Episódios de lan house

o fenômeno dos 'homens performáticos'

08 de maio de 202656min
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instagram e tiktok, vídeos curtos: @sodremat

textos em sodremat.substack.com

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o que é ser ‘performático’? 

o que é ser um ‘homem performático’? 

este discurso, a ideia de que existem atitudes e comportamentos que são feitos não para ter um fim em si, mas para alimentar uma representação de si mais do que a si próprio, uma imagem a qual se deseja estar associado e que importa mais do que a suposta realidade, tem se infiltrado nos conteúdos e comentários digitais cada vez mais.

mas o que significa performar? e o que, na verdade, ainda podemos chamar de ‘não-performance’, numa era onde enxergamos o mundo mais a partir das lentes distorcidas de um iphone do que com nossos próprios olhos? 

indicações da semana: sociedade do espetáculo, de guy debord; ‘jogo de cena’, de eduardo coutinho

muito obrigado a todos os membros do cybercafé e a todo mundo que tem apoiado o lan house. toda semana eu me revigoro fazendo isso aqui. 

se quiser fazer parte do nosso clube, pra além do acesso a vídeos antecipados, roteiros colaborativos e lives semanais exclusivas, temos também um grupo no zap em que debatemos temas de interesse diariamente, trocamos indicações e fazemos amigos. basta se juntar ao cybercafé via youtube :) 

se vc já é membro, enviar um email pra assessoria.sodremat@gmail.com :) 

o TAPETE MARAVILHOSO na parede é dos meus amigos queridos e vizinhos de sala da @voadortecelagem

identidade visual: carolina munhoz

instalação das tvs: guilherme durão, do @sup_lab

animação do logo para tv: tauan abreu

trilha sonora: matheus castro alves e henrique luciani

Participantes neste episódio1
M

Matheus Sodré

HostApresentador
Assuntos7
  • Opressão masculinaDefinição de performático · Origem do termo 'homem performático' · Homem performático no Brasil · Crítica à masculinidade performativa · Homofobia e anti-intelectualidade
  • A Sociedade do Espetáculo de Guy DebordCapitalismo tardio e abundância de bens · Alienação do trabalho · Mediação por imagens e consumo · Guy Debord
  • Gêmeos Digitais e Entretenimento DigitalDuplo virtual e simulacros · Jean Baudrillard · Tempo real vs. tempo histórico · Lento cancelamento do futuro
  • Distrações digitais e presençaPerformance de autenticidade · Códigos algorítmicos e globais · Contradição na masculinidade · Homens performáticos e o Twitter
  • Orwell e vigilância contemporâneaPanopticontent · Shoshana Zuboff · Produção de dados para empresas
  • Conteúdo dos CelularesOlhar de smartphone · Desconexão entre imagem e realidade · Vício em telefone celular
  • Inteligência artificial e recriação digital de mortosAvatar digital após a morte · Inteligência artificial e morte
Transcrição137 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Sejam muito bem-vindos ao Lone House, o podcast de papos analógicos sobre o mundo digital. Eu me chamo Matheus Sodré e hoje a gente vai mergulhar na palavra performance. Não performance no sentido de wellness e bem-estar, mas performance no sentido de performance digital. Especialmente na discussão que tem surgido muito entre as pessoas mais novas, que talvez muitos de vocês tenham visto, que é usar o termo performático para designar certas ações que a gente faz na vida real. Ser performático.

Então, às vezes, ser performático é você escrever no metrô, ler um livro na praça, desenhar num restaurante, ou qualquer coisa que, para a maioria das pessoas, parece algo feito...

para ser visto a partir das lentes de um telefone, de certa maneira. Parece algo feito para apelar a um público e a uma imagem idealizada que a gente consome muito mais na internet do que a gente testemunha na vida real. E eu quero mergulhar nessa ideia de performático a partir também da discussão do homem performático, que é como surge mais ou menos isso tudo.

do homem performático, que talvez não estejam familiarizados, que é um certo meme, uma certa substituição identitária do esquerdo macho, que agora está atualizado para termos mais cosmopolitas, e é um cara intelectual, sensível, que rejeita esse hipermasculino, tem um aspecto artístico, tem um aspecto urbano. E essa dimensão do homem performático, obviamente, como a grande maioria das pautas e dos conteúdos que surgem no Brasil,

Começou nos Estados Unidos. No Brasil, a gente tem muita gente criando conteúdo sobre homens performáticos, tem muita gente imitando o que é um homem performático. Então, um homem performático na praia, alguém que faz tal coisa. Um homem performático, quando se encontra alguém na livraria. E aí vai criando-se os conteúdos que chegam a 50 mil likes, 100 mil likes, e que estão se dissipando muito, o que significa, de certa maneira, que isso está pegando alguma atração. Que mesmo sendo uma pauta importada...

inventada, por assim dizer, aqui, isso tá pegando aqui. E aí o termo performático começou a se popularizar. E eu queria tentar entrar no termo do que significa exatamente quando a gente se incomoda, porque o performático tá no pejorativo. Até quando a gente admite que a gente faz coisas performáticas.

Tipo, alguns elementos, por exemplo, elementos analógicos inseridos no dia a dia. Então, a pessoa que usa fone de fio, né? E aí, já num contexto que tem um recorte de classe muito claro aí. Ou a pessoa, por exemplo, que, né? No caso dos Estados Unidos, você tem a tote bag, ou o homem que usa uma bolsa. Você tem um mulletzinho, que não é mais um mulletzão, mas um mulletzinho. Bem Jacob Elord, essa preocupação com a roupa. Muita literatura, intelectualidade. Então, ler publicamente, escrever, desenhar.

Nos Estados Unidos tem muito o matialate como um elemento de quem é um homem performático, uma falsa preocupação com o feminismo, com leitura feminista, com o Lebel Hooks. E aí no Brasil isso se traduz com a falsa preocupação com o feminismo, já que evoluiu do esquerdo macho, com o óculos hereses, com a camisa de linho, com a ecobag, com a camisa de time retrô. Mas o que é essa identidade que é tão criticada e vira tanta sacanicatura?

Eu não acho que essas pessoas não existam, mas eu acho que o discurso e a produção de conteúdo sobre o que é uma pessoa performática extrapola em muito o que realmente é a coisa. Que eu acho que nada mais é do que algumas microtendências que estão adetrando um campo masculino que tendem a ser muito mais rígido e que chama muito mais atenção quando está sendo diferente.

Então, sei lá, eu posso falar disso como propriedade porque eu fui um grande homem performático na internet. Eu tinha mullet, eu pintava unha, usava jaqueta de corrida, me entupia de signos e mais signos e falava com... Meu corpo inteiro era um grande negrito no começo da minha época na internet. Tudo sendo gritado ali na minha expressão. Porrada de anel, colar, enfim. Eu acho que... Parte desse choque com a relação de performance...

vem com a gente ver uma coisa que parece muito curada para a internet acontecendo na nossa frente na vida real. Talvez, e essa é a minha tese, porque a gente já está muito infectado com o olhar de um telefone. Então, quando a gente vê uma coisa na rua que encaixa muito com o clique de celular e com o story, com uma coisa representada como uma imagem que você consome no seu scroll, mais do que algo que pode estar sendo vivido, quando é mais familiar o fluxo algorítmico, aquela imagem para você, do que na vida real, aquilo soa performático.

Mas eu acho que a carga pejorativa vai muito nessa crítica a essa masculinidade performativa.

porque ela seria supostamente um esforço calculado pra apelar a mulheres, né? Algo feito pra pegar a mulher. E aí eu acho que tem um quê de homofobia nisso, tem um quê de anti-intelectualidade nisso, mas tem um quê também de incômodo com performance de masculinidade que, historicamente, tem uma expressão de gênero muito mais rígida, né? Então tudo aquilo que foge a uma ideia de masculinidade tradicional ou especialmente que se aparece muito...

que não é uma masculinidade discreta, é uma expressão de identidade mais neutra, acaba sendo tido nesse momento como performático, como foi esquerdo ou macho, identidades prévias a isso. Então vamos mais fundo. Para a gente parar de repetir performático, sem colocar de uma forma clara, eu queria voltar para a performance.

E eu quero definir aqui primeiro performance pra falar um pouco de teorias e coisas que eu acho que se relacionam de um jeito legal com isso, pra em seguida a gente ir pra uma discussão de novo pro homem performático e pra o que significa ser performático hoje em dia. Eu tenho como performance...

como diagnóstico do termo, de como ele está sendo usado, alguém que faz algo mais para ser visto do que para si próprio. Alguém que faz alguma coisa para alimentar uma representação de alguma coisa mais do que si próprio. Então, uma pessoa que usa certas roupas e se comporta de certa maneira e tem um certo estilo, demonstra certos interesses que estão alinhados com uma ideia de uma tendência digital.

Dessa sensibilidade, dessa intelectualidade, dessa masculinidade ali no meio do caminho. Mas também do analógico, enfim. Tudo que tá meio em pauta ali nos últimos três anos, acaba sendo associado a uma coisa performática.

Trazendo de forma neutra, então, alguém que faz algo para alimentar uma representação de si próprio e para ter aquela imagem associada a si próprio mais do que pelo fazer em si. Então é quando a associação imagética, a construção de uma imagem em si, importa mais do que a feitura do ato, ou sei lá. Então eu vou sentar e ficar tomando um café e lendo um livro, mas eu nem estou lendo esse livro direito, é só para performar isso, para as pessoas verem que eu faço isso, enfim.

É meio essa a ideia. E aí, voltando algumas décadas, pra gente tentar entender por que esse incômodo tá surgindo, por que esse termo tá se popularizando, por que isso é uma coisa, já que eu acho muito irrelevante, no sentido de diagnóstico dos tempos,

Vamos voltar pro Guy Debord, que é um cara que eu terminei de ler o livro recentemente. O Guy Debord é um cara absurdo de foda, assim, e ele escreveu em 1967 um livro chamado A Sociedade do Espetáculo, que a gente tem muito como essa coisa meio, ah, o Big Brother, a Sociedade do Espetáculo, quando, na verdade, é uma coisa muito mais densa e mais profunda do que isso. É quase que um tratado que antecipa a realidade que a gente vive hoje em muitos aspectos. E...

A tese principal do Guido Debora é a gente está vivendo um mundo mediado por imagem. A gente atingiu um nível de capitalismo tardio que...

a gente tem um estado de abundância tão grande de bens de consumo, empresas que precisam crescer e crescer e comprar e comprar e comprar, e a gente tem que sustentar uma lógica de consumo permanente que as nossas relações estão para sempre modificadas. Pensa que assim, isso era final dos anos 60, então você tem a Europa sendo reconstruída depois da Segunda Guerra com 100 bilhões do Plano Marshall, você tem uma disputa de zonas de influência entre comunismo e capitalismo.

Sendo o capitalismo a influência dominante da Europa nesse período de tempo, sem as suas contradições, claro, com muitos embates, mas colocando muito dinheiro, injetando muita cultura, injetando muita produção em sentido de indústria cultural, e produzindo um soft power gigante ali.

Pensa também que isso é época de massificação de televisão no hemisfério norte e de massificação da publicidade e de desenvolvimento da publicidade. Quem viu Mad Men sabe que os anos 60 são anos onde a publicidade se sofistica e ela passa a vender imagens que estão associadas não só ao produto, mas a certas coisas. A uma mulher desejável, a uma família perfeita, a um carro que te associa a uma ideia de masculinidade, a um cowboy fumando um cigarro. Então a gente começa a produzir imagens.

e desejo a partir dessas imagens. E a gente começa a viver, escolher o nosso trabalho, escolher quem a gente quer ser, escolher a imagem que a gente quer passar para o mundo, escolher como a gente vai amar, escolher o tipo de amor que a gente vai ter, que tipo de discussão a gente vai ter com o nosso marido ou mulher, como a gente vai criar os nossos filhos, tudo isso é permeado por uma ideia de senso comum.

de tentar se associar às imagens que ensinaram a gente como deve ser a realidade. Então existe um processo de cisão nesse período entre realidade concreta, num mundo sem o capitalismo de abundância, sem uma ideia de uma economia globalizada, sem especialmente a alienação do trabalho. Então você faz um sapato, você faz tal coisa. Existia uma separação por necessidade e agora a gente tem um contexto onde o trabalhador desconhece o que ele faz.

E desconhece, por assim dizer, por exemplo, você vira um apertador de botão numa fábrica que produz o plástico do cadarço do tênis. Você não sabe produzir nada. Você não tem mais aquele valor de trabalho. Você não tem mais a capacidade disso. O seu trabalho agora, o que você sabe fazer é apertar um botão. Você não sabe fazer um sapato.

Então, quando existe essa escalada de abundância e de produção massiva de bens no capitalismo, existe também o processo de alienação do trabalho. E esse trabalho, inclusive, vai sendo terceirizado primeiro para as fábricas e depois para fábricas ao redor do mundo, fora desses países ricos, como acontece mais nos anos 80, a partir dos anos 80, nos Estados Unidos, que eles botam toda a produção deles na China.

Então, de repente, um mundo onde você fazia as coisas e você tinha uma certa materialidade do seu processo produtivo, do seu senso de necessidade, do que você tinha, e da sua manutenção das coisas, seja para comer, seja para consumir informação, enfim. Não estou falando que era um mundo livre, mas era um mundo muito diferente. E era um mundo onde você não tinha essa circulação de abundância.

mediada por imagens, porque essas imagens elas vendem justamente valores estadunidenses e servem pra dominar e influenciar culturalmente, né? A defender com cultura imaterial o território americano, como a minha professora Cristina falou isso inclusive há duas semanas atrás, na minha estrada, eu fiquei com isso na cabeça. Da cultura imaterial defender o território, né?

Isso, então, não é só um mito da caverna do Platão atualizado, só uma grande ilusão que a gente está passando de... Mostra uma realidade e a gente fica iludido com ela. Não é só uma alienação no sentido do Big Brother, de se alienar vendo TV.

É um processo concreto de alienação do trabalho e de um estilo de vida, uma produção de sujeito inserida dentro de um contexto de comprar e consumir, e ter, e ter, e ter e parecer.

e você consome, você ama, você se relaciona, então a sua mediação de relação com as pessoas também é mediada por essas imagens. O que eu falei é como você vai amar alguém, tem a ver com o amor romântico que você foi, tem a ver nos filmes e nos livros e nas publicidades, como você vai rir, como você vai achar graça, como você vai cuidar dos seus filhos, como você vai votar.

Toda essa produção de sujeito e de identidade está, então, atrelada às imagens que a gente consome dentro de um sistema mediador de imagens que permite, que limita a gente somente a essas imagens. Então, até se você quer ser...

um revolucionário, e você vai encontrar no rock and roll e em outras opções de consumo da época, um produto revolucionário. Tudo acaba capturado por aquilo, e a gente passa a alimentar então a nossa representação de si próprio, mais aproximada dessa ideia de publicidade, de cinema e de cultura e material que nos regem, das imagens que nos regem. Então é isso, você vai... Papai comprou uma...

Esse é um ótimo exemplo. Papai comprou uma Harley Davidson e agora ele anda sentindo-se um cara livre e um motoqueiro dos anos 50, um biker dos anos 50, um Hells Angel, voltando do pós-guerra e vivendo em gangue. Na verdade, ele está ali na Avenida das Américas fazendo um passeio no domingo, na Barra da Tijuca. Então acho que essa aproximação...

na direção da imagem e de consumir uma imagem para se realizar a partir de estar próximo da imagem e não de si próprio, vai fazendo com que a gente se conheça cada vez menos e se individualize cada vez mais. Esse é o grande Gui Debord. Recomendo muito ler A Sociedade do Espetáculo. É um baita livro. E eu acho que ele fala muito bem dessa lógica de alimentar a representação. E eu imagino que tudo que eu estou falando aqui já esteja produzindo alguns ecos interessantes na relação que a gente tem.

com o telefone celular, com as redes sociais e com a representação de nós mesmos que habitam as redes sociais, que é uma coisa que eu pesquiso há muito tempo, né? O duplo virtual, que é o que eu chamo, e muita gente chama, não inventei isso. O duplo virtual, que é justamente essa imagem que está do outro lado da tela, que a gente alimenta, que a gente cura, que a gente edita, que a gente escolhe as roupas, que a gente transforma no jeito de falar, de ser, de comunicar, de estar.

inclusive na foto da comida, na foto da viagem, tudo isso alimenta, assessoriza coisas à sua imagem, conecta coisas à sua imagem, constrói a sua imagem. Essa construção é uma representação de si próprio que nós mesmos alimentamos. Então a gente já está num nível onde a gente faz o nosso próprio espetáculo e vive um mundo de espetáculos algoritimizados para cada um de nós.

e que atendem a gente individualmente. Justamente porque o virtual precede, em muitos aspectos, o real. E essa discussão que o Debord vai trazer, tudo que eu falei, por exemplo, do Debord, é o virtual precedendo o real. O virtual não entenda o virtual somente como o mundo da internet. A virtualidade está muito sobre o campo simbólico que está sobreposto ao campo do real.

ao campo das relações reais, e que dá sentido e significado às coisas. Então, existe uma virtualidade, por exemplo, quando a gente, já nos anos 70, como o Debord Diagnosti, rege as nossas vidas com base nas imagens que estão sendo apresentadas a gente.

a gente já está, de certa forma, operando num contexto virtual. Mas a virtualidade do ciberespaço, e agora eu falo ciber, porque tem uma discussão brasileira de ciberespaço, ciberespaço, eu acho ciberespaço elegante, eu achei chique esse termo quando eu descobri que a gente usa assim, então eu vou usar assim. Quando o ciberespaço se torna...

ele se desenvolve cada vez mais, e nos anos 90 a galera já está muito acelerada nessa discussão. Tanto é que tem um aspecto do virtual que eu acho que é muito importante para a gente entender onde a gente está operando, enquanto identidade, enquanto incômodo com a coisa performática, que é a ausência de tempo. A gente vive num eterno presente.

sem passado e com um lento cancelamento do futuro, já que a gente não vai conseguindo, por estar preso a esse eterno presente, costurar um futuro, pensar um futuro, já que a gente derrapa no mesmo lugar por estar justamente nesse fluxo algorítmico urgente, onde tudo é agora, agora, agora, agora, agora, você só consome o agora. A gente não tem um ritual de tempo mais aprofundado na nossa relação.

Com o consumo de informação, seja no jornal, na revista, na TV, seja no livro, enfim, seja no filme. O nosso consumo de informação é cada vez mais instantâneo e precisa abastecer um engajamento, uma economia de atenção, hiperestímulo, tudo aquilo que a gente fala. Mas eu acho que existe esse éter digital.

onde a gente está sempre online, a gente está sempre presente, a gente está sempre existindo enquanto representação, portanto, performando para essa representação, que perfura o tecido da realidade e faz com que a gente, dentro do real, abasteça ele cada vez mais. É cada vez mais natural você andar se filmando, você colocar o telefone em algum lugar e mostrar seu look do dia.

Se em algum momento a gente tinha...

o Debor chama de vedetes, que eu acho mais interessante, mas pra ficar mais fácil, a gente tinha celebridades criando uma ideia de vida, modelando uma ideia de vida que você almeja ser ou ter, daquilo que é possível, mas é impossível, hoje a gente tem as blogueiras fazendo isso. E a gente tem também nós mesmos. E acho que esse é o ponto da representação, né? É que se existe uma blogueira performando uma imagem de si que é desejada por pessoas, tal como a imagem da publicidade, da televisão, como antigamente,

E produzindo essa imagem, seja na novela da Virginia, com as horas ali que ela coloca, em que ela acorda e tem o café pronto, e ela vai malhar, e ela faz não sei o quê, e ela performa essa vida para uma câmera, e se autorregista e tem a sua própria novela.

A gente também se performa sempre que a gente tá na rede social. Eu acho que a gente já tá num ecossistema dessa performance eterna, entendeu? Há de eterno. Não há um passado praticamente na nossa performance e por isso, né, também tem uma dificuldade de haver um futuro. A gente entra numa lógica de...

de abastecer essa representação de nós mesmos, tal qual blogueiros, afinal de contas, a gente está submetido ao mesmo fluxo algoritmo. E a gente quer se ver como aquilo que a gente deseja ser. Então existe essa coisa perversa de você ter esse espelho invertido, literalmente, do telefone celular, da lente da selfie.

que te permite abastecer coisas nesse espelho, seja produzir uma imagem descolada de si que não corresponde com a experiência que você tem na vida real, como, por exemplo, você viajar para um lugar turístico que você viu no TikTok lotado e ficar numa fila para ter um segundo ali no lugar vazio, ou o que a gente está vendo agora direto no Rio de Janeiro, que é na Rocinha, por exemplo.

Você tem agora uma experiência que você fica horas esperando pra pagar, pra ter um negócio que tem uma experiência meio cria, assim, e aí você tem, você turista vai lá, chega e senta, e aí tem o drone, assim, filmando você sentado, ele afasta. E aí mostra toda a favela da Rocinha, e você ali no meio saindo do drone, né? E você paga pra ter esse vídeo pra postar na rede social.

num lugar que você esperou uma fila de três horas. Isso não descreve em nada a sua experiência de estar nesse lugar, não fala nada, mas fala muito sobre a sua representação ao que você está associado, que é uma brasilidade, que é um Brasil core, é um Brasil raiz ainda, né? Você foi numa favela, tem um quê de realidade, e de realidade feliz, e de uma realidade que não é asséptica como a realidade da maioria do hemisfério norte, né? Especialmente nos Estados Unidos. Então...

a gente começa a conscientemente saber que a gente tá alimentando uma representação nossa e o outro tá consumindo essa representação nossa, sabendo que é uma representação. Ele não tá vendo esse vídeo de você lá na favela e dar o zoom out, boa noite povo que eu cheguei. E esse fala, nossa, olha o que ele viveu numa favela. Não, você sabe que ele foi fazer um serviço ali. Você sabe que aquilo ali é uma experiência paga.

Assim como quando você tá fazendo o seu vídeo da sua viagem no lugar do TikTok que você foi porque todo mundo foi, todo mundo sabe que você tá ali por causa do TikTok. E que você tá performando uma coisa e todo mundo performando. Então...

É cada vez mais descolado da realidade e cada vez mais a gente se relaciona por imagens. E a nossa relação, a nossa representação opera pra interagir com outras representações num campo reconhecidamente de representações e completamente desconectado da realidade.

Isso é um virtual, é um hipervirtual, um virtual ao cubo, assim. E tem uma passagem nesse livro aqui que eu tô lendo do Jean Baudrillard, que é Tela Total. O Baudrillard é o cara que escreveu Simulacros e Simulação, que é um livro base pro meu projeto de mestrada, pra minha investigação de IA, desses duplos virtuais justamente serem simulacros de nós mesmos, né? Que a minha tese é justamente essas representações que eu tô descrevendo, essas versões nossas digitais, elas são duplos.

Elas são simulacros de nós mesmos. São uma reconstrução nossa sem original, a partir dos nossos dados. Então, o que é uma versão nossa de IA? Em que momento se se borra? E o que é um influencer de IA, então? Então, eu estou meio que decidindo qual vai ser o meu objeto. Mas tem uma passagem aqui sobre o virtual e sobre a relação de tempo que eu queria ler, que é a diferença entre tempo histórico...

e tempo real. O Baudrillard chama o que a gente chama de eterno que o Douglas Jaskoff chama de eterno presente essa noção de falta de passado e de futuro, e que o Mark Fischer chama de lento cancelamento do futuro, que é essa incapacidade de produzir um futuro novo porque a gente está numa lógica algoritimizada, ele não fala algoritimizada mas uma lógica de consumo virtual, digitalizado que só permite aquilo que já aconteceu a gente começa a ficar viciado em nostalgia nostalgia, nostalgia é

e a gente começa a olhar muito pra trás, e fetichizar muito pra trás, com medo de não enxergar nada na nossa frente, ele chama isso de lento cancelamento do futuro. E aí o Baudrillard chama isso de tempo real.

que é o tempo real de fato. Então ele fala assim, no tempo histórico o acontecimento ocorreu e as provas estão aí, mas não estamos mais no tempo histórico. Do ar avante, estamos no tempo real, e no tempo real não há mais provas de nada. A exterminação nunca será verificada em tempo real. Ele está falando de fim do mundo e negacionismo climático. O negacionismo é, portanto, absurdo na sua própria lógica, mas esclarece pelo próprio absurdo a irrupção de outra dimensão.

paradoxalmente chamada tempo real, mas onde precisamente a realidade objetiva desaparece, não somente a do acontecimento presente, mas também a do acontecimento passado e do futuro. Tudo se esgotando numa tal simultaneidade que os atos aí não acham sentido, os efeitos não acham suas causas e a história não pode mais aí se refletir. O tempo real é um gênero de buraco negro onde nada penetra sem ser esvaziado de sua substância.

Sou familiar? Parece o algoritmo do TikTok. Pois é. Cá está, Baldrilar, em 1995. Numa passagem que ele escreveu no dia 3 de julho, inclusive, dia do meu aniversário. Então, é importante a gente saber que quando a gente está percebendo alguma coisa...

como essa discussão do performático. Provavelmente algum teórico já falou disso há 50 anos atrás e outro teórico já atualizou esse tema para o Gigi hoje há 20 anos atrás. Como é o caso de Baudriari, Debord e Guattari e Mark Fisher hoje em dia, por exemplo, que escreveu isso há 10 anos atrás.

Ou seja, a gente vive para alimentar um avatar eternamente presente. Não só eternamente online, como eternamente em tempo presente. Não à toa a gente está tendo essas discussões, que vai ser o tema do One House da semana que vem, que é o direito à morte.

Então a gente vai entrar numa discussão muito interessante com o meu orientador, o Fernando Salles, do mestrado, sobre inteligência artificial e o direito à morte, necromancia digital. Justamente essa eterna presença, inclusive quando você morre, como a ideia da meta de você continuar com um avatar digital que te responde no Instagram, mesmo você já tendo morrido.

aproveitando esse pequeno break para sugerir que vocês façam parte do Cyber Café. O Cyber Café é o grupo de membros do Lan House aqui no YouTube, então você tem que entrar pelo YouTube, se você está ouvindo no Spotify tem que ir para o YouTube. E tem algumas coisas interessantes, o Lan House é um programa autofinanciado e o Cyber Café é a nossa comunidade que ajuda a sustentar...

O Lan House. O Cyber Café tem lives semanais em que a gente elabora roteiros coletivamente, inclusive a gente troca indicações, a gente passa coisas, conversa uma série de paradas, anota leituras, discute temas. E na última live a gente escreveu coletivamente os dois últimos Lan Houses. Tanto quem tem direito offline quanto esse do performático, também a gente pensou lá junto numa live e tal. Então é muito legal semanalmente ter esse ponto de contato e conversa.

E a gente tem um grupo, que é o Cyber Café também, um grupo no WhatsApp, que a gente passa o dia inteiro falando de tecnologia, cultura, futuro, trocando referência também, alimentando tema, enfim. E eu estou muito presente lá e é um prazer enorme ter essa conversa. Então, pô, eu amo demais. E estou sendo muito feliz com o Cyber Café.

Se você quiser fazer parte, é só virar membro aqui pelo YouTube e mandar um e-mail para assessoria.sodramat.com, que está aparecendo aqui embaixo, com o seu arroba do YouTube que virou membro e o seu número de telefone para ser adicionado no grupo do Zap. Agora, voltando. Então, é performático quem vive como estivesse se enxergando de fora. Gostaram desse break comercial? Foi bem pontual, até mudei o tom de voz, né?

Mas não só se enxergando de fora, se enxergando de fora como se estivesse sendo filmado por um telefone. E aí a gente entra numa coisa que eu já falei aqui antes, que é o panopticontent, que é um termo cunhado pela Clarissa Janlin num artigo bem legal do BuzzFeed em 2021, não lembro. Panopticontent é o fato de que se antes a gente achava que ia ser observado por uma força autoritária do Estado,

que tem câmeras em todo lugar e centraliza todos os nossos dados. Não precisa disso, né? Na verdade, nós já estamos sob um regime, um capitalismo de vigilância, um regime, como diz a Shoshana Zuboff, num regime onde a gente está sendo vigiado o tempo todo por nós mesmos e produzindo dados para as empresas de onde estamos o tempo todo por nós mesmos, em forma até de conteúdo. Daí, panoptic content. A gente está se produzindo e o alimentar dessa representação, o alimentar dessa imagem que a gente está falando, serve então...

pra gente se rastrear e entregar os nossos dados, né? E ter os nossos dados raspados. Eu fico pensando que esse incômodo com aquilo que é performático tem a ver com viver na vida real sob um olhar digital também.

no sentido de que o nosso olhar já tá treinado pra detectar aquilo que é tiktokesco, aquilo que tem cara de microtrend, aquilo que tem cara de estilo digital do momento, e aquilo que tem cara de um estilo globalizado, que não necessariamente conversa tanto assim com o contexto no qual a pessoa tá inserida, ou que parece forçado demais, por assim dizer. Essa desconexão entre imagem...

e contexto real. Então você vê um cara de touch bag, e mullet, e óculos, e vários elementos que se relacionam a algo em comum ou algo muito estereotipicamente digital, e você olha e fala, putz, isso aqui é performático. É feito para o olhar do outro por um telefone. Mas eu acho que tem a ver com o nosso olhar viciado. E aí eu queria entrar numa outra discussão que é...

Beleza, é pejorativo, mas com o que a gente está se incomodando exatamente? Qual é o incômodo que a gente sente com essa coisa da performance, da pessoa performática? Porque se a gente vai entrar nessa conversa...

Todos nós performamos. Das fotos de turismo, como eu falei, à comida, ao jeito de se produzir digitalmente. Tudo é uma espécie de performance. O jeito que eu estou sentado aqui é uma espécie de performance. Esse cenário é uma espécie de performance. Vocês viram como eu entrei no programa? Eu apareço entrando e sento com uma entrada. Eu não estava na porta do lado de fora. Eu entrei e sentei. Isso é uma forma de performance.

Mas o nosso post dump é uma falta de performance. Tudo que é orgânico é uma performance de orgânico no digital. Nada é organicamente digital porque é regido por um algoritmo. E se é regido por um algoritmo, há a consciência de que existe uma linguagem ao qual o seu registro tem que se adequar. E esse registro, se adequando a essa linguagem, torna-se então uma performance.

Porque não é mais orgânico, ele está comportando uma dinâmica virtual e sendo feito e se produzindo no real para comportar e abastecer essa representação. E eu acho que esse debate, a gente já consegue detectar o que é feito para abastecer a representação, mas acho que a gente só se incomoda com algumas coisas. E quais são essas coisas que incomodam?

Se todos nós performamos. Por que a foto no lugar turístico do TikTok não incomoda? Por que a foto do prato de comida não incomoda? Por que a foto sua no Japão não incomoda? Por que a foto sua fazendo, sei lá, enfim. Por que tem coisas que incomodam e coisas que não incomodam? Especificamente... Por que aquilo que parece...

Não diria meio influencer, mas meio performático incomodo.

Será que são códigos esses que são algorítmicos demais? Que são internacionais demais? Que não parecem se encaixar no que seria uma realidade brasileira e por isso produzem esse incômodo? Porque é isso, a gente já está falando do performative male em vários lugares do mundo, especialmente nos Estados Unidos, especialmente no hemisfério norte. Mas a minha curiosidade é por que o homem performático colou aqui no Brasil e por que performático é uma coisa que incomoda no Brasil. Eu quero discutir isso no Brasil.

Será que esses referenciais de sofisticação, entre muitas aspas, porque são referenciais cosmopolitas, né? Que vem do Jacob Elordi, que vem da tote bag, que vem de um bom gosto pra se vestir. Não tô me apontando que eu tenho bom gosto pra vestir, não, né? Mas pra se vestir. Seja você ir no brechó e ter um senso estético próprio. Eu sinto que tem um incômodo com umas coisas que performam uma identidade própria, mas que parecem muito parecidas com uma identidade digital.

Parece que é um pulo em contradição. Parece que é uma coisa que tá dizendo, olha só como eu sou autêntico e original, mas essa originalidade, na verdade, eu aprendi no TikTok. Eu acho que é meio que o incômodo vem meio desse senso de contradição, sabe? Se vem algo que é imagem antes de ser real. Então, você olhar pra Kira e falar, cara, eu já vi esse cara em conteúdos diferentes, em lugares diferentes, em países diferentes.

Então será que esse cara, esse é o estilo dele? Ou será que ele está performando uma autenticidade que é digital e global? E aí no Brasil isso fica mais acentuado.

Mas é curioso porque os arquétipos de incômodo, considerando que a gente, todos nós, estamos sujeitos e absolutamente performamos arquétipos e representações globais influenciadas pelo global, ou até por uma coisa brasileira, mas que ainda tem uma estética de representação que a gente se conecta.

Por que então que existe o incômodo com, um, intelectualidade? Então, você levar um livro para passear, você estar andando com um livro na mão, você ler no parque, você ler no metrô, ler no café.

E por que existe esse incômodo com essa masculinidade sensível? Porque eu acho que muito do que pega no Brasil também, pelo menos nos conteúdos que eu assisto das pessoas que imitam homens performáticos no Brasil, e que usam vários códigos que nem pegam aqui, tipo o Machalat, o cara que anda com o Machalat em São Paulo, sei lá, eu acho que isso é uma figura real, acho que é uma extrapolação muito bizarra de uma caricatura que você vai encontrar pessoas assim, mas que não corresponde a você ter um milhão de visualizações na internet.

no sentido de todo mundo reconhecer esse cara e falar, nossa, é muito isso. Eu acho que existe algum incômodo curioso entre homens, com homens que performam uma masculinidade sensível. Sendo ela genuína ou não, autêntica ou não, tá? Mas eu acho que com os códigos. Eu acho que sim.

Existe uma coisa na contradição masculina, porque a masculinidade, como eu falei mais cedo, ela é muito rígida, ela tem códigos muito rígidos. Então, toda vez que um homem é diferente, isso causa algum incômodo. Antes isso era associado, de forma muito homofóbica, a ser gay.

E aí, né, tem sempre esse tempo que vem desde os anos 70, desde antes da crise da AIDS, que é... Você produz uma... Toda moda masculina antes foi uma moda provavelmente gay, na maioria dos casos, né? E aí ela desce lá de cima, onde ela é descolada, até chegar no fundo da cadeia, que é o homem hétero que tem medo de ser gay.

Então a calça skinny que ainda está circulando entre os homens héteros, por exemplo, é uma coisa que há 10 anos atrás, há 15 anos atrás, tinha algum sentido para quem era mais para frente na moda, por assim dizer. E agora está ali confinada no calabouço da masculinidade frágil e rígida e imóvel e naquela masculinidade feita para se apagar ou para se aparecer muito pelos seus músculos e atributos que falam eu não sou gay, tem esse medo assim. E eu acho que também...

existe um certo incômodo com um homem que aparenta alguma sensibilidade. Primeiro porque muitos homens leem essa sensibilidade como falsa, só pode ser falsa esse cara, só pode estar fazendo isso para pegar uma mulher, ninguém é assim. Eu lembro de um caso icônico de um moleque muito interessante, que ele fazia uns vídeos cozinhando.

E acho que ele botava um vinil pra tocar, sei lá. E cara, era só um vídeo dele cozinhando. E ele sofreu tanto bullying no Twitter. Ele foi tão humilhado de graça no Twitter por gente muito escrota. E o Twitter tem esse acavalamento de ódio, né? Ele tem essa interface...

de rancor, de amargura e de inveja mesmo, que é o coach retweet, né? Que de repente você acha que você está num fluxo anônimo de poder falar muito mal daquela representação que está na sua frente como alguém que não é você para as pessoas que te seguem. Mas se você falar muito mal de um jeito que as outras pessoas conectam, você sente aquela recompensa de likes e de retweets e você irrita esculachando alguém e você se regogiza em ter sido odioso com alguém.

E aí você fala as coisas mais absurdas porque é o choque que fala. Eu já vi um tweet meu que teve um bom número de likes de um cara falando que eu deveria ser fuzilado em praça pública. E é claro que ele não acha isso, ele tá jogando nessa coisa meio cínica, exagerada do Twitter. Ou ele acha e foda-se ele, mas a questão é... É...

Eu acho que você não deveria ter o direito de falar assim sobre alguém numa praça pública, numa praça que é algoritmizada e que vai expandir esse alcance. Você pode falar disso numa mesa de bar brincando, mas você ter essa capacidade desse anonimato, por assim dizer, do Twitter é muito perigosa. E eu acho que isso permite com que você possa ter um lugar muito violento e agressivo na internet. E...

Eu sinto que... Eu não diria que isso também ajuda, porque eu acho que seria um elo muito fraco, assim, de falar que o homem performático é muito criticado porque é alto o Twitter, não acho de maneira alguma que é isso. Mas eu tenho a sensação de que existe um discurso, muitas vezes, anti-intelectual, até no próprio Twitter, e muito anti aquilo que não parece autêntico, como se o Twitter fosse muito autêntico, acho que tem isso também.

Acho que o Twitter é uma rede que faz o usuário sentir-se performando muita autenticidade, uma coisa muito orgânica, aquela digitada minúscula, falta de acentuação. Acho que existe um léxico, uma linguagem no Twitter mesmo que faz aquilo parecer mais genuíno, mais verdadeiro e menos performado. Mas é também uma performance, que as pessoas não entendem. E aí eu acho que quando essa...

esses dois aspectos, tanto da masculinidade sensível quanto da intelectualidade, chegam no Twitter e chegam em outros lugares, existe um incômodo com esses signos. Existe um incômodo com essas performances estéticas. Muitas vezes de gente que está recebendo atenção nas redes sociais. Atenção boa ou ruim, né? Eu já vi pessoas horríveis.

recebendo muita atenção na internet. E já vi também pessoas do mesmo campo que eu que eu fiquei muito constrangido de receberem atenção na internet com um conteúdo estilisticamente parecido com o meu. Então é também um jogo de associações que muitas vezes você não controla.

E, sei lá, é um assunto que me é curioso porque eu já passei por muitos esculachos virtuais, assim. A maioria ligados à minha aparência é o meu jeito de falar e é o meu jeito de performar virtualmente. E eu acho, generalmente, que isso aqui é uma performance, assim. Não tô falando que eu sou um ator, mas...

O meu jeito de falar é completamente diferente, acho que o Lan House é o mais orgânico que eu sou, mas o meu jeito de falar num vídeo é completamente diferente, o meu jeito de... não é que o meu jeito de vestir é diferente, né? Mas o meu jeito de... tem um cenário, tem uma luz, tem uma roupa, tem uma escolha de uma coisa toda que dá um tom de alguém que eu sou, que é um act, é uma performance.

Então é claro que isso é consciente. Eu acho que eu demorei pra afinar isso. E durante muito tempo eu... Também, por uma coisa própria minha, própria, né? Do que eu via na internet, mas por uma coisa própria minha, eu usava mullet, eu tinha unha pintada, isso em 2020, né? Comecei a pintar unha em 2019, 2020. E... E usava mullet, e comprava umas roupas muito over, sabe? De brechó, jaqueta de corrida.

Eu acho que eu tinha essa coisa muito performativa de uma identidade masculina que eu queria muito gritar virtualmente que era diferente de uma identidade masculina clássica, de uma identidade masculina muito associada à falta de estilo, à falta de identidade. E eu acho que era uma época que tinham menos homens na internet presentes dessa maneira e dentro dessa discussão. Eu estou abrindo essas parábolas pessoais para tentar entender justamente o incômodo com esses dois aspectos que eu estou falando, que é essa masculinidade sensível performada e essa intelectualidade performada.

por homens, que eu acho que sempre soam como falsas para as pessoas que estão assistindo. E claro, tem algumas que realmente são claramente falsas, não estou falando que não tem, mas eu acho que o fenômeno de que isso é isso é muito louco, o fenômeno de que esses códigos são associados a algo que é falso ou feito para pegar a mulher é muito louco, porque eu já escutei isso muito na internet. Ele faz isso para pegar a mulher, a quantidade de mulher que esse cara pega por causa disso deve ser um absurdo, de um jeito debochado, como se eu realmente montasse aquilo tudo para ser atraente para um público feminino.

É claro que assim, como todas as pessoas que têm uma atração, eu já me posicionei muitas vezes para ser desejado pelo público feminino. E eu acho que até no começo da internet eu usei isso excessivamente, esse recurso, e por isso eu fiquei negativamente marcado em lugares que eu não concordo com como falaram de mim, mas entendo os incômodos. Mas eu acho que é isso, acho que ao mesmo tempo existia sempre uma coisa, um incômodo com a não rigidez da minha masculinidade.

não estou falando de uma forma vangloriada, estou falando de uma forma pragmática, de que eu usava signos femininos com muita facilidade e mantinha uma performance muito masculinizada no meio de falar, de ser, de me portar. Então acho que tinha muito desse aspecto. E existia um incômodo justamente com a mobilidade de uma identidade masculina. E acho que hoje essa mobilidade está muito mais consolidada, mas ao mesmo tempo está muito mais arquetípica, estereotipada e associada a uma tendência digital.

que eu acho que vira mais uma coisa, né? Você tem vários estilos masculinos, mas existe um estilo, quer dizer, tem muitos mais estilos femininos e identidades femininas de ser e performar, por assim dizer, que são muito digitais, e o masculino tá muito concentrado nesse lugar do homem performático. E por isso que eu acho que ele acaba recebendo tanto...

tantos colachos nas redes e tanto incômodo, inclusive das mulheres. E que aí acaba se derivando do termo performático. E a questão da intelectualidade me é muito louca. Eu acho muito doido. Você está com um livro e as pessoas acharem que você está lendo aquele livro para performar para alguém.

Tipo, você ir na praia ler, que é a coisa mais banal de se fazer, se você tem acesso à praia, é o mais normal possível. Se você tem acesso à praia que não é só social, você ir na praia ler é uma coisa que se faz desde que a praia existe, desde que o livro existe.

Assim como você lê no transporte público, assim como você lê na praça, assim como você lê no café, você desenhar, você escrever, são todas atividades interessantes quando a nossa vida tá tão dominada pelo telefone. E eu entendo que elas podem... Isso que é muito doido, entendeu? Eu sinto que existe um movimento maior de tentar tá fora do celular, existe um ganho de consciência sobre o egoísmo e sobre o nosso tempo de tela.

Então, provavelmente, a gente está com a antena mais ligada para pessoas que estão lendo na rua, como a gente não se importava tanto quanto antes, assim como a gente está com a antena mais ligada para pessoas que estão com rituais analógicos na rua.

E eu acho que isso remete a uma ideia de intelectualidade, de uma certa... De um certo polimento, que as pessoas não acreditam. Muita gente não acredita. Porque eu acho que isso é tão intrinsecamente mais interessante você estar fazendo uma atividade que não ficar ali no telefone, não existindo, que também acho que tem um lado inverso, que é essa existência presente e corporificada, que é você não estar no telefone, é tão estranha ao nosso olhar de telefone.

que ela parece performática, intrinsecamente performática. Então, eu acho que isso é certamente um sintoma de que a gente já enxerga o mundo pelas lentes de um smartphone antes mesmo de enxergar pelas lentes dos nossos próprios olhos.

E eu acho que tudo suscita a partir daí. E eu não entraria muito numa discussão mais aprofundada, assim, sobre o que é ser performático ou não. Eu acho que tudo isso é consequência e sintoma da nossa relação doentia com o telefone celular. E também do estágio crônico disso. Já fazer seis, sete anos que a gente tá viciado no telefone.

Quanto mais tempo passa, mais acho que a gente degenera. E mais a gente começa a ler rituais, inclusive de reação ao telefone, como performáticos. Mas é claro que num mundo onde também a gente opera acima de tudo a partir da nossa performance, a gente vai ter uma visão daquilo que é performado mais do que real. E se incomodar quando aquilo ali parece fora de tom ou despropositado.

Mas eu acho que eu ficaria nesses pilares. O aspecto de que o nosso olhar já é um olhar de smartphone, não um olhar nosso. De uma distância descorporificada. E o aspecto de que essa é uma estética, no quesito homem performático, uma estética desviante da norma, mas ao mesmo tempo amplamente popular, de uma masculinidade sensível e moderna, que ao mesmo tempo é muito algoritimizada nos seus valores.

Agora, pra mim, o homem performático que bebe machá no Brasil é dose, assim. Deve existir, porra, cem pessoas que fazem isso no Brasil. Assim, é um negócio bizarro. Eu sei que São Paulo é mais centro urbano, tem mais disso, assim, mas, cara... Gente, pelo amor de Deus, vamos criar... O esquerdomástico também achava uma coisa meio ridícula, porque ele surgia pra denunciar uma contradição entre discurso e aparência.

e ação de um homem no campo progressista enquanto indivíduo. Ele se torna um vídeo de um cara que aparece de cueca, todo forte, e fala assim, ah, eu sou um esquerdomacho, coloca uma saia, um batom, não sei o quê, mas que antes ele se mostrou todo forte, né? Ele usa o ridículo como um pretexto pra exibir o próprio corpo, pra performar uma coisa que não existe, sabe? E aí a gente fica nessas disputas infinitas e nessas conversas... Sei lá, entendeu? Eu acho que elas ocupam um espaço mental.

quando a gente está se pensando como performático e quando a gente está preocupado com isso e quando a gente está pensando se isso é legal ou não e se isso é performático demais ou não e se as pessoas vão entender ou não. Acho que a gente está muito preocupado em como a gente está sendo visto. Acho que a gente está muito preocupado em...

em como a gente vai ser olhado no mundo na rua. E eu tenho certeza de que é mais interessante você estar sendo olhado sem o telefone na mão do que com o telefone na mão. Eu acho que quando você está com o telefone na mão, cada vez mais você não existe, você não está lá e você é lido como alguém que não existe e não está lá. Eu acho que todos nós a gente desaparece em alguns momentos do dia no telefone. Alguns por necessidade, outros por vício, mas é difícil entender a diferença entre as duas coisas. No final, tudo acaba indo para isso. Mas essa foi a discussão de hoje.

Eu, como um homem performático por muitas pessoas, gostaria de agradecer a atenção de vocês.

E, enfim, a minha jornada na internet é uma jornada que eu gosto muito, inclusive de ter diluído certos aspectos que eu considero performáticos, por assim dizer, nunca me incomode com isso, mas eu acho que eu filtrei muito da minha imagem digital nos últimos anos e acho que isso teve muito a ver com também tornar sacras certas coisas que eu não quero tornar imagens e representações.

Tem muita coisa que acontece na minha vida que vocês não fazem ideia. Eu não mostro quase nunca os lugares onde eu tô, eu não mostro os lugares onde eu como, eu não mostro as comidas que eu faço, eu não mostro como eu me exercito, eu não mostro necessariamente o que eu tô lendo. Tem muitos livros que eu tô lendo e eu não compartilho, porque são leituras que são minhas. Eu não mostro quase nada de viagens que eu posso fazer. Eu mostro pouquíssimo dos meus amigos, pouquíssimo da minha família.

E eu acho que... Eu não falo isso no sentido de me preservar, dar inveja. A galera entra sempre com esse discurso, né? Eu não ia ir pra esse lugar, não. Só que pra mim, eu não quero tornar a imagem em certas coisas que eu aprendi nos últimos dois anos em especial, a viver, experienciar e memorializar. Eu adoro lembrar de uma coisa e não ter registro dela. E não tá preocupado com o registro o tempo todo.

Olha isso aqui, pega o telefone. Olha isso aqui, pega o telefone. Aí um fim de semana da pessoa tem 20 fotos que ela acha dignas de compartilhar. Às vezes vai ter, tô tentando. Mas sei lá, vamos tornar menos sacra. Quer dizer, vamos parar de dessacralizar a nossa vida, transformando ela em imagem o tempo todo. Sumir um pouquinho é bom também.

Muito obrigado, galera. Lembrando mais uma vez, quem quiser ser membro do Cyber Café, acessa aqui no YouTube, só ajuda o Lan House, que é autofinanciado, a se manter de pé e também me aproxima da minha audiência. A gente tá criando uma comunidade muito legal, a gente tá escrevendo um roteiro junto, como foi o caso desse roteiro, por exemplo. E é isso. Mais algum recado que eu tenho que dar? Não. Então a minha indicação vai ser Gui Debora, Sociedade do Espetáculo, a minha indicação de livro, e a minha indicação sobre performance, jogo de cena do Eduardo Coutinho.

Preciso dizer mais nada, assim, é um dos meus documentários favoritos e é pra mim um dos melhores documentários da história. Muito obrigado, um grande abraço. Ah, último recado. Primeiro Lanrazo ao vivo vai acontecer no próximo fim de semana, sem ser esse.

no festival... Ao vivo não, desculpa. Gravado ao vivo, né? Mas vai entrar gravado depois. No próximo fim de semana, no festival Faísca, que é um festival de livros estranhos, zines, intervenções gráficas e de pensar as coisas com uma outra materialidade, uma outra temporalidade. Vai ser muito foda. Quem for de Belo Horizonte estaria em Belo Horizonte nesse fim de semana. Vamos sair, vamos curtir, vamos se divertir. Enfim, vai ser massa, vai ser iradíssimo.

Tô super empolgado. Vai ser um debate super legal que eu vou participar. O programa vai ser gravado lá. Vai ter as TVs, inclusive. Então, tô muito animado. E é isso, galera. Até a próxima semana, onde estarei falando de necromancia digital, inteligência artificial e direito à morte, com o meu orientador, Fernando Salles. Beijo grande.

Amém.

Amém.

E aí

Amém.

E aí

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