Capítulo 19: PREÇO DO SANGUE
Sinopse | Capítulo 19: Preço do Sangue
O limite foi ultrapassado e o caminho de volta não existe mais. Neste capítulo, Samuel, Kaio e Bernard enfrentam o horror em sua forma mais visceral. O que deveria ser um momento de busca por conforto na casa de Bernard se transforma em um cenário de pesadelo que nenhum deles será capaz de esquecer.
Enquanto Kaio recebe a notícia que destrói o que restava de seu mundo, Samuel se vê diante de uma verdade que muda tudo o que ele acreditava sobre o próprio passado. Em uma conversa reveladora com o Delegado Martines, a máscara do "suicídio" de sua mãe cai, revelando o rastro de veneno deixado por Walter.
A culpa que esmagava Samuel agora dá lugar a uma fúria gélida e calculista. Os três amigos decidem que sobreviver não é mais o objetivo principal. É hora de jogar sujo. A caçada mudou de lado, e o preço do sangue será cobrado.
Bernard
Kaio
Samuel
Martínez
- Morte dos pais de Bernard
- Revelações sobre a mãe de Samuel
- A caçada a Walter
- Conflito e vingança
- Confronto com o Delegado Martínez
Capítulo 19 Preço do sangue, nenhum perdão, nenhum esquecimento. Saímos do prédio com passos apressados, à noite engolindo nossos contornos como se já soubesse que éramos fugitivos de um destino cruel. O vento cortava como uma faca, e cada sombra parecia esconder os olhos de Walter, observando, calculando.
Os desastres não param de acontecer com a gente, disse Caio, a voz rouca, como se cada palavra fosse um fardo. Por mais que a gente tente, sempre voltamos para o mesmo lugar. Parece um daqueles filmes de terror em que o bandido sempre sai ileso, e os mocinhos.
Minha voz sumiu no ar antes que eu pudesse terminar. Todos sabíamos como aquela frase terminaria. Estávamos desanimados, sim, mas também havia algo pior, a certeza de que estávamos sendo encurralados. Saímos dali sem respostas, apenas com o peso de mais um fracasso.
Quando alcançamos a rua, Martínez já estava lá, o rosto iluminado pelas luzes pulsantes das viaturas. Seus olhos escaneavam o cenário com a frieza de quem já esperava o pior. Eles não estão aqui, ele disse, antes mesmo que alguém perguntasse.
Informe a central. Peça buscas por toda a cidade. Um policial, com o rádio chiando na mão, respondeu. Senhor, os peritos já estão a caminho. Martínez apenas assentiu, os dedos apertando a ponte do nariz como se tentasse esmagar a frustração. Tudo bem. E então ele partiu, levando consigo a última réstia de esperança que nos restava. Enquanto isso, nós vagávamos pela cidade como almas penadas, sem rumo, sem destino.
Foi quando Bernardi parou bruscamente, os olhos vidrados em algo que só ele podia ver. Preciso ver meus pais. Preciso dizer a eles que estou bem. Caio encarou, hesitante. Não vai ser perigoso? Tudo é perigoso agora, Bernardi respondeu, a voz quase um sussurro. Mas pelo menos vou aliviá-los.
Ninguém discutiu. Entramos no carro em silêncio, cada um de nós afundado em seus próprios pensamentos sombrios. A casa dos pais de Bernard estava escura, as janelas como olhos vazios nos encarando. A porta rangeu quando abrimos, um gemido que ecoou pelos corredores vazios. Parece que não tem ninguém aqui, Caio murmurou, os passos cautelosos no assoalho de madeira. Onde eles podem estar? Bernard perguntou a si mesmo, mais do que a nós.
Vamos checar os quartos, Caio sugeriu, mas eu já sentia um frio na espinha. Eles não estariam dormindo. Não numa situação dessas. Mesmo assim, subimos as escadas, cada degrau um convite para o desconhecido. Revistamos cada canto, cada móvel, mas só encontramos o silêncio.
Foi na saída que Bernard parou, os olhos fixos no fundo da casa. Tem a varanda de vidro. Lá é isolado. Talvez não tenham nos ouvido. Trocamos olhares. Algo naquela sugestão parecia errado, mas seguimos mesmo assim, movendo-nos como personagens de um filme de terror, sabendo que o pior estava por vir. Quando abrimos a porta, o cheiro de ferro inundou nossas narinas.
Sangue. Muito sangue. Não entre, Viverai. Eu gritei, mas já era tarde. Seus pais estavam pendurados na parede como quadros macabros, os corpos dilacerados, os rostos congelados em expressões de puro terror. Não. O grito de Bernard rasgou o ar, um som que nunca vou esquecer. Ele caiu de joelhos, as mãos tentando desesperadamente apagar a cena diante dele.
Foi quando o celular de Caio tocou. Ele olhou para a tela, confuso. Não conheço esse número. Atendeu no viva voz, e a voz que saiu do aparelho era fria, mecânica. Aqui é da polícia aérea. Informamos que seus pais foram dados como morto após a queda de seu jatinho em um voo clandestino. Caio não disse nada. Apenas deixou o telefone escorregar de seus dedos, o impacto no chão ecoando como um tiro.
Alô? Alô? Você ainda está aí? Dois amigos. Duas perdas. Dois corações despedaçados em questão de segundos. Eu não conseguia respirar. Meus punhos se fecharam sojinhos, e antes que eu percebesse, estava socando a parede, a dor física insignificante perto da fúria que me consumia. Isso não é coincidência. Eu gritei, a voz rouca de ódio. Ele fez isso.
Walter fez isso. Bernard ainda estava ajoelhado, os olhos vazios fixos nos corpos dos pais. Caio, por sua vez, parecia ter se desconectado da realidade, os lábios tremendo em um silêncio aterrorizado. Tentei me recompor, mas como confortar alguém que acabou de perder tudo?
Vamos sair daqui, eu disse, puxando-os com força. Agora. Mas para onde iríamos? Cada passo parecia nos levar mais fundo na armadilha de Walter. Liguei para Martínez, minhas mãos trêmulas quase deixando o telefone cair. Samuel, é você? Sim, sou eu. Onde vocês estão? Estamos todos procurando por vocês. Os outros estão bem? Estamos, vivos, respondi, engolindo um nó na garganta.
Mas ele matou os pais deles. Quem matou os pais de quem? A voz de Martínez ficou mais áspera. Viu? Eu quase gritei. Ele assassinou os pais do Bernard e do Caio. Houve um silêncio do outro lado da linha. Onde vocês estão? Martínez perguntou, agora com urgência. Na casa do Bernard.
Não saiam de lá. Estamos indo. Desliguei. Olhei para meus amigos, destruídos, e depois para as sombras ao redor. Não havia para onde correr. Não havia mais aliados. Éramos apenas presas, e o caçador já havia fechado o cerco.
Sentamos no meio fio em frente à casa de Bernard, encarando o vazio. O silêncio entre nós era pesado, cortado apenas pelo som distante de sirenes e o zumbido abafado de vozes policiais. Nossas roupas ainda cheiravam a fumaça e ferro, um lembrete físico do horror que havíamos testemunhado.
Martínez chegou com um contingente de policiais, seus passos rápidos ecoando na calçada. Ele nos ignorou por um momento, entrando na casa com a urgência de quem ainda acreditava que poderia salvar alguém. Enquanto isso, um dos agentes se aproximou, o rosto forçando uma expressão de confiança que não existia. Tudo vai ficar bem. A frase soou como uma facada. Quantas vezes já tinham dito isso? Quantas vezes ela havia sido seguida por mais sangue?
Quando Martínez finalmente saiu, seu rosto estava cinza, os olhos carregados de um peso que nenhum delegado deveria carregar. Sinto muito. A voz dele estava rouca. Não conseguimos impedir que esse monstro fizesse isso. Ele olhou para Caio. Quanto aos seus pais, vamos investigar. Precisamos confirmar se foi Walter. Eu engoli seco, o sangue pulsando nas têmporas.
Ainda tem dúvidas? Martínez suspirou. Samuel, somos policiais. Trabalhamos com provas, não com deduções. Desculpe. Ele passou a mão na minha cabeça, um gesto quase paternal. Tudo bem, garoto. Precisamos tirar vocês daqui, Martínez continuou, olhando ao redor como se esperasse que Walter surgisse das sombras.
Vou levá-los para um lugar seguro. Bernard riu, um som seco e sem vida. Não existe mais lugar seguro. Martínez franziu a testa. O que você disse? Não existe mais lugar seguro. Bernard explodiu, os punhos se batendo contra as próprias pernas.
Não existe. Não existe. Segurei seus braços com força, sentindo os músculos tremendo sob minha pele. Bernard, escuta-me. Você não pode desmoronar agora. Eu não sou forte como você. Ele cuspiu as palavras, os olhos vermelhos de lágrimas não derramadas.
Eu sou fraco. Eu também não sou forte, admiti, a voz quase quebrando. Só descobrimos o quão frágeis somos quando tudo desaba. Caio permaneceu em silêncio, mas quando finalmente falou, suas palavras cortaram como vidro. Eles podiam ser egoístas. Podiam só pensar em dinheiro. Mas eu os amava. Eles não mereciam morrer. Ninguém merece, concordei.
Mas não podemos trazê-los de volta. O único jeito de honrá-los é sobrevivendo. E lutando. Bernard balançou a cabeça, os ombros curvados. Toda vez que enfrentamos ele, perdemos. Mas ainda estamos aqui, Caio murmurou. E ele sabe disso. Ele está com medo. Medo? Bernard deu uma risada amarga. Ele está nos caçando como animais.
Martínez interveio, a voz firme. Garotos, vamos. O centro de proteção a testemunhas é o mais seguro agora. Ninguém discutiu. Entramos no carro em silêncio, nossos reflexos nas janelas parecendo fantasmas. O quarto no CP era pequeno, claustrofóbico, mas vigiado por policiais armados.
Martínez nos deixou com o último conselho. Tentem dormir. Vocês precisam descansar. Vamos tentar, menti. Assim que a porta se fechou, o ar ficou pesado novamente. O que fazemos agora? Caio perguntou, sentando na cama estreita. Bernard deitou de costas, os olhos fixos no teto.
Sempre acabamos nessa pergunta. E a resposta nunca muda. Não há nada a fazer. Você está desistindo? Minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia. Não é desistir. É enxergar a realidade. Caio se virou para ele. Nossos pais não iam querer nos ver assim. Eles iam querer que a gente lutasse. Bernard fechou os olhos. Tudo está contra nós.
Nem tudo, insisti. Estamos vivos. E enquanto estivermos vivos, temos uma chance. Uma chance de quê? Bernard abriu os olhos, desafiador. De sermos os próximos? O silêncio que se seguiu foi sufocante. Até que Caio quebrou, sua voz baixa, mas firme. Uma chance de matá-lo. Olhei para ele, surpreso. Nos olhos de Caio, havia algo novo, algo escuro. Algo perigoso.
E então, finalmente, entendi. Não era mais sobre sobreviver. Era sobre vingança. Vamos pensar juntos. Minha voz sou mais firme do que eu esperava. Estendi a mão para Bernard, os olhos fixos nos dele. E aí, Bernard? Topa? Ele hesitou por um segundo, respirou fundo e então, com um brilho de determinação renascendo em seus olhos, bateu sua mão na minha. Topo! E então ele me puxou para um abraço.
Caio não perdeu tempo e se juntou a nós, seus braços envolvendo nossos ombros num pacto silencioso. O primeiro passo é tentarmos dormir um pouco, eu disse, recuando. Se não descansarmos, não vamos conseguir ficar em pé, muito menos enfrentá-lo. É verdade, Caio concordou, esfregando os olhos inchados.
Tudo bem, Bernard murmurou, ainda visivelmente abalado, mas disposto a seguir em frente. Deitamos nas camas estreitas do quarto, cada um mergulhando em seu próprio silêncio. Para minha surpresa, o cansaço foi mais forte que a adrenalina, e caí num sono pesado, sem sonhos, sem pesadelos. Apenas escuridão. Manhã. A porta se abriu com um estalo, e Martínez entrou, seu rosto marcado por noites mal dormidas.
Acordem. Hora de levantar. Esfreguei os olhos, desorientado. Vocês precisam ficar aqui, ele continuou, fechando a cortina com um puxão brusco. A delegacia está cheia de imprensa. Saí escondido para que ninguém descobrisse onde vocês estão. Tudo bem, respondi, sentando na cama. Martínez cruzou os braços.
Os repórteres estão loucos por uma manchete. Querem saber onde vocês estão, mas eu não vou dar a Walter nenhuma pista. Ficaremos aqui, Caio garantiu. Pode confiar. Martini soltou um riso sem humor. Já me prometeram isso antes.
Mas agora não é opcional. É questão de vida ou morte. Bernard, sentado na beirada da cama, olhou para o delegado com os olhos vermelhos. Até agora a polícia não conseguiu pegá-lo. O que faz você achar que vai ser diferente? Martínez endureceu. Olha, garoto. Respeito sua dor, mas não. Desculpe, Bernard interrompeu, baixando a cabeça.
Não deveria ter falado assim. O delegado suspirou. Tudo bem. Café da manhã. O cheiro de café forte enchia a sala, mas ninguém parecia ter fome. Empurrei os ovos no prato, a mente girando em círculos. Ainda não consigo acreditar que tudo isso está acontecendo, eu disse, quebrando o silêncio.
Walter destruiu tudo. Bernard apertou o garfo até os nós dos dedos ficarem brancos. Eu vou encontrar aquele lixo. E vou matá-lo. Bernard. Caio bateu a mão na mesa. Não podemos agir por impulso.
Ele tem razão, eu concordei. Precisamos de um plano. Se corrermos cegamente atrás dele, vamos morrer. Bernard tremia, os olhos cheios de lágrimas de raiva. Eu não consigo pensar, sã. Só consigo ver eles, pendurados naquela parede. Ele se levantou de repente, derrubando o copo de água. O vidro estilhaçou no chão como um eco do que estávamos sentindo.
Calma. Eu agarrei seu braço, segurando firme. Caio se levantou também, colocando um copo novo com água na frente dele. Bebe. Respira. Bernard pegou o copo com tanta força que pensei que iria esmagá-lo. Bebeu tudo de uma vez, ofegante. Melhor? Perguntei. Ele assentiu, devagar. Escuta, eu baixei a voz.
Nenhum de nós é forte o suficiente para enfrentá-lo sozinho. Mas juntos, talvez tenhamos uma chance. E qual é o plano, então? Bernard perguntou, a voz rouca. Ficar escondidos até ele nos achar? Não. Mas precisamos descobrir uma fraqueza dele. Algo que ele não espere. Caio franziu a testa. E como fazemos isso? Fiquei em silêncio por um momento. Então, olhei para os dois.
Precisamos voltar ao começo. Revisar tudo. Onde ele errou. Onde nós erramos. Bernard fechou os olhos, respirando fundo. E se não encontrarmos nada? Sorri, sem humor. Então pelo menos vamos morrer tentando. As horas se arrastaram naquela sala abafada. Éramos como animais encurralados, sentados à mesa com as mãos sujas de café frio e os olhos vidrados no vazio.
Walter nos havia reduzido a isso, fantasmas de nós mesmos, esperando o golpe final. Foi então que Martínez entrou, seu rosto um mapa de tensão. Ainda não descobrimos o paradeiro de Walter, anunciou, sem rodeios. Caio ergueu os olhos, as veias pulsando em suas têmporas. Onde diabos ele pode estar se escondendo? Estamos cobrindo todos os pontos.
Martínez tentou manter a voz firme. Não se preocupem. Logo encontraremos, e tudo ficará bem. Aquela frase. Tudo ficará bem. Era como uma faca girando no meu peito. Samuel, Martínez me chamou, baixando a voz. Preciso falar com você. Em particular. O que aconteceu? Minha garganta secou. Algo importante? Sim. Seus olhos escureceram. Venha comigo.
Seguiu pelo corredor estreito, as luzes fluorescentes piscando como um mau presságio. Você sabe o quanto sua mãe e seu pai significavam para mim? Ele começou, a voz rouca. Sim. Vocês eram próximos. Ele parou de repente, virando-se para mim. É sobre sua mãe. O chão pareceu se mover sob meus pés.
Minha mãe? Ela me procurou uma semana antes de morrer. Meu coração parou. O que ela disse? Ela falou em se matar? Martínez hesitou, algo que nunca fazia. Não. Ela me contou algo sobre Walter. Fala logo. Minha voz ecoou nas paredes. Ele a ameaçou, Samuel. Martínez apertou meus ombros.
Walter a procurou pessoalmente. Disse que mataria você se ela não obedecesse. O ar saiu dos meus pulmões. Ele já estava nos caçando, antes mesmo de eu saber. Sim. Ele a assediava por telefone há anos, desde o desaparecimento do seu pai. Mas naquela semana, ele apareceu. E você não fez nada? Gritei, as mãos tremendo. Eu o vigiei. Martínez revidou. Enfrentei ele, ordenei que sumisse.
E ele desapareceu, ou pelo menos parecia ter sumido. Só que não, eu cuspi. Ele voltou. Martínez baixou a voz. Sua mãe me ligou depois. Disse que as ameaças pararam. Ela achou que estava segura. Ela nunca me contou. Minha voz quebrou. Ela sempre me protegeu demais.
Foi então que Martínez soltou a bomba. Samuel, os exames toxicológicos dela. Ele engoliu seco. Havia veneno no sangue dela. O mundo desabou. Veneno? Repeti, como se a palavra não fizesse sentido. Um tipo que mata instantaneamente.
Então, minhas pernas ameaçaram ceder. Ela não se matou. Martínez confirmou com um aceno lento. Provavelmente foi introduzido em algo que ela ingeriu. Um comprimido, talvez só um na embalagem. Ele entrou na nossa casa. Minha voz era um fio. Ele a matou. Assim como matou os pais do Caio e do Bernardi.
Eu sinto muito, Samuel. Mas eu não ouvia mais. Porque algo dentro de mim, algo que estava morto há muito tempo, voltou à vida. Fúria. Pura, negra, incandescente. Walter não tinha apenas matado minha mãe. Ele me fez acreditar que eu tinha culpa. E agora, ele vai pagar. Minha voz saiu como um sopro mortal.
Com a própria vida. Martínez tentou segurar meu braço, mas eu já estava me virando, marchando de volta para a sala onde Caio e Bernard esperavam. Eles levantaram quando me viram, os olhos arregalados ao meu olhar. Samuel? Caio perguntou. Walter matou minha mãe. O silêncio foi como uma explosão.
Bernardi foi o primeiro a reagir. Então ele, sim. Minha voz estava gélida. Ele não vai parar até nos destruir a todos. Caio fechou os punhos. Então nós o destruímos primeiro. Olhei para os dois, vendo a mesma fúria que queimava em mim refletida em seus olhos. Não era mais sobre sobreviver. Era sobre guerra. Vamos acabar com ele, eu disse.
E desta vez, nós íamos jogar sujo. O corredor parecia se estreitar ao meu redor. Martínez ainda segurava meus ombros, mas eu mal conseguia sentir seus dedos. Você nunca teria culpa de nada, ele repetiu, a voz grossa de emoção.
Ela te amava mais que tudo. Mesmo antes, você não tinha responsabilidade alguma. Respirei fundo, tentando processar. Então por um lado, estou aliviado, mas ao mesmo tempo. Minha voz se partiu. Ela ainda estaria viva se não fosse por ele. Martínez hesitou. Não posso dizer com certeza, mas, provavelmente sim. Um silêncio pesado caiu entre nós. Então, algo dentro de mim ferveu.
Por que caralhos você só me conta isso agora? Ele recuou um passo. Estávamos tentando protegê-lo. No início, todas as evidências apontavam para suicídio. Só depois da análise toxicológica, proteger? Eu ri, um som amargo e vazio. Vocês me deixaram acreditar que era minha culpa. Todos esses meses.
Martínez ergueu as mãos. Havia uma investigação em andamento. Depois começou tudo com Loren, e pareciam coisas desconexas. Desconexas? Meu punho bateu na parede. Loren foi presa, tirada da cadeia e assassinada. Eu fiquei preso na minha própria casa. E toda hora eu gritava que era o Walter. Samuel, acalme-se, porque ninguém me ouviu.
Minha voz ecoou no corredor. Quantos tinham que morrer antes de vocês investigarem de verdade? Martínez endureceu. Pela lei, todas as evidências apontavam para vocês dois. Não podíamos simplesmente ignorar os fatos. Os fatos mentiram. Gritei.
E agora Lauren está morta. Minha mãe está morta. Os pais deles estão mortos. Tudo porque vocês não minha avó se partiu. De repente, não havia mais raiva. Só uma dor tão profunda que me dobrou ao meio. Martínez me puxou para um abraço antes que eu caísse. Eu sinto muito, ele murmurou. Deus, eu sinto tanto. Eu não retribuí o abraço.
Mas também não o empurrei. Porque finalmente entendia. Cada nova revelação era como uma faca no peito, mas também uma peça do quebra-cabeça se encaixando. Walter matou minha mãe. Provavelmente matou meu pai. E agora? Ele não ia parar até acabar comigo.
Mas havia uma pequena centelha de alívio no meio do inferno. Eu não tinha matado minha mãe. Era tarde demais para mudar o passado. Mas o futuro. O futuro ainda estava por ser escrito. Quando me afastei de Martínez, meus olhos estavam secos. Ele vai pagar, disse, minha voz agora fria como aço.
Por tudo. Martínez não tentou me contradizer. Apenas assentiu. E naquele momento, eu sabia. A caçada estava apenas começando.