Episódios de Duas e Tanto

Terremoto na Venezuela expõe contradições de Trump em meio à tragédia

30 de junho de 202617min
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Nesta edição de Duas e Tanto, Carol Pires e Marina Dias comentam a tragédia em curso na Venezuela, que tenta resgatar sobreviventes dos dois terremotos que atingiram o país na noite de 24 de junho. O país, que há mais de uma década vive instabilidade política e econômica, foi alvo de uma operação militar dos Estados Unidos em janeiro deste ano, quando o então presidente Nicolás Maduro foi capturado e levado para uma prisão em Nova York, onde responde às acusações de tráfico de drogas e terrorismo. Hoje governada pela vice de Maduro, Delcy Rodríguez, a Venezuela terá que enfrentar as consequências humanitárias e econômicas da tragédia em meio a um embate político entre governo e oposição diante da promessa de eleições livres num futuro próximo.

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Participantes neste episódio2
C

Carol Pires

Host
M

Marina Dias

Host
Assuntos3
  • Terremoto na VenezuelaMagnitude e impacto dos terremotos · Resgate de sobreviventes · Danos materiais e reconstrução · Ajuda humanitária internacional · La Guaira
  • Comparação com precedente venezuelanoCaptura de Nicolás Maduro · Acusações de narcotráfico e terrorismo · Custo da operação militar · Extração de petróleo venezuelano · Nicolás Maduro · Donald Trump · Delcy Rodríguez
  • Impactos das tempestades de verãoResposta de Trump à tragédia · Descaso com a população · Porto Rico
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CPCarol Pires

Oi, amiga.

MDMarina Dias

Oi, amiga.

CPCarol Pires

Amiga, tô te ligando pra gente falar dos terremotos que atingiram a Venezuela, deixaram milhares de mortos, um número que aumenta a cada dia. A gente só vai ter a real dimensão, né, com o passar das semanas. E esse desastre nos leva a falar dos Estados Unidos, que em janeiro desse ano invadiram a Venezuela, sequestraram o então presidente Nicolás Maduro, que tá preso nos Estados Unidos até hoje. E quem foi deixada na presidência foi a vice, a Delcy Rodríguez.

Que deixa o Trump dizer que quem manda na Venezuela é ele, sem nunca contradizer isso. Vamos?

MDMarina Dias

Vamos!

CPCarol Pires

Eu sou Carol Pires.

MDMarina Dias

Eu sou Marina Dias.

CPCarol Pires

E esse é o Duas e Tanto.

MDMarina Dias

Nossa, hoje foi terrível! Todas as terças e quintas eu e a Carol, a gente se liga para falar de um tema da política que tá bombando, de um jeito rápido, fácil, acessível, para que todo mundo consiga entender e participar do debate. Esse é um podcast rapidinho, 15 a 20 minutos, 2 minutos é o tempo de você passar um café. Sigam a gente no canal da Carol no YouTube, @piriscarol. Sigam a gente no Instagram, @duasetanto, e em todas as plataformas de áudio.

CPCarol Pires

Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Estúdio com distribuição do Estúdio Novelo. Amiga, na semana passada, foi 24 de junho, dois terremotos atingiram a costa norte da Venezuela. Ali a oeste de Caracas, com 39 segundos de intervalo entre os dois. E aí foram os terremotos mais fortes na Venezuela, né, em um século. E aí, como eu falei, esse desastre acontece 6 meses depois dessa intervenção militar nos Estados Unidos. Lembrando que foi em janeiro desse ano, 2026, que os Estados Unidos fizeram uma operação com aquela tropa de elite deles.

Foram mais de 150 aeronaves usadas e eles capturaram o presidente, então presidente Nicolás Maduro, e levaram ele preso para os Estados Unidos, onde ele tá até hoje. Respondendo por acusações de narcotráfico e terrorismo. E aí, essa foi a maior intervenção militar dos Estados Unidos na América Latina desde a invasão do Panamá em 89, quando eles também sequestraram o presidente de lá, sem contar todos os apoios aos golpes de estado.

Enfim, o Maduro não é defensável, mas invadir um país soberano e sequestrar um presidente também não. Quem quiser saber mais sobre o que aconteceu, a gente fez um episódio explicando toda a complexidade do assunto. A gente soltou o episódio em 6 de janeiro, chama Trump invade Venezuela. E captura Nicolás Maduro. Aí, amiga, só para fazer mais um contexto antes de passar a palavra, o número oficial mais recente do governo venezuelano tá em 1.719 mortos enquanto a gente tá gravando.

Possivelmente esse número vai ficar sendo atualizado ao longo do dia. O Serviço Geológico dos Estados Unidos projeta que o total final pode passar de 10 mil mortos. Então, assim, a Venezuela é uma região que tem terremotos, mas não tão fortes, né? E nesse caso, que foram dois, né, o primeiro foi magnitude 7.2, em seguida outro de 7,5. É, 7,5 é bem mais forte que 7,2, não é assim tão linear. E a magnitude aproximada daria para ser como terremoto que atingiu ali a Turquia e a Síria em 2023.

Só que essa estimativa de vítimas depende não só da força do terremoto, mas também da qualidade das estruturas. Então, por exemplo, no terremoto do Haiti em 2010, foi bem mais baixo, né, na escala, mas matou 200 mil pessoas. Então, no caso da Venezuela, essa estimativa chega a 10 mil, mas a gente sabe que essa contagem de mortos tende a ser muito lenta, porque a prioridade imediata é encontrar quem tá vivo debaixo dos escombros. Mas a gente tem visto aí, já passaram mais de 72 horas, mais até agora, né?

MDMarina Dias

Mas a gente tem visto 6 dias, né? Sexto dia hoje.

CPCarol Pires

Sexto dia, verdade. E a gente ainda tá vendo alguns poucos resgates de pessoas vivas debaixo dos escombros. Mas quer falar, amiga?

MDMarina Dias

Quero falar um pouquinho do desses relatos muito tristes, né, amiga, de pessoas e famílias inteiras que ainda estão sob os escombros esperando o resgate, mas não há equipamento suficiente para chegar em todas as localidades atingidas por esse desastre. Então não há equipamento suficiente para tirar o concreto e encontrar esses sobreviventes, né? Então ainda tem gente que talvez não consiga ser resgatada por mais que tenha sobrevivido ao terremoto.

Isso é dilacerante. Isso tem acontecido em regiões mais montanhosas, amiga, de mais difícil acesso, né? Lugares que são perto de Caracas, 30, 35 km de Caracas, a capital, mas como são regiões mais montanhosas, o resgate ainda não chegou. E aí eu cito aqui uma reportagem da minha colega no Washington Post, a Helena Carpio, venezuelana, que mora em Caracas. Sobreviveu ao terremoto, graças às deusas, e tá lá fazendo um trabalho de reportagem in loco para a gente entender o que tá acontecendo.

E ela escreveu que os primeiros socorros, amiga, foram dos venezuelanos, né? Então eram pescadores, eram médicos, os venezuelanos comuns ajudando uns aos outros ali nos primeiros momentos, quando o resgate oficial ainda não chegava. Segundo as autoridades venezuelanas, 24 países já enviaram ajuda nesses últimos dias à Venezuela, com 500 toneladas de suprimento, quase 3 mil profissionais de resgate, dezenas de cães farejadores, né, que ajudam a encontrar essas pessoas que estão vivas debaixo dos escombros.

Enfim, tem bastante ajuda internacional, mas as equipes têm se concentrado em La Guaira, que é a região mais atingida ao norte da Venezuela. Por isso que algumas cidades menores, entre montanhas, mesmo que perto de Caracas, como eu falei, ainda tem esse acesso limitado às equipes de resgate. E a situação nesses lugares está dramática, né? O lado humano de uma tragédia dessa, amiga, é muito doloroso. Então é muito difícil pensar no esforço que vai ser necessário para reconstrução de um país, né, depois de uma tragédia dessa magnitude.

CPCarol Pires

Amiga, e tem também a conta da destruição material, né? Quem fez uma uma conta estimada das perdas foi o Programa Nacional das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que a gente abrevia para PNUD, e eles cruzaram imagens de satélite e chegaram a uma conta de quase 7 bilhões de dólares em dano físico direto, né? Isso já é mais ou menos 6% de tudo que a Venezuela produz num ano. Então foram aí milhares de prédios danificados, 13 hospitais, e nessa conta nem entra o que vai custar de verdade a reconstrução da infraestrutura, em geral esse impacto pode ser 2, 3 vezes maior.

E aí uma coisa revoltante é que muitos dos prédios que desabaram eram de concreto quebradiço, não tinha reforço de aço adequado. Então eu li no New York Times, eles entrevistaram vários engenheiros, especialistas em desastres, que disseram que a grande maioria, se não a totalidade dos prédios, não devia ter desabado se tivessem sido construídos de forma adequada para aquela região. Então, só para estimar um pouco aí, esse, você falou do, de quem já enviou resgate, você falou aí de quem já enviou ajuda, né, financeira ou com profissionais de resgate.

Aí eu queria só fazer uma comparação de números, porque a operação que capturou Maduro em janeiro custou 206 milhões de dólares. Esse é um número que foi projetado pela Universidade de Brown, que tem um projeto chamado Custos da Guerra. Então, 206 milhões para sequestrar um presidente. Aí o Trump se gabou na semana passada de que já recuperou o valor dessa invasão em 28 vezes com a extração de petróleo venezuelano, que agora está sob controle dos Estados Unidos, de empresas norte-americanas.

Aí o Intercept dos Estados Unidos fez essa conta, né? Se ele tiver falando a verdade, o que é raridade, dá para falar que foram aí 6 bilhões em petróleo extraído pelas petroleiras norte-americanas, né? Tem que entender se esses dados do Trump estão certos, mas imagina, 6 bilhões de dólares em petróleo extraído. E aí sabe quanto eles anunciaram de ajuda humanitária? 150 milhões, menos do que foi usado no sequestro do Maduro. Aí foram pressionados e agora dobraram e anunciaram 300 milhões.

Ainda Foi mais ou menos o valor que custou o sequestro. E além de anunciar essa miséria perto do que a Venezuela vai precisar para se reerguer, né, ele parou de dizer que manda na Venezuela, porque ele tava dizendo que o país era praticamente parte dos Estados Unidos, e agora virou um não, somos grandes amigos, né, já não é ele que manda. Então quer dizer, você não pode tomar o país, lucrar bilhões de dólares em petróleo, aí quando o país desaba você vira para o lado, fala, ah não, na verdade a gente só é amigo, toma aqui uns trocados. Apesar de que não dá para esperar nada de diferente do Trump, né?

MDMarina Dias

Amiga, perfeito. E vou aproveitar para engatar uma análise que eu queria fazer nesse momento político delicado, como você está explicando, porque eu acho que essa é a hora que essa nova relação Estados Unidos e Venezuela vai ser colocada à prova de todas as maneiras, né? Então, tanto ajuda imediata de resgate e abastecimento do país, como ajuda para reconstrução da Venezuela. Da infraestrutura e mais uma vez na questão de política e economia, a gente vai entender como então vai se dar essa dinâmica Venezuela e Estados Unidos daqui para frente, quando os americanos, a gente sabe, têm interesse profundo no petróleo venezuelano.

Para além disso, existe algum interesse do governo Trump na Venezuela? O governo americano neste momento está mandando as equipes de resgate para ajudar a Venezuela e tentando passar uma imagem de mais solidariedade do que apenas interesse comercial, depois dessas pressões e críticas, como você falou. Mas o Trump já disse várias vezes, com todas as letras, que os Estados Unidos merecem acesso ao petróleo venezuelano. É assim que ele trata, né, a riqueza de um outro país.

E sempre lembrando, amigo, um detalhe importante: além dessa ajuda ter sido muito muito aquém, né, do que está disponível nos Estados Unidos. O governo Trump desmantelou a Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional, seguindo aquela política de corte de gastos quando o Trump começou esse governo. E agora, para essas respostas a tragédias humanitárias pelo mundo, quando os Estados Unidos se propõem a ajudar, como é o caso da Venezuela, eles dependem de escritórios do Departamento de Estado que não nem metade dos recursos da agência que era feita para isso.

Tinha uma agência que todo o trabalho pessoal orçamentário era para ajudar tragédias pelo mundo. Agora isso não existe mais, né? Então, para você ver esse tipo de desorganização. E só um outro contexto na Venezuela antes deste terremoto, né? A gente sabe que desde que o Maduro foi capturado, a situação da crise econômica na Venezuela não melhorou. Como muita gente esperava, com a promessa de mais investimento dos Estados Unidos no país, na verdade a situação ali não evoluiu muito.

E também a questão da transição democrática, que foi uma promessa de eleição, enfim, isso está sendo planejado, mas não existe uma timeline, um calendário muito definido. Então, os Estados Unidos tiraram algumas sanções sobre a Venezuela, reabriram a embaixada em Caracas, mas um calendário de transição democrática e uma melhora econômica não aconteceram. E muitos críticos dizem que é porque Trump, na verdade, ele só se interessa pelo petróleo mesmo na Venezuela, ele não quer nada mais.

Então foi o que você disse, eu mando na Venezuela a partir do momento que o país está ferrado, não, eu não mando mais, aí eu só ajudo e ajudo um pouquinho, né. Então essa seria, para os especialistas mais otimistas, a oportunidade dos Estados Unidos mostrarem que estão interessados para além do comercial, né? Será?

CPCarol Pires

Não é a primeira vez que o Trump trata uma tragédia, né, num país latino-americano desse jeito, com total desdém. Em 2017, amiga, em Porto Rico teve o furacão Maria, que devastou o país. Porto Rico, que é território norte-americano, e Porto Rico ficou meses no escuro, meses. Caiu toda a rede elétrica e eles ficaram sem hospital, sem refrigeração, sem água potável. E aí o Trump, na época, era presidente, que ele tava no primeiro mandato, E aí ele foi lá prestar solidariedade, amiga.

Ele ficou jogando rolo de papel toalha assim, ó, para as pessoas, como quem joga camiseta em show, sabe? As pessoas sem água, sem luz, sem remédio. Vou achar esse vídeo, colocar aqui. Outra coisa que você falou, que ele acabou com essa agência. Então como é que Eles também estão enviando ajuda humanitária. Eles estão canalizando as ajudas via uma organização da diáspora venezuelana em Miami, que são os opositores do regime venezuelano, né, quem fugiu do regime chavista e tá em Miami.

São pessoas que têm muito dinheiro e por isso muita influência política. A quem vamos lembrar que o Trump prometeu para essa turma tirar o Maduro e acabar com o regime chavista, mas ele tirou o Maduro e manteve o regime. Cuideu-se, né? Mas de qualquer forma, ele tá mandando a ajuda para lá para chegar na Venezuela em nome dessa oposição. Só que dentro da Venezuela também tá rolando essa briga por quem vai capitalizar a tragédia, né?

Então, até numa das reportagens que eu li no New York Times, é, o repórter deles em Caracas flagrou uma cena surreal, que era a oposição, que é do partido da Maria Corina Machado, a Nobel da Paz, que ofereceu o Nobel para o Trump, é, eles montaram pontos de coleta de fralda, água, né, roupa para as vítimas. E aí a Polícia Nacional chavista foi lá fechar esse centro dizendo que toda doação tinha que passar pelo governo e que eles não podiam colocar uma placa escrito centro de doação, porque essa palavra era reservada para os pontos oficiais, como se a palavra doação fosse uma marca registrada do governo.

E aí, por que que essa briga, né, importa tanto? Exatamente como você tava falando, porque o que tá em jogo é quem fica no poder, né? Então a Deucy tá lá instalada pelos Estados Unidos com a promessa de que um dia vai ter eleição de verdade. Como você falou, não tem uma timeline de quando essa eleição aconteceria, né? Mas a gente tem que acompanhar se ela vai usar o terremoto ela e o Trump, enfim, para empurrar essa eleição com a barriga, né?

Agora não dá, estamos numa emergência. E entender se essa briga pelo título de salvador da Venezuela, né, quem que vai capitalizar isso na eleição, se é que vai ter eleição.

MDMarina Dias

Perfeito, amiga. Acho que é isso, são os pontos para a gente ficar de olho a partir daqui.

CPCarol Pires

Nos vemos quinta. Nos vemos quinta.

MDMarina Dias

Beijos.

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