Episódios de Igreja Reformada de Campinas

Artigo 20 - Confissão Belga | Romanos 3.24-26

06 de setembro de 202641min
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23ª pregação catequética em uma série de sermões na Confissão Belga.

Sermão expondo o artigo 20 da Confissão Belga.

Sermão pregado pelo pastor Elienai Batista no culto vespertino do dia 6 de setembro de 2026 na Igreja Reformada de Campinas.

campinas.igrejareformada.org

ARTIGO 20 — A justiça e a misericórdia de Deus em Cristo

Cremos que Deus, que é perfeitamente misericordioso e justo, enviou o seu Filho para assumir a mesma natureza na qual se cometera a desobediência, para fazer satisfação nessa mesma natureza e suportar o castigo do pecado através de seu sofrimento e morte mui amargos. Deus, portanto, manifestou a sua justiça contra o seu Filho quando colocou sobre ele as nossas iniquidades, e, sobre nós, que éramos culpados e merecedores da condenação eterna, derramou a sua bondade e misericórdia. Por amor perfeitíssimo, ele entregou o seu Filho para morrer por nós e o ressuscitou para a nossa justificação, a fim de que, por ele, possamos obter imortalidade e vida eternal.

ROMANOS 3

²⁴ sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,

²⁵ a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos;

²⁶ tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.

Participantes neste episódio1
E

Elienai Batista

HostPastor
Assuntos5
  • A justificação gratuita pela graça de Deus através da redenção em Cristo JesusJustificação·Graça de Deus·Redenção em Cristo Jesus·Santificação
  • Deus é justo e justificador daquele que tem fé em JesusJustificador·Fé em Jesus·Paradoxo da salvação·Caráter de Deus
  • A Confissão Belga e a carta aos Romanos explicam a miséria, salvação e gratidãoConfissão Belga·Carta aos Romanos·Catecismo de Heidelberg·Miséria espiritual da humanidade
  • A propiciação de Deus no sangue de Cristo para manifestar sua justiçaPropiciação·Sacrifício de Cristo·Ira de Deus·Antigo Testamento
  • A justiça e misericórdia de Deus se unem na cruz de CristoJustiça de Deus·Misericórdia de Deus·Cruz de Cristo·Punição do pecado
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Essa tarde vamos ouvir a exposição da palavra de Deus que nos trará o ensino do que confessamos no artigo de número 20 da Confissão Belga. Por isso então faremos inicialmente a leitura do artigo 20 da Confissão Belga. Trata sobre a justiça e misericórdia de Deus em Cristo. Cremos que Deus, que é perfeitamente misericordioso e justo, enviou o seu Filho para assumir a mesma natureza em que se cometera a desobediência, para fazer satisfação nessa mesma natureza e suportar o castigo do pecado através de seu sofrimento e morte, muito amargos.

Deus assim manifestou a sua justiça contra o seu Filho quando colocou sobre ele as nossas iniquidades, e sobre nós, que éramos culpados e merecedores da condenação eterna, derramou a sua bondade e misericórdia. Por amor perfeitíssimo, ele entregou o seu Filho para morrer por nós e o ressuscitou para nossa justificação, a fim de que por ele possamos obter imortalidade e vida eternal. Agora o texto da pregação, carta de Paulo aos Romanos, capítulo 3, Romanos, versículos 24 a 26.

Assim diz a Escritura: sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs no seu sangue como propiciação mediante a fé para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos, tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. Até aí a leitura da palavra do Senhor.

Oremos. Pai Santo, obrigado, Senhor, pela tua palavra. Agora rogamos que o Senhor abençoe a exposição da tua palavra, ilumine o nosso entendimento, conceda graça ao que fala, conceda graça aos que ouvem, e em tudo glorifique teu nome e mantenha os nossos olhos na beleza da glória do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Nós oramos assim, em nome dele. Amém. Amada Igreja de Cristo Jesus, provavelmente, eu sinceramente espero que sim, vocês se lembram da estrutura básica da carta aos Romanos, da qual o Catecismo de Heidelberg também puxa a sua estrutura.

E vocês podem lembrar disso por meio de 3 palavras. Crianças saberiam responder as 3 palavras: miséria, salvação e gratidão. Isso é também a estrutura mais básica da carta aos Romanos. Então, nos 3 primeiros capítulos desta carta, o apóstolo Paulo está focado em mostrar o estado de miséria espiritual da humanidade. Ele ergue então uma acusação universal. Ele vai desenvolver o seguinte argumento: judeus e gentios, filósofos e bárbaros, religiosos e moralistas, todos se encontram debaixo do pecado, todos estão de boca calada como réus diante da majestade de Deus.

E no versículo 23 ele dá o veredito, que é o famoso texto que diz: porque todos pecaram e carecem da glória de Deus. Então isso é um indicativo: a humanidade como um todo está despida de qualquer justiça com a qual possa se justificar diante de Deus. E é sob esse pano de fundo dessa terrível condenação que aparece então o nosso texto. E podemos dizer, em certa medida, que o texto que lemos, 24 ao 26, é a resposta, ou pelo menos o início da resposta de Deus a esse quadro de depravação percebido e ensinado nos capítulos anteriores, nos versículos anteriores.

E a resposta de Deus lida já de imediato com aquilo que nós podemos chamar de o maior problema no que concerne esse assunto, na verdade um paradoxo. E então podemos pensar nesse paradoxo com uma pergunta: E a pergunta não é só como o homem poderia ser salvo, mas a pergunta é como Deus pode manter a sua integridade moral, que exige que o pecador seja condenado, e ao mesmo tempo cumprir com a sua bondade e misericórdia. Ou colocando de outra forma, como Deus pode de uma só vez manter-se justo para com o pecador, condenando o pecador, e mostrar a sua misericórdia ao pecador, salvando o pecador?

Como isso é possível? O texto que temos diante de nós é a resolução desse paradoxo, porque o texto diz que Deus é justo. Isso tem a ver com a justiça para condenação. E ao mesmo tempo ele é justificador. Isso tem a ver com a salvação. E ele é justo, justificador, justamente porque a resolução desse problema encontra-se na harmonização perfeita entre a justiça de Deus, que exige a punição pelo pecado, e a sua misericórdia infinita, que providencia um substituto.

Então, a resposta para esse paradoxo se encontra na pessoa do nosso Senhor Jesus Cristo. E é exatamente isto que nós confessamos aqui no artigo de número 20 da Confissão. Nós confessamos que Deus manifestou na cruz de Cristo tanto a sua justiça quanto a sua misericórdia. Deus é justo e misericordioso. Por isso, então, eu vos anuncio a palavra de Deus sobre o seguinte tema: o preço da nossa absolvição, a justiça satisfeita e a misericórdia derramada.

A justiça satisfeita e a misericórdia derramada. E veremos o que Cristo fez por nós. É isso que observaremos. Em primeiro lugar, versículo 24: o Filho absolveu-nos. Veja, o versículo 24 inicia com as seguintes palavras: sendo justificados E vocês devem lembrar, o sentido do verbo justificar tem relação com a jurisprudência. É um verbo que está conectado a um tribunal, ao que acontece em um tribunal. Então, a justificação, que é uma das palavras para falar do que Deus realiza em nosso favor para a salvação, é aqui apresentada.

E ela não é uma palavra que denota uma mudança interna. Não é que, por exemplo, quando somos justificados, então alguma coisa muda, há uma transformação moral no pecador. Outras palavras da Bíblia descrevem isso. Isso tem relação com a regeneração e depois, posteriormente, com a santificação. Mas a justificação tem a ver com um pronunciamento legal. Então é a imagem de um pecador como réu no tribunal, e a justificação é o que Deus declara a respeito desse pecador no final das contas.

Então, justificar é aqui o oposto de condenar. Se o réu sai para sofrer a condenação final pelos seus pecados, ele é condenado. Se ele sai de cabeça erguida, ele foi justificado. É o veredito positivo do juiz que declara que o réu está livre de culpa e ele está no pleno direito de suas atribuições como um cidadão. Então aqui, pensando nisso, é importante entender a diferença entre justificação e santificação. A justificação, ela não altera nada em nós, ela altera o nosso status e a nossa relação legal com Deus.

Deus não me considera como alguém digno de condenação, mas como alguém justo a quem ele trouxe para ser justo diante de si. Isso é uma declaração. Deus diz: você que creu em meu Filho, você é considerado como justo por causa da obra do meu Filho. A santificação, ela é outra coisa. Ela opera o nosso restabelecimento e a nossa vida. Ela muda, como vimos pela manhã, o nosso coração. Então existem transformações constantes e progressivas até a vinda de Cristo.

Mas estamos falando aqui não de santificação, mas de justificação. E Paulo define a origem e a motivação dessa justificação por meio de duas expressões ainda no versículo 24. Ele diz, fala sobre ela gratuitamente, sendo justificados, pois, gratuitamente, e complementa repetindo a ideia muito próxima por sua graça. Esse termo gratuitamente é a ideia de um presente. Então você foi justificado como se tivesse recebido de Deus um presente.

Não houve de sua parte nenhum pagamento e nenhum mérito. Essa justificação não houve como causa motivadora nada em você. O apóstolo enfatiza que não existe então no ser humano um elemento próprio, uma disposição, uma obra que pudesse servir como causa meritória para que Deus dissesse: bom, já que você fez isso, já que você falou isso, já que você agiu assim, assim, eu vou justificar você. Nada no homem pode levá-lo a isso. A justificação é um presente.

É um ato da graça soberana de Deus em declarar como justos em seu tribunal o seu povo. Isso se dá inteiramente pela graça, sem nenhum mérito nosso. No entanto, embora a justificação seja inteiramente gratuita para o pecador, ela custou um preço. O apóstolo nos aponta então o caminho da redenção. Ele diz que isso que nos foi dado gratuitamente, nos foi dado, aconteceu a justificação mediante a redenção que há em Cristo Jesus. E esse termo redenção é uma palavra que traz a imagem alguém que foi resgatado do cativeiro.

Então, no mundo antigo Esse termo redenção era usado para descrever, por exemplo, quando alguém comprava um escravo, quando alguém comprava de volta um prisioneiro de guerra, ou alguém que foi condenado à morte, preço era pago para que ele não fosse condenado à morte. Isso é o resgate da vida. A humanidade então caída encontrava-se escravizada em seus pecados, digna do juízo de Deus, da morte, da santa ira de Deus. Estamos lendo: Cristo nos resgatou, ele interveio nossa miséria e pagou a nossa imensa dívida.

É isso que Paulo está nos ensinando aqui. Então, este resgate não aconteceu com dinheiro, com prata ou ouro, mas pelo derramamento precioso do sangue de Cristo. Então, a nossa confissão aqui está entrando em contraste com muitas das teologias liberais modernas dos nossos dias. E também com uma antiga heresia chamada socionismo, que tenta meio que esvaziar a cruz da sua dimensão de satisfação legal. Então ele diz: olha, lá na cruz a justiça de Deus não teve que ser satisfeita.

Então eles falam isso alegando, apelando ao amor de Deus. E eles dizem simples: não, Deus só quis, Deus para perdoar, ele só, é só ele querer, não precisa haver um pagamento, não precisa haver uma satisfação da justiça. Então esse tipo de mentalidade nega que houvesse a necessidade de que a justiça de Deus fosse satisfeita. Tanto o Catecismo quanto a Confissão vão na contramão deste falso ensino, asseveram que nós só podemos alcançar a graça de Deus Porque a justiça de Deus foi satisfeita integralmente pela morte do nosso Senhor Jesus Cristo.

Então, essa satisfação de Cristo permitiu que, sendo a justiça satisfeita, Deus pode revelar a sua misericórdia para com os pecadores. E o nosso artigo da Confissão Belga, o artigo 20, trata deste assunto também. Então Deus não abriu mão da sua santidade, da sua justiça. Ele não deixou que a graça fosse reinar independente da justiça. Pelo contrário, ele manifestou a sua implacável justiça ao punir os nossos pecados no corpo e na alma do nosso Senhor Jesus Cristo na cruz do Calvário.

E ali então, condenando e derramando sua ira sobre o nosso Salvador, que se tornou o nosso substituto na cruz, ali também Deus revelou sua graça e misericórdia sobre nós que éramos culpados, pegando a justiça de Cristo e colocando-a em nossa conta. Então assim recebemos a justificação, assim recebemos a salvação. Então, meus amados irmãos, este versículo 24 deve nos desarmar de orgulho espiritual, de tentativa de justiça própria.

Então devemos nos perguntar: em que está firmada a segurança da minha salvação? Não é pela sua fidelidade moral, pela sua plenitude, pela sua perfeição. Não é porque você ora muito, porque você lê a Bíblia muito, porque você é um bom esposo ou esposa. Todas essas coisas são coisas da santificação. Mas a base, o fundamento da sua salvação são a obra perfeita do nosso Senhor Jesus Cristo. E a sua justificação está consumada porque a obra de Cristo está consumada.

O preço pela sua redenção já foi pago. E a ressurreição de Cristo é como se fosse um recibo de que essa dívida foi quitada. Deus aceitou o sacrifício de seu Filho a seu favor. Então nós não devemos fazer como Adão e Eva, tentar costurar folhas de figueira para as nossas fraquezas. Nós devemos nos revestir da justiça de Cristo, que é perfeita e infalível, e devemos descansar o nosso coração nesta declaração do próprio Deus de que se cremos em Cristo, fomos justificados gratuitamente Por sua maravilhosa graça, estamos seguros para sempre sob o sangue da Nova Aliança.

Agora vamos olhar para o versículo de número 25. Se no versículo anterior o apóstolo Paulo estabeleceu o status legal do pecador, declarando-nos justos pela graça de Deus com base na redenção de Cristo, O versículo 25 explica mais detalhadamente o preço e o mecanismo que tornaram isso possível. Vejam o início do versículo 25, falando sobre Jesus Cristo. O apóstolo escreve: a quem Deus propôs. Essa expressão, a quem Deus propôs, significa a quem Deus exibiu aos olhos do mundo, ou a quem Deus decretou no seu conselho eterno, revelando ao mundo posteriormente.

Então, a ação dessa salvação é providenciada pelo próprio Deus. Então, não é o homem pecador que diz: olha, eu ofendi a Deus, então eu vou pensar no meio de reconciliar-me com Deus. É o próprio Deus ofendido que, na sua livre graça, toma a iniciativa de manifestar historicamente um meio para resolver esse problema, para derramar a sua ira sobre os pecadores e estabelecer a sua graça para salvá-los. Nós confessamos isso também no artigo 20 da nossa confissão, quando dizemos que Deus provou ser perfeitamente misericordioso e justo ao enviar o seu Filho para fazer o homem, para se fazer homem, perdão, e assumir a nossa culpa.

Então a salvação não foi imposta a Deus de baixo para cima, como um mediador chegasse e pedisse, ou um anjo chegasse e pedisse a Deus para nos salvar. A salvação brotou do eterno amor de Deus por nós. Então lemos aqui um texto, perdão, uma palavra, um termo, o termo propiciação. Isso se refere ao sacrifício de Cristo, que foi o termo propiciação, diz que esse sacrifício é um sacrifício para aplacar a ira de Deus contra o pecador.

No texto da Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento, essa palavra usada aqui por Paulo era usada para falar da tampa chamada tampa do propiciatório, que era de ouro puro e cobria a Arca da Aliança no Santo dos Santos. Essa tampa era o propiciatório, e uma vez por ano, no Dia da Expiação, O sumo sacerdote entrava no santuário, ele aspergia o sangue do cordeiro sacrificial sobre o propiciatório, e isso tudo era feito de forma oculta.

Então o sumo sacerdote tinha uma bacia em suas mãos e ele ia até o lugar santo, ele passava a cortina, o véu para o lugar santo dos santos, onde estava a arca, e ele derramava o sangue sobre a tampa da arca, sobre o propiciatório. Isso era uma forma de mostrar que a lei que o povo transgredia, que estava dentro da arca, que essa lei que o povo desobedecia provocava a ira de Deus, mas agora o sangue derramado aplaca a ira judicial de Deus e permite que Deus continue habitando no meio do seu povo.

Essa encenação, podemos dizer, desse Dia da Expiação, encenação no sentido que tem atos litúrgicos que apontam para a obra do Senhor Jesus Cristo, Agora vejam, ao aplicar esse termo usado para tampa, propiciatório, ao próprio Cristo, Paulo nos ensina que aquilo que acontecia lá dentro do tabernáculo uma vez por ano, de forma, podemos dizer, escondida, era uma sombra, prefigurava a obra de Cristo para nossa salvação. Só que agora há uma grande diferença em nosso texto.

Por quê? Porque aquilo que no Antigo Testamento, essa ira sendo aplacada, esse sangue sendo aspergido e Deus sendo propiciado, aquilo que acontecia secretamente no tabernáculo, diz agora: e Deus o propôs. Deus o exibiu, Deus fez isso agora publicamente. Então a imagem é a sombra, a figura no tabernáculo é feita de modo oculto, mas Cristo na cruz e a justiça e a ira de Deus caindo sobre ele, isso é feito de modo público, diante de todos os olhos.

Deus manifestou Então, o lugar onde a ira de Deus verdadeiramente é aplacada, onde Deus realmente é propiciado, onde a ira dele é esgotada e a justiça dele é cumprida, é na cruz. Ali Deus foi propiciado, e o que acontecia no tabernáculo era apenas uma sombra dessa realidade. E diz no seu sangue. Isso é o meio material da propiciação, e o sangue é a vida real e irrepreensível do nosso Senhor Jesus Cristo. Quer dizer que ele entregou sua vida para nossa salvação.

E sabemos, sem o derramamento de sangue não há satisfação da justiça divina, tampouco remissão dos pecados. Então essa maravilhosa provisão divina dada pelo próprio Deus, por sua graça. Mas o texto também deixa claro: isso não opera automaticamente. Não é que todos foram propiciados, todos foram perdoados, e que Deus não está mais irado com ninguém. Porque há aqui uma condição para que se receba tal propiciação: mediante a fé.

E a fé aqui, como já disse, não é a causa meritória da nossa justificação. Então isso é um ponto importante quando estamos falando da graça de Deus. Não é só que as obras ficam fora, a própria fé fica fora, porque a fé não é o mérito para nossa salvação. O mérito da nossa salvação é única e exclusivamente a obra de Cristo Jesus. Então a fé não é uma coisa que conta, ah, porque eu tive fé, então eu mereço ser salvo, como nossos pais reformados nos ensinaram.

A fé é a mão que agarra a misericórdia de Deus. Ou como a Confissão Belga diz no artigo 22, a fé é quando nós abraçamos a Cristo Todos os méritos estão nele e não no que nós fazemos. Então a fé não é a causa meritória. A causa meritória é o sacrifício perfeito e único de Cristo. Por causa dele é que nós somos justificados, e por causa dele a ira de Deus é aplacada. Confissão, no artigo 22, diz: a fé é apenas um instrumento com que abraçamos Cristo, justiça nossa.

E por que foi isso necessário? A resposta da Escritura aqui em nosso texto é: para manifestar a sua justiça, por ter Deus na sua tolerância deixado impunes os pecados anteriormente cometidos. Que isso quer dizer? Que durante todo o Antigo Testamento, quando Deus estendeu o seu perdão a Abraão, a Isaque, a Davi e todos os santos e patriarcas. Isso foi feito com base na promessa da futura aliança, com base no que Cristo faria. E Hebreus é claro sobre isso, dizer: olha, o sangue de touros e bodes não pode remover a culpa.

Então, durante gerações, por assim dizer, e veja esta imagem, porque ela é importante. É como se o braço de Deus— isso é só uma linguagem metafórica, não, não levem isso ao pé da letra— mas pense assim: o braço da justiça e da ira de Deus, ele precisa ser lançado contra o pecador com força. E então tem os pecados de todas as pessoas do Antigo Testamento, homens como Davi, como Abraão, como Isaque e muitos outros. Então eles pecaram contra Deus, eles merecem a ira de Deus, a força do pulso da mão poderosa de Deus.

E o sangue dos animais é como se fosse apenas uma coisa que diz: agora não, ainda não, ainda não. Mas então você tem o acúmulo de todos esses pecados, de todas essas pessoas, e o que Deus está fazendo tolerando o pecado, tolerando a transgressão. Ele não pode derramar a sua ira, porque senão os homens seriam completamente destruídos. E alguém olhando para isso poderia dizer: bom, parece que Deus não leva até últimas consequências o pecado do homem.

Parece que Deus de fato não é tão justo como ele diz ser. Até parece que a injustiça prevalece. Deus tolera aceitar pecadores. Ele não leva até a última consequência o pecado dessas pessoas, os seus crimes. Mas finalmente, irmãos, chega o momento das sombras saírem e a ira de Deus ser derramada. Não há nenhum freio para o braço forte de Deus, não há nenhum freio para a ira de Deus. Mas quem está lá? Não é Davi, não é Abraão, Abraão, não é Isaque, não sou eu, não é você, é ele, o nosso Senhor Jesus Cristo.

Então, na cruz, a ira de Deus, que foi segura, por assim dizer, agora completamente derramada por causa dos pecados de Davi, Abraão, Isaque, Elienai e tantos outros. Na cruz, Jesus Cristo foi alvo da ira de Deus. Na cruz, Deus manifestou a sua justiça. Na cruz, Deus provou que ele não ignora o pecado. Aqueles pecados cometidos por todas as pessoas do Antigo Testamento foram punidos. A ira foi derramada contra esses pecados, na conta do seu Filho Jesus Cristo.

O castigo integral foi executado e Deus permaneceu perfeitamente justo em si mesmo, ao mesmo tempo em que se tornou justificador daquele que crê em Cristo Jesus. Amados, o que nós acabamos de ouvir nos convida a nos afastarmos de um moralismo barato e contemplarmos a seriedade do pecado e a grandiosidade da justiça divina. Na cruz, a santidade e a perfeita misericórdia de Deus se uniram em um abraço. E cantamos sobre isso nessa manhã no Salmo 85: a justiça e a graça se encontraram, um beijo entre duas coisas que pareciam irreconciliáveis.

Como Deus pode ser justo e justificador? Como ele pode manter a sua justiça e estender a sua misericórdia? O Salmo 85 anunciou: vai acontecer, justiça e misericórdia vão se beijar, vão se abraçar, andarão de mãos unidas. E isso aconteceu quando Deus derramou a sua ira sobre o nosso Senhor Jesus Cristo. Ele pagou completamente e satisfez a justiça de Deus. Então, meus irmãos, se a sua consciência lhe perturbar com acusações de culpas pesadas, ou talvez com as suas fraquezas presentes, vocês podem olhar para o único lugar seguro.

Olhem para Cristo e lembrem-se: a propiciação pelos seus pecados já foi realizada de forma final e definitiva. Deus Pai apresentou publicamente a Cristo Jesus como escudo e a cobertura. O sangue dele já cobriu a sua transgressão. A justiça de Deus já foi satisfeita em relação a você, se você está entre aqueles que creem em Jesus Cristo. Então descanse, tenha paz. Não é uma paz no pecado, obviamente, mas é a paz de quem se arrependeu e crê em Jesus Cristo.

Se esse é o seu caso, tenha certeza que você pode ter essa paz por causa de Cristo. Isso nos leva ao último ponto, versículo 26: o Filho pacificou-nos. Temos palavras finais que desatam o nó da história da redenção. Então, esse paradoxo sobre o qual eu falei: como pode um Deus absolutamente santo e reto perdoar homens que por sua natureza são profanos, culpados, sem que essa absolvição venha contra ou deponha contra a própria justiça de Deus?

E a resposta, o apóstolo inicia o versículo 26 apontando para o marco temporal. Veja o que ele diz: no tempo presente. Então aqui, quando ele diz no tempo presente, isso é para contrastar com o quê? Com o versículo anterior. Que que ele disse no versículo anterior? Que no passado Deus, na sua tolerância, suportou aqueles pecados. No tempo presente. Então esse é o contraste, a dinâmica aqui de contraste entre aquilo que aconteceu no Antigo Testamento e o que acontece no tempo presente.

Então o versículo 25 falou da tolerância de Deus quanto aos pecados do Antigo Testamento. Eles tinham sido deixados impunes Mas agora ele diz: no tempo presente. Então agora, no momento histórico que Deus escolheu, Deus derramou e cumpriu, derramou sua ira e cumpriu a sua justiça. Ela foi plenamente satisfeita. E isso, como disse, à vista de todo o universo. Não só todos os seres humanos podem ouvir sobre isso, mas isso foi, como diz o apóstolo, contemplado pelos anjos de Deus e até pelos demônios, os principados e potestades.

Então note que aqui se repete esse termo no versículo 26: manifestação. Isso é para enfatizar o fato de que a morte de Cristo então não foi um erro de percurso, um acidente histórico, mas é uma prova pública, uma evidência irrefutável, definitiva de que Deus governa o universo perfeito, em perfeita integridade moral. Então, a primeira e mais, o primeiro e mais importante alvo dessa demonstração da cruz é o próprio caráter de Deus, porque diz a manifestação para ele mesmo ser justo.

Então Deus na cruz declarou o quê? Que ele é justo, que esse atributo essencial do seu ser no qual ele, na sua santidade, defende a sua lei e pune o pecado de forma irrepreensível. Então declarou, a cruz declarou: Deus é justo. Então, sendo justo, ele não podia simplesmente suspender as sanções judiciais uma vez que o homem descumpriu a lei. Ele não podia declarar o culpado por inocente sem que o pagamento fosse feito. Se ele fizesse isso, ele estaria violando o seu próprio caráter e contrariando as suas promessas.

Então, para que Deus permanecesse justo, era necessário que a punição devida aos nossos pecados fosse integralmente executada. Então, na cruz, a ira divina não foi diluída. Não é que Deus pegou e disse: bom, aqui estão os pecados de todos os eleitos, mas é muita coisa, eu vou retirar um pouco disso e colocar só uma parte sobre o meu filho. Não, de forma alguma. A punição de todos os eleitos, de todas as épocas, em todos os lugares, foi colocada sobre o nosso Senhor, não meramente sobre seu corpo.

Sofrimento que Cristo sofreu em seu corpo Podemos até dizer que é nada comparado ao sofrimento que ele sofreu em sua alma. O sofrimento em sua alma é o sofrimento da angústia do inferno, da separação de Deus. Aquilo que os pecadores haverão de experimentar eternamente no inferno é aquilo que Cristo experimentou em sua alma em sua morte. Então não é um sentimento, uma coisa passageira, mas uma coisa de peso eterno chegando até o nosso Salvador.

Foi necessário que sofressemos a punição integral dos nossos pecados por meio do nosso substituto. Então ele foi total, a ira de Deus foi totalmente esgotada. E se nós fôssemos falar isso de novo em termos de murros, Então pense, o braço de Deus sendo seguro pela sua graça para não cair isso sobre os pecadores do Antigo Testamento. Mas finalmente, agora a ira dele deve ser derramada. E então ela bate contra o seu próprio filho.

Quantas vezes? Em todos os golpes necessários até que não haja mais necessidade, que toda justiça seja cumprida, que toda a ira seja derramada, que finalmente o Deus ofendido diga: não há nada mais a cobrar, tudo que eu tinha para derramar contra o pecador eu derramei sobre o meu Filho. Então, meus amados irmãos, como diz a Confissão Belga no artigo 20, Deus assim manifestou a sua justiça contra o seu Filho quando colocou sobre ele as nossas iniquidades.

A cruz prova que Deus é tão infinitamente justo que preferiu ver o seu Filho unigênito ser esmagado debaixo do peso do juízo a permitir que um único pecado de seus eleitos passasse sem a punição. Isso é a justiça de Deus. Mas o texto também diz que Deus é justificador daquele que tem fé. E esse termo justificador nos remete, como disse, ao tribunal. Então, a maravilha do evangelho reside no fato de que Deus exige o cumprimento estrito da lei.

Esse Deus que exige isso é o mesmo Deus que agora, por causa de Cristo, pronuncia a absolvição sobre o réu que está desprovido de justiça própria. Então diz Deus, diz aos que creem em seu filho, aos pecadores que creem em seu filho, que eles estão completamente perdoados. E ele pega a justiça de seu filho e coloca em nossa conta para dizer que a partir de agora ele nos considera como completamente justos. Isso acontece não porque fazemos algo, mas porque Cristo fez por nós.

E isso mais uma vez nos é dado mediante a fé em Jesus. Então é graça, não mérito. E a graça, a fé abraça os méritos de Cristo. Então não nos apresentamos diante do tribunal de Deus com nossas próprias virtudes, mas com a virtude daquele justo, a perfeita justiça daquele que foi morto em nosso lugar. Então, o perdão que Deus nos dá é um ato de pura graça e de soberana misericórdia, mas é também um ato de perfeita e rigorosa justiça, já que o preço total foi pago integralmente pelo nosso fiador na cruz.

Então, a justiça de Deus deixa de ser para nós agora, por causa de Cristo, um tribunal de horror para nós e passa a ser o escudo da nossa salvação. Pois Deus jamais exigirá o pagamento de uma dívida que o seu Filho Jesus Cristo já pagou de uma vez por todas. Então, meu irmão, minha irmã, a segurança da sua salvação se encontra nisso. Cristo pagou por todos os seus pecados de uma vez por todas, e isso nos consola quando o acusador de nossas almas se levantar para apontar a imensidão das nossas culpas e nos fazer olhar para a severidade da justiça de Deus.

Para onde você pode correr? Será que você vai tentar se defender com suas justificativas, com sua moralidade? O veredito do Evangelho é: olhe para a cruz, olhe para Cristo. A justiça de Deus já foi perfeitamente satisfeita em seu favor. E na ressurreição de Cristo, o Pai declarou publicamente que ele aceitou o sacrifício de Cristo. A seu favor. Deus é justo, e porque ele é justo, jamais punirá você pelos pecados que já foram cabalmente punidos na pessoa do seu Filho amado.

Então, meu irmão, minha irmã, descanse a sua consciência cansada nesta rocha segura, inabalável. Alegre-se na aliança eterna. Pois você já foi declarado justo por um Deus que permanece perfeito e reto, e cuja glória resplandecerá em nós por toda a eternidade. Amém.

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