Dopamina
Tem vícios que chegam destruindo tudo de uma vez. E tem outros que chegam devagarinho… sem fazer barulho.
O episódio de hoje do Quer Apostar? não fala sobre apostas online, mas fala sobre dopamina, comparação, recompensa rápida, ausência… e sobre perceber quando alguma coisa começou a ocupar espaço demais na nossa vida.
Talvez você se identifique mais do que imagina.
- Vício em Redes SociaisDopamina e recompensa rápida · Comparação social online · Impacto na saúde mental · Percepção de ausência
- Perseveranca e SuperacaoPercepção e reconhecimento do problema · Desmame gradual das redes · Busca por ajuda profissional
- Infância e padrões familiaresAmbiente familiar rígido · Busca por refúgio no celular
- O papel da tecnologia na sociedadeUso de tecnologia como fuga · Impacto na vida offline
- Impacto das Redes SociaisMudança do feed para conteúdo infinito · Pressão por conteúdo constante
Quando o e-mail da Priscila chegou, eu achei óbvio que ia ser mais uma história sobre apostas. Mas já na segunda linha, eu percebi que não. E eu nem imaginava que ia falar sobre vício, só que de um jeito que a gente quase nunca percebe. Ela me escreveu para compartilhar um ramo que o Quero Apostar tinha tocado e que talvez eu nem imaginava.
E eu realmente não imaginava. Então esse episódio, ele é um pouquinho diferente. Eu não vou falar sobre vício em apostas. Mas eu quero muito te convidar a ficar. Porque essa história me fez refletir de um jeito que eu não estava esperando. E talvez ela faça isso com você também. Mesmo não sendo aposta, é algo que também atravessa a nossa rotina de um jeito muito silencioso.
Ah, e tem mais uma coisa nova por aqui. A partir desse episódio, a gente vai ter a participação da psicóloga Yara Simões. Arroba Psico Yara Simões. Que é psicóloga clínica e do esporte. E que de um jeito muito generoso, topou caminhar com a gente nessas histórias. E no final do episódio, vai ser o momento que a gente vai ter para colocar as cartas na mesa. É quando ela entra para ajudar a gente a entender melhor o que está acontecendo ali.
Trazendo contexto, trazendo clareza e também compartilhando algumas estratégias a partir do olhar de quem estuda e acompanha isso de perto. Mas é importante dizer, gente, isso não substitui terapia. Não é diagnóstico, não é uma solução pronta. É um convite para entender e, se fizer sentido, buscar ajuda com alguém que possa te acompanhar de verdade. Então agora, vem comigo!
A Priscila, ela mora no interior e disse que ela não aposta nem que consegue pegar o ônibus no dia seguinte. E é por medo mesmo, né? Esse medo veio depois de adulto, acho que a gente também tem um pouquinho, né? Medo de cair em golpe, de ser enganada, de colocar dinheiro numa plataforma e ver ele simplesmente sumir.
Então, né, a aposta nunca foi o caminho dela. E aí fica aquela pergunta meio suspensa, né? Então, por que ela estava me escrevendo? Ela disse que mesmo sem nunca ter apostado, o podcast ajudou ela a perceber um outro vício, né, que também não faz barulho ali quando chega, mas que se a gente não olha com cuidado, ele também pode crescer e virar outra coisa lá na frente.
A Priscila é a filha mais velha de uma família onde o controle sempre foi muito presente. Então, desde pequena, tudo tinha hora. Tarefa, rotina, até o banho. Começava com uma hora certa e tinha que terminar em sete minutos.
Sete, nenhum a mais. E crescendo num ambiente assim tão medido, tão cronometrado, sendo uma criança tímida e com pouca interação, além da escola, ela encontrou um lugar onde dava para respirar um pouco. O celular.
Foi ali que surgiu um tipo de refúgio, um espaço sem cronômetro, sem alguém dizendo quando começar ou parar. Um lugar onde pela primeira vez talvez ela pudesse só existir no próprio ritmo. E não era luxo, tá gente? Era uma sobrevivência digital da juventude dos anos 2000. Porque, atenção jovens!
Houve uma época em que para mandar uma mensagem você precisava pagar. A gente colocava o crédito no celular para poder enviar essa mensagem, além de fazer ligação.
Então, a Priscila, ela conta que vivia juntando moedinha para conseguir colocar 15 reais de crédito, fazendo conta para aquilo durar o mês inteiro. E tinha toda uma engenharia social envolvida. Pensar em trocar de operadora, só porque uma delas tinha SMS ilimitado, coisa que a mãe dela nunca deixava, né? E usar o lendário crédito confiança da Oi, que basicamente era um...
Toma aqui um dinheiro que você claramente não tem e a gente conversa depois. E a gente aceitava, só que depois quando a gente botava o crédito, automaticamente caía aquilo que a gente tinha emprestado com juros, obviamente. Então dá pra imaginar o tamanho do alívio quando o WhatsApp apareceu. Porque de repente não precisava mais calcular se valia a pena gastar um SMS com um Oi Sumida.
Não precisava nem escolher estrategicamente para quem mandar mensagem antes dos créditos acabarem. Era só abrir o aplicativo e conversar. E junto com ele veio o Instagram. E ela se jogou.
Sem Facebook, porque se a mãe dela conhecia, tinha regra, tinha idade mínima, mas o resto passou meio despercebido. Ninguém ali em casa entendia muito bem como funcionava. E foi justamente nesse espaço meio invisível que ela encontrou uma fresta. Pequena, mas suficiente.
uma janela para o mundo de fora, um lugar onde ela podia conversar, ver outras vidas, existir de um jeito que não cabia dentro da rotina cronometrada que ela vivia. E sem perceber, aquele refúgio foi ficando cada vez mais confortável e mais necessário.
Só que o tempo passou e as redes mudaram. E o jeito de usar mudou junto sem ninguém perceber exatamente quando aconteceu. Porque o Instagram que a Priscila conheceu lá no começo não tem nada a ver com o de hoje. Em 2013 o feed acabava. Você rolava a tela até chegar num ponto que não tinha mais nada novo. E pronto, era isso. Não tinha stories, não tinha reels.
Não tinha essa lógica infinita que parece sempre ter mais um vídeo esperando você ficar. Era tudo mais simples. Era foto de comida, foto tremida, filtro exagerado, legenda enorme contando o dia ou só um emoji qualquer. Não existia ainda essa pressão de transformar a própria vida em conteúdo o tempo inteiro.
E pra ela, aquilo significava muito mais do que só uma rede social. Era o jeito de participar do mundo. Ela entrava ali pra acompanhar os amigos, ver o que eles estavam fazendo e sentir que fazia parte de alguma coisa fora daquele ambiente tão controlado. Porque assim, enquanto outros adolescentes saíam, iam na casa um dos outros, conviviam, ela não podia nem levar ninguém e nem ir.
Então aquele quadradinho na tela virou o jeito possível de estar lá fora. Só que sem perceber, esse lugar que começou como refúgio foi ocupando cada vez mais espaço. O que antes tinha fim, deixou de ter. O que era só uma olhadinha, viraram horas passando sem sentir. E aquela sensação de conexão foi se misturando com hábito e com rotina.
Ela mesma disse que foi ficando completamente viciada em todas as redes, mas sem perceber exatamente quando aquilo aconteceu. E talvez seja justamente isso que torne esse tipo de vício tão difícil de identificar, porque ele não chega fazendo barulho.
Não tem um grande acontecimento, não tem um alarme dizendo você passou do limite. Ele só vai se encaixando na rotina da gente de um jeito tão natural que quando vê já virou a primeira coisa que você pega ao acordar e a última antes de dormir.
E foi nessa parte, quando eu li o e-mail dela, que essa coisa ficou muito clara pra mim. Tem tudo a ver. Esse mecanismo das redes sociais é muito parecido com o das apostas. E tudo gira em torno de recompensa imediata, de dopamina, pequenas doses o tempo inteiro. Aquela sensação de expectativa constante, como se o próximo vídeo fosse finalmente ser um vídeo interessante. O vídeo útil, o vídeo engraçado.
Aquele que vai te ensinar alguma coisa, vai mudar seu dia, distrair sua cabeça, preencher aquele vazio de 5 minutos. E aí você fica. Mais um vídeo, mais uma rolada no feed, mais uma olhada rápida. Igualzinho aquele joguinho que faz você continuar apertando o botão, porque vai que agora dá. Só que nas redes, isso vem disfarçado de produtividade, de entretenimento, de conexão e de informação.
Então parece inofensivo, parece normal, até porque todo mundo faz. E é por isso que não é nada óbvio perceber quando a relação saiu do saudável e começou a virar dependência.
Porque ninguém sente que está entrando num vício. A pessoa só sente que está cansada, está entediada, ansiosa e pega o celular quase sem pensar. Até o dia que percebe que já não consegue mais ficar em silêncio. Esperar numa fila, assistir uma série, conversar ou até descansar sem precisar checar alguma coisa no meio.
Enfim, né? No ano passado, a vida dela mudou de um jeito enorme. A filha nasceu. E, de repente, tinha uma outra vida ali, pedindo presença, pedindo olhar, pedindo troca. Mas ela estava na tela, 200% do tempo, como ela mesma descreve. E essa parte dá um aperto quieto, porque ela conta que ela chegou a achar que a filha podia ser autista, porque não olhava nos olhos dela.
Até perceber que a filha não olhava porque ela também não estava olhando. Ela estava ali, mas não estava. E foi aí que alguma coisa virou. Ela viu que precisava mudar essa situação. Então ela começou do jeito que dava. Aos poucos, desmamando.
se afastando, criando espaço, até chegar no hoje, onde ela não tem mais redes sociais. Não como uma regra eterna, não como um ai, nunca mais, como uma escolha mesmo, um cuidado com ela mesma. Pode ser que um dia ela volte, né? Ela mesma diz quando ela soubesse controlar, mas por enquanto é isso. E como mais um passo, ela prometeu começar a terapia com uma psicóloga que entende esse tipo de processo.
E eu achei esse estalo da Priscila algo muito bonito, porque não foi um grande colapso, foi uma percepção. Teve aquele instante em que ela olhou para a própria vida e reconheceu um padrão. Como ela mesma explica, esse tipo de vício não começa grande, ele começa como um passatempo, como uma distração, como um jeito de esvaziar a cabeça. E aí, vira o que você faz quando tem um tempinho, depois quando está entediado, até o ponto em que você passa a evitar o tédio só para continuar ali.
E ela viveu isso tanto nas redes sociais quanto nos jogos de celular. Aqueles joguinhos, sabe? Tipo o nonograma. Foram dois caminhos diferentes que levavam para o mesmo lugar. Mas nas redes sociais tem um detalhe a mais. Porque não é só consumir, é se comparar. Antigamente, a internet mostrava pedaços da vida. E hoje parece que ela exige uma vida inteira perfeitamente organizada para ser exibida o tempo todo.
E aí você abre o celular de manhã e já tem alguém treinando às 5 da manhã, com disposição de protagonista de série. Outra pessoa empreendendo, viajando, fazendo devocional, lendo 15 livros no mês, tomando 3 litros de água por dia, meditando, cuidando da pele, construindo uma carreira incrível e ainda parecendo emocionalmente resolvida.
Enquanto você está só tentando sobreviver à terça-feira. É como se todo mundo estivesse vivendo uma versão muito melhor da vida do que a sua. Mais bonita, mais produtiva, mais feliz, mais interessante.
E mesmo sabendo racionalmente que aquilo é um recorte, uma edição, uma vitrine, alguma parte da gente sente o peso assim mesmo e vai moldando a forma como a gente se enxerga. Enfim, em algum momento a Priscila fez esse ajuste. Não foi radical, não teve anúncio dramático, nem detox de sete dias filmado em câmera lenta.
Ela só começou a diminuir, aos poucos. Hoje ela usa entre 3 e 5 horas por dia. E isso pra ela já mudou muita coisa. Ela sente diferença na rotina, na presença, na forma como ela atravessa o dia.
E ela fala disso com a tranquilidade de quem percebe que fez uma escolha importante para si mesma. Só que aí veio uma parte curiosa, porque quando ela conta para as pessoas que apagou as redes, que reduziu o tempo no celular, muita gente reage mal. Diz que é exagero, que ela está vendo problema onde não tem, que ela quer parecer melhor que os outros.
E eu fiquei pensando como isso é estranho. Porque no fundo ela só percebeu um limite pessoal e decidiu respeitar esse limite. Só isso. Mas essas certas mudanças, elas incomodam justamente porque mexem em coisas que todo mundo normalizou.
Porque ninguém estranha quando alguém fala que quer beber menos, fumar menos ou jogar menos. Mas tenta dizer que está usando menos o celular para ver. Parece uma afronta coletiva. Como se a simples decisão de desacelerar obrigasse todo mundo ao redor a olhar para a própria relação com a tela também.
E talvez seja por isso que a história da Priscila tenha ficado tanto na minha cabeça. Porque ela não está falando de um vício escancarado. Ela está falando de uma coisa que mora no bolso da gente, na mesa do almoço, na fila do mercado, nos cinco minutos antes de dormir. Uma coisa tão incorporada na rotina que quase nunca é questionada. Mas ela questionou. E eu acho que o mais bonito da história seja justamente isso.
Não o fato dela ter largado as redes, não o fato dela ter diminuído o uso do celular, mas o fato dela ter conseguido perceber a própria ausência, enquanto ainda dava tempo de voltar para a vida dela. Olá, meu nome é Yara Simões, eu sou psicóloga e eu gostaria de trazer alguns pontos sobre a história...
traz um tema super importante e atual, que é sobre a relação com as redes sociais. Quando a gente olha para essa história, a gente entende que uma pessoa que cresce num ambiente de controle excessivo, de muita rigidez, ela pode buscar algumas formas de escapar dessa realidade, até para se sentir com um pouco mais de liberdade.
No caso da Priscila, pelo que ela nos traz aqui, parece que quando o celular entrou na vida dela, ele no começo era uma distração, era visto como uma oportunidade de ter contato com o mundo que ela não tinha a mínima possibilidade, né? Ela tinha toda a rigidez, tinha a questão da timidez e o celular, por meio das redes sociais também, veio como um facilitador dessa situação e como um instrumento para ela.
fugir um pouquinho daquela realidade. E quando a gente usa um comportamento pra lidar com situações, com emoções desafiadoras, um comportamento que traz um alívio, que traz uma sensação de prazer, que é mais comum de acontecer, é que a gente vai repetindo esse comportamento pra buscar esse alívio, pra buscar essa sensação de bem-estar. Só que no começo, aquilo que era uma...
coisa leve, que a gente enxerga como um passatempo, aos poucos vai ocupando mais espaço e aí a gente pode começar a deixar outras coisas importantes de lado. Nesse caso, especificamente das redes sociais, há relatos de pessoas que, inclusive, não conseguem.
comer, ir para uma festa, fazer absolutamente nenhuma tarefa que não esteja dividindo a atenção com a rede social. Algumas pessoas também relatam que quando esse comportamento se torna muito compulsivo, elas além de não terem foco para trabalhar, fazer as tarefas simples do dia a dia, também começam a deixar de sair, de viver a vida no offline para ficar preso àquela situação.
Também quero destacar que esse padrão da compulsão pela rede social é um padrão muito parecido com o que acontece nos vícios em jogos, conhecido como ludopatia. Que essa busca pela recompensa, pela sensação de prazer, de bem-estar, vai prendendo a pessoa aos poucos, até quando ela se vê bem paralisada diante de situações cotidianas. Nesse caso, a gente pode ressaltar que o problema não tá...
no uso da tecnologia ou no uso da rede social, mas sim nessa relação que a gente constrói. Ainda é um tema muito novo, muitos estudos estão surgindo agora, mas a gente já sabe dos impactos na saúde mental desse excesso, principalmente a falta de foco, ansiedade, depressão, que são sintomas que são muito diferentes de quando a gente usa mais para o recreativo, mais literalmente para o lazer.
Outra coisa que eu quero destacar aqui, que é muito importante, é quando a Priscila faz o relato de quando ela percebe que as coisas estavam fora de controle, né? Com o exemplo da questão da sua filha. E por que eu quero destacar isso? Porque é muito importante dizer que a mudança, ela começa quando a gente consegue olhar para o nosso comportamento, reconhecer o que está acontecendo e entender que aquilo não está normal e que está fazendo mal, não só para a gente, mas também para as pessoas que convivem com a gente.
E não necessariamente a pessoa que tem um comportamento compulsivo pelas redes sociais vai precisar ficar sem usar as redes sociais para sempre. Não necessariamente cada história é uma história, isso precisa ser avaliado com cautela, mas a questão é, aos poucos, recuperar o controle e construir uma relação mais saudável com esse comportamento de uso.
Não tem o objetivo de substituir um acompanhamento psicológico, mas eu espero que pode ser um primeiro passo para você que tem percebido que está perdendo controle, seja com rede social, seja com tecnologia em geral, com jogos ou qualquer outro comportamento compulsivo. E se você entender que você está com dificuldade de sair desse tipo de comportamento, que isso está afetando a sua vida, está afetando as pessoas que convivem com você também, busque uma ajuda profissional.
Antes de ir embora, eu queria te lembrar que o que apostar é um projeto independente, roteirizado, editado e apresentado por mim. Tudo feito com muito cuidado, tempo e responsabilidade, para que essas histórias cheguem até quem precisa ouvir.
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