ABC Cast Conexões T02E15: Beatriz Machado | A arte de resistir no teatro independente
Neste episódio do ABC Cast Conexões, conversamos com a atriz, roteirista e psicóloga Beatriz Machado sobre a realidade nua e crua de viver de arte no ABC Paulista sem grandes patrocínios.
Mergulhamos nos bastidores do espetáculo "Eu Matei Sophia Loren" (com estética inspirada em Quentin Tarantino), na transição da psicologia para a dramaturgia autoral e no poder de criar as próprias oportunidades na cena cultural.
Uma conversa visceral e inspiradora sobre coragem, saúde mental, networking no meio artístico e a paixão incondicional pelas tábuas do teatro.
📌 TÓPICOS PRINCIPAIS:
A realidade do teatro independente: Bastidores, bilheteria boca a boca e a luta contra o mito do glamour.
Bastidores de "Eu Matei Sophia Loren": A estética tarantinesca, humor negro e desafios cênicos no palco.
Psicologia e atuação: Como a compreensão da mente humana transforma a construção e o laboratório de personagens.
Saúde mental no meio artístico: A decisão decisiva de priorizar a arte e a superação da incerteza profissional.
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- Peça 'Eu Matei Sophia Loren'Estética inspirada em Quentin Tarantino · Humor negro · Construção de personagens mascarados · Desafios cênicos
- TeatroRealidade do teatro independente · Falta de patrocínio · Divulgação boca a boca · Acesso restrito à cultura
- O papel da escrita e da arte na elevação da consciênciaEscrita de monólogos e contos · Peça 'Recortes Imperfeitos de uma Vida Inútil' · Romance como gênero preferido · Inspiração em produções brasileiras
- Psicologia e Comportamento HumanoComplementaridade das áreas · Não julgamento na construção de personagens · Construção complexa de personagem · Saúde mental no meio artístico
- Subida Monte Carmelo EspiritualidadeRecarregar energias com pessoas queridas · Religião de matriz africana (Umbanda) · Filha de Ogum · Importância da rede de apoio
- Atores e a transição para o mercado digitalGeração TikTok e atenção curta · Adaptação de linguagem teatral · Uso de redes sociais para divulgação · Linha tênue entre arte e influência
ABC Cast Conexões, um podcast do portal ABC do ABC, onde as conversas sobre os mais variados assuntos se conectam com você.
Olá, bem-vindo a mais esse episódio do ABC Cast Conexões. Com você mais essa semana para trazer um assunto diferente daquele que nós já abordamos em tantos episódios que já passaram por aqui. E já falamos de muita coisa, hein? Passamos por empreendedorismo, falamos de empresas, de algumas ações, falamos— eu tava até revendo alguns episódios passados, ouvindo no Spotify, um dos canais que nós distribuímos o nosso produto, algumas entrevistas bem interessantes, como por exemplo, como que um influenciador pode viralizar por meio da ajuda de uma agência.
Falamos sobre cultura, falamos inclusive sobre uma profissional da área artística que visita hospitais para fazer alegria de crianças. E hoje a gente vai ter um gancho, talvez uma linha paralela deste assunto, voltando a falar de cultura, voltando a falar de arte, né? Porque nós vamos falar com uma outra atriz e mostrar como o cenário funciona do outro lado da cortina. Então, para poder tocar esse assunto comigo. Hoje nós trouxemos aqui para o ABC Cast a nossa querida Suzana Rezende, que é a nossa prata da casa aqui, até pouco tempo atrás apresentando o ABC Cast.
E ela, a gente não dá um minuto de sossego para ela. Ela foi sair de férias do ABC Cast, a gente já traz ela para o ABC Cast Conexões para se apresentar. Então, Suzana, muito bem-vinda. Acho que nessa temporada você não tinha convidado ainda, né?
Não, primeira participação minha dessa temporada. Tava na temporada passada quando a gente entrevistou lá o pessoal da Promit, e eu tô muito feliz em voltar com esse espaço. Adoro falar com vocês, né, ouvintes? O Thiago falou ali, não me dá férias, mas eu gosto disso, gosto de estar aqui presente. E eu tenho certeza que essa conversa vai ser muito rica, como o Thiago falou, vai trazer muita questão cultural e principalmente a visão de uma atriz Né, então vocês aí já pensaram como é estar do outro lado, como é estar em cima do palco e não só assistindo? Então vai ser um papo muito bom.
Muito bem, então como a Suzana adiantou um pouco, hoje a gente vai mergulhar nessa trajetória de uma atriz que não é apenas atriz, né, ela também é roteirista, psicóloga e moradora de Santo André. Então uma andreense chamada Beatriz Machado. A Beatriz, ela tem um foco muito especial no teatro independente e a gente vai inclusive falar um pouquinho da atuação da Beatriz nos bastidores aqui da peça Eu Matei Sofia Loren. Você que é fã de Quentin Tarantino vai entender um pouquinho da estética.
Quentin Tarantino inspira um pouquinho a estética e se você gosta de Tarantino, você tá perdendo tempo se você não assistiu ainda essa peça maravilhosa dirigida aí pelo grande Dan Rossetto. A gente, vamos, então vamos falar sobre tudo isso, vamos falar um pouco sobre os bastidores da arte, como é viver com, fazendo um pouquinho de essa cultura não patrocinada, né, como é o dia a dia difícil do artista aqui no ABC. Então, para falar um pouquinho sobre todas essas coisas Abrimos o espaço para nossa querida convidada Beatriz Machado. Beatriz, seja muito bem-vinda, é um prazer recebê-la hoje aqui conosco.
Obrigada, gente, muito obrigada pelo espaço.
Muito bem, Beatriz, a gente até explica antes, né, a gente vai tentar em 60 minutos tirar de você muitas informações interessantes com o objetivo de conectar o seu conhecimento e a sua atuação as pessoas que nos ouvem. E nosso público, ele é muito variado. Então a nossa ideia mesmo é mostrar como que todas as coisas se conectam. Por isso que a gente chama esse podcast de ABC Cast Conexões. Mas para a gente começar até com mais tranquilidade, eu queria fazer uma pergunta assim de quebra-gelo, né?
Então essa sua trajetória, imagina o seguinte, sua trajetória de fato, né, fosse um filme nesse estilo mesmo de Quentin Tarantino, que título você daria para ele e que trilha sonora talvez tocaria no fundo assim dessa sua vida?
Bom, vamos lá, baseado assim na minha trajetória no teatro, eu fiquei pensando quando você me fez essa pergunta, eu fiquei, caramba, que nome eu daria baseado em Tarantino, né? Porque Tarantino é um universo meio maluco assim, E aí eu pensei em idas e vindas, porque a minha trajetória no teatro, ela é muito marcada nesse momento da minha vida como idas e vindas mesmo. Eu desisti do teatro muitas vezes e voltei muitas vezes, né?
E acho que a trilha, principalmente que eu tenho, como eu tenho estudado esse universo dele muito, até por conta da peça ultimamente, eu acho que Bang Bang, da Nancy Sinatra, É uma música que com certeza faria parte desse filme, desse momento da minha vida, assim.
E falando um pouquinho dessas idas e vindas do teatro, conta também um pouquinho pra gente como que você iniciou nesse mundo, né? Então a gente sempre, muitas vezes quando fala de atriz, a gente fala dessa grande paixão de ser ator, de ser atriz. Então fala como que nasceu essa paixão, esse sonho em você.
É, quando as pessoas me perguntam isso, é difícil de responder porque eu não venho de uma família de artistas, eu não sou rodeada de atores, a minha família é muito distante dessa realidade artística, né? É muito, e eu acho que isso foi muito, muito meu assim. Eu era muito, muito jovem quando surgiu essa vontade de queria ser atriz. Eu era muito pequena, eu acho que eu tinha uns 5 anos, eu já falava para os meus pais que eu ia estar na Globo fazendo novela da Globo, assim.
E ninguém nunca me influenciou a esse caminho, foi uma coisa muito inata minha, vamos dizer assim, foi uma vontade. Eu sempre gostei muito de assistir televisão, começou daí, né, da TV. Eu sempre fui muito noveleira desde pequena. Sempre gostei muito de filme, sempre fui muito fascinada por esse... pelo universo audiovisual em si, né. O teatro, ele veio com o tempo. Mas foi uma coisa muito minha, assim, desde pequena. E é daí que surge, assim.
Eu acho que eu tinha uns 6 anos e a minha mãe perguntava, o que você vai ser quando crescer? Aí as pessoas falavam, ai, vai ser veterinária, vai ser professora. Eu falava, não, eu quero ser atriz. E aí eu desisti algumas vezes, enfim, dessa afição por N questões assim, que a gente pode entrar nisso também. Mas foi uma coisa, eu era bem novinha quando essa história surgiu na minha cabeça. E eu sempre fui muito tímida, né? O que é muito, sempre foi muito desafiador pra mim também.
Agora eu acho que eu melhorei um pouco mais essa questão, mas eu sempre fui muito tímida. Então As pessoas sempre falavam assim, ah, mas como que você vai ser atriz se você é muito tímida? Você se esconde atrás da gente para você conversar com as pessoas. Mas isso com o tempo foi melhorando, mas é desde pequenininha assim, é muito meu.
Beatriz, a gente pode chamar de Bia, né? Porque acho que toda Beatriz é Bia, né? Ô Bia, a gente recentemente, né, no nosso outro podcast, o Cine ABC Metrópole, a gente entrevistou 3 atrizes globais que estavam estreando uma peça em Porto Alegre. A peça chamada Três Mulheres Altas, né? Então a gente falou ali com a Fernanda Nobre, com a Helena Rinaldi e com a Ana Rosa, que são três mulheres extraordinárias do teatro. E quando você fala de teatro, especialmente com atrizes consagradas como as três, a princípio a gente pensa que existe um glamour dentro desse universo artístico.
E elas, que são atrizes consagradas, mostraram para nós que a coisa não é bem assim, que é difícil, que tanto ensaiar roteiro, venda de ingresso, o universo inteiro que gira em torno de uma peça de teatro é um pouco mais difícil do que a realidade. Agora, trazendo para você que faz um pouco do teatro independente, que inclui tirar dinheiro do próprio bolso, fazer a divulgação boca a boca, é aquela luta diária, né, para tentar vender, esgotar os ingressos para representação, né?
Como de fato é viver de arte numa região como a nossa, que é a região metropolitana de São Paulo, especialmente o Grande ABC? Como é viver de arte sem patrocínio? É muito mais complicado?
É muito mais, é muito mais. Eu moro, eu sou daqui do ABC, eu nasci em Santo André, né? E eu vejo que tem muitas atrizes, principalmente muita, muita gente boa aqui no ABC, né. E eu percebo que no ABC é muito restrito esse acesso à cultura aqui. Então eu sempre busquei, sempre tive muito mais oportunidades fora do ABC do que dentro do ABC. Pra fazer teatro, pra fazer um curso. Agora eu vejo que muitos produtores, muitos diretores de elenco Tem vindo aqui pro ABC.
O Diogo Ferreira é um preparador de elenco bastante conhecido. Ele vem pro ABC, acho que agora no mês de agosto, pra fazer uma preparação de elenco, um curso. É um workshop, na verdade. Mas o acesso a essa cultura teatral aqui no ABC, em Santo André especificamente, é muito restrito, assim. Eu tenho um pouco de dificuldade de entrar nesse campo. Então... Tudo que eu faço é sempre pra capital, é sempre pra São Paulo. Eu tô sempre ali na região da Bela Vista, Santa Cruz, que é onde existem os espaços dos teatros independentes, que às vezes montam os workshops ou montam também essas imersões teatrais, que aí você faz uma peça de teatro e fica um período em cartaz.
Mas o ABC, eu percebo que é bem restrito pra esse tipo de acesso. Aí fica também, né, um apelo talvez à gestão do ABC nesse sentido pra trazer, pra valorizar os artistas daqui. Porque você vê que tem muito artista que, por exemplo, é conhecido que é daqui, né. Várias atrizes que estão hoje no cenário do audiovisual, tá um tempo consolidada no mercado. São do ABC, né? São de Santo André. Letícia Colin é uma delas, a Clara Castanho.
Enfim, tem muita gente. E não só por artistas renomados, mas que tem muita gente boa aqui. Mas o acesso é um pouquinho difícil, porque às vezes tem que tirar do próprio bolso, alugar um espaço, juntar o elenco e fazer acontecer. E aí, o fazer acontecer também vem de você não ganhar nada. Em fazer esse processo, né? Não, não ter nenhum cachê ou algo nesse sentido, é mais por fazer a arte mesmo, né? E é difícil.
Agora, falando justamente da peça, eu queria entender um pouco sobre esse cenário, né? Porque a peça fala basicamente, e aí você me corrige se eu tiver errado, né? Você tem um corpo e a gente precisa fazer esse corpo sumir de uma área ali, né? Eu não quero falar muito, eu quero deixar o pessoal assim curioso para poder ir lá assistir, né? Agora, a gente citou Tarantino aqui, de fato, né? Essa peça ela tenta trazer uma construção que é inspirada nesse universo pop violento de Tarantino, mas com uma pegada aqui própria de vocês, né?
Então, como é para você como atriz fazer parte disso, construir isso? E o que a peça nos ensina? Ou qual é a grande mensagem que essa peça traz?
Sim, bom, Tarantino é um universo muito maluco assim, né? A peça, ela tem muitos desdobramentos. Ela é difícil não falar muito dela, mas é uma quadrilha que se infiltra num motel e aí tenta despachar um corpo. E aí, na verdade, todo mundo é é chefe em algum momento. E aí todo mundo descobre que ninguém é chefe coisa nenhuma. E é um desdobramento muito maluco, assim. Eu acho que pra construção dessa peça, o que mais me ensinou, assim, é como as pessoas podem ser mascaradas.
E aí, a máscara que eu tô dizendo também tem um pouco do convite de assistir a peça e entender o que é uma máscara, né. Em algum momento da peça, a gente veste máscaras, assim. Mas como as pessoas são diferentes e como as pessoas tentam se impor, muitas das vezes. Como a gente acha que às vezes a gente tem o controle das coisas. Na verdade, ninguém tá no controle de nada. É um universo muito maluco, assim. Construir a minha personagem também foi um processo, assim.
Não sei se vocês vão entrar nessa questão agora, mas... É uma loucura assim, a peça ela vai para vários lugares assim, sabe?
Tem umas coisas absurdas que acontecem, tem, é difícil não contar sobre ela, mas o absurdo traz o humor, né, para dentro da peça, mas ela também fala de coisa séria. E aí essa construção que eu acho que é curiosa, e você pode talvez contar para gente como você lida com esses dois lados em questão de segundos assim, a hora você tá fazendo o pessoal rir e ora você tá trazendo um assunto incômodo para plateia, né? Como é que você equilibra isso?
E aproveitando também para complementar o que o Thiago falou, traz um pouco também desse bastidor de como foi a construção de tudo isso, né? Então ali teve a direção do Dan Rossetto, né? Então de como que vocês construíram tudo isso e como que vocês chegaram nesse produto final. Então de chegar e falar assim, não, é isso, E agora tá bom e a gente vai seguir.
Sim. Bom, o Dan, ele tem esse texto, ele escreveu esse texto em 2013, né? Então já tinha, já tem alguns anos que esse texto foi escrito. E aí teve algumas adaptações que foram colocadas no texto, ele pode falar melhor sobre isso. Mas o desdobramento, né, da peça em si é isso que a gente tava falando esses dias. Nós atores estávamos conversando na coxia de como tem umas viradas meio malucas assim. E aí a gente, na verdade, é muito louco porque em um momento de construção da peça a gente acha que a gente tem que fazer o público rir, mas na realidade não.
A gente tem que levar muito a sério aquela história que a gente tá contando, porque senão fica um humor barato e não é essa a ideia da peça, sabe? É fazer uma peça inteligente, trazer uma reflexão realmente. E é meio maluco assim de você fazer e você ver que o público às vezes ri, porque o público do teatro, cada sessão é um público diferente. Tem uma galera que é mais animada, que ri de tudo, tem um outro pessoal que é mais contido, ri menos.
Mas a gente vê que incomoda muitas coisas assim, né? Pra gente como ator é uma construção quase que diária fazer essas sessões. E aí você percebe que que as pessoas riram dessa vez e na outra não riram, e o que que a gente pode fazer para, não sei, adaptar isso. E é um pouco difícil às vezes, porque muitas vezes a gente faz apresentação— agora aconteceu algumas apresentações nas últimas semanas— e a gente tava falando um assunto sério na peça, era um diálogo sério, e as pessoas riam muito, e a gente tinha que esperar as pessoas terminarem de rir.
Pra continuar o texto, assim, porque era um assunto sério. Pra gente é meio que uma... é meio maluco, assim, porque tem umas viradas muito loucas na peça e a gente nunca sabe o que a gente pode esperar das pessoas, assim, se vão achar graça ou não, né? Então é um pouco disso. E você fez uma outra pergunta e eu me perdi.
Era um pouco sobre a construção, mas eu acho que tem um gancho aqui da construção do personagem. Que eu acho que tem a ver com a sua formação, né? Além de atriz, você também é psicóloga, né? Se formou em psicologia. E aí me faz pensar assim, conhecer muito bem a psique humana te ajuda na construção do personagem? Ou talvez, olhando pelo outro ângulo, né, a sua atuação ajuda a melhorar o seu olhar como psicóloga? As coisas se complementam?
Eu acredito que de certa forma complementam. A psicologia, ela ajuda em muitos pontos de entender, né? Eu trabalho com não julgamento, né? Eu sou psicóloga e eu não tô ali pra julgar o meu paciente que tá ali na minha frente, ou pra... enfim. E a construção da personagem, ela é um pouco disso. Só que ela vai um pouco além do que eu acho, né? Do que eu enxergo como verdade pra mim. Do que eu enxergo como a minha moral, como a minha ética, vamos dizer assim.
Porque eu preciso desenvolver isso em mim. Então eu acho que é muito paralelo, assim, sabe? Ao mesmo tempo, meio que se complementa também. Porque a gente trabalha, eu trabalho isso em ambas as partes, né. Eu sou uma pessoa aqui. E aí tem um personagem que eu preciso construir que é um personagem, uma pessoa completamente diferente de mim. A minha personagem, especificamente a Mia Ela é uma... ela é inteligentíssima, assim. Ela fala 7 línguas.
Ela tem gostos diferentes dos meus, assim. Então, a construção de um personagem, ele vai muito além do que a gente vê na cena, né. A gente estuda o que esse personagem gosta, como que ele se comportaria em determinada situação, o que ele come, o que ele faz. O que que aconteceu antes dele entrar em cena. Então é uma construção muito complexa assim, né? Às vezes as pessoas veem ali como uma questão de decorar um texto e falar aquele texto, mas a gente estuda muito por trás.
Eu montei playlist, por exemplo, para minha personagem, das possíveis músicas que ela escutaria assim, né? E aí a minha preparação toda foi feita em cima disso. Que tipo de música que ela gosta? Que tipo de comida que ela come? Onde que ela frequenta, o que que ela faz. Então é uma construção que atravessa muito a gente. Eu sempre falo que todos os personagens que eu faço são personagens desafiadores mesmo, porque vai muito além do que eu acho, do que eu enxergo, do que eu enxergo como verdade.
Então eu tenho que entrar naquela realidade. Se eu vejo que aquilo é muito absurdo, não sou eu, é aquela personagem. E aí eu tenho que dar vida a ela, né. Então é meio que a mesma escuta, quase que de um atendimento em psicoterapia, por exemplo, assim, sabe?
É, e falando dessa preparação que você tá falando, então, meu, você fez uma playlist de música, você pensou nos lugares que ela iria. Quando você tá ali prestes a entrar no palco, como é que você se sente? Você separa a Bia da Mia? Tem uma chavinha que vira na sua cabeça? Pra você, como que você se sente nesse momento? O que que você faz? Tem alguma coisa que você costuma fazer antes de pisar ali no palco pra virar essa chave? Conta um pouquinho dessa experiência pessoal também como atriz.
Sim, a gente tem que virar uma chavinha, né? A gente fala que a gente empresta nosso corpo pra uma outra personalidade, assim, que a gente construiu ao longo de meses, né? E tudo mais. Eu tenho alguns rituais que eu faço, sim, antes de entrar no palco. Eu não costumo ficar sentada, porque parece que eu perco. Pra não perder energia, pra não perder... Porque a gente tem que entrar no palco muito pra cima, né. Tem que chamar a atenção das pessoas.
Eu não posso fazer com que as pessoas me vejam no palco e acham isso um saco, né. Tá ali assistindo e pega o celular, enfim. Então eu tenho alguns rituais, sim. Eu preciso separar. A Bia da Mia, assim. Embora isso, pra mim, seja às vezes um trabalho. Porque às vezes você fica tão submersa no personagem que você tem que tomar cuidado pra você não entrar demais no universo dele, assim. Eu peguei alguns hábitos da minha personagem, de modos de escutar as músicas que ela escuta, por exemplo.
Eu passei a amar as coisas que ela possivelmente gosta. E aí você se apropria mesmo, mas você tem que aprender a realmente conseguir separar a sua persona do que você tá fazendo ali, né? Eu acho que depois você vai ter que levar isso pra terapia, né? É, vou ter que levar depois. E a gente fica num apego com personagem assim. A primeira temporada acabou agora, né, no sábado. E aí você fica, poxa, mas caramba, e agora? O que que eu faço, né?
Fica também um apego, assim. Eu tenho um apego a todos os personagens que eu faço. Eu postei lá no meu Instagram algumas coisas sobre ela, de como foi a construção com ela, assim. Porque eu meio que respirei essa personagem nos últimos 3 meses mesmo, assim, sabe? Então aí tem um momento de separação, né, de luto, vamos dizer assim. Que você tem que fazer, mas a gente precisa separar assim.
Ô Bia, sabe que nos contaram aqui nos bastidores que além da dramaturgia você tem experimentado também escrever, né? Eu só queria confirmar se isso é verdade, e se for verdade, que caminhos para onde está indo isso aí, se a gente vai ter novidade aí no ano que vem com relação a sua escrita.
Legal, é, eu escrevo Eu escrevo muito para mim, eu escrevo muito monólogo, né, contos, enfim. Eu gosto muito de escrever, é uma coisa que eu sempre pratiquei. E aí, pensando na questão profissional assim, eu acho que a gente como ator, a gente tem que se virar nos 30 para fazer as coisas acontecerem, né. A gente não pode só ficar dependente da atuação, a gente precisa costumo ir por todas as vertentes assim para buscar trabalho.
E no ano passado eu trabalhei junto com o Dan também, esse mesmo diretor, e a gente escreveu uma peça, uma montagem teatral, né, que chamava Recortes Imperfeitos de uma Vida Inútil, onde eram várias histórias de vários personagens ali que aglomerava ali tecnologia, relacionamento, saúde mental, E aí eu escrevi uma cena da minha personagem, era uma cena de Natal que acontecia no Natal. E enfim, tinha alguns desdobramentos nessa cena assim, de como ela se relacionava com o namorado e como ela se sentia no Natal.
E aí tinha um pouco de mim também, eu percebi ao longo do texto que eu fui escrevendo que tinha um pouco de mim nesse faz sentido. E aí eu tenho experimentado um pouco disso. A última experiência que eu coloquei no mundo, vamos dizer assim, né, foi essa, que foi esse texto, né, Recortes Imperfeitos, que a gente trabalhou no ano passado. Mas eu tô trabalhando algumas coisas para o ano que vem também. Tem uma peça que acho que vai surgir em breve aí com uma parceira, uma amiga minha, uma atriz também, e a gente É que tem todo um processo pra isso acontecer e tudo mais.
Mas a gente tá pensando em novos caminhos pra eu entrar nesse mundo teatral de uma outra forma também, sabe? Escrevendo o meu texto, eu acho que é importante, eu gosto muito. Então tem coisas novas surgindo pro ano que vem, sim.
E você, como escritora, né, acredito que cada uma se identifique com um gênero diferente, com um tipo de escrita diferente. Você falou ali um pouquinho dos monólogos, né? Mas pra você, qual que é o gênero que você mais gosta de escrever? Sobre o que você mais gosta de escrever?
Ah, eu sou muito sentimental. Muitas coisas acontecem muito no meu mental, assim. Eu gosto muito de romance, eu gosto muito de falar sobre saúde mental. Eu sou muito desse âmbito assim, sabe? Acho que gosto muito de romance especificamente. Eu acho que todos os meus textos têm um pouquinho desse lado assim, sabe? Então acho que é o gênero textual que eu mais curto trabalhar. E eu acho que eu me entrego muito quando eu faço. Se não tiver um pouco disso, eu também dou um jeito de ter alguma coisa emocional ali no meio do...
No meio disso. E eu acho que é o que eu mais gosto, assim, é o romance. Agora o pulp fiction também, com a entrada do Tarantino na minha vida, eu acho que eu tenho gostado bastante. Mas eu gosto muito de escrever romance.
Sabe que, pelo menos é o que as estatísticas dizem aí, né, quem escreve geralmente gosta também de ler, né, e tem muita inspiração nisso. Você é uma pessoa da leitura também? Gosta muito de livro, ou o seu gosto principal tá dentro do cinema? Onde que você busca essas inspirações para você depois refletir na escrita?
Eu aprendi muito a ler. Eu nunca fui uma pessoa muito de leitura. Isso é muito maluco também, porque como atriz, né, a gente lê muito. E aí eu construí isso ao longo da minha vida. Assim, boa, maior parte da minha vida não tinha muito hábito de ler assim, eu era muito, muito do audiovisual, muito do cinema, muito desde crônica, muito de artigo e tudo mais. Mas eu me inspiro muito em livros assim para escrever, e muitas das coisas que eu escrevo também tem referências a personagens, por exemplo, é O texto que eu escrevi, né, de Feliz Natal Lia, que entrou nessa peça que eu comentei agora de recortes, ela tinha um pouco da Bella Swan de Crepúsculo.
Eu trouxe um pouco disso também pra ela. Então sempre tem uma referência assim nesse sentido, sabe? Eu gosto bastante, me inspiro em bastante coisa. Tem muita coisa também que vem de novela. Que eu assisto em novela, e aí eu trago um pouco desse universo, muito de filme também. Então sempre tem um pouco dessas inspirações.
Legal, você vai pegando de várias caixinhas, né, e colocando ali no meio, né? Você tem pergunta, né, Suzana?
Eu ia falar exatamente sobre isso. Eu tenho essas várias caixinhas, mas tem o que você considera como referência, ajuda, tipo assim, Se um dia eu conseguir escrever um roteiro como esse, vai estar realizada? Algum que você acha assim, gente, essa é a melhor obra que eu vi, seja no audiovisual, seja nos livros?
Eu acho que eu me inspiro muito nas produções brasileiras, assim. Eu raramente trago muito pro meu universo coisas de fora. Meus amigos falam que eu valorizo muito a cultura brasileira, assim, de filmes brasileiros e novelas e produções audiovisuais, assim, do nosso país. Eu gosto muito de... Cara, eu sou apaixonada por novelas. Então eu sempre me inspiro muito nisso, assim. Eu acho que Mulheres de Areia, por exemplo, é uma produção que eu fico maravilhada, assim.
Eu assisto muito, eu sempre tô assistindo. De novo. E eu gosto muito. Então às vezes eu observo esse tipo, e as produções principalmente nesse âmbito novelas, por exemplo. Manuel Carlos é um cara que me inspira muito. Tanto queria muito chegar ao ponto de fazer uma novela dele um dia, mas enfim, por outras questões não será possível. Mas é o que eu mais trago para minha realidade assim, sabe? Eu gosto muito de produções audiovisuais brasileiras e novelas.
E Manuel Carlos é o cara que eu observo assim, falo, nossa, ele é demais, ele é incrível nas coisas que ele escreve. Agnaldo Silva também. Então tem muito, muito disso assim, sabe?
Muito legal. A conversa vai indo, a gente já passou quase da metade do programa nesse bate-papo. Tempo passa, a gente nem percebe, né? A gente vai fazer agora um rápido intervalo para quem tá em casa poder escutar esse recado, e a gente já volta com os nossos quadros especiais. É um minutinho só.
Olá, essa é para vocês que estão assistindo o ABC Conexões. Sim, vocês, nossos ouvintes. Eu sou João Pedro Melo e agora eu tô na bancada do ABC Cast.
Fala, pessoal! Você já tá vendo, tem ouvido a minha voz? Se você não ouviu, eu sou a Suzana Rezende, apresentadora do ABC Cast, e eu venho aqui para te fazer um convite muito especial. O nosso encontro tá marcado de segunda a sexta às 18 horas lá no ABC Cast, e lá nós falamos sobre tudo que impacta o seu dia a dia, desde o Grande ABC até a região metropolitana de São Paulo. A gente fala sobre o Brasil, sobre o mundo, para te manter sempre bem informado, sem rodeio, sem drama, e sem perder mais o seu tempo.
Bom, talvez só um pouquinho de drama.
Então não tem desculpa, nos siga na sua plataforma preferida. Então tem o Deezer, Spotify, o Apple Podcast, o Amazon Music, até o YouTube. É só escolher sua preferida, nos seguir e dar o play.
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Obrigado por acompanhar esse recado. Agora vamos direto para os nossos quadros especiais, começando por ele, o Contraponto. Nesse quadro eu abro espaço então para que a nossa jornalista convidada, Suzana Rezende, assuma os controles aqui da bancada com perguntas que não foram roteirizadas. Então, Suzana, o tempo é todo seu. Bia, eu espero que ela seja delicada com você e que te deixe viva para o próximo programa, que eu tenho mais perguntas depois.
Vamos lá, já vou dizer que não é nada pessoal, viu, Bia? Mas aqui esse quadro é realmente para instigar aí, para a gente trazer assuntos que a gente às vezes possa considerar polêmicos, né? Então vou puxar aqui um gancho que a gente trouxe lá no início, né? Então você falou que atualmente o teatro, ele tem tido muita visibilidade, principalmente quando a gente fala nessas grandes produções, produções musicais, como por exemplo The Wicked, né, que teve uma temporada longuíssima e muito cheia.
E dentro disso, você que tá dentro do teatro e do teatro ali mais independente, você acha que a culpa disso é a divulgação ou que o teatro independente muitas vezes não tá sabendo puxar o público ou construir histórias que interessem o público e sim os roteiristas estão querendo fazer só por eles mesmos? Como aqueles teatros contemporâneos que tanto tem ali nas redes sociais, né? Que são todos muito abstratos e acaba criando esse estigma. Ui! Pode respirar, eu desço.
Tá, calma aí. Eu não posso prejudicar. Eu acho que tem um pouco disso assim. A gente como teatro independente Em Eu, Matheus e Sofia Loren, por exemplo, tem uma assessoria que cuida, que faz toda a divulgação, que trabalha em cima disso e tudo mais. Mas às vezes não tem muito... A gente acaba não tendo muitas verbas no teatro pra ir pra lugares diferentes, pra expandir para teatros maiores e ter uma maior visibilidade. Então eu acho que...
Que a gente fica um pouco restrito nesse lugar, assim. A gente alcança o que a gente consegue alcançar e espera que o público vá, assim. Eu acho que tem um pouco também dessa questão das grandes produções serem muito bem divulgadas e terem pessoas por trás disso. E aí tem uma galera, às vezes, que entra num... E eu não tô julgando atores e pessoas que entram em produções que às vezes não são atores, mas muitas dessas produções também fazem essas produções e colocam determinadas pessoas ali no elenco, na produção daquilo, porque essa pessoa vai trazer o público, né?
Tem um público fiel ali que caminha junto. Então acho que é um pouco dos dois universos assim, sabe? Não sei se eu consegui responder, mas eu acho que é um pouco dos dois assim. Grandes produções que investem muito e um pouco da falta de acesso que às vezes a gente tem para publicidade, para divulgação das peças e tudo mais. Muitas vezes passa batido mesmo, a gente é muito, acaba indo muito para o boca a boca, às vezes funciona muito mais do que uma divulgação num jornal ou algo nesse sentido, sabe? E é um pouco disso.
E ainda falando um pouquinho sobre esse teatro independente, esse alcance desse público, a gente tá na geração TikTok de vídeos de 1 minuto, no máximo 3, né? Então quando a gente fala, até às vezes até brinco que às vezes a atenção da galera é de um peixinho dourado, a galera não consegue manter atenção durante muito tempo. Você acha que o teatro independente ele tá conseguindo se adaptar isso? E novamente, trazendo o que eu falei um pouquinho antes, quando a gente vê principalmente esquetes humorísticas, né, trazem muito teatro contemporâneo.
Então aquelas peças que são super abstratas e as pessoas tentam de alguma forma tirar sarro disso, e pode acabar criando uma visão errada para geração mais nova. Como que você acha que o teatro independente tá se adaptando a isso?
Eu acho que o teatro independente ele se adapta sim, né. Não só independente, eu acho que qualquer novo teatro traz um pouco da contemporaneidade, né, para trazer um pouco da linguagem atual para dentro dessa forma artística, né. Acho que não só o teatro, mas o cinema também traz um pouco disso. A gente colocou algumas adaptações, eu e Sofia Loren, de 6/7 e as armas que aparecem na peça, elas são armas de brinquedo, né? E é colorido, é engraçado e tudo mais.
Eu acho que as pessoas, elas— pra gente trazer realmente essas pessoas que são muito vidradas no celular, a gente precisa adaptar, porque senão não rola. A gente precisa conversar com o contemporâneo. Também. Acho que é difícil hoje uma geração TikTok que vai assistir Hamlet, por exemplo, né? Hamlet tem diversas adaptações de Hamlet no teatro para trazer o público atual, trazer os jovens, trazer as pessoas que não são vidradas ali no teatro, que não são muito do contato social, desse calor humano e tudo mais.
Então a gente precisa se adaptar verdadeiramente. Isso é, eu acho que é uma opinião quase unânime, porque é difícil você ter— e não que não lote um teatro uma peça cabeça, vamos dizer assim, mas é um outro público. E aí a ideia de quem é ator, de quem é artista, é trazer todas as áreas, todas as idades para o teatro, né? Em Eu Matei Sofia Loren, por exemplo, é uma peça mais 18, não tem como menores de 18 anos assistirem porque acontece algumas coisas na peça que não tem como menores assistirem.
Mas a ideia realmente, a gente precisa se adaptar. Acho que na vida, né, a gente tá sempre se adaptando a coisas novas, e a internet também é disse, a gente precisa ir nessa leva também, porque senão não acontece assim, sabe? Não dá bilheteria, não dá público, enfim, com certeza.
E a gente acha que não tem tempinho para uma última pergunta também, que vou tocar aqui num ponto mais polêmico. Queria que você me falasse, na sua visão, até que ponto essa romantização da luta pelo teatro raiz, esse teatro independente não serve como desculpa, principalmente para falta de gestão profissional, para falta de planejamento, para falta de visão de negócio. Porque o teatro ainda assim ele é um negócio, né? Ele é, apesar da paixão de todos de viver pela arte, ele ainda é um negócio. Então, aonde você acha que é o limite ali dessa luta pelo teatro raiz?
É delicado falar sobre isso porque as pessoas às vezes elas acham que, ah, é artista, artista de uma forma geral não tem credibilidade, né? Eu acho que a luta, a gente precisa lutar por mais espaços para que a gente também consiga ser visto. O ator que não é conhecido, o cantor que não é conhecido, ele precisa lutar por espaços.
Né?
A gente tem que ocupar espaços pra que determinadas coisas que acontecem no teatro, no audiovisual, enfim, deixem de acontecer. Então, o limite mesmo dessa luta, eu acho que é impor esse limite, sabe? Impor o limite no sentido de, cara, eu não vou fazer isso daqui. A gente precisa construir uma carreira Isso, isso é verdade, a gente precisa construir. Mas eu acho que a gente também precisa dizer não para algumas coisas, sabe? Muita gente acha que a gente faz só por amor, né?
É porque eu amo. E às vezes a gente faz por amor por um tempo, só para a gente construir um currículo, construir uma carreira e tudo mais. Mas saber dizer não para algumas coisas dentro desse setor também acho que é muito importante, sabe? A gente vê hoje muita coisa que não tem, que não tem cachê, que você vai lá, você fala, mas é uma produção independente, a gente não tem como bancar. Mas pô, como que você bancou o cara da luz?
Como que você bancou o cara que tá ali atrás da câmera? Como que você bancou, sabe? E aí o ator não precisa, o ator ele faz por amor assim. Né? Então é saber também dizer não e lutar por esse espaço, assim, que eu acho que tem melhorado nos últimos anos. Eu acho que a gente tem ganhado um pouco mais de espaço, principalmente com outros tipos de produção. A questão da novela vertical ajudou bastante. Grandes produções também têm trazido mais pessoas pra dentro do teatro em outras produções.
Menores e tudo mais. Mas eu acho que o limite também é a gente como artista saber dizer não para algumas coisas que acontecem, sabe? Eu acho que é um pouco disso assim. Mas a gente não deixa de lutar. Eu amo muito o que eu faço assim e eu não me permito— a gente que trabalha nesse setor, uma vez um ator falou E é verdade, assim, parece que a gente sempre volta para o final da fila. A gente faz, a gente trabalha numa coisa hoje, a gente volta para o final da fila.
Acaba esse projeto, a gente volta para o final. A gente precisa estar sempre se reinventando. Não dá para esperar que um produtor, um diretor me veja, me enxergue, sabe? É claro que manter isso é muito difícil, você depende de toda uma estrutura financeira, financeira muitas das vezes para você fazer isso acontecer, mas é também conhecer outras áreas também, sabe? É se infiltrar, é fazer networking, conhecer gente. Tem que ser cara de pau, tem que ser cara de pau.
Acho que tudo que eu consegui até hoje assim, que, cara, não é nem um terço da onde eu quero chegar, mas tudo que eu conheci, todas as pessoas que eu conheci foi tendo muita cara de pau assim, de falar: oi, tudo bem? Eu Posso trabalhar com você? Queria deixar meu elenco digital aqui com você, queria mostrar um pouco do meu trabalho. Posso fazer seu curso? Posso fazer essa montagem? Então é um pouco disso assim, é uma luta constante para se manter no mercado e fazer as coisas acontecerem, sabe?
Muito bem, podemos seguir agora, Suzana?
Podemos. Respirou? Tá mais aliviada?
A gente tem alguns quadros ainda pela frente, né? Mas ótimo, ótimo. Ótimas perguntas e acredito que ótimas respostas também.
Fora da Zona.
Este outro quadro, o Fora da Zona, nesse a gente tenta apresentar a nossa entrevistada assim um pouco mais da vida mais pessoal, né? A gente sai dos holofotes, sai dos palcos, sai das sessões de de psicologia, sai da escrita e tenta ir para um outro lado, né? Quando você ia tá tentando se desconectar ou tá tentando recarregar suas energias, o que você faz? O que te desconecta de tudo para te preparar para depois voltar a se conectar?
Eu desligo mesmo. Eu gosto muito de ficar sozinha. Sozinha. Eu gosto muito de entrar no meu universo assim, e meu universo é basicamente a minha cachorra Melanie, a minha cama, o meu fone de ouvido, e é isso. Mas uma coisa que eu gosto muito de fazer para me desconectar assim é estar com as pessoas que eu gosto, sem demanda nenhuma. Porque muitas das vezes nossa vida demanda, demanda, demanda o tempo todo, né? A gente precisa fazer alguma coisa, precisa entregar alguma alguma coisa, precisa responder alguém, precisa fazer.
Eu gosto muito de estar rodeada das pessoas que eu gosto, dos meus amigos, dos meus pais, da minha família, de uma forma geral. Eu gosto muito de confraternizar, gosto muito de ficar sozinha, mas o que mais recarrega minha energia assim e me dá mais ânimo também e vontade de fazer outras coisas também é estar rodeada das pessoas que eu gosto. Então eu valorizo muito os meus amigos, eu valorizo muito minha família, eu gosto muito de estar com eles assim, é o que me dá, sabe, energia e vontade de continuar assim e tudo mais, e carrega minhas energias de novo.
É, sua família te acompanha? É tipo, ela, sua família vai ao teatro e te assiste lá dentro?
A minha família, eles são um pouco ausentes nesse sentido do teatro e tudo mais. Os meus pais, eles nunca foram me assistir assim, mas os meus amigos vão muito assim nesse sentido, né? Às vezes eu vou, a minha irmã gosta muito também. Às vezes ela fala, como ela é criança ainda, mas ela fala, ai, você não, você vai ensaiar hoje? Aí eu falo, ah, acho que sim. Ai, vem ensaiar aqui em casa, deixa deixa eu ver você ensaiando. Eles participam muito dos bastidores assim, né?
Eles têm muito o hábito de estar presente assim no teatro, de ir lá assistir e tudo mais, até por conta de rotina e tudo mais. Mas os meus amigos vão muito, são muito presentes assim. Eu acho que a gente precisa disso também, né? A gente que é artista, a gente precisa dessa rede de apoio também para dar esse esse suporte, né, para ver e ajudar a divulgar e ser público, enfim. E aí eu tenho, graças aos orixás, assim, eu tenho uma galera que me apoia muito, assim. Então isso me ajuda bastante.
Durante essa nossa conversa você citou, acho que umas duas vezes aqui, graças aos orixás, né. A religião tem algum impacto no seu dia a dia, no seu trabalho, ou não? Talvez a religião, mas a espiritualidade, ela faz parte do seu dia a dia, do seu cotidiano?
Faz, faz e faz muito. Assim, eu sou de, eu tenho religião de matriz africana, eu sou umbandista, né? E desde sempre, assim, desde que eu me entendo por gente, na realidade ela tem um impacto muito grande na minha vida. Assim, é tudo que eu, que eu sou hoje, que o que eu tenho hoje vem deles, assim, sabe? Eu sempre peço muita proteção, assim. Eu sempre fui muito ligada. A questão da religião é uma coisa que tá na minha família.
Minha família não é de religião de matriz africana, eles são católicos e tudo mais, mas eu sempre fui muito conectada com a religião, com a espiritualidade. Em si, vamos dizer assim, porque sempre estive na igreja, era coroinha e tudo mais. Teve um período que a minha família também era de, frequentava a igreja evangélica e eu ia também com eles. E aí, desde que depois que eu me tornei adulta, vamos dizer assim, é, a Umbanda ela sempre fez muita, muito sentido na minha vida e começou a a tomar sentido depois que eu passei por algumas coisas assim na vida, sabe?
Então é a religião, eu acho que é o ponto, não é religião em si, mas a espiritualidade, né? Eu sou muito ligada aos orixás, filha de Ogum, e sou muito ligada às minhas entidades também, desenvolvi isso, né? Trabalho em terreiro e tudo mais, faz grande parte da minha vida, se não for o todo assim da minha vida. Eles falam que eles não podem ser o todo da minha vida, mas tudo que eu sou e que eu faço e que eu deveria ser, eu dedico a eles assim, entrego a eles.
Você é de verdade. A gente tem uma série de pessoas assim, a gente faz muitas perguntas, Suzana e eu jogamos várias coisas aqui. Mas nós não somos os únicos que gosta de fazer perguntas aqui no programa, tá? Ou participações especiais. Nós temos um quadro aqui, o Selo É de Verdade. Durante a nossa conversa, o Ed, ele vai assim prestando atenção nos detalhes, ele vai fazendo a checagem dos dados no decorrer da conversa, uma checagem em tempo real, para no final do programa ele atestar se a conversa foi de verdade ou não, neste momento do quadro que é o Selo É de Verdade, né?
Né? Me diz uma coisa, o que você achou dessa conversa que tivemos hoje? Verdadeira?
Bom, acontece que havia, já cheguei aqui, né, com alguns pontos acrescidos, porque não é segredo para ninguém, vocês sabem o quanto eu sou um verdadeiro apaixonado e propagador da arte. Tô em vias aí, se Deus quiser, de finalizar minha especialização em jornalismo cultural. Quem me acompanha nas redes sociais sabe que eu não sou muito de postar, mas sempre que você vê um alguma coisa minha, muito provavelmente vai ser sobre algum show, algum espetáculo, algum evento cultural que eu fui.
Alguma diva pop, né, seu Ed?
Sempre, sempre tem que ter. E assim, Bia, com toda a bagagem teórica, sensorial que eu tenho de cultura, eu acredito que essa conversa hoje ela quase trouxe uma prestação de serviço. Para quem conhece o teatro só de olhar quando a cortina se abre, né? Só para quem ouve e de fato não conhece a totalidade da arte em si. Você foi muito franca falando sobre tudo que é necessário, principalmente quando a gente fala sobre viver do teatro independente, né?
Que é o boca a boca, que é o networking que é necessário, que é a questão de deixar tudo isso alocado sempre nos grandes centros. E muito mais do que números e dados, eu acho que você esteve aqui durante essa última hora falando sobre a sua vida, sobre a sua evidência. E essa, para mim, é uma das formas mais bonitas de verdade. Então, para além de todos os prêmios que você ainda vai ganhar na sua vida, hoje você vai sair daqui com o seu Loi de Verdade.
Ela passou no detector, então...
Passou, passou. Mas tem o detector da minha última pergunta, que também é um pouco pessoal. Eu não tenho certeza da atriz, mas eu acho que era a Rose Campos. Eu tava escutando ela esses dias falando um pouco sobre como foi a migração do teatro para TV e sobre como o pessoal que saía do teatro para ir para TV era rechaçado. Praticamente colocaram fogo no Raul Cortez na época. E hoje a gente vê um movimento muito semelhante acontecendo com a adaptação que tem que acontecer para as redes, né?
Para poder viver da sua arte, muitas pessoas acabam migrando para o TikTok, para o Instagram. E quando a gente fala disso, a gente entende que existe no meio de tudo isso um algoritmo que muitas vezes a pessoa acaba se rendendo para poder conseguir chegar mais longe, conseguir se manter. E eu queria entender de você como que é esse processo, se você acha que existe uma linha tênue onde você fala, tá, beleza, é bacana a gente utilizar isso daqui para alavancar a nossa arte, para fazer ela chegar em mais pessoas, para democratizá-la, mas tem um lugar que eu não posso ir, tem um lugar que não vale a pena chegar.
Eu já tentei assim ir para esse lugar do das redes sociais e não me tornar uma influenciadora, mas me fazer ser vista. A gente precisa disso, né? Realmente, de fato, muitos atores, muitas atrizes assim acabam se rendendo às redes sociais para conseguir mais trabalho mesmo. Eu já tentei algumas vezes e aí acho que não rola muito para mim e tudo mais. Eu acho que é uma linha muito tênue e acho que é um caminho também, sabe? Não julgo esse caminho.
Como eu falei, a gente precisa se fazer no mercado, né? Eu não espero um diretor me chamar para alguma coisa, eu vou assim: oi, posso? Eu acho que é um caminho. Para mim, não consigo, não consigo estar nesse lugar e produzir o conteúdo. É, para mim hoje eu não não rola assim, porque já tentei. Mas eu acho que tem diversas coisas que impactam isso e tudo mais. E parece que também acaba sendo um caminho difícil de se chegar, de se construir.
E aí parece que você tem que construir uma carreira na internet primeiro, para depois você construir a carreira que você quer. E aí, para mim, parece que as coisas se perdem um pouco. Para mim, né, as coisas se perdem um pouco nesse lugar. Lugar, porque eu quero me construir como atriz e quero ser boa no que eu faço, independente de onde eu vá para isso. Mas parece que construir uma carreira para mim na internet também é uma outra coisa também, sabe?
E aí, para mim não acontece muito assim, porque eu acho que eu tenho outros objetivos nesse, nessa, nesse ofício. Mas eu não julgo assim Acho que é super um caminho. Eu tenho muitos amigos, inclusive Gabriel Ambrósio, o Rei Augusto, que tem esse tipo de produção, né, que fazem as novelas verticais lá. Ele, o Rei, faz a novela vertical e tudo mais. E eu acho que é um caminho assim que eu hoje, tal, eu acho que hoje eu não tenho coragem de ir porque acho que envolve outras coisas, sabe. Mas é um meu caminho, com certeza. E a gente tem que se fazer mesmo.
A gente não vê você futuramente junto com a Francesca, vai para o teatro.
É, então é um pouco disso mesmo. É isso.
Entrevista reversa, que agora a gente se coloca no papel de tentar te responder alguma pergunta. É uma oportunidade de talvez você nos fazer uma pergunta para ver se a gente entendeu, ou se a gente entende da sua área de atuação ou de qualquer outro assunto que você queira saber, né? Então, se você pudesse nos fazer qualquer pergunta, que pergunta seria? E como eu sempre digo, se a pergunta é difícil, Suzana responde. Se a pergunta é fácil, eu respondo.
Aquela hora eu fiz você suar, agora sou eu que suo.
Muito bem. Bom, vou trazer um pouco das minhas questões que eu trago às vezes para os meus pacientes, né? Mas se você pudesse se imaginar daqui a 5 anos, onde você estaria? Olha, essa é a sua sequência. Então É que você pegou no ponto pesado, eu peguei no ponto pesado com você também.
Guardou rancor, né? Você tá vendo? Falei que não era nada pessoal, mas assim, vou responder primeiro, depois você abre espaço para ti. Mas para quem não me conhece, né, eu tô aqui na Absoluto Esportes vai fazer mais ou menos um ano e eu sempre sonhei em ser jornalista. Então assim como a Bia, desde os 5 anos que ela falava que ia ser atriz, eu falava que ia ser jornalista. Então compartilho desse mesmo sentimento que você tem.
E daqui 5 anos eu realmente espero continuar tendo mais visibilidade do que eu já tô conseguindo aqui, né, conseguindo expandir e principalmente conhecendo novos lugares. Assim como Ed, eu pretendo me especializar em jornalismo cultural e de entretenimento. E o meu sonho de vida é ser uma nova Glória Maria.
Muito bem, Suzana, muito bem. Respondendo também a pergunta, hoje o ABC do ABC vive um momento, né? Pouco mais de um ano a gente decidiu planejar uma expansão territorial do portal ABC do ABC. Ele nasceu no ABC e ele agora cresceu a tal ponto, né, a nossa audiência é tão grande que ultrapassa os limites aqui até da região metropolitana. Então nós pensamos assim, esse veículo de comunicação local, ele precisa se tornar agora um veículo regional, saltando para um veículo nacional.
Então a gente tá num processo. Em 5 anos nós queremos que o ABC do ABC seja um veículo nacional com alguns focos, e o foco cultural é um desses, né? A gente quer tá falando muito mais de cinema. Como a gente já tem um laboratório falando sobre isso, que Cine ABC Metrópole, onde a gente fala bastante de cinema e um pouquinho de teatro. E a gente quer falar não só de cinema, mas muito mais de teatro e muito mais ser um palco assim para que produções alternativas como a que você tem feito possa encontrar respaldo na divulgação, né?
Então a gente quer falar muito mais sobre isso. Então em 5 anos eu espero estar lá divulgando os trabalhos da Beatriz Machado para o mundo inteiro, né? Pessoal, foi uma conversa muito legal essa que nós tivemos. Bia, você é uma pessoa extraordinária, a gente deseja todo sucesso para você dentro e fora dos palcos, obviamente, né? Mas a gente precisa se despedir, então vou dar um minutinho aqui para que você possa dar suas considerações finais.
Inclusive, aproveita para falar como o pessoal encontra o seu trabalho, como eles seguem você, os links da rede social, enfim. E depois vai estar também descrito na descrição desse episódio nas plataformas. Dá o seu recado final aí para o pessoal, por favor. Ah, legal.
Ah, eu quero agradecer vocês por esse espaço, né, que vocês se deram. Para mim é muito importante, né, ser moradora do ABC, ter um espaço desse para poder falar sobre mim, sobre o meu trabalho. Sobre aquilo que eu acredito e sobre como vem sendo desenvolvido esse trabalho, né? Eu acho que é muito importante isso pra gente como artista, é um espaço muito importante pra gente. Então muito obrigada por isso. E pra me encontrar nas redes sociais é no Instagram, @biamachadoatriz.
Eu posto algumas coisas lá, tem possivelmente novidades da essa peça, segunda temporada, estamos aguardando. E aí queria convidar todo mundo para acompanhar e para assistir, né, essa peça que é incrível e eu gosto muito. É uma peça muito maluca que eu amo fazer parte desse elenco. E é um pouquinho, um pouquinho disso assim. É o meu Instagram mesmo, @biamachadoatriz. E aí dá para me acompanhar por lá, eu posto bastante coisa sobre teatro, sobre cinema.
Não sou uma grande influenciadora nesse sentido, mas, mas dou muito minha opinião. Então é isso.
Muito bem, obrigado, Bia, pela participação. E Suzana, você também teve uma participação especial aqui. Por favor, se despeça dos nossos ouvintes aí, de quem tá assistindo, e diga como o pessoal gosta muito do seu trabalho, como o pessoal vê o trabalho que você produz aqui no ABC da ABC.
É isso aí. Então, novamente, muito obrigada pelo convite. Muito obrigada, Via, por ter aceitado vir até aqui. Foi um papo maravilhoso. E vocês podem acompanhar as reportagens especiais que eu faço não só para o ABC da ABC, nas redes do ABC da ABC. Já aproveitando aqui, ABC da ABC oficial, mas tem o meu Instagram também, que é o jornalista @suzanarezende, Suzana e Rezende com Z. Lá vocês conseguem ver todas as reportagens que eu faço, os eventos que eu vou, porque eu vivo na rua para lá e para cá. Então o que não falta é conteúdo.
Sim, acompanho tudo, inclusive.
Muito bem, pessoal, com isso a gente se despede de você. Não se esqueça das regras básicas desse mundo conectado que nós vivemos: siga, compartilhe, avalie, Dê as estrelas, moedas, enfim, tudo que você achar que tem que fazer para motivar o algoritmo a nos mandar além, porque essa conversa merece chegar em muito mais pessoas. Não se esqueça que atrelado a essa conversa existe uma reportagem especial escrita pelo nosso querido Ed Barone.
Ele produziu um conteúdo bem diferente que está no portal, e lá também tem o link de todos os lugares onde você consegue assistir isso. Biodiesel, Amazon, Apple Podcast, enfim, YouTube, tudo, todas as plataformas nós estamos lá com o material especial para vocês. E a gente se vê na próxima semana com conteúdo extra, mais uma história, mais uma conversa, mais um assunto que talvez você nem imaginava que era tão importante para você até o momento que você começa a escutar essa conversa.
Eu sou o Thiago Quirino e conduzi você nisso, acompanhado de duas grandes mulheres aqui nesse bate-papo. Muito obrigado e até a próxima semana, pessoal.
Até lá, tchau tchau tchau!
Apresentação: Thiago Quirino. Jornalista convidada: Suzana Rezende. Entrevistada: Beatriz Machado. Edição de áudio e vídeo: Rodrigo Rodrigues. Produção: Ed Barone. Direção: Thiago Quirino. Direção geral: Alex Faria. Este programa é um produto do portal ABC do ABC. As opiniões manifestadas pelo entrevistado não refletem necessariamente o posicionamento do portal ABC do ABC. Para se manter informado sobre tudo que acontece na região, acesse www.abcdocabc.com.br.