Episódios de Chá de coragem, com Elisama Santos.

Ep. 71 - QUANDO A REALIDADE ATROPELA O SONHO, Chá de Coragem com Elisama Santos

03 de março de 202624min
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Por que é tão difícil desapegar de um desejo, um sonho? Será que os sonhos são imutáveis e definitivos?

O pitaco de hoje é na carta de uma ouvinte que vive dividida entre o desejo de uma família que sonhou e uma relação desgastada que não oferece o espaço de segurança que ela precisa.

Como equilibrar sonho e realidade?

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✦ Créditos ✦

Conceito, Roteiro e Direção: Elisama Santos e Natália Araujo

Cenário e Produção: Natália Araújo

Filmagem e Edição: Natália Araújo

Assuntos14
  • Sonhos e Aspiracoes PessoaisDificuldade em aceitar que sonhos não se realizarão · Luto pelos desejos não concretizados · Impacto da idealização na percepção da realidade · Necessidade de reformular expectativas de vida
  • Relacionamentos AbusivosControle e manipulação emocional · Invalidação da percepção da mulher · Violência doméstica psicológica · Padrão de culpabilização · Distorção da realidade pelo parceiro
  • Motivação e Bem-estar PessoalEmbrião congelado e pressão reprodutiva · Conflito entre maternidade e saúde do relacionamento · Impacto da idade (46 anos) nas decisões · Custo emocional e financeiro da fertilização
  • Trauma e ComportamentoNegação sistemática da dor da mulher · Impacto psicológico da invalidação constante · Ciclo de trauma e retraumatização · Falta de reconhecimento emocional
  • Recontextualização de sonhos conforme a idadeDiferença entre aspirações aos 20 e aos 46 anos · Necessidade de renovar expectativas de vida · Impacto da experiência vivida na reformulação de desejos · Planejamento considerando história pessoal
  • Relacionamentos FamiliaresRelação com filho de 5 anos · Responsabilidades parentais desigualmente distribuídas · Qualidade de vida familiar quando companheiro ausente · Impacto emocional da paternidade responsável vs irresponsável
  • Dependência financeira e controleSalário único do companheiro como fonte de poder · Falta de independência financeira da mulher · Busca por concurso público e empregos · Impacto da dependência na capacidade de sair da relação
  • Busca por bem-estar e segurança emocionalFalta de segurança na relação atual · Desejo de estar sozinha em paz · Valorização da calma e do bem-estar · Priorização da saúde mental
  • História pessoal e trajetóriaMãe que odiava a autora da carta · Rejeição continuada até hoje · Busca por criar família diferente da sua origem · Impacto do trauma familiar nas escolhas atuais
  • Histórias Pessoais e de ViajantesViagem internacional como realização de sonho dele · Humilhação e mau trato durante a experiência · Abandono de carreira para acompanhar companheiro · Arrependimento da decisão de deixar emprego
  • Culpa e ResponsabilidadeCompanheiro culpabiliza mulher por erros dele · Exemplos: acidente de carro, objetos perdidos · Falta de pedidos de desculpas · Padrão de inversão de responsabilidade
  • Privilégio, machismo e dinâmicas de classeHomem branco de classe média com privilégios · Machismo velado e manifesto · Discrepância entre comportamento público e privado · Falta de responsabilização pela atitude machista
  • NeurodivergênciaCompanheiro com TDH não diagnosticado ou não tratado · Falta de responsabilização pela condição · Impacto do comportamento impulsivo na relação · Diferença entre ter condição e não buscar ajuda
  • Carreira ProfissionalMulher é professora · Estudando para concursos públicos · Preparação para tomar posse de vaga pública · Sacrifício de carreira anterior
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E quando a idealização do sonho nos prende a um pesadelo. Quando a expectativa do que a vida pode ser nos impede de lidar com o que ela é. Aceita o chá de coragem? Oi Elisama, adoro seu chá de coragem. Obrigada por ler meu texto. Faz pouco, faz poucos dias que passei a ouvi-la e já sou apaixonada pelas suas leituras e conselhos. A cada vídeo assistido, um shot de chá de coragem para poder assistir, escrever e contar a minha história.

faz sentir um eterno sentimento feminino de inadequação. Estou companheira de um rapaz, juntos temos um filho de 5 anos. E nossa relação existe desde 2004. São 22 anos juntos. Passamos por muitas coisas. Superamos a infertilidade do casal, conquistamos uma casa e outros bens. Juntos também conseguimos evoluir como pessoas, tornando-nos muito melhores, mas humanos e intelectuais. Meu companheiro é um homem branco, de classe média, ou seja,

seus privilégios de raça, gênero e classe. Ele é o machista. Mas nem sempre é assim. Na rua, se mostra um parceiro exemplar. Mas em casa, sei que não é bem assim. Hoje, só ele tem salário e essa é a nossa única fonte de renda. Um salário relativamente bom para nos manter, embora não me baixe. Atualmente, estou a estudar para concursos públicos. Em breve, estarei tomando posse na minha vaga. Hoje, não suporto mais esse companheiro que me violenta e me entrega amigelas de amizade,

de atenção, alegria. E que, por outro lado, não me poupa de suas grosserias, palavras violentas, algumas violências domésticas no âmbito psicológico, falta de respeito. Nem sempre foi assim. Você sabe que no início, como dizia minha avó, tudo são flores. E fui. Depois, a ficha foi caindo. E pude perceber que aquele cara legal, que toca violão, que topava tudo e que eu amei muito, agora é um controlador, reclamão, me tira do sério e diz que rapidinho eu fico furiosa, diz que eu invento histórias.

Ele adora ficar contra mim. Mas isso quase que de maneira inconsciente. Mas faz muito. E eu odeio. Tipo assim, ele tem uma cunhada que não gosta de mim. Ela nunca me disse, mas eu sei que ela não gosta por causa da forma como ela me trata, as suas ações. Certa vez estávamos eu, ela e uma tia do meu companheiro na cozinha e elas duas se juntaram no canto da parede e começaram a cochichar baixinho pra eu não ouvir. Eu achei isso inconveniente e fui comentar com meu companheiro.

Aí ele me disse que isso é legal e que na verdade minha queixa era porque elas não me incluíam na fofoca.

Dário, eu não queria estar na fofoca. Gostaria que elas não fizessem aquilo na minha frente, talvez nem falassem sobre mim. Talvez porque sei que falam, mas não foi aquela cena. Foi conflituoso e não amoroso, e eu avalio assim. E você, Alisama, o que acha? Outra vez, eu andando com o nosso carro na rua, veio uma pessoa da maneira errada e colidiu com o meu carro. Eu estava na via certa, mas aí ele insistiu que eu estava errada e brigou comigo.

Dias depois, descobrimos que eu estava certa. Já houve casos de ele guardar as coisas em locais e depois não achar e me culpar.

Por isso mesmo. Ele não assume nada. Mal divide as responsabilidades da criação do filho. Quando saímos constantemente, ele fica fazendo um corpo mole para não dar assistência a mim e ao menino. Não quer fazer e pronto. Ai, Elisama, eu tenho tanto para lhe falar. Estou aqui tentando resumir para que não fique extenso e você possa ler a minha história. Porque eu quero muito conversar com você sobre a minha situação amorosa e emocional e maternidade no meio disso.

Eu já não sinto amor por essa pessoa. Hoje de TPM, eu só quero fugir, sair, me separar. Separar é o que mais me passa na cabeça.

tudo é tão bom. Elisama me ajuda. Agora, no meio disso tudo, tem um embrião congelado que eu quero ter. Porque eu quero ter o segundo filho. Eu não consigo conviver emocionalmente com a ideia de que eu não poderia ter um filho. E agora eu tenho a possibilidade de ter dois e eu não terei. Eu paguei caro por esse embrião. Acredito que você deve saber quanto a fertilização custa. É muito caro. Demorei a ter, é verdade, também por causa da minha relação com meu companheiro, achando que podia melhorar.

Porque também entendia que deveria ter meu segundo filho estando ao seu lado. Hoje eu não sei se eu quero, mas não sei o que fazer. Eu tenho medo, mas eu quero enfrentar.

Não penso em esperar porque já tenho 46 anos. Mas ao mesmo tempo a nossa relação está em frangalhos. Adoro a ideia de ter uma família. Sou canceriana e tive uma família muito ruída. Minha mãe me odiava, me maltratava e me rejeita até hoje. Já comecei com meu companheiro várias vezes. Mas ele foge, defende sua atitude, diz que eu estou inventando, diz que não vai fazer e não faz. Eu já não acredito mais nele. Ele é neurodivergente, tem tridH, mas não se trata. Eu não aguento mais. Gostaria de um chá de coragem para resolver a minha vida.

ainda não tenho meu salário, ainda não tenho minha independência financeira. Atualmente, eu busco empregos. Ao longo desses 22 anos, já trabalhei em alguns locais. Eu sou professora. Mas o último emprego eu larguei porque combinamos de passar um tempo fora do país. Fomos e foi um inferno. Ele me tratou super mal, com humilhações, e eu me arrependi profundamente de ter deixado o meu emprego para realizar esse sonho que era bem mais dele do que meu.

Fora do país, eu também não trabalhei. Não consegui a documentação a tempo. Nesse tempo, ele chegou a me dizer que aqui você só faz na reação. Muitas vezes,

Muitas vezes tu vai viajar sem sair do quarto. E vejo eu e meus filhos morando juntos, jantando, eu e eles somente, naquele clima de amor e calma. Eu também tenho meus momentos de estresse, mas os meus amores são maiores. Também sonho de estar trabalhando no meu lugar, sonhando. Nós na minha casa em paz. Hoje eu não tenho paz, não tenho segurança e muita vontade de ser feliz. Vai, Elisama, divide o começo de chá de coragem para que eu possa me organizar e ser aqui pela vida.

Obrigada, obrigada e obrigada pela ajuda. Então, gente, quando eu recebi esse e-mail,

Eu fiquei pensando assim, eu confesso que o meu primeiro pensamento foi, meu Deus, essa mulher não quer ter o segundo filho com esse homem. Como você lá quer ter o segundo filho com ele? E aí eu fiquei pensando em como, por vezes, a nossa dificuldade em desapegar do sono nos faz ficar presas em situações muito, muito, muito difíceis pra gente. Ela me fala, Lisana, mas eu não aceito que eu não vou ter outro filho. Eu quero ter um outro filho.

Ao mesmo tempo que ela fala, eu não suporto mais viver essa relação. Eu não suporto mais viver com esse homem. Ele não se responsabiliza pelo meu filho. Ele não se responsabiliza por ele.

Ele não se responsabiliza pela nossa relação. E assim, tem tanta coisa pra gente falar aqui. Mas eu quero começar falando que, às vezes, tudo que a gente precisa pra lidar com a vida é aceitar que os nossos sonhos não vão acontecer da forma que a gente quer. Tem sonho, minha gente, que vai ficar na esfera do sonho. Tem desejo que vai ficar na esfera do desejo. Que nunca vai ser realizado. Que nunca vai sair do papel. Que nunca vai acontecer do jeitinho que a gente queria que acontecesse. E é importante entender isso e ver o luto disso. E chorar.

por isso, e se frustrar por isso, pra conseguir lidar com o que a vida é, sabe? Quando você encara o luto e fala, caramba, eu queria que as coisas fossem diferentes, e elas não são, você consegue, quando você chora pelo que não é, poxa, isso aqui não é como eu queria, você está assumindo que a tua expectativa não existe ali, e você abre espaço pra enxergar o que é de fato, o que está acontecendo. Quando eu quero encaixar a realidade no meu sonho, eu normalmente não lido com a realidade, porque eu só pego ela pra tentar encaixar, tipo assim, é como se você

tivesse uma forminha de um quadrado, e você tem uma estrelinha do mar, e você fica ali forçando a estrelinha do mar no quadrado, e ela não vai encaixar. E você vai suar, e você vai se estressar, e você vai machucar a estrelinha do mar, mas ela não é um quadrado, ela é uma estrelinha do mar. Quando você olha e fala, caramba, esse objeto aqui, que eu até então nem sei que é uma estrelinha do mar, mas eu sei que ele não é um quadrado, ele não vai encaixar no meu quadrado.

E aí você olha, e você chora, e você se lamenta, e você olha para o objeto e fala, ok, ele não é um quadrado. O que ele é afinal?

ele não há. Ele não é o quadrado. Depois de assumir que você não vai encaixar, você consegue ver com mais clareza o que é o que você está lidando. E talvez seja o momento de enxergar que o segundo filho não vai vir não com esse homem. E que sim, você vai ter que refazer esses planos. Porque enquanto você achar, não, mas eu estou com o embrião guardado e é aqui, tem que ser com essa família, tem que dar certo aqui. Você vai ser a pessoa que está com a linha no mar, forçando a bichinha a se encaixar numa forminha de quadrado. Ela não vai se encaixar.

é o quadrado. A família que você sonha, de paz, tranquilidade, seus filhos no plural, não é a família que você tem. Difícil, né? Isso é duro e é real. E você precisa olhar pra isso e pensar, eu queria, eu queria que fossem dois filhos, eu queria que fossem três filhos, eu queria que a minha vida fosse muito diferente do que ela é. E ela não é diferente do que ela é, porque ela é o que ela é. Brigar com a realidade é uma das maiores formas que a gente tem na vida de sofrer, sabe? Se machucar. Por quê, amor?

Porque a realidade é o que é. Ela já venceu. Entendeu? Ela tá posta. Ela é o que é. Ela vai vencer. Não brinca com ela, não. Porque assim, você não tem ferramenta pra ganhar a realidade. O que é, você não tem a família que você sonhou. Você não tem o companheiro que você sonhou. Você provavelmente não vai ter o segundo filho dessa pessoa. E é necessário que você desapegue desse sonho pra você encarar a realidade como ela é. E aí, tem texto do e-mail que eu achei um pouco confuso, mas você conta da cunhada, conta de situações

você. E aí tem um pedacinho no meio que você fala assim, Elisama, eu bati o carro, mas eu tava dando a via certa e ele falou que o errado era eu. Depois a gente descobriu que não era eu errada. Ele perde as coisas e fala que fui eu que guardei errado, depois ele acha e ele não me pede desculpas. Então, você fala de coisinhas do dia a dia em que ele coloca a culpa em você, que você fala, mas Elisama, o que você acha? É como se você me falasse assim, eu tô ficando doida. Ele que tá certo. E aí, amor, uma das

As principais características da relação violenta, da relação abusiva, é a característica de fazer com que você duvide de você. A relação abusiva, ela tem um talento especial, um poder especial de fazer com que você duvide das suas percepções. A pessoa que normalmente é abusiva, ela tem uma tendência a falar que você está vendo errado, que você está julgando errado, que a culpa é sua, a distorcer a realidade de uma forma que a conversa encaminha, que você fala assim,

Mas será que ele está certo aqui? Eu não estou chegando. Será que é isso mesmo? É uma relação que te enfraquece na tua raiz, sabe? Que enfraquece a tua percepção de si, das suas atitudes, das suas escolhas, da sua percepção de mundo. É uma relação que, para que você acredite na narrativa da pessoa, no pela de sobre a vida, você precisa duvidar de você porque a narrativa dela, em regra, não é uma narrativa

realidade, que está associada ao que está acontecendo, a narrativa que está na cabeça dela. Mas ela precisa pegar você e aprisionar na narrativa dela. Você precisa viver nesse mundo paranoico, nesse mundo distorcido que essa pessoa vive. Então quando você fala, eles amam tudo o que eu falo, ele está contra mim. Ele distorce. Essa é muito uma característica numa relação em que você não é você e não pode ser você. Essa é uma característica muito forte numa relação em que não é saudável.

você. Essa do Ferenzi é um psicanalista que eu gosto muito das teorias do Ferenzi e ele criou algo que eu já falei aqui no podcast que chama desmentido, conceito, chama desmentido o que é o desmentido? O Ferenzi entendia que o trauma ele tem como se tivesse fases e que não é só a situação traumática que te machuca, que te dói que o fato de você não encontrar no outro um reconhecimento dessa dor e da pessoa trazer pra você

uma percepção que nega a tua dor, reforça o trauma, é como se fechasse o ciclo do trauma, como se te retraumatizasse. Então, cada vez que você fala, nossa, olha só, elas falaram, tua mãe me tratou mal, tua irmã me tratou mal, e ele fala, não, não tratou mal nada, você que é cheia de história, você também reclama de tudo, é como se ele estivesse te retraumatizando. A sua percepção, você passou a dor, e na hora que você precisa de um colo por conta daquela dor, você fala, não, isso não aconteceu, não.

que essa sensação que você tem, que você descreve de forma sutil na conversa de, hein? Será que eu tô ficando doida? Ele fala que eu que queria, mas eu não queria isso. Eu sei que eu não queria. Ele tá falando que eu queria a parte da fofoca, mas não era o que eu queria. Tem uma ansiedade nisso. Tem um lugar de, mas não é. Ele não tá falando isso. Eu não fiz assim. Essa sensação que você tem constante de ter que defender o que você tá vendo, defender como você tá enchendo nas coisas, porque você tá sendo desmentido o tempo inteiro, porque é como se você vivesse

numa vida distorcida, sabe? Você experimenta uma coisa e você fala assim, hum, isso é limão. Tá azedinho, mas eu gostei azedinho. Aí você fala, não é limão não, é laranja, é docíssima. Aí você fala, não, poço, é limão, tá azedo. Não, porque é laranja, é docíssima. Aí você começa a duvidar de você. Pera aí, será que meu palado tá quebrado? Será que eu não tô percebendo que isso aqui é um limão? O que tá acontecendo aqui? Essa distorção da realidade, ela te enfraquece. Porque veja, se você duvida do que você tá vivendo, da sua percepção da vida,

Como que você vai falar assim, isso aqui não é pra mim, isso não é saudável, eu quero ir embora. Uma forma de te manter na relação, de fazer você ficar, é fazer você duvidar das suas percepções. Porque são as suas percepções que fazem com que você se fortaleça e fale, eu quero ir embora. Isso aqui não é pra mim. Compreende? É importante pra que essa relação funcione da forma que ela está, que a sua percepção da realidade, ela esteja o tempo todo desmentida.

E que só exista uma versão da realidade, essa versão é a versão contada por ele.

A gente falou sobre abrir mão da idealização, viver o luto do teu sonho, pra você conseguir lidar com a realidade. E agora eu tô te falando que a realidade, você vai precisar defender da forma que você percebe a realidade, porque ela é o tempo inteiro atacada pela visão da realidade do outro. Assim, nós não compartilhamos a realidade, tá? Cada um vê a realidade do seu jeito. A gente não compartilha da mesma coisa. Então, assim, a realidade, eu tô no meu quarto agora.

São muitas informações, ele é muito complexo. É impossível que eu consiga captar a pessoa ou talvez tudo o que está acontecendo nesse quarto nesse exato momento. Como é impossível a minha atenção, ela escolhe focos. E o foco de atenção de cada um de nós, ele vai ser diferente. E aí, por isso é perfeitamente possível que o mesmo ambiente seja descrito de forma diferente ou de pessoas diferentes. Porque a gente pode enxergar coisas diferentes.

E da forma que a gente enxerga as coisas, a gente conta histórias. E essas histórias são criadas.

Pela nossa história, pela nossa cor, pelo nosso gênero, por onde a gente nasceu. Nossa, gente, tem muita coisa que faz a forma que a gente enxerga a realidade. Então, quando eu falo com você que você vai ter que defender a sua forma de enxergar a realidade, eu tô te dizendo que esse jeito que você enxerga o mundo, ele é seu. E ele tá sendo negado nessa relação, porque ele tá sendo sobreposto pela visão do outro. E aí, pra gente finalizando, eu quero te fazer um convite.

O que você consegue sonhar a partir de agora? Porque, veja, você me disse que você pega quando tá sozinha,

viajando, sem sair de casa, precisando dos seus filhos, numa casa, em paz, etc e tal. Esse sonho dos seus filhos numa casa, em paz, é um sonho que você diz ter há muito tempo. E é um sonho que não leva em consideração a tua realidade de hoje. É um sonho que é provavelmente de uma menina que você foi há muitos anos. E essa mulher de 46 anos, o que é que ela sonha? Essa mulher de 46 anos, sendo quem ela é hoje,

com a história de vida que ela tem hoje, com as frustrações que ela tem hoje, com os medos que ela tem hoje, mas com a experiência que ela tem hoje, com as conquistas que ela tem hoje. O que essa mulher sonha? Porque sabe quando eu falei que você fica tentando encaixar a estrelinha no mar numa forminha quadrada? Às vezes você está pegando essa mulher de 46 anos, que hoje uma estrelinha no mar também está tentando encaixar na forminha quadrada da menina que sonhava isso quando tinha 20, e que sabia tão pouco da vida,

Sabia tão pouco de si do outro. Não tô falando com as meninas de 20 anos. Não sabem da vida, mas assim. É impossível que a minha que você foi aos 20. Saiba o que você precisa agora aos 46. Impossível. A Elisama que eu sou hoje. De quase 41 anos. Vai fazer planos. Tenho muitos sonhos. Mas eu não tenho como assegurar. Que esses serão os sonhos. Da Elisama de 60. Não tem como. Eu não sei quem eu vou ser com 60 anos. Eu não sei o que a vida me faz viver até lá.

você precisa refazer agora? Que expectativas você precisa refazer agora? Que planos você precisa refazer agora? Que considerem os anos que você viveu, mulher. Considerem a tua história. Porque não adianta tu só sentar e ficar imaginando uma vida diferente que uma vida que teria que estar recontando tua história inteira. Que é uma vida que teria que voltar alguns anos na tua vida. Não vai acontecer. Você não vai ter essa oportunidade.

Seus sonhos agora precisam considerar quem você é. E eles estão considerando? Eles estão considerando

Você é uma mulher de 46 anos. Eles estão considerando que você enfrentou até hoje. Está considerando tudo isso? Ao tempo, eu lembro de uma amiga que ela tinha terminado um relacionamento. Lá vai um episódio grande, né, gente? Uma amiga que tinha terminado um relacionamento. E aí, ela voltou para o namoro. E ela ia casar. E eu perguntei para ela. Vem cá, você vai casar? Você não tinha terminado? Porque ele fez isso, isso e isso.

E ela falou. Ah, amiga, eu quero ter filho. Quero ter minha família. E olha, eu já não sou mais jovenzinha. Na época, a gente devia ter uns 30. Então, assim.

Vai, eu quero ter filho, ele eu já conheço. Vai ser mais fácil assim. Hoje eles estão separados porque tiveram relação de bosta. Porque ele era quem ele era. Ele não ia mudar. Mas a idealização de ter a família era maior do que enxergar quem ele era. E fez ela insistir em algo que ela não deveria ter insistido. Tá na hora de abrir mão da idealização, gata. E respeitar essa tua história. Respeitar essa mulher que viveu coisa pra caramba.

E dar pra ela a oportunidade de sonhar. Novos sonhos. De construir novos pontos. Sabe?

sentido pra quem ela é, não pra menina de 20 anos que você foi. É isso, meu amor! Se você acha que faz sentido o que eu falei, se você quer compartilhar com alguém, manda, manda pra tuas amigas. Manda alguém pra você falar assim, nossa, tô precisando conversar sobre isso aqui. Pergunta pra tuas amigas, hein cá, tô sonhando com o quê? Tô sonhando com o quê? Mas se sonhar é da igual, é o sonho que você tinha quando você tinha 20 anos, 18 anos, que nem te representa mais.

O que é que a gente tá deixando de viver, gente? Aqui é uma idealização, deixa de viver com a vida como ela é.

né? Manda aí as mensagens, converse com as pessoas. Chupa um incômodo presencial, esse negócio fica só no WhatsApp, não dá certo não. Confia no meu puto tomar um café, fazer um bolo. Por favor, tá? E faz aquelas coisas tudo aí. Ser sininho, compartilhar, coraçãozinho, deixar mensagem, tá? Me ajuda. É isso, meu amor. Muito obrigada pela sua companhia e até o próximo episódio.