Ep. 76 - O DILEMA ENTRE A SEGURANÇA E A FELICIDADE, Chá de Coragem com Elisama Santos
Será que realizar um grande objetivo é garantia de felicidade?
E se o custo emocional for a perda da própria identidade e alegria? Será que vale a pena insistir ou cabe só desistir?
É preciso desmistificar a estabilidade como o único valor de uma vida bem-sucedida e ter coragem para entender se o caminho escolhido não serve mais.
A vida é um fluxo constante e a evolução exige aceitar que sonhos podem mudar e que a felicidade muitas vezes reside na coragem de dar um passo para trás para reencontrar o próprio caminho ou se adaptar ao novo.
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✦ Créditos ✦
Conceito, Roteiro e Direção: Elisama Santos e Natália Araujo
Cenário e Produção: Natália Araújo
Filmagem e Edição: Natália Araújo
- Dilema ético e segurançaEstabilidade profissional vs bem-estar emocional · Custo de realizar objetivos na identidade pessoal · Desmistificação da estabilidade como único valor · Coragem para questionar caminhos escolhidos · Quando desistir vs quando persistir
- Mudanca de ResidenciaMudança para Campinas após aprovação em concurso · Diferenças culturais entre Nordeste e Sudeste · Isolamento social em novo ambiente · Sentimento de estranhamento e inadequação · Impacto da falta de rede de amigos e família
- Pilares da Saúde EmocionalFalta da proximidade com família e amigos · Nostalgia de aspectos culturais nordestinos · Perda de referências e sensações do lugar de origem · Vazio emocional apesar de necessidades materiais atendidas · Vida passando sem vivê-la plenamente
- Limites PessoaisRenúncia inerente a toda escolha de vida · Impossibilidade de ter tudo simultaneamente · Dor como parte de qualquer decisão · Necessidade de comprometimento total com escolha · Reconhecimento de mudança contínua
- Identidade e AutoestimaForte conexão cultural com o Nordeste · Sentimento de não pertencimento em São Paulo · Diferenças no jeito de viver entre regiões · Experiências de xenofobia · Nostalgia idealizando passado
- Esquerdomachismo EmpreendedorismoNostalgia romantizando momentos passados · Memória embelezando experiências anteriores · Comparação injusta entre passado perfeito e presente imperfeito · Impossibilidade de voltar ao mesmo estado · Necessidade de viver o presente sem fantasias
- Relacionamentos FamiliaresAfastamento emocional no casamento · Falta de engajamento em atividades conjuntas · Presença física vs intimidade emocional · Marido em home office aumentando isolamento · Risco ao relacionamento pela mudança
- Estratégias de adaptação e negóciosNomear as dores da mudança · Tentar aproveitar oportunidades locais · Buscar comunidade com pessoas de fora · Explorar o que é único do novo lugar · Reposicionar expectativas sobre estabilidade
- Medo e Controle PsicológicoMedo de abrir mão de conquista profissional · Medo de perder estabilidade e oportunidades · Medo de julgamento social por desistência · Incerteza sobre sucesso em novo emprego · Paralisia decisória entre duas vidas
- Licença não remuneradaPossibilidade de pedir licença sem remuneração · Testando volta ao Nordeste antes de decisão final · Tempo para verificar possibilidade de emprego · Experimentar vida sem risco total
- Construção de vida e relacionamentos em novo localFormação de amizades com outros migrantes · Criação de família no novo lugar · Integração social gradual · Possibilidade de pertencimento fora do berço natal
E quando o sonho se realiza. Mas não é do jeito que a gente planejou. E quando o que a gente queria muito traz dor, medo, insegurança. Qual que é o momento de dar um passo pra trás? Tem como saber? Aceita o chá de coragem? Antes de começar meu relato, gostaria de dizer que você, Elisama, foi uma grande surpresa apresentada a mim pela minha psicóloga. Sempre serei agradecida a ela por ter me levado a você. E a você.
Ai, que lindo.
passei para o concurso da Unicamp, que fica em Campinas, São Paulo. Sem conhecer nada nem ninguém nessa nova cidade, nos mudamos de mala e cuia. Um ato de loucura que hoje eu paro e penso como fui capaz. Meu marido trabalha de home, então ele pode trabalhar estando em qualquer lugar. Já nos primeiros meses eu estranhei o meu novo lar. As pessoas eram mais frias, reservadas, um tanto quanto o nariz em pé, mas eu relevei pensando que as pessoas do sul-sudeste são assim mesmo.
alguns poucos episódios de xenofobia. Nossa, você é tão branquinha. Nem parece que é nordestina. E é que chove assim mesmo. É que vocês não estão acostumados com tanta água. Ah, você é de Aracaju, fica na Bahia, né? Ai, gente. O tempo passou. Entre as turbulências de uma nova vida, fomos nos adaptando. Agora, os anos passaram e a sensação não melhorou. Ela piorou. Eu sinto uma falta constante na minha terra. Na alegria dos colegas de trabalho na pós do final de semana.
pra onde foram, o que fizeram. Aqui receber um mundinho entusiasmado já é muito. Eu sinto falta de saber que o mar tá logo ali. Assim como as pessoas que eu mais amo, minha família e meus amigos. Eu sinto falta de saber em quais médicos ir, em quais restaurantes comer. Eu sinto falta até do cheiro de Aracaju. Diante desse cenário, desde junho do ano passado, estamos nos planejando pra voltar, pois a situação está afetando até e muito o nosso casamento.
Como não conhecemos muitas coisas aqui, deixamos nossos carros pra trás, quase não saímos de casa.
só meu marido. Pois aí ele já fica em casa a semana inteira. Eu, pelo menos, vou todo dia pra Unicamp e vejo pessoas. O problema maior que... O problema maior que, contudo, é o meu medo. Medo de deixar essa conquista pra trás e abrir mão da estabilidade. De saber que serei chamada de louca por muitos. Dar incertezas de não conseguir um novo emprego. Medo de ser ingrata por largar algo que eu quis tanto. No qual eu investi muito tempo e energia.
Medo de voltar e perceber que era melhor ter ficado aqui. Estou dividida. Aqui eu tenho todas as minhas necessidades atendidas.
Mas parece que eu não vivo ou sobrevivo. Contudo, emocionalmente e psicologicamente, isso é extremamente inviável e desgastante essa permanência. A vida passa por mim e eu nem percebo, e eu tenho muito medo disso. Um exemplo foi o meu casamento, que eu organizei daqui, mas foi lá. Passou como um flash, eu nem lembro mais se foi gostosa aquela fase, porque pareceu um atropelo, entende? Fora isso, querendo ou não, os laços afetivos vão se afrouxando, pois a presença ainda é algo muito importante e marcante para qualquer relação. Eu sei que eu posso contar com todo mundo que deixamos lá.
não é mais a mesma de antes. Como seria? Nunca estamos presentes? Estou muito angustiada. Não tenho a opção de ser removida ou pletear teletrabalho. Só me restaria a exoneração. Esse é o meu relato. Espero do fundo do coração que você possa me ajudar com uma palavra que for. Nem precisa ser vídeo. Com muito carinho e um abraço demorado. Querida, a primeira coisa que eu quero te dizer é que eu conheço intimamente esse estranhamento. E quando eu digo intimamente, é intimamente mesmo, sim.
A gente vive de um jeito diferente no Nordeste. E aqui, pessoas de São Paulo, não precisa vir falar que nem todo paulista, nem se ofender. É só diferente, gente. É diferente. E tá tudo bem se é diferente. É diferente. E quem tá acostumado com o jeito de viver lá, estranha muito o jeito de estar aqui. Pode ser que tenha gente que adora, que vive lá e que acha que lá é too much. É muito, muito, muito próximo. E prefere aqui. Mas eu tô acostumada a muita proximidade. Eu tô acostumada a ir na casa dos amigos. Eu tô acostumada...
Na Bahia, eu ia visitar as pessoas, meus amigos, e eu ia com o pijama das crianças na bolsa. Porque a gente comia, demorava, já tomava banho, já saía, assim, eu tô acostumada a essa junção. E aqui em São Paulo eu estranhei bastante o jeito das pessoas. E aí eu fui entendendo que tem um jeito de viver diferente aqui. E eu fui entendendo que é necessário pra que esse jeito de viver não vire o meu jeito de viver, seja só o meu jeito de viver aqui.
ser mais clara pra você. Primeiro ponto é que a gente precisa, sim, nomear as dores de quando a gente vai começar algo novo. Todo mundo que mora fora de hoje nasceu, quem é brasileiro que mora no exterior, eu não conheço ninguém que não fale, nossa, eu sinto falta de alguma coisa. Já dizia o chorão, né, cara? Escolha uma renúncia. Isso é a vida. Então, toda escolha que a gente faz, a gente vai estar abrindo mão de alguma coisa em algum momento.
Então, às vezes, a gente vai estar abrindo mão da proximidade, a gente vai estar abrindo mão de amigos, a gente vai estar abrindo mão de um monte de coisa.
é saber que sim, vai ter falta. A gente vai viver faltas. Esses dias eu vi alguém falando algo que ficou muito pra mim. A Bahia, a Bahia é minha mãe. Eu casei com São Paulo. Eu moro aqui, pretendo continuar aqui, quero construir minha vida aqui. Tenho muitas oportunidades. E a Bahia é minha mãe. Quando eu preciso de colo, de colo de mãe, é pra lá que eu corro. Eu identifiquei já que eu preciso ir pra Bahia pelo menos duas vezes no ano. Eu preciso. Eu preciso.
de Bahia pra ficar bem. E eu tenho pessoas que eu amo loucamente aqui. Eu construí amizades dessas que eu vou pra casa com meus filhos com pijama na bolsa. E é com pijama, né? Que agora eles cresceram, não querem mais. Mas quando eles eram menores, eu tenho essas amizades aqui. Mas ainda assim, tem algo que é da minha terra. Que quando eu piso em Salvador, que eu passo por aquele bambuzal, que é a sensação de, meu Deus, eu tô ai, em casa. Sabe? E aqui eu sinto essa casa que eu moro como a minha casa, mas
É diferente. O que eu posso trazer pra você? Eu posso te falar que, antes de desistir, vocês tentam dar certo? Não tô em momento nenhum te dizendo assim. Ah, mas você não se esforçava o suficiente. Se você se esforçava, dá certo. Não é isso. Mas é que, às vezes, a gente tenta sem tentar. Sabe? A gente tenta sem falar, ok, eu quero gostar desse lugar. Quando eu me mudei pra cá, os meus filhos não queriam vir, sobretudo o Miguel. O Miguel tinha sete anos e foi assim, foi bem difícil.
eu liguei pra pessoas pra falar, olha, tudo bem. Eles amam todo mundo pra cá. E eu queria encontrar pessoas. E eu fiz uma programação dos lugares legais em São Paulo. E eu fiz uma programação de lugares que poderiam, que eles iam gostar, que eles iam se divertir. Eu queria dizer pra eles assim, a vida vai continuar. Não vai ser a mesma. Ela vai ser diferente. Mas ó, aqui também tem coisa boa. Você me disse que nem o carro vocês trouxeram e que pelo jeito vocês não compraram o carro aí. E eu achei tão simbólico. Porque Campinas não é uma cidade que
E dá pra ficar sempre sem carro pra você passear, etc, sabe? Então, assim, o quanto vocês estão dando uma chance de verdade de eu quero descobrir o que tem de bom aqui. As pessoas vão ser um pouco nariz em pé mesmo. As pessoas são muito diferentes da gente. Mas o que é que não depende disso? Assim, não dá pra fazer uma programação de lugares legais. O fato das pessoas não serem super legais não quer dizer que você tem que passar o final de semana em casa. Temos coisas diferentes. Você fala, eles falam, eu sou concursada.
Bom, assim, tô me dizendo bem. Então, amiga, tem um lugar legal ao redor de São Paulo. Te falo porque fui e vou várias vezes. Cheguei a final de semana, olho um hotel legal, bonitinho. Eu fazia isso quando eu morava em Salvador, com o Isaac, pra gente sair de dentro de casa. Eu ia pra pertinho, assim, baratinho. Mas falava assim, vamos sair, vamos sair, mudar o clima, mudar o lugar, mudar os cheiros, mudar as texturas, mudar os sabores do que a gente tá vivendo. Então, essa é, talvez, a primeira dica de todas pra você, né?
de nomear essa dor, de você falar, ok, antes de tomar essa decisão, eu vou, antes de desistir, o que que eu posso aproveitar em São Paulo? Nem que seja, gata, pra quando você for embora, você olhar e falar assim, nossa, eu curti a cidade, eu curti algumas coisas que só tem lá. Porque assim como existem muitas coisas que só existem no nosso Nordeste, existem muitas coisas que só existem aqui. E que você pode viver só aqui. Você tem aproveitado essas coisas?
O que que vocês gostam de fazer? Campinas é rapidinho pra São Paulo, final de semana, uma hora e pouco
que você tá aqui? E aí? O que você tem feito? Eu ia pra Paulista quase todo domingo. Adoro ver a galera tocando na rua, aquele monte de gente. Amo. O que você tem feito? Segundo, tenta descobrir o que tem de bom perto de você, sabe? E é que eu não tô falando de brincar de Pauliana. Eu tô falando de manter o mínimo pra sua sobrevivência. Trancados em casa, vocês vão enlouquecer, sim. Trancados em casa, voltar vai parecer a única opção, o único caminho possível. Pra mim sempre é, sabe? Segundo,
dica é, você sabia que assim como você, tem muita gente que veio de outras cidades e que não se habitua ao jeito paulista de ser, ou paulistando de ser, e que se junta com gente de outras cidades? As pessoas mais próximas minhas aqui não são daqui. Eu tenho uma amiga que é muito próxima, inclusive está gravando a gente nesse momento, que é daqui. Mas ela é uma esquisita, então deu tudo certo, entendeu? É isso, assim, não...
percebi que era mais fácil me juntar com o Goiano, com o Mineiro. Meus amigos são pessoas de fora que também têm em mim a família e a gente criou as nossas famílias aqui. E a gente se misturou pra caramba. Então, o quanto você tem se aberto, sabe? O quanto vocês têm possibilitado que a vida aqui não seja só aridez e saudade. A saudade, ela vai ficar. Você não escolhe sentir essa saudade ou não, mas o que é que pode vir além dessa saudade? E aí, pode ser que você fale, Elisama,
Não quero tentar. O que eu quero de verdade é voltar pra Laracaju. Então, minha amiga, vai com medo mesmo, sabe? As pessoas vão te julgar. Isso não é uma possibilidade. Isso é um fato. As pessoas vão te julgar. Seus vínculos lá, você vai precisar de diversas formas a construir. Se aproximar de novo. Pode dar super certo, pode não dar. Não existe garantia em nenhuma decisão que você tomar. Mas o que não dá é pra você ficar nesse meio do caminho,
sabe? Nem lá, nem cá. Opa! Vai ficar assim, viu, gente? Se estourar a luz aí, vocês perceberam que caiu o negócio aqui do cenário. Então, o que não dá é pra você ficar aqui, sentar direito aqui, e aqui com a cabeça lá, tipo, corpo no lugar e a cabeça no outro. Entende? Vai ter que ter um lugar aí de juntar seu corpo e sua cabeça. E se é voltar para Aracaju, então tá. Vamos desenhar como é voltar para Aracaju. Vamos desenhar de que forma a gente pode fazer. E você tem direito à licença, né?
como funcionária pública, sem remuneração. Você pode pedir uma licença sem remuneração. Você ganha aí um tempo pra você conseguir ver se se adapta, se arruma um trabalho lá, como é que tira essa vida da expectativa de como seria voltar pra lá. Experimenta e volta. Não precisa pedir exoneração, sacou? Você pode pedir uma licença, testar e voltar. Mas eu preciso te dizer assim, não existe escolha sem dor. Nesse momento, não existe escolha sem dor.
vai ter que escolher com o cadu que você banca. Há um tempo, um casal de amigos. Eles entraram na escola que o meu filho estudava. A gente ficou amigo, pessoas muito legais. E eles vieram, vinham da Suíça. Enfim, vinham de algum país, que eu não me lembro mais qual foi, porque eles moraram em vários países diferentes. E eles vieram porque a filha estava com cinco anos, quase seis. E eles falavam, a gente não quer mais criar ela longe da família.
A gente está sentindo uma falta da família imensa, a gente quer ter mais filhos. Como é que a gente vai ter mais filhos?
distante da família, não dá. A gente desistiu de ficar tão longe, a gente voltou. E aí, a menina tava com os costumes do lugar que eles moravam, assim, estranharam bastante quando chegaram aqui, mas eles queriam muito ficar. E aí vieram, tentaram se adaptar aqui e depois ficaram aqui um ano. Depois de sete meses ela falou, eu vou embora, não vou dar conta de ficar aqui. Porque ficar perto da família tinha outros preços. Ela falou, Elisama, eu não consigo explicar pra minha filha que a gente tem que tirar a correntinha dela porque a gente vai andar de onde?
Eu não consigo explicar pra minha filha que eu que tenho que levar ela pra escola porque ela não pode ir andando, porque no lugar que ela morava, apesar da menina ter seis anos, a menina ir andando sozinha pra escola. Era perto, era seguro. Então assim, ela falou, eu não tô conseguindo viver a insegurança do Brasil. Então eu tô indo embora. Eu vou voltar. E eles só completaram o ano aqui, voltaram, e eles já tem oito anos de volta lá no país que eles estavam.
Não acho que eles foram pra outros países, acho que agora estão na Espanha, nem sei. O fato é que ela abriu mão
achou que podia abrir mão da segurança pra estar perto da família. Quando ela chegou aqui, ela falou, não, cara, isso aqui não é o que eu idealizei. Isso aqui é outra coisa. Eu quero voltar pra minha vida. O que eu tô trazendo pra você aqui é que, às vezes, a gente tá tão apegada ao passado, a gente tá tão apegada ao que era, que a gente não consegue viver o presente, sabe? E a memória, gente, a memória, a bichinha é danada. A memória bota aquele filtro vintage, sabe? Aquele filtro, esqueci o nome do filtro. Amiga, como é o nome do filtro?
que fica queimadinho assim, você que é fotógrafo, eu me contei. Sépia! Sabia que ela é, sabia. Aquele filtro sépia, entendeu? A memória bota aquele filtro sépia. Aí ela bota a música bem bonita. Toda vez que você olha pro passado, você faz, ai, como era lindo. Ai, que saudade, eu era tão feliz. E parece que a gente vivia num conto de Hollywood, né? Num musical de Hollywood, com todo mundo cantando. E não é assim, sabe? Vai ter dó lá e vai ter dó cá. É um lugar de olhar e falar, ok, esse passado ele passou. Não tem.
Não tem nenhum botão na vida que você possa rebobinar, que você possa voltar ao passado. Pra aquele ponto onde vocês viviam, pra aquele jeitinho, aquela aracaju que você deixou lá. Não existe. Que você pode escolher, tem um aracaju que eu posso voltar hoje ou eu posso ficar aqui. Essa é a escolha de hoje, entende? Assim, eu amava carnaval de Salvador. Amava. Gente, eu pulei muito carnaval em Salvador. E aí hoje eu entendi, lembrando do meu último carnaval em Salvador,
que eu não amo o carnaval que Salvador tem hoje. O carnaval que eu amava era um carnaval de quase 20 anos atrás. Gente, a gente fala assim, quase 20 anos. É isso, carnaval de quase não, hoje, 20 anos atrás. Aquele é o carnaval. Então as minhas opções hoje são, eu posso ir pra Salvador viver esse novo carnaval, que é um outro jeito, que não é mais o carnaval que eu vivi quando eu tinha 20, 21 anos, 22 anos. É um outro carnaval.
E aí eu desisti de ir pro carnaval em Salvador porque eu penso, ah, não é mais. E aí eu fico guardando na memória aquele carnaval que é delicioso
vou ter mais. Ele é uma memória. Ele é uma lembrança. Que tinha os seus perrengues. E que eu nem sei se ela exama de hoje. E eu gostei daquele de 20 anos atrás também. Não, viu? Porque minha irmã, eu andava, eu ficava em pé, eu era desconfortável. Eu pagava pra fazer xixi no banheiro da mocinha na rua, porque eu não gosto de banheiro químico. Então, assim, tinha perrengue. Na memória nunca tem perrengue. Para pra pensar se vocês, o que vocês estão idealizando dessa vida? Tanto aqui quanto lá. Que vida é possível aqui e lá? E o quanto
A expectativa de, nossa, eu devia estar morando lá, te impede de viver o aqui, sabe? O quanto a gente não investe tudo que a gente tem pra fazer dar certo, às vezes, que a gente fica olhando pra trás e falando, ah, não, mas lá era mais gostoso, lá era melhor, lá era mais divertido. Gente, isso é em casamento, em relacionamentos, em trabalho, tanta coisa, sabe? Tanta coisa que a gente fica querendo que o passado permaneça
Esses dias eu gravei uma participação num clube de livro. E aí a pessoa me falou, Elisama, como que a gente se prepara pra lidar com as mudanças da vida? E eu falei, cara, assim, a gente primeiro possa reconhecer as mudanças da vida. A gente tava falando do mesmo rio. E no mesmo rio, a frase do Heráclito é, ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio. Porque não é nem mesmo homem, nem mesmo rio. Gente, o rio muda. E é isso, você pode olhar pra trás e falar, nossa, mas aquilo é tão gostoso.
E eu boiava nesse rio e a água era morninha. Pois é, mas hoje a água tá turbulenta.
você não boia mais. Como que você lida com o que é? Com a vida hoje? Como que você pega a idealização? Ah, essa vai ser a minha vida quando eu for concursada, quando eu estiver em São Paulo. Como é que eu pego a idealização e falo, ok, não vai ser assim. Nunca vai ser igual a idealização. E pra encerrar, porque eu tenho que encerrar, não é verdade? Você fala que você aprendeu que o concurso tinha que ser teu primeiro marido. Que difícil pensar nesse divórcio, né?
Porque você pensar em exonerar não é só pensar em exonerar, né? Tem uma construção de
identidade muito forte aí. Será que você tá conseguindo separar as gavetinhas do que era sonho seu e o que é sonho da sua família? O que você quer fazer de verdade? Porque talvez não seja só São Paulo. Talvez seja o trabalho. Talvez seja o que você faz, que nem era o que você queria. Era o que tua família inteira disse que você devia fazer. Muita coisa pra pensar, né? Você vem aqui me pedindo resposta, eu te encho de dúvida. Olha só.
Nós estamos aqui pra isso. Vamos dar respostas. Meu amor, quer que eu fale da tua história, que eu comente da tua história, que eu tenho o meu
taquinho na tua história, manda teu e-mail. O e-mail fica aí. Manda e-mail. Eu vou tentar ler. Se eu não ler, quem sabe, né? Vamos torcer que eu consiga ler seu e-mail. É humanamente possível ler todos. Mas volta e-mail. Ui, volta e-mail tem um que eu tô sorteando aí. Tá bom? Eu espero que você fique bem. Que a vida seja muito gostosa pra você. Faz aquele negócio aí de mandar mensagem, de mandar aqui comentário, deixar carinhas, curtir, aquelas coisas todas, tá? E se você
viver algo parecido, não esquece. Eu tô achando tão lindo vocês dando depoimento assim, falando, amiga, eu vivi isso, é tão legal, deve ser tão legal pras pessoas que mandaram e-mail ler, experiência de outro que deu tudo certo, sabe? Enfim, é isso. Manda no grupo da família, amor! Manda no grupo da família, tá bom? Um beijo e até o próximo episódio.