Raízes do barro
Da terra viemos e com ela moldamos nossa vida. Batemos um papo sobre a tradição manual, o contato com a matéria-prima e como o fazer artesanal se mantém vivo nas mãos de novos artistas. É um papo sobre ancestralidade, paciência e a beleza do imperfeito.
Dora
Socorro
- Vida e legado de Maria de CândidoAncestralidade e resistência · Processo de criação artesanal · Importância do barro na cultura · Educação e transmissão de saberes
Tchau, tchau.
Hoje vamos conversar sobre Maria de Lourdes Cândido, uma mulher do barro que marcou o cariri e continua viva na memória e nas mãos de quem segue a sua trajetória. Para isso, recebo aqui Dora e Socorro, filhas dela, que vão nos ajudar a conhecer essa história de vida, de arte e de resistência.
Como vocês lembram da infância de Dona Maria Cândido? E que tipo de mulher ela era? Então, eu lembro da infância dela. Eu lembro dela falar algumas coisas para a gente. Ela gostava muito de conversar com a gente, de falar um pouco da infância dela, de como ela era. Ela sempre falou que ela era uma menina calma. Ela não era muito, dá muito trabalho. Tinha as três irmãs, ela e as duas mais velhas. Mas ela sempre gostava de brincar no cantinho dela. Ela era mais reservada.
É tanto que ela não dava muito trabalho aos meus avós. Ela falou até que ela nem apanhou na infância, né? Que se ela ter de apanhar alguma vez que o meu avô bateu nela alguma coisa, foi uma, duas vezes por algum motivo, né? Mas que ela era muito tranquilinha. Quais histórias ela contava sobre sua vida antes de trabalhar com o barro? Antes dela começar a trabalhar no barro...
Ela morou em Barbalha, que foi lá onde ela teve as três primeiras filhas dela, Cícia, Maria e Francisca. E de lá de Barbalha, ela veio para Juazeiro, que não deu certo lá, morar lá em Barbalha, vieram para Juazeiro, morar perto de Vua Elias. E aí, nesse dia da vida ser muito difícil, eles só trabalhavam na roça.
Era muito difícil, né? Para sustentar a família toda, porque a família sempre aumentando, né? E cada ano nasceu. E aí ela teve a ideia de começar a fazer as pecinhas de barro, né? Inclusive para os filhos brincar, né? Para ela poder ter mais tempo para cuidar de casa e cuidar da roça. Depois que ela começou a fazer os brinquedinhos para a gente, né? Ela começou também a ideia de oferecer nas feiras.
oferecer no Mercado Central, no Pirajá, aqui na Alenca Peixoto, que tem os armazéns onde vendia panela, pote, utensílios para casa, que era tudo de barro nesse tempo, prato, panela, tudo de barro, uma delícia. E aí ela vinha para comprar também para casa e aí o dinheiro era pouco e tinha as miudezas, as panelinhas já também.
E as meninas pediam para ela comprar e ela não podia comprar, porque o dinheiro não dava para comprar. Então, ela teve a ideia de fazer, né? Ela mesma, pegar o barro no barreiro que tinha perto de casa, né? Açude, no caso. Ela pegou lá e fez as panelinhas para as meninas brincar, para fazer o guisado. E aí, nós fomos nascer e fomos também juntos, né?
brincando e já começamos a trabalhar também, já pegar gosto pela arte do bairro, de modelar também junto com ela e nessa estamos até hoje.
A história é grande, viu? É muita história para contar. A gente podia passar aqui a tarde inteira falando, né? Verdade. Que peça era mais marcante? Aquela que a gente olha e diz. Isso é a cara de Dona Maria de Cândido.
São as da cultura popular, que ela amava fazer o reisado. Você olhava para o reisado, para a peça de um reisado, e você já sabe que é um trabalho dela.
Também tem as cenas do cotidiano, né? Que ela retratava muito as coisas da roça, né? Da vivência dela na roça, né? E isso também chama muito a atenção. Quando você olha, você já sabe que é trabalho dela, né? E são muitos, né? São muitos outros. A banda cabaçal, né? As quadrilhas.
também ela gostava muito de fazer, cena de família, família retirante também, tem uns retirantes, a coisa mais linda que ela gostava também de fazer, as processões que ela fazia, a processão.
É, com muitas flores, né? O Misha lá é o Misha. É assim, bem a carinha dela mesmo. Como era o processo de criação dela? Tinha algum ritual, algum jeito próprio dela trabalhar? Então, era muito simples, né? Ela sentava lá na cadeirinha dela, pegava o barro dela.
E aí ela batia a placa, fazia os bonequinhos e ia modelar. O que vinha na cabeça dela, ela ia modelando lá, né? Quando eu via, já tinha várias placas prontas e tudo linda.
Ela não tinha muito ritual assim, não. Dava vontade, ela sentava lá e fazia o que estava na mente. De manhã ela acordava cedinho, porque ela acordou muito cedinho. Ela fazia o café, ela ia para a cozinha, fazia alguma coisa na cozinha, lavava alguma louça na pia, varria a casa também, que ela gostava de varrer a casa. A Elia também, que ela gostava muito de ler, né, versículos da Bíblia.
Aí ela lia um pouco, né, o livro dela e depois... Ela até passava pra gente algumas também, que ela achava muito interessante, e ela até passava pra gente. E aí depois ela tomava um cafezinho, aí sentava ali e ia trabalhar, né. E assim, ela passava o dia todo. E tinha uma hora que a gente dizia, mãe, levanta um pouquinho pra descansar a coluna. E aí
tranquilo, tô bem. E assim ela ficava o dia todo. Até ela lamentava um pouquinho só quando era necessário mesmo, pra se alimentar, pra tomar uma água, pra tomar um café, mas passava o dia no cantinho ali trabalhando, né? Bem tranquilinho. O barro pra ela era só um material de trabalho ou tinha também um significado mais profundo? Olha, eu acredito que pra ela o barro era como ouro. Parola.
Sim, ela não gostava de desperdiçar nada e ensinou a gente também a não desperdiçar nada, aproveitar tudo, tudo do barro. Para ela foi uma luz que ela pediu a Deus e Deus tocou na mente dela, no coração, e ela teve esse dom de criar.
de criar peças tão lindas com o barro, né? E ela sempre falava com muito orgulho, assim, com muito amor do barro, da matéria que é o barro, né? Que é de onde nós viemos. E assim, e para onde vamos voltar, né? Então ela tinha um respeito, um carinho, um amor. Era algo assim inexplicável, né? Você só sente mesmo.
É um significado muito importante também, assim, que foi através do barro que ela conseguiu ter uma renda com o trabalho dela, com a arte dela, ter uma renda para ajudar o meu pai em casa, que era o sonho dela, o desejo dela era de ter.
um trabalho, ter uma arte de ter como ajudar o meu pai. E assim ela o fez, né? Com uma salvação de 10 filhos, né? Que eram muitos filhos mesmo, né? E aí depois vieram os netos. E também um significado muito importante disso tudo.
que ela ensinou para todos os filhos, passou a arte dela para todos os filhos, para que nós também pudéssemos ter uma arte, ter um trabalho e ter como também nos manter, através da nossa arte, de uma arte muito importante que ela passou para nós, e ensinou para os filhos, para os netos, para as noras, até para...
Para as pessoas que quiseram vir aqui e aprender com ela, e ver quando vinham várias pessoas, essa sala que ficava cheia de alunos, de professores, pessoas que vinham de fora, para aprender um pouco da arte dela, conhecer um pouquinho.
E ela tinha muito amor, muito carinho, assim. Eu via no rosto dela a satisfação que ela tinha de passar o dom, né? De falar do trabalho, de passar um pouco da arte dela para as pessoas. E isso é muito importante, né? É ter um significado incrível para nós também. É tanto que a gente dá continuidade com muito orgulho também, com muito carinho. É realmente...
É uma arte maravilhosa, né? E eu sou apaixonada, assim, depois que eu aprendi, né? Eu digo assim, eu me dedico total, assim, no que eu posso, né? É mesmo assim, eu tô meio maquiadinha demais, assim, eu tô lá com a mão da massa. Sem contar, né? Sem contar as pessoas maravilhosas, né? Que a gente conheceu, né? Ela conheceu e a gente conheceu também através dessa arte, né?
e que levou ela para vários lugares, até para fora do Brasil. E assim, é incrível. E ela era muito agradecida por tudo isso. Ela era muito feliz com ela.
com a arte dela, com esse dom que Deus deu para ela e que ela passou para muitos. E que levou o nome da família e da cidade de Juazeiro para longe. Como foi para vocês, dor e socorro, crescer nesse ambiente?
feliz, muito gratificante, né? Eu, desde pequenininha, né? Quando eu nasci, mãe já fazia, né? Já fazia as pecinhas de barro, as parras, as miudezas, que ela chamava, né? Que são as miniaturas.
Ela já fazia. Então, eu já ficava do ladinho dela, né? Sentava sempre do ladinho dela, ficava pedindo ela para me ensinar. E ela com toda a paciência do mundo, né? Ensinava. E aí a gente ia brincando e ao mesmo tempo trabalhando, né? Exercendo já a profissão de artesão, né? De modelar o barro.
E assim, era uma infância muito feliz, a gente brincava muito, não é, Dora? Ah, é. Brincava, a mãe fazia os guisados nas panelinhas, nos domingo fazia os batizados das bonecas, não é, no domingo. Era muito bom, nossa, peço uma infância feliz. E aprender como é, assim, né, de criança mesmo, eu lembro de ajudar ela a pintar, de vir para o mercado com ela, quando ela vinha vender as peças dela aqui no centro. É, né, gente?
E dessa fase aí eu lembro bem, a gente é tudo pequenininha, a gente ia pintar as coisinhas, ela fazia um contorno e ia dando para a gente, para cada uma ela dava um tom de tinto, né? Ela fazia os contornos e a gente ia só preenchendo, pintava para uma cor, passava para outra, ia assim pintar para aquela.
para ir agilizando o processo, para a gente vir para o centro ainda de manhã cedo, que era para ela vender, que tinha que vir no sábado cedo. Bem cedinha. E aí a gente ajudava ela nesse processo também. Então a gente pintava com ela, a gente vinha com ela aqui para o centro trazer. E para nós não era uma obrigação, não era um trabalho, era uma diversão, assim. A gente ia levando tudo na brincadeira, sabe? Então era assim como a infância.
divertida, que não era assim, você não era obrigada, mas ir ali fazendo, colocar a gente para ir interagindo ali, o que foi muito bom para nós, porque aí a gente cresceu, vendo ela trabalhando, aprendendo com ela também, aprendendo a ter responsabilidade também, que é saber que você precisa também.
trabalhar, tendo responsabilidade. E não era puxar, não era nada pesado, não era nada forçado. Então, foi muito divertido até. Foi divertido, foi na base da brincadeira mesmo. Sabendo que, mesmo assim, você vai aprendendo uma responsabilidade mesmo, aprendendo uma arte.
E é tão apaixonante, né, que nem precisava ela chamar a gente para fazer. A gente mesmo se sentava lá do lado dela, que ela sentava para trabalhar, sentava no chão mesmo, né, nesse tempo, sentava no chão, começava a trabalhar e aí a gente ia se juntando perto dela. E era cedinho, né? Era cedinho, né? Ela tinha o que eu de dormir até, você que era de acordar, era cedinho.
E aí todos se interessaram, todos aprenderam, né? Aí tem uns que estão fazendo outras coisas, mas todos aprenderam e todos amam muito fazer, né? Só que para a sobrevivência, né? Quem tem família, procurar outro emprego, né? Que tem uma renda fixa.
para sustentar as famílias, mas o barro ajuda muito também, né, gente? Sim. Hoje mesmo estamos sobrevivendo, né? A minha força de renda é da arte, da arte que eu aprendi com mãe mesmo, né? É da arte que ela, com toda a paciência, ela me ensinou, ela e Corrinha e Maria, né, que era essa que morava em casa e quando eu vinha para cá para aprender com elas, né, no início.
E elas tinham, nossa, paciência, porque eu também demorei para aprender. Apesar de eu ter nasci, criei, juntas ali, vendo, mas para fazer peças assim, né? As placas assim, nossa, eu demorei. O rostinho do bonequinho também demorei muito para conseguir. Eu fazia várias vezes. Era só eu pedir a mãe para ela, eu ia fazendo, perguntando, tá bom, mãe? É, tá não, diz uma situação de novo.
Aí eu fazia, aí perguntava de novo, tá bom, mãe? Tá, não, mas faço de novo. Até conseguir, né? E assim, é uma técnica, né? Porque você vai aperfeiçoando, né? Você vai melhorando. E com o tempo a gente vai só melhorando, né? Melhorando. Melhorando.
E com base nisso, em que momento vocês decidiram também que queriam trabalhar com o barro? Eita, desde os 8 anos de idade eu já sabia que era o que eu queria, né? Até fiz outras coisas, mas sempre voltei com o barro, porque assim a gente...
Ele não sai da gente, não entende, não sai. Fica impregnado, você sai, mas volta, não tem jeito. Eu fui para Fortaleza trabalhar, fui para São Paulo, mas sempre voltando para o meu barro, porque é a minha paixão. Eu amo, amo fazer essas peças de barro.
Eu acho que eu vou fazer até o último dia que eu consegui. Eu já comecei bem depois, né? Eu comecei a ter o interesse mesmo, depois que eu tive meu terceiro filho, né? Que foi Carolzinha. E aí eu sempre gostei de trabalhar mesmo, mesmo porque aprendi com os meus pais, né? Nossos pais sempre passaram pra gente isso, que o trabalho é importante.
E eu sempre trabalhei, mesmo depois que eu casei, quando eu podia, eu trabalhava, né? Quando, depois que a gente tem filho, a gente não tem mais esse tempo pra trabalhar fora. Minha mãe via assim, né? Porque eu sempre fiquei muito... Eu sou meio quieta. Eu não gosto de ficar parada, eu gosto de estar em movimento. Eu sou quieta mesmo. Aí, eu sempre queria trabalhar. Minha mãe falou, olha, eu adoro.
Vem trabalhar com a gente, vem aprender, que ao mesmo tempo que você trabalhar, você vai cuidar dos seus filhos, vai ter um trabalho, vai ter uma renda. E eu não há dúvida, porque eu sempre achei que era muito difícil fazer, porque realmente é, para quem não...
Assim, quem não tem muito a técnica que nem elas já tinham, já fazia desde sempre, né? Então, eu ia começar, né? E se eu já tinha Carol, eu tinha o quê? Eu tinha 33 anos já, né? Então, eu aprendi bem depois mesmo. E aí, eu fui despertando, foi despertando o interesse, né? Eu vinha pra cá, ficava sem mão aqui com elas, aprendendo. Às vezes, ficava 15 dias, né?
Às vezes ficava um mês e a vinda deixava o marido lá em casa e vinha para casa. Ficava até de meses aqui em casa mesmo, né? Desenvolvendo. E aí, quando eu aprendi mais, aí eu já ficava em casa mesmo, né? Minha mãe mandava lá o barro para mim e lá eu trabalhava em casa mesmo. Trazia só para queimar.
E aí eu vinha pintar aqui mesmo. Então, desde essa época que eu fui despertando mesmo o interesse, fui pegando o amor, pegando o jeito, o gosto mesmo, pelo trabalho, pela arte. E até hoje, foi difícil no começo. Até hoje eu ainda sou um aprendiz, porque a cada dia a gente vai aprendendo um pouquinho mais. A gente vai melhorando, vai desenvolvendo melhor a arte.
E ainda sou uma aprendiz, né? Eu digo, porque sou uma aprendiz, porque dos anos que a minha mãe tinha de trabalho, né? As meninas também. Eu tenho, o quê? Vinte e poucos anos só que eu estou trabalhando na arte, né? Então, eu ainda estou aprendendo, ainda estou me aperfeiçoando, né? Estou melhorando ainda. Mas dando continuidade, assim, com muito carinho. Você aprende todo dia, né? E assim, é. É um excelente.
É algo assim, como a minha mãe queria que a gente aprendesse, queria passar para que a gente tivesse realmente uma fonte de renda, um meio de sobreviver mesmo, assim, com a arte, né? Então, assim, a gente dá continuidade, assim, minha renda mesmo, no momento, assim, é só da arte que ela me ensinou, né? Da arte que eu aprendi com ela.
Eu viajo, faço as viagens que eu ia com ela, muitas vezes eu vou com Carol, vou com a Alcilene, participo do Ministro da Oficina que eu ia com ela também, hoje eu vou com o Carolzinho também. E assim, o que eu posso de dar continuidade, assim, o que der certo, eu dar continuidade dos meus projetos que eu fazia com ela, eu faço agora com Carol ou com a Alcilene, né? Mas sempre dando continuidade.
para não deixar que a arte dela morra também, né? Porque a gente não quer isso, né? Além da gente ser uma arte que as pessoas gostam muito, também é uma arte que a gente se envolve totalmente, né? E você não quer que morra, né? A gente quer que continue por muitos e muitos anos aí.
E como já estamos na terceira geração, a gente quer passar para mais pessoas, né? Para os bisnetos da minha mãe até. Eu já tenho um neto, né? Eu tento também envolver o que eu puder passar para as pessoas, mesmo que não sejam da família, mas para pessoas que querem aprender. O que eu posso fazer para dar continuidade, para levar mais longe a arte dela é o...
eu faço, assim, que tiver o meu alcance, né, que eu puder fazer, eu vou fazer. Explica pra gente de forma simples como nasce uma peça de barro, desde a escolha da matéria-prima até o acabamento. Então, primeiro a gente...
Escolhe o barro, né? E a gente já compra esse barro no mesmo lugar que minha mãe sempre comprou, desde que ela começou a trabalhar, que ela pediu para meu pai pegar uma lata de barro para ela fazer as primeiras pecinhas, né? Que foi a primeira encomenda dela. E a gente pega esse barro lá no bairro Novo Jazeiro, né? No mesmo lugar até hoje. O menino cava lá o chão, o terreno dele, tira o barro.
Coloca na carroça, aí leva para a fábrica onde fica o moinho, onde meu irmão processa lá, deixa ele bem fininho. Primeiro ele coloca no sol, né, para secar ali toda a umidade, né, do barro, porque não pode processar ele ainda úmido, que não dá certo, né. Quando ele está bem sequinho, aí ele passa no moinho.
Aí fica bem fininho, aí ele coloca no saco e traz pra gente. Aqui a gente hidrata, né? Aí amassa bem ele, no caso sova, né? Como chama, sova, né? Bastante, até fica bem vacio. Aí a gente deixa ele descansar por uns dois, três dias pra ficar mais bem concentrado, bem consistente, macio, pra poder a gente modelar as peças.
Aí a gente faz a placa, pega o barro, bate a placa, recorta do tamanho desejado, seja quadrado, redondo, retangulado, da forma que você quiser. Aí você, na sua cabeça, você já tem ali o que você vai fazer, né? Uma banda cabação, rezado, um namorado, casamento, o que tiver na sua mente, né?
Se você faz os bonequinhos, aí veste eles e coloca na placa, né? E aí a gente espera secar por uns três, quatro dias, dependendo do clima, né? Se tiver o clima quente, ele seca em três, quatro dias. Se tiver o clima chuvoso, aí vai mais de uma semana. Aí quando tá bem seca, a gente leva para o forno, aí coloca...
Vai colocando fogo aos pouquinhos, né? Para não quebrar. No começo, você vai aumentando a temperatura, né? Até chegar... Até quando os cacos que a gente coloca em cima, né? Cobre com os cacos de teia.
Aí, quando eles estão chiando, já a gente sabe que atingiu a temperatura de colocar mais fogo, né? O fogo para poder fazer a queimagem total, as peças ficarem queimadas e limpinhas. Aí, esse processo dura de 10 a 12 horas. Na hora que você começa a colocar o fogo, né? E vai aquecendo até finalizar.
No outro dia que a gente retira, quando já estiver frio, a gente retira as peças do forno. Aí vê o que está legal, se não tiver nada rachado, se tiver alguma coisa quebrada, a gente conserta e faz a pintura.
Depois vamos embalar, né? Embalar as peças e mandar para os clientes. Esqueci alguma coisa. É um processo meio lento, meio demorado. Tudo é manual, né?
Todo o processo é manual mesmo, desde a tiragem da matéria-prima, o processo que o meu irmão faz, de processar, trazer para a gente, a gente hidratar a gila.
fazer a placa, fazer os personagens, é tudo manual. Tem pessoas que usam muito, tem aqueles materiais que usam que auxiliam bastante, mas eu gosto mesmo de fazer manual. Eu acho que fica mais perfeitinho. Eu até tenho aí os materiais que a gente usa para...
até aquela esponjinha que você usa para passar, mas eu acho que você finaliza com seus dedos, fica mais lisinho, fica mais perfeitinho do que mesmo. As pessoas usam muitas ferramentas na cerâmica, às vezes eu acho que mais atrapalha do que ajuda. Tem que ajudar também, sabe que tem gente que fala isso, mas no caso da nossa, do nosso trabalho, como a gente faz as personagens...
na base mesmo, a ferramenta não vai ajudar muito. Pode auxiliar em uma coisa ou outra, mas não vai ajudar muito. O ideal mesmo é fazer tudo no manual mesmo, até finalizar, deixar ela prontinha, porque com a ponta dos dedos mesmo a gente vai dar aquele acabamento e deixar bem lisinho, deixar a peça lisinha, para que depois de queimada seja até melhor para absorver a tinta.
Então, eu acho melhor fazer tudo manualzinho, tudo com a ponta do dedo mesmo, finalizando tudo. Mas eu tenho ferramentas, né? Até quando eu pedi até para a Carolzinho comprar, quando a gente for ministrar a oficina, sempre eu levo.
Os alunos das oficinas que a gente ministra, eu deixo a critério de cada um para fazer o que quiserem, porque é oficina de modelagem. Então, um aluno não vai conseguir fazer o que a gente faz. Essas pedras, fazer o personagem, fazer a placa. Então, sempre deixa a vontade. E muitas coisas, essas ferramentas vão ajudar. Vai ajudar porque você sempre vai usar para alguma coisa, para fazer um detalhe, para fazer um acabamento. Então, vai!
também ajuda. Qual é a parte do processo que vocês mais gostam? Eu gosto de pintar. Eu gosto de fazer. Pintar dá mais trabalho. Eu faço mais rápido minhas peças, mas pintar eu demoro bastante, porque é ali onde você vai finalizar, você vai dar o acabamento na pintura.
E não tem como ser rápido, assim, não tem. É demorado, né? Mas eu gosto tanto dessa... A moda é muito bom, né? Modelar é bom, mas... Modelar é bom, é ótimo. Mas você está criando alguma coisa ali, né? Você está dando vida. Mas pintar também é muito bom, porque depois você... Tem essa dificuldade também para você pintar, mas depois de pronta, né?
E essa fase de pintar, você vai escolher cores, dá um pouco de trabalho também, entendeu? Mas você vai escolher cores, você vai dar um colorido bonito, você vai criar toda uma decoração, né? Então é um processo assim que é demorado, mas eu gosto muito de pintar.
Eu queria até fazer umas aulas de pintura para ajudar, que seria bom. Eu gosto de pintar, mas eu gosto mais de modelar mesmo. E eu também não gosto de repetir trabalho.
os clientes pedem, né? E eu tenho uma dificuldade para repetir aquela mesma peça, eu gosto mesmo de ficar criando. Eu já não tenho dificuldade, não, em repetir, né? Pedir, eu até faço mais rápido, porque como eu não acho, não, eu já fiz essa peça aqui, eu já fiz, já pintei, então só para repetir, eu acho mais fácil, né?
É certo que você tem que fazer do mesmo jeitinho, né? O cliente quer do mesmo jeitinho, mas eu acho mais fácil. Já a cor minha tem a dificuldade de ir, ela acha mais difícil, né? Porque tem que fazer igualzinho. A não ser que eu já faça várias de uma vez só.
Porque depois para repetir, aí eu tenho uma dificuldade grande. Eu tenho até umas que eu repeti agora no Reisado Grande, assim, bem corredinho. Eu até fiz rápido esses aí, porque era só repetindo. Então era algo que eu já tinha feito, eu criei essa peça, então as pessoas gostaram e foram encomendando. A Carol postou e aí as pessoas gostaram e foram encomendando. Acho que já fiz umas cinco delas.
Para mim é mais fácil porque eu só vou repetir. Eu já sei que cor eu vou usar, então eu só vou tacar, colar, só vou pintar, fazer a decoração e pronto. Porque quando você vai criar, você vai criar uma peça. Aí você vai criar toda a decoração, as cores das roupas, dos personagens, dá trabalho. Porque você vai criar uma peça. Então, tem que pintar o tema de acordo com os personagens. Então, ali também dá um pouquinho, então você não vai fazer uma pintura qualquer.
optar de qualquer jeito, qualquer coisa, não. A gente tem que fazer alguma coisa que identifique ali a placa que você criou, né? O tema que você criou. Aí, quando é pra repetir, eu já sei o que eu vou fazer. Então, é mais fácil. Só vou, mão na massa e roda. Tem alguma diferença da forma que vocês fazem hoje em dia pra forma que Dona Maria Cândido fazia?
Basicamente, quase nada. Vocês seguem o padrão, né? Sim. Até essa questão da Adi, foi tudo manualzinho, tudo sem ferramentas, sem outras ferramentas mesmo, que auxilia mais. Mas é esse processo todo manual mesmo, desde o início, quando a mãe desenvolveu, a técnica foi passando, hoje a gente segue o processo do mesmo jeito.
A tinta que a gente mudou, né? É isso. Porque hoje a gente usa essa tinta pronta já, no PVA, que é própria para artesanato, né? Que já vem as cores todas prontas e facilita para a gente, né? Mas eu também gosto de criar cores. Gosto de criar várias cores. É muito bom. Você começa pintando, quando você vê, já tem mais de 20 tons ali de cores que você criou. Nossa, é muito bom. Elas misturas, né? É isso.
Pois é, tinta preta. A gente não tinha tinta preta, como conseguia. Aí pegava aquelas pilhas do rádio, né? Porque meu pai tinha um rádio de pilha e quando as pilhas venciam, a gente pegava as pilhas, quebrava, tirava aquele pós em preto que está aí dentro e preparava a tinta preta.
Tem cabeça que a gente usava. Agora é muito interessante. Como você viu. A ideia de mãe que ela tinha. De pegar essa pedra. Abrir, tirar esse pãozinho. E fazer. É muita criatividade. Ela era muito criativa. Ela usava uma cola. Ela comprava. Ela comprava na perfumaria. Uma cola. Era tipo uma chapa. Essa eu não lembro não.
Eu lembro que era tipo uma chapa. Acho que é cola de madeira que chama. Aí ela derretia no fogo essa cola. Devia ser que nem gostava bastante, que você usa cola quente. Mas de outra forma. E aí ela desmachava no fogo com um pouquinho de água e misturava nas tintas.
Que era pra fixar, né? Era. A tinta preta, nas outras tintas, não é linda, né? As cores que a gente conseguia, era rosa, era rosa verde, acho que não tinha amarelo, não lembro se tinha amarelo.
Hoje está tudo muito mais fácil para quem faz o trabalho. Era um pouquíssimo esconde que tinha. E o branco, ela usava um alvaiado. Ela se chamava alvaiado. Não sei se é esse o nome, mas ela comprava também tudo na perfumaria. E preparava tudo com a sacola que ela derretia no fogo para poder a gente usar.
E o tom de pele realmente era complicado. Acho que a gente deixava natural mesmo. O que vocês acham que a mãe de vocês deixou de mais valioso para a continuidade aqui no Cariri, na região? Ela deixou o tom dela, a arte dela, a arte maravilhosa.
tudo que ela deixou, assim, que ela pôde deixar, pôde seguir ensinamentos, né, de tudo que ela pôde fazer, né, pelo carinho, pelo artesanato, pela arte. Ela enriqueceu a cultura, né? Sim, sim.
com o dom dela, com a arte dela, com o carisma dela, né? Que ela era uma pessoa muito carismática. Então, eu acho que é isso. E como é para vocês verem o nome dela, assim, que ainda ecoa depois de tanto tempo, ainda está sendo falado, as pessoas gostam muito de homenagear? Poderia falar um pouquinho também sobre a casa que abriu agora, né? Com o nome dela, a Casa dos Artesãos.
É muito, a gente se sente muito honrada, né? Agradecida, né? Muita gratidão por tudo, assim, né? Por o nome dela estar sempre lembrado, né? Pela coisa que as pessoas não esqueceram, né? Do que ela fez, né?
da pessoa que ela era. Ah, e é muito gratificante mesmo, o bebê, todo esse reconhecimento que ela teve, que está tendo ainda, e que nós também que damos continuidade hoje, também temos esse reconhecimento que veio tudo através dela, através da arte da minha mãe, através de todo o trabalho que ela desenvolveu durante todo esse tempo.
e deixou de herança para nós, para os filhos, para os netos, para as pessoas que vêm conhecer. E é muito gratificante, eu realmente só tenho muito a agradecer. Esse projeto que cria o Univer de Enquanto que vem, um projeto que para nós vem também, e a gente sabe que a gente consegue tudo isso através dela, que é tudo...
por conta de uma arte que ela tinha, do nome dela, que ela criou, que desenvolveu e que as pessoas ficaram conhecendo. E através de toda essa arte, de todo o trabalho dela, hoje a gente também tem esse reconhecimento.
Esse centro de artesanato que realmente fizeram em homenagem a ela, colocaram o nome dela lá, que leva o nome da minha mãe, mas que leva o nome também de todos os artesanos, todos os artistas aqui do Cariri, porque é um espaço que vai beneficiar todos os artistas, todos os artesãos. Então, é algo muito importante, de grande valor.
para a cultura do Cariri e para os artesãos também. E o que a gente deseja? Que venham mais projetos como esse, que mais pessoas tenham mais interesse em homenagear outros artistas.
que homenagearam a minha mãe, que também outros artistas sejam também reconhecidos, que sejam também homenageados. E a gente só tem medo de agradecer, e eu fico muito feliz com tudo isso, com todo esse reconhecimento, e que o nome dela nunca seja esquecido. A pessoa que ela foi, que seja sempre lembrada pelo carinho que ela tinha com todos.
que eu sei que as pessoas também têm com ela. Eu vejo quando as pessoas conversam com a gente, quando falam dela, sempre com muito carinho. Ela realmente é uma pessoa abençoada, iluminada, e que isso passe para nós também.
Que nós também possamos dar continuidade, realmente, com muito carinho na arte dela, até quando Deus quiser, né? Até onde podemos ir com a arte dela. E que venham muito mais projetos, né? Muitas mais coisas boas para a cultura e para os novos que estão chegando agora, né? Que seja principalmente para as crianças, né?
Eu participei desse último, que eu fui participar em Brejo Santo, que foi também da Mestres e Mestras, a Chapada do Aralipa, também foi um projeto muito importante, eles também querem dar continuidade, então esses projetos são muito bons, são bons demais para...
para a cultura, que valorizam o artista, valorizam a cultura da região. E isso é muito bom, a gente fica torcendo que sempre surjam mais projetos, que levem a gente para mais longe, que divulgam sempre a nossa arte. E isso é muito bom, o que a gente acha, trabalhar é bom, ter o reconhecimento é bom, a divulgação é maravilhosa também, e cada pessoa que divulga a nossa arte...
Só vai acrescentar, né? Para o Mosaico.
Hoje tivemos a alegria de ouvir Doura e Socorro, que nos contaram sobre a vida e o legado de Maria de Cândido, uma mulher que transformou o barro em arte e memória. Histórias como essas nos lembram da importância de valorizar as artísticas populares que constroem a identidade cultural do Cariri e do Brasil. Obrigada a você que nos acompanhou até aqui e até o próximo episódio.
A CIDADE NO BRASIL