Episódios de lan house

quem tem direito ao offline?

01 de maio de 202654min
0:00 / 54:42

instagram e tiktok, vídeos curtos: @sodremat

textos em sodremat.substack.com

--

estamos todos exaustos do tempo excessivo de tela e da vida achatada e afunilada por algoritmos e scrolls infinitos. 

desta fadiga, surge o sonho da desconexão. o desejo de não apenas sentir-se presente, mas de ser percebido e visto como algúem presente. interessado, interessante.

a quem pertence o offline? 

quem tem o direito de ostentar desconexão?

vamos inverter a lógica: em vez de responder à falta de materialidade a partir do consumo, de associar nossa imagem a signos de presença no mundo real, que tal usarmos deste desejo para, a partir de nós mesmos, criar novos rituais de interação e contexto com a vida ao nosso redor?

muito obrigado a todos os membros do cybercafé e a todo mundo que tem apoiado o lan house. toda semana eu me revigoro fazendo isso aqui. 

se quiser fazer parte do nosso clube, pra além do acesso a vídeos antecipados e lives semanais exclusivas, temos também um grupo no zap em que debatemos temas de interesse diariamente, trocamos indicações e fazemos amigos. 

se vc já é membro, enviar um email pra assessoria.sodremat@gmail.com :) 

o TAPETE MARAVILHOSO na parede é dos meus amigos queridos e vizinhos de sala da @voadortecelagem

identidade visual: carolina munhoz

instalação das tvs: guilherme durão, do @sup_lab

animação do logo para tv: tauan abreu

trilha sonora: matheus castro alves e henrique luciani

Participantes neste episódio1
M

Matheus

HostJornalista
Assuntos6
  • Offline e online na contemporaneidadeOffline como privilégio e performance de consumo · Offline como ritual e experiência sensorial · A demanda de mercado pelo offline · A crítica à nostalgia como turismo do passado · A criação de repertório pessoal para fugir do algoritmo
  • Experiências analógicasA produção de mixtapes e CDs gravados · O fetiche de mercadoria e o colecionismo · A gambiarra brasileira e o uso próprio da tecnologia · O perigo da nostalgia e o consumo de passado · Cyberdecks e computadores não conectados
  • Fama e Exposicao PublicaO desaparecimento dos terceiros espaços · A lógica escrolada e a falta de contexto · A influência do TikTok na cultura e no consumo · Guy Debord e a sociedade do espetáculo
  • Tecnologia e telas na infânciaA experiência de montar computadores e baixar programas · O videogame como cassino cognitivo · A descoberta musical e o uso de iPods
  • Fricção e acesso à culturaFriction Maxing como performance virtual · A criação de fricção na vida · Acesso a mídias físicas e colecionismo
  • Cowboy Bebop e AquárioCowboy Bebop como space opera distópica · Aquário de Sandy Jr. e sua direção de arte
Transcrição127 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Lan House, um podcast de papos analógicos sobre o mundo digital. Hoje eu estou muito animado porque eu tenho muita coisa diferente para falar com vocês e o tema central desse episódio é o offline. O offline enquanto tendência, o porquê estamos indo para essa ideia de offline, mas acima de tudo, e a discussão que eu quero invocar é...

A quem pertence o offline? Quem tem direito ao offline? Ao que a gente conversa de desconexão, de sair das redes, de sair do telefone, que é um discurso que eu tenho muito, né? Quem tem o direito a isso? O offline é um privilégio? E eu quero tentar tatear esse tema de uma forma propositiva, porque eu realmente acredito que ele pode não ser. E aí eu quero separar o offline da ideia do offline enquanto um objeto de consumo, uma coisa que você consome, representa, se demonstra, performa.

E muito mais o estar fora das redes como uma coisa propositiva que pode vir de você e que não depende de você consumir os produtos que se apontam nessa direção. Então, eu vou começar com uma historinha, como eu tenho gostado de começar. Hoje, o caderninho anotado desse caderno vermelho é lindo, inclusive. Olha, que combina com a cadeira. Olha só. E com o tamagosho ali do tapete da voadora tesselagem. Esse caderninho vai me guiar.

E eu queria começar falando de dois causas diferentes, mas antes de tudo lembrar vocês, inclusive esse episódio foi escrito conjuntamente numa live com a galera do Cyber Café. Cyber Café é o espaço de membros do Lone House, a partir do YouTube mesmo você consegue entrar e acessar.

Entrando aqui, se você já é membro, nesse e-mail que eu estou colocando aqui, você consegue mandar o seu telefone, o seu arroba, e eu coloco você dentro do nosso canal do Zap, porque a gente também tem um canal no Zap para debater, a gente passa o dia inteiro conversando e a gente está formando uma comunidade muito legal. Esse episódio, inclusive, ele tem trocas muito ricas que vem...

do pessoal do Cyber Café, da escuta, da troca, do que a gente já vinha elaborando, da live que a gente fez e do que eu escrevi a partir daí. Então é um roteiro muito colaborativo nesse sentido, a gente vai ver cada vez mais isso e quanto mais vocês participarem, mais feliz eu vou ficar. O Longhouse é um programa autofinanciado, eu coloco uma grana para fazer essa operação rodá-la, sou eu sozinho, a câmera, enfim, tudo que está operando aqui sou eu sozinho, eu que subo o vídeo, eu que edito, coloco as coisas, mas claro, tem muita gente incrível, amigos meus, que chegaram juntos nesse processo.

pra fazer esse cenário aqui, o Guilherme Durão, pra fazer esse tapete da Valdor Tesselagem, enfim, a gente tá tendo um móvel agora que vai ser construído, que eu vou mostrar pra vocês, de sentar maravilhoso também, de uma turma muito incrível. Então, tem muita colaboração demais, a identidade que é da Carol.

Munhoz, minha grande amiga, identidade visual que vocês tanto amam e que eu amo demais, a trilha que é do Henrique e do Matheus, tudo é no Lan House e essa construção coletiva. Então, sem mais de longa, se quiser, se juntar ao Cyber Café, vamos começar. Eu queria começar com uma história pessoal de uma coisa que aconteceu comigo recentemente, que foi, eu fiz um ano de namoro, olha que legal. A gente não tem uma data exata, eu e a Bela, mas eu queria dar algum presentinho pra ela.

E eu não tava muito numa ideia de, ah, vou dar um presente offline ou nada do tipo, mas quando a gente viaja de carro, quando a gente anda de carro junto, a gente tem poucas músicas em comum, e a gente tem uma dificuldade de conectar no rádio do carro dela o telefone, é sempre uma coisa meio caótica, aí ficar acordando na música e vendo Waze, mexendo na coisa, e a gente tá galera, a gente não cala a boca. Então, tudo fica muito confuso. E eu pensei, cara, se a gente tiver um CD que a gente sempre coloca pra tocar.

E aí eu fui atrás de duas coisas que a gente gosta muito em comum. Charlie Brown Jr. E aí eu dei o Acústico MTV pra ela, que é um baita álbum. E o álbum do Arctic Monkeys, o Whatever People Say I Am, That's What I'm Not. Que é o álbum de 2006 a 2007 e é o álbum de estreia deles. Que é um álbum zasse, maravilhoso, a gente adora escutar no carro junto. Eu dei esses dois CDs, que são produtos comprados, que hoje inclusive estão caros.

E eu dei também um CD que eu fiz. Eu comprei um gravador externo, que é muito fácil de comprar hoje de CD. Comprei CDs virgens e fiz uma coisa que eu não fazia há muito tempo. Cheguei a fazer na vida adulta algumas vezes pontuais, mas não como um processo que eu quero passar a fazer cada vez mais, que é ficar gravando disco.

gravar uma mixtape. E aí eu escolhi, eu fiz uma capa, colocando uma foto nossa, pra montagem, como se fosse um álbum do Furacão 2000, chamado Hit Desconexos, os poucos sucessos compartilhados entre Matheus e Bela. E aí tem lá no fundo, na contracapa, as músicas que eu coloquei, o CD que eu queimei tá ali dentro, escrito o primeiro de muitos, e tem a capa bonitinha, eu montei o CD pra gente. E ela ficou super feliz, eu também, enfim, a gente...

Amor é presente, a gente vai viajar agora, inclusive a gente vai ter acabado de viajar quando vocês verem esse programa, que a gente vai viajar essa madrugada de quinta pra sexta. Isso me deixou pensando sobre algumas coisas, como eu já penso, né? Sobre processos analógicos, sobre o virtual, sobre o físico. E aí, logo antes de gravar esse programa, eu me deparei com o novo Clube do Livro da Miu Miu.

A Miu Miu é uma grande marca de high fashion, para quem não sabe, uma marca muito influente no mundo da moda, e muito influente no universo do conteúdo, por assim dizer. Uma marca muito introjetada dentro da lógica do algoritmo. E é uma marca incrível em muitos aspectos. Eu amo as roupas da Miu Miu. E eles abriram...

um espaço de leitura, um clube do livro, que as pessoas frequentam, leem, sentam e param, como se fosse um terceiro espaço, que é uma ideia que existe muito nos Estados Unidos, também existe em algum lugar no Brasil, mas a nossa dinâmica social é outra, do desaparecimento dos terceiros espaços, seja a praça que você senta, seja o café que você passa à tarde ali, é um lugar que você fica, não só que você consome e tem que sair, então a cidade se torna um grande espaço privado ao qual você não tem acesso, e você tem a sua casa e o trabalho, mas você não tem um terceiro espaço.

um terceiro lugar, uma quadra de futebol, um lugar para prática de esporte, uma pracinha, o que quer que seja para conhecer gente, fazer amigos, enfim, a biblioteca pública, o que quer que seja. Lugares públicos para você estar presente e conviver. E essa convivência era tida como uma coisa muito necessária antigamente. A gente tem esse desaparecimento.

Então as marcas, de certa maneira, estão tentando agora capitanear essa volta dos terceiros espaços a partir do nome delas, porque isso performa muito bem nas redes sociais. E é mais ou menos dentro dessas duas histórias que eu quero falar. Tanto a compra de um CD que está superfaturado hoje em dia, quanto a produção de um CD próprio, quanto os terceiros espaços e essa ideia, especialmente do livro.

como feitiche de consumo, porque ele representa a intelectualidade, ele representa a atenção, presença e tal offline. E como esses aspectos são interessantes, mas a gente está numa fase onde sentir falta disso, já está se tornando uma demanda de mercado. E uma demanda essa de um mercado de luxo. A Miu Miu é uma marca de luxo. E ter um clube do livro é um posicionamento de luxo. O capital intelectual tornou-se um posicionamento de luxo. Então eu quero articular essas coisas. Então vamos lá. Primeira coisa de todas.

Por que a gente está nesse movimento offline? Eu vou ser bem breve aqui porque acho que todos nós sentimos essa vontade, especialmente os espectadores do Lan House. A gente vive um mundo, eu sempre falo, então vou ser bem resumido aqui, mas a gente vive um mundo hiperestimulante e descorporificado. A gente está nove horas por dia no telefone e a gente experiencia música, cinema, cultura, tecnologia, novidades, notícias, influenciadores e amigos todos pela telinha do telefone numa mesma interface.

Isso é muito cansativo, porque isso tira da gente uma série de experiências. Experiências que vão desde um fetiche de consumo a experiências que vão sobre como você está experienciando aquilo numa dimensão real para além da lógica de consumo. É claro que a gente está no mundo capitalista, não dá para escapar disso. Mas enfim, então por exemplo...

Você colocar um CD para escutar, você ler o encarte, você colocar um CD para tocar no carro, você ter CDs na sua casa, você ter as mídias físicas daquilo que você gosta, você ir à locadora e escolher um filme, você ir numa livraria ou numa biblioteca e pegar um livro para ler, você consumir o noticiário, o jornal, você ler uma flyer, uma zine, todas essas coisas, elas já antes existiam de uma maneira separada.

de um fluxo unificado como era do algoritmo. Eu vou expandir isso daqui a pouco. E elas tinham não só uma cara própria, mas elas tinham uma relação sensorial com aquilo. A gente engajava com aquelas coisas diretamente. Você colocava uma música para tocar, você pegava o CD que continha a música, colocava no player da música, e ela estava tocando até que você parasse. Aquela música.

Não é só o fetiche do ritual ou da experiência especial ou de soar legal pela novidade. Existe um aspecto ritualístico, claro, mas um aspecto muito profundo em você engajar com intenção no consumo de alguma coisa cultural, no consumo de uma mídia. E esse engajamento com intenção é uma lógica sensorial de você ter o CD, de você colocar o CD, de você escutar com seus ouvidos atento naquele lugar que você colocou para tocar. Vai estar tocando num rádio.

CD player, você vai estar perto do CD player. Então você condiciona o espaço, a sua escuta, a sua presença, o seu olhar aquilo. Não é uma coisa que está tocando no fundo, porque você gritou para a Alexia colocar e vai parar, enfim. Então existe uma relação de consumo de cultura que a gente sente falta, porque todo mundo agora está colocado dentro dessa telinha. A vida inteira, tudo aqui está colocado dentro dessa pequena telinha.

Isso é claro, é sufocante de alguma maneira, como a gente sempre fala aqui no Morehouse.

E também, toda essa relação que eu citei cultural, ela tem contexto. Ela está inserida num contexto. E essa música circulou num contexto, que foi a TV, o rádio, alguém que te indicou, e você consumiu, e você tem, e você pesquisou, e você conversou sobre, assim como o filme, assim como... Então existe uma relação contextualizada com o consumo de cultura e informação.

Hoje, eu antes falava que a gente tinha uma epidemia de descontextualização, mas eu acho que, na verdade, o contexto é a falta de contexto. Então, hoje a gente consome tudo na lógica escrolada, que eu sempre falo, e essa lógica, ela não tem início nem meio nem fim.

E pra além de tudo, ela não é controlada pela gente. Então, você vê alguém que você adora o conteúdo, você amou, você segue. No dia seguinte, você não lembra dessa pessoa, essa pessoa não aparece mais no seu feed, e você nunca mais teve contato com uma produção cultural, uma produção de informação que em algum momento te interessaria. Poderia virar um livro que você comparia, que poderia virar um programa de TV que você passa a assistir.

Então, a gente tem uma relação mais passiva e mais sem agência sobre até as coisas que a gente gosta.

Tanto é que a gente tem uma mudança na viralidade hoje em dia. Hoje o algoritmo serve para impactar, chocar e causar uma coisa rápida, mas ele não constrói audiência, ele não constrói comunidade. E a gente sente falta de todas essas coisas.

Então, se a gente está nesse momento de querer voltar aos nossos sentidos, a ter presença, a ter intenção, a ter experiências genuínas, reais e concretas, a gente quer voltar para o offline. E as marcas e o universo estão pegando isso. E muitas marcas têm trazido discursos muito interessantes. Discursos críticos ao algoritmo, discursos em prol da vida real e uma série de outras coisas.

E aí é interessante a gente pegar esse momento de reflexão coletiva, em que todo o espírito do tempo está falando sobre isso, para dar um passo além a partir da gente. Porque é muito limitado a gente só adotar discursos relacionados ao offline como objetos de consumo. Eu vou explicar isso. Mas a minha questão central é, se a gente vai falar de offline, quem tem direito ao offline? Ou melhor...

inverter isso, em vez de ser um discurso crítico aqui de quem tem direito offline, quem pode ficar offline, há um recorte de classe nisso, eu acredito que dá para falar de offline, de presença, de vida real, com um recorte muito diferente, justamente porque ele não atravessa necessariamente você colecionar vinil, e é disso que eu queria conversar, que é, como falar sobre offline e como...

Como falar sobre a offline a partir das pessoas? A partir dessa falta? A partir dessa vontade? Se a gente tem vontade de todas essas coisas, a gente está sentindo uma falta.

Beleza? Me mataria nisso aqui. Mas enfim, a gente está sentindo uma falta. E se a gente está sentindo essa falta, a gente ainda tem a agência de agir sem ser uma resposta direta no consumo. Então, eu quero inverter a ordem. Eu quero falar sobre como a partir da gente, da nossa vontade de tocar o mundo, a gente pode desenvolver um repertório, uma forma própria de ir para offline. E aí eu acho que o ir para offline, ele não é necessariamente ir para offline. Ele é sair da lógica algorítmica.

O offline como tendência, o offline como coisa, ele já é um privilégio e uma performance de consumo. Não à toa a gente tem vídeos no YouTube, por exemplo, de pessoas que ficam, sei lá, filmando a vida offline delas e falando numa voz calma e mostrando elas vivendo a casa delas, se documentando fazendo isso. Elas produzem uma emaranhada de imagens de desconexão.

que uma pessoa depois de trabalhar o dia inteiro, às vezes, sei lá, na escala 6x1, vai colocar isso na casa dela pra arrumar a casa dela antes de ir pro trabalho de novo e experienciar uma ideia de offline. Isso não é uma crítica individual. Nem a pessoa que consome isso, nem a pessoa que produz esse conteúdo. É só que eu acho que isso não fica. Isso não gruda. Eu acho que isso não cria um repertório e uma musculatura pra gente acessar as coisas.

Então, eu vou começar esse debate sobre ser agente dessa materialidade, sobre ser agente da nossa própria desconexão e criar uma nova relação com tecnologia proprietária, fazendo uma coisa diferente, elaborando a diferença entre reflexão crítica e tendência de consumo, que já é o que eu estou fazendo aqui. Acho que já está bem estabelecido o que é o offline e a desconexão como um discurso de consumo.

e que vira um sintoma do espírito do tempo, e o que é o nosso poder próprio de fazer uma reflexão crítica sobre isso. A gente ainda vai comprar coisas que remetem ao offline, a gente ainda vai comprar designs que são nostálgicos, a gente ainda vai comprar e consumir e produzir imagens relacionadas ao offline. Olhem ao meu redor.

Mas eu acho que a reflexão crítica acerca disso e como a gente se utiliza dessas coisas pode ser um processo muito interessante de emancipação da tela, de encontrar a sua própria identidade no mundo e produzir uma subjetividade diferente. Então, partindo da nossa relação, vamos lá. Eu queria falar um pouco da minha experiência de adolescente, porque eu acho que ela encapsula muita coisa, inclusive o porquê que eu acho que a nostalgia é uma coisa perigosa e como eu acho que essa experiência serve de repertório para mim de um outro jeito.

Quando eu era adolescente, uma das coisas mais emancipadoras da minha vida era justamente...

A gente montar computador, saber baixar programa, saber encontrar programas na internet que a gente teria que pagar, encontrar todo tipo de filme, todo tipo de site, saber baixar um torrent, que já tem um senso de comunidade, porque baixar um torrent, inclusive baixar música, tipo no LimeWire e essas coisas, é uma forma de torrent. É um negócio chamado P2P, peer-to-peer. É meio que pessoa para pessoa. Alguém está com o arquivo dessa música emprestado na internet e uma outra pessoa...

se conecta, e baixo daquela pessoa e de várias pessoas ao mesmo tempo, os materiais daquele arquivo. Isso é fascinante, porque isso cria uma rede descentralizada de divulgação de mídia. E essa rede descentralizada é maravilhosa, porque ela permite a gente uma capacidade de acesso à cultura bizarro. Eu jamais seria quem eu sou hoje, nos meus interesses, entusiasmos e visão de mundo.

Se eu não tivesse sido um adolescente que baixava todo tipo de música, de filme, de programa, mexia no computador, trocava peça, mexia em coisa, gravava CD para jogar no videogame, essa dimensão de fazer as coisas, de fazer o seu próprio tempo, de engajar com o digital a partir de si, sempre foi muito valiosa. E aí eu acho que, inclusive, essa coisa que é interessante, já para a gente criar uma primeira distinção do offline.

Quando a gente está falando de gravar um CD, por exemplo, de gravar um CD pirata, quando a gente está falando, sei lá, de quando tinha o auge do PlayStation 2 no Brasil e no Rio de Janeiro, por exemplo, você ia na Uruguaiana, e lá você tinha camelôs vendendo todo tipo de jogo pirata, e você saía com cinco jogos, com dez jogos na promoção. Você era dono da mídia física desses jogos, você engajava com esses jogos diretamente, mas eles ainda são uma experiência digital de tela.

mas eles podiam ser uma experiência compartilhada e coletiva. E eles são um exercício de presença, porque é uma tela onde você está, apesar de tudo, conectado ali a uma fonte de informação e você está num processo de mídia interativa, como a gente viu no penúltimo episódio, dialogando com a mídia que está naquela tela.

Isso não necessariamente passa pelo fetiche, pelo feitiço de consumo. Existe essa elaboração de que fetiche de mercadoria vem de feitiço da mercadoria. E eu gosto de feitiço porque feitiço mostra o poder que algo exerce sobre você. Então, você comprar um jogo original e você ter a coleção dos jogos, existe uma lógica fetichista nisso em algum lugar. E eu não estou negando que essa lógica é fetichista, eu coleciono várias coisas por conta própria que eu gosto.

Acho que nós, indivíduos, vamos ter as nossas contradições. Mas é só para mostrar que o offline, então, ele não é fazer uma coleção de vinis originais. Não é comprar CDs, empilhar CDs. Eu, por exemplo, dei de presente para a namorada dois CDs originais, mas eu gravei um disco. Então essa contradição está sempre ali.

Então vamos deslocar a ideia do offline já para uma ideia de uma coisa analógica, entre aspas, mas eu acho que de um novo digital, de um digital autocentrado, de um digital onde a gente usa as tecnologias por ponta própria e a gente se emancipa a partir do nosso uso próprio dessas tecnologias e do que a gente pode criar com elas.

é a famosa gambiarra brasileira, ou gambiologia, que é um termo e uma discussão muito forte no Brasil, inclusive vale muito a pena vocês escutarem esse termo, que também vai para um lugar que eu vou falar mais tarde, que é Selva de Punk, que o Mark Fisher discorre sobre, mas que é um outro cara, é ador de alguma coisa, eu acho, que fala, e que foi acho que o Vinícius, membro do Cyber Café, que me mandou uns textos sobre isso ontem.

Eu achei interessantíssimo. Então já vamos começar com essa distinção. A relação com o físico, a relação com o analógico, não depende do feitiço, do fetiche de consumo. Não depende de você gastar dinheiro empilhando produtos originais para sua casa parecer uma casa dos anos 2000. Na verdade, o offline não pode ser colecionismo. Quer dizer, pode ser. Mas esse offline que a gente está falando, essa subversão do termo que eu estou tentando trazer, que aí não seria offline, seria outra coisa, ela não é colecionismo nostálgico.

E aí eu acho que entra o perigo da nostalgia e o que eu tento fazer diferente do Lan House. O Lan House tem um cenário que é nostálgico, ele tem uma imagem que é nostálgica, mas ele é muito... Ele discute e ele traz o passado, eu tento pelo menos fazer isso, como discurso de possibilidades do presente.

A nostalgia, muitas vezes, em forma de consumo, ela é um turismo do passado. Você vai ao passado, você extrai imagens do passado que agora estão associadas à sua própria imagem. Então você compra um Discman e anda com um Discman na rua. Você tem uma TV de tubo de decoração. Você...

usa umas roupas de uma outra tendência de passado. A gente consome nostalgia pelo nosso saudosismo, pela nossa saudade do tempo, porque o tempo tinha uma questão diferente quando a gente era criança. Criança almejava uma coisa, quando a gente virou adulto era outra, então a gente está para sempre perdido no que a gente almejou enquanto criança. A gente não realiza isso, vira essa coisa potencial que a gente tenta pegar para a gente já adulto e para a nossa identidade.

Mas acho que dentro dessas coisas todas existe essa lógica do turismo do passado.

de você voltar ao passado para clicá-lo e voltá-lo como uma coisa que você trouxe e comprou para você, que é justamente um discurso crítico crescente sobre a lógica do próprio turismo. O que é o turismo? Você capturar a imagem de uma coisa e associá-la a sua própria representação digital de si? Mas esse é outro episódio. Inclusive eu vou falar sobre performance e ser performático de um jeito bem legal nas próximas semanas, num roteiro também da galera do Cyber Café.

Se quiser virar membro para continuar participando dos debates, elaborando os roteiros e trocando com a gente, vambora!

Quando eu falo de turismo do passado, acho que um exemplo muito bom, que não é nem uma coisa do passado, mas acho que remete a isso, é o Labubu. A gente tem que tomar muito cuidado para a ideia de nostalgia, de se conectar ao passado, ou se conectar à nossa criança interior, o que quer que a gente chame disso, de não fazer com que isso seja um Labubu que colore a vida pelo tempo de validade do scroll infinito. E aí quando essa vitrine, a esteira da vitrine, ela rola...

aquilo perde significado. Porque o Labubu é muito isso, ele é uma associação imagética que a gente tem. Então, eu tenho minha bolsa Labubu. Eu ando com a minha bolsa Labubu na rua, mas eu também me clico no meu... inspiração, na minha roupa do dia, no meu look do dia, eu mostro pras pessoas, eu performo aquilo no sentido de que eu...

associa aquilo à minha representação, à minha imagem. E aí você compra um labubu porque é muito legal associar o labubu à sua imagem virtual de quem tem um labubu. É muito legal a sua imagem virtual você associar a esses objetos do passado, você colar esses objetos como acessórios, como tenduricalhos do passado mesmo. A nostalgia não pode ser assessorizada. Na verdade, eu acho que a nostalgia tem que ser uma outra coisa.

que é mais complexa do que isso, que é justamente uma lógica de resgate. Então, se a gente está no discurso da Bubu, a gente está preenchendo a nossa falta da materialidade, do passado, do saudosismo, com a imagem de nós que a gente alimenta a partir desse produto. E a gente passa a viver para alimentar essa imagem, viver para alimentar a representação e não para viver.

E essa é uma lógica de autorrepresentação que o Guy Debord fala muito na Sociedade do Espetáculo, que é um livro que eu acabei de terminar de ler, que eu vou apresentar ao seminário na segunda-feira pro meu mestrado. Foi muito massa ler ele adulto, porque eu só tinha lido na faculdade, e a relação é outra, que é um livro denso, de teoria crítica.

Só que a nossa imagem digital é a imagem da velocidade do TikTok, entendeu? Esse é o dilema do offline enquanto feitiço de consumo. É que a gente acaba indo para uma relação onde você compra um objeto do passado para associar ele a uma imagem digital e quando a tendência passa, o que é que fica? Quando a tendência vai embora, o que é que sobra?

Você ainda vai segurar esse penduricalho? Quantas pessoas ainda tem um labubu na bolsa? Isso não é uma crítica individual que comprou um labubu, é quem compra elementos de nostalgia. Eu sou cheio de elementos de nostalgia na minha vida. Mas acho que o ganho desse senso crítico faz a gente entender por que a gente está jogando com os significados ao nosso redor. Isso aumenta muito o nosso repertório de vida, o porquê das coisas e a nossa produção de sentido.

Então, a nostalgia não pode ser turismo e a criação de associação com a imagem do passado.

A nostalgia tem que ser resgate. Ela tem que ser voltar ao passado para discutir e pensar mundos possíveis. Esse cenário do Lan House e toda essa vibe digital, analógica, pensativa, de papos analógicos sobre o mundo digital, tem muito no seu cerne, na sua ideia filosófica.

prevencioso falar isso, na sua premissa, nas próprias vontades, na ideia filosófica que é suada, de retornar à subjetividade de um outro mundo. E a partir do entendimento da subjetividade de outro mundo, das tecnologias que ali imperavam, dos sonhos que a gente tinha, da forma que a gente lidava com as coisas, com a tecnologia, com as relações sociais, com a estética, com a visão de mundo, com o otimismo, olhar e pensar, outros mundos são possíveis? Se a gente voltasse a esse repertório...

Então, em vez de a gente reencenar o passado, a gente extrai do passado coisas que a gente pode traduzir para o presente. E eu acho que esse é o papel que a gente tem que ter quando disputa a nostalgia, mas quando retorna ao passado por agência própria para pensar mundos possíveis. E quando eu estou falando da gente sair da gente, sair de nós mesmos, essa vontade de ter uma relação material com o mundo, eu estou falando de um mundo que foi perdido, eu estou falando...

Perdão. Desse repertório. Que horror, eu arrotei ao vivo. Ao vivo não, né? Mas enfim, eu não vou cortar isso. Então desculpem, gente.

Mas a gente está falando de uma coisa que sai da gente, de um repertório de mundo que a gente constrói, do contexto. Lembra que eu falei da relação de contexto e linguagem no episódio do mau gosto algorítmico? A gente está aumentando o nosso contexto e as coisas que a gente pode acessar para, então, construir uma visão de mundo diferente. E não fazendo o exercício contrário, que é retornar à rede social com peduricários do passado.

Agora, engajando a nossa imagem virtual a partir disso. É claro que o passado tem um apelo.

Afinal de contas, a vida hoje tem uma estética estéreo, né? Tudo que tinha um lugar, lembra que eu falei da Zin, da revista, do jornal, que a gente consumia num lugar, num ritual, num espaço, numa temporalidade específica, numa atenção específica da novela ao noticiário, à revista, ao jornal de manhã, enfim, ao programa de TV, a olhar na internet, sentar na internet como um lugar, ler um fórum, ler um livro, toda essa dinâmica, ela tem o seu espaço, o seu lugar e o seu contexto.

Agora tudo está inserido no mesmo contexto e regido sob uma mesma regra, que é a disputa pela atenção, a economia da atenção. Então, você passa a ter...

como eu sempre falo, todas essas coisas misturadas com a sua imagem das fotos de família, o meme, o influencer, o futebol, samba, música, cultura extrema-direita, masculinismo, a fé, tudo isso é regido na mesma lógica. Todo esse universo está achatado para uma dinâmica, chamar atenção.

E aí você começa a ver esses desdobramentos disso no mundo real. Por isso que todo lugar turístico que você vai, tem um café que parece um café em outro lugar, tem uma lojinha que parece uma lojinha em outro lugar. A gente está criando uma estética globalizada, que não é uma estética que vem de ideia de globalização, mas é uma estética que é achatada, porque está nas mesmas regras de consumo, na mesma regra estética daquilo que chama atenção no TikTok, por exemplo. O TikTok alterou profundamente os restaurantes, o turismo.

E acentuou muita discussão sobre essas coisas. Então é claro que quando a gente vê uma coisa... Por exemplo, isso aqui, ó. Eu sempre falo disso. Já falei de 100 episódios. Eu adoro tic tac de laranja. Olha como é bonito esse objeto do tic tac de laranja. Não é uma publi não, tá, gente? Adoraria que fosse. Tic tac de laranja, ele evoca uma nostalgia, né? Eu gosto de ter um objeto coloridinho no bolso que eu boto alguma coisa na boca.

Ainda mais agora que eu tô tentando fumar menos e tô sendo muito bem sucedido. Não fumem. E fumar menos tabaco.

Mas a gente já fumou muito cigarro, já melhorou. Então, é... É claro que a gente tem esse apelo, tipo, o meu controle do Nintendo 64, né, que eu já mostrei aqui, por exemplo, que tá aqui, ó, você consegue até ver aqui na câmera, tá vendo? Ele é um controle translúcido.

roxo, que eu tenho desde criança. Esses objetos suscitam uma coisa proprietária e suscitam contexto. Quando você olha para esse controle, você não entende por que o controle hoje é tão neutro. Mas você entende que, na verdade, o videogame tinha um espaço muito específico de videogame, de estética, de design, de comunicação, de público. Ele tinha um ecossistema próprio. Ele não estava achatado numa mesma lógica de consumo esterilizado.

E aí ele podia ser lúdico, porque as pessoas compravam aquela proposta toda, se atentavam a isso, olhavam essas coisas, esses repertórios. Então é claro que isso apela pra gente, até pra um saudosismo, até pela vontade de ter um design propositivo de um outro mundo. Então ele tem esse valor.

E aí a gente entra nesse dilema, claro, que é como é que a gente não absorve isso como fetiche, somente como fetiche, né? Como é que a gente cria uma experiência genuína de engajar com essas tecnologias do passado pra pensar as do futuro? E não, sei lá, por exemplo, esse negócio de AI. Eu pirei nisso aqui, ó, que vocês conseguem ver. Porque ele é, ó, transparente, tá vendo? Que nem uma coisa antiga. Eu falei, nossa, uau, ele, por exemplo, ele é mais pesado.

Tudo bem que ele conecta o wireless melhor do que o meu outro, mas ele é mais pesado, ele é mais chato de usar e eu prefiro usar ele e eu prefiro usar ele.

porque ele tá transparente, a tecnologia dele. Sabe? Entende? Tem um apelo pra gente que sempre vai vir. Então esse vídeo não é também uma dimensão de um letramento de, cara, cuidado, não engaja com o passado. É engaja com o passado e também com o fetiche, porque ninguém é imune a isso, de maneira consciente. Voltando pro offline ser feito a partir de si próprio, eu acho que...

Essa dimensão da gente ganhar esse repertório é, na verdade, criar outras vias de acesso ao passado que não sejam as do consumo.

Então isso envolve aprender a gravar CDs, isso envolve aprender a ter acesso a filmes que não estão disponíveis em lugar nenhum e conservá-los num HD na sua casa e ter um servidor disso que você consegue assistir, que é uma mídia digital e você está engajando ainda assim. Isso envolve você colecionar livros e cebos.

Isso envolve você ir num sebo de livros velhos e comprar alguma coisa que te interessa só porque ela tá ali. Claro que isso passa pelo consumo também, mas isso envolve você gravar um CD de música. E você ter um player que você consegue, baratinho numa tecnologia antiga que não tá disputando ali nos anúncios ou como um produto novo, e utilizar daquilo. Você consegue pegar uma coisa velha que você tem em casa e ressignificar ela.

Então existem maneiras baratas de você engajar com um consumo diferente das coisas.

Até hoje, por exemplo, você tem o Soul Seek, que é um lugar onde você baixa em altíssima qualidade músicas de todo mundo. E aí você cataloga, você coleciona, você tem aquilo pra você. Não é uma coleção fetichizada que aparece associada a uma conta de rede social, que você posta nas redes. Não, é uma coisa que você tem pra si. E que, claro, é identitário. Tudo isso é produtor de identidade. Mas não acontece só pela lógica do consumo.

Você pode pegar um MP3 velho e colocar as músicas nele e ter uma dinâmica offline com aquilo, sei lá. Eu acho que essas coisas sempre passam por uma troca financeira, de você ter acesso a algum bem.

Mas não necessariamente um bem que tá surgindo como um produto de nostalgia. E nem um bem que tá surgindo no passado que não encaixa na sua vida. Tipo, sei lá, se você quiser comprar um Discman pra levar na rua, você pode comprar um Discman pra levar na rua. E pra algumas pessoas vai funcionar. Mas a verdade é que isso não é muito prático, né? Você ter vários CDs, você ter que ficar escutando o mesmo CD. O Discman tem problemas na hora de tocar.

Então você vai ter uma cultura disso, assim como você tem uma cultura de fitinha e desses objetos. Mas...

você não consegue ter uma... Isso não fica, necessariamente. Isso é estético, isso atribui significados a você, você é uma pessoa presente, conectada, nas relações que você tem com o mundo. Você se projeta enquanto imagem para o mundo, de certa maneira.

E pra algumas pessoas pode funcionar, pra outras não, que é seu pra jogar, mas eu não acho que isso cola agora. Você tem um MP3 baratíssimo, que você teve acesso, uma coisa antiga que tava parada de pilha, que você consegue colocar músicas e de repente você sai pra correr com ele e não olha o seu telefone, ou você escuta uma música de manhã, sabe?

São relações muito diferentes. Você compra algum leitor de PDF, você consegue ter acesso a vários PDFs, e você vai marcando e grifando. Você começa a ler livros e anotar nos livros, sabe? Essa lógica material é mais uma lógica do que você só comprar alguma coisa para assessorizar. É isso, é você gravar o CD para ir para o carro. Eu queria até dar um exemplo disso, dessa criação de repertório pessoal.

Por que isso? Acho que é contornar o discurso de consumo e criar outras vias de acesso à tecnologia. E essas vias de acesso, às vezes, passam por uma lógica transnacional. Algumas caras, outras não. Tipo, um vinil, um tocador de vinil da audiotécnica vai ser caro. Agora, um... Sei lá, um... um CD player e você gravar os seus próprios CDs e buscar ali no seu CIC a melhor qualidade pra gravar um CD? Não. Tem essa coisa.

Tem esse aspecto da materialidade, sabe? Que a gente não fica fazendo como um exercício de performance, de consumo, mas sim como uma coisa que vem da gente pra gente ter mais repertório até nas coisas que a gente gosta de fazer mesmo, na nossa casa, na nossa vida, no nosso dia a dia, com outras pessoas.

E aí você vai criando outras vias de acesso à cultura, onde você interage pela cultura sem ser só a música que tá tocando no fundo no streaming, o filme que você tá assistindo na frente do telefone, mas tem também isso é uma coisa extrema, sabe? Tipo, você voltar a colecionar DVD, por exemplo, é uma ótima, é uma coisa barata, você tem acesso a filmes que você adora, você passa a reassistir filmes com mais frequência, o DVD é barato, você tem acesso, sabe? E eu tô falando só no discurso de mídias, mas isso vai muito além.

isso vai na sua relação com o mundo, porque acho que isso vai tateando outras coisas. No consumo de arte, na forma de lidar com as coisas. E aí eu acho que esse repertório, essa esperteza para entender como se aproximar de mídia nas condições que ainda são possíveis, sem que sejam ir até a nossa imagem, alimentar a nossa própria imagem de consumo, mas fazer algo pela gente, independente do que seja, isso é muito legal. E isso, óbvio, pode também ser colecionismo.

Inclusive, um exercício muito frequente que eu faço é não postar os meus entusiasmos. Eu tenho várias coisas que vocês não fazem ideia que eu gosto, que eu converso com meus amigos, que eu coleciono, que eu guardo. Vocês não fazem ideia que eu guardo para mim, que eu tenho para mim. Porque elas são mais ricas quando eu não atrelo elas a uma imagem digital minha, que já é muito forte na internet, porque o meu trabalho é fazer elas ser fortes cada vez mais, cada vez mais, nessa lógica de crescimento terrível. Então é isso. Em conclusão...

Eu não acho que é ir para o offline, porque eu acho que não se vai para o offline. É a criação de um repertório pessoal para fugir do algoritmo. E é não cair nos contos do offline como um causador de ansiedade, entendeu? Essa ideia de você... De você...

se sentir mal porque você trabalha na escala 6x1, talvez, ou você tem uma rotina de trabalho muito cansativa, e aí você passa o dia inteiro no home office na frente do computador e quando acaba você está exausto porque você só olhou para a tela e você quer só ficar scrollando ali. Isso acontece, gente.

O problema quando o discurso de consumo começa a vender o offline de um jeito muito provocativo, ou coloca o offline como uma coisa de desejo, é que muitas vezes, em vez de você aprender como minimizar os seus sintomas de incômodo e as suas faltas de contato com o mundo material, você entra numa lógica de consumir aquilo. Você entra numa lógica de consumir um objeto que parece suprir essa falta. Para tentar ali, e aí quando a tendência passa, o objeto vai embora, como eu falei.

Por isso que eu acho que a discussão, na lógica do consumo, até na lógica das marcas, precisa ser mais rica. Ela precisa ser mais propositiva, senão as marcas não vão se assegurar. Eu não sei ainda o que eu acho, por exemplo, da Mil Mil e da livraria. Especialmente para a Mil Mil ser uma marca de luxo.

muito mais do que pela ideia de si, de bancar um clube do livro. Mas eu acho que o investimento em uma presença física em alguma coisa é uma afirmação muito interessante, ainda mais quando você entrega algumas coisas para as pessoas. Eu acho que uma marca não pode ser dona de uma comunidade.

mas eu acho que ela pode estar por perto, já que essa relação de coexistência precisa acontecer, de uma comunidade já existente, sem torná-la produto e sem tornar-se a publicidade dela.

mas é entregar também pesquisas, é estar atento a essa sensação, é estar atento a esse momento, é conseguir dialogar com essa lógica, com essa falta, de maneira, na sua comunicação, é entregar para as pessoas ideias, caminhos, sentidos, que não passem somente por uma associação de consumo, ou de objetos de consumo mais caros porque remetem ao passado. Eu tenho uma sobrinha que vai fazer oito anos e...

Eu acho que eu falei disso no último programa, no penúltimo dos videogames, que o videogame é um cassino cognitivo hoje em dia, uma explosão, ele é um imperestima ou tal com os crô, muitos jogos. E o videogame antigo não, ele tem uma lógica de recompensa mais lenta, você explora aquela mídia, você tateia as coisas, você entende a partir do controle dos botões, do que você pode acionar e daquele universo ali. Existe uma riqueza em você interagir com um universo virtual construído com regras, sentidos, interações.

E eu joguei Mario Kart com essa minha sobrinha. Ela primeiro odiou porque estava indo mal, depois amou porque começou a ir bem. Aí hoje eu encontrei com ela, faz tipo...

dois anos que a gente jogou, e ela falou cara, lembra que eu joguei não sei quem, eu joguei com a Peach, e depois eu joguei com o Toad, porque a Peach tinha um cabeção muito grande, e aí eu fiquei em terceiro quando eu comecei a jogar com o Toad, com o Mario olha a potência dessa memória sabe, a interação dessa criança com isso eu quero dar inclusive pra ela um outro videogamezinho pra ela jogar o Pokémon no próximo ano, tô esperando o pai me autorizar a ela ter um videogame próprio quando a pressão do telefone crescer muito em volta dela eu vou fazer isso mas aí mas aí

Ela vai fazer o aniversário, ela tá chegando, né, vai fazer nove, e ela tá chegando no ponto onde ela tá começando a se interessar por música. Ela veio me contar esses dias, por exemplo, que ela lembrou e descobriu uma música do Gorilas por conta própria. Ela lembrou que o pai dela já tinha mostrado pra ela, ela tava na PUC acompanhando o pai dela, e aí, ele ia dar aula, eu acho, lá, sei lá, fazer alguma coisa lá, o seu monitor.

fazer alguma coisa relacionada a isso. Esse meu amigo, ele quer ser doutor. E... E aí ela viu alguém com a camisa do Gorilas, lembrou do Gorilas, e aí lembrou como digitava, e foi lá no telefone e achou o Gorilas e botou na playlist especial, no telefone do pai, ela não tem telefone. Pelo amor de Deus.

E eu falei, cara, sabe o que eu vou fazer? E aí é uma mistura de todas essas coisas. Uma mistura do fetiche, uma mistura. Mas eu quero dar pra ela um iPod. Eu não sei se é difícil usar o iTunes ainda e tal, mas eu quero dar um iPod antigo pra ela, aquele iPod que tem a rodinha, porque ele tem uma dinâmica de interação, organização e biblioteca incrível.

Eu vou ser o tio que vai tornar essa criança muito descolada. Eu vou apresentar muita música maneira pra ela. Eu vou ter contato com tudo de bom e do melhor. Pra inclusive sanar a minha criança, que foi tão autodidata musicalmente até a vida adulta. Não tive muito repertório cultural crescendo e nem muito acesso, digo, pra além de TV, essas coisas. Tipo, eu não tive...

pais artísticos ou tipo um irmão mais velho, não fui apresentado ao universo musical, eu tive que, né, fui culturalmente muito autodidato em alguns lugares e depois tive pessoas que me influenciaram muito assim, na música mas o que eu ia dizer é ou um iPod ou um MP4 enfim, mas alguma coisa que ela consiga navegar com a mão dela, que seja tátil, que não seja tipo touch ...

e que ela tenha acesso a essas músicas e possa descobrir novas. O que eu vou ser o cara aqui, que vai falar assim, ai tio Matheus, eu quero músicas novas. Eu vou falar assim, já é, toma isso aqui. O que você gostou mais? Vou te indicar isso aqui. Pô, que sonho, que coisa legal, que demais, eu tô muito animado. Chega logo o aniversário da Magalino vendo. Mas enfim.

Isso tudo, já estou falando, é uma discussão que a gente já tem há muito tempo. O Calma Urgente fez um episódio sobre isso no outro ângulo no ano passado, que é um ótimo episódio, um dos melhores dele, sobre fricção. Eu estou acrescentando etapas de acesso a um objeto cultural que não é mais meu e não mais me pertence. Eu estou tornando ele meu, mesmo que isso seja mais temporariamente custoso ou até financeiramente custoso no primeiro momento.

Eu estou investindo nisso, numa experiência que para mim é mais tátil do que... Eu estou investindo nisso, mas eu estou investindo nisso.

a internet gratuita, o consumo de cultura gratuito, que é o fluxo dos streamings, gratuito, entre aspas, né? Criar fricção...

é uma coisa muito importante. E a discussão sobre fricção também não pode cair no feitiço. Às vezes pode ser bom, sei lá, você comprar uma máquina de escrever hoje em dia, mas não pode ser isso, entendeu? O criar fricção, inclusive, envolve muitas coisas. Envolve o Solid Punk, que eu falei. A gente está tendo um crescente nos novos Cyberdecks. Não sei se vocês estão ligados nisso. Está aparecendo direto para mim no Instagram e no Twitter.

Mas o Cyberdeck já existe há um tempo e agora tem muitas meninas na internet, mulheres, fazendo... E aí

Os próprios cyberdecks, pegando objetos de infância antigos, trocando, sei lá, o laptop da Barbie. É uma Raspberry Pi, que é um microcomputador, que é inclusive o que alimenta isso aqui, que o Guilherme Durão do SupLab fez, que alimenta essa estrutura aqui. Que você coloca uma tela, coloca alguns comandos e instala programas básicos no sistema operacional e você tem ali um computador rodando dentro daquilo. E agora com, inclusive, com o IA você consegue codar programas muito facilmente, você consegue programar isso tudo. Então,

está criando uma onda de computadores não digitais, não conectados, que servem para certas coisas. Um calendário, um negócio de anotação, uma coisa para escrever, um joguinho, enfim, nenhuma utilidade de um antigo computador de mão que você passa a ter no seu bolso e que você não vai para o telefone fazer isso, você descentraliza do telefone e aí você não é exposto à notificação, você não é exposto à rede social, ao algoritmo, você acessa outras coisas, outras funções de outro jeito.

É claro que tem uma lógica performática nisso, em você andar com o cyberdeck aqui, performática, digo, alimentar a imagem digital de si e tornar a imagem digital de si mais importante na vida real do que na vida física, na vida digital, ao ponto em que você está andando assim na rua e parece que você está sendo um avatar digital seu na rua, aquela coisa de homem performático, enfim, isso é todo um outro tema de um outro vídeo. Mas os cyberdecks são uma coisa interessante da biologia do Savage Punk.

A gente tem muita tecnologia e muita coisa dentro da gente que a gente pode usar dessa maneira. Então...

Antes de fechar, eu queria até falar sobre uma coisa antes que comentem, que é o Friction Maxing, que é o movimento americano. O Friction Maxing é essa lógica de você criar fricção na sua vida. Mas ele está existindo enquanto performance virtual, performance de identidade virtual. Então você grava um vídeo no TikTok, lendo durante 15 minutos sem pegar no telefone.

olhando para o teto, uns 15 minutos, para restaurar meu espasmo de atenção. Existe uma consciência coletiva cada vez maior sobre o mal dos telefones, a existência do algoritmo, o escuro infinito, o hiperestímulo e o espasmo de atenção reduzido. Porque a gente vê isso, a gente está mais infeliz, ansioso, não consegue consumir um livro, então tem uma falta, tem um desejo. O Friction Max, acho que ele pode ser bom para algumas pessoas, porque vai ser porta de entrada, mas ele é uma tendência passageira que ainda serve para você se documentar e se fazer sujeitos virtualmente como alguém...

que testa a sua criação de ficção. Então, acho que é uma tendência viral do TikTok que não tem muita liga pra maioria das pessoas. Passa. Mas eu acho que desenvolver um repertório próprio de entusiasmo, gosto, interesses, que vai da música, cultura, a forma com a qual você interage com o mundo, isso não é passageiro. Isso vai ampliando coisas, porque você vai se conectando com gente que te interessa, você vai criando relações parecidas com as coisas, e tudo fica mais massa, mais legal, mais divertido, e enfim, enfim, lá. Tá?

Uh, que fluxo, gente. Caraca. 45 minutos cravados. Nossa, não vou cortar nenhuma vez. Fui tudo dessa vez. Estava com saudade de falar de uma coisa como se fosse IA e o fim do mundo. E estava com saudade também de fugir um pouco da lógica algorítmica, de falar com uma coisa muito entusiasma, de falar de cultura. Comentem, indiquem, conversem para se virarem outros episódios. E se inscrevam no Cyber Café, sejam membros. Está sendo...

verdadeiramente emocionante, gente. Nem eu esperava que fosse ser tão legal. Ontem, por exemplo, foi isso. Eu estava do nada sentado, conversando com a galera, mandando vídeo, a galera mandando sugestão de livro, coisas que estão acontecendo, temas e tal. Virou um campo de discussão muito legal no zap. Aí eu falei, cara, algum de vocês topa live?

E a gente entrou, tinham tipo 10 a 15 pessoas ali constantes, e a gente foi junto, pensando, pensando, pensando. E aí surgiu toda essa estrutura que eu anotei aqui, eu ia anotando em tempo real, criando em tempo real com eles. Inclusive você, sendo membro, você pode ver as lives antigas, fechadas, né? Que são semanais. E aí você pode ver, inclusive, na última, a elaboração em tempo real desse episódio e do próximo.

ou do seguinte, que eu não sei exatamente qual vai ser a ordem, que vai ser justamente sobre o que é ser performático. E falar de homem performático, a palavra performático, que pegou muito, que eu acho que tem muita essa relação de imagem, e eu quero costurar isso a partir do nosso grande amigo francês, Guy Debord, acho que eu vou apresentar a segunda-feira no seminário, mestrado, tô animado, enfim. Ah, foi muito legal, galera. Como indicação, eu acho que eu vou usar dois exemplos.

Ai, tá me faltando o terceiro de alguma coisa relacionada a Selved Punk. O Cyberpunk, ele já puxa muito pra essa estética, né? De conectar trinkets e coisas. E aí, enfim, acho que eu posso indicar pra vocês em primeiro lugar Cowboy Bebop tem uma estética muito, puxa muito pra esse lugar, porque ela tem uma estética muito, né?

Ela se passa nesse mundo pós-colonial, colapsado. É uma space opera distópica, mas ao mesmo tempo... Enfim, é difícil explicar. Cada episódio é uma session de jazz, uma das melhores coisas que eu já vi na minha vida. E aí o ambiente, os cenários, as naves, como eles se deslocam no espaço...

E no mundo, e no Quando Eles Descem ao Mundo e tal, é tudo uma tecnologia antiga misturada com coisa nova que engranda, que mexe. Então acho que tem um pouco desse aspecto, sabe? Eu acho que o Call of Duty Bop é a coisa que mais me vem assim à cabeça. Mas eu tenho certeza que a galera vai trazer outras coisas. Eu posso também recomendar o filme Aquaria, de San Diego Junior, que é um filme... É...

que eu esqueci no que é baseado, tem um vídeo aqui inclusive meu reagindo a esse filme, comentando esse filme o tempo todo pela premissa e pela direção de arte fantástica dele que vende essa ideia também de misturar, não sei o que, ele é bem Savage Punk, então fica em indicação Cowboy Biboc e Aquário de Sandy Jr. Seja membro do One House, converse com a gente, faça parte do grupo do Zap, muito obrigado galera, até semana que vem.

Um grande abraço. E fiquem com a musiquinha de sempre por Henrique Moraes e Matheus Castro. Uma música que é chamada de Sense of Wonder, que eu nunca falei aqui, porque ela não existe em lugar nenhum. Ela foi feita pra trilha, tanto a abertura quanto essa. E é isso. Um abraço. Ah, moleque. Muito bom isso. Porra, que alegria. O cenário novo tá maneiro também.

Obrigado por assistir.

E aí

Obrigado por assistir.

Anunciantes1

voadortecelagem

TAPETE MARAVILHOSO
external
quem tem direito ao offline? | Castnews Index — Castnews Index