Episódios de Porque Vivo Aqui

Academia de Música de Vilar do Paraíso

04 de maio de 202635min
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Um exemplo vivo do impacto que as escolas de ensino artístico podem ter na comunidade.

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Assuntos8
  • Financiamento estatal e custos do ensino artísticoContrato de patrocínio com o Estado · Valores de comparticipação estagnados desde 2010 · Custos elevados do ensino artístico especializado · Regimes de frequência (integrado, articulado, supletivo, livre) · Dilema entre apoio estatal e acesso para famílias
  • Academia de Música de Vilar do ParaísoHistória e fundação da academia · Nina Simone · Estreito de Ormuz · Estrutura física e salas · Financiamento e construção do edifício
  • Ensino de instrumentos musicaisAulas de piano · Lourenço (aluno de piano) · Claude Dacan · Aulas de guitarra · Mariana (aluna de guitarra) · Paulo Andrade (professor de guitarra) · Técnicas e repertório
  • Dança contemporânea e espetáculo de final de anoProcesso criativo · Adaptação de 'A Quinta dos Animais' de George Orwell · Representação de estratos sociais · Matilde e Carlota Queirar (alunas) · Revolução Russa e comunismo
  • Grupo de percussão e competiçõesFestival Internacional de Música para Jovens na Bélgica · Primeiro prémio Suma · Professor ausente devido a nascimento de filho
  • Coordenação do curso de dançaCláudia Eiras (coordenação) · Crescimento do curso de dança · Requisitos físicos e criativos · Formação de professores de dança em Portugal
  • Direção pedagógica e corpo docenteGonçalo Pires de Moraes (diretor pedagógico) · Gestão de sensibilidades · Antigos alunos como professores
  • Relação com a autarquia e serviço à comunidadeApoio conjunto em projetos
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Olá, o meu nome é António Jorge e este é o podcast Porque Vivo Aqui. Estudar artes, música, dança, teatro musical é oneroso. Eu sinto-me confiante, estou a treinar bem, na minha opinião. O aluno mostra-nos o que consegue fazer e nós vamos tentando ajudar, claro.

Quase mil alunos, perto de 100 professoras, cerca de 5 milhões de euros por ano. Estes são os números que descrevem a Academia de Música de Vilar do Paraíso, em Vila Nova de Gaia. O ensino artístico, com contrato de patrocínio do Estado, não tem valores de compartilhação atualizados desde 2010.

Ao longo de 47 anos de história, o impacto transformador da academia é difícil de calcular, mas fácil de perceber neste episódio de Porque Vivo Aqui. Porque Vivo Aqui. Um podcast de António Jorge.

Hugo era um jovem professor de piano quando começou a ouvir os sons de uma ideia que havia de materializar-se ainda antes de chegar à década de 80 do século passado. Com o passar do tempo, juntou-se à música, primeiro a dança e depois o teatro musical. Hoje, a filha Luísa lidera a academia que o pai fundou.

Luísa Coelho, diretor da Academia no presente momento. Estamos na freguesia de Vilar do Paraíso. Afastados do meio urbano, o que é bom para o nosso projeto educativo, porque acaba por ser aqui um espaço que quase quem chega parece estar aqui meio até rural. E, portanto, tem muito silêncio e isso também é bom em termos da envolvência. E cinco minutos do meio urbano da cidade de Vila Nova de Gaia.

Luís olhou para o pai porque o pai que está aqui ao lado foi quem fundou este sítio. Exatamente, é isso. Hugo Coelho. Hugo Coelho foi o pai disto tudo. Comecei a dar aulas realmente muito novo, com 17 anos, em minha casa e dirigindo uma casa de alguns alunos. Estamos a falar no final da década de 70. Exatamente, a década de 70 foi em 1979.

E o professor Hugo dava aulas de quê? De que instrumento? Dava aulas de piano, o meu curso, portanto, era piano. Nessa altura, como é que foi exatamente o processo? Estava, portanto, a iniciar, a dar aulas, imagino que encontrou um pequeno espaço e foi agregando uma mini comunidade e ela, com o desenrolar do tempo, foi naturalmente crescendo.

Sim, foi exatamente isso. Portanto, foi que realmente, através de um aluno que era mais velho que eu, falando nisso, com o programa de escola, disse-lhe uma casa que é do Seminário da Boa Nova, que está fechada, e que realmente seria o ideal para isso. Assim foi, fui ver a casa, que realmente gostei imenso.

E falando, portanto, com o reitor do seminário, que também nos abriu as portas e acolheu a ideia muito, muito bem. E pronto, e foi assim crescendo, até que chegamos a este ponto de construir um edifício próprio também para a escola. Foi em 2009 que abriu as portas o novo edifício, por onde segue o nosso microfone, atrás de Luísa Poelho.

Temos que subir aqui a tela. Quantas salas é que tem? Tem ideia? Tem, de instrumento, são 24 salas, de salas teóricas, são 17. Ok, pois isto é um complexo grande. Temos 4 estudios de dança também, uma sala destinada mais à prática de educação física, laboratório de ciências, é isso. Como é que foi encontrar financiamento para fazer este edifício enorme?

Bom, foi aqui uma gestão muito apertada, recorrendo à banca também, naturalmente. Alguns parceiros também locais que nos ajudaram com materiais.

Passamos por uma sala onde estava uma menina a tocar piano. Isso. E aqui outra? Aqui outra, tocar aqui uma aula de guitarra, como vê, aulas individuais. Está o professor na guitarra e o aluno na guitarra, cada um a fazer o papel deles. Exatamente, aqui a trabalhar em técnica e reportório. E agora vamos escutar aqui, desculpe lá.

Aqui está só um aluno a praticar, não é? Sim, aqui está um aluno a estudar, porque os alunos também, estudo da música faz-se do estudo, da disciplina de estudo, de dia-a-dia, regular. Acha que podemos interrompê-lo? Acho que sim. Eu não vou ficar chateada. Olá, bom dia. Como é que te chamas?

Eu sou o Lourenço. Olá, Lourenço. Bom dia. Bom dia. Que idade tens, Lourenço? Tenho 13 anos. E estás a ensaiar? Estás a praticar? O que estás a fazer? Estou a treinar para a minha próxima aula, sexta-feira. Não é? Sim. Vai ser difícil essa aula? Não, acho que não. Eu sinto-me confiante. Estou a treinar bem, na minha opinião. Podemos ouvir-te a treinar um bocadinho? O que é que estás a tentar executar?

Estou a tentar tocar uma peça de Claude Dacan, Le Cucu, Rondó, quer dizer que vai repetindo as mesmas letras algumas vezes, e de momento está a suar assim.

Eu acho que está a soar muito bem. Obrigada. Sim, estou a tentar aplicar-me, porque eu preciso de treinar para que a aula corra bem. Sim. Queres mesmo ser um bom pianista?

Sim, gostava de ser, no futuro. Ok, muito obrigado e desculpa ter-te interrompido. Obrigado. Muito mal. Obrigado, bom dia. Obrigada. Mariana. Muito bem, Mariana. E a professora? E o Paulo Andrade. Eu estava aqui com a Mariana, não é, a praticar os seus exercícios e as suas músicas na guitarra para, enfim, para melhorar e... Quanto tempo dura uma aula com um aluno à semelhança daquilo que estava a acontecer com a Mariana?

normalmente entre os 45 e os 55 minutos são aulas que rondam individuais o professor fica a saber exatamente quais são as virtudes os sítios onde cada aluno tem que melhorar e tem que progredir, portanto é uma coisa muito próxima

Sim, isto é um contacto de um para um e que realmente nós conhecemos muito o aluno e o aluno a nós, não é? E portanto tentamos, isto no fundo é uma partilha, o aluno mostra-nos o que consegue fazer e nós vamos tentando ajudar, claro. A guitarra é dos instrumentos mais procurados?

Eu diria que é muito popular e, portanto, por essa razão é bastante procurado. Claro que existe um vasto leque de instrumentos nesta escola e que também, enfim, se faz um ótimo trabalho. Estamos a estudar várias coisas. Vimos aqui uma que se chama Mi Favorita, é um tema tradicional.

Claro que o instrumento tem uma componente técnica e, portanto, nós temos que começar por músicas e coisas, enfim, que no início, tecnicamente, conseguem ser realizadas pelo aluno. À medida que vamos avançando, cada nova música vai trazendo dificuldades. Aqui, eu não queria estar aqui com imensos pormenores técnicos, não é? Mas aqui, no caso, a guitarra tem as barras, que é que com o mesmo dedo eu tenho que calcar várias notas.

Também é um tema que já explora notas mais agudas, portanto o aluno já tem que conhecer bastante o braço do instrumento e onde ficam as várias posições. E, enfim, depois mais uma série de coisas, mas esses são alguns dos desafios. Podemos ouvir um bocadinho Mariana.

Professor, que avaliação é que faz? Ela está a portar-se bem? Está. A Mariana tem uma capacidade extraordinária de nos deixar bem dispostos. Porque ela é... Só olhar para ela e ficamos bem dispostos, tem um sorriso fantástico. É super sorridente e bem disposta. E a amiga que está aqui também. Também transparece isso muito quando toca.

Sim, portanto fica a música alegre. Sim, portanto... Mesmo que ela não seja... Mesmo que a música seja dolente e algo melancólica, ela dá-lhe ali um toque de alguma alegria. Tem feito um ótimo trabalho, Mariana. Estar-te parabéns. Parabéns, Mariana.

Aqui é o tralapitada, aqui estão a estudar a progressão. O grupo de progressão, eu não sei se tem aqui alguns professores, não estão todos a estudar, acho eu.

O grupo de proporção foi à Bélgica, ao Festival Internacional de Música para Jovens, o ano passado, àquele festival que lhe falamos, festival internacional, competição, e portanto dá uma pontuação aos grupos de 0 a 100. E pela primeira vez tivemos um grupo que teve 100 pontos em 100 pontos, foi o grupo mais novo.

a viajar, com uma característica peculiar. O professor do grupo de percussão, na altura da viagem, estava a passear pai. Portanto, naquela semana o bebê ia nascer, então o professor acabou por não os acompanhar. Nunca viajamos com um grupo em que o professor maestro não acompanha.

não acompanhou, era o grupo mais novo e não só teve um primeiro prémio Suma com Alva, como foi 100 pontos. Portanto, foi assim algo extraordinário, que nos deixa de orgulho. O Gonçalo é o diretor pedagógico também do curso de música, que foi nosso aluno. Comecei aqui, Gonçalo Pires de Moraes.

Comecei aqui, penso que em 99, vim para cá porque queria estudar música, ao contrário da oportunidade que estes alunos tenham de começar com 5, 6 anos, 7, eu comecei com 13, 14 e algo me prendeu à música. Eu antes de seguir música, aos 18 anos ainda fui para a FIU, para a Engenharia, e depois a música chama mais forte. Estava colada à pele.

Era, estava, estava. Algo me chamou para isto e assim foi. Fui estudar, depois no final do curso a doutora Luísa fez-me uma chamada e eu com muito gosto abraçei o desafio de vir para cá dar aulas. Aliás, esta casa com orgulho tem muitos antigos alunos aqui, professores. E agora tem a função de ser diretor pedagógico, o que é que isso quer dizer?

Olha, quer dizer, muitas preocupações, gerir muitas pessoas, professores, alunos. Sensibilidades de uns e outros. É verdade, sensibilidades diferentes. É um desafio grande e diário, mas também que o fazemos com gosto, com momentos muito felizes e outros momentos mais duros, mas acho que faz parte de qualquer gestão de uma escola.

Descemos ao piso térreo, onde o professor Vítor Ferreira vai a meio de uma aula de dança contemporânea.

primeiro a entrega, a vontade de estar aqui e a vontade também de se deixarem moldar, não propriamente à minha maneira, mas aos ensinamentos que nós temos para lhes dar, aos princípios também humanos que nós lhes tentamos passar. Porque não é sempre fácil, mas acho que é muito enriquecedor sempre, isso sim, ou seja, mesmo que seja difícil, eu sinto que nunca é uma dificuldade sem um fim, ou seja, é uma dificuldade que é sempre super enriquecedora para os dois lados, eu sinto que é para os dois lados.

Eu vim interromper aqui uma aula que está ainda a decorrer. O que é que está a acontecer aqui exatamente? Que alunas são estas? São as meninas? Exatamente, são alunas da turma do 8º B e nós estamos agora em processo criativo para o espetáculo de final de ano. Foi hoje mesmo que lhes apresentei o tema geral do espetáculo, o que vamos trabalhar e estamos agora a começar a coreografar, a começar a recolher... A desenhar. Exatamente. E qual é o tema?

É baseado no livro do George Orwell, A Quinta dos Animais, e o objetivo é representar um bocadinho vários estratos sociais e como é que estes estratos sociais se conseguem juntar numa luta comum por o bem de todos. Olá, Matilde. Olá, Carlota. Olá. Esta é a voz da...

Matilde. E tu? Carlota Queirar. Então, o livro é sobre a Revolução da Rússia, que passa de um regime para um regime completamente diferente, que é da extrema-direita para a extrema-esquerda, para o comunismo. E cada um desses animais representa uma parte da sociedade. Começa numa parte que é os trabalhadores, o povo.

Depois, esse povo, que são os animais, começam a perceber o que é que está a acontecer, que tem que mudar o regime, e aí começam a agir a alguma parte. O que eu gostei muito, acho que são... Represionam as mulheres. Eu gostei muito dessa parte. Elas são as... fazem uma revolução assim mais... sem pensar tanto.

Mais imediata? Sim, mais imediata. Com o coração na boca? Sim, é exatamente isso. Mas depois também há outros que mediam mais ou menos essa situação e depois há uma revolução conjunta com todos os animais e é todos por todos. Que idade é que tu tens? Eu tenho 13 anos. E tu também? 13. E tu já percebeste dentro da história o que é que te agrada mais ou ainda estás a tentar perceber?

Eu acho que também foi um bocado a parte da nossa personagem, os burros, mas também a parte das galinhas. As galinhas tentam revolucionar e mudar o sistema, mas são oprimidas.

mas eu acho que os burros também são uma personagem muito importante e eu gostei porque eles percebem o que é que está a acontecer e tentam perceber mais e envolver-se na história, mas lá no fundo não fazem nada para que isso mude, mas acho que é uma boa personagem. Cláudia Eiras. Qual é a sua função, Cláudia? Estou aqui na coordenação do curso de dança da MBP. E qual é o balanço que faz? Há quanto tempo é que está cá nessa função e qual é o balanço que faz?

Este é o meu quinto ano, com a mesma equipa, iniciamos aqui juntos. O curso tem crescido, estamos contentes com o curso de iniciação de dança e com o curso integrado também. Como o professor Vítor referiu, também já temos aqui uma turma de ensino livre e estamos a crescer. Curso de iniciação, os alunos têm vontade de dançar, inscrevem-se na escola. O curso integrado é através de prova de seleção. Todos os quinto anos fazemos uma prova de seleção.

Quais são os requisitos que são mais valorizados? Valorizados são as capacidades físicas e as criativas. Ver os alunos a evoluírem cada vez mais é notório, não só tecnicamente, artisticamente, mas como pessoas. Notam-se que são alunos felizes, que vêm para a escola felizes. Isso é o melhor. Cláudia, não é? Cláudia Eiras. É fácil encontrar professores bem formados.

E eu já encontrei logo estes. Sinto-me feliz. Conheço muitos outros, mas é possível, sim. Há muitas pessoas com uma boa formação nisto. Já há esse caminho em Portugal, para dar uma boa formação. Sim.

O percurso da Academia de Música de Vilar do Paraíso, em Vila Nova de Gaia, dirigida por Luísa Coelho, tem sido um percurso de sucesso. Ainda assim, o pai, Hugo, lembra que nem tudo foram rosas. Mas claro que há pontos ao longo de 47 anos, pontos que não são fáceis, não é?

Há várias modalidades. A escola é uma escola particular, mas tem com o Estado celebrado o chamado contrato de patrocínio, desde 1990, e, portanto, há aqui regimes de frequência em que o Estado assume uma grande parte, ou até quase a totalidade, daquilo que é o currículo legislado. No caso dos alunos do primeiro ciclo, que estão a fazer curso de música ou de dança, o Estado dá um apoio.

e as famílias pagam uma outra parte, dá um apoio pequeno, e as famílias pagam um restante montante. A partir do quinto ano e até ao nono, os alunos podem estudar dança ou música em regime integrado, articulado ou supleitivo. No integrado e no articulado, aquilo que é componente curricular legislada

É assumido pelo Estado, dentro daquilo que é o número de vagas para cada ano letivo, e no regime supletivo os pais têm que fazer o pagamento dos custos também da componente curricular. No integrado e no articulado, como disse, o Estado assume essa componente e os pais apenas assumem as outras dimensões que não são o currículo legislado.

no curso de teatro musical ou no curso de música e de dança em regimes livres. Aí é feito pelas famílias, claro.

Mas quanto é que custa em média um aluno num dos regimes em que haja a compartilhação do Estado? Aquilo que o Estado financia é um valor que está estabelecido para cada curso, música ou dança, e para cada regime, mas é um valor que está estagnado desde 2010 e esse é um dos constrangimentos das nossas escolas, e esse é um dos pontos críticos.

porque já passaram muitos anos, com anos de inflação muito acrescida. Os estudos que temos vindo a fazer nós e as escolas em geral, ensino artístico especializado, demonstram que os custos são bastante superiores. No ensino integrado, por exemplo, rondarão os 9 mil euros por ano, por aluno. O curso de dança depende do ciclo, se é o segundo ciclo, se é o terceiro, mas também está muito perto deste montante.

Claro que no regime integrado o valor é bastante mais baixo porque só fazem cá a componente artística e não também a formação geral. Ainda assim, estamos a falar ali na ordem dos 4 mil euros, eventualmente. Portanto, estudar artes, música, dança, teatro musical...

É oneroso, até porque estamos a falar muitas vezes, no caso da música, de aulas individuais, portanto, um professor para um aluno. No caso da dança e do teatro musical, sendo aulas de turma, são turmas pequenas, com muitas horas de especialização, e, portanto, torna também tudo mais oneroso.

As escolas de ensino artístico, como as escolas no geral, têm o seu corpo docente e mesmo o pessoal não docente, que quanto mais estável e antigo, mais também dispendioso se torna para a escola. Nós privilegiamos ter um corpo docente estável, bem qualificado e temos um corpo docente que é muitíssimo estável, o que é muito positivo para todos nós.

É bom sinal. Por outro lado, depois tem este lado, que o Estado valoriza, mas depois na prática não valoriza do ponto de vista do apoio. Não efetiva. Não efetiva. E com esta estagnação desde 2010, sem dúvida nenhuma, que é para as escolas e para nós que temos esta especificidade.

é muito preocupante e asfixiante, sim, e implica começar a pensar se o Estado não tomar de facto aqui uma mudança de atitude, temos nós, escolas, e nós, academia em concreto, de pensar e refletir bem como é o futuro, porque não se torna possível de continuar desta forma. O futuro passa inevitavelmente, nesse caso, por aumentar os valores que os pais pagam para ter aqui os filhos a aprender.

passa por, no caso do regime articulado e do integrado, em que a componente de currículo é financiada pelo Estado, passa por deixar de que seja financiada pelo Estado, mas isso também limita o acesso às famílias. Portanto, é que caja muito o dilema nas nossas escolas de...

Para não ter o apoio do Estado, também deixamos de dar o benefício a muitas famílias, porque se está num ensino mesmo muito dispendioso e que fica acessível apenas a uma elite da sociedade, digamos assim. E essa é uma constranginha. Qual tem sido o vosso relacionamento com a autarquia? De muita proximidade. E isso traduz-se em que, concretamente?

Traduz-se no apoio conjunto em alguns projetos, consiste também em estarmos, sempre que há necessidade, até do ponto de vista artístico, de estarmos em alguns momentos também, de estarmos, de haver aqui uma proximidade de trabalho, de parceria, e que também nos tentamos colocar ao serviço da comunidade. Ainda no outro dia, por acaso, tínhamos uma reunião com o Presidente.

em que falávamos que era interessante os nossos alunos, que já fizemos isso em tempos e de retomar, fazerem ações de voluntariado que fosse benéfica para a freguesia, também no sentido de, desde cedo, estarem aqui ao serviço do outro e das necessidades do meio onde nós nos inserimos, portanto, quer através de irem ao centro social e de partilharem tempo com as gerações mais velhas.

quer através até de pequenos projetos em campos de férias, de contribuírem para a melhoria, até de casas e de outros bens, pronto, podermos estar aqui todos ao serviço. Eu acho que esta é uma das formas que nós temos de concretizar o apoio e a inserção no nosso meio.

Sempre que pedem-nos muitas vezes, solicitam-nos para fazermos um concerto solidário, para contribuirmos para uma causa da Junta de Freguesia, dos Bombeiros Voluntários de Valadares, da Câmara Municipal de Gaia. E isso são formas de nós todos, professores e alunos, de podermos concretizar estes apoios e de podermos fazer pequeninas diferenças nas vidas das pessoas.

Essa é uma das formas que nós temos de contribuir. E a outra, como o meu pai muito bem disse, é através dos alunos que saem daqui e que nas diferentes áreas, na música, na dança e no teatro musical, fazem também depois a diferença no meio artístico e outros alunos na formação geral que também fazem depois a diferença, mas muito em concreto no meio artístico, pois claro.

Qual é o corpo docente que tem? Qual é o número de professores e nas diferentes dimensões?

Nós temos mais de 80 professores, são quase 100. E há bocadinho perguntava também como é que a escola chega aqui, como é que faz a diferença. E acredito muito que é o corpo docente, são as pessoas que aqui trabalham, o corpo não docente também, naturalmente, mas são as pessoas que aqui trabalham que fazem a diferença total no dia-a-dia. São professores muito empenhados, que se identificam muito com o projeto educativo, que procuram...

Trazer ao do aluno o melhor que ele tem, fazê-lo superar-se, fazer projetos diferentes. E isso é absolutamente incrível. Claro que no curso de música é onde temos mais professores, são mais de 50. E porquê? Porque são aulas individuais e, portanto, são precisos mais professores para corresponderem àquilo que é as necessidades. Mas em todas as áreas, todos eles fazem essa diferença, naturalmente.

O professor Hugo ainda tem paciência para ouvir música? Claro que sim, paciência e gosto, claro, claro que sim. Quais são as suas preferências? Eu digo que gosto de quase todo o género de música, desde que ela seja boa e a circunstância também. Mas realmente gosto muito de música clássica, sem dúvida. Quais são para si os momentos mais interessantes, aqueles que recorda com mais prazer, associado obviamente à academia?

Eu digo que aqui na Academia passo momentos muito felizes também, e um dos momentos mais felizes que eu tenho é quando vimos um aluno realmente atingir aquilo que é o objetivo que a Academia tem, que é a conclusão de um curso de música. Para mim realmente é um momento muito, muito feliz, pois há momentos realmente inesquecíveis, como...

as realizações dos concertos finais que nós temos, a participação da Academia em muitos países, onde temos participado em concursos internacionais e que temos tido também prémios muito, muito bons. Portanto, tudo isso são, efetivamente, momentos felizes. Este edifício onde nós estamos surge quando?

Surge em 2009, foi uma ideia que foi, digamos, que foi dos meus filhos, que disseram, vai, tínhamos que construir uma escola de raiz mesmo, e assim foi, surgimos desta oportunidade, deste terreno, e como estamos, portanto, em 2008 e em 2009, foi, portanto, a abertura da escola. Como é que foi esse processo, Luísa?

Bem, foi um grande desafio, um misto de entusiasmo com medo também, naturalmente. Na altura o arquiteto teve a ideia, e acho que muito bem, de ter um conselho de acompanhamento, como ele chamou, que foi ter professores das nossas diversas áreas a contribuírem para aquilo que era aqui o nosso projeto Depois de Casa. E é um edifício que procura dar resposta às diferentes valências, portanto, à música, às suas especificidades, à dança.

e à teoria musical e à formação geral. Portanto, há aqui um núcleo que é mais destinado às aulas da música, com salas teóricas e também salas, diversas salas de instrumento, portanto, salas mais pequenas para esse efeito. Há outro núcleo que é aqui mais com salas práticas para dança, estúdios de dança e teatro também, também sempre com salas práticas. Depois surgiu também a necessidade, no âmbito da formação geral, de termos as especificidades como um laboratório.

de Ciências, temos auditórios naturalmente, dois pequenos auditórios para ensaios e pequenas audições, temos um outro auditório que surge mais tarde, numa segunda fase de construção, já com um pouco maior para algumas audições e concertos maiores, uma biblioteca também, uma cantina, temos um espaço exterior também.

agradável, ainda que seja aqui um dos nossos pontos de necessidade de melhoria, ter uma sala de alunos, um espaço fechado quando chove, condições para os alunos também estarem melhor nesses momentos de lazer. E depois aqui um serviço, um núcleo central de apoio de serviços. Portanto, acabamos por ter aqui uma estrutura que faz quase que um U ou um E, em termos de desenho.

Tenho uma estimativa desde que esta escola começou em 79 até 2026, de quantos alunos já passaram por aqui? Ou é uma pergunta sem resposta, difícil de contabilizar? É difícil de responder. A academia começou com cerca de 80 alunos em 79.

E foi sempre crescendo ao longo dos anos, agora estamos estáveis e também queremos não crescer mais, mas, portanto, com 80 alunos em 79 que começou e hoje com quase mil, portanto, são muitos, são muitos.

Estamos nos 900 mil desde, sei lá, desde a altura de 2020, talvez, quando começamos na casa mãe, como chamamos, até 2008, 2009, estávamos nos 500, 600 alunos já nos últimos anos. E depois aqui começamos a crescer e passamos para os 900 alunos ali por 2015, talvez.

Isso implica um orçamento anual de que valor, mais ou menos? É um orçamento grande, mas anda ali na ordem dos 4, 5 milhões de euros. Por ano? Por ano. Para gerir a escola, para pagamento aos professores, para tudo que é necessário. Isso. Como é que entrou o teatro musical? Porquê é que ele cresceu?

Bem, isso já foi há muitos anos atrás. Começou com antigos alunos, dois antigos alunos em concreto, que começaram aqui com um coro chamado Coro Ligeiro na altura e iam trabalhando também em repertório ligeiro e também de musicais. E depois, para além de cantar, começaram a surgir pequenas coreografias, pequenos movimentos.

pequenos excertos de musicais, até que houve uma altura em que se desenvolveu e montou, digamos assim, a produção de musicais como o Jesus Cristo Superstar ou o Rei Leão, que percorreram na altura o país todo e as ilhas inclusive, e isso foi alimentando a paixão por muitos profissionais da área de hoje.

Lembro-me da C. Martins, o João Guimarães, o Artur Guimarães e outros nomes, não quero estar a ser injurto ao descrever aqui e enumerar ninguém, mas pronto, alimentou efetivamente uma grande paixão nestas pessoas e de nossa parte também o gosto e a vontade de fazer mais por essa área.

Na altura, era feito, como disse, de uma forma menos estruturada, no âmbito daqui de um cor que começou, depois com a produção destes musicais. Queríamos fazer mais e então começamos a pensar em estruturar efetivamente um curso. Na altura, depois, em 2003...

procuramos junto do Ministério da Educação o reconhecimento deste curso porque achamos que era importante para os alunos. Foi um processo muito moroso e difícil e, no entretanto, achamos que, pensando também no percurso dos alunos, seria benéfico irmos procurar parcerias com universidades de Londres e assim fizemos, fomos procurá-las. Estabelecemos uma parceria na altura com uma universidade muito prestigiada que foi a Mount V Academy of Arts.

que nos ajudou a estruturar o curso quase como ele é hoje, um curso livre, ou seja, quando eu digo livre, que não tem graduação aqui por parte do Ministério da Educação, mas que tem uma estrutura de dois anos muito organizada.

e foi com eles que nasceu também esta estrutura de curso, e ao mesmo tempo, durante muitos anos, eles vinham cá, certificavam também os nossos alunos, e nós íamos lá todos os anos, portanto, com os alunos, para que eles pudessem ter aulas, inclusive na universidade, ter aqui esta valência.

Depois esta parceria foi dando lugar a outras parcerias também e à continuidade do curso como ela é hoje. Quero acrescentar alguma coisa neste domínio, alguma ideia que lhe tenha passado pela cabeça sobre o crescimento da formação em teatro musical.

Não, acho que a Luísa já disse tudo, mas recordo-me realmente que foi através de um antigo aluno que realmente começou a surgir esta parte do teatro musical, com a criação do Justiça Superstar, tudo feito por alunos da academia e que foi um incentivo grande para que a partir daí realmente criássemos o curso de teatro musical.

Houve aqui dois alunos, essencialmente, que eu acho que se pode dizer que eles são, que na altura, hoje, onde eles é nosso professor, ou de uma carreira também muito reconhecida, que foi o Rui Macena e o Ernesto Coelho, portanto, foram os dois que começaram com este movimento aqui de introdução ao teatro musical. Os vossos alunos são maioritariamente de Vila Nova de Gaia?

Maioritariamente sim, não em exclusivo, mas a maioria sim. Mas vêm de outros concelhos, também Santa Maria da Feira, Matosinhos, Senhora da Hora, São João da Madeira. Tem a lista de espera, todos os anos há muita gente à procura da academia ou essa procura tem vindo a diminuir? Qual é a radiografia que faz?

Nós não sentimos que tem vindo a diminuir, pelo contrário, temos sentido uma maior procura nos últimos anos. Acho que as mulheres também estão cada vez mais preocupadas com uma formação mais global, mais holística para os seus filhos. Nós aqui sentimos isso, particularmente no que diz respeito à entrada na iniciação, portanto ao longo do primeiro ciclo.

E depois muito também no quinto ano, aí sentimos uma procura muito grande e em que não conseguimos dar resposta a toda a procura que temos.

Entre corredores onde o som nunca se cala, salas onde se ensaia o erro e se procura a harmonia, ficam os sonhos de quem aprende e de quem ensina. A Academia de Música de Vilar do Paraíso é mais do que um edifício, é um lugar de passagem, de disciplina e de descoberta, onde o futuro se escreve em pautas e o presente se vive nota a nota ou passo a passo.

Neste episódio de Porque Vivo Aqui, escutamos os anseios de alunos e professores, partilhamos o quotidiano de uma escola onde a música e a dança molda pessoas e cria comunidade.

Porque vivo aqui com a voz de Inês Forjás. Porque vivo aqui, um podcast de António Jorge. Porque viver aqui também é aprender a ouvir, a persistir e encontrar sentido no som ou no palco.