Episódio #19 - IA na guerra
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- Futuro da Guerra com IADrones autônomos · Bombardeios e ataques · Propaganda de guerra com IA · Mísseis hipersônicos · Impacto da IA na estratégia militar
- Tecnologia MilitarEvolução das armas · Guerra Fria e tecnologia · Impacto da pólvora e armamentos
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Olá, está começando Futuramente, um podcast da CBN sobre como as novas tecnologias estão impactando a nossa vida. Esse podcast é apresentado por Marta Gabriel, futurista, especialista em inovação e tecnologia, e por mim, Carol Tamacia, jornalista aqui da Rádio CBN. Tudo bem, Marta? Tudo bem, Carol, e você? Tudo jóia, vamos para um... Mais uma maravilhosa, né? Opa, vamos lá. Hoje a gente vai falar sobre o uso da inteligência artificial nas guerras recentes.
E é um uso muito amplo, vai desde o desenvolvimento de armas autônomas, que são os drones que explodem como bombas. A gente tem também o processamento de informações em grande escala e também até a criação de propaganda de guerra.
Então, a IA está em todos esses usos. A gente começou a observar isso na guerra da Ucrânia com a Rússia, há uns quatro anos, esses drones capazes de localizar e atacar o inimigo de forma autônoma. Depois, no ataque dos Estados Unidos na Venezuela, no começo de 2026, que acabou com a captura...
do presidente Nicolás Maduro e agora com esse uso central na guerra do Irã. Então eu te pergunto, Marta, essas novas tecnologias que estão revolucionando o combate na guerra, isso é um fato, o que a gente pode afirmar do impacto disso no mundo de hoje?
Ótimo, Carol. Mas antes da gente falar dos impactos, hoje é importante a gente lembrar, né? Eu gosto muito de ver o que é novo e o que já existia. Tecnologia e guerra sempre foram duas combinações, um casamento que desequilibra o mundo.
Então, se a gente pegar na antiguidade, por exemplo, as tecnologias poderosas, ou seja, você começa a ter armas com ferro, você começa a ter com bronze, depois você começa a ter evoluções de armamento, elas já transformam, você tem o Império Romano, mas é importante notar...
que não é só tecnologia, tecnologia mais tática e estratégia militar, não é só quem tem a tecnologia, isso também vem desde lá de trás. Na Idade Média, a gente começa a ter uma mudança de posicionamento, de tecnologia mais defensiva, que é quando a gente começa a ter os castelos, você começa a ter construções mais fortes, você começa a ter os cavaleiros com ferraduras, não, ferraduras, como é que chama aquilo lá? Armaduras. Armaduras, isso, obrigado, ferradura para cavalo, né? Então, armaduras que também protegem, mas defensivo.
Daí você passa para uma nova era, que aí você começa com a... Na Idade Média já tem uma mudança, que é você ter os arcos de longo alcance, que conseguem desestabilizar hierarquias de cavaleiros, porque você consegue não estar no corpo a corpo. Olha que interessante, a gente está falando agora de tecnologias que estão dando força para, teoricamente, países menos poderosos.
Isso já aconteceu lá atrás, quando vem uma tecnologia nova que permite uma nova forma de você engajar, ela muda a dinâmica da guerra. Aí vem a pólvora. A pólvora é uma total transformação, porque você consegue ter muito mais poder, você consegue ter alcance maior.
E aí você começa a ter os estados mais fortes, que controlam esse processo. Aí a gente vem com a indústria, a indústria vai para a guerra também, então se industrializa a guerra, então a gente começa a ter metralhadoras, a gente começa a ter processos industriais de guerra, da mesma forma que a gente tinha na produção de qualquer tipo de bem.
Vem a guerra nuclear, ou a guerra fria, na realidade, com potencial. E na nuclear, veja que interessante, por causa da tecnologia nuclear na guerra fria, o grande instrumento tecnológico era informação contra informação, espionagem, para evitar a guerra. Tanto que todo mundo começou a se armar para que não acontecesse a guerra. Porque é a primeira vez na história da humanidade que a gente entra em risco existencial. Veja como volta esse discurso agora.
com a IA de também a gente ter falta de controle e risco existencial. É interessante, Marta, que eu, por exemplo, sou da década de 80, eu nasci num mundo considerado seguro. Para mim, tudo isso que está acontecendo é muito novo agora. Porque justamente, depois da Guerra Fria, o mundo entrou naquele marasmo, claro, com as guerras pontuais, mas nessa escalada que a gente está vendo agora, para mim é novo, por exemplo.
E para você ver como é interessante, eu cresci nos anos 70, 60, 70, nasci no início dos anos 60, e aí nos anos 70 é o auge da Guerra Fria. E tinha aquela tensão pós-guerra. Então, para você ter ideia, meu pai ensinou o Código Morse para a gente. Eu sei o Código Morse, tanto que quando eu vejo em filme que o pessoal nem sabe mais a referência do Código Morse...
Eu sei, estou ensinando para os meus netinhos, tá gente? A hashtag fica a dica mesmo porque é muito bom para o cérebro. Então aquela preocupação de que se acontecesse algum ataque nuclear, onde que a gente ia ficar, quem ia ficar onde. Eu tive a oportunidade de visitar na Albânia o ano passado, retrasado, agora estou perdida nos anos, um bunker, aliás dois bunkers. E é impressionante a tecnologia de bunker daquela era, né? Você imagina agora, era a era dos anos 70.
e todo o preparo que eles tinham, agora virou um museu, obviamente, todo o preparo que eles tinham para o caso de gás, de ataque a gás, ou nuclear, o que fazer, ou seja, é uma preparação para a crise. E eles tinham dentro desse bunker, que é dos anos 70, um auditório melhor do que muitos dos que eu dou palestra.
Falava assim, cara, o que é isso? Refeitório. Então, assim, a gente está voltando com essa discussão de bunker agora, por causa da instabilidade, e os bilionários todos construindo bunker e escape para o espaço. Então, a gente começa a ficar naquela... De novo voltar aquela tensão, que nem você falou, que a gente não tinha já há algum tempo. Com a era digital, que é o que a gente começou a ver as guerras que, infelizmente, começaram a acontecer há uns cinco anos,
e elas começaram a avançar, a mesma velocidade de avanço que a gente tem hoje com a IA, com a tecnologia de maneira geral, ela acompanha na guerra. Então, a gente vê esse crescimento de poder e velocidade de inovação sendo transferido para a guerra também. Então, é o domínio de informação e de rede, e nesse cenário a gente começa a ter...
uma situação inédita é que a guerra vai muito além do campo de batalha. Então, você começa a juntar militar, cyberataques, dados, desinformação, manipulação de informação. Então, você começa a ter outros tipos de especialista e outros tipos de vantagem, que às vezes é até maior do que a física do campo de batalha. Quando a gente começa a ter também...
as guerras na época da Guerra Fria e depois com a digital, a gente começa a ter as proxy wars, que é, em vez de você fazer a guerra, você utiliza alguma outra guerra para ter a vantagem que você quer. Você coloca outro país nesse processo. E agora, quando a gente fala de como a gente está indo para o futuro, é guerra autônoma e algoritmica. Esse é um problema porque...
A mesma velocidade que a gente tem com a IA, a gente tem com a guerra. E a guerra passa a ser em tempo real. Então, se a guerra do Vietnã, lá atrás, nos anos 70, ela foi a primeira guerra transmitida em tempo real, essa aqui é a primeira guerra decidida em tempo real. E isso é um risco muito grande. Por quê? Todo mundo que trabalha com IA sabe...
que a IA processa volumes de informação, a gente falou isso aqui muitas vezes, volumes de informações gigantescos que o nosso cérebro não consegue processar. Então, se você tem que decidir muito rápido e você não tem segurança total...
que aquilo é ético, que os dados vieram de lugares adequados, informações que estão sendo balanceadas com a humanidade, e você tem a pressão da decisão muito rápida, que a guerra se ganha hoje, muito pelo ciclo de decisão, o ciclo de decisão entre você ver o que está acontecendo.
decidir e atacar também, ficou colapsado. Então, isso traz vantagem competitiva muito grande para quem consegue dominar esse ciclo, mas traz riscos muito grandes também de perder o controle nesse processo. Além disso, tinha uma coisa que eu queria falar, que eu anotei aqui.
Quando a gente fala desse negócio de IA, uma das grandes questões hoje é a IA vai decidir tudo? E existem grandes pressões para que a IA... Realmente, desde lá de trás, não só na guerra, politicamente falando, a IA tem condições de analisar a complexidade muito mais rapidamente do que a gente. A gente já viu isso, inclusive, em outros episódios que a gente comentou aqui.
No entanto, tem muita coisa que é invisível para a IA. Então, na guerra ou em qualquer outra situação, a gente tem vários tipos de inteligência. Eu anotei, a inteligência humana a gente chama de Human Int, que seria Human Intelligence, que são os dados que você obtém só por meio de humanos, relações humanas, contatos.
Aquela coisa que você tem uma influência em algum lugar que você sabe onde um líder está ou alguma coisa está acontecendo, que isso não está nos sensores. Lembrando que há percepções humanas e dados que são só humanos que colhem. Então, existem ainda muitas redes analógicas. Lembrando que o que está visível para os algoritmos é aquilo que ele consegue capturar de informação. Tem muita coisa que ele não captura ainda de informação.
por exemplo, essas relações humanas. E o humano ainda é o decisor, que aperta o botão, ou que decide o que vai fazer. Então, ainda a gente não tem autonomia, eu falo ainda porque esse é um dos riscos de ter autonomia com a IA. A gente tem outros tipos de inteligência, que estão cada vez maiores, mas a gente tem uma pessoa muito mais qualificada do que eu para falar disso agora na sequência. Vamos trazer essa pessoa para a conversa, então?
É um convidado muito especial. A gente recebe agora no Futuramente Alcides Peron, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais Santiago Dantas. Professor, seja muito bem-vindo aqui ao Futuramente. É muito bom tê-lo conosco.
Uma honra para mim estar aqui, Carol, Marta. Foi muito bonito ouvir a sua fala. Porque eu acredito que nós temos muitos pontos de convergência. E você traz uma historicidade importantíssima para a gente poder pensar esse tema. Que muitas vezes a gente só pensa de uma maneira técnica. Mas há uma história e há uma política no entorno da IA e da sua aplicação na guerra. Então é uma honra para mim estar aqui com vocês hoje. Toda a nossa.
É muito legal, porque, não sei se a palavra seria legal, mas esse tema da guerra emergiu com a história da Rússia, da Ucrânia, e agora com o Irã, o ataque dos Estados Unidos e Israel no Irã, e só se fala nisso. Na prática, o que o senhor vê de diferente nessa guerra do Irã contra Estados Unidos e Israel, para o uso dessas tecnologias que a Marta mencionou um pouco, e a inteligência artificial especificamente?
Muito bem. Olha, a gente consegue observar que, de fato, tem muita coisa que não é nova que está sendo aplicada nesse conflito. E também a gente tem aí um campo que é um campo de testes também nesse ambiente. Então a gente tem um pouco esse diálogo entre novas e antigas técnicas sendo utilizadas nesse campo de batalha. O mais interessante da gente fazer o paralelo aqui é lembrar que nos últimos anos, pelo menos nos últimos...
20 anos, nós começamos a observar um conjunto de operações militares que se centraram fundamentalmente em bombardeios. E o que tem acontecido hoje no Irã, similar também ao que acontece em partes no início do conflito na Ucrânia, eram mais bombardeios do que avanço em terra. Evidentemente, os russos fizeram um avanço em terra muito rápido por ali. O mesmo também aconteceu recentemente em Gaza. Houve um avanço em terra pelos israelenses.
E agora há essa potencialidade de avanço em terra. Mas até que isso aconteça, a gente vê que há um grande foco em bombardeios. Que tipo de bombardeios? Aviões, drones, mísseis sendo lançadas de outras plataformas, em terra e em água. E a gente vê que esse conjunto de técnicas já é bastante antigo. Só que como a Marta trouxe aqui, a IA e os sistemas digitais estão permeando todos esses processos. Ninguém dispara uma arma a esmo.
e muito menos com um conjunto de dados ou inteligência vazios, baseados em papéis, em tomadas de decisões antigas. Tudo isso é permeado por um conjunto de interpretação de dados feitos pela IA e feitos fundamentalmente a partir de leitura de imagem produzida por satélite, produzida por drone, e articulando também relatórios de inteligência humana, o Mint, que você trouxe muito bem aqui. Todos esses dados são colocados num papel.
eles são, perdão, mas são digitalizados, são colocados nos sistemas. E tudo isso hoje com a IA é possível de ser lido, interpretado, cruzado para que se otimize os ataques. Então a gente verifica que o uso de IA, principalmente os chamados LLMs, Large Language Models, ou para trazer aqui para a gente de uma maneira mais, enfim, que mais associa com o nosso dia a dia, são chat, chatbots, são a linguagem natural, são IA generativa, que auxiliam no processo de tomada de decisão.
Posso fazer uma pergunta? A gente tem agora a gente tem estratégias antigas, por exemplo, bombardeio mas agora a gente tem mísseis hipersônicos, seria legal explicar porque a velocidade deles é muito maior e dificulta
rastreamento, dificulta a interceptação. E a gente tem visto isso mesmo, porque a gente via países que eram preparados para antibombardeio e eles não estão conseguindo aguentar, ou seja, passa vários deles. Você podia talvez falar um pouquinho para a gente sobre isso, porque esses hipersônicos também, eles têm a técnica antiga de você bombardear, só que de uma maneira que é mais imprevisível para quem tem que se defender.
Exato. Olha, todo o equilíbrio, por exemplo, da Guerra Fria, ele sempre foi pautado em vários elementos, como, por exemplo, poder de destruição dos armamentos, mas também a velocidade e local de disparo. Então, houve diversas inovações ao longo do tempo. Então, lá na década de 70, se desenvolve a possibilidade de lançar mísseis a partir de submarinos.
Então você já não sabe onde estão os silos para fazer um contra-ataque, ou um contra-força, que eles diriam. E depois de um tempo começaram a aumentar a velocidade dos mísseis balísticos, sejam eles transcontinentais, sejam de médio alcance ou de curto alcance.
E um dos fatores de desequilíbrio começa com os investimentos que os russos começaram a fazer, eu diria, pouco antes da invasão da Crimea, em 2014, em sistemas de mísseis hipersônicos, que eles aumentam muito a velocidade. Eu não vou saber precisar qual é o MAC.
Porque é a escala de velocidade. Você tem Mach 1 acima da velocidade do som. E você tem, eu acho que, mísseis que chegam até Mach 23, 24, que é uma velocidade absurda. E você quebra a possibilidade de fazer contra-ataques. Porque você faz um ataque primeiro e não tem possibilidade de resposta.
Aí tem uma tônica fundamental para todo o uso desses novos sistemas de bombardeio e de A, a aceleração. Ela se torna um fator determinante no campo de batalha. Todo o histórico que Marta trouxe aqui é fundamental para a gente observar três grandes movimentos. Distanciamento do campo de batalha. Segundo movimento.
Rapidez, aceleração no campo de batalha e o terceiro, e talvez mais importante, o ganho de consciência sobre o campo de batalha. Esses três fatores têm sido o que vem sendo perseguido pelas forças dos principais países nos últimos tempos. Acelerar no campo de batalha permite você ter uma vantagem que é prostrar seu inimigo numa incapacidade de resposta.
Mas professor, uma dúvida, as decisões humanas estão acompanhando essa aceleração? Fico pensando nisso, porque a máquina a gente sabe. Exato, e essa é uma grande questão. Nós temos alguns autores que trabalharam isso de uma maneira muito brilhante, e eu sempre menciono como uma questão minha, tem um que se chama Paul Virilhô, um filósofo, faleceu já há algum tempo, mas ele dizia o seguinte, para cada inovação tecnológica, para cada motor, surge um tipo de acidente.
É impossível a gente pensar num acidente de avião sem que houvesse, evidentemente, avião. Eu sei que pode parecer um pouco elementar isso, mas a partir do momento que a gente introduz uma nova aceleração na humanidade, se produz acidentes. E o acidente final que ele coloca é o acidente perceptivo.
é a nossa incapacidade de acompanhar o ritmo decisório, por exemplo, de uma máquina. Porque a máquina consegue, através da sua dimensão sensorial, interpretar coisas que nós não conseguimos. Movimentos musculares, trejeitos do olho, da fala, do comportamento, que eu posso estar reproduzindo diversos aqui. Mas uma máquina saberia entender uma linguagem corporal nesse sentido.
E acima de tudo, isso cruzado com uma série de dados que vão dar uma inteligência maior, por exemplo, sobre mim, permite que a máquina tenha uma capacidade perceptiva que nós não temos. Aí reside um grande problema. Confiar na máquina plenamente, cegamente, ou não confiar.
E esse tem sido um grande dilema hoje ao pensar a introdução dessas novas tecnologias, porque existe um grande risco de acidente perceptivo. A máquina tomar uma decisão baseada em dados mal coletados, dados mal processados, ou, não vou nem colocar aqui o adjetivo mal,
mas processados a partir de um lugar, de uma determinada cultura. Vou trazer um exemplo aqui importante. Sistemas de reconhecimento facial. Os primeiros sistemas de reconhecimento facial foram treinados em bases de dados caucasianas, homens brancos. Então o padrão de normalidade é baseado no rosto de um ser humano, de um homem branco.
Quando você abastece esses dados num sistema, o risco de você começar a cometer uma série de impropérios, erros e injustiças é gigantesco. Então, dados mal formados podem levar a um determinado risco de decisão que pode culminar, por exemplo, em injustiças, assassinatos de pessoas de maneira injusta e uma série de outros riscos. Então, esse é o acidente perceptivo, esse é o risco.
A gente, acompanhando de novo, voltando para a história, eu sou engenheira, então eu vou lá, quebro em pedacinho, falo o que tinha e o que não tinha. Isso de cada motor, que é sensacional, cada motor trazer um acidente, várias evoluções na história da humanidade aconteceram por causa disso. Então, a gente comentou em alguns momentos aqui que por causa do automóvel, no início não tinha regras de trânsito, não tinha capacete, não tinha defesa no carro, não tinha nada.
Muita gente morreu dirigindo. E aí, em função desses acidentes, você teve melhorias. O Titanic, por causa do Titanic, não sei se as pessoas sabem disso, mas a história é bem incrível. Porque já existia o telégrafo, o telégrafo era opcional. Só gente rica tinha acesso ao telégrafo. Mas o fato do Titanic poder enviar mensagens para a base de telégrafo no Canadá...
Na manhã seguinte, não era 24 horas o telégrafo, e nem tinha que estar nos navios todos. Mas, por causa disso, eles mandaram recuperação, resgate, e conseguiram salvar muita gente por causa do telégrafo. A partir daí, virou obrigatório que o telégrafo fosse 24 horas, virou um meio de comunicação. Então, vários desses acidentes, toda a tecnologia traz, a gente está aprendendo agora com os telefones celulares, o quanto ele tem impacto na educação, etc.
E aí o grande risco da IA é exatamente esse, é de você não ter tempo de aprender, porque o último acidente pode ser um acidente que ferrou tudo e a gente começa a ficar no escuro. Então é um risco realmente importante de ser... A ONU está querendo que os países assinem um tipo de governança internacional militar sobre IA.
semelhante ao que já existe, por exemplo, para as armas nucleares. Aí, disso que a gente está falando, vocês acham que, nesse momento, tem força para isso acontecer rapidamente ou é algo que a gente só vai poder ver depois de uma catástrofe, depois de um acidente?
É bem difícil a gente conseguir colocar uma aposta, principalmente no multilateralismo, num momento em que as grandes potências têm optado por ações unilaterais. Traduzindo em miúdos, a IA se tornou um recurso de poder muito similar ao que era o armamento atômico há alguns anos atrás e continua sendo, não podemos nos fazer derrugados aqui.
Isso não sai do cenário, mas ela se tornou um recurso de poder. E quando a gente fala da IA enquanto recurso de poder, nós estamos falando de uma série de aparatos. Não é só o sistema algoritmo ou as redes neurais que estão tomando decisão. Nós estamos falando também do acesso a minerais estratégicos, no acesso a componentes-chave e, fundamentalmente, na capacidade empresarial de produzir novas tecnologias desse porte. Então, isso tem se tornado um recurso de poder tremendo.
e que traz novos atores à baila. Nós não estamos falando apenas de estados com capacidade de regular. Eu fico me perguntando nesse sentido, qual é o poder, por exemplo, que Trump teria sobre as big techs que hoje compõem, são peça-chave do seu governo, para estabelecer algum mecanismo de regulação?
Veja que nós, dentro dos mecanismos que dispomos, tentamos regular algum movimento ou outro das big techs. Mas pelo fato disso já pertencer a uma esfera de poder do Estado, não foi só o Zuckerberg, não foi só os diretores das big techs que reagiram. O próprio governo Trump vociferou contra o governo brasileiro.
E olhar, por exemplo, para uma tentativa de regulação seria fundamental. Mas eu acho que o momento que a gente está vivendo é bastante complicado para que isso seja de fato efetivado. Inclusive, lembra que eu comentei sobre ampliar o campo de batalha.
Hoje, um dos ataques não são mais para bases militares, mas são para lugares estratégicos de dados. Então, a gente está tendo ataque a estruturas onde você tem servidores, data centers, porque hoje, se você tirar os dados, você segue o inimigo. Aí, ah, não funciona.
Então, não é só a IA sozinha. A gente tem hoje toda uma infraestrutura global e o risco disso. A gente tem umas ações de guerra, com foco na guerra, mas que podem comprometer cadeia logística global de todo o restante. Então, os países todos estão se preparando.
para, se eventualmente isso continuar acontecendo, a gente tem impactos em economia, a gente tem impactos em N outras áreas, comunicação, se a gente for pensar em termos de global, um apagão global, isso é muito pouco provável, é mais questão de a gente ter o sol atuando aqui, afetando tudo, do que a gente conseguir fazer alguma coisa aqui.
Mas apagões regionais é possível de acontecer, sim. E se isso acontece, mesmo tendo redundância, o Brasil tem bastante, graças a Deus, outros países têm também, mas o fato de algumas regiões ficarem sem ter informação, sem estar operacional por mais do que dois, três dias, você entra em estado caótico.
Tem consequências, o campo de guerra não só ampliou, o campo de batalha ampliou, mas como ele vai ter consequências globais, pode ter, não vai ter, pode ter consequências globais não desejadas em outras áreas que acabam afetando civis. Você citou, professor, a questão das big techs. E na guerra do Irã veio à tona um conflito entre o governo americano e a Antropic, que é a dona da IACload. A empresa, só dando um contexto aqui, se recusou a permitir que a tecnologia fosse usada no monitoramento de civis,
e no uso de armas autônomas, e o contrato com o Pentágono acabou rompido. E depois disso, o governo americano fechou parceria com a OpenAI, que disse que esse uso está alinhado com os princípios da empresa. Então, a pergunta é o seguinte, quando as empresas privadas passam a decidir as aplicações da IA, o que vale, o que não vale, isso é bom, isso não é, a gente está vendo uma privatização de estratégia militar?
Isso é uma tônica que sim, eu já advogo aqui sim, mas isso também é uma coisa que já vem de um bom tempo. Agora, aqui se tornou mais decisivo o refenato das Forças Armadas em relação a esses sistemas. A gente já tem uma participação bastante plena de empresas privadas de segurança no rol decisório estadunidense desde pelo menos no final da Segunda Guerra Mundial.
Alguns convencionam-se chamar isso de complexo militar industrial. Alguns chamam ainda de acadêmico porque envolve também as universidades nesse processo. Só que ali havia ainda uma primazia do governo dentro da decisão do que era um armamento estratégico, do que eram operações estratégicas, do que era relevante. Tenho escrito justamente sobre isso. Onde havia uma espécie de primazia do governo no processo decisório, a gente começa a observar uma progressiva porosidade.
ante a esses atores. Veja bem, no começo do mandato do Donald Trump, esse segundo mandato, o Elon Musk faz parte do governo. Ele está num escritório específico de privatização, otimização, e ele traz para o governo uma série de atores das big techs. O sujeito da Palantir, que é a empresa na qual ele tem uma participação tremenda, e boa parte dos sistemas norte-americanos aplicados em guerra, e aplicados quando a gente fala em guerra, é uma coisa bastante ampla.
seja na logística de guerra, seja no transporte de pessoas, tomada de decisão, inteligência, eles passaram a ser fundamentalmente operados pelas big techs. Então isso mostra uma grande dependência. E aí a gente também tem um enorme problema. Porque, veja, o diretor da Antropic toma uma decisão. Olha, eu não quero que o meu aparato seja usado dessa forma.
Mas há algum tempo atrás o Elon Musk fez coisas similares. Por exemplo, ele tinha tomado a decisão há muito tempo atrás, na guerra da Ucrânia, de não ligar o sistema Starlink sobre a região da Ucrânia. Com uma movimentação do governo ele faz a ligação e atende ao governo. Mostrando que todos esses aparatos, de uma certa maneira, são hoje fundamentais para a operacionalidade na guerra. Mas também tem gerado uma grande dependência junto a essas empresas.
A Marta tinha falado dos mísseis supersônicos, eu queria trazer a história dos drones, que estão falando muito nessa guerra, os drones autônomos, que custam ali 30 mil dólares, é uma coisa muito barata quando a gente pensa na escala do que é a guerra. Muito menos do que um míssel, do que um caça e tal. Isso pode dizer que a IA está barateando a guerra? E aí, por exemplo, países menos desenvolvidos vão conseguir entrar, até mesmo grupos armados, paramilitares, isso também mostra um outro tipo de problema.
Perfeitamente. Esse é um jogo. A guerra sempre foi, de acordo com as explicações do Calvin Clausewitz, o grande teórico da guerra que nos baseia, todos aqueles que estudamos estudos estratégicos ou guerra, a guerra é um jogo de eficiência. Quanto mais eficiente você for, em termos da economia de energia que você emprega, mais chances você tem de prolongar o conflito e ganhá-lo, ter êxito de alguma maneira.
Um dos elementos fundamentais que traz uma enorme fricção é o custo da guerra. Se a guerra é extremamente elevada, a sociedade, inclusive, vai se manifestar de uma maneira contrária, porque é o grande dilema, manteiga ou armamentos, guns or butter, para onde vai a aplicação de recursos. Então, enquanto os Estados Unidos tomaram uma decisão lá na década de 90, de começar a direcionar para um barateamento de armamentos, e começaram a produzir sistemas de drones junto a uma estratégia de policiamento global.
que foram o que eles fizeram. São grandes drones como Predator, Reaper, que servem também de plataformas de armas. Eles conseguem fazer disparos a partir desses drones. Só que depois de um tempo se verificou, principalmente a partir da atuação de Israel, a importância de você ter drones menores. Drones que funcionariam para vigilância, monitoramento, mas também seriam chamados drones kamikaze.
ou drones de interceptação. Esses drones têm um custo baixíssimo para serem produzidos, como você trouxe aqui, 30 mil dólares. Veja qual é o custo, por exemplo, de um míssel de interceptação do Iron Dome israelense. Ele está quase um milhão e pouco, cada um desses mísseis. Então você imagina o custo.
Você manda 10 drones de 30 mil e você gasta 10 ou 9 mísseis para interceptar esses drones. Isso gera um peso tremendo. Isso altera totalmente a eficiência e a relação em um ambiente de conflito.
Isso é histórico. Sempre a busca foi em conflitos assimétricos, que a gente não sei se eu posso dizer plenamente que há uma simetria entre o Irã e outras potências. É uma potência reconhecida com grandes armamentos. Mas operar numa lógica na qual o custo é baixo lhe permite prolongar ainda mais o conflito e aumentar a pressão sobre seus adversários, que tem sido a estratégia justamente iraniana.
globalizar o conflito ao agir sobre uma série de outros países produtores de petróleo e hubs de transporte e de data centers, mas também aumentar a pressão sobre Israel. Permanentemente vamos fazer esses ataques. Isso aumenta enormemente o custo. Pensa, a guerra sempre foi a continuação da política, por outros meios, mas ela ainda assim é política e, portanto, ela está suscetível a uma série de pressões internas políticas.
Então aí há uma relação interessante. Quanto mais baixo o custo da guerra, mais chance dela se prolongar. Então a gente está vendo o que está acontecendo agora nessa relação entre Irã, Israel e Estados Unidos.
E a gente também tem uma questão que eu fiquei pensando outro dia, né? Eu adoro ficção científica, então a gente vai lá atrás e vê Black Mirror com aquelas drones abelha, né? Que vai pra qualquer lugar e aí você tem um enxame versus alguns grandões é aquela história de você não conseguir lutar contra um monte de abelhinha que te ataca.
É, é o mais que você quer. Uma ótima analogia. Não é que você fica ali desesperado e não sabe, você acaba sendo acabado pelas abelhas. Eu vi um dado que me chamou a atenção, que os drones, no caso da guerra da Ucrânia, os drones já causaram mais de 30% das mortes e dos ferimentos dessa guerra.
São estimativas da missão da ONU que a Reuters divulgou. É muita coisa, né? E eles derrubam os aviões, né? Não é só mísseis. Eles podem derrubar avião, atacando a engine, explodindo, que são os kamikazes. Então, realmente é uma outra dinâmica, né? E eles são um signo disso que eu trouxe agora há pouco. Aceleração, distanciamento e reconhecimento do campo de batalha. Veja só, o sujeito que opera o drone, ele tá afastado do campo de batalha.
Pensa o seguinte, para uma sociedade como a americana, que tende a ser bastante ciosa daqueles que morrem no campo de batalha, dos seus que morrem no campo de batalha, a partir do momento que você distancia o sujeito do risco, isso reduz um pouco a tensão em erigir conflitos desse porte. Você também acelera e você também se torna dependente um pouco da visualização da máquina. E isso é bastante pesado, porque permite com que o conflito se prolongue.
Veja só uma coisa que traz os drones para a jogada. O campo de batalha nunca só é permeado por essas armas. Um campo de batalha tem uma multiplicidade de olhares. Tem uma narrativa de um professor britânico, Derek Gregory, que ele comenta um caso que é muito interessante.
havia helicópteros sobrevoando uma determinada área com acesso à informação. Havia agentes de inteligência em campo, havia soldados em campo, haviam drones sobrevoando, haviam aviões também fazendo análise do campo de batalha e todos eles tinham uma opinião sobre o campo de batalha.
se aquilo que eles estavam visualizando eram ou não inimigos. Isso é no caso na região de Pashtun, no Paquistão, ainda durante aquelas operações da Guerra Global ao Terror. Então todos eles tinham uma disputa de olhar. E eles estavam negociando o status de quem estava no campo.
Ele é ou não é um sujeito que vai cometer um ato, digamos, terrorista? É ou não é um inimigo? E depois do ataque feito, se descobriu que no final das contas eles eram caçadores, eles estavam armados porque é a região que sobrevive da caça. Então veja que com toda a tecnologia e com todo o acesso a esses aparatos, ainda não estamos falando de A nessa época, de uns 10 anos atrás, provavelmente alguma forma de interação de dados, mas ainda assim se traz aquele chamado digital divide.
Ou seja, toda a busca pela superação da névoa da guerra, ela se traduz em uma nova névoa digital que traz um problema ainda maior. Múltiplos olhares negociando o que é o campo de batalha, o status de realidade dele. Então isso traz novas complexidades também.
Cada um limitado pelos dados que consegue analisar. Exato. Então, na realidade, cada um limitado pelo que consegue captar e analisar em tempo real. É isso. Na guerra do Irã, teve um caso de uma escola que foi atingida por um míssel, matou mais de 150 pessoas, a maioria crianças, professores e tal. Então, aí é o alvo. Aí ficou um jogo de retórica. Estados Unidos, no primeiro momento, negando que eles tivessem jogado aquele míssel, mas depois foi se descobrindo que sim, tinha saído dos Estados Unidos. E quem paga o preço disso? Quem que responde por isso?
É isso, é um dos elementos que nos faz refletir um pouquinho como operam essas tecnologias. Porque elas estão operando ou ajudando no processo de tomada de decisão, sugerindo alvos. Então a tecnologia da Antropic Cloud, ou o Maven Smart, que tem sido operado agora ali, eles fazem sugestões de otimização dos ataques.
Então, veja, em tal região, com determinado tipo de ataque, baixa causalidade de civis e maior potencialidade de gerar os efeitos desejados. E tudo isso tem sido feito a partir de como? Você não tem mais um técnico intermediando esse processo, fazendo a leitura dos dados e, portanto, atravancando um pouquinho o processo de decisão.
Isso é feito com, às vezes, um sujeito de média patente que vai digitar, vai dialogar com a máquina como se estivesse dialogando com um assistente de A generativa. Então ele consegue tentar traduzir os seus interesses de uma maneira mais evidente. O grande problema disso é que essa integração de dados, se muito utilizada, ela gera uma confiança extrema no sujeito e que esse sistema não vai errar.
E isso passa a se tornar parte da rotina, da burocracia. Quantos de nós não aprendemos a confiar nos instrumentos que permeiam o nosso dia a dia? Que o celular vai funcionar, que o sistema de GPS vai funcionar para nos levar em determinadas localidades, que a gente deposita o máximo de fé possível ali. Agora aqui é um depósito de fé e uma confiança tremenda num sistema que produz aniquilação. Então o risco é muito maior.
A União Europeia tentou regular um pouco isso, mas eles mesmos já disseram, nós não vamos sustentar essa ordem sozinhos, isso precisa vir a partir de uma regulação maior. Então, tem muita pressão com relação a isso, eu lembro em 2017, estava escrevendo, você e os robôs já tinham abaixo-assinado de várias personalidades, inclusive no planeta, pedindo para que as IAs não tomassem decisão de morte.
de forma autônoma, ou que não pudessem fazer isso, por causa do surgimento dos drones que podem matar uma pessoa especificamente. Então, a defesa é um terrorista, ele vai matar muito mais vidas, então a gente já sabe. Só que se você ensina para uma IA, até tem as regras de você não poder, as três regras da robótica. A primeira delas é não fazer mal para o humano.
A gente tem, que nem o professor falou de maneiras maravilhosas aqui, a gente tem várias lógicas, várias visões, várias culturas, e muitas vezes quem é o vilão de um lado é o herói do outro lado. Então a gente tem essas percepções, que são percepções humanas, mediando ali a decisão.
Se você ensina para uma IA que ela pode matar nessa situação, e ela começa a aprender que ela pode matar, fica muito complicado você explicar as várias nuances humanas para quando ela não pode. Então isso deveria ser, na minha opinião, inclusive, não deveria poder nunca para que você não crie qualquer grau de exceção. Mas na guerra a gente está tendo o quê? A gente está tendo justamente...
análises para que a IA ajude a fazer, inclusive, assassinatos precisos. Guerra de precisão, né? A gente tem agricultura de precisão, agora a gente tem guerra de precisão em tempo real na velocidade algorítmica.
Eu queria abordar também a história da propaganda, que sempre foi uma arma importante na guerra, mas com a IA isso ganhou proporções maiores. Então o regime iraniano, por exemplo, nessa guerra que a gente tem falado agora, está usando vídeos feitos com IA, que distorce os fatos e coloca, às vezes, o país como um vencedor da guerra. E essas imagens são transmitidas, inclusive, nos canais oficiais do regime. Você acha que essa propaganda com IA consegue alterar os rumos da guerra na prática?
Claro, claro. Já há um bom tempo eu venho trabalhando um pouco com um tema que, novamente, a gente é antigo, mas pensar um pouquinho o papel da informação no campo de batalha e na guerra. A guerra é informação. Quase nenhum de nós está em campo de batalha. A gente tem poucos jornalistas independentes que vão, registram, colocam o seu corpo em aventura de morte nesses ambientes.
Alguns são jornalistas embutidos, trazidos pelas próprias forças armadas, e que trazem alguma informação já controlada. Mas, no geral, a guerra também é uma guerra de percepções. Se você altera a percepção da sociedade em relação à guerra, você pode ou conectar a sociedade ao conflito ou desconectá-la.
vai do interesse do governo naquele momento. Então esse tem sido um jogo já há muito tempo jogado. No caso que a gente tem observado, e principalmente desde a guerra na Ucrânia, na verdade, os russos têm utilizado muito a chamada deepfake.
Os ucranianos também utilizaram bastante isso para afetar as tropas em campos de batalha. Então imagina o seguinte, chega um deepfake do Zelensky dizendo, olha, parou tudo, e foi o que aconteceu. Parou tudo, perdemos o conflito, e isso chega no celular de um combatente no campo de batalha, um celular pequeno, trincado, e ele olha aquilo e não consegue distinguir, saber que aquilo ali é um deepfake.
Olha, estão dizendo que a gente já perdeu, já devemos nos render. Evidentemente tem muita comunicação que passa ali e que altera isso, mas isso gera efeitos na sociedade. E isso tudo é bastante importante de ser trazido. O Irã tem feito isso bastante também. E tem sido uma guerra também interessante no campo dos memes. É estranho trazer isso.
mas você tem também uma disputa de jocosidade entre as potências. Elas têm feito esse jogo, as embaixadas têm feito isso e reproduzido vídeos que aí entram um detalhe importante, vídeos que são falsos, de ataques que teriam acontecido em certas regiões e que teriam destruído uma grande infraestrutura ou iraniana ou israelense, mas que são falsos e que rodam as redes.
Porque o efeito da vitória, o efeito do progresso, é uma coisa que gera entusiasmo para aqueles que não estão no campo de batalha. E repito, o sujeito, o cidadão, o civil, ele é parte do componente da guerra também. É ele que autoriza ou não autoriza. É ele que gera pressão ou não para o conflito. E afetar os corações e mentes se tornou fundamental. Agora, se me permite uma parte bastante curta, esses mesmos sistemas...
fosse o Dantropic, fosse o Maven, eles têm também uma capacidade de sugerir movimentações sobre as redes sociais. Qual o público-alvo que pode ser direcionado a uma determinada propaganda? Porque propaganda, a gente sabe, ela não é feita para o público em geral. Sempre tem os alvos, sempre tem os targets que são da publicidade. E isso tem sido mobilizado, inclusive, por essas ferramentas de ar.
Qual é o público vulnerável? Qual é o tipo de propaganda que interessa a esses grupos? Isso é vinculado nas redes, que por sua vez fazem parte do aparato, fazem parte do aparato, para difusão ou não. Veja que isso se tornou a chamada, o que alguns chamam de pornografia de guerra, que são a circulação de imagens de guerra provocando a sociedade.
Não houve aí uma circulação de imagens semelhante a um jogo de videogame, que o Trump fez uma alusão. Há também os bombardeios, há também essa questão de você verificar uma espécie de altividade, altivez no campo de batalha em relação aos instrumentos que você possui. E vender as imagens desse êxito se torna fundamental para filiar a sociedade ao conflito. Me permite um adendo?
Esse Maven, que eu acabei de mencionar, Smart Maven, ele também vem de um projeto antigo. Antigo já não, mas tudo se tornou tão acelerado que a gente começa a olhar para 2019 e falar que é antigo. Mas estourou esse caso em 2019.
Foi uma série de funcionários da Google que fizeram a denúncia para uma série de acadêmicos. Esses acadêmicos começaram a repassar a notícia de que estava se construindo uma parceria entre Google e o Departamento de Defesa norte-americano para que a Google passasse boa parte de dados para o governo norte-americano visando a instrumentalização de armamentos.
ficava conhecido como Project Maven. Isso foi um grande escândalo à época, que colocou a Google, inclusive, prostrada em relação a isso. E depois a gente não sabe que fim que deu, quais foram as outras parcerias. Eles saíram, né? O Google acabou saindo disso. Eles saíram e outros entraram. E a gente olha aí que Palantir, Andoril, outras empresas que levam o nome de fictícios, de instrumentos, o Senhor dos Anéis, Tolkien, Andoril e Palantir são exatamente isso. Elas começaram a ocupar esse espaço.
E a gente nota que essa conexão entre esse mundo dos perfis em redes sociais, ela não está tão distante desses aparatos de segurança que vêm sendo desenvolvidos. Já havia um histórico nos Estados Unidos do uso, por exemplo, o Clearview AI, que era justamente a partir de abastecimento de dados de redes sociais, os rostos dos indivíduos que eram utilizados por policiais. Era um instrumento que os policiais conseguiam fazer reconhecimento facial. Isso tudo era abastecido com dados também de redes sociais.
Então a gente nota que há uma profunda integração entre esse universo do entretenimento, do lazer, da sociabilidade e esse universo do conflito. E é complicado quando eu entreiar, porque tem muita coisa, tem uma coisa que é a expectativa de privacidade. Eu posso estar na rua batendo papo com você?
A gente está num lugar público. A gente tem consciência que a nossa imagem está sendo capturada por tudo quanto é lugar. Mas o que eu estou conversando com você, não. A partir da hora que você tem sensores de ar que conseguem ler lábios, conseguem ouvir com muito mais precisão, tudo aquilo que você fala em qualquer lugar, teoricamente, começa a fazer parte. Você não postou nada. A gente está batendo um papo ali completamente descontextualizado. Isso também pode ser capturado. Aliás, tem uma série...
que é de 2012, gente, que era a série de ficção científica em 2012, que eu estou até revendo agora, é espetacular, que chama Pessoa de Interesse. Entrou na Netflix agora recentemente, que é justamente isso. Era uma máquina que na época eles falavam que essa máquina pegava tudo quanto é dado depois do 11 de setembro, para ajudar o governo a ver quando tinha algum tipo de plot, algum tipo de esquema.
para você fazer algum outro ataque. Só que a máquina pegava qualquer tipo de esquema, inclusive quando eram outras pessoas fazendo. E você recebia lá qual é o social security number deles lá, para descobrir o que aquela pessoa podia estar fazendo. Aquilo lá é o que a gente tem. Se você pegar em termos de amplia, vai ampliando a quantidade de sensores de tudo que a gente tem.
Você fica o tempo todo dando informação que se você tem uma máquina que consegue, que é o que a IA faz, analisar padrões, ela detecta potencialidades e, eventualmente, ela pode detectar potencialidades para crime, etc.
Mas pode não acontecer o crime. Lá eles verificam com um humano. Dois humanos ali estão tentando verificar. Mas pode, inclusive, verificar se a pessoa faz o crime ou se ela vai receber algum tipo de ataque. Mas se você não tem isso, imagina que a máquina decide automaticamente onde tem um problema desse, você já vai lá e ataca. Então é bem interessante ver. Eu tinha até esquecido disso aí. Pessoa de interesse. E veja que é 2012 a tecnologia dos caras. 2012.
Professor, você tem uma dica também para compartilhar com a gente? De algum livro, filme, série? Claro. Olha, Carol, eu vou ser comedido. Gostaria de indicar várias coisas, mas se me permitir, uma série e dois filmes. Perfeito. Um, mencionei aqui no começo, que é a decisão de risco.
a gente chamava de Eye in the Sky, o nome em inglês, e que ele mostra um pouquinho o uso de sistemas de drones e ataques numa operação conduzida talvez pela CIA, a gente não sabe também quem eram os operadores dos Estados Unidos. É totalmente fictício, mas ele retrata uma coisa importante. A decisão é tomada por vários agentes, e a possibilidade de visualização do campo de batalha trouxe isso. Muita gente para o processo decisório.
seja um tecnólogo, alguém ligado a uma empresa, seja um comandante, sejam os agentes políticos que passam a ter voz ativa nesse processo decisório. Posso falar uma coisa desse filme, que é interessante também, que eu lembro na época que eu assisti, que eu achei super, incrível.
Ele foi gravado com cada um em um lugar diferente também. Então é todo um drone, cada coisa acontecendo no lugar, e todos eles estavam em lugares diferentes também. E é 2016, quando os drones estavam começando, os drones que a gente fala na sociedade como um todo, o exército já usava, mas começando a falar de drone, e já tem um filme nesse grau. É importantíssimo isso, porque as pessoas estão deslocalizadas. E elas estão, como eu disse novamente, negociando o status do que é o alvo, o que é o suposto inimigo.
Tem um segundo filme que eu indico que é o Círculo. Ele é baseado no livro do Dave Eggers, que retrata um pouquinho o que era uma rede social, uma empresa que simula um pouco essas empresas das big techs, e ela vai mostrando um pouquinho a ideia da hiperdatificação de tudo, ou seja, quando tudo se torna dado, quando tudo se torna um aparato para...
Controle do corpo das pessoas, da saúde das pessoas, mas ao mesmo tempo revela um pouquinho das pretensões políticas do Vale do Silício, que é de onde evoluem essas empresas. E mostra que os Estados Unidos não estão só elegendo presidentes, eles estão tendo que lidar com esses outros grupos que têm hoje uma decisão política bastante ouvida.
Por fim, tem uma série antiga, mas que eu acho que é importante mencionar, que talvez vocês se lembrem, 24 Horas. Ah, é ótimo. Lembra? O que foi santa, hein? Essa série antiga, ela não vai falar tanto da IA, ela não vai trazer isso, mas ela traz um componente que eu recomendo a todos que assistirem, se lembrem um pouco disso.
Por mais que haja uma confiança tremenda nesses aparatos, no limite, a ação, em qualquer conflito, ela é sempre suscetível à incerteza. Klaus Witz dizia isso, a guerra é incerteza. A gente tenta domar, de qualquer maneira, com a estratégia, com a tecnologia, com a ação de vários outros atores, mas no limite é o improviso que faz uma diferença. E ele traz um pouco essa ilusão de que a tecnologia, a série...
que a tecnologia vai resolver tudo, mas no limite é sempre um processo fino de tentar superar os limites que a tecnologia traz. E o Jack Bauer. O Jack Bauer, é isso. O Jack Bauer sempre é o improvisador. É isso. Lembra o MacGyver, né? Lembra o MacGyver. Professor, muito obrigado pela presença. Foi muito boa a nossa conversa, né, Marta? Enriquecedora. Vamos agora, Marta, para aquele embalo da conversa para a viagem, o takeaway. O que a gente pode levar para casa disso aqui?
Takeaway
Vamos lá. Então a gente começou falando historicamente a guerra, onde que a tecnologia entrava. Na antiguidade era a força, depois na Idade Média controle territorial, depois com a pólvora centralização estatal, industrial, capacidade industrial na guerra. Na Segunda Guerra Mundial superioridade tecnológica fazia diferença. Na Guerra Fria com o nuclear a gente passa a ter o risco existencial. No digital controle da informação ampliando o campo de batalha.
e depois algoritmos e a parte que a gente está dando agora de sistemas, guerra em tempo real no ritmo do algoritmo. Aí a gente teve um papo delicioso, super estruturado, informado, realmente um papo incrível com o professor Alcides Peron, e começa dizendo, nem tudo é novo, mas na realidade a gente tem a tecnologia.
modificando, transformando novo, que é o caso dos bombardeios. Então, bombardeio é avião, drones, mísseis, são coisas antigas, mas a gente tem a IA e as tecnologias digitais transformando a forma como isso é feito, alcance, velocidade. A gente falou um pouquinho dos hipersônicos aqui, que eles mudam um pouquinho a regra, mas basicamente é um míssel lançado de lugar para o outro com outras características que dificultam.
O professor comentou aqui três fatores principais que determinam uma guerra, que é poder de destruição, velocidade e o local de disparo, que é onde você consegue ter os três combinados que dão o potencial. A IA modifica bastante a questão do campo de batalha.
Porque ela consegue acelerar, ela dá distanciamento do campo de batalha e um ganho maior de consciência, especialmente quando você usa ela combinada com os drones, que são os corpos de ar, que a gente comentou isso aqui várias vezes. Outra reflexão interessante que o professor trouxe, que para cada motor a gente tem um acidente novo, então com esses acidentes a gente vai aprendendo, e o acidente final seria o perceptivo, de a gente chegar num grau que o humano não consegue mais.
acompanhar esse ritmo super e hiperacelerado de percepção e detecção da IA. Por outro lado, essa opacidade pode criar problemas para a gente. A gente discutiu também aqui em alguns momentos, especialmente na primeira temporada, como que a IA tem vieses. Ela pode ter vieses de dados, que foi citado pelo professor, o fato de ela ser treinada, por exemplo, com reconhecimento de imagens e faces.
de caucasianos, de brancos, e aí ela começa a ter menos performance quando é qualquer outro tipo de indivíduo. Além desses vieses, tem vieses de lógica, tem vieses de ética, tem vieses de sistema, então a gente tem que garantir que isso não aconteça. Em termos de governança de ar, que a Carol trouxe aqui, tem uma tentativa, mas a gente está num momento bastante crítico e distribuído.
onde, na realidade, as big techs, empresas de tecnologia, estão cada vez mais juntas, numa simbiose com os governos mundiais, e isso causa uma outra dinâmica de guerra. A guerra é um jogo de eficiência, então, com o barateamento das tecnologias de guerra, a gente tem um novo jogo.
porque o custo diminui e custo é inversamente proporcional ao tempo de duração. Então, quanto maior o custo, mais rápido acaba. Quanto menor o custo, mais isso pode se prolongar. E a gente tem também um desequilíbrio, uma simetria de como esses tipos de tecnologias mais baratas podem ser utilizadas para enfrentar grandes tecnologias caras, grandes aparatos militares.
O drone é um dos exemplos onde acontece o que o professor falou, de aceleração, distanciamento e consciência no campo de guerra. Um exemplo muito legal para mostrar como a gente precisa do human intelligence. No comecinho eu falei dos vários tipos de inteligência.
e o humano mesmo aplicado ali é só o que depende da inteligência humana, contatos, etc., como é importante, porque a gente tem, num determinado campo de batalha, vários tipos de visão. A gente tem a visão de quem está por cima, de helicóptero, de quem está vendo drone à distância, de quem está ali no campo de batalha andando. E aí, eventualmente, um dos exemplos que o professor trouxe no Paquistão é de movimentação com pessoas armadas, e na realidade eram caçadores, não era um movimento bélico.
A guerra é um jogo de percepção, é um jogo de informação, e a gente hoje nunca teve tanta tecnologia como hoje para alterar a percepção. Então, os deepfakes e novas formas de você gerar informação hoje, elas podem balancear, e uma das coisas mais importantes é o civil é parte da guerra, ele é o que dá aval ou não, que acaba com a...
a questão de pressão ou autorização para que as ações continuem acontecendo. Uma outra questão é a parte de propaganda na guerra, que também fica mais forte, da mesma forma que a gente teve toda essa evolução da parte de uso de tecnologia na comunicação, com micro-targeting, etc. Isso também pode ser feito, está sendo feito, para que você manipule opinião ou manipule até o próprio campo de batalha.
indicações finais, eu tinha falado um pouquinho do Pessoa de Interesse, que eu lembrei aqui para assistir, eu ia falar 24 horas também, mas você trouxe, maravilhoso, porque 24 horas é bem antigo, é de 2001, gente, você olha as tecnologias que tem, na época, parecia, eu imagino, quando a gente assistiu lá atrás, em 2001, devia parecer ficção científica aquilo, né, e agora são tecnologias que todo mundo tem na palma da mão, também é outro lembrete, então...
Eu falei de pessoas de interesse, o professor trouxe a InSky, que é fantástico realmente, que em português é decisão de risco, que fala inclusive sobre a parte ética, quem está decidindo o quê e como que é tudo negociado entre quem vai apertar o botão e quem realmente está recebendo lá o ataque no campo de batalha.
O Círculo, que é outra recomendação, que é sobre uma rede social trazendo para a guerra ou para as decisões um pensamento mais usando tecnologia. E, com isso, a gente encerra esse episódio maravilhosamente bem, agradecendo de novo o professor, que foi sensacional. Muito bom.
Eu que agradeço vocês pelo convite, tá? Estou sempre à disposição e tenho que dizer que eu estou extremamente impressionado com esse resumo aqui. Não, isso é. Quero que meus alunos sigam esse resumo também, tá? Muito obrigado mais uma vez pelo convite. A gente que agradece, foi uma honra.
O Futuramente, então, fica por aqui. A gente se encontra na próxima terça-feira com mais um episódio. Você pode encontrar a Marta no Instagram, arroba martagabriel. Você também pode mandar um e-mail para futuramente, arroba cbn.com.br. Esse podcast teve a apresentação de Marta Gabriel e Carol Tamacia, produção de Ellen Menezes, edição de Débora Gonçalves, coordenação de Tiago Barbosa e a direção é de Pedro Dias Leite. Tchau, gente. Até mais. Tchau, tchau. Até o próximo.
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