Ep. 72 - NÃO EXISTE FILHO PERFEITO OU RELAÇÃO QUE SEJA SÓ AMOR , Chá de Coragem com Elisama Santos
Você já sentiu que, apesar de todo o estudo, dedicação, disciplina positiva, criação com apego, você ainda "falha" como mãe ou pai? Pois eu quero te lembrar que somos humanos e nossos filhos também.
Recebi um relato de uma mãe exausta pela agressividade dos filhos, a sensação de insuficiência e a culpa por ter falhado.
Sabe aquela ideia de que os filhos são "livros em branco"? Pois é, ela nos adoece. Somos humanos, imperfeitos e falhos criando pequenos humanos que estão aprendendo sobre o mundo, tentando, errando para crescerem imperfeitos também.
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Eu sou autora de 8 livros, entre eles 3 Best-Sellers, sabia?
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✦ Créditos ✦
Conceito, Roteiro e Direção: Elisama Santos e Natália Araujo
Cenário e Produção: Natália Araújo
Filmagem e Edição: Natália Araújo
- Relacionamentos FamiliaresCulpa materna · Insuficiência como mãe · Falhas e erros parentais · Pressão por perfeição · Aceitação da imperfeição humana
- Personalidade InfantilCriança não é livro em branco · Temperamento e traços genéticos · Características independentes da educação · Complexidade do ser humano desde o nascimento
- Educação PositivaIlusão da educação não-violenta · Expectativas irreais de comportamento · Mini Budas e crianças perfeitas · Criação de seres complexos, não robôs · Equilíbrio entre acolhimento e limites
- Comportamento Não é Reflexo de Competência ParentalComportamento filho não define mãe/pai · Descentramento do adulto · Questões internas da criança · Outros fatores além da educação · Alívio de responsabilidade excessiva
- Vínculo e Relacionamento SaudávelIndicadores de vínculo forte · Intimidade emocional · Compartilhamento de problemas · Abraços e reconciliação · Relacionamento humano complexo
- Pilares da Saúde EmocionalFunção de acolhimento parental · Recebimento de emoções difíceis · Espaço para descarregar frustrações · Galinha pulando no peito · Discernimento de emoções alheias
- Adolescência e Mudanças ComportamentaisTics adolescentes · Fase de desenvolvimento normal · Identidade e autoconfiança · Vergonha e autocobrança · Intensidade emocional da adolescência
- Trauma e ComportamentoCriação baseada em pancadas · Repetição de padrões · Violência emocional e física · Diferença entre gerações · Conscientização de erros passados
- Autocobrança infantilPerfeccionismo em crianças · Choro por erros · Necessidade de acertar · Origem da autocobrança · Ajuda para lidar com isso
- NeurodivergênciaMãe com neurodivergência · Filhos com neurodivergência · Intensidade emocional · Desafios específicos · Aceitação da intensidade
- Cuidado Pessoal e Bem-estarDiagnóstico em criança de 11 anos · Impacto na dinâmica familiar · Virada de cabeça para baixo · Crise conjugal provocada · Mudança de perspectiva na criação
- Humor e ComédiaPiadas parentais · Deboche como componente · Algo que não está na cartilha · Mosaico da relação · Arte complexa do relacionamento
- Historias InfantisVontade de fugir para outra família · Fantasia de criança · Aceitação lúdica · Resolução através do acolhimento · Retrospectiva com humor
- Comparação com outros filhos de políticosSíndrome da grama do vizinho · Comparação entre famílias · Ilusão de que outros filhos se comportam melhor · Individualidade de cada criança
Será que existe a relação entre pais e filhos perfeita? Será que existe alguma relação em que a gente só sente amor, satisfação e coisas boas? Será? Aceita o cheiro de coragem? Hoje o meu peito está apertado. O dia começou daquele jeito que ninguém gosta ou planeja. Uma discussão com a minha filha de 11 anos, deixando em mim uma sensação difícil de nomear. Culpa? Falta de esperança? Para dar contexto.
e moro fora do Brasil há 24 anos. Hoje eu tenho 44, então passei a maior parte da minha vida longe do país em que nasci. Tenho sentimentos mistos sobre criar filhos fora do Brasil. Embora eu saiba que perco muito por não ter a minha tribo por perto, oferecendo suporte na criação das crianças, por outro lado, me sinto privilegiada por não ter familiares dando pitaco na forma como eu e meu marido escolhemos educá-los. Em 2022, a minha filha mais velha foi diagnosticada com diabetes tipo 1 e a nossa vida virou de cabeça para baixo.
foi tão grande que eu e meu marido quase nos divorciamos. A falta de família por perto nos fez reconsiderar essa decisão e, em vez disso, optamos pela terapia de casal. Hoje estamos em um lugar muito bom, talvez o melhor em muitos anos. Somos companheiros e tentamos dividir as tarefas de forma justa para não sobrecarregar nenhum nem outro. Mas não escreva aqui para falar do meu casamento. Escreva para desabafar e dizer que estou me sentindo como se tivesse falhado como mãe.
Eu sempre tentei, dentro do possível, oferecer uma educação positiva aos meus filhos.
Nunca os castiguei fisicamente, mas sei que já cometi outro tipo de violência das quais não me orgulho. Gritos, chantagem emocional, ameaça velada. Eu não vim de uma família de uma educação positiva. Muito pelo contrário, na minha casa tudo era resolvido na pancada. Prometi que faria diferente com os meus filhos. Mas será que eu fiz? Há muito amor na minha família. Somos de abraçar, de cheirar, dizer que ama. Ainda assim, meus dois filhos são bastante agressivos.
Frases como eu te odeio, você é a pior mãe barra pai do mundo. Odeio essa família.
odeio essa casa, fazem parte da nossa rotina. Escuto isso quase diariamente e toda vez sinto que falhei miseravelmente. Eu sei que a grama do vizinho parece sempre mais verde, mas genuinamente eu não acredito que os amigos dos meus filhos se comportam dessa maneira. Eu ouço você, Elisama, e tantas outras psicólogas, psicanalistas, educadoras, e eu aprendo demais. Eu leio, estudo, tento, faço tudo certo. E ainda assim eu sinto que faço tudo errado.
Porque se eu estivesse acertando, não estaria ouvindo essas frases com tanta frequência.
minha filha. Na minha cabeça, as únicas formas de lidar com essas atitudes dela seriam eu tirar algo que ela gosta ou passar a ignorá-la. Hoje eu optei pela segunda opção. Estou me sentindo péssima e desesperaçosa. Me dê o pitaco. Me mostre a luz. Abraços. Eita amiga, se tu tá dando errado, tá fazendo tudo errado, porque tu tá ouvindo teu filho, tua filha de 11 anos falar que te odeia, o que odeia a vida dela, tamo tudo no meu barco. Me abraço. Eu também faço um monte de merda, então. Tamo tudo no meu
embarco, porque eu também ouço isso, tá? Você que acha que eu sou a luz do mundo, da educação positiva, educação não violenta, educação não sei lá o quê, e que acha que eu não erro, e que acha que eu nunca falei besteira para os seus filhos, você está errada! Gente, nenhuma relação vai fazer, nenhuma técnica vai fazer a sua relação com o seu filho ou com a sua filha ser perfeita, não. Ser uma relação sem dor, ser uma relação sem falos difíceis, ser uma relação sem dificuldades, assim.
coisa que eu quero te dizer, a criança não é um livro que nasce em branco. Ela nasce com historinhas, ela tem a personalidade dela, ela tem um jeito dela de ver o mundo, que é muitas vezes maximizado, aprimorado ou diminuído pela família, mas que tá ali. Eu sempre disse que o nosso papel não é tornar os nossos filhos que a gente quer que eles sejam. O nosso papel é ajudar os nossos filhos a lidarem com quem eles são, tá? Esse é o papel do pai e mãe. Ajudar essa criança
complexo que ele é. Eu acho que por muitas vezes, e aí você pode dar o nome que você quiser para uma educação que é diferente, com a educação que não está na base da violência, a gente se iludiu, achando que ia conseguir criar seres humanos bem pouco humanos. A gente achou que os nossos filhos, esses eram livros em branco. Esses eram crianças que não iam ter nervosismo, que não iam ter briga, que não iam ter estresse,
te falar coisas difíceis. E essas crianças educadas só na base do cheirinho, do carinho, do amor, do, ai meu Deus do céu, nossa, elas não têm nenhum problema. Esses dias eu vi um vídeo na rede social em que um menininho, ele derramava água e aí ele começava a tremer e a chorar e a mãe olhava pra ele e fazia, filho, tá tudo bem, deixa eu te ajudar. E aí, as pessoas no comentário, algumas muito iluminadas falavam, ele vive violências, porque como é que ele ficou tão nervoso? Amor, deixa eu te contar, às vezes a pessoa nasce com autoconfiança, tá viu?
Às vezes a pessoa quer tanto agradar e ver a mãe e o pai feliz que ela se cobra muito também. Nem sempre ela faz aquilo porque ela assistiu alguém fazer. Quando a gente repete isso, a gente está repetindo uma lenda de que a criança é o que o pai e a mãe querem que ela seja. Ela não é, gente. Ela não é. Eu me lembro de uma vez, a minha filha mais nova, Helena, né? Ela ama os dois filhos. Eles têm uma autocobrança absurda. Ambos.
E a Helena estava chorando muito por uma coisa que ela ia fazer e que ela não estava acertando. E eu sentava com ela e fazia, meu amor, respira. Você está aprendendo. E a gente conversava sobre a frustração. E a Helena disse, não, tem que fazer certo, tem que fazer certo. E eu me lembro de olhar para ela e falar, gente, mas não é possível, eu nunca cobrei. E o pai nunca cobrou que ela fizesse perfeito. De onde essa criança tirou isso?
E cara, eu sei que os meus pais me cobraram muito, mas eu também tenho isso, entende?
o centavo dos meus filhos, porque a gente tem essa tendência, aprendeu comigo. Eu nunca cobrei, mas ela me vê me cobrando, então eu passei isso de Chaves e esse case. Sabe assim, eu fiz, gente, Elisama, para de você colocar no centro, gata. Para com isso de você colocar no centro. Pois é, olha, mais uma característica que você acabou de descobrir da tua filha. Ela tem uma tendência a se cobrar. Como que você vai ajudar essa menina a lidar com essa característica?
Independente de eu ter cobrado dela ou não porque eu não cobri, quantas vezes ela agiu de formas ou eles agiram
onde for, mas que eu olhei e fazia, gente, mas de onde veio isso? Porque nunca veio, nunca teve em casa. Eu me lembro, na minha mãe, ela perguntou o que minha mãe fazia muito. Ela falou, onde é que você aprendeu isso? E eu estava falando com a minha irmã esses dias que hoje eu entendo aquele susto, aquele assombro na minha mãe quando ela falava, onde é que você aprendeu isso? Porque é um assombro você olhar para aquele ser humano e falar, meu Deus, ela está falando uma coisa que eu não ensinei.
Ela está agindo de um jeito que eu não, não programei ela para isso não. Não foi assim que eu eduquei, por que ela está agindo assim? Então, amor, ela está agindo,
porque ela é humana, porque ela não é o seu legado porque ela não é a extensão sua, porque ela é complexa e cada vez que a gente procura uma forma de educar o filho, acreditando que diante dessa forma ele vai agir como eu quero, ele vai ser o meu serzinho de luz, ele vai ser a minha florzinha do campo, ele vai ser o meu alecrim dourado que nasceu no campo sem semeado a gente está num lugar de arrogância e de desconexão com quem aquela criança aqui é, é absurdo se nós não somos só coisinhas fofas e lindas e maravilhosas
filhos sejam. Então sim, você vai ter dias que vai ouvir deles eu odeio essa casa. Eu odiei a minha casa inúmeras vezes quando eu era criança. Inúmeras vezes. Eu só não podia falar. Porque senão eu recebia um tapão na boca. Mas que eu odiei a minha casa. Muitas vezes eu odiei a minha casa. Eu não podia comunicar. A criança que tem dentro de casa uma determinada liberdade pra falar das próprias emoções, ela normalmente comunica isso.
E aí, você como adulta pode falar, meu amor, tô vendo que você tá chateada e você não tem o direito de falar comigo.
nesse tom. Ou você não vai falar comigo desse jeito, meu bem, porque não é esse o tom que a gente usa aqui dentro da nossa casa. Isso vai fazer com que ela nunca mais diga que te odeia? Lógico que não. Mas vai fazer com que você demonstre isso aqui, eu não vou aceitar. Então, várias vezes, meu filho, seus filhos, eles são muito legais. Eu já ouvi dos meus filhos, nem parece que você escreveu Educação Não Violeta. Você fala pras pessoas que você faz isso comigo.
Detalhe, as vezes que eu ouvi isso, cara, eu tava orgulhosa, tinha feito um negócio
legal. Eu tinha me mostrado um limite de forma respeitosa, bacana. Pois é, mas eu não recebi o seu irmão mais super alegado quando eu estava fazendo o que eles queriam. E eles estavam chateados. E eles vão ficar chateados. E eles vão ficar frustrados. E eu vou ouvir. Eu já ouvi que eu sou... Deixa eu lembrar. Que isso aqui é uma monarquia absolutista. Que eu sou uma ditadora. E que eu não escuto ninguém. Só porque eu falei que não, não vai fazer isso que você quer agora. Sinto muito. E tudo bem se gostarem.
De onde a gente tirou essa ilusão? De que a gente vai ter uma relação e que eles vão ficar felizes com os nossos limites. De onde vocês tiraram isso? De onde a gente tirou que a gente vai ter filhos que não vão ter motivos pra levar a sulfoterapia? Que não vão ser humanos, que não vão ter insegurança, que não vão ter medo, que não vão ter... Ai, pelo amor de Deus! Isso é um negócio! A gente tá querendo podar essas crianças! Não, os meus filhos me dizem coisas duras. E várias vezes eu falo, olha, agora,
Inúmeras vezes eu já falei. A gente não vai conversar sobre isso nesse momento. Porque agora eu preciso respirar. Eu preciso de um tempo para sentar as coisas. E já já a gente volta. Isso aí. Então sim. Já tive os meus momentos de falar. A gente não vai conversar agora. Mãe, me desculpa, meu amor. Você sabe que a gente vai ficar bem. Você sabe que a gente vai sentar para conversar. Mas nesse momento. Eu preciso ficar só. Você me dá licença.
Preciso. Pô, mãe, eu não queria ter falado isso com você. Eu entendo. Eu realmente sei que você não queria ter falado isso comigo. Mas nesse momento eu não tenho espaço para a gente conversar. Eu preciso de um tempo. Você me dá um tempo.
tempo. Daqui a pouco a gente começa agora. E, gente, isso é uma relação de humanos. Me diz aí, você nunca teve vontade de falar com teu marido que você odeia ele. Nunca. Imagina. Se você, sim, você não tem essa vontade, né? Você nunca teve vontade de pegar a cabeça e ter que tocar na parede. Nunca. Imagina. Se você nunca teve. Eu já falei que eu sinto inveja de que não tem vontade de agredir as pessoas. Eu tenho. Você nunca sentiu vontade de falar, não quero te ver nunca mais. Eu queria arrumar outro marido porque tu não serve porque eu queria.
Nunca teve vontade. Se a relação fosse boa, você não ia sentir essa vontade. Isso eu? Ah, não. Você sabe que é normal de vez em quando você pensar o que eu fiz na minha vida, que eu tô casada com essa criatura. Mas filho não, né? Filho não. Ele não pode sentir isso. Ou porque se ele sentiu isso, é porque você não criou o vínculo forte o suficiente. Né? Deixa eu te contar como é que eu percebo que os meus adolescentes têm um vínculo delicioso comigo, que eu tenho um orgulho gigantesco.
Eu percebo quando eles chegam numa situação difícil e falam assim, mãe, tô precisando falar com você.
70 dias por hora. Eu percebo quando eles chegam de uma viagem, de um encontro com amigos que às vezes estão super tarde na noite, e deitam na minha cama e começam a disparar falando, porque eles querem me contar tudo. Eu percebo quando vem assuntos completamente aleatórios, só para ficar perto de mim. Eu percebo que a gente tem uma relação super bacana quando eles me abraçam, às vezes no final do dia, depois do dia difícil, com o mês que você viveu, falam, mãe, passei do limite hoje com você. Sinto muito,
Eu queria ter falado com você daquele jeito. E a gente se abraça, se entende. Aí eu olho e penso, caramba, que relação gostosa que eu tô fazendo, criando com os meus filhos. E é interessante você olhar e falar assim, Elisama, eu fui criada na base da pancada, que eu tô fazendo diferente, mas será que fazem diferente mesmo? E você me diz que seus filhos conversam com você, que vocês são criados com muita amor. Amor, você tá fazendo diferente?
Porque se você falasse, minha mãe achou desse, você recebeu um tapão na boca, provavelmente que nem eu. Já tá diferente aí. Mas a gente botou o sarrafo muito lá em cima, né?
negócio de educação, não é sobre o comportamento dele. Não é sobre o quanto ele aprende a lidar com as emoções, a lidar com quem ele é. Não é sobre a gente ter uma relação que é viva, que é humana. E como toda relação humana, cabe o descontentamento, cabe o dia de falar assim, caramba, eu não quero conversar hoje. Cabe o dia triste. Não, não é sobre isso. É sobre criar o meu cartório de visita perfeito. É sobre mostrar o quanto estou sabendo educar. É sobre mostrar o quanto o meu filho é manjinho de luz.
Doce. Dishio. Amável. Mini Buda. Eu achei. Eu achei que eu tava educando mini Budas. Não tô. Eles não tinham nem onde tirar. Não tem nem geneticamente falando. Eles não tinham onde puxar ser mini Buda. Eu sou uma onça, bem. Eu sou uma onça. Por que que eu achei que eles vinham sair tão diferente? Eu olho e reconheço. Assim, a adolescência chegou e eu tava falando com a minha psiquiatra hoje. Falei, cara, Miguel, ele pode dar sentido.
Porque ele tá uma adolescente que merece um selo de adolescência, assim. Cumprindo direitinho a minha função. E é isso. E eu olho e falo, olha, mas uma fase de desenvolvimento. Eu cheguei num momento que não sei mais nada. Quem sou eu? Uma velha arcaica que não entende do mundo. Alguém que faz ele passar vergonha. Ele olha e me fala, mãe, pelo amor de Deus, que vergonha. Aí dá uma virada do olho, assim. Porque eu falei alguma coisa. Quem fala isso, mãe? Aí eu falo, eu tô rindo. Aí ele faz assim, deixa eu...
Da que você tá rindo? Ai, filho, o Rios ainda é. Ai, nem tem esse humor de vergonha, não. Assim, gratuito mesmo? Você só chegou aqui e deu a ofendida e foi-se embora assim? Completamente gratuito? E aí tem coisa que eu vou falar. Filho, filho, olha só. Você pode até pensar isso, cara, mas você não comunica dessa forma pra mim que isso magoa. Eu não gosto de ser tratado desse jeito. Tem coisa que eu vou entender que é da fase. Eu não tô criando robô.
Eu tô criando gente. Eu tô criando gente complexa. E aí eu quero te trazer uma...
Uma reflexão que eu tenho há muito tempo e que me acolhe muito é que o comportamento dos meus filhos não me diz que mãe eu sou. O comportamento dos meus filhos às vezes é só sobre eles, sobre o que eles estão vivendo. Não dá pra eu acreditar que se ele se comportou de tal forma é porque eu fui uma péssima mãe ou se ele se comportou de outra forma é porque eu fui uma mãe excelente. Quem disse que você é o centro do mundo? Gente, a gente fica se colocando no centro do mundo.
Tudo é sobre a gente. Ah, se comportou mal é mal do quê? Se comportou bem, fui eu que fiz o trabalho bem feito.
E o que tem ali, vivo, dentro daquele ser humano? E o que tem vivo ali? Eu vou te contar uma coisa, te dar um spoiler, tua filha tá com 11. O meu tá chegando em 14, o meu mais velho. É, refiora. Sabe por quê? Ser porto seguro talvez seja a função mais difícil que a gente tem pra viver. Eu, há um tempo, comecei uma sessão de terapia falando com a minha psicóloga, chorando e falando, cara, ser o porto seguro tem sido uma das coisas mais difíceis.
Porque eles vão passar por angústias, por medos, frustrações, por um corpo que muda tão rapidamente,
todos os adolescentes, existe adolescência tão difícil. Eles vão passar por tanta coisa e inúmeras vezes o que eles não falaram com os amigos, o que eles não falaram em outro lugar, eles vão chegar pra você. Vai ser você quem vai receber. E inúmeras vezes é você que vai pegar aquela bola assim na baía de falar, recebeu a galinha pulando nos peitos, só recebo a galinha pulando, não sei nem de onde ela vem. E aí tem hora que eu só recebo e falo, peraí cara, não tô entendendo nem o que tá acontecendo.
E eu consigo pegar a galinha, calmar a galinha e falar, filha, então essa galinha nem era pra mim, tá? Essa galinha aqui você tinha que soltar no peito de outra pessoa no carro,
Não era comigo. Mas esse entender o que você tá sentindo, o que você falou que não era desse jeito, era pra mim esse tom que você falou? Cara, isso é um exercício nosso. Que tem dia que eu tô com muito espaço pra fazer, que tem dia que eu só tô... Filho, eu tô vendo que você tá muito ansioso com a escola, ou com a prova, ou com a viagem, ou chachado porque você brigou com um amigo. Eu percebi isso. E nesse momento eu não posso aceitar que você me desconte. Desconte-me, eu não sou um saco de pra casa.
isso de outro jeito e lidar com esse sentimento de outro jeito. Se quiser, eu tô aqui. Agora falando comigo desse jeito, eu não aceito. Percebe? Você pode colocar um limite e falar, cara, isso não significa que vocês não têm uma relação saudável, que vocês não têm uma relação bacana. Quem é que te diz o que é ser uma boa mãe? Como te falar uma coisa, assim, tem muita coisa que eu não faço boa nessa vida, não, tá? Muita coisa. Não me deu uma tesoura que eu não sei cortar as coisas, cortar tudo torto.
Eu não sei desenhar uma linha. Eu desenho muito bem, mas não pode ser uma linha ré.
Eu vou dar uma linha reta e vou fazer assim. Minha coordenação motora é risível, mas eu sou excelente bem. Tem coisa que eu faço mal, tem coisa que eu faço bem. Tem coisa que eu faço muito bem. Eu faço um pudim delicioso. Eu sou uma mãe muito bacana. E isso não depende do que os meus filhos falam sobre mim. Sobre o que eu sei que eu estou fazendo. Sabe? É sobre o que eu entrei ainda. É sobre olhar para eles e pensar, caramba, nunca imaginei que eu ia lidar com esse problema assim.
E isso não quer dizer que eu não passe inúmeras noites chorando. Que eu não tenha chorado muitas vezes.
que não tenho botado a mão na cabeça e pensado, o que é que eu achei que eu ia? Por que é que eu achei que eu conseguia educar alguém? Isso não quer dizer que várias vezes eu não tenha falado com Deus. Vem cá, sério que você achou que eu ia dar conta dessas crianças desse jeito aqui? O que não quer dizer que eu não tenha olhado para filhos de amigos e pensado, eles não são assim, eles não falam essas coisas, são só os meus. Eu sou uma mulher com neurodivergência, que educa duas crianças com neurodivergência. A intensidade emocional da minha casa, meu amor,
casa é uma loucura. Nós somos altamente intensos por aqui. E eu quero que os meus filhos se sintam seguros pra viver essa intensidade emocional aqui. Pode não estar na cartilha, sabe? O deboche que eu faço, as piadas que eu faço, pode não estar na cartilha. Mas tô aqui. E compõe um mosaico da nossa relação, que ele é muito complexo, que ele tem muitas cores, tem um retalhozinho meio feio no meio da história, mas aqui no todo, quando você olha e fala, putz, que negócio bonito. Olha que desenho bonito que você faz.
É uma arte. Nem todos os pedacinhos elas são lindos. Mas é uma arte. Não espero uma relação entre dois seres que não são humanos. Se vocês brigam, provavelmente porque vocês são humanos. E eles podem te dizer, eu odeio essa casa. Porque vocês são humanos. Sabe? Eu tava lembrando, as filhas nunca mais me falaram que odeiam a minha casa e formam outra família. Eu conheci falavam muito quando eram mais noveis. E aí a gente viajou agora pra uma outra família de amigos. E a Helena falava muito assim, quando ela era pequenininha, eu vou me fugir.
Eu vou me fugir, vou encontrar outra família preta para eu viver. Aí eu falei, filha, eu sinto muito, eu senti muito a sua falta, se você fugir, eu acolhia ela e tal. E a gente viajou agora, a gente foi passar numa catraca, a Helena passou, e a filha dessa família, a menina dessa família, estava com o cabelo exatamente com as mesmas tranças que a Helena, na mesma cor. E na hora que eu fui passar atrás, o cara falou, no, the family, só a família, só a família.
E eu olhei para a cara dele assim, e aí passou a minha amiga, o marido, o filho, a filha, e tipo assim, e eu compondo,
Ela falou, moço, essa daí é minha, moço. Dessa família, essa família aí é minha. Depois eu falei com ela, é ela ainda agora? Você cumpriu? Vou me fugir contra a outra família preta. Ela ia aqui brincando com a minha amiga. Agora ela achou a família preta que ela falava quando ela era criança. E aí isso passou. Eu me lembro de uma vez que Miguel, e eu contei isso pra eles, eles riram muito, que Miguel arrumou a mochilinha deles, a gente acabou de mandar pra São Paulo.
E falou, vai embora. Você não tinha o direito de me tirar da Bahia, dos meus amigos. Tinha 7 anos. E aí ele arrumou a mochilinha e foi embora.
E saiu pelo condomínio. E eu fui atrás dele. E eu sentei com ele. E eu convenci ele a voltar pra casa. Falando, filho, eu vou sentir tanta sua falta. Assim, naquele momento a gente conversou como se ele realmente pudesse ir embora. Como se ele realmente tivesse essa possibilidade. E foi importante pra gente. E ele falou, nossa mãe, eu não lembrava disso. E eu dei risada, eu falei, bem, se eu tivesse te dado um papo e falado, vai voltar pra casa assim, você lembrava.
Mas como que eu fiz? Foi te acolher? Não sei como. E você realmente não lembra, que bom.
Que bom que isso passou. Que bom que você nem lembra que você me falou isso naquele dia. Sabe? É tudo tão complexo, gente. Mas é tão bonito. É tão bonito. Os meus filhos, às vezes, me falam coisas difíceis. Às vezes, a gente vive num mês que eu falo, gente, o que eu tô fazendo aqui? Mas, não é parte do tempo. É tão massa ser mãe deles. Sabe? Assim. Aí, minha mãe fica rindo. Fala, ah, vai como olhar pra ser minha. Porque eu olho pra bando.
Acho que eles são seres incríveis. São chatos, enriquecedores. Como todos eram humanos.
consegue ser insuportável, às vezes, como todo ser humano. Tem dia que eu olho e penso, eu quero estar muito longe de vocês, quando eu penso com todo ser humano. Porque é essa relação entre humanos, tá bom? Não tem livro, nem receita. O que vai fazer essa relação é ficar entre deuses, intocáveis. Você não está programando um robôzinho porque você está educando de maneira positiva, ou seja, você está vivendo com humanos, que vão se desentender.
E às vezes, gata, muito mais vezes que você gostaria, você vai ser chata, sim. Pois é.
ser chato, ser chato. Mas é isso. É o que temos pra hoje. Eu preciso ser a chata nesse momento. E um dia eu espero que você entenda. E se você não entender, paciência, filho. Eu tô doitando. O esforço aqui tá sendo pra ser o melhor pra você. Mesmo que isso signifique ser chata. Algumas vezes você não vai receber o selo de mãe perfeita. Só porque você é acolhedora. Tá bom? É isso, meu amor. Joga no grupo das amigas. Joga no grupo das mães.
Manda pra aquela amiga que te ligou ontem chorando. Falando, não sei como você vai falar. Olha o que a Elisama falou aqui. A Elisama passa o perreco aqui em nós.
Manda pra ela, tá bom? Manda pra todo mundo, tá certo? Um beijo, meu amor, e até o próximo episódio. Aí segue, faz aquelas coisas todas que você sabe que você tem que fazer, tá bom? Beijo.