Ep. 88 - NÃO PODEMOS FAZER NOSSOS PAIS FELIZES. Chá de Coragem com Elisama Santos
Como se libertar de dinâmicas familiares abusivas e resgatar a coragem de ser quem realmente somos?
Através da história de uma ouvinte que se sente responsável pela infelicidade da mãe e da irmã, desconstruímos a ideia de que temos o poder de "curar" ou "fazer o outro feliz".
Exploramos a dificuldade de nomear violências familiares, o peso da culpa e a importância de buscar o olhar de outras pessoas para reconstruir a imagem distorcida que recebemos da nossa família.
Como estabelecer limites, uma distância segura e viver o luto da família que não nos acolhe?
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✦ Créditos ✦
Conceito, Roteiro e Direção: Elisama Santos e Natália Araujo
Cenário e Produção: Natália Araújo
Filmagem e Edição: Natália Araújo
- Relação abusiva e questões familiaresCulpa familiar · Limites familiares · Autoimagem distorcida · Vulnerabilidade e confiança
- Felicidade e propósitoIncapacidade de fazer alguém feliz · Expectativas familiares
- Luto familiarAceitação da família · Busca por apoio externo
Será que a gente consegue fazer alguém feliz? E como esse alguém chegou no mundo bem antes de nós? Aceita achar de coragem?
Olá, Elisama. Minha família sempre foi difícil de conviver. A forma como eles demonstram amor é estranha para mim. E crescer nesse ambiente fez com que eu reproduzisse muitos comportamentos que hoje eu mesma condeno. Minha mãe tem um problema de saúde crônico, mas não faz nada para melhorar. Ainda assim, diz para todos que a culpa é minha. Que eu não faço a fisioterapia dela, entre outras coisas.
Eu sei que isso não é verdade. Sei que eu não tenho o poder de curá-la sem a colaboração dela, mas mesmo assim isso me machuca profundamente. Ela nunca se dirige a mim com carinho. É sempre de forma grosseira, com palavras duras. E apesar de tudo, ainda é muito difícil me afastar. Para completar, minha irmã tem seguido o mesmo caminho, reproduzindo esses comportamentos e julgamentos comigo.
Sou lésbica e ainda luto contra a culpa por ser quem eu sou. Essa dor acaba se espalhando por todos os meus relacionamentos. Eu me fecho, afasto as pessoas, não consigo permitir que ninguém realmente me conheça. Tenho minhas amigas, mas elas não daquelas que sabem tudo sobre mim. Porque eu não deixo. No fundo, muitas vezes eu me sinto um lixo. E eu não sei o que fazer com isso.
Eu faço terapia, já melhorei muita coisa, mas ainda carrego uma pergunta que me dói. Como não me sentir culpada pela infelicidade da minha família? Eu só queria um pouco de coragem. Ai, minha gente, que família é um negócio difícil, né?
A gente tem muita, muita dificuldade mesmo de nomear as violências familiares, sabe? De assumir que essa pessoa que tinha a função no mundo de ser a nossa anfitriã, de nos cuidar, nos fazer enxergar que o mundo é bom, essa pessoa, ela não é capaz de nos dar isso. E a gente tem...
A facilidade hoje de nomear muitas relações abusivas. Menos essa. E a gente acreditou verdadeiramente que se tivesse a conversa certa, o comportamento certo, o jeitinho certo de agir, caramba. A gente ia ter o melhor dos nossos pais. Papai e mamãe seriam incríveis se a gente não tivesse feito aquela merda. Se a gente não tivesse falado daquele jeito. Se a gente...
E aí, eu quero te contar um segredo. Você é incapaz de fazer alguém feliz. Incapaz. Você não é capaz de fazer seus filhos felizes, se você tiver filhos ou tiver vontade de tê-los. Você não é capaz de fazer a sua companheira feliz. Você não é capaz de fazer os seus pais felizes.
Cada um de nós carrega em si a responsabilidade por cuidar da própria felicidade, sabe? A gente pode contribuir com o outro, a gente pode ter o outro contribuindo com a nossa felicidade, mas ser responsável por essa felicidade, a gente nunca vai conseguir.
E é tão difícil. Eu vou te contar mais ou menos esse mecanismo quando a gente é criança, tá bom? Quando a gente é criança, a gente precisa muito do cuidado dos nossos pais. A gente precisa muito acreditar que essa pessoa que é responsável por nos manter vivos e vivas, essas pessoas, elas farão tudo para nos proteger. Elas não são ruins, elas não têm nada de ruim.
E aí, quando elas criticam, quando elas batem, quando elas tomam decisões e têm comportamentos,
que fogem ao que a gente espera da pessoa boa, da pessoa bacana, da pessoa respeitosa, é normal que a gente interiorize essa versão má do papai e da mamãe, que a gente interiorize essa culpa por pensar, se essa culpa estiver dentro de mim, eu tenho algum controle sobre ela. Entende?
Se não é papai e mamãe que é ruim, sou eu que causo isso em papai e mamãe, então eu tenho algum poder de não causar isso em papai e mamãe. Se eu aqui pequena, concluo que, caramba, essa pessoa que me alimenta, que cuida da minha casa, que me dá uma cama, que me mantém vivo, ela é imprevisível, ela tem esse lado aí que é quase cruel, ela é essa pessoa que age dessa maneira, meu Deus do céu.
Eu tô aqui lascado nesse mundo. Eu tô indefesa. Eu não tenho como me defender e me cuidar. Porque vem dela. Eu não sei o que acontece na vida dela. Aí você pode ficar hipervigilante. Ou você pode interiorizar.
E falar, não, não, não, sou eu. Sou eu que faço isso, eu que desperto isso nela. Porque aí você sente um pouquinho seguro, entendeu? Aí dá quase uma tranquilidade de falar, ok, a ruim aqui sou eu. Então eu consigo controlar. Eu consigo meio que determinar quando as coisas vão acontecer. Ou quando elas não vão acontecer.
E aí você interioriza essa aversão, você interioriza o lado ruim, digamos assim, das pessoas que te cuidam.
E isso acontece muito com quem escuta do cuidador e da cuidadora aqui, tá vendo? Isso aqui é culpa sua. Você me fez falar assim. Você me fez agir assim. Você me fez brigar com você assim. Você me fez sentir isso aqui que eu normalmente não sinto. A culpa é toda sua.
Quando a gente escuta isso, desse cuidador, dessa cuidadora, a gente enquanto criança não vai questionar. A gente vai acreditar nas histórias que eles nos contaram sobre a gente. E demora tanto tempo para você entender que cada rótulo que você recebeu na infância, cada um deles, era só a opinião do teu pai e da tua mãe sobre você, não é quem você é?
A gente usa o outro como um espelho quando a gente é criança, para a gente saber quem a gente é. Então, a noção de quem você é, das suas características, de como essas características funcionam no mundo, ela é atravessada pelo olhar dos seus pais.
Assim, você olha para eles como um espelho, por esse espelho você se vê e fala, ah, olha só, olha como eu tenho nariz, olho, boca, meu cabelo é assim. Esse espelho é um espelho que te guia para um monte de coisas. Às vezes alguém te pede alguma coisa e você olha para a pessoa através do espelho. Porque você olha para o seu pai e para a sua mãe e pergunta, é seguro gostar dessa pessoa? Eu devo confiar nessa pessoa? Quando você é pequeno, você olha para eles como referência para depois...
Você abrir espaço para alguém na tua vida ou não. Então, quantas vezes chegava alguém na tua casa e tua mãe falava, vai filho, fala com ela, não sei quem. Você olha para sua mãe e sua mãe está rindo. E você fala, hum, então eu riso, ela é segura. Sua mãe está de cara fechada, opa, ela não é segura. Você está aqui, usando esse espelho, olhando o mundo através desse espelho.
Mas esse espelho, bem, ele não tá limpo. Ele não é novo, entendeu? Ele não é um espelhinho assim, nossa, sem nenhuma manchinha. Esse espelho, ele já tá meio gasto. Ele tem manchinhas, ele tá um pouco sujo. Esse espelho tem marcas, tem marcas de dedo, tem marcas de dores, tem pequenos trincos. Esse espelho, ele...
Ele tem uma história. Mas você não sabe que esse espelho tem uma história. E aí você se olha no espelho e acha que aquele trinco ali é uma rachadura no seu rosto, no meio da sua testa. Você olha para o espelho e acha que ela mancha ou a mancha no teu nariz. Você olha para o espelho e acha que aquelas marcas de sujeira são no teu peito. Não são do espelho, são quem você é.
E aí assim, você vai construindo uma visão distorcida de você. Você vai construindo uma visão de quem você é contaminada por essas marcas, por esses trincos, por essas vivências nesse seu espelho. E aí, é difícil depois de adulta.
Você desconstruir o que você aprendeu, quem você aprendeu que é você, sabe? É difícil só depois de adulta você olhar e pensar, meu Deus, olhando em outros espelhos, eu não tenho essa mancha no nariz ou essa rachadura na testa.
Olha, se eu olho em outros espelhos, eu tenho uma pintinha tão bonitinha por aqui. Se eu olho o espelho de um jeito diferente, eu sou diferente. Se eu olho o espelho de um ângulo diferente, eu sou diferente. E aí quando a gente tem famílias que nos violentam,
que não nos tratam com carinho, que não nos tratam com respeito, que não nos escutam, que não nos protegem. Quando a gente tem famílias que nos magoam, famílias que nos colocam num lugar em que a gente se sente um lixo, a gente precisa começar a olhar para outros espelhos, para construir novas imagens de quem a gente é.
Porque se você continuar se olhando nesse espelho, você não vai construir uma imagem diferente de você. Mas sabe qual é o problema? Quando você está tão perto desse espelho, você acha que aquelas rachaduras são em você. Você fala, quem que vai querer alguém? Todo rachado desse jeito aqui. Quem vai querer uma pessoa com essa rachadura na testa e essa mão achando a cara? Não, não vou me querer. É melhor ficar aqui.
Nesse vídeo, se vendo cada vez mais distorcido e mais distorcida por essa imagem criada na família. E para você conseguir se afastar, caramba, você vai precisar olhar e ver que essas marcas não são suas. Sim, algumas já estão em você.
Infelizmente foram tantos anos, alguns já estão aí. Mas elas não são suas e elas não te definem. A opinião do teu pai, da tua mãe, da tua irmã sobre você. É só a opinião da tua mãe, da tua irmã sobre você, não é quem você é. E como que você vai além dessas opiniões? Sabe? Que outros olhares você tem recebido? Que outros espelhos estão ao seu redor?
E pra você conseguir se abrir pra esse espelho, gata, tem um luto que precisa ser vivido aí. Talvez você nunca escute da tua família que ela tem orgulho de você. Talvez essa palavra de carinho que você tanto espera ouvir, ela nunca venha. Nunca.
Talvez a sua família nunca seja um espaço seguro para você. E talvez seja a hora de começar a viver esse luto. De olhar para essas pessoas e assumir, caramba, elas não vão me dar o que eu preciso. E se eu quero tanto carinho, escuta, apoio, eu vou precisar procurar em outros lugares. E aí eu vou te contar um segredo. Que quando você começa a encontrar em outros lugares, e aí eu vou te contar um segredo.
A família não vai deixar de ser importante. O apoio deles não vai deixar de ser importante. Mas não vai ser mais tão central, sabe? Quando você é alimentada por outros apoios, por outros colos, por outros carinhos, o que a família não te dá não vai ser um vazio que vai te tomar por inteiro. Vai ser o que a tua família não te dá. Que triste.
Que pena. Que pena que tantas pessoas recebam acolhimento e amor e apoio da família e que você não tem isso. Já desde eu estava conversando com uma amiga e ela falou, ah, é bom que a gente tem que ir onde voltar. Não, tem gente que a família não é um lugar seguro para voltar. Que a família não é um lugar seguro para estar. Que é melhor você pedir ajuda ao estranho. Tem gente que o preço...
de conviver com a família é tão, tão grande que é muito melhor se afastar. E aí você fala, Elisão, eu não consigo me afastar. Estar perto tem te feito feliz? Estar perto tem feito a tua família feliz?
Será que se afastar um pouco e descobrir qual que é a distância segura? Eu não estou falando para você cortar teus pais, tua mãe, tua irmã, das tuas relações de uma forma para sempre, não. Estou falando para você descobrir qual é a distância segura.
Eu estou falando para você descobrir qual é a forma segura de conviver com eles. Qual é a distância em que você consegue manter alguma proximidade sem deixar que eles distorçam a tua visão sobre você mesma. Deixa eu te contar um segredo. Já falam mal de você. Já te tratam mal.
Você fala, Elisama, como é que eu lido? Com a ideia de que eu sou responsável pela infelicidade da minha família. Você não é, porque é impossível você ser responsável pela felicidade ou pela infelicidade de quem quer que seja. Imagina de uma família inteira, gata. Imagina de uma família inteira.
O fato de você ser lésbica não pode causar uma infelicidade na família inteira. Os preconceitos, as expectativas e os medos dessa família, sim. O nosso comportamento, ele pode influenciar na felicidade ou na infelicidade do outro. Ele não é a causa. Como o outro recebe o nosso comportamento, o que faz toda a diferença. Entende? Então, assim...
Se os teus pais têm determinada expectativa sobre você que você não cumpre, o problema não está necessariamente em você. Pode estar na expectativa que eles estão desenhando para você. E eu arrisco dizer que se você atendesse a todas as expectativas deles, eles continuariam infelizes. Porque não é sobre você.
Você já é uma mulher adulta. E eu tenho certeza que foi uma infância inteira tentando fazer essas pessoas felizes. O que você vai fazer agora? Desistir. Desistir de tentar fazê-las felizes.
Agora você vai pegar essa energia que você gasta. Tentando fazer tua mãe feliz, tua irmã feliz. Essa energia que é drenada de você todos os dias. Você vai pegar essa energia, meu amor, e vai voltar pra você. O que é que você vai fazer com essa energia?
Vamos fazer o foco de ficar bem? Vamos começar com as amigas. Dessas amigas aí, quem pode ser próximo? Quem pode saber tudo de você? Não precisa saber tudo, não. Quem pode saber um pouquinho? Abre um pouquinho da tua vida para elas. Que amiga você pode abrir um pouquinho? Que amiga você pode deixar um pouquinho mais perto?
E aí é um exercício, eu já falei aqui, que a gente tinha a ilusão de que a confiança precisa vir antes da vulnerabilidade. Então, tem que confiar em você para só então ser vulnerável perto de você. Mas não é assim. O funcionamento não é assim. Na realidade, a confiança vem pós-vulnerabilidade. Eu sou vulnerável perto de você, você age de uma forma que ampara a minha vulnerabilidade, e eu falo, meu Deus do céu, como ela é confiável. Aí a minha confiança aumenta, e eu sou vulnerável de novo. Você sabe?
É o que a Brenebral traz da figura do potinho. Que é um potinho que a gente vai colocando bolinhas dentro desse potinho. E quando a pessoa tem uma atitude que não é uma atitude digna da sua confiança, você tira as bolinhas do potinho. Mas você precisa abrir o potinho. Pra que esse jogo das bolinhas aconteça, sabe? Se o seu potinho estiver trancado, ninguém vai conseguir botar bolinhas nele. Então é hora de dar uma destampada no potinho. E tentar enxergar.
Quem é que eu posso destampar mais o potinho por perto? Com quem eu posso ser um pouquinho mais vulnerável? Você não precisa ser, ai meu Deus do céu, eu sou um ponto de vulnerabilidade, eu vou falar tudo sobre mim pra essa pessoa. Não precisa ser assim. Mas pode ser alguém que você dá um passinho. Do seu jeitinho. Que você deixa chegar mais um pouquinho mais perto e você fala, caramba, eu deixei ela chegar mais perto e ela ficou. Vou deixar ela ficar um pouquinho mais perto.
Tá ficando. Vou abrir mais um pouquinho. Caraca! Eu tô sendo aceita. Olha só essa pessoa tá aqui. Tem gente que nunca vai aceitar a gente. Às vezes a nossa família nunca vai aceitar a gente. Puts, que dor. Ai, que difícil assumir isso. Que difícil encarar isso.
Que talvez a nossa família nunca nos aceite, nunca nos acolha, nunca nos ampare. Talvez a gente nunca escute o que a gente quer escutar da nossa família. Não dá pra viver nessa espera. Não dá pra viver olhando pra mamãe e pensando, mamãe, e agora? Se eu fizer isso, você fica feliz? Você não pode fazer mamãe feliz. Muito provavelmente, quando você tomar a atitude que mamãe quer que você tome, serão duas pessoas infelizes, você e mamãe.
Porque ela não vai ficar mais feliz porque você fez o que ela quis. Quantas vezes você viu a tua mãe feliz de verdade? Longe de você. Quantas vezes você viu a tua mãe satisfeita? Você não é capaz de reparar na tua mãe. Feridas que você não causou. Você não é capaz de denisar a tua mãe.
todos os sofrimentos que ela já viveu na vida ela é uma mulher, na sociedade eu tenho certeza que ela viveu muitas dores e que ela tem mil motivos pra estar infeliz e que você não é capaz você não ganhou no mundo um super poder de amparar a sua mãe de todas as infelicidades e fazer com que ela seja feliz então você não tem esse poder
E aí o que você faz? Você assume que não tem esse poder e você chora, tá tudo bem, viu? Chora não ter esse poder. Chora sua vulnerabilidade. Talvez seja inclusive uma oportunidade de desabafar no colo de uma amiga e falar, caramba, eu queria, porque você não é um leixo. Não importa o que a sua família fala, sua família fala de você, você não é um leixo.
Não importa como a tua família te traxe ou você, não é um lixo. E essa visão do lixo, ela foi criada porque, caramba, esse espelho com o qual você criou a tua autoimagem. Ele estava com muitas marcas, né? E você achou que estava em você, mas não estão. Vai criar tua história de um outro jeito.
Vai se olhar em outros espelhos. Tá bom? É isso, meu amor. Se você gostou da nossa conversa.
Me caminha pra alguém. Manda pras pessoas, manda pra aquela amiga que tá precisando desse colo lembrar que ela não é um lixo, que ela é maravilhosa. Tá certo? Manda pra todo mundo, deixa a mensagem de apoio pra amiguinha aqui. Tá bom? Deixa a mensagem de carinho pra amiguinha, que você vê que ela tá precisando da mensagem de carinho. Deixa a mensagem de carinho pra amiguinha. É isso, meu amor. Até o próximo episódio.