Excursão a Espanha
Neste episódio de Safoda, fomos em excursão a Espanha — mais precisamente a Merdancho, terra de presunto seco, carros coloridos e espanhóis que falam português como se estivessem a fazer muita força.
A missão era simples: descobrir as grandes diferenças entre Portugal e nuestros hermanos.
Rapidamente percebemos que eles são mais espalhafatosos, ganham mais, pagam menos e vendem ração a preços capazes de justificar uma viagem internacional.
O cão, obrigado a passar todo o percurso no chão do autocarro por alegada incompatibilidade entre unhas e bancos de napa, exigiu justiça. Primeiro, propôs encher os lugares vagos com sacas de ração espanhola. Depois, anunciou a criação do Sindicato do Cão Bonzinho, uma organização dedicada a dar voz aos cães e a combater o domínio dos gatos vadios.
Daniel Rafael recordou, com emoção, a importante contribuição cultural das cassetes VHS espanholas para a sua adolescência. João Vítor falou de carros, caramelo e amor. E o senhor Viriato apresentou um plano diplomático simples: levar o rei de Espanha para Portugal, ensiná-lo a falar português e esperar que todo o país abandone aquele português mal pronunciado a que chamam espanhol.
Quando pensávamos que a situação já não podia ficar mais internacional, apareceu Dolores de Merdancho.
Dolores gosta de portuguesas de bigode, não compreende porque só há homens no grupo e acabou convidada para uma futura entrevista — depois de umas canhas e umas tapas, naturalmente.
No final, não sabíamos se tínhamos feito turismo, fundado um sindicato, preparado uma invasão linguística ou iniciado um incidente diplomático.
Mas é isso o Safoda.
Às vezes, atravessa-se a fronteira à procura de cultura.
Às vezes, volta-se com ração barata, uma perna de Ramón e o contacto de uma espanhola.
E a única coisa a dizer é…
hasta luego —
e safoda.
Daniel Rafael
Dolores de Merdancho
João Vítor
Senhor Viriato
- Comércio Portugal Espanha· EconomiaExtravagância espanhola·Linguagem e sotaque·Preços de ração e gasóleo·Cultura de VHS espanholas
- Viagem a CartagenaViagem de autocarro·Merdancho·Ração barata·Perna de Ramon·Caramelos
- Linguagem e expressão pessoalPortuguês falado em Espanha·Influência cultural das VHS·Proposta de colonização linguística·Dolores de Merdancho
Olá, hoje viemos numa excursão visitar nossos irmãos A Espanha, mais precisamente, Merdancho. Estamos em Merdancho.
Opa, ainda não é espanhol a nenhuma de jeito, não sei o que é que se passa aqui, mas a viagem, a viagem não foi má, pá. Isto até se faz, nós tanto dormir ali, passar um bocadinho pelas brasas, isto faço no estante.
Eu, eu é que tive que vir sempre do chão, que não me deixaram sentar numa cadeirinha como vocês, que vieram bem confortáveis.
Porque é que eu tive que vir do chão, senhor meu dono?
Só porque os bancos são de napa, daquela napa muito fininha, e porque eu tenho unhas. Ponha uma colchinha bem quentinha para eu vir mais bem confortável. Sou sempre que no chão. Só porque tenho um corpo de cão?
olha que isto aqui faz calor! Oh, por isso é que eles têm o presunto mais seco que a gente!
Oh!
Epá, não sei se isto em Espanha é melhor que lá. Ainda me engana. O cheiro no ar também se calhar é do nome, é verdade, sou nascença, mas é... Vamos!
Começar com o nosso episódio e vou-vos fazer a primeira pergunta. Para vocês, qual é que é ou quais são as maiores diferenças entre Portugal Espanha.
Epá, eu posso já começar, que é preciso notar aqui que eu quero é ir beber umas cañas, ou como é que isso se chama, essas cervejas de pressão aqui dos gajos, porque já estou, mas venho cansado, venho já com uma puta larica, vi sempre ali, não, ser gasololado entra que então não está qualquer coisa que nos dá banho. Mas pronto, olha, começas aí, por exemplo, os espanhóis têm os carros todos muito coloridos, é verde e sol, que é amarelo e mostarda, é É aquele vermelhão, vermelhão, vermelho mesmo vivo.
E a gente não, a gente somos mais sóbrios, é assim carros brancos, cinzentos e pretos. Pronto, somos assim porque compramos um carro para a vida. Agora eles não, pá, notam-se mesmo a essa sua da vida. É como aquelas velhas que a gente vê, que já deviam de estar em casa quietitas, não andam todas as peças na rua. Com uns óculos modernos em massa grandes, que a gente vê uns óculos e a seguir é que vê a pessoa lá atrás com umas pernitas a andar.
Os espanhóis são muito espampanantes, pá. No meu ver são mais espampanantes que o português, é assim mais, pronto, mais recatado, mais assim, mais escondidito na sua maneira. Eles não, pá. Têm sempre a puta da maneira e se afosa, mostram-na.
Enfim, obrigado, João Vítor. Ficámos com a sua opinião de que os espanhóis mostram de uma certa maneira mais extravagância.
Senhor Viriato, E para mim, espanhol, espanhol, quando a gente diz assim, aquele espanhol, é quanto, quanto não se percebe falar. É espanhol, oh, fala espanhol, oh. É um português maldito, é um português que nem é bom em falar. Eles nunca, nunca, nunca apreenderam o falar bom ao português. Por isso é que falam espanhol, não aprenderam, não sabem falar português como a gente. E então falam espanhol. Eita diferença que vejo é na língua.
Eles parecem que tão no cenito aflor. Tem um fulano aí assim, como tivesse um cagão. Ô, tá mal? Por que que eles fazem tanta força? Pô, fulano, espanhol, fala assim, como se tivesse um cagão. Ô, amor e não se percebe nada, só se pensa assim: oh, espanhol que é cagão e não pode.
Obrigado, senhor Viriato, é de facto uma observação muito delicada. Cão, o que achas, se achas alguma coisa, sobre a diferença entre Portugal e Espanha?
Eu? Sou já eu a falar?
Olha, para mim, a grande diferença é que a saca de ração do cão, a saca que eu como, é muito mais barata em Espanha. Diz que é como o gasóleo e como o gás.
Como é que os espanhóis têm tudo mais barato se ganham mais?
Se nós mudássemos aqui em Espanha, podia comer muito mais pelo mesmo preço que tu pagas por uma saca de ração em Portugal. Quantos lugares vagos aqui tem o autocarro para a gente ir para trás, cheios de sacas de ração para poupar dinheiro durante um ano ou dois, dono? É isso que eu acho. Aqui a saca da ração é muito mais barata, dava para comer muito mais com o mesmo dinheiro. Não era poupar dinheiro, porque isso é estúpido, era comer mais, que eu estou sempre cheio de fome.
E quero provar aqui os sabores diferentes de nossos hermanos, que nunca comi, nunca comi ração espanhola, como sempre uma ração que nem se sabe onde é que aquilo vende as mais baratas. E aqui podíamos comprar uma ração já de marca bonita, com o rótulo dourado, porque aqui não é muito caro, que os impostos aqui são muito mais baratos, dono. Podemos começar a vir aqui sempar ração, compensa, pensa nisso. E ainda enches o carro de gasóleo, que vai para trás e poupa.
Pensámos que não, mas estamos a poupar. Um domingo, por exemplo, podíamos cá vir sempre comprar ração. E depois aqui a Espanha tem outra coisa, é que o PAN lá, que é o Partido dos Animais e da Natureza, que defende mais gatos do que cães, mas pronto, isso é outra coisa, que eu um dia ainda vou criar um sindicato do cão, porque não temos voz nenhuma, os cães não têm voz nenhuma dentro do PAN. E aqui o PAN é bem melhor, porque o PAN é espanhol.
É pão! É pão! Podíamos estar sempre a comer pão! Comer pane! O pane em Espanha é muito mais fixe do que lá em Portugal, que é uma organização que só defende gatos vadios. Querem que os gatos vadios sejam todos bem tratados. Está mal que eles arranham tudo! Já disse isto aqui, fui dizendo. Eu vou criar, e fica já aqui, fica já aqui lançado, o desafio para criar um sindicato do cão bonzinho. Quer dizer, gato do combozinho contra os gatos badios maus, muito maus.
E em Espanha há muito gato também, eu já vi 2 ou 3. São espanteados, não sei porquê.
Obrigado, cão. Interessante, como sabes os preços da ração em Espanha?
Eu já vi altidores. E a moeda é a mesma, os números são muito mais pequenos do que lá.
Porque aqui estás a ver tudo.
Eu, como vi no chão do autocarro, tive sempre a olhar para as vistas, nem conseguia adormecer, porque é muito, muito esbarradio aquele chão e desconfortável. E tive sempre a ver tudo. E mal entramos em Espanha, só publicidades de comida para cão muito mais baratinha. Muito, muito, muito, muito mais baratinha.
Como ainda não temos patrocínios, não vamos falar de produtos alimentares para cães porque pensam que nos estão a pagar e não. Daniel Rafael.
Opa, olha, eu sei porque você fala espanhol. O que, que coisa, Espanha? Ah pá, lembro-me e até me vêm as lágrimas aos olhos de saudosismo daquele tempo, em 1990 e qualquer coisa, que eu tinha uma coleção escondida, tinha uma coleção escondida por detrás de uma cómoda da minha avó de VHS, VHS bons mas bons, Qual é a Gina Favorita?, Bananas e Dois Pêssegos, Descascadas Mas Boas, pronto. Mas aquilo, elas só falavam espanhol naqueles BGS.
Oh pá, e dá-me umas memórias da adolescência que a gente— oi, sim, carinho, que me gusta, que tal, ponga-te o póio aí, isso, isso, na ventanilha, que bem que vais, dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe com força, dá-lhe, tio, dá-lhe, dá-lhe, ui, ui, ui, ui, opa, isto, isto, isto para mim é que é vida, isto é que é viver, é a gente recordar, não é? Recordar é ver. E portanto, era isso que Espanha tem melhor que nós, é este histórico, estas coisas saudosistas dos BGS.
Agora, BGS portugueses, não havia nada, não sei, era, não sei, não sei, não sei, não sei, não sei, parece que não puxava tanto como o BGS das chicas desnudas e do tio peludo em pelota. E então É assim, eu sei falar, sei falar, falar e falar e falar e falar e falar. Sei falar um pouquinho de espanholitos, senhoras, sei, e bem, e muito bem, por causa dos meus viajes para se mirar na TV com os desnudos das chicas espanholas. Sim, sim, sim, sim.
Obrigado, Daniel Rafael. Por essa tua viagem à tua adolescência em frente a um televisor.
¡Hostia! ¿Qué pasa aquí? ¿Quiénes sois vosotros? ¿Quiénes sois vosotros? ¿De dónde venís? ¿Qué hacéis en mi rancho?
¡Oh!
¿Qué pasa?
Perdona, música, estamos grabando. Um podcast, como lo dicen los españoles.
¡Hostia! ¿Mas quiénes sois los otros chicos? Es que, es que esta ni merda han hecho de nada.
¡Oh, pa, portugués! Então parece-me agora aqui uma espanhola, com ar masculino, com o cabelo todo rapado só de lado. ¿Qué es, pa? ¿Que por mí jogas nout campeonato?
Uy, epá, deixa estar a rapariga que ela tá só, tá só, tão curiosa, apesar de que há 20 anos que ela olhou para a minha carinha, olhou aqui e apareceu, apareceu não sei o quê, epá.
Tu não vês que ela já...
Hostia, es que isto assim não pode ser. Vosotros lo están aqui haciendo estes diálogos que nosotros no lo percebemos. Porque não vou comprar um bocadillo com Ramón, o sea, sí.
Ora, isto é uma boa ideia. Eu também percebo espanhol.
Bom, vamos pôr ordem nisto. Chica espanhola, como te ambras?
Sou a Dolores de Merdanço e estou aqui para vos contestar que estou nascendo aqui em Merdanço.
Então, como te dissemos, estamos a gravar um episódio sobre Espanha e te vou fazer uma perguntita: o que é que te gosta em Portugal?
A mim me gusta las chicas portuguesas.
E não disse, e não disse que eles jogavam todo o campeonato?
Me gusta las chicas portuguesas de bigote, que nadie las jode.
¡Opa! Gosto de miel de bigote. Por mi bigote familiar, he probado un bigote español. ¡Dolorse, dolorse!
Pero vosotros sois bienvenidos a la España, pero porque son solo hombres y chicos y no hay Nenhumas mulheres de bigode, que nadie las jode.
Avançaremos para a próxima pergunta. Se pudessem levar alguma coisa de Espanha para Portugal, o que seria? Pode não ser um objeto, E ser uma tradição, hábito, cultura ou costume. Daniel.
Opa, eu, vocês já devem também estar mais ou menos a calcular o que é que eu levava para Portugal. Até levava duas ou três gajas, chicas, las chicas buenas. Bonitinhas, e levava para lá, e eram as embaixadoras, as embaixadoras da espanholada em Portugal. Fazia-se lá uma petição, fazia-se uma petição em que a partir deste momento estas embaixadoras vão obrigar, obrigar em qualquer relacionamento em Portugal a existir a espanholada.
É uma tradição que vem de Espanha e que muitas vezes nós não seguimos. Pronto. E há mulheres bastante avantajadas ao nível dos seios e não se aproveita. E não se aproveita a espanholada. E devia de ser obrigatório. E o marido que fosse a esta espécie de fiscalização da espanholada por duas chicas buenas, buenas, buenas, buenas, que eu levava comigo ao colo, Bem, podiam ir ao colo, podiam ir ali, uma lado, outra, a gente na viagem pronto não se atrapalhava.
Uma matinha por cima e tal para ninguém ver nada. E elas, o marido que, ai, a minha mulher não faz, não me acha espanholada. Elas, ai, pssst, pega isso, é uma multa. Senhora, vá, senhora, sim senhora, vamos lá, eu vou aqui mostrar. Nuda, senhor Rafael, como é que faz uma boa espanholada? E faziam. E fazia eu e a Hermes muito, mas muito mais felizes.
Muito bem, Daniel Rafael. Agora, cão.
Eu? Eu?
Então, eu levava. Muito fácil. E temos espaço para isso, para além das sacas de ração muito mais baratas, levávamos uma perna de Ramon com moço. Levávamos a perna de Ramon, eu vinha, ia, para Portugal, deitado em cima do Ramon, com o osso, e chegava lá, entretinha-me como se fosse um chupa-chupas, e estava ali no final do dia, tinha o osso para roer, e quando se acabasse voltávamos a Espanha, e sempre que a gente cá vinha era uma tradição de levar uma perna de Ramon, pode ser daquele porco negro, disse Preto.
Não seja racista, Zono, é negro, o pato é negra, então é o porco negro, não é o porco preto. Então se a pata é negra, o porco é preto? Não se pode dizer isso, que eles podem ficar ofendidos. E o bacon e a perna de ramo não fica tão gostosa, porque diz que um animal que anda em sofrimento e ofendido, depois a carne não é tão gostosa. Portanto, é negrinho, pronto, ou mulato. Por cumulado, para eles ficarem felizes e não serem alvo de racismo.
E levávamos sempre um ramonzinho para lá, uma perna inteira com unhas e tudo, e eu andava a comer aquilo durante um dia ou dois e no final tinha o osso.
Pronto, era o que eu levava de Espanha, o resto não me interessa nada.
Muito bem, Cão. João Vítor.
Ah pá, não sei o que é que havia de levar de Espanha por mim até ficava cá, que estavam a dizer da minha mulher. Olha, já sei, ando sempre a falar nisso, fazer zozos e tal. Olha, levava-lhe uns caramelos para ver se ela ficava mais doce comigo. E metia-lhe um caramelo na boca, tava ali, ó Dom Vitor, anda cá, que és um cafuneiro. Ó Dom Vitor, olha eu toda Toda a despir-me devagar e tal, e sempre com caramelos na boca. Sempre que tava doce, ela ficava doce.
Pronto, lavava-lhe se calhar uma gamela boa de caramelos e ele espatando aquilo na boca, e ela sempre adoçar, adoçar, adoçar, porque ela é muito azeda, ela é muito azeda.
E assim ficava mais docinha comigo, era bom.
E pronto, e eu até fiz manha e tudo, e essa fosa era sempre com ela.
Muito bem, João Vítor, seria por uma boa causa, que é o amor.
Senhor viriato, é, é só levava um elemento de Espanha e que ninguém aqui consegue adivinhar.
Opa, por mim, se calhar levavas algum capota que é para andar à chuva lá na tua terra.
Não, não levava capote, ele levava o rei, o rei de Espanha. E mais, e mais, e o insinuar do português que eu adoro, cê, o rei de Espanha até ele aprende ti ti ti ti ti de falar português. E esqueciam o espanhol quando ele voltasse a Espanha. Toda a gente em Espanha tinha que seguir a língua do rei, que era o português bem falado, não esse espanhol que é um português todo mole, mole falado e de mala manhã.
Obrigado, senhor Viriato. Seria uma colonização pela língua dos portugueses à Espanha. Estamos mesmo a terminar, mas sem antes dizer o que quero dizer a Dolores.
¿Qué coño me quieres ahora?
Oh, quiero convidarle para poder entrevistar en un próximo episodio de nuestros estudios en Portugal.
Por los no sé, se puedo ir a ese no. Si tienes chicas de bigote que nadie las puede, sí, que por supuesto que sí. Ah, vamos falando então, este domínio uma dessas apps, te domino uma dessas apps e lo vamos falando. E agora vos invito a beber umas cañitas e umas tapas, se pode ser.
Sim, sim, vamos a tapa, vamos que eu já estou também aqui já aqui com aqui a bater horas e tal. Eu? Eu comer?
Mas não vou ficar no chão, vou comer como vocês na mesa.
Ih, comer agora? Essa comida não tem de mal. Eu tenho aqui maçãs que eu fiz de queijo fresco. Oh, é daqui!
Epá, olha essa boa!
Eu também vou ver uma cerezita que o Sam está aqui também a levar, a ser vivo, fome e tudo. Olha, vamos lá!
Por hoje terminamos este nosso episódio com um adeus.
Até logo!