Sanção dos EUA atropela operação da PF e investigado foge
Neste episódio, Carol Pires e Marina Dias explicam como uma sanção anunciada pelos Estados Unidos contra um brasileiro investigado por ligação com o PCC acabou interferindo em uma operação da Polícia Federal, permitindo que o principal alvo fugisse. A partir desse caso, elas discutem por que a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas é alvo de críticas de especialistas em segurança pública, quais são seus efeitos práticos e o que essa disputa revela sobre soberania, combate ao crime organizado e a relação entre Brasil e Estados Unidos.
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- Operações da PF e revelações recentesVitor Henrique de Oliveira Shimada · Estela Stephanie Nunes Henrique de Oliveira · Polícia Federal · Fuga de investigado
- Cuba e sanções dos EUAClassificação de facções como terroristas · PCC · Comando Vermelho · Sanções econômicas · Lavagem de dinheiro
- Questão de soberania brasileiraInterferência dos EUA · Soberania nacional · Cooperação policial · Donald Trump · Lula
- Debates EleitoraisFlávio Bolsonaro · Eleições presidenciais · Combate ao crime organizado · Lei antifacção
Oi amiga, oi amiga, tô te ligando porque tem um capítulo novo numa história importante. Lembra que os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas? Uma medida que o governo brasileiro e todos os analistas e estudiosos de segurança pública são contra, porque pode abrir uma brecha para os Estados Unidos agirem aqui dentro. E essa semana veio o primeiro caso concreto, na verdade semana passada, com repercussões até hoje, né?
Porque em vez de mirar um chefão do PCC, teve uma medida que atrapalhou uma operação da própria Polícia Federal. Então é sobre isso que a gente vai falar hoje e explicar melhor o que que eu tô dizendo aqui.
Então eu sou Carol Pires, eu sou Marina Dias, e esse é o Duas e Tanto. Todas as terças e quintas eu e a Carol, a gente se liga para falar sobre um tema da política que tá bombando de um jeito rápido, fácil, acessível, para que todo mundo consiga participar do debate. Esse é um podcast rapidinho, 15, 20 minutos, é o tempo de você passar um café. Então sigam a gente no canal da Carol no YouTube, @piriscarol. Sigam a gente no Instagram, @duasetanto, e em todas as plataformas de áudio.
O Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Estúdio, com distribuição do Estúdio Novelo. Amiga, em 12 de maio a gente publicou um episódio chamado Brasil tem 88 facções e por que classificá-las como terroristas não resolve o problema. Aí, isso foi o início da história que a gente vai trazer novidades hoje, mas eu vou recapitular bem rapidinho para refrescar a memória de todo mundo. Então, lá atrás em maio, o Departamento de Estado americano classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras.
E ao classificar uma organização estrangeira como terrorista, os Estados Unidos podem agir contra instituições financeiras de qualquer país que tenham negociado com essa organização, mesmo que indiretamente. E isso é uma forma, a gente sabe, de exercer poder para além das fronteiras dos Estados Unidos sem precisar declarar guerra. Porque quando eles fazem isso, quando os Estados Unidos colocam o PCC e o Comando Vermelho na mesma categoria jurídica de grupos como Al-Qaeda, Hamas, Boko Haram.
Esses são grupos terroristas político-ideológicos. As facções criminosas agem por dinheiro. Então, essas duas classificações são juridicamente importantes ter uma divisão aí, né? E o Trump já tinha usado esse mecanismo de classificar cartéis mexicanos como facções, e não faz muito tempo que ficou ameaçando, o Trump ameaçando abertamente atacar solo mexicano. E lembrando que ele já tinha invadido a Venezuela e sequestrou o então presidente Nicolás Maduro sob acusação de narcoterrorismo, que começou com ele classificando o Tren de Aragua, que é um cartel venezuelano, como terrorista.
Bom, então, como eu tava falando, os principais especialistas em segurança pública que estudam segurança, procuram soluções para segurança, querem melhorar a segurança, se dedicam a vida a isso, dizem que classificar PCC e Comando Vermelho e outras facções brasileiras como terroristas não ajuda. Na verdade, isso abre brecha para os Estados Unidos aplicarem sanções contra o Brasil ou então interferirem aqui. Então essa é uma diferenciação jurídica importante, não só na hora de você investigar, processar, prender, mas também é importante porque vamos lembrar que na ditadura esse conceito de terrorismo foi sendo expandido até chegar a como desculpa para prender opositores políticos.
Por discordância política. Bom, então chegamos aqui, julho, e a gente viu a primeira aplicação prática dessa classificação do PCC como terrorista. Os Estados Unidos aplicaram uma sanção a um homem que a Polícia Federal já estava investigando, e porque eles anunciaram essa sanção, o mano fugiu. E é esse caso que você vai contar, né?
Exatamente, amiga. Estados Unidos anunciaram as sanções econômicas contra duas pessoas e 3 empresas brasileiras por suposta ligação com o PCC. Então, o que diz o governo Donald Trump? Que essas pessoas lavavam dinheiro gerado pelo tráfico internacional de drogas entre Estados Unidos e Brasil por meio de criptomoedas e, por isso, receberam as sanções. Como você falou, essas são as primeiras medidas concretas desde que o governo Trump anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas em junho.
É, isso é muito importante porque os Estados Unidos estão dizendo que 2 brasileiros integram uma rede internacional de lavagem de dinheiro do PCC nos Estados Unidos e por isso eles foram alvo de sanções. Mas quais são essas sanções? Bom, eles tiveram o bloqueio de bens e ativos que estão nos Estados Unidos, né, sob jurisdição dos Estados Unidos. Cidadãos e empresas americanas agora são proibidos de fazer negócio com eles. E ainda tem a possibilidade de aplicação de novas sanções contra instituições financeiras estrangeiras que tiverem algum tipo de relação relevante com esses brasileiros.
Quem eram os alvos dessas sanções? Quero explicar um pouquinho quem são essas pessoas e o que que os Estados Unidos estão dizendo que elas faziam. Os alvos das sanções se chamam Vitor Henrique de Oliveira Shimada e as empresas ligadas a ele, né? As empresas obviamente serviam para dar um ar de regularidade e legalidade nas operações transações financeiras. E a outra pessoa que foi alvo das sanções americanas é a Estela Stephanie Nunes Henrique de Oliveira, que é parente do Vitor e era uma espécie de secretária para logística da lavagem de dinheiro.
Ela organizava, né, ela organizava a operação, a logística da operação. O governo Trump diz que o Vitor lavou mais de 30 milhões de dólares, o que daria R$156 milhões, em recursos ilícitos gerados em várias autoridades dos Estados Unidos e ele usava as criptomoedas para transferir o dinheiro lavado de volta para o Brasil em nome do PCC. Então era lavagem de dinheiro do tráfico, segundo os Estados Unidos, e o Vitor era esse elo central, palavras dos americanos no documento de sanção, entre os operadores do PCC na Flórida e os traficantes internacionais de droga.
O Itamaraty, amiga, que é o Ministério de Relações Exteriores do Brasil, soltou uma nota nessa semana reagindo a esse tipo de sanção. E claro que colocou toda a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organização terrorista num contexto, dizendo que sim, isso abriu portas para operações militares dos Estados Unidos no Brasil. O Itamaraty diz que as ações de troca de informação, apreensão, devolução apuração de dinheiro.
E o próprio combate à lavagem de dinheiro já acontecia em parceria com os Estados Unidos. Autoridades brasileiras e americanas já colaboravam entre si. Tem um braço da Polícia Federal brasileira que tem pessoas atuando nos Estados Unidos. Então essa colaboração de investigação, apuração para o combate inclusive à lavagem de dinheiro, ela é comum. Então essa designação como organização terrorista, ela só abre espaço para essa aplicação de medidas administrativas judiciais de forma unilateral, né, dos Estados Unidos sobre o Brasil.
O Brasil não pode fazer isso com cidadãos americanos. Então, contra pessoas e empresas fora do país. Esses são os fatos objetivos: quem eram essas pessoas, o que, o que o governo americano diz que elas estavam fazendo. Agora vamos às consequências e uma análise que eu queria fazer rapidinha do que que os Estados Unidos querem de fato com isso, né, amiga? Porque, como você falou, Aparentemente, essas sanções acabaram atrapalhando o trabalho da Polícia Federal no Brasil, que também estava investigando brasileiros envolvidos em tráfico internacional de drogas, o Vitor e a Estela entre eles.
A Polícia Federal diz que a sanção dos Estados Unidos acabou prejudicando a investigação porque acabou sendo um alerta para esses criminosos, né? A Polícia Federal estava pronta para deflagrar uma operação que iria prender o Vitor e a Estela. E aí essa sanção, essa sanção financiada pelos Estados Unidos atropelou a Polícia Federal do Brasil, que conseguiu prender a Estela, mas o Vitor, como você falou, escapou e agora é um foragido.
O diretor da Polícia Federal, o Andrei Rodrigues, deu uma entrevista coletiva, um café da manhã com jornalistas ali em Brasília, que ele faz de tempos em tempos na sexta-feira, e ele foi bem contundente contra essas sanções. Ele chamou essas sanções de erro grotesco, decisão equivocada, e mostra que as estratégias entre Estados Unidos e Brasil entraram em choque e acabou prejudicando aqui a instituição principal, instituição de investigação de crime internacional no Brasil, que é a Polícia Federal.
Então o Andrei disse literalmente que a medida dos Estados Unidos atrapalhou a investigação brasileira, e ele também falou que caso essa sanção americana não tivesse ocorrido, ele garante que a Polícia Federal teria sim prendido o Vitor, que é peça-chave nesse esquema todo e agora tá foragido. Então essa é uma consequência muito importante das sanções e a gente tem que ficar bastante atento, porque se medidas unilaterais americanas estão atrapalhando investigações de instituições brasileiras contra cidadãos brasileiros, a gente tem um problema bem grande.
E a outra coisa que eu queria falar rapidamente é sobre os Estados Unidos e a gana por controlar o sistema financeiro global, né, amiga? Porque para deixar claro aqui, essas sanções não são para colocar brasileiro na cadeia, né? Não é sobre cooperação policial, porque como que a Marathi falou, isso já existia sem a denominação de organização terrorista, né? Essa é uma forma dos Estados Unidos expulsar essas pessoas do sistema financeiro baseado no dólar.
Então o operador do PCC, ele não consegue entrar nos Estados Unidos porque ele é alvo de sanção, mas ele também não consegue movimentar recurso em dólar, não consegue usar banco internacional. E aí todo mundo fica meio com medo de tratar com pessoas que podem, por algum motivo, serem consideradas terroristas nos Estados Unidos. Aí vocês vão me falar: ah, não, mas isso é ótimo porque você está atacando o braço financeiro. Não, ele não está, como você falou, pegando os grandes chefes, né?
Ele não tá pegando as pessoas na ponta principal, os chefes dessas organizações criminosas. Isso não é um combate ao crime organizado efetivo. A gente tem provas pelo mundo de que isso não funciona. Pegar a ponta mais fraca, o operador, quem tá lavando dinheiro com criptomoedas em Miami, não vai resolver o problema do PCC atuando de forma transnacional no mundo, né?
Então queria só fazer uma análise um pouco de como a gente fala sobre esse assunto, né? Porque quando a gente diz que tratar PCC e Comando Vermelho como terrorista não resolve, ela é uma formulação abstrata, né? Soa até defensivo, protetor do PCC para um eleitor conservador, porque a gente tá quase que questionando uma autoridade internacional que para eles é, né, símbolo de poder e sem oferecer uma alternativa de força. Porque quando a gente fala de soberania, quando a gente fala de investigação cruzada, de cooperação entre as polícias, isso não soa tão forte quanto uma alternativa armada, que no caso dessa classificação sequer por enquanto é isso, né?
E se chegar a este ponto, seria uma invasão do território brasileiro sem precisar passar por uma comunicação vídeo que aconteceu na Venezuela. E aí eu acho que a conversa tem que ser mais assim: o Brasil tem força, né, para acabar com o PCC sem precisar da autorização de fora, sem precisar da tutela dos Estados Unidos, sabe? Então acho que a mensagem de soberania de verdade é o Estado brasileiro sendo mais duro com crime do que qualquer decreto americano consegue ser.
O negócio é que quando a gente fala em integração das polícias, em cooperação, acho que não é palpável palpável para o eleitor, né? Como é que isso vai melhorar a minha vida amanhã? E quando você fala em combater o PCC como terrorista, você já imagina bomba, tiro, porrada, e essa sensação de que, bom, já que a justiça não pune, algum tipo de punição tem que ter. Então tem aí uma dificuldade de tornar essa proposta mais efetiva, mais estrutural, mais palpável para o eleitor, né?
Entender como é que isso de fato vai funcionar como justiça. Mas acho que a gente podia puxar, amiga, para fechar, para o tabuleiro eleitoral. Como é que essa história vai influenciar aqui? Porque como a gente falou lá atrás, a classificação das facções como terroristas era uma bandeira ali do Flávio Bolsonaro, tanto que ele cavou aquela foto com o Trump no dia que o Trump soltou esse decreto de que as organizações brasileiras seriam facções brasileiras, seriam tratadas como terroristas.
E aí ele foi lá achando que ele tava se dando bem com aquela foto, mas também um dia depois, 2 dias depois, o Trump anunciou as tarifas contra o Brasil e caíram na conta do Flávio também, porque foram. E aí, naquela época, as pesquisas estavam dando que 55% da população era a favor de classificar o PCC e o Comando Vermelho como terroristas. E entre os eleitores de direita, bem mais. A média nacional, 55%, mas entre os eleitores de direita, 76%.
Então o Flávio consegue surfar nesse medo real das pessoas e oferecendo uma solução que parece simples: ah, chama de terrorista, Estados Unidos vão lá e o problema acaba. E é como eu tava falando, é difícil virar esse disco, porque a forma de comunicar uma solução complexa para um problema complexo, bom, é complexo.
A minha capacidade de formulação, mas é isso mesmo, amiga. É muito mais fácil você falar: para acabar com o PCC, classifica como terrorista, os Estados Unidos resolvem. Olha que fácil, a gente não precisa nem se preocupar. Agora, oferecer uma solução de fato é muito mais difícil mesmo, que a promessa era: os Estados Unidos vão ajudar ajudar a combater o crime.
E o que aconteceu na prática nesse primeiro caso contra o brasileiro Shimada, Shimada, né, amiga, foi o contrário. É, contra o Vitor Shimada foi o contrário. Os Estados Unidos agiram sem avisar, atrapalharam uma operação da Polícia Federal e o cara fugiu. E aí eu acho que muda, né, o terreno da disputa agora que tem um fato concreto. Então dá para dizer, né, não é o combate ao crime, é os Estados Unidos passando por cima do Então, e bem nesse momento em que a relação do Lula com o Trump tinha melhorado, né, teve o encontro do Lula com o Trump onde foi tudo bem.
Logo depois o Trump recebeu o Flávio, impôs as tarifas. Depois teve aquela imagem do Lula encontrando o Trump fingindo que não viu.
E aí depois disso, novas tarifas, né, amiga? Lembra, o Departamento de Comércio americano recomendou novas tarifas. E agora essa semana tá inclusive rolando uma audiência pública nos Estados Unidos que o Flávio foi, se inscreveu para falar. Né? Então várias empresas brasileiras lá dizendo, por favor, não coloque mais tarifas no Brasil.
Mas vai falar o quê? Porque toda vez que você se mete, querido, você faz uma cagada contra o Brasil.
Ele vai pedir que se tiver novas tarifas, que sejam depois das eleições. Foi isso que ele escreveu na carta que ele mandou para o Departamento de Estado. Ele viu que isso caiu no colo dele, ele tá tentando fazer movimentos que mostrem para os eleitores que na verdade ele tá tentando segurar essas tarifas. Então ele chegou a escrever uma carta pedindo que essas tarifas viessem somente depois das eleições. Mas só para dizer, novas tarifas ainda não foram impostas ao Brasil, foram recomendadas, e a decisão final é do Donald Trump.
E aí depois disso o Lula chegou a encontrar o Trump no G7, passou e fingiu que não viu. O Trump ficou meio assim, né, porque tava um I love you, é um homem dinâmico. E aí depois disso ele deu uma entrevista falando que o Lula era o quê? Volátil, volúvel. Ele falou uma coisa, então agora na gangorra das relações Lula e Trump não estão de bem.
E o Lula, né, aproveitando, você falou como o Flávio tem usado esse assunto do lado do Lula, ele tenta surfar na ideia de soberania nacional, de que isso é só mais uma forma dos Estados Unidos tentarem interferir no Brasil, na dinâmica brasileira. Isso pega mal, né? A gente vê nas pesquisas de opinião pública que os Estados Unidos têm sido vistos com cada vez menos admiração. As pessoas estão rechaçando, né, cada vez mais a ideia de que os Estados Unidos precisam entrar no Brasil para resolver alguma coisa.
E o Lula tenta neste assunto, né, de organização terrorista e também de tarifas, enfim, usar essa ideia de que aqui Aqui não violão. Eu gosto dessa, é muito, é muito velha, né? Aqui não violão, aqui não violão.
Bom, amiga, então a gente vai ter aí um debate eleitoral girando em torno dessa coisa, esse rótulo, né? Terrorista, não terrorista. Enquanto quem realmente sustenta o crime, que é o dinheiro, segue lá intocado. Aí fica todo mundo aí brigando pela foto do faccionado na favela, da operação, da chacina, e ninguém quer investigar quem Lembrando que o Congresso, quando teve chance de atacar isso de verdade, esvaziou a lei antifacção, esvaziou a lei antifacção, tirou os crimes financeiros, deixou de fora quem lava o dinheiro, e quem lucra lá em cima tá lá impune.
Exatamente, amiga.
Então até quinta-feira, é quinta.