[Boletim Tanin] Vinho 100 Pontos no Brasil, Crise no Mercado e o Lado Oculto do Vinho #EP07
O vinho brasileiro pode chegar aos 100 pontos?
No Boletim Tanin #7, a Ana Luiza Leal traz uma análise profunda dos bastidores do mercado — com histórias que vão do topo da crítica internacional ao mercado ilegal bilionário no Brasil.
Neste episódio:
🍷 Um projeto de R$ 380 milhões na Campanha Gaúcha com um objetivo claro: criar o primeiro vinho brasileiro nota 100
🇫🇷 Pascal Marty — passagem por Château Mouton Rothschild, Opus One e Almaviva
🏛️ A crise nos bastidores da Berkmann e o futuro da Antinori no Brasil
🌍 Mudança climática vs tradição: produtores abrindo mão de denominações de origem na Europa
🍇 VIK Winery — a vinícola mais inovadora do mundo e seu projeto no Brasil
🍽️ Taxa de rolha: o debate que virou lei no Rio de Janeiro
🥂 Mercosul x União Europeia: por que espumantes vão mudar de preço (e Champagne não)
🚨 O mercado ilegal de vinho no Brasil — mais de R$ 2 bilhões por ano
Se você trabalha com vinho, investe, ou simplesmente quer entender melhor o que está por trás da taça, esse conteúdo é pra você.
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Ana Leal
- Mercado ilegal de vinho no BrasilContrabando · Descaminho · Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras · Marcelo Copelo
- Vinho brasileiro nota 100Projeto Grand Terroir 31 · Pascal Marty · Luiz Eduardo Batalha · Wine Advocate / Robert Parker
- Crise Berkmann e AntinoriBerkmann · Antinori · Mariano Levi · Gran Cru
- Mudancas ClimaticasDenominações de origem · Château Lafleur · Pomerol · Valle de France
- Acordo Mercosul-UEMercosul · União Europeia · Espumantes · Champanhe
- Crise na importadora Berkmann e AntinoriFuturo da Antinori no Brasil · Mariano Levi · Susana Barelli
- Taxa de rolha no Rio de JaneiroRegulamentação · Eduardo Paes · Transparência
- Mudança climática e denominações de origem na EuropaChateau Laflaire · Domaine de Barô Narquet
- Inovações da VIK WineryChristian Valerio · Projeto no Brasil (Araçoiaba da Serra)
- Vinhos e EnologiaVIK Winery · Christian Valerro · Vale do Cachapoal · Stonevick
- Impacto do acordo Mercosul-UE em espumantesPreços de Cava, Cremant e Franciacorta · Suzana Barrelli
- Regulamentação da taxa de rolha no Rio de JaneiroDebate sobre cobrança em restaurantes · Daniel Salles
Oi, eu sou Ana Leal, jornalista, especialista em vinhos, e esse é o Boletim Tanim no canal do Suncash. Toda semana eu trago um resumo do que aconteceu no mundo do vinho. E no episódio de hoje eu vou falar de um enólogo francês que trabalhou no projeto do Opus One, no Alma Viva e no Chateau Mouton Hot Shield, super currículo.
E agora está na campanha gaúcha com uma meta declarada, fazer o primeiro vinho brasileiro nota 100. E o foco dele é conseguir a pontuação da Wine Advocate, Robert Parker. Esse projeto tem um empresário por trás que investiu milhões, mas nunca bebeu uma gota de vinho na vida, vocês acreditam? Vou falar também sobre a crise nos bastidores da importadora inglesa.
que representa a vinícola antinore na Inglaterra e no Brasil. Essa história rendeu bastante, eu vou contar um pouquinho por aqui. Tem uma história sobre mudança climática e denominações de origem. Alguns dos produtores mais respeitados da Europa estão abrindo mão dessas conquistas, desses selos que levaram gerações para construir por conta disso, das secas e das temperaturas diferentes. Isso é super triste.
Depois falo da chilena Vick, muito querida aqui no Brasil, para contar que o enólogo Christian Valerro está super nas experimentações. O vinho mais radical da casa está fermentando seguindo as fases da lua, descansando em ânforas alinhadas seguindo pontos de energia, princípios astronômicos. Tem também uma discussão que está virando lei no Rio, a taxa de rolha. Cada vez mais restaurantes estão parando de cobrar na cidade.
Falo sobre o primeiro efeito concreto do acordo Mercosul-União Europeia, que é para quem bebe espumante ou vende. Algumas cavas, cremã e frente a cortas ficam mais baratos para importar a partir de agora. Champanhe não, eu vou contar porquê. E para fechar, vou falar sobre o contrabando de vinhos.
que é, no fim das contas, o maior importador de vinho aqui no Brasil. Só que não tem CNPJ, não paga imposto, entrega na sua porta pelo WhatsApp, mas é só isso. O mercado ilegal passa de 2 bilhões de reais por ano. Um absurdo, gente. Fica até o final, tem muita coisa boa.
Um empresário que nunca bebeu vinho na vida está investindo 380 milhões de reais para fazer o primeiro vinho brasileiro nota 100. E contratou um dos enólogos mais experientes do mundo para isso. O nome do enólogo é Pascal Marti. Ele é francês, radicado no Chile. Passou 20 anos no Chateau Mouton Hot Shield. Depois trabalhou no Opus One e no Alma Viva. Dois dos vinhos mais admirados do planeta. A jornalista Mariane Piemonte foi lá contar essa história na Veja.
Agora, o Pascal, o Marti, está na campanha gaúcha, comandando o Grand Terroir 31. Esse é o nome do projeto. São 49 hectares divididos em parcelas de 1 hectare, vendidas a investidores por cerca de 2 milhões e meio a unidade. Então é um esquema meio condomínio vinícola. Cada um tem o seu vinhedo, o seu rótulo, o seu vinho. A primeira safra está prevista para 2027. A meta decorada não é uma nota alta. É 100. É gabaritar e não há netificat.
O empresário por trás disso é o Luiz Eduardo Batalha, que chegou ao vinho pela agropecuária. Ele criou gado, angus, plantou oliveiras e virou um dos maiores produtores de azeite aqui do Brasil. O vinho veio depois. Mas uma coisa ele nunca fez. Beber vinho. Para ele isso é negócio e legado. A taça não precisa chegar à boca dele para fazer sentido.
Os bastidores das importadoras de vinho ferveram nos últimos dias, no centro da mesa, o futuro da Antinori no Brasil. A Marquesa Antinori tem mais de 600 anos de história. No Brasil, é a marca italiana mais vendida, quando a gente está falando de valor, e ainda tem o Super Toscano Tinha Nelo, outra marca super importante.
Quem representa isso tem um ativo muito valioso nas mãos, e é o caso da importadora Berkman, gigante inglesa, que tem uma operação aqui no Brasil. Mariano Levi, CEO da Berkman, anunciou sua saída de forma conturbada pelas redes sociais depois de seis meses no carro. A Susana Barelli foi quem deu o furo no estadão. O Levi, argentino, fundou com o pai a Gran Cru na Argentina e, antes de assumir a Berkman, tinha criado a Vinescence, uma importadora boutique.
Ele disse que saiu para focar na vina, mas que segue no conselho da Berkman. Mas aí vieram os rumores de que Antinori estaria conversando com outras importadoras, o que é normal do jogo. Mas a resposta da Berkman foi corajosa. Convocaram uma coletiva de imprensa em formato de almoço com o diretor de estratégia vindo da Inglaterra especialmente para isso. Eu estava lá. Raramente uma importadora expõe os bastidores dessa forma, né? Muito corajoso realmente o movimento.
E a Antinori confirmou que fica na Berkman. A importadora também confirmou que cresceu em vendas nesses últimos meses com o Mariano à frente, mas que rentabilidade e fluxo de caixa viraram um problema. Não vai ter um CEO novo por hora. Os ingleses vão ficar mais próximos e deram um voto de confiança na diretoria atual. E a estratégia muda. Menos marcas no portfólio, mais foco. As escolhidas são Antinori, Montes, Rittitelli, Simonefeb, Alegrini e Torres.
Vamos acompanhar aí os próximos passos.
Depois dizem que não existe mudança climática. Alguns dos produtores mais respeitados da Europa estão abrindo mão das denominações de origem que levaram gerações para construir por causa da mudança climática. Essa história foi contada pela Iana Cassio, no Neo-Finge. A Oceana França, a Deocena Itália, durante séculos, esses sistemas foram sinônimo de tradição, de qualidade. Dizem de onde o vinho vem, como ele foi feito, o que pode, o que não pode no processo de construção desses vinhos.
E construíram reputações que levaram gerações. E agora, alguns produtores estão abrindo mão deles voluntariamente. O Chateau Laflaire, de Pomerol, uma das regiões mais prestigiadas de Bordeaux, trocou a OAC pela classificação Valle de France, que é a categoria mais básica da hierarquia francesa, sem indicação geográfica. E a mudança vale a partir da safra 2025. Por que isso?
As regras da OCEI Pomerol proibiam técnicas de proteção das videiras contra o estresse causado pelo calor. Seguir as regras significava aceitar um clima que não existe mais. O Domaine de Barô Narquet, da família Rothschild, fez um movimento parecido no sul da França, migrando para uma IGP desde a safra de 2023.
O paradoxo é esse. Esses sistemas foram criados para proteger a autenticidade do terroir, só que o terroir mudou, o clima mudou e as regras não acompanharam, pelo menos até agora. O que protege mais o vinho? A oijem certificada ou o produtor que abre mão dela para salvar o vinhedo?
Você conhece a Vicky, né? Vinícola Chilene, eleita melhor do mundo pelo World's Best Vineyards em 2025, muito querida aqui no Brasil. E hoje eu tô aqui pra falar das experimentações do enólogo-chefe, o Christian Valerio. Quem contou essa história foi o Vinícius Mesquita, no Vamos de Vinho no UOL. Em 2004, um pouquinho de história, um casal norueguês contratou enólogos, climatologistas, geólogos e engenheiros agrônomos pra encontrar o melhor terroir da América do Sul.
E o lugar que eles encontraram foi em Milájoe, no Vale do Cachapual, no Chile, chamado pelo povo originário, os Maputes de Lugar do Ouro. Essa propriedade se chama Vique. Valejo está construindo uma linguagem que parte do lugar e não do livro.
O vinho mais radical dele, chamado Stonevick, passa por fermentação guiada pelas fases da lua. Amadurece em barricas feitas pela própria vinícola, combinando carvalho francês e carvalho chileno, num conceito que ele está chamando de barroar. Depois descansa em 14 ânforas de argila nativa.
no topo de uma montanha, dentro de um círculo de árvores com mais de 250 anos, que, quando a equipe chegou no lugar, já formavam um círculo naturalmente. Investigaram e encontraram um ponto de energia, segundo eles. As ânforas foram alinhadas segundo princípios astronômicos para conectar o vinho ao Sol, à Lua e aos astros.
E o Brasil entra nessa história também. A VIC abre, em 2027, um empreendimento em Araçoiaba da Serra, aqui em São Paulo, no interior, com hotel de luxo, áreas e piscina de surf. Tomara que essa filosofia venha junto.
O que você acha da cobrança de taxa de rolha em restaurante? Por que no Rio essa discussão virou regulamentação? Cada vez mais restaurantes cariocas estão parando de cobrar, sem pressão, sem obrigação, por decisão própria. E quem ainda cobra começa a sentir que está na contramão. O Daniel Salles contou essa história no Valor Econômico. Em dezembro, a Câmara do Rio aprovou uma lei regulamentando a prática de cobrança por rolha.
O então prefeito Eduardo Paes sancionou em janeiro. O objetivo não foi proibir nem impor, mas trazer transparência. O cliente precisa saber antes se o restaurante aceita vinho de fora, quanto cobre e o que está incluído nesse serviço. Tem quem defenda a isenção há anos. A lógica.
Quem leva vinho tende a pedir pratos mais caros. O tiquete médio, em teoria, sobe. Mas tem o outro lado. Um restaurante que isentava totalmente a cobrança da taxa de rolha recebeu um grupo de seis pessoas que levou 18 garrafas. Eles ficaram lá sete horas no restaurante e pagaram só 450 reais com petiscos.
Depois disso, esse restaurante adotou a cobrança de R$ 50 por garrafa, com isenção se a segunda garrafa vier da própria adega. A turma é cara de pau, né? A questão é, se a moda pega, como é que fica a conta para os restaurantes?
Desde o início de maio, alguns pomantes premium, como cava, cremã e frente à corta, ficaram mais baratos para importar aqui para o Brasil. E o champanhe não. Esse é um dos primeiros efeitos concretos do acordo Mercosul-União Europeia, que entrou em vigor agora em maio. A Suzana Barrelli detalhou tudo isso na newsletter do Guia dos Vinhos.
O imposto de importação de 20% foi zerado para espumantes que não são champanhe, desde que o preço de origem esteja acima de US$ 8 o litro, o que na prática inclui os rótulos que costumam custar a partir de R$ 150 a R$ 200 na gôndola, preço final para consumidor.
O champanhe, especificamente, ficou de fora dessa lista. Tomaram essa decisão que os 20% que vigoravam até abril vão cair 2,2 pontos percentuais por ano e só chegam a zero em nove anos. O resultado prático disso. A distância de preço entre o champanhe e os outros espumantes premium vai aumentar. Nada disso vai chegar amanhã na gôndola.
Os estoques que já estavam no Brasil seguem com a tributação antiga e as importadoras provavelmente vão recompor margens antes de repassar qualquer redução para o consumidor. Mas a estimativa é de pelo menos 10% de queda no preço com o tempo. E o espumante brasileiro, hein? Ele está protegido. Os espumantes importados de entrada e abaixo desses que a gente falou aqui em valor, eles continuam pagando 20% de imposto por mais 12 anos.
O maior importador de vinho do Brasil, não tem CNPJ, não paga imposto, é o contrabando, o descaminho, o contantinho ilegal de vinho do Zap. O mercado ilegal passa de 2 bilhões de reais por ano. Toda semana tem a apreensão. Porto do Rio, divisa com a Argentina, interior do Paraná, centenas de garrafas sem nota, sem documentação, sem pagamento de imposto, virou rotina isso.
Mas o tamanho desse mercado é muito maior do que qualquer operação isolada sugere. Segundo pesquisa do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras, com coautoria do Marcelo Copelo, que é um dos críticos de vinho mais influentes do Brasil, o mercado ilegal supera R$ 2 milhões por ano. É mais do que tudo o que o Brasil importa legalmente de Portugal, França e Itália juntos.
E os órgãos de segurança estimam apreender entre 5% e 10% do que entra. Quem trabalha no setor conhece o fenômeno de perto. O contatinho de WhatsApp é aquele número salvo no celular que entrega vinho na porta de casa, sem garantia de procedência, quem trabalha no setor conhece o fenômeno de perto.
que é o contatinho de WhatsApp, né? Aquele número salvo que manda aqueles PDFs ou aquela mensagem prometendo entregar vinho na porta de casa sem garantia de procedência, sem rasteabilidade, com preço atrativo garantido. Afinal, até 60% do preço de uma garrafa legal é imposto. Então, o que será que resolve esse problema, hein?
E é isso por hoje, foram sete blocos. Falamos sobre o enólogo badalado que quer fazer o primeiro vinho brasileiro nota 100, com um investidor que nunca bebeu vinho na vida bancando a aposta, a crise nos bastidores da Bergman e a confirmação de que a antinorifica. Falamos também sobre os produtores europeus abrindo mão das denominações de origem para sobreviver às mudanças climáticas. Sobre a Xelena Vick, que guia a produção pelos artes e já tem projeto no Brasil de enoturismo para 2027.
Falamos também sobre a taxa de rolha que ganhou regulamentação no Rio e sobre o primeiro efeito concreto do Acordo Mercosul-União Europeia. Para quem bebe espumante, cava, crimã e frontiacorta devem ficar mais baratos. Champanha ainda espera. E o mercado ilegal de vinhos que passa de 2 bilhões de reais por ano, maior do que tudo que o Brasil importa legalmente de Portugal, França e Itália juntos.
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