? Mas agora eu quero voltar para você, Natália, porque ser rede de apoio de alguém que enfrenta uma dependência também exige cuidado.
Muitas vezes O familiar começa a tentar controlar tudo, tenta resolver, proteger e tenta evitar uma nova queda. Sem perceber, essa pessoa começa a carregar um peso que não é só dele. No seu caso, existe algo muito importante também: você perdeu algumas coisas nesse processo. Talvez não sejam as mesmas perdas financeiras do Alexandre, Mas existem perdas emocionais importantes. Você perdeu a sensação de segurança, teve planos interrompidos, precisou repensar sonhos que pareciam certos, como desejo de uma segunda gravidez, e isso também precisa ser acolhido.
Além disso, existe uma quebra de confiança, e reconstruir confiança leva tempo. Não acontece apenas porque alguém prometeu que vai mudar. A confiança volta quando existem novos comportamentos repetidos, consistentes e ao longo de um tempo. Outro ponto importante é quando você fala sobre a história de vida do Alexandre. Na psicologia comportamental, nós entendemos que a nossa história influencia a forma como aprendemos a lidar com o mundo.
Ambientes onde alguns comportamentos aparecem com frequência podem ensinar determinadas formas de enfrentar problemas, emoções e algumas dificuldades. Mas isso não significa que alguém está condenado a repetir uma história. Novos comportamentos podem ser aprendidos, novos caminhos podem ser construídos, só que isso leva tempo. Quando você diz: eu fiquei tão em choque que mal conseguia respirar. Eu quero parar um pouco nessa frase porque é muito importante.
Existe muito sofrimento também em quem está ao lado de alguém que está em recuperação. São dores diferentes, mas são dores intensas. Quem enfrenta o vício sofre, mas quem acompanha também pode sentir medo, raiva, tristeza, insegurança e até culpa. E todos esses sentimentos precisam ter espaço. Por isso que a minha sugestão é: antes de você tomar qualquer decisão definitiva, cuide de você, porque qualquer escolha terá consequências.
Ficar terá consequências, ir embora também. E você precisa estar fortalecida para lidar com qualquer uma delas. A terapia pode ser um espaço importante para organizar tudo isso, para entender seus limites e para tomar uma decisão mais consistente. Grupos de apoio para familiares também podem ajudar. Conversar com pessoas que vivem situações parecidas traz acolhimento, traz troca e mostra que você não tá sozinha. Sozinha nesse processo.
Natália, para finalizar, eu quero reforçar algo: cuidar de alguém não pode significar abandonar você. Você pode amar uma pessoa e reconhecer suas próprias necessidades. Você pode apoiar alguém e também estabelecer limites. Antes de decidir como cuidar dessa relação, cuide primeiro da pessoa que quem também foi afetado por tudo isso, que é você. A resposta tende a vir com mais clareza quando você estiver acolhida, fortalecida e conseguindo olhar para essa situação além da dor desse momento.
Eu desejo que você fique bem. Meu nome é Yara Simões, eu sou psicóloga clínica e do esporte, e você pode me encontrar no Instagram @YaraSimões, Yara com Y. Um beijo e até a próxima!
E se essa história te atravessou, talvez a sua também mereça ser contada. Obrigada por ouvir até aqui. A gente se encontra no próximo episódio. E até lá, quer apostar que você não tá sozinho?
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